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24 de agosto de 2019

Fim de ciclo para a Team Wiggins

(Fotografia: Facebook Team Wiggins)
A Team Wiggins prepara a sua despedida do ciclismo. Depois de cinco anos fecha-se um ciclo de uma equipa que nasceu para ajudar Bradley Wiggins e companheiros a prepararem os Jogos Olímpicos, na busca pelo ouro na prova de perseguição colectiva (pista) e que deu depois o passo para formar jovens talentos. No entanto, sem grande justificação, a estrutura é mais uma a fechar portas na Grã-Bretanha, que no ano passado já tinha perdido duas das suas equipas Continentais.

"Depois de cinco anos fantásticos, os responsáveis pela equipa tomaram a decisão que a operação chegou à sua natural conclusão", lê-se num curto comunicado. O objectivo inicial foi cumprido, pois Wiggins ganhou a sua quinta medalha olímpica ao sagrar-se campeão com os restantes colegas, no Rio de Janeiro. Com Wiggins a retirar-se, a formação passou a ser o plano principal e a equipa viu ciclistas seus dar o salto para o World Tour: Owain Doull e Chris Lawless (Ineos), James Knox (Deceuninck-QuickStep), Scott Davies (Dimension Data), Mark Donovan (Sunweb) e Corentin Ermenault (Vital Concept). E a lista vai crescer.

Gabriel Cullaigh já assinou pela Movistar para as próximas duas temporadas. Este sprinter de 23 anos até deixou a sua marca por Portugal, ao ganhar três etapas na Volta ao Alentejo, duas em 2018 e uma este ano. James Fouché poderá ser o próximo. Já está a estagiar na Mitchelton-Scott e tem o perfil para encaixar perfeitamente numa equipa agora virada para as provas por etapas. O neozelandês de 21 anos mostra qualidade para clássicas com algumas subidas (foi segundo em 2018 e quinto em 2019 na Clássica da Arrábida), mas tem demonstrado evolução nas provas de uma semana. Venceu a classificação da montanha na Volta ao Alentejo, comprovando que a Team Wiggins gostava de passar por Portugal no início de época. Fouché Tem a particularidade de ser o campeão nacional de fundo em elite e o de sub-23 em contra-relógio.

A estrela da equipa chama-se Tom Pidcock, um dos miúdos maravilha do ciclismo. Tem 20, é um puro talento do ciclocrosse e na estrada também já vai somando vitórias e boas exibições. Não tem pressa de chegar ao World Tour, mas o final da Team Wiggins poderá precipitar este passo. Pretendentes não faltam para contratar este ciclista, que encara a modalidade muito ao estilo de um Peter Sagan e Matthew van der Poel. Quer fazer o que gosta, divertir-se, ser dono do seu destino, dar espectáculo e, claro, ganhar. Para ele também não há impossíveis. Está actualmente a recuperar de uma queda no Tour de l'Avenir, na qual ficou mal tratado no rosto.

A Wiggins-Le Col, como se chamou este ano, fará a sua última corrida em casa, na Volta à Grã-Bretanha, entre 7 e 14 de Setembro. Num país que em 2018 alcançou o feito de ter três ciclistas diferentes a ganhar as três grandes voltas (Chris Froome, Geraint Thomas e Simon Yates), está a verificar-se o desaparecimento de estruturas importantes ao nível Continental, com um papel importante ajudar a dar o salto dos atletas para o World Tour. Em 2018, a JLT Condor e a One Pro Cycling disseram adeus por razões financeiras.

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19 de julho de 2019

O texto que poderia ter sido escrito há oito anos

A fotografia é de 2017, quando Froome pensava a estar a caminho
de conquistar a sua primeira Vuelta, afinal, foi a segunda
(Fotografia: © La Vuelta)
Chris Froome tornou-se no primeiro britânico a conquistar uma grande volta. O projecto da Sky veio para a estrada com o objectivo de levar um ciclista daquele país ao topo do ciclismo mundial, com a Volta a França em mente. Porém, foi já em Espanha que esta equipa fez história na modalidade, com um jovem talento a superar o seu líder, Bradley Wiggins. Com o seu número um a claudicar, a equipa deu ordens a Froome para perseguir a glória e escrever o seu nome no topo do ciclismo britânico. Froome não desaproveitou a oportunidade de ouro.

Aos 26 anos, Froome demonstra ser um talentoso trepador que dificilmente ficará muito tempo a servir de gregário de Wiggins, o ciclista escolhido para liderar este projecto, que tem como objectivo máximo conquistar a Volta a França. Froome, um britânico que nasceu no Quénia, venceu uma etapa, em Peña Cabarga e a consistência nas difíceis etapas de montanha tornaram-no num ciclista difícil de bater, mesmo que parte da corrida tenha sido passada a proteger Bradley Wiggins. O britânico (31 anos) ficou a 1:26 minutos do companheiro de equipa, com outra jovem promessa a fechar o pódio.

O holandês Bauke Mollema, de apenas 24 anos, - que venceu a classificação por pontos e ficou a 1:50 do vencedor da geral - esteve perto de ganhar etapas e as suas exibições nos dias mais complicados deixam a Rabobank a sonhar alto com o talento deste ciclista, que fecha pódio naquela que foi apenas a sua terceira grande volta e uma estreia em Espanha. Também Froome correu pela primeira vez na Vuelta (quarta grande volta), que pode muito bem ter assistido ao nascimento de dois grandes corredores.

O melhor espanhol nesta Vuelta terminou apenas na nona posição, com a distinção a pertencer a Daniel Moreno, que este ano transferiu-se para a Katusha. Moreno ficou a 5:07 minutos de Froome, tendo ganho a etapa que terminou na Serra Nevada. Depois de Mollema, todos os ciclistas ficaram a mais de três minutos e meio de Froome, numa demonstração da Sky do que poderá estar para vir na Volta a França de 2012. Esta equipa veio para marcar a diferença.

Este poderia muito ter sido um texto escrito para marcar a primeira grande conquista da Sky em 2011, naquele que era o segundo ano na estrada da equipa britânica. Então Juan José Cobo foi o autor de um conto de fadas. Um ciclista, pouco conhecido, de uma equipa Profissional Continental - a também espanhola Geox-TMC Transformers -, fez a exibição de uma vida e conquistou a Vuelta. Pouco mais alcançou na carreira, mas aquele triunfo marcou a carreira do espanhol e a própria história da corrida.

Oito anos depois, o conto de fadas acabou em pesadelo. A UCI suspendeu o espanhol por três anos por irregularidades encontradas no passaporte biológico, considerando que o antigo ciclista violou o regulamento anti-doping entre 2009 e 2011. Cobo tinha um mês para recorrer da decisão. Segundo a UCI não o fez, pelo que a suspensão entra em vigor e Cobo perde a vitória na Vuelta. O organismo confirmou a nova classificação que atribui o triunfo na geral a Froome, Wiggins passa para segundo e Mollema já pode dizer que tem um pódio numa grande volta. Cobo tinha vencido a 15ª etapa, no Anglirú, triunfo que passa agora a pertencer a Wout Poels, holandês que está na Ineos, mas que em 2011 representava a Vacansoleil-DCM.

A UCI publicou os resultados actualizados que podem ser consultados neste link. A consequência maior é a perda de resultados, pois a suspensão nada afecta Cobo, que terminou a carreira em 2014 e está afastado da modalidade.

Chris Froome, que está a recuperar da grave queda que sofreu no Critérium du Dauphiné, escreveu no Twitter que "mais vale tarde do que nunca", acrescentando que foi uma Vuelta com "memórias muito especiais". Já Dave Brailsford, director da agora Ineos, ficou satisfeito por ter sido reposta a verdade desportiva, mas admite que não sente que aquela Vuelta tenha sido a primeira grande conquista da equipa britânica, pois afinal não houve celebrações.

Porém, a história foi mesmo reescrita. Já não é Bradley Wiggins o primeiro britânico a vencer uma grande volta, é Chris Froome, que passa agora a contar com quatro Tours, duas Vueltas e um Giro. Para a Sky/Ineos significa que são nove vitórias em grandes voltas nos dez anos que está na estrada.

Quanto ao texto que poderia ter sido escrito há oito anos, Froome confirmou que era de facto um enorme talento e já está entre os principais voltistas da história do ciclismo. Já Mollema foi uma promessa constantemente adiada e, aos 32 anos, já não se espera uma confirmação tardia, ainda que seja um ciclista de inegável qualidade.

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10 de julho de 2019

A subida onde Froome começou a escrever a sua história no Tour

(Imagem: Print screen)
La Planche des Belles Filles é uma daquelas subidas que marca a Volta a França. Tornou-se numa de referência e aos poucos vai ganhando estatuto de mítica, mas ainda não chegou lá. E por uma simples razão. Apesar de já ter sido palco de grandes momentos de ciclismo, La Planche des Belles Filles só surgiu pela primeira vez no Tour em 2012. Logo em grande! Este ano irá marcar a primeira batalha na alta montanha entre os candidatos, ainda que não vá contar com o ciclista que começou a construir o seu estatuto de fantástico voltista precisamente nesta difícil ascensão: Chris Froome.

Foi naquele ano e naquela subida que a Sky, actual Ineos, arrancou para o domínio na Volta a França. Froome, o gregário, levou Bradley Wiggins, até ao topo, numa demonstração de força que Wiggins nunca esquecerá, pois podia ser o líder, mas não era o mais forte da equipa. Froome bem queria arrancar, colocava-se à frente do seu companheiro, mostrando estar muito melhor, muito mais confortável. Cumpriu a sua função de fiel escudeiro, mas nos metros finais arrancou mesmo para ganhar a etapa. Wiggins foi terceiro, a dois segundos do colega, atrás de Cadel Evans (BMC). Nesse dia, 7 de Julho (sétima etapa), Wiggins vestiu a camisola amarela que não mais largaria até Paris. Naquele dia, Froome deixou escrito que não havia volta a dar: ia ser o grande líder da Sky e do Tour. O resto é história. Já lá vão quatro conquistas, sete etapas, mas a aparatosa queda no reconhecimento no contra-relógio do Critérium du Dauphiné afastou-o da corrida de 2019 e do ciclismo por vários meses.

Em 2017, Froome voltaria a fazer de La Planche des Belles Filles um local marcante. Não ganhou, foi terceiro, mas vestiu uma camisola amarela que só não levou até ao fim porque Fabio Aru - que até foi quem venceu naquela subida - quis algum protagonismo durante dois dias, antes de Froome tomar definitivamente conta das operações.

Neste vídeo, Froome recorda o momento especial daquela vitória de 2012 (texto continua por baixo).



Curiosamente, a subida que tanta alegria deu à Sky, também acabou por marcar a carreira de Vincenzo Nibali, então na Astana. Foi ali, em 2014 que venceu a etapa, a 10ª, a 14 de Julho, vestindo a amarela que não mais perdeu. No dia antes, Tony Gallopin tinha dado uma alegria aos franceses ao vestir o símbolo de líder do Tour, mas o italiano recuperou-o e La Planche des Belles Filles acabaria por ser o início da conquista da Volta a França que tornou Nibali num dos poucos a vencer as três grandes voltas.

Que história se escreverá em 2019, na sexta etapa? Segundo Christian Prudhomme, director do Tour, este ano será ainda mais difícil, já que haverá um quilómetro extra na subida da região de Vosges. Ou seja, serão cerca de sete, a 8,7% de pendente média, mas na parte final ultrapassa os 20%!

O pelotão irá chegar aos 1140 metros de altitude, numa chegada em alto que é aguardada com expectativa precisamente pela ausência de Froome. Com os adversários da Ineos a esperarem que a equipa britânica sinta a falta do seu capitão e com algumas diferenças a já terem sido feitas, principalmente no contra-relógio colectivo, há quem não possa ser demasiado conservador para recuperar segundos. São os casos de Nairo Quintana e Mikel Landa (Movistar), Romain Bardet (AG2R) e Richie Porte (Trek-Segafredo), mas também de Adam Yates (Mitchelton-Scott) e do próprio Nibali (Bahrain-Merida), por exemplo.

Porém, a sexta etapa não se fará apenas da La Planche des Belles Filles, pois até lá haverá muita montanha para desgastar os ciclistas. Só na partida haverá uns metros planos para aquecer! Ao todo serão três primeiras categorias, duas segundas e duas terceiras em apenas 160,5 quilómetros. Sobe e desce constante - e atenção que as diferenças também poderão ser feitas nas descidas - esperando-se para ver se a Ineos vai querer fazer da "subida de Froome" novamente um momento impulsionador para conquistar um Tour. Com Geraint Thomas ou Egan Bernal? Não restam dúvidas que muito se quer ver como estão os líderes da equipa, com especial atenção ao prodígio colombiano.



Diferenças entre os candidatos à geral

Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep) mantém a camisola amarela, mas no que diz respeito em vesti-la em Paris, na última etapa, são estes os principais candidatos, com Steven Kruijswijk a ser o que melhor está na classificação. Exclui-se Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) da lista, pois perdeu mais tempo na geral e já está a 12:38 minutos.

3º Steven Kruijswijk (Jumbo-Visma), 18:44.37
6º Egan Bernal (Ineos), a 15 segundos
8º Geraint Thomas (Ineos), a 20
8º Enric Mas (Deceuninck-QuickStep), a 21
12º Wilco Kelderman (Sunweb), a 26
13º Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), a 27
14º Rigoberto Uran (EF Education-First), a 28
21º Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), a 36
23º Adam Yates (Mitchelton-Scott), a 41
25º Jakob Fuglsang (Astana), a 41
29º Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe), a 46
35º Daniel Martin (UAE Team Emirates), a 1:03
37º Nairo Quintana (Movistar), a 1:05 minutos
39º Mikel Landa (Movistar), a 1:05
43º Richie Porte (Trek-Segafredo), a 1:18
46º Romain Bardet (AG2R), a 1:19
53º Fabio Aru (UAE Team Emirates), a 1:54 minutos
54º Guillaume Martin (Wanty-Groupe Gobert), a 1:58

Classificações completas após a quinta etapa, via ProCyclingStats.

Peter Sagan picou o ponto

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Num dia com montanha para aquecer os ciclistas da geral para esta quinta-feira, a Bora-Hansgrohe e a Sunweb puderam ainda assim tomar conta das operações, controlando o ritmo nas subidas de terceira e segunda categoria (duas de cada) para que Peter Sagan e Michael Matthews discutissem a etapa sem a interferência dos chamados sprinters puros. Assim foi.

Rui Costa (UAE Team Emirates) ainda obrigou a trabalho extra na perseguição, quando os seis quilómetros finais ganhou alguma vantagem, mas foi apanhado pouco depois. Sagan foi desta feita poderoso e talvez por isso tenha recuperado a sua celebração ao estilo Hulk. Deixou literalmente atrás de si um Wout van Aert (Jumbo-Visma) cada vez mais confiante no sprint e o campeão europeu Matteo Trentin (Mitchelton-Scott). A Sunweb que foi quem mais trabalhou, viu Matthews falhar por completo o sprint, terminado apenas na sétima posição, o que o levou também a perder contacto com Sagan na luta pela camisola verde. Mas ainda falta muito Tour... 47 pontos separam os ciclistas.


E já lá vão 12 etapas na Volta a França para Peter Sagan, que só não venceu em 2014 e 2015. Aos poucos, Sagan regressa à versão a que acostumou todos depois de um 2019 muito abaixo das expectativas até ao Tour.




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13 de junho de 2019

Após seis horas de cirurgia Froome só pensa em recuperar e pode ter ganho mais uma grande volta

(Fotografia: © Team Ineos)
Chris Froome jamais esperaria estar a ser notícia por estas duas razões nas últimas 24 horas. Primeiro, o mais importante, já que se refere ao estado de saúde do ciclista. Foi operado, está bem e já a pensar em todas as possibilidades de reabilitação. Segundo, Froome pode ter ganho mais uma grande volta. Até será a sua primeira! Juan José Cobo foi suspenso pela UCI por irregularidades no passaporte biológico entre 2009 e 2011, ou seja, perde os resultados dessas três épocas, incluindo a Volta a Espanha.

O espanhol, agora com 38 anos, ainda pode recorrer para o Tribunal Arbitral de Desporto, como a própria UCI realçou no comunicado hoje divulgado. "O Tribunal Anti-Doping considerou o ciclista retirado de violar uma regra anti-doping (uso de substâncias proibidas) baseado em anormalidades detectadas no passaporte biológico entre 2009 e 2011 e impôs uma período de inelegibilidade ao corredor de três anos", lê-se. De referir que o Tribunal Anti-Doping é um organismo da UCI, ainda que seja independente.

O site Ciclo21 explica que a análise do passaporte de Cobo por parte de responsáveis da UCI levantou suspeitas e foram efectuadas novas análises, nas quais foram detectadas uma substância dopante, não especificada. No site lê-se que não se trata de valores anómalos que podem acontecer em caso de algum tratamento médico, o que leva a que seja considerado um teste positivo. De recordar que a prescrição na reanálise de amostras ou do passaporte biológico só acontece ao fim de dez anos.

Como foi dito, Cobo pode ainda recorrer e tem um mês para o fazer. Se não o fizer ou se for dada razão à UCI, então o espanhol ficará mesmo sem Volta a Espanha de 2011 a sua grande conquista da carreira. Aquela vitória de Cobo foi uma das maiores surpresas dos últimos anos, ainda mais com o ciclista a estar então numa equipa Profissional Continental: a Geox-TMC Transformers.

Foi uma corrida de grande espectáculo, nos primórdios da Sky, então ainda sem vitórias em três semanas. Bradley Wiggins era o líder e um jovem Chris Froome o escudeiro. Porém, o líder começou a perder tempo, mas a equipa demorou a dar liberdade a Froome. Acabou por o fazer, mas já foi tarde de mais. O britânico perdeu a Vuelta por 13 segundos.

O resto é história. Wiggins ganhou o Tour no ano seguinte, Froome ganhou quatro, um Giro e uma Vuelta, esta em 2017. Porém, a história poderá ser rescrita. A confirmar-se a atribuição da vitória na Vuelta de 2011 a Froome, então o ciclista passará a ser o primeiro britânico a conquistar uma grande volta e não Wiggins. Também será a sua primeira grande conquista em três semanas e não o Tour de 2013 e somará sete ao todo.

Wiggins ficará com o segundo lugar nessa Vuelta, com Bauke Mollema a conseguir assim o seu primeiro pódio numa grande volta. E o holandês foi primeiro a reagir com um brinde.

Ao vencer aquela Vuelta, Cobo foi contratado pela Movistar, mas nunca mais esteve perto do nível apresentado naquelas 21 etapas. Conquistou ainda a etapa do Anglirú, que pode agora perder para Wout Poels, ciclista que apesar de ser da Ineos (ex-Sky), estava na Vacansoleil-DCM. Cobo manterá no currículo o triunfo na geral da Volta ao País Basco em 2007 e a etapa na Volta a Portugal no ano seguinte, na Senhora da Graça. Depois de duas épocas na Movistar sem resultados, Cobo foi para a equipa Continental turca Torku Şekerspor, mas 2014 foi o seu último ano de profissionalismo.

Pode ler aqui o comunicado da UCI na íntegra (em inglês).

Froome de olhos postos no futuro

Por razões óbvias, Chris Froome não reagiu à notícia, até porque será preciso esperar pela decisão de Cobo em recorrer ou não. O britânico está mais preocupado com o seu futuro, do que com o que aconteceu em 2011. Depois da queda a cerca de 60 quilómetros/hora no reconhecimento do contra-relógio de quarta-feira do Critérium du Dauphiné, o ciclista foi operado, numa intervenção cirúrgica que durou seis horas. A Ineos confirmou que Froome tem fracturas no fémur, no cotovelo e em algumas costelas.

O ciclista está nos cuidados intensivos do Hospital de St. Etienne e vai ficar mais uns dias sob observação, segundo explicou o médico da equipa, Richard Usher. Mas Froome já está a pensar em como poderá recuperar. "Ele está activamente a discutir as suas opções de reabilitação, o que é muito encorajador", disse Richard Usher.

Froome pediu para agradecer as muitas mensagens de apoio que tem recebido e nos próximos dias ele próprio irá divulgar um comunicado. Para já, começa um processo de recuperação ainda sem qualquer previsão para quando poderá regressar à competição. Certo é que a luta por uma eventual conquista da quinta vitória no Tour fica adiada.

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12 de dezembro de 2018

Sky deixa de patrocinar equipa após 2019. O fim de uma era?

(Fotografia: Facebook Team Sky)
Patrocinadores eternos no ciclismo é algo utópico. Há alguns de longa data, a Lotto (belga), a Quick-Step, a FDJ, mas nada dura para sempre, mesmo que se fale de um nome como a Sky. Com a renovação de cinco anos de Egan Bernal, ou a de três anos de Geraint Thomas, apesar das mudanças na estação televisiva, parecia que o futuro próximo estaria garantido. Esta manhã, tudo mudou. De repente, começa-se a pensar se se está perante o fim de uma era.

A Sky vai deixar de patrocinar a equipa no final de 2019 terminando assim com uma ligação de uma década, que se transformou numa estrutura toda poderosa, provocando sentimentos de amor/ódio. Por um lado foi uma equipa que revolucionou o ciclismo, com os chamados "ganhos marginais", trazendo novos métodos, novas tecnologias, tudo pensado ao mais ínfimo pormenor e as vitórias alcançadas, principalmente as oito grandes voltas conquistadas, demonstram o sucesso da Sky.

Por outro lado, as desconfianças alimentadas pelos casos do "pacote suspeito" de Bradley Wiggins e do uso de salbutamol de Chris Froome, não ajudaram à imagem da equipa. E, depois, há a forma como passou a dominar o Tour, com o seu estilo controlador, sem que ninguém tenha até agora encontrado a solução para o quebrar. Uma forma de correr que retirou algum espectáculo à corrida - não é a única razão -, originando algumas críticas e desgosto, principalmente entre os franceses. Contudo, ninguém pode argumentar que não é o estilo mais acertado, dado os resultados.

No comunicado e na carta aberta aos fãs, fica a garantia que a equipa quer continuar, mesmo com outro nome, iniciando-se agora o processo que bem se conhece de procurar um novo patrocinador. "Enquanto a Sky irá seguir o seu caminho no final da próxima época, a equipa está de espírito aberto quanto ao futuro e à hipótese de trabalhar com um novo parceiro, caso a oportunidade certa surja", afirmou o director Dave Brailsford. Porém, entre o querer e a realidade, poderá haver um abismo.

Com um orçamento acima dos 30 milhões de euros, o mais alto do World Tour, a Sky tem-se dado ao luxo de basicamente escolher quem quer para a equipa, não dando hipótese à concorrência quanto a ofertas monetárias. Se quer um ciclista, só se este recusar é que não o contrata ou mantém na equipa. Haverá alguém com esta capacidade financeira para a Sky manter esta postura dominadora? Ou melhor. Haverá alguém interessado em investir tanto dinheiro numa equipa que não está isenta de suspeitas? Há que referir ainda que a equipa anunciou também a saída da 21st Century Fox, que tinha uma expressão menor, mas tinha.

Em Setembro foi confirmado que a Comcast adquiriu a Sky, num negócio que rondou os 33 mil milhões de euros. Este projecto de ciclismo teve James Murdoch, filho do magnata Rupert Murdoch, como um dos seus principais impulsionadores. Quando deixou o cargo de director executivo da Sky e da 21st Century Fox, logo se falou da possibilidade da longa ligação poder terminar. No entanto, com Jeremy Darroch, director do grupo, a ser também um dos mentores da equipa, o futuro pareceu menos incerto.

O pior confirmou-se mesmo e a Sky News relatou que até Brailsford ficou em estado de choque com a notícia. O director irá agora enfrentar o enorme desafio de, em pouco tempo, encontrar um substituto que possa manter a equipa com nível elevadíssimo que apresenta. Os ciclistas, sem certeza quanto à continuidade da estrutura, vão querer respostas rapidamente, para definir o seu futuro. O caso da BMC este ano é exemplo do que acontece quando demora a aparecer um novo patrocinador: a maioria das principais figuras saíram. Brailsford tem até Junho, antes da Volta a França, para apresentar garantias.

Falta também saber se o investimento de um eventual novo patrocinador, ou patrocinadores, for inferior ao actual, será que Brailsford quererá manter o projecto na estrada em moldes diferentes ao que está habituado? Estamos a falar de alguém que começou logo em grande, com uma ambição que se pensou ser demasiada e que nunca se contentou com algo menos que não fosse ser o melhor e o mais poderoso.

O projecto que parecia aspirar a muito em tão pouco tempo - o objectivo foi desde o primeiro momento colocar um britânico a vencer o Tour - dez anos depois, a ambição quase parece ter sido pequena, pois a Sky colocou três britânicos a vencer a Volta a França (Wiggins, Froome e Thomas) e um a ganhar o Giro e a Vuelta (Froome), além de muitas mais vitórias de nível, que fazem desta equipa que marcou profundamente a história da modalidade, aconteça o que acontecer em 2019.

Sendo uma referência do ciclismo, tal não significa que a missão de encontrar um novo patrocinador, ainda mais do mesmo calibre, seja mais fácil. Todas as dúvidas criadas com os casos de Wiggins e Froome podem revelar-se um peso grande, mesmo tendo sido ambos arquivados, pois nenhum patrocinador quer ver o seu nome relacionado com doping, nem sequer com tanta desconfiança. Mesmo que Brailsford encontre um patrocinador forte, se houver redução de orçamento e o responsável prossiga com o trabalho até agora realizado, também haverá uma nova forma de gerir a equipa.

Egan Bernal, Tao Geoghegan Hart, Pavel Sivakov, Jonathan Narvaéz e em princípio também Iván Ramiro Sosa foram todos ciclistas contratados a pensar na era pós-Froome e Thomas. Porém, o que vai se vai assistir é ao início de uma nova novela na Sky, inesperada, mas que poderá mudar novamente a face do ciclismo. Será mesmo o fim de uma era? Haverá várias equipas muito atentas ao que se irá passar nas próximas semanas, ou mesmo meses, na Sky.

Pode ler aqui a carta aberta dirigida aos fãs da Sky (em inglês).

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4 de dezembro de 2018

Última Ceia na versão ciclismo

(Imagem: © David Law/Hommage au Vélo)
Estamos naquela fase do ano em que há um autêntico bombardeamento de sugestões de prendas de Natal para os amantes de ciclismo. Equipamentos, sapatos, ciclocomputadores, ou algo diferente como uma almofada a dizer Tour de Sofá! Não é fácil encontrar-se algo original, mas quando se vê uma Última Ceia com Peter Sagan no lugar de Jesus Cristo e um Lance Armstrong no de Judas, com outros grandes nomes da modalidade a ocuparem os lugares dos restantes apóstolos, é algo que dificilmente poderia passar despercebido.

A primeira coisa que se pensa é que o ciclismo é como uma religião para muitos e esse foi precisamente um dos aspectos em que se inspirou o autor, David Law, dono da Hommage au Vélo. "[Escolhi] a Última Ceia porque queria misturar a religião com o ciclismo. Muitas pessoas vêem o ciclismo como algo quase religioso, uma experiência religiosa quando anda de bicicleta, e os fãs olham para os seus heróis do desporto como deuses. Por isso, eu quis um quadro muito famoso para ser interpretado com ciclistas", explicou ao Volta ao Ciclismo.

A escolha recaiu na obra de Leonardo da Vinci e a selecção dos corredores não foi nada ao acaso. São alguns dos grandes nomes dos últimos 20 anos e que marcaram David Law. Para o autor, no lugar de Jesus Cristo só podia estar representado Peter Sagan, por este ser um ícone moderno. O eslovaco está vestido com a camisola de campeão do mundo, que envergou durante os últimos três anos. De um lado estão os voltistas, do outro os sprinters e os homens das clássicas, que fazem então a vez dos apóstolos.

Começa-se com Vincenzo Nibali na ponta, seguindo-se Alberto Contador e Chris Froome a medir forças, como tantas vezes o fizeram na estrada até à retirada do espanhol no ano passado. Depois vem Lance Armstrong, sentado no lugar que na versão original pertence a Judas. Não são necessárias mais explicações quanto a esta escolha! Ao seu lado estão os seus rivais de então, Jan Ullrich e Marco Pantani.

Do outro lado da mesa, vê-se Mario Cipollini a ver uma Playboy. Segue-se Mark Cavendish com o equipamento da HTC, equipa na qual viveu a melhor fase da sua carreira. Fabian Cancellara está a ler um guia de engenharia mecânica, numa alusão às suspeitas que recorreu a um motor na bicicleta para ganhar a Volta a Flandres em 2010. David Law considera que ninguém pode acreditar que tal foi verdade, sendo apenas uma piada a quem teima em reavivar essas suspeitas.

Bradley Wiggins fica do lado dos homens das clássicas e não dos voltistas, apesar de ter ganho o Tour. Como para Law não é segredo que o britânico teria optado por este tipo de corridas se tivesse tido essa escolha, então o seu lugar é naquele lado da mesa a olhar para um dos maiores especialistas: Tom Boonen. O belga aparece com o equipamento de campeão nacional, numa animada celebração porque afinal sempre gostou de um bom champanhe. A fechar está mais uma lenda belga do pavé: Johan Museeuw.

Mais um pormenor é o cenário. As bicicletas, as camisolas, mas, olhando pelas janelas, é o Mont Ventoux o local representado. "É simplesmente a subida mais famosa na Volta a França. Queria situar a ceia num local que fosse icónico para o ciclismo e penso que o Mont Ventoux é esse sítio", explicou.

A pintura está à venda no site da Hommage au Vélo (que pode ver neste link). Pode-se escolher com moldura ou sem moldura e nos tamanhos 30x60 cm ou 50x100. O preço varia entre as 75 e as 250 libras (cerca de 84 e 280 euros).


21 de outubro de 2018

Campenaerts quer bater recorde da hora de Bradley Wiggins

Desde que Bradley Wiggins estabeleceu a marca da hora em 54.526 quilómetros que o interesse neste recorde esmoreceu, depois de num curto espaço de tempo vários ciclistas de renome terem tentado e alguns conseguido estabelecer novas distâncias. Porém, o registo do britânico está a provar ser de muito respeito e das poucas tentativas que se seguiram, ninguém sequer se aproximou. Alex Dowsett é um eterno candidato a tentar recuperar o estatuto que foi dele durante pouco mais de um mês, mas já lá vão três anos e o britânico não concretizou as suas pretensões de fazer nova tentativa. Agora aparece um nome, esse sim, parece estar mesmo determinado em ir atrás do recorde de Wiggins: Victor Campenaerts.

O bicampeão europeu de contra-relógio surpreendeu um pouco com o terceiro lugar nos Mundiais. Perante um percurso com tantas dificuldades, Campenaerts, 26 anos, fez quase o contra-relógio da sua vida, só batido por provavelmente o maior especialista da actualidade, Rohan Dennis, e o campeão do mundo de 2017, Tom Dumoulin.

O belga da Lotto Soudal não está só a falar em tentar bater o recorde da hora, já começou a fazer alguns testes. "Pedalei a uma média de 54,8 quilómetros por hora e nas últimas quatro voltas cheguei aos 60 quilómetros por hora para ver o que sobrava de energia", explicou Campenaerts ao Het Nieuwsblad. Pormenor importante: este teste teve a duração de meia hora. "Sei que 30 minutos a este ritmo é muito diferente de 60 e muito terá de ser feito para de facto bater o recorde da hora", disse.

O objectivo foi mesmo testar-se, tendo escolhido o velódromo de Grenchen, na Suíça. "Antes deste teste havia duas possibilidades. Se o resultado fosse uma desilusão, então o projecto seria adiado até depois dos Jogos [Olímpicos] de Tóquio2020. Porém, obtive respostas positivas e podemos planear juntamente com a equipa para atacar o recorde da hora", referiu.

2019 poderá então ser o ano em que Victor Campenaerts entra em acção para mostrar que o marca de Bradley Wiggins não é imbatível. "Eu acho que o recorde da hora está dentro das minhas capacidades porque o Wiggins não teve a temperatura e as condições de pressão atmosférica ideais na sua tentativa", explicou o belga.

Wiggins estabeleceu o recorde a 7 de Junho de 2015, no Velo Park, em Londres. Ainda não se sabe qual será o velódromo escolhido por Campenaerts, sendo que o de Grenchen, onde realizou os testes, foi já palco de duas tentativas de sucesso: de Jens Voigt e Rohan Dennis. As duas mais recentes tentativas realizaram-se no México, no velódromo de Aguascalientes. O dinamarquês Martin Toft Madsen fez 53.630 (a 26 de Julho), enquanto o  holandês Dion Beukeboom ficou muito desiludido. Depois de quase um ano de trabalho fez "apenas" 52.757 (a 22 de Agosto). Uma das razões apontadas para ficar tão longe da marca foi precisamente que as condições atmosféricas não foram as ideais.

Entre 2014, quando Jens Voigt resolveu terminar a carreira reavivando um recorde da hora praticamente esquecido no ciclismo (fez 51.110, estabelecendo então a nova marca), e 2015 foram várias as tentativas, com Matthias Brandle, Rohan Dennis e Alex Dowsett a inscreverem o seu nome na lista. Dowsett fez 52.937 quilómetros, distância pulverizada pouco depois por Wiggins. Desde então que o interesse esmoreceu um pouco entre as principais figuras do contra-relógio mundial, apesar das tentativas terem prosseguido com ciclistas menos mediáticos.

O treinador de Dowsett, Steve Collins, sempre considerou que a tentativa de Wiggins foi ilegal pois o ciclista teve direito a um extensor de titânio feito através da tecnologia 3D, para assentar na perfeição nos braços do ciclista. Como destacou Collins, as mais recentes regras determinam que a bicicleta tem de ser igual a qualquer outra que se possa comprar, sem especificações dedicadas a determinado corredor. Além disso, Collins acusou a federação britânica de ajudar Wiggins, quando tal também não é permitido.

Mas o recorde de Wiggins está em vigor. Enquanto Dowsett desde que perdeu o posto de recordista da hora tem dito que quer tentar novamente, Campenaerts parece ser o senhor que se segue. No entanto, são outros os nomes que se vai falando nos bastidores que se gostaria de ver tentar bater Wiggins. Mas para já, não são mais do que isso, conversas de bastidores. Tony Martin e Tom Dumoulin são dois ciclistas que encabeçam a lista, a par de Rohan Dennis. O australiano fez 52.481 quilómetros a 8 de Fevereiro de 2015, tendo depois sido batido depois por Dowsett e Wiggins. Contudo, Dennis, que já era então um dos grandes especialistas do contra-relógio, está agora ainda mais forte na especialidade, pelo que talvez volte a sentir a tentação de recuperar algo que foi dele por um curto espaço de tempo.

Há outro nome que não se pode excluir. Chama-se Mikkel Bjerg, é dinamarquês, tem apenas 19 anos e soma dois títulos mundiais de contra-relógio em sub-23. Depois de ganhar o seu segundo, resolveu tentar bater o recorde da hora do seu país e conseguiu. Fez 53.730 e, sem estar a pensar nisso, acabou por se tornar no ciclista que mais perto ficou de Wiggins. Está na Hagens Berman Axeon e talvez seja boa ideia colocar na sua lista de "coisas a fazer na carreira" tentar bater o recorde da hora.

Aqui fica a evolução do recorde da hora desde que Voigt recuperou o interesse por este desafio, já com as novas regras:
Bradley Wiggins (GB), 54.526 quilómetros - Londres (Inglaterra), 7 de Junho de 2015
Alex Dowsett (GB), 52.937 - Manchester (Inglaterra), 2 de Maio de 2015
Rohan Dennis (Aus), 52.491, Grenchen (Suíça), 8 de Fevereiro de 2015
Matthias Brändle (Aut), 51.852 - Aigle (Suíça), 30 de Outubro de 2014
Jens Voigt (Ale) 51.115 - Grenchen (Suíça), 18 de Setembro de 2014

Duas tentativas da mesma ciclista em 48 horas

Nas senhoras, depois de mais de um ano com Evelyn Stevens como recordista da hora, com 47.980 quilómetros, a italiana Vittoria Bussi tentou em Outubro de 2017 bater a marca. Falhou (47.576), mas não desistiu. Tentou novamente em Setembro deste ano. Escolheu Aguascalientes, no México, e no dia 12 já tinha cumprido 44 minutos quando resolveu baixar o ritmo e não forçar mais, ao aperceber-se que não seria possível bater a marca de Stevens.

As condições meteorológicas não eram as indicadas, mas no dia seguinte as previsões apontavam que seriam bem melhores. Bussi regressou ao velódromo para fazer 48.007. É a primeira mulher a ultrapassar a barreira dos 48 quilómetros.

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19 de setembro de 2018

O triunfo do ciclismo britânico que vai além da Sky

Os gémeos Yates disseram não à Sky, com os sucesso britânico a estar
agora além da equipa que mudou a modalidade na estrada
naquele país (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
As referências existiam. Várias conquistas importantes também, mas a Grã-Bretanha nunca tinha conseguido tornar-se num potência do ciclismo ao nível das nações mais tradicionais, como França, Itália, Espanha, Bélgica e Holanda, por exemplo. A chegada da Sky ao pelotão internacional mudou profundamente essa realidade, mas as bases do actual sucesso começaram a ser construídas muito antes e foi a aposta na pista que se mudou o ciclismo naquele país. As repercussões na estrada são estrondosas, com os britânicos a passarem de não ter vencedores em grandes voltas para quatro num espaço de sete temporadas, num total de nove classificações gerais.

Tom Simpson (década de 60) é um nome que marca o ciclismo britânico de estrada, infelizmente não só pelas melhores razões. Tem  vitórias em três monumentos (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Lombardia), uns Mundiais e foi ainda o primeiro corredor daquele país a vestir a mítica amarela do Tour, ainda que não a tenha mantido. A sua morte em pleno Mont Ventoux deu-lhe um estatuto de lenda, apesar do consumo de álcool e drogas, numa era muito diferente do ciclismo.

Nos anos 80 e 90 foi Robert Millar a referência, com dois segundos lugares na Vuelta e um no Giro. Quando Millar entrou na recta final da carreira apareceu Chris Boardman. Na Grã-Bretanha, aponta-se as grandes mudanças naquele país no ciclismo a uma conquista inesperada deste corredor. Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Boardman conquistou o ouro olímpico na perseguição individual, uma prova de pista. Tornou-se um especialista no contra-relógio e até deteve o recorde da hora. Contudo, aquela medalha de ouro, conquistada com muito trabalho, mesmo sem um apoio que hoje seria impensável não existir na Grã-Bretanha, foi a que fez com que os responsáveis iniciassem um programa que mudaria praticamente tudo no ciclismo britânico.

Nos anos seguintes a federação sofreu profundas remodelações, lutou por credibilidade de forma a garantir financiamentos e aumentou substancialmente o número de federados. Boardman tornar-se-ia uma das figuras das alterações implementadas, após terminar a carreira em 2000. Dave Brailsford seria outro dos rostos da mudança. O ciclismo britânico passaria a ser uma potência na pista e foi lá que nasceram algumas das estrelas que viriam depois a conquistar a estrada.

Mark Cavendish afirmou-se como um dos melhores sprinters da história, mas foi a chegada da Sky que abriria definitivamente o caminho do sucesso dos britânicos nas grandes voltas. Brailsford acreditava que poderia construir uma equipa forte, capaz de ganhar a Volta a França e de forma limpa. Estávamos numa fase de desconfiança, com Lance Armstrong sob suspeita, no que viria a ser confirmado como um dos maiores casos de doping organizado no ciclismo.

A Sky aproveitou o trabalho que era feito na pista e fez a passagem de ciclistas dessa vertente para a estrada, mas contratou Bradley Wiggins, um campeão olímpico na pista, já com experiência na estrada. Procurou ainda o melhor do talento estrangeiro, com uma capacidade económica que, com o passar dos anos, faz que só um não de um ciclista faça com que não contrate quem quer.

Na terceira temporada, a Sky conseguiu o seu Tour, Wiggins foi o primeiro britânico a ganhar uma grande volta e o ciclismo não mais foi o mesmo. A expressão "ganhos marginais" entrou definitivamente no léxico ciclístico e a forma dominante como encarava o Tour obrigou as restantes equipas a procurar tácticas que não têm tido muito efeito. Desde esse triunfo em 2012, só em 2014 a Sky não venceu o Tour, com Chris Froome a abandonar após queda.

Foi também em 2012 que Londres recebeu os Jogos Olímpicos e no contra-relógio todos olharam para Bradley Wiggins que cumpriu e ficou assim com ouro na pista e na estrada. A prova de fundo teve um percurso que beneficiava Mark Cavendish, mas Alexandre Vinokourov fugiu ao pelotão e o sprinter acabou até por nem terminar no pelotão. Ainda hoje é uma corrida recordada com alguma frustração, até pelo passado de doping do cazaque.

Os tentáculos da Sky foram crescendo para as outras grandes voltas e aos poucos também para as clássicas, com Wout Poels a ganhar uma Liège-Bastogne-Liège e Michal Kwiatkwoski a Milano-Sanremo. No entanto, neste tipo de corridas, ainda não apareceu a referência britânica e o no Giro e na Vuelta, Chris Froome venceu, mas a Sky não é aquela dominadora do Tour. Brailsford é tanto o mentor de um dos projectos de maior sucesso da modalidade, como um director envolto em desconfiança, mesmo que as suspeitas que surgem a acabarem por serem arquivadas, como aconteceu recentemente com Chris Froome e o caso do salbutamol ou o "pacote suspeito" de Bradley Wiggins.

Enquanto a Sky ia construindo o seu domínio, o trabalho na pista continuou, com a equipa a tentar não deixar escapar os talentos que vão surgindo. Os gémeos Yates contrariaram a tendência e disseram não à equipa. Assinaram por uma estrutura que então estava concentrada nos sprints e clássicas, mas que já tinha planos para ir mais além. Adam e Simon foram os eleitos para evoluírem dentro da então Orica-GreenEDGE (actual Mitchelton-Scott), para ali, numa equipa australiana, se tornarem uns vencedores em corridas de três semanas. Simon concretizou na Vuelta esse plano. Falta agora Adam confirmar as credenciais.

A tentação da Sky esteve sempre presente, mas os gémeos sabiam e sabem que uma mudança para a equipa britânica os atiraria para um plano diferente, numa hierarquia tão rígida que se viriam relegados a uma espera por liderança que não saberiam quanto tempo duraria. A performance no Giro, mesmo quebrando a três dias do fim e perdendo a camisola rosa para Froome, deixou a Sky (e não só) a olhar para Simon com uma vontade enorme de o contratar. Tanto ele como Adam disseram não a contratos milionários para frenovarem com quem sabem que lhes dá o estatuto máximo, ainda mais Simon que agora se tornou uma das figuras de um ciclo de ouro do ciclismo britânico.

De uma nação que não vencia grandes voltas, a Grã-Bretanha tornou-se na primeira a ganhar Giro, Tour e Vuelta no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Geraint Thomas conseguiu furar a hierarquia da Sky para vencer o Tour, sendo ele mais um medalhado olímpico na pista. A vitória de Simon Yates até pode abrir um novo capítulo na história de sucesso da Grã-Bretanha. Um capítulo em que os britânicos continuam a conquistar grandes triunfos sem ser preciso vestir o equipamento da Sky.

E tendo em conta que cada vez mais são aqueles que procuram outras equipas, até mesmo abandonando a Sky, significa que a equipa pode ser importante, mas mais ainda são  as bases criadas e que continuam a ser reforçadas. Mesmo com polémicas - suspeitas de doping, acusações de tratamento sexista - o programa britânico está a produzir campeões e campeãs ou potenciais campeões/campeãs.

Chris Froome foge à regra. É produto da estrada, queniano de nascimento e já considerado um dos melhores da história, com quatro Tours, um Giro e uma Vuelta (foi o primeiro britânico a ganhar estas duas corridas) e ainda não terá terminado. Froome é a excepção que confirma a regra.

»»A vitória da nova geração««

»»Thomas deixou cair a máscara num ano que se espera ser de mudança para o Tour««

»»A vitória mais bonita e brutal««

5 de março de 2018

Relatório provoca enorme abanão à Sky. Suspeitas de doping no Tour de 2012

Wiggins venceu o Tour de 2012,
o primeiro de cinco da Sky em seis anos
(Fotografia: William Morice/Wikimedia Commons)
O relatório é devastador e rapidamente surgiram as dúvidas se a Sky terá condições para continuar. As suspeitas não eram novas, mas o que é descrito no documento é um enorme abanão à até agora super estrutura da Sky, que agora arrisca-se a ruir. Para o comité do departamento digital, cultural, media e desporto não há dúvidas: a equipa britânica recorreu ao uso terapêutico de substâncias proibidas, não para curar problemas de saúde dos ciclistas, mas para melhorar o rendimento destes na Volta a França em 2012. Bradley Wiggins foi o vencedor, seguido por Chris Froome na segunda posição.

Esta denúncia surge pouco tempo depois do caso do "pacote suspeito" ter sido arquivado e numa altura em que Froome se debate com o excesso de salbutamol detectado numa análise realizada durante a Vuelta, que ganhou. "Pela prova recebida por este comité, acreditamos que um poderoso corticóide [triancinolona] foi utilizado para preparar Bradley Wiggins e possivelmente outros ciclistas para o apoiarem na Volta a França", lê-se no relatório, segundo o jornal The Guardian. "A intenção não era o tratamento médico necessário, mas para melhorar o equilíbrio entre força e peso a pensar na corrida. A aplicação do uso de excepção terapêutico da triancinolona por Bradley Wiggins antes da Volta a França em 2012, também significa que ele tirou proveito dos benefícios da substância para melhorar a performance durante a corrida", escreveu o comité.

É salvaguardado que ao recorrer a esta substância para alegadamente tratar o um problema de saúde não viola qualquer regra da Agência Mundial Antidopagem [AMA]. "Contudo, ultrapassou a linha ética que David Brailsford diz ter delineado para ele e para a Sky. Neste caso, e ao contrário do testemunho de David Brailsford a este comité, acreditamos que as substâncias estavam a ser utilizadas pela Sky segundo o regulamento da AMA, para melhorar a performance dos ciclistas e não apenas para o tratamento médico necessário.

Antes de mais, a triancinolona é um corticóide de acção anti-inflamatória prescrito a asmáticos. Segundo o relatório, o objectivo seria ajudar os ciclistas a perder peso, mas ajudando a que a condição física não sofresse com essa diminuição de peso. Estes usos terapêuticos (TUE, sigla em inglês para therapeutic use exemptions) permitem que os atletas possam recorrer a substâncias que são proibidas, desde que o façam para resolver uma situação clínica.

A utilização abusiva do TUE tem sido a questão levantada durante todo o processo sobre o "pacote suspeito" que Wiggins terá recebido durante o Critérium du Dauphiné em 2011. O agora ex-ciclista e Brailsford defenderam que continha um medicamento para a congestão nasal, fluimucil, mas no relatório agora divulgado, é escrito que os investigadores acreditam que a substância em causa era a triancinolona.

Bradley Wiggins reagiu através de uma mensagem no Twitter: "Considero muito triste que acusações possam ser feitas, que pessoas possam ser acusadas de coisas que nunca fizeram que são dadas como factos. Refuto veementemente a alegação que foi utilizada qualquer substância com ou sem necessidade médica. Espero que possa dizer o que tenho direito nos próximos dias e revelar o meu lado."

David Brailsford mantém-se em silêncio, mas a Sky divulgou um comunicado, no qual nega as acusações feitas no relatório: "Estamos surpreendidos e desiludidos que o comité tenha optado por apresentar desta forma uma alegação anónima e potencialmente maliciosa, sem apresentar qualquer prova ou dar-nos a oportunidade de responder. É injusto tanto para a Sky como para os ciclistas em questão." Lê-se ainda: "Levamos a nossa responsabilidade para com o desporto de uma forma séria. Estamos comprometidos em criar um ambiente na Sky, no qual os ciclistas possam competir no melhor das suas capacidades e fazê-lo de forma limpa.

Desde que surgiu em 2010 que a Sky tem sempre tentado mostrar-se como exemplo de se poder ganhar, recorrendo a um ciclismo limpo. No entanto, as suspeitas sempre existiram, mas nunca nada foi provado. A equipa britânica não pertence ao Movimento para um Ciclismo Credível, por dizer que as suas regras em relação ao doping vão mais além, que são mais rígidas. No entanto, muita tem sido a controvérsia por Chris Froome continuar em competição enquanto aguarda pela resolução do caso de salbutamol. Ciclistas, directores desportivos e o referido movimento, apelaram para que a Sky suspende-se o ciclista até ser conhecida uma decisão.

De referir que o facto do salbutamol não ser uma substância proibida, ainda que tenha limites de utilização - que Froome excedeu o dobro do permitido - faz com que o britânico possa competir enquanto prepara a sua defesa. Caso venha a ser considerado culpado, arrisca ver eliminados todos os resultados desde a Vuelta, ou seja, perderia a grande volta espanhola, assim como a medalha de bronze no contra-relógio dos Mundiais.

A equipa venceu pela primeira vez a Volta a França precisamente em 2012, fazendo parte dessa equipa, além de Wiggins (o vencedor) e Froome (o braço direito que ficou em segundo e que no ano seguinte assumiria a liderança), o sprinter Mark Cavendish, Bernard Eisel, Christian Knees, Richie Porte, Michael Rogers e Kanstantsin Siutsou. Só Froome e Knees se mantém na estrutura.

No Reino Unido muito se debate sobre a credibilidade de uma equipa que era o espelho do sucesso actual do ciclismo do país, mas que agora sofre um abanão do qual se ficará à espera de ver se é possível recuperar. Falta agora perceber que mossas poderá este relatório fazer à Sky como equipa, à Sky como patrocinador e, claro, ao ciclismo. É cada vez mais difícil tentar sacudir a água do capote.


21 de fevereiro de 2018

Conselho de Wiggins: "Não vás para a Sky no futuro. Eles vão arruinar-te"

(Fotografia: Team Wiggins)
Bradley Wiggins quer transformar a sua equipa numa de referência na formação de jovens ciclistas que acabem por rumar ao World Tour. É o próprio que admite querer seguir o exemplo da Hagens Berman Axeon de Axel Merckx. Na apresentação da Team Wiggins para 2018 houve dois destaques: a inclusão de Thomas Pidcock, um dos ciclistas que mais expectativa está a criar já muito além da Grã-Bretanha, e a declaração de Wiggins sobre a possibilidade da jovem estrela, ou outro dos seus corredores, assinar um dia pela Sky: "Não vás para a Sky no futuro, vai para outro lado. Eles vão arruinar-te."

Como se pode calcular, a frase está a ter eco em vários meios de comunicação social. Afinal estamos a falar do ciclista que foi o líder indiscutível quando a Sky surgiu, que venceu a Volta a França e até se poderia pensar que a Team Wiggins poderia servir de certa forma como um trampolim de futuros talentos para a toda poderosa equipa de Dave Brailsford. O site Cyclist salienta que a declaração foi feita em tom de brincadeira, mas, a brincar a brincar... É ainda referido que ficou claro que foi também um recado muito sério.

Wiggins foi o símbolo inicial da Sky, mas a vitória na Volta a França em 2012, o principal objectivo quando a equipa foi criada, acabou por marcar a queda de estatuto do ciclista. Chris Froome mostrou várias vezes que estava mais forte que o seu líder e deixou claro que tinha de ser o número um, rapidamente. A Sky prometeu-lhe a liderança logo para o ano seguinte, com Wiggins a tentar planos alternativos, como o Giro. Porém, a vitória na Volta a Califórnia em 2014 soube a pouco, mas o título mundial de contra-relógio nesse mesmo ano soube certamente bem melhor, até porque meses depois acabou por deixar a Sky.

Claro que se volta sempre ao famoso caso do pacote entregue ao ciclista durante uma corrida, quando estava na Sky. O caso foi arquivado, mas ajudou, e de que maneira, a aumentar as suspeitas em redor de uma equipa que colocou no léxico ciclístico a expressão "ganhos marginais".

Owain Doull e Jonathan Dibben são dois ciclistas que foram para a Sky após uma passagem na Team Wiggins. Já se fala de Pidcock poder ser o próximo. É um autêntico prodígio de 18 anos, que soma camisolas de campeão nacional, europeu e mundial no ciclocrosse, mas também já tem títulos na estrada, sendo o campeão do mundo de juniores em contra-relógio. Já foi visto a treinar uma vez com a Sky, ainda que o jovem tenha dito que foi uma coincidência.

É difícil não ver a frase de Wiggins como um recado, ou mesmo um aviso, bem explícito. Porém, o antigo ciclista, que chegou a competir pela sua equipa até terminar a carreira em 2016 - agora está a dedicar-se ao remo - não compareceu na conferência de imprensa marcada para após a apresentação dos 17 jovens da Team Wiggins. Ficaram umas questões por fazer...

Além da frase sobre a Sky e dos elogios ao trabalho de Axel Merckx - Wiggins espera que a sua formação possa também começar a colocar muitos ciclistas no World Tour -, o antigo corredor, agora com 37 anos, afirmou que quer recuperar uma identidade do ciclismo: a proximidade com os fãs. Wiggins não quer os ciclistas "escondidos" em autocarros, quer que sejam vistos pelas pessoas, que estas possam conversar com eles. E lá saiu mais um recado em que não é preciso muito para perceber a quem se referia: "Vejam a maior equipa do mundo neste momento. Não é muito popular."

Wiggins realçou: "É tudo sobre os medidores de potência e os fatos. Quero regressar ao tempo em que encontravas o Bernard Hinault a vestir-se na parte de trás do carro. Longe vão os dias em que o patrocinador mete seis milhões de libras [cerca de 6,8 milhões de euros] só para aparecer na televisão!"

De recordar que a Team Wiggins tem presença prevista para a Clássica da Arrábida, no dia 11 de Março.