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19 de novembro de 2019

Contraste de emoções na época da Lotto Soudal

(Fotografia: © Photo News/Lotto Soudal)
No ano pós-Greipel, no que diz respeito aos sprints a Lotto Soudal encontrou um sucessor que não demorou a dar garantias de vitórias e que mostrou que estava mesmo preparado para ir à Volta a França. Caleb Ewan é uma certeza nesta especialidade. Quanto às clássicas, foi uma época aquém, não ajudando que Tiesj Benoot continue a ser regular entre os primeiros, mas não consegue terminar com mais vitórias. Tim Wellens cumpriu e a Lotto Soudal tinha razões para estar satisfeita com a sua temporada, pois também via um dos seus jovens aparecer cada vez melhor. Bjorg Lambrecht estava em fase de afirmação e a sua morte marcou inevitavelmente a equipa.

O acidente aconteceu em Agosto, na Volta à Polónia e deste então que a Lotto Soudal teve de garantir que os seus ciclistas lidassem com uma situação de perda de um jovem de apenas 22 anos, um companheiro de equipa e para alguns também um amigo. Lambrecht estava a evoluir nas provas por etapas e era uma das esperanças belgas para ser uma figura entre a nova geração que está a a despontar no ciclismo. Venceu a classificação da juventude no Critérium du Dauphiné, o que deixou a equipa a pensar que poderia em pouco tempo ter um ciclista que pudesse apostar além de Tim Wellens, com Lambrecht a poder pensar mais nas gerais das grandes voltas do que o que faz o compatriota.

Estes planos foram tragicamente interrompidos, após uma temporada de sucesso para a Lotto Soudal. Porém, a Vuelta traria para a ribalta um ciclista desta equipa. Carl Fredik Hagen foi contratado à Joker Icopal do escalão Continental e, agora com 28 anos, acabou por ser uma das revelações de 2019. Foi fazendo boas exibições durante a temporada, inclusivamente no Critérium du Dauphiné e antes na Volta à Romandia, por exemplo

Talvez por a Lotto Soudal ser uma equipa que tendencialmente aposta na procura por vitórias de etapas, Hagen não foi muito valorizado quando entrou no top dez na 13ª etapa. No entanto, as exibições foram subindo de nível com o passar da Vuelta, terminou na oitava posição e agora vai ser certamente mais valorizado!
Ranking: 9º (8741,94 pontos) 
Vitórias: 23 (incluindo duas etapas no Giro e três no Tour) 
Ciclista com mais triunfos: Caleb Ewan (10)
Hagen poderá ser homem para geral, enquanto Wellens prefere as provas de uma semana e perseguir as etapas nas grandes voltas. Cinco vitórias em 2019 e o belga continua a ser uma garantia de bons resultados. Tal como Thomas de Gendt. Mais uma daquelas vitórias ao estilo como este ciclista tanto gosta. Um ataque no momento certo e uma capacidade enorme de fazer autênticos contra-relógios a manter toda a concorrência longe, é a receita de sucesso deste enorme corredor. Porém, fica a sensação que esta ideia de tentar bater o recorde do companheiro Adam Hansen de participações consecutivas em grandes voltas e sempre a terminar, está a tirar algum fôlego a De Gendt, que chegou esgotado à Vuelta.

No que a Lotto Soudal ficou aquém foi nas clássicas. E sendo uma formação belga, isso simplesmente não pode acontecer. Tiesj Benoot continua a ser um dos melhores no pavé, mas não conseguiu dar continuidade à vitória na Strade Bianche do ano passado. É ainda um ciclista com potencial para as provas por etapas, mas não foi um 2019 tão forte como desejaria. Benoot sentiu que estava na altura de mudar de ares e depois de cinco anos na Lotto Soudal, vai reforçar uma Sunweb à procura de uma figura principal, após a saída de Tom Dumoulin. Mesmo que possa sempre tentar mostrar o seu valor nas grandes voltas, é nas clássicas que o belga quer novamente apostar mais.

A precisar de mais nas corridas de um dia, a Lotto Soudal resolveu recorrer à experiência. Philippe Gilbert vai regressar à equipa na qual conquistou muitas das suas marcantes vitórias. E dele espera-se sempre algo de fenomenal. Já a contratação de John Degenkolb levanta muitas dúvidas. Quando parece que está a regressar ao seu melhor - como quando ganhou a etapa de Roubaix no Tour em 2018 -, o alemão volta a desaparecer no anonimato dos resultados banais. A oportunidade como a que a Lotto Soudal lhe está a dar pode não surgir muito mais vezes.

A equipa não foi tão forte nas clássicas como quer, mas Caleb Ewan compensou a falta de resultados nessas corridas nos sprints. Iria fazer esquecer Greipel? O alemão nunca será esquecido, mas pelo menos Ewan conseguiu que rapidamente se deixasse de falar na partida de Greipel e se falasse da sua chegada triunfal. Foi ao Giro ganhar duas etapas e depois conseguiu finalmente estrear-se no Tour. Na Mitchelton-Scott estava a ser preterido porque a equipa olhava mais para a classificação geral com os gémeos Yates. Foi isso que o fez mudar-se para a Lotto Soudal. Ganhou três etapas e não admira que considere que já deveria ter ido ao Tour mais cedo.

Tem apenas 25 anos e depois de ter assegurado que mais ninguém duvidasse que pode ganhar aos melhores e nos principais palcos - somou ao todo 10 vitórias -, segue-se um 2020 importante para que mostre que saberá lidar com a pressão de ser um dos favoritos.

De referir ainda que a Lotto Soudal apoiou Victor Campenaerts no seu objectivo de se tornar o recordista da hora. Mais uma aposta ganha, com o belga a bater a marca de Bradley Wiggins. Fez 55,089 quilómetros. O belga está de saída para a NTT (novo nome da Dimension Data), depois de uma temporada que, após alcançar o recorde, não decorreu como desejado a nível de resultados.


28 de julho de 2019

As equipas do Tour uma a uma

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Já pouco se esperava quanto a espectáculo no Tour, mas este foi o melhor dos últimos anos. Sendo a corrida mais importante quanto a grandes voltas, é altura de fazer balanços, celebrar o que correu bem e perceber o que correu mal. E há equipas a sair pouco felizes de França. A ordem no texto é a da classificação por equipas.

Movistar: O facto de constantemente vencer as classificações colectivas nas corridas de três semanas, demonstra como a equipa espanhola tem capacidade para ter constantemente ciclistas a terminar bem colocados. Porém, depois do sucesso do Giro, a Movistar regressou aos maus hábitos de sempre. Segundo ano a apostar no tridente, segundo ano com basicamente tudo a correr mal. Perante o poderio e os objectivos, vencer uma etapa - por Nairo Quintana - e ter colocado o tridente Quintana/Mikel Landa/Alejandro Valverde no top dez (6º, 8º e 9º), não apaga uma formação confusa, com demasiados a querer ser líder e pouco dados a ajudar companheiros. A juntar a isso, primeiro Quintana, depois Landa (que fez o Giro) não estiveram no seu melhor fisicamente. Mas destaque positivo para Nelson Oliveira. O português realizou novamente uma excelente Volta a França neste seu regresso, depois de duas edições afastado deste palco. É um ciclista que não falha na ajuda, ainda se intrometeu numa fuga e tentou a sorte na sua especialidade, o contra-relógio (11º). Terminou na 79ª posição, a 2:35:51 horas, mas o que importa é que cumpriu o seu trabalho e já tem um contrato por mais dois anos.

Trek-Segafredo: Richie Porte pode muito bem ter feito a sua despedida do Tour como líder. Ficou fora do top dez e só no contra-relógio mostrou alguma capacidade, que não repetiu na montanha. A equipa apostou tudo no australiano, nem levando John Degenkolb, que também não é garantia de nada nesta fase da carreira, mas há um ano ainda ganhou uma etapa. Valeu Giulio Ciccone. Depois da etapa e da camisola da montanha no Giro, o italiano andou dois dias de amarelo e não poderá ficar muito mais tempo em segundo plano, mesmo que Vincenzo Nibali esteja a caminho da formação americana.

(Fotografia: © ASO/Thomas Maheux)
Ineos: Não foi aquela equipa dominadora e até quebrou quase sempre cedo na montanha. Gianni Moscon foi erro de casting para o Tour, Michal Kwiatkwoski foi incansável na primeira semana e esteve demasiado cansado na segunda e terceira, Luke Rowe foi expulso após desentendimento com Tony Martin (Jumbo-Visma) e Wout Poels não esteve ao nível de outros anos. Porém, mesmo com Geraint Thomas e Egan Bernal a funcionarem com uma táctica algo estranha no Alpes, o colombiano acabou por impor toda a sua qualidade e com aquele que poderia ter sido o seu principal adversário a abandonar, Thibaut Pinot, não houve ninguém que aguentasse o ritmo de Bernal. Faltou-lhe a vitória de etapa, provavelmente tirada devido ao deslizamento de terras que interrompeu a tirada em que vestiu a amarela. Primeiro colombiano a vencer a Volta a França e tem apenas 22 anos. Thomas foi relegado para segundo lugar e esta Ineos está definitivamente em fase de mudança. Contudo, ganhou novamente e já são oito Tours em nove anos, com Bernal a ficar também com a classificação da juventude.

EF Education First: Faltou Daniel Martínez. O ciclista ficou de fora do Tour por lesão e fez alguma falta. Rigoberto Uran tem andado discreto esta temporada e não foi muito mais vistoso na Volta a França. Michael Woods cedo ficou afastado de um resultado para a geral e ainda tentou procurar a etapas, tal como Simon Clarke e Alberto Bettiol, mas sem sucesso. De Tejay van Garderen não se esperava muito, mas não teve tempo para se mostrar, pois antes dos principais momentos, caiu e foi para casa. Ficou cumprido o objectivo do top dez com Uran (7º, a 5:15 minutos), mas esta é uma equipa que também já pensa numa renovação e quer ver-se Martínez no Tour.

Bora-Hansgrohe: Peter Sagan pode não ser o ciclista de outros anos. Mas ganhou a sua etapa e tornou-se no recordista de camisolas verdes: sete. Porém, o Tour da Bora-Hansgrohe foi além do eslovaco, comprovando que o trabalho feito a pensar em classificações gerais está a dar frutos. Que excelente corrida de Emanuel Buchmann. A Alemanha tem novamente um ciclista para pensar em, talvez, lutar por um pódio no Tour, que nesta edição ficou a 25 segundos. Boa Volta a França de uma Bora-Hansgrohe que está a conseguir cada vez mais mostrar que é mais do que Sagan.

Groupama-FDJ: Se houve ano em que se acreditava que era mesmo possível um francês ganhar o Tour foi este. Thibaut Pinot alimentou esse sonho com Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep). Finalmente encontrou o equilíbrio entre a boa forma física e a capacidade mental para suportar a intensa pressão de correr em casa. Ganhou uma etapa, no mítico Tourmalet, e esteve exímio em todas as etapas nos Pirenéus. Mas não foi desta. Pinot sofreu uma ruptura muscular e abandonou em lágrimas nos Alpes, numa das imagens marcantes desta edição. Merecia pelo menos um regresso ao pódio e ficar-se-á sempre a pensar no que poderia ter sido a batalha com Bernal se tivesse em condições. Pinot admitiu que acreditava que poderia ganhar o Tour e espera-se que mantenha essa atitude e continue a acreditar. Este é um Pinot vencedor e tem um David Gaudu que pode muito bem evoluir também ele para um excelente voltista. Para já, é um braço direito de confiança.

(Fotografia: (Fotografia: © ASO/Thomas Maheux)
Jumbo-Visma: Não é preciso dizer muito. Quatro vitórias de etapa (Mike Teunissen, Dylan Groenewegen, Wout van Aert e o contra-relógio colectivo), dois dias de amarelo (Mike Teunissen), excelente trabalho de equipa que quebrou inclusivamente a Ineos, que foi coroado pelo pódio de Steven Kruijswijk. O holandês chegou finalmente a um lugar que lhe tinha escapado no Giro há uns anos, mas conseguiu no Tour. Foi uma corrida perto da perfeição da equipa holandesa. Perto, porque Wout van Aert caiu no contra-relógio e lesionou-se com gravidade e Tony Martin (está de volta a locomotiva de trabalho) foi expulso após desentendimento com Luke Rowe (Ineos).

AG2R: Apostar tudo num ciclista tem destas coisas. Romain Bardet falhou por completo. Não foi só no contra-relógio, como é habitual. A única coisa que se pode dizer é que Bardet nunca tinha estado tão mal, mas salvou-se a sua atitude. Poderia ter abandonado e pensado na Vuelta, por exemplo. Mas não. Ficou e foi à luta por uma etapa que não conseguiu, mas conquistou a camisola da montanha. Beneficiou um pouco das tiradas encurtadas devido ao mau tempo para segurá-la, sempre importante para os franceses. Porém, a equipa tem muito a pensar, tanto em centrar-se exclusivamente em Bardet e se não faria bem ao ciclista passar pelo processo de Pinot: afastar-se um pouco do Tour e apostar num Giro e/ou Vuelta.

UAE Team Emirates:  Faltou Fernando Gaviria, mas havia Daniel Martin, Rui Costa, Sergio Henao, Alexander Kristoff...  Porém, o melhor classificado acabou por ser o homem que foi ao Tour para apurar a forma para a Vuelta depois de ter sido operado à perna: Fabio Aru (14º, a 27:07). Rui Costa ainda procurou a etapa, mas não conseguiu entrar na discussão nos momentos decisivos. Depois de um Giro muito positivo da equipa, não foi um Tour auspicioso. Quanto ao português, lutou dentro do possível - ainda arranjou uma discussão com a Deceuninck-QuickStep por ter arrancado do pelotão com Julian Alaphilippe tinha parado para urinar -, mas não foi o Tour que o português precisava, numa altura em que está a procura da renovação de contrato ou de uma nova equipa. Foi 53º, a 1:59:02 horas.

Astana: Entre quedas e perda de tempo no corte na etapa dos "abanicos", Jakob Fuglsang continua a ter uma relação difícil com o Tour. Abandonou, mas desta Astana esperava-se ainda assim mais. Era equipa que, mesmo concentrada em proteger o líder, também tinha ciclistas para lutar por etapas. Tem sido uma temporada fortíssima da equipa cazaque, principalmente nas provas por etapas, mas o Tour não correu bem, depois de um Giro em que Miguel Ángel López também não foi feliz.

Mitchelton-Scott: Adam Yates falhou por completo. Para quem ambicionava o pódio, até o top dez ficou fora dos planos mal chegou a montanha. Porém, esta Mitchelton-Scott viu um Simon Yates corrigir o mau Giro com duas vitórias de etapas no Tour, entrando para o grupo de ciclistas com vitórias em todas as grandes voltas. Daryl Impey e Matteo Trentin também alcançaram triunfos. Não foi um Tour perfeito, mas com quatro vitórias de etapas, também não pode ser negativo, pelo contrário.

Deceuninck-QuickStep: Mais uma equipa que não é preciso dizer muito. Elia Viviani e Julian Alaphilippe (duas) venceram etapas, mas o francês foi muito além disso e da camisola da montanha que venceu no ano passado:  14 dias de camisola amarelo. Por um lado não se acreditava que fosse possível Alaphilippe resistir, por outro, por França, lá se ia sonhando com um conto de fadas. Alaphilippe só quebrou na penúltima etapa de montanha e não segurou o pódio. Contudo, o quinto lugar, a 3:45, faz deste Tour excelente para o ciclista, que mais do que nunca irá pensar se quererá evoluir para voltista. O único senão da equipa chamou-se Enric Mas. Ambicionou alto e falhou. O próprio admitiu que a Volta a França foi uma lição, mas esperava-se um pouco mais, tanto na luta por um top dez e até na ajuda a Alaphilippe, que foi nomeado o mais combativo do Tour.

Wanty-Group Gobert: Equipa igual a si mesma. Andou na luta por etapas ao apostar em fugas, enquanto Guillaume Martin confirmou que merece dar o salto para uma equipa World Tour. Porém, houve mais um ciclista a destacar-se: Xandro Meurisse. Entre as Profissionais Continentais, a formação belga foi a mais activa, mesmo que continue a faltar a vitória de etapa, que não desiste de procurar.

CCC: Entrou em fugas, mas o ponto alto acabou por ser ver Greg van Avermaet subir ao pódio nas etapas belgas do arranque do Tour, por ter vestido a camisola da montanha. Foi pouco para a equipa polaca que precisa urgentemente de um homem para a geral.

Bahrain-Merida: Dylan Theuns ganhou uma etapa e um Vincenzo Nibali demasiado cansado após o Giro, não baixou o braços em também conquistar a dele. Conseguiu a fechar os Alpes. Não foi um Tour de grandes memórias para a Bahrain-Merida, mas dadas as limitações, ganhar duas etapas deixa os responsáveis satisfeitos. No entanto, há um problema a resolver. Rohan Dennis abandonou sem dizer nada a ninguém, no dia antes de um contra-relógio em que era candidato a vencer. Episódio negativo de indisciplina, que só prejudicou a equipa e a imagem do ciclista.

Dimension Data: Passou ao lado da Volta a França. A decisão de deixar Mark Cavendish de fora não foi consensual internamente, mas justificada pela forma física duvidosa do sprinter, que tantos problemas de saúde tem tido. Giacomo Nizzolo ainda tentou entrar nos sprints, mas não teve nível para os grandes nomes da especialidade. Edvald Boasson Hagen ainda tentou salvar a corrida em fuga, mas nesta Dimension Data nada se salvou, sendo um Tour à imagem da fraca temporada que está a realizar.

Cofidis: Também deixou um sprinter de fora: Nacer Bouhanni. Já se sabe que não se entende com o director da equipa, mas Christophe Laporte mal se viu e abandonou cedo devido a uma intoxicação alimentar. Ainda tentou entrar em fugas, mas foi um Tour aquém do que se esperaria de uma equipa que está a "namorar" uma licença World Tour.

Arkéa Samsic: André Greipel está definitivamente em fase descendente. Porém, Warren Barguil reapareceu. Desde que tinha deixado a Sunweb no final de 2017, depois de vencer duas etapas no Tour e a camisola da montanha, que o francês nunca mais tinha sido o mesmo. A conquista do título nacional, uma semana antes da corrida, deu-lhe novo impulso na carreira. Lutou por etapas e terminou em 10º, a 7:32. A equipa que estará prestes a garantir Nairo Quintana, viu Barguil responder muito bem e ainda tem um Élie Gesbert, ciclista de 24 anos, que vai começando a chamar a atenção.

Sunweb: Sem Tom Dumoulin, Michael Matthews foi o líder para ir procurar etapas ao sprint e lutar pela camisola verde dos pontos. O Tour não correu bem ao australiano e o foco foi para um dos jovens da equipa. O alemão Lennard Kämna teve liberdade para se mostrar e não a desperdiçou. 22 anos e sem medo de estar entre os melhores. Se Dumoulin sair da equipa, como tanto se fala, a Sunweb tem jovens em formação para deixar a estrutura a acreditar que pode ter um futuro promissor.


(Fotografia: © ASO/Thomas Maheux)
Lotto Soudal: Excelente Tour e Caleb Ewan já vai mostrando que foi a escolha certa para preencher a vaga de André Greipel. O australiano fez a estreia na Volta a França e ganhou três etapas, incluindo a mais ambicionada pelos sprinters: nos Campos Elísios. O australiano, de 25 anos, deixou a Mitchelton-Scott precisamente para poder estar no Tour e dificilmente voltará a ficar de fora, estando em boas condições físicas. Foi o rei dos sprints, pois foi o único a ganhar mais do que uma etapa desta forma. Além de Ewan, ainda tivemos o momento Thomas de Gendt. A habitual exibição solitária que deixa tudo e todos rendidos ao belga. Tim Wellens ainda andou grande parte do Tour com a camisola da montanha, mas os Alpes quebraram o ciclista.

Direct Energie: Tal como a Cofidis quer subir de escalão e dinheiro não falta para grandes contratações. Bem precisa de reforçar-se, tendo passado ao lado do Tour, o que para uma equipa francesa é ainda mais grave. O futuro poderá ser bem diferente, mas Lilian Calmejane, Anthony Turgis estiveram muito abaixo do exigível e Niki Terpstra esteve azarado, abandonando após queda, a segunda que lhe estraga a temporada, depois de ter acontecido o mesmo na Volta a Flandres.

Katusha-Alpecin: Terá o fantasma da equipa correr o risco de fechar no final da temporada afectado o rendimento dos ciclistas? É a última classificada e percebe-se porquê, pois foi uma Volta a França muito fraca. Ilnur Zakarin não lutou pela geral e ainda tentou ganhar etapas, mas não nunca preocupou ninguém. Nils Politt foi o mais activo na procura de pelo menos um triunfo, mas foi insuficiente. José Gonçalves teve uma estreia no Tour discreta. Pouco se viu do português, de quem se esperava mais depois de uma semana antes do arranque do Tour, em Melgaço, ter vencido o título nacional de contra-relógio e ter garantido que se sentia bem para a corrida francesa. Trabalhou para estar no pico de forma, mas não correu bem. Terminou na 128ª posição, a 3:47:15 horas de Bernal.

Classificações completas, via ProCyclingStats.




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23 de julho de 2019

Chegou o nervosismo, o calor e as quedas

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
"Foi como estar dentro de um forno!" Descrição mais gráfica é difícil. Tony Martin (Jumbo-Visma) foi dos homens que mais trabalhou no regresso à estrada depois da folga na Volta a França e foi assim que descreveu o que sentiu durante os 177 quilómetros que começaram e acabaram em Nîmes. Foi um dia muito complicado, com o calor a fazer-se sentir e de que maneira! As temperaturas chegaram aos 39 graus, mas a sensação térmica ultrapassou essa referência. Com os candidatos separados por diferenças tão curtas, já seria de esperar que o nervosismo começasse a ganhar maior expressão. Porém, o calor só ajuda a agravar o receio de algo correr mal. Os ciclistas estão constantemente a ter de se hidratar, há muitas movimentações para ir buscar bidões, mas ao mesmo tempo têm de estar atentos a qualquer problema que possa acontecer e, coincidência ou não, foi um dia com algumas quedas e uma até atirou um corredor do top dez para fora da corrida.

O tempo muito quente está novamente a fazer-se sentir em França, que no mês passado sofreu com uma insuportável onda de calor. Os alertas (por enquanto laranja) estão em vigor e apesar dos ciclistas terem pela frente os Alpes, não significa que vão encontrar temperaturas mais amenas. Serão um pouco mais baixas do que esta terça-feira, mas as previsões apontam para que estejam acima dos 30 graus. Esta é uma preocupação extra que não está a deixar ninguém indiferente. Mikel Landa (Movistar) não tem dúvidas que este calor vai custar caro a alguém.

"Eu bebi um bidão e outro e outro e outro... Foi de doidos", desabafou Peter Sagan, que criticou ainda a falta de acção da Associação de Ciclistas Profissionais, dizendo mesmo: "Penso que deveriam fazer alguma coisa. Não sei para quê que lhes pagamos se não nos protegem."

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
A etapa realizou-se como previsto, com a única diferença a ser a mudança de regras quanto à distribuição de líquidos, que foi permita durante mais tempo. Em média terão sido distribuídos por cada ciclistas 20 a 30 bidões, com muitos a servirem para despejar a água por cima do corpo. O gelo foi um recurso, com vários corredores a colocarem por baixo das camisolas e até nos capacetes. Foi o tudo por tudo para tentar manterem-se frescos, numa etapa que ainda assim teve uma média de quase 45 quilómetros/hora.

Para agravar o nervosismo havia ainda a possibilidade do vento pregar nova partida nos 60 quilómetros finais. Apesar de uma ligeira aceleração, nenhuma equipa tentou provocar cortes, como aconteceu na 10ª etapa. Contudo, houve quedas para aumentar o nervosismo. O Tour tem sido muito marcado nesse aspecto em edições anteriores, principalmente nos primeiros dias. Esta edição tem sido mais calma, ainda que vários ciclistas já tenham caído, incluindo nomes como Nairo Quintana (Movistar), Geraint Thomas (Ineos) e Jakob Fuglsang (Astana). E os três voltaram a ser afectados. Fuglsang foi quem ficou pior. Estava a cerca de 25 quilómetros da meta quando não conseguiu evitar um corredor que tinha caído à sua frente e foi atirado por cima do guiador da bicicleta.

Ainda com as marcas da queda no início do Tour bem presentes, Fuglsang ficou de imediato agarrado à mão e admitiu que estava com tantas dores que tinha dificuldades em estar de pé. "Percebi que o meu Tour tinha acabado ali", desabafou, desiludido por não conseguir ir aos Alpes tentar um lugar mais perto do pódio. Explicou que a mão inchou de imediato, mas, mais tarde, a Astana informou que não havia qualquer fractura. Ainda assim, a relação entre Fuglsang e a Volta a França continua complicada, mesmo naquela que está a ser a melhor época da carreira do dinamarquês.

Antes tinha sido Thomas a cair, num incidente que considerou de insólito. Ficou com as mudanças presas e não evitou a queda. Ainda foi assistido pelo médico da corrida, mas está tudo bem com o galês, um pouco de pele a menos, mas preparado para continuar na luta pelo Tour. Já Quintana não caiu desta feita, mas tudo acontece ao colombiano. Agora ficou preso por uma queda que cortou a estrada. Perdeu mais um minuto na classificação e o descalabro na geral continua, estando agora a 9:30 minutos de Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep).

(Fotografia: © ASO)
A Volta a França entrou na semana decisiva com uma etapa que acabou por desgastar muito mais do que os ciclistas desejariam. No final venceu um corredor mais habituado a estas temperaturas. O australiano Caleb Ewan (Lotto Soudal) é o primeiro sprinter a bisar no Tour, ainda que o trepador Simon Yates (Mitchelton-Scott) já o tenha feito. Foi um sprint sem discussão de um Ewan que nem se deixou perturbar pelo habitual desvio de Max Richeze (Deceuninck-QuickStep) - colega de Elia Viviani -, que costuma prejudicar sempre alguém que vem de trás para o sprint. Ewan limitou-se a fazer um pequeno desvio e ultrapassou tudo e todos.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

17ª etapa: Point du Gard - Gap, 200 quilómetros



A não ser que um Michael Matthews (Sunweb) ou Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) tenham grande vontade de ganhar a etapa e passar uma terceira categoria perto do final da etapa este será dia para uma fuga. Os sprinters, mesmo os que ultrapassam melhor algumas dificuldades, deverão agora entrar novamente no modo de sobrevivência para conseguirem chegar à última a tirada, a mais desejada para eles, com a mítica chegada aos Campos Elísios.

É mesmo um bom dia para a fuga triunfar... e para um português ganhar! Gap é de boa memória para os ciclistas lusos. Em 2010, Sérgio Paulinho alcançou ali uma das duas vitórias de etapa numa grande volta. Foi em 2010, então ao serviço da RadioShack, tendo batido numa luta a dois um tal de Vasil Kiryienka, ciclista agora da Ineos (não está neste Tour) e que foi campeão do mundo de contra-relógio.

Sérgio Paulinho (Efapel) está actualmente mais preocupado com a Volta a Portugal, mas há Rui Costa. Recuando a 2013, naquela edição a equipa da Movistar tinha já sofrido um golpe na geral devido a um "abanico". O ciclista português foi obrigado a ficar para trás para ajudar, perdendo tempo, o que acabou por se traduzir no seu melhor Tour. Já tinha ganho uma etapa em 2011 e em Gap conquistou a primeira de duas naquela edição inesquecível para o poveiro, que viria a sagrar-se campeão do mundo dois meses depois. Rui Costa venceu isolado, com 42 segundos de vantagem sobre o francês Christophe Riblon (AG2R).

Aquele Rui Costa não mais se viu no Tour. Na UAE Team Emirates está com total liberdade para lutar por etapas e esta pede que volte a tentar fazer de Gap um local ainda mais marcante para o ciclismo nacional. Nelson Oliveira (Movistar) está mais preso ao papel de gregário, mas José Gonçalves (Katusha-Alpecin) ainda não apareceu neste Tour e esta é uma etapa que também não lhe assenta nada mal.




»»Nelson Oliveira renova por uma Movistar ainda a definir os líderes para 2020««

»»Temos Tour««

17 de julho de 2019

Não temos Cavendish nem Kittel, mas temos muito mais

(Fotografia: © ASO/Alex Broadway)
Habituados que estamos a ter um sprinter que tem tendência a destacar-se, mesmo que em seu redor estejam outros de muita qualidade, a Volta a França de 2019 está a ser bem diferente. Só nos tempos mais recentes tivemos um Mario Cipollini que era sempre o super favorito, com Mark Cavendish a aparecer para ser o rei do sprint depois do italiano. Com Cavendish no auge, veio um Marcel Kittel ameaçar e até retirar-lhe em certas ocasiões o trono. Agora está vazio. Fernando Gaviria continua a ser um forte candidato, mas estamos perante uma geração de sprinters que primam pelo equilíbrio e neste Tour ainda nenhum se conseguiu destacar. Ou seja, ninguém venceu mais que uma etapa.

A mudança de Gaviria para a UAE Team Emirates ainda não foi tão profícua como se esperava. No entanto, não se saberá o que poderia estar a fazer já que falhou o Tour por lesão, pelo que não se vai entrar na toada "e se Gaviria lá estivesse". Interessa quem está e são praticamente todos os que se podem considerar de topo mundial. A qualidade do sprinter também está intrinsecamente ligada à qualidade da equipa. Se a Deceuninck-QuickStep é das melhores a preparar os famosos comboios, a verdade é que Lotto Soudal (que começa a tirar dividendos da "troca" de André Greipel por Caleb Ewan) também há muito sabe gerir bem esta arte, mas Jumbo-Visma e Bora-Hansgrohe são igualmente cada vez mais especialistas, mesmo que, ao contrário das outras duas formações, também tenham pretensões à classificação geral. Mas sim, a Deceuninck-QuickStep continua a ser a melhor, o que explica porque não há sprinter que não ganhe na formação belga.

Neste Tour os sprinters estão a dividir as vitórias entre si. Desde o início do século que, com 11 etapas realizadas, o mesmo só tinha acontecido em 2002 e 2006. Estamos a falar de anos com grandes nomes como Robbie McEwen, Erik Zabel (o actual recordista de camisolas dos pontos a par de Peter Sagan, com seis) ou Thor Hushovd. Curiosamente foram uns anos entre a fase descendente de Cipollini - entre 2000 e 2003 nem foi ao Tour e o de 2004 foi o seu último - e pouco antes da ascensão de Cavendish - estreou-se em 2007.

Recentemente, um jornalista do Cycling Weekly perguntou a alguns sprinters como viam este tipo de decisão de etapa sem Cavendish e Kittel. Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida) deu uma resposta que comprova precisamente o que tem acontecido: "É, se calhar, mais interessante porque é incerto. Antes talvez se soubesse que o Cavendish estava tão forte que iria ganhar. Agora há incerteza. Há o Elia Viviani, o Dylan Groenewegen, o Caleb Ewan... a vida continua."

E de facto, os três mencionados já assinaram uma vitória, com Viviani e Ewan a terem o extra de passarem a pertencer ao clube de ciclistas que venceram nas três grandes voltas. Peter Sagan também já venceu nesta edição, com Wout van Aert a dizer que o podem começar a colocar entre os sprinters mundiais de respeito. Houve ainda um Mike Teunissen a ser a grande surpresa. O único domínio tem sido da Jumbo-Visma que venceu com estes dois últimos ciclistas e o seu principal sprinter, Groenewegen. Isso sim, é uma surpresa. E ainda venceu o contra-relógio colectivo!

Alexander Kristoff, vencedor em 2018 nos Campos Elísios, e Michael Matthews são, para já, os principais nomes que ainda não conseguiram um triunfo, uma desilusão para a Sunweb que tem sido das equipas que mais tem trabalhado. Nesta quarta-feira, Matthews até se afastou do sprint e foi o jovem Cees Bol a tentar aparecer, sem sucesso. Mas atenção a este holandês de 23 anos, mesmo que não seja já para este Tour...

Os sprinters vão agora entrar em modo sobrevivência, pois vem aí a alta montanha. Bem-vindos aos Pirenéus! Etapa mais plana, só na terça-feira, depois do dia de descanso. Apesar de na 17ª tirada poder algum sprinter até passar a subida perto da meta, o mais provável é que seja um bom dia para uma fuga triunfar, enquanto os homens rápidos vão tentar poupar-se (se tal for possível) na passagem pelos Alpes para depois irem à procura da etapa que todo este tipo de ciclista mais quer: vencer nos Campos Elísios.

A escolha acertada de Caleb Ewan e um pouco de história ao seu alcance

(Fotografia: © ASO/Thomas Maheux)
O pequeno australiano parece que tem de bater umas quantas vezes na trave, para depois explodir para o sucesso. Foi assim no Giro e acabou com duas etapas ganhas. Estava a ser assim no Tour e eis que finalmente consegue a vitória que tanto ambicionava. Foi para a conseguir que deixou a casa que era a Mitchelton-Scott. A equipa está completamente centrada em conquistar gerais com os irmãos Yates, pelo que o Tour estava vedado ao sprinter. Desiludido, foi para a Lotto Soudal para preencher uma vaga complicada. Aos poucos vai começando a impor-se. Greipel não será esquecido, mas Ewan está a saber ganhar o respeito de todos.

1,65 metros e cerca de 67 quilos de pura potência, com aquele estilo ortodoxo de sprintar deitado sobre o guiador, Ewan é agora um dos 95 ciclistas que conquistou etapas nas três grandes voltas. Aos 25 anos estreou-se finalmente no Tour e já tem a sua vitória, depois de ter ganho na Vuelta em 2015 e no Giro em 2017 e este ano. Ao todo são agora cinco etapas em grandes voltas. Aos poucos começa a construir o seu palmarés, tal como aos poucos a Lotto Soudal está a adaptar-se ao seu novo líder nos sprints. Não foi um início fácil de temporada, mas o entendimento entre Ewan e os seus lançadores vai ficando cada vez mais aprimorado.

O australiano até pode entrar para outro ranking da história. Desde 2003 que ninguém ganha uma etapa em cada uma das três grandes no mesmo ano. O último foi Alessandro Petacchi, num feito que só tinha sido alcançado na década de 50 por outro italiano Pierino Baffi (1958) e o espanhol Miguel Poblet (1956). Ainda se desconhece se Ewan vai à Vuelta, mas aqui fica um incentivo!

Classificações completas, via ProCyclingStats.

12ª etapa (18 de Julho): Toulouse - Bagnères-de-Bigorre, 209,5 quilómetros


Há que concordar com Geraint Thomas. Não deverá ser já nesta etapa que se vão verificar grandes mexidas. Claro que a última vez que se pensou assim, foi a loucura total, na segunda-feira, mas aí o vento teve uma palavra a dizer! Com o contra-relógio de Pau na sexta-feira e o Tourmalet no sábado poderá haver alguma gestão de esforço. Ainda assim, os segundos bónus em jogo na última subida do dia poderão seduzir algum candidato mais atrasado, mas, ainda assim, é um dia em que a fuga pode triunfar.




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21 de maio de 2019

Démare arrisca ser o único dos principais sprinters a resistir até ao fim

(Fotografia: Giro d'Italia)
A alta montanha aproxima-se, mas ainda teremos mais uma etapa completamente plana pela frente. Ou seja, o último dia para alguns dos sprinters presentes na Volta a Itália. Não é nada de novo que a maioria não se preocupe muito com a maglia ciclamino. É daquelas camisolas que não se importariam de ganhar, contudo, poucos estão dispostos a enfrentar as dificuldades das etapas montanhosas. Se há um aspecto que não muda é que, no que diz respeito à classificação por pontos, é a da Volta a França com que todos os sprinters mais sonham em ganhar. No Giro chegam as vitórias nas etapas.

Fernando Gaviria (UAE Team Emirates) nem completou a primeira semana devido a uma dor num joelho. Caleb Ewan (Lotto Soudal) até está bem colocada na luta pela ciclamino - tem menos 46 pontos do que Pascal Ackermann) -, mas o australiano já terá bilhete para regressar a casa depois da etapa desta quarta-feira. O mesmo se passará com Elia Viviani. O italiano até queria fazer "algo especial" no Giro, nas suas próprias palavras, mas entre uma desclassificação e haver sempre alguém mais forte do que ele, o ciclista da Deceuninck-QuickStep já se contentaria com um triunfo, para depois pensar no Tour. Que Giro tão diferente do de 2018 para Viviani, no qual venceu quatro tiradas e a classificação dos pontos. Além do italiano, também Gaviria e Ewan têm a Volta a França no calendário.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Dos principais sprinters sobra Ackermann e Démare. O francês quer ficar até final, assumindo que quer mesmo a ciclamino. Ackermann também. O problema do alemão foi a queda à entrada da recta da meta. A Bora-Hansgrohe já garantiu que não há nada partido, mas o lado direito do ciclista ficou muito mal tratado (foto ao lado). Com Démare a inscrever o seu nome na lista de vencedores de etapas e com Ackermann a não somar pontos no sprint final, o francês ficou a um da liderança.

Mais do que poder ter dificuldades em sprintar na 11ª etapa, Ackermann irá tentar perceber se a condição física lhe permite passar a alta montanha que, a partir de quinta-feira, será uma presença mais constante praticamente até final do Giro. Na teoria, a 18ª tirada até poderá ser para os sprinters, se ainda houver forças para controlar a etapa depois dos difíceis dias anteriores. Este ano é um contra-relógio que fecha a corrida, não havendo a um dia de consagração, que também costuma ser sinónimo para os sprinters despedirem-se em grande.

Ackermann estava a ser uma das figuras da Volta a Itália, com duas vitórias na sua estreia em grandes voltas. Agora, Démare poderá tornar-se no mais forte candidato a ficar com a maglia ciclamino, algo que poderá ser confirmado na 11ª etapa desta quarta-feira.

Ainda há mais sprinters em prova. Davide Cimolai (Israel Cycling Academy) e Giacomo Nizzolo (Dimension Data), por exemplo, bem tentam aparecer, mas não conseguem exibir-se ao nível de um Ackermann, Démare ou Ewan. O mesmo acontece com Jakub Mareczko, italiano que chegou finalmente ao World Tour pela mão da CCC, mas não está a igualar as performances de épocas recentes.

Foi um dos que caiu, tal como Simone Consonni (UAE Team Emirates) e um dos ciclistas em destaque no Giro, o jovem Matteo Moschetti. O sprinter da Trek-Segafredo foi transportado para o hospital. A equipa anunciou que o italiano vai abandonar o Giro devido à queda. Garantiu que não perdeu a consciência após a queda, mas irá demorar algum tempo a recuperar das lesões nos ombros e pernas.

Ainda se desconhece se Mareczko irá partir amanhã. Já a UAE Team Emirates até gostaria de Consonni ficasse mais uns dias, para ser uma ajuda, pelo menos nas fase iniciais das etapas de montanha, na defesa de uma liderança na geral que Valerio Conti e a equipa admitem querer manter pelo menos até domingo. Há que não esquecer que a UAE Team Emirates já só tem seis ciclistas, com Gaviria e Juan Sebastián Molano a estarem fora. Este último foi retirado da corrida depois de serem conhecidos os resultados anómalos em testes feitos internamente.

De referir que a seguir a Ackermann (155 pontos), Démare (154) e Ewan (109), estão Richard Carapaz (Movistar) e Primoz Roglic (Jumbo-Visma), com 50 e 46 pontos, respectivamente na classificação da maglia ciclamino. Se Ewan for para casa e Ackermann seguir o exemplo ou não estar em condições físicas de lutar pelo sprint de amanhã e dos sprints intermédios das próximas etapas, Démare poderá dar por bem entregue esta aposta no Giro, já o que o Tour ficará para Thibaut Pinot tentar mais uma vez a desejada vitória francesa em casa. Não haverá espaço para Démare na Volta a França. Será tudo por Pinot na Groupama-FDJ.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

11ª etapa: Carpi - Novi Ligure, 221 quilómetros


Depois de um dia curto, 145 quilómetros entre Ravenna e Modena, é o regresso às maratonas dos 200 quilómetros. Parte da etapa passará por estradas conhecidas da Milano-Sanremo, com a UAE Team Emirates a esperar que possa novamente ficar mais descansada no trabalho de controlar as operações no pelotão, já que os sprinters quererão aproveitar esta última oportunidade para muitos. A Deceuninck-QuickStep terá de apostar forte para tentar salvar algo com Elia Viviani.




»»As contas do contra-relógio que obrigam os rivais de Roglic a atacar««

»»Um contra-relógio para mexer com o Giro««

18 de maio de 2019

Um contra-relógio para mexer com o Giro

(Fotografia: Giro d'Italia)
Está aí o segundo de três contra-relógios individuais e espera-se que traga alguma emoção a uma luta pela maglia rosa muito fria até ao momento. Depois de um dia de algum nervosismo - todos passaram incólumes os sete quilómetros finais técnicos, em descida - é altura dos ciclistas se concentrarem na etapa que acabou por estar na mente dos principais candidatos basicamente desde o primeiro contra-relógio... no primeiro dia do Giro. Tirando essa etapa e a quarta, marcada por uma queda, não se fizeram diferenças, pois pouparam-se forças para os 34,8 quilómetros de domingo. E estes podem ser bem mais decisivos do que a etapa inaugural.

A grande preocupação com Primoz Roglic por parte dos seus rivais é precisamente como o esloveno poderá colocar-se numa posição mais confortável. É que mesmo sendo um contra-relógio com uma subida nos últimos 12 quilómetros (mas 10 antes o terreno já começa a inclinar), o ciclista da Jumbo-Visma dá-se bem com qualquer tipo de terreno.

Mas antes do foco ir para os candidatos é justo que se envolva Valerio Conti (UAE Team Emirates) nas contas. É o camisola rosa e tem tudo para assim continuar não só até ao dia de descanso, mas provavelmente até pelo menos quinta-feira, quando chegar a alta montanha. Conti não é um especialista no contra-relógio, mas quem está mais próximo também não. José Joaquín Rojas (Movistar) e Giovanni Carbonni (Bardiani-CSF) têm menos de dois minutos de desvantagem, mas em condições normais não assustarão Conti. Nans Peters (AG2R, a 2:09) até pode ser quem mais se equipara, mas a vantagem de Conti é boa para o francês.

O que faz com que se volte a Roglic. Tem 5:24 para recuperar e por mais que seja muito (mas mesmo muito) melhor do que Conti no contra-relógio, sair de San Marino de novo com a camisola rosa parece improvável, em condições normais (há que ressalvar sempre um daqueles momentos inesperados que o Giro é pródigo em dar).

Roglic quererá aumentar a diferença para os rivais, mas também irá tentar reduzir ao máximo esta desvantagem para Conti. A perda da rosa foi propositada, mas esta diferença foi um pouco exagerada e há que garantir que após o contra-relógio não fica demasiado trabalho para fazer na montanha. Já terá de se preocupar com Simon Yates, Miguel Ángel López e Vincenzo Nibali, por exemplo, e há que começar a tirar ideias a Conti de se tornar num daqueles ciclistas que se acha que vai perder a rosa, mas que depois a vai segurando.

Vem à memória um Thomas Voeckler no Tour de 2011 que todos os dias se dizia que deveria perder a liderança e só na décima tentativa é que lhe tiraram a camisola amarela.

E sendo um Giro uma corrida muito mais propícia a surpresas do que o Tour, Roglic quer evitá-las. Fala-se de Roglic por ser o melhor classificado entre os favoritos, pois o que pensa o esloveno, pensarão os restantes pretendentes à rosa. Um dos grandes pontos de interesse será o que irá fazer Simon Yates (Mitchelton-Scott). O contra-relógio já não é uma dor de cabeça para o britânico e se não se espera que bata Roglic, mas é bem possível que não fique assim tão longe.

A subida tem uma média de 6,5%, com máximas a rondar os 10%, algumas zonas de descanso, nada que assuste Yates. Aliás, até o motivará. O facto de não ser um contra-relógio plano faz com que o vencedor da Vuelta esteja desde o início muito confiante que este Giro pode ser seu.


E Miguel Ángel López? O colombiano tinha como objectivo perder mesmo de dois minutos no primeiro dia. Perdeu 28 segundos! Mas oito quilómetros são bem diferentes de 34,8. Mesmo com a subida, o líder da Astana sabe que terá explorar todas as suas características de trepador, como se de uma etapa de montanha se tratasse. Há que ir a fundo e garantir que não complica umas contas que estão bem simpáticas para ele, pois nem ele esperava estar a 44 segundos de Primoz Roglic, sempre a referência devido aos contra-relógios e na ausência de Tom Dumoulin, que abandonou na quinta etapa.

Em situação idêntica está Rafal Majka, ainda que entretanto tenha aparecido um Davide Formolo que quer disputar a liderança na equipa e é bem possível que a Bora-Hansgrohe não se importe de ter os dois ciclistas ao ataque em etapas e/ou na geral.

Numa luta particular estará Richard Carapaz e Mikel Landa, com Andrey Amador a poder intrometer-se já que é o melhor da Movistar nesta fase. O contra-relógio poderá ajudar a definir de vez que é o líder de uma equipa que não encontra uma união em torno de um só homem.

O futuro de Amaro Antunes

O contra-relógio será também importante para Amaro Antunes. Depois daquela reviravolta na classificação que levou Conti à liderança e o português ao sexto lugar, o ciclista do CCC poderá mudar um pouco os seus planos. Ganhar uma etapa era o objectivo, mas poderá ser tentador não deixar escapar uma possibilidade de ser top dez e logo na estreia numa grande volta.

O contra-relógio não é um ponto forte do algarvio, mas tem trabalhado muito desde que assinou pela formação em 2018. O resultado deste domingo poderá ser determinante para escolher se a luta por uma etapa é para manter, ou se começa uma defesa do top dez, o que irá limitar a possibilidade de ir para fugas. Mas claro que um objectivo não anula por completo o outro e também dependerá de como irá evoluir a forma de Amaro Antunes.

Aqui ficam as diferenças dos candidatos para Conti e inclui-se Sam Oomen, o ciclista da Sunweb que, não sendo forte no contra-relógio, vê-se de repente com liberdade para lutar por um bom resultado, devido ao abandono de Dumoulin e da tal etapa da reviravolta na classificação, que também beneficiou o jovem holandês.

1. Valerio Conti (UAE Team Emirates), 35:13.06 horas
6. Amaro Antunes (CCC), a 2:45 minutos
10. Sam Oomen (Sunweb), a 4:57
12. Primoz Roglic (UAE Team Emirates), a 5:24
15. Simon Yates (Mitcheton-Scott), a 5:59
16. Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), a 6:03
17. Miguel Ángel López (Astana), a 6:08
18. Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), a 6:13
20. Bauke Mollema (Trek-Segafredo), a 6:19
21. Bob Jungels (Deceuninck-QuickStep), 6:26
25. Richard Carapaz (Movistar), 6:45
26. Pavel Sivakov (Ineos), a 6:48
27. Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), a 7:00
29. Mikel Landa (Movistar), a 7:13
32. Tao Geoghegan Hart (Ineos), a 7:43

Finalmente uma vitória de Caleb Ewan

(Fotografia: Giro d'Italia)
A etapa começou com um Tony Gallopin (AG2R) a questionar se os ciclistas eram "animais de circo", criticando o final de etapa que se poderia tornar ainda mais perigoso se a previsão de chuva se concretizasse. A decisão dos comissários foi de não neutralizar os últimos sete quilómetros e ainda bem. Foi uma descida de nervos, ainda que feita com relativa calma, até porque o piso não estava completamente seco. Mas houve sprint e houve um Caleb Ewan a finalizar o muito trabalho realizado por uma Lotto Soudal a precisar desta vitória.

Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe) arrancou cedo de mais e Elia Viviani (Deceuninck-QuickStep) já não deve perceber o que tem de fazer para ganhar, depois de já ter sido desclassificado numa etapa.

Foi a segunda vitória no Giro do pequeno sprinter (1,65 metros), que tem aquela forma ortodoxa de sprintar, deitado no guiador, mas que vai alcançando os seus sucessos. A primeira vitória havia sido em 2017, na então Orica-Scott. Esta foi quarta vitória do ano para Ewan, que "substituiu" André Greipel na equipa belga.

6 de junho de 2018

Lotto Soudal procura sucessor de André Greipel e já terá o eleito

(Fotografia: © Photonews/Lotto Soudal)
André Greipel até venceu quatro etapas no mês de Maio, no seu regresso à competição depois da paragem forçada devido a uma clavícula partida, na Milano-Sanremo. Apesar dos triunfos chegarem em boa hora, tendo em conta a preparação para a Volta a França, os 35 anos (faz 36 a 16 de Julho) têm sido sinónimo de decréscimo de rendimento e a Lotto Soudal já está a preparar a sua sucessão. Até quererá continuar a contar com o sprinter alemão, mas para uma equipa que pouco ou nada aposta nas gerais, principalmente nas grandes voltas, o rendimento do seu sprinter tem um peso muito grande nos resultados. Não é só uma questão de quantidade - Greipel até conta com seis triunfos em 2018 -, é também uma questão de ganhar nos palcos mais relevantes do ciclismo.

A nova geração de sprinters começa ao pouco a deixar para segundo plano aqueles que têm marcado este tipo de decisão nos últimos anos. Nada de anormal, claro. É precisamente um desses sprinters que a Lotto Soudal procura. O eleito será Caleb Ewan. O pequeno australiano tem estado a afirmar-se, já tendo vitórias no Giro e Vuelta. Foi segundo na Milano-Sanremo, batido por um Vincenzo Nibali que surpreendeu todos com um ataque de longe. O crédito de Ewan tem vindo a subir e o sprinter estará à espera que suba um pouco mais.

O jornal belga Het Nieuwsblad avança o alegado interesse da Lotto Soudal e de como Ewan estará a aguardar pela Volta a França para tomar uma decisão. O ciclista terá uma oferta para renovar da Mitchelton-Scott, mas a estará à procura de uma mudança. A Lotto Soudal será tentadora, mas um bom Tour, com vitórias, ajudará bastante na negociação de valores monetários.

Caleb Ewan chegou à então Orica GreenEDGE já no final de 2014. No ano seguinte rapidamente deu nas vistas, nem que fosse pelo estilo ortodoxo de sprintar, "deitado" no guiador. Começou a ganhar, mas era na Austrália que rendia mais, demonstrando alguma dificuldade em bater os grandes nomes noutras competições. Aos poucos essa situação começou a mudar e não sendo um dominador como Fernando Gaviria, Ewan tem sido sinónimo de quem tem toda a capacidade para estar com os melhores. O Tour é visto como o momento de confirmação, já que contará com todas as principais figuras do sprint, das mais recentes às de maior currículo.

Não podemos esquecer que Ewan tem apenas 23 anos (faz 24 a 11 de Julho), o que significa que ainda há margem de progressão. O australiano também tem demonstrado que a Milano-Sanremo é uma corrida que pode vencer, o que para uma equipa que tanto aposta nas clássicas como a Lotto Soudal, é um enorme bónus. A Mitchelton-Scott está "debaixo de fogo" com as suas principais estrelas a serem muito cobiçadas. É o caso dos gémeos Yates. Mas se a aposta que tem feito no reforço da equipa para as grandes voltas poderá ser importante para manter os britânicos, já Ewan poderá procurar uma estrutura que o coloque como a figura principal.

O mesmo jornal escreve que André Greipel terá recebido uma proposta para renovar, mas apenas por uma temporada. O alemão quererá duas. Cumpre a oitava na equipa que lhe deu a oportunidade para ser o sprinter número um, depois de se destacar no comboio de Mark Cavendish, na HTC Columbia. 11 vitórias no Tour, sete no Giro, quatro na Vuelta, 18 no Tour Down Under... a lista é extensa, pois são 153 triunfos como profissional.

Se Ewan procura aumentar o seu valor no Tour para negociar o melhor contrato, Greipel poderá ir a França com o objectivo de garantir a continuidade da sua carreira numa equipa que lhe permita ser competitivo, caso opte por deixar a Lotto Soudal.