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7 de junho de 2019

"A Torre por si só 'mata' muitos atletas no pensamento"

Rui Sousa na segunda vitória na Torre, em 2014
(Fotografia: © Podium)
A carreira de Rui Sousa já deu mesmo um livro. São muitos os momentos marcantes e a Torre está entre eles. Venceu por duas vezes no ponto mais alto de Portugal Continental e não hesita em afirmar como a Volta com uma etapa a terminar na Torre é completamente diferente de quando "apenas" por lá se passa.

Quatro anos depois a mítica chegada está de regresso ao percurso e o antigo ciclista recordou a importância que a subida teve nas suas Voltas a Portugal e do que é preciso para a conquistar.

"Volta com Torre é outra Volta. Para mim sempre foi a etapa rainha. É a montanha por excelência do país, não só pela quilometragem, mas também pela altitude. É a subida mais temida pelo pelotão", salientou ao Volta ao Ciclismo. Rui Sousa ficou feliz por ver como vai acabar a quarta etapa, que terá 145 quilómetros, que começarão na Pampilhosa da Serra. Até à subida final, haverá uma segunda categoria, duas terceiras e uma quarta. Pouco antes da passagem pela Covilhã, o pelotão já estará a subir, passando pela zona muito complicada das Penhas da Saúde, antes de atacar a Torre. Ou seja, serão cerca de 24 quilómetros a subir, com uma pendente média de 6,3%. Porém, isto acontece porque há pequenas zonas de "descanso", inclusivamente uma ligeira descida, pois os ciclistas irão enfrentar durante vários quilómetros pendentes entre os seis e os 11%.


"A Torre por si só 'mata' muitos atletas no pensamento. Quando se entra na Torre já com 150 ou 160 quilómetros e começamos a pensar naquele percurso até ao alto... É temeroso para muitos", realçou. Para Rui Sousa é na mente que reside o maior segredo para se vencer na Serra da Estrela: "Primeiro tem de ser um ciclista talhado, que suba minimamente bem e depois, sobretudo, é a parte psicológica que é fundamental."

O antigo ciclista, de 42 anos, considera que era precisamente na parte mental que conseguia fazer a diferença, sentido-se sempre forte quando a subida começava. Ajudava, naturalmente, que fizesse da Torre o seu local de eleição de preparação: "Estagiei lá 20 anos na carreira a preparar a Volta. Escolhi sempre a Torre. Conheço quase tão bem como a minha terra."

E foi o momento de "regressar" a 2014, à sua segunda conquista, seis anos depois da primeira. "A oito quilómetros do alto, conseguir aquela vantagem, sentir aquela emoção toda até ao alto, sentir que ia vencer... É um sentimento que jamais consigo! Para mim é um misto de emoções tão grande que não consigo mesmo descrever", confessou. "A Torre marcou muito a minha carreira. Nunca venci uma Volta, mas fiz cinco pódios e foram todos conseguidos na etapa da Torre ou com a etapa da Torre, que era o dia em que eu conseguia dar a volta à Volta para ficar nos primeiros lugares", acrescentou.

"A Torre faz diferenças e quem quer ganhar a Volta tem de aproveitar estes momentos importantes para se destacar"

Rui Sousa, na Rádio Popular, foi o penúltimo a inscrever o seu nome como vencedor no ponto mais alto de Portugal Continental, a 1993 metros de altitude. O último foi o espanhol Delio Fernández (W52-OFM Quinta da Lixa), em 2015. Desde então que se passava, mas a etapa terminava noutro local. No ano passado, nem isso aconteceu, pois a subida foi anulada devido ao intenso calor.


Para o português, que se retirou há quase dois anos, a nível competitivo é muito diferente encarar uma etapa da Torre que passa por lá, ou que acaba lá: "Há uma preparação daquilo que é uma etapa a passar na Torre, a forma de atacar, todo o desenvolvimento, do que é uma etapa a acabar na Torre. As diferenças são sempre mais significativas. Não tem nada a ver."

Considera igualmente que apesar da subida surgir na primeira metade da corrida, não tirará emoção, nem irá ser enfrentada com o pensamento que há ainda muita Volta a Portugal pela frente: "A Torre faz diferenças e quem quer ganhar a Volta tem de aproveitar estes momentos importantes para se destacar."

Rui Sousa salientou ainda como a Volta a Portugal terá assim as suas duas subidas míticas, com a Senhora da Graça a estar novamente à espera do pelotão no penúltimo dia, antes do contra-relógio final. "É um percurso difícil. Há ligações de etapa que, teoricamente, serão mais fáceis, mas serão percursos sinuosos, em zonas muito quentes. A Volta tem essa particularidade, de ser numa altura com temperaturas elevadíssimas. Será uma corrida muito difícil. Acho que temos os ingredientes para assistirmos a uma grande Volta", analisou.

Contudo, apesar das muitas dificuldades, Rui Sousa é da opinião que o bloco da W52-FC Porto continuará a ser o mais forte. "Quando há uma equipa que tem esta supremacia, com vários atletas que podem vencer, pode jogar a Volta de uma forma muito diferente. Dificilmente poderemos ver uma situação diferente. O bloco é tão forte que poderá haver dificuldades para perceber quem vai vencer. Não tiro o valor a atletas de outras equipas, que podem ganhar [a Volta]. Mas o bloco da W52-FC Porto é muito forte", referiu.

A Volta a Portugal realiza-se entre 31 de Julho (Viseu) e 11 de Agosto (Porto). A etapa da Torre está agendada para dia 4 de Agosto, num domingo e Rui Sousa mais uma vez não tem dúvidas quanto à importância desta etapa mesmo para quem estará a assistir: "Com o regresso da Torre, a Volta terá outro encanto para os adeptos."




7 de agosto de 2018

Rui Sousa apresenta a sua história em livro: "O sonho é o princípio da conquista"

Viseu assistiu há quase um ano a última vez que Rui Sousa cortou a meta numa Volta a Portugal. Participou em alguns circuitos de Verão antes de definitivamente colocar o ponto final numa carreira que o consagrou como um dos ciclistas mais populares, com grandes vitórias, mas a quem faltou a Volta a Portugal, como o próprio o refere. O agora ex-ciclista regressou à cidade para mostrar o relato de uma vida reunido num livro que conta as suas histórias na modalidade, mas também revela as suas facetas de político, empresário e homem de família. "O sonho é o princípio da conquista" reúne toda uma vida de um dos corredores mais populares do pelotão nacional, em texto e em fotografias.

Aproveitando a pausa da Volta em Viseu, Rui Sousa apresentou a obra que estará à venda a partir de 4 de Setembro e deverá custar cerca de 16 euros. Recordou como ficou satisfeito pelo convite para preparar uma autobiografia. "Mas fiquei um pouco sem saber o que fazer. Foi uma edição feita em contra-relógio", contou. Foram cerca de seis meses de intenso trabalho com os autores Fernando Lebre e Paulo Rocha para que a apresentação pudesse ser feita neste dia. Rui Sousa não escondeu que, apesar das grandes vitórias que alcançou na carreira, não pensava ser merecedor de ter um livro sobre si. Porém, os autores mudaram a sua ideia.

Mesmo num momento seu, o ex-ciclista não deixou de pensar do intenso apoio quando competia, de uma claque leal e que sempre o motivou. "O livro é de todos os que me acarinharam", afirmou, acrescentando como o faziam acreditar nas vitórias. Só o sonho da Volta a Portugal ficou por realizar. "Sempre fui um sonhador. Não consegui na Volta, mas dei sempre o meu melhor na carreira", realçou.

Fernando Lebre, um dos autores, disse que a ideia do livro surgiu quando Rui Sousa venceu em Fafe, na sexta etapa da Volta em 2017. "É uma vitória que caracteriza o que foi o Rui como atleta e do que é um ciclista." Referiu ainda, que depois de muitas tardes passadas juntos e de horas e horas de conversas gravadas, percebeu que "todas as vitórias dele [Rui Sousa] nasceram da capacidade de sonhá-las". Daí o nome do livro, da editora Livros Horizonte.

O prefácio é de Tavares Rijo e as fotografias de João Fonseca, que estiveram presentes numa apresentação que contou ainda com a presença de José Santos, o último director desportivo de Rui Sousa, na Rádio Popular-Boavista, entre muitas outras pessoas especiais para o antigo ciclista.

Rui Sousa, 42 anos, é ao actual presidente da Associação Portuguesa de Ciclistas Profissionais e mantém-se como presidente da União de Freguesias de Barroselas e Carvoeiro, depois de ter ganho novamente as eleições. No final da apresentação, Sousa não evitou as lágrimas. "Vocês sabem como eu sou", brincou, emocionado pelas palavras que o director da Volta a Portugal, Joaquim Gomes, lhe dirigiu, ao recordar uma vitória de Rui Sousa na Serra da Estrela.


30 de dezembro de 2017

2017 marcou o final de carreira de algumas grandes figuras do ciclismo

(Fotografia: Twitter Alberto Contador)
Esta temporada foi a última para alguns ciclistas que marcaram o pelotão na última década (ou mais) no ciclismo. O destino quis que dois dos mais idolatrados decidem-se que tinha chegado o momento em 2017. Primeiro foi Tom Boonen, que escolheu o "seu" Paris-Roubaix para última corrida. Meses depois Alberto Contador considerou que a Vuelta seria o palco ideal para dar as últimas pedaladas. Sem as vitórias do belga e do espanhol, Thomas Voeckler também deixou a sua marca. Por cá, o ciclismo nacional despediu-se de Rui Sousa, uma referência da modalidade que desta vez não adiou mais o abandono, mas antes teve um derradeiro grande momento na Volta a Portugal.

Aqui ficam alguns dos abandonos que marcam 2017.

Alberto Contador, 35 anos
Apostou a época na Volta a França e a Trek-Segafredo deu-lhe essa liberdade. No entanto, Alberto Contador não conseguiu ser uma ameaça a Chris Froome e à concorrência mais forte. O espanhol percebeu que o seu melhor já tinha passado e anunciou que a Vuelta seria a última corrida. Sonhava com um final perfeito, mas logo na primeira etapa de montanha, Contador ficou praticamente fora das contas. Foi recuperando, mas se tudo o que correu mal levou até àquela subida no Angliru, então valeu a pena a espera por um último disparo de El Pistolero. Uma última grande exibição! E foi mesmo! Seguiu-se aquela volta de glória em Madrid antes do pelotão discutir a etapa. Ponto final na carreira de um dos melhores da história do ciclismo. Dois Tours e dois Giros, três Vueltas, sete Voltas ao País Basco, dois Paris-Nice... 68 vitórias no total e muito espectáculo.

Mas Espanha viu ainda mais ciclistas abandonarem o ciclismo: Ángel Vicioso (40) e Alberto Losada (35), ambos da Katusha-Alpecin, Haimar Zubeldia (40) e um dos fiéis escudeiros de Contador, Jesús Hernández (36), da Trek-Segafredo. É altura da nova geração espanhola se mostrar.

Tom Boonen, 37 anos
Um dos reis das clássicas. Há um ano foi Fabian Cancellara, agora o ciclismo ficou sem o outro grande animador das corridas de um dia dos últimos anos. Boonen já estava algo afastado das grandes exibições, mas apareceu em 2017 convicto que poderia ter uma despedida em grande. Estava marcada logo para Abril, no Paris-Roubaix. Queria sair com uma quinta conquista, algo que o tornaria no primeiro a alcançar esse número. Não houve final de conto de fadas, mas o seu nome foi ecoado antes e depois por muitos adeptos. Boonen é um ícone que será recordado pelos incríveis números e exibições. 119 vitórias e além dos quatros monumentos em França, tem ainda mais três na Volta a Flandres, seis etapas no Tour e o título mundial, em 2005.

Thomas Voeckler, 38 anos
Não será recordado pelas grandes vitórias como Contador e Boonen, mas aquele estilo inconfundível do francês não será esquecido. Um lutador nato, aquela língua de fora não enganava quem estava ali. Aquela Volta a França em 2011 foi um dos seus grandes momentos. Foram 10 dias de amarelo e praticamente em todos se dizia que iria perdê-la. De facto acabou por ficar sem ela, mas foi incrível como enfrentou tudo e todos, quebrando as expectativas. Faltou-lhe um pódio para talvez consagrar a sua carreira, mas entre as 40 vitórias, quatro são de etapas no Tour, corrida que escolheu para este ano se despedir.

Andrew Talansky, 29 anos
Quando parecia que o americano estava a recuperar alguma confiança para tentar ainda confirmar um pouco do que tanto se esperava dele, Talansky provocou uma enorme surpresa ao anunciar que colocava um ponto final numa carreira que tanto prometeu, mas que nunca se confirmou. Talansky sentiu que estava na altura de procurar novos desafios e encontrou-os no triatlo, modalidade na qual já ganha. As sete vitórias, destacando-se o Critérium du Dauphiné, em 2014, sabem a pouco.

Tyler Farrar, 33 anos
Mais um ciclista que ficou um pouco aquém das expectativas. No início da década, Farrar prometeu muito com vitórias no Giro (duas), na Vuelta (três) e no Tour (uma). Porém, foi-se eclipsando e apesar da mudança para a então MTN-Qhubeka, actual Dimension Data, não conseguiu encontrar a sua melhor forma, para fazer frente aos principais sprinters. A equipa sul-africana confiava no americano, que soube sempre ser um ciclista que pensava no colectivo e não apenas no sucesso pessoal.

Jurgen van der Broeck, 34 anos
Quando se fala de ciclistas que não concretizaram todo o seu potencial, o que será o que os belgas dirão de Van der Broeck? Fez praticamente toda a sua carreira na estrutura da Lotto e ano após ano foi considerado um candidato a algo mais que um top dez numa grande volta. Mas nunca foi além disso, de um candidato e de um ciclista de top dez, que alcançou no Giro, Tour e Vuelta. Só tem duas vitórias: um título nacional de contra-relógio e uma etapa do Critérium du Dauphiné. Esteve um ano na Katusha-Alpecin e outro na Lotto-Jumbo, mas já praticamente ninguém se lembrava que estava sequer em prova, tão discretas foram as performances. Qualidades de trepador e voltista tinha, mas nunca conseguiu estar ao nível das principais figuras. Faltou-lhe equipa em alguns momentos, mas também pareceu faltar... aquele clique.

Adriano Malori, 29 anos
Teve uma recuperação considerada milagrosa depois de uma queda na Argentina que o deixou em coma. Porém, o italiano não mais conseguiu encontrar o ritmo necessário para estar ao mais alto nível no pelotão. Nas poucas provas em que participou, inclusivamente na Volta ao Alentejo, não as terminou e percebeu que a sua carreira tinha chegado ao fim. Anunciou durante a Volta a França, com a Movistar a perder um excelente homem de trabalho, com capacidade para também ele tentar algumas vitórias, sendo ainda um dos melhores contra-relogistas da actualidade.

Christophe Riblon, 36 anos
Foi toda uma carreira na AG2R. Tanto foi um fiel homem de trabalho, como soube mostrar-se quando lhe foi dada alguma liberdade. Ganhou duas etapas no Tour, o que para um francês ser mais especial, só se estiver no pódio nos Campos Elísios. Porém, o ciclismo tem destas coisas. Uma carreira dedicada a uma equipa que não lhe renovou agora o contrato. Riblon não estava a pensar em retirar-se, mas não conseguiu lugar noutra equipa e optou pelo adeus.

Rui Sousa, 41 anos
Foram mais de 20 anos no pelotão nacional. Rui Sousa tornou-se numa das vozes mais importantes do ciclismo nacional e num ciclista admirado por muitos. A sua forma de correr, sempre com garra, sempre com vontade de dar espectáculo e de procurar vitórias transformaram Rui Sousa num dos ciclistas com mais adeptos. Esteve para retirar-se em 2016, mas cedeu aos pedidos dos fãs e da equipa, Rádio Popular-Boavista, para competir mais um ano. Estava decidido que 2017 seria mesmo o último e se lutar pela Volta a Portugal cedo terminou, Fafe foi o palco de um último espectáculo bem ao seu estilo. Cortou a meta isolado, aplaudido por todos. O adeus merecido. Pódios e top dez tornaram-se normais, mas faltou-lhe a vitória na geral. De recordar que fez a Volta a Espanha em 2002, terminando na 16ª posição.

Mais algumas despedidas: Paolo Tiralongo (Astana), Manuel Quinziato e Martin Elmiger (BMC), Martin Velits (Quick-Step Floors), Twan Castelijns (Lotto-Jumbo), Cédric Pineau (FDJ), Ondrej Cink (Bahrain-Merida), Albert Timmer (Team Sunweb) e Lars Peter Nordhaug (Aqua Blue Sport).

»»Houve mesmo um último disparo. Gracias Contador««

»»A promessa nunca confirmada que acaba a carreira aos 28 anos««

20 de novembro de 2017

Objectivos cumpridos, expectativas confirmadas... Menos uma

José Santos apostou para 2017 em ciclistas com características de lutadores, de quem gosta de entrar em fugas, de mexer com a corrida. Proporcionou o regresso a Portugal de Domingos Gonçalves, numa aposta mais do que ganha. João Benta voltou a uma casa que bem conhecia e isso traduziu-se em resultados. Filipe Cardoso não resistiu ao convite de estar ao lado do amigo Rui Sousa, antes de este se despedir. Além de quatro ciclistas espanhóis, a maior surpresa chegou já com a temporada a decorrer: Egor Silin. O corredor ficou sem espaço na Katusha após a reformulação do modelo da equipa, que passou a ser suíça e mais internacional a nível de ciclistas, ou seja, reduzindo drasticamente o contingente russo.

Ver uma camisola da Rádio Popular-Boavista na frente da corrida foi algo que se repetiu durante o ano. A equipa tinha ciclistas para os mais diversos percursos que foram surgindo, mas a vitória demorou a chegar. David Rodrigues abriu a contagem no Grande Prémio de Mortágua, com Domingos Gonçalves a quase proporcionar o fim-de-semana perfeito nos Nacionais. Pouco depois de ver o irmão gémeo, José, ganhar a sua primeira corrida - o Ster ZLM - ao serviço de uma equipa do World Tour, a Katusha-Alpecin, Domingos sagrou-se campeão nacional de contra-relógio e estava bem encaminhado para vestir a mesma camisola, mas na prova em linha. Uma queda estragou-lhe os planos.


Ranking nacional: 5º (1425 pontos)
Vitórias: 7 (incluindo o título nacional de contra-relógio e uma etapa na Volta a Portugal)
Ciclista com mais triunfos: Domingos Gonçalves (3)

Antes da Volta a Portugal, João Benta venceu uma etapa no Troféu Joaquim Agostinho, até que chegou a corrida mais esperada, até porque seria a última Grandíssima para Rui Sousa. A Rádio Popular-Boavista queria ver o seu líder e um dos ciclistas mais admirado e respeitado do pelotão nacional sair em grande, mas ganhar uma etapa na Volta a Portugal era o principal objectivo, fosse com quem fosse. Domingos Gonçalves esteve perto de conquistar a camisola amarela no prólogo, mas acabaria mesmo por ser Rui Sousa a ter o seu final de conto de fadas. Ou o mais próximo disso. Não ganhou a Volta, nem, foi ao pódio mas ganhou uma última tirada. Em Fafe houve festa e lágrimas. Sem este momento a época da equipa teria ficado com um vazio. Rui Sousa teve a despedida merecida.

Domingos Gonçalves ainda apareceu no final de temporada para ganhar o Troféu Concelhio de Oliveira de Azeméis e o Circuito de São Bernardo, em Alcobaça, enquanto Luís Gomes venceu o Circuito de Nafarros.

A equipa da Rádio Popular-Boavista cumpriu com os objectivos de temporada, pois há ainda que não esquecer que João Benta fechou top dez (sétimo) na Volta a Portugal. Esperava-se um pouco mais de Egor Silin, mas talvez também seja por as expectativas serem tão altas tendo em conta os sete anos de experiência do World Tour. Ainda se mostrou na Volta a Portugal, mas soube a pouco. Vamos ver o russo novamente ao serviço de José Santos em 2018. É um ciclista de qualidade e o director desportivo espera certamente tirar um maior rendimento de Silin, agora já completamente adaptado à realidade portuguesa. A sua importância será ainda maior numa altura em que se inicia um novo ciclo na estrutura: a vida pós-Rui Sousa.

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»»Pelotão nacional de 2018 vai ganhando forma««

10 de agosto de 2017

Em dia de muito espectáculo venceu o ciclista que tanto gosta de os dar

(Fotografia: Podium/Volta a Portugal)
"Vai Rui! Vai!" Na berma da estrada era audível o apoio a Rui Sousa. Se há ciclista rapidamente reconhecido na Volta a Portugal é este veterano que habituou os portugueses a um ciclismo de ataque, a um ciclismo de espectáculo. É certo que foram muitas as vezes que os ataques não deram em nada. Mas de quando em vez resultam mesmo! Em Fafe o risco compensou. Mais do que risco foi a vontade enorme de vencer num ano em que termina uma carreira de 20 anos.

Em momentos como este a emoção do que o ciclista sabe ser o momento que tanto deseja supera a dor de pernas, supera tudo. A Senhora da Graça tirou-lhe o sonho da geral, mas Fafe deu-lhe a alegria de uma vitória celebrada por todos, até pelos rivais. Talvez ninguém seja mais respeitado que Rui Sousa no pelotão nacional e vê-lo vencer nesta recta final da carreira dá um brilho diferente à Volta a Portugal.

Rui Sousa não conteve as lágrimas após a vitória
(Fotografia: Podium/Volta a Portugal)
Vicente García de Mateos (Louletano-Hospital de Loulé), Raúl Alarcón (W52-FC Porto e líder da corrida) e Henrique Casimiro (Efapel) foram os primeiros a felicitar Rui Sousa, enquanto João Benta largava a bicicleta para se agarrar ao colega de equipa. Sousa não segurou as lágrimas e o director desportivo, José Santos, também não. Depois de tanto sofrer naqueles quilómetros finais em que o grupo de perseguidores ameaçou aproximar-se, Sousa deu tudo o que tinha e mais um pouco. Objectivo cumprido. Agora Sousa pode despedir-se sabendo que sai em grande.

Esta sexta-feira, dia de descanso da Volta a Portugal, o ciclista da Rádio Popular-Boavista irá dar uma conferência de imprensa na qual deverá confirmar um adeus anunciado já no ano passado e confirmado durante 2017. Os colegas bem querem que ele continue. Será que os apelos voltaram a surtir efeito? 2016 era suposto ter sido o último da carreira, mas depois mudou de ideias perante tantos pedidos da equipa e dos adeptos.

Seja qual for a decisão de Rui Sousa, numa Volta a Portugal em que tanto se fala do domínio da W52-FC Porto, o veterano deu outra cor à corrida. Será um dia recordado por muito tempo e não é só por causa de Sousa. A etapa foi um grande espectáculo de ciclismo. Aquela subida do Viso partiu o pelotão, mas antes os ataques já tinham começado (Rui Sousa esteve na fuga antes de ser alcançado pelo grupo do camisola amarela).

Enquanto Sousa lutava por um momento de glória, Alejandro Marque lutava para continuar como candidato à geral. O espanhol não resistiu ao ritmo da equipa de Raúl Alarcón e quando tentou reentrar foi o próprio camisola amarela que acelerou para garantir que um bom contra-relogista como o homem do Sporting-Tavira ficava de fora. Missão cumprida, Marque está agora a 1:56 minutos. Mas a equipa algarvia ainda tem um Rinaldo Nocentini em grande forma e agora o líder assumido da formação de Vidal Fitas.

Também Vicente García de Mateos esteve novamente em bom nível, repetindo o segundo lugar na etapa, como fez em Viana do Castelo. Já Sérgio Paulinho não deixou as melhores das indicações. Descolou no Viso, tal como Henrique Casimiro. Os dois e Bruno Silva fizeram um autêntico contra-relógio por equipas para se juntar à frente da corrida. Conseguiram, mas na segunda montanha de primeira categoria da corrida, Paulinho cedeu outra vez.

Esta sexta-feira é dia de descanso, antes de se arrancar para os quatro dias de decisão de uma Volta dominada pela W52-FC Porto, mas que ainda não está resolvida devido às curtas diferenças que deixam tudo em aberto tendo em conta que tudo termina com um contra-relógio, em Viseu.

Veja aqui as classificações.

»»Oh Rui, fica lá mais um ano... Ou mesmo até aos 50!««

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5 de agosto de 2017

Oh Rui, fica lá mais um ano... Ou mesmo até aos 50!

Rui Sousa e o adeus à Volta a Portugal. É um dos temas mais falados e independentemente do que vá acontecendo durante a corrida, o nome do ciclista irá ser referido vezes sem conta. E com razão. Afinal falamos de um dos homens que marcou gerações, que conquistou uma legião de adeptos que adoram o seu ciclismo de ataque, que respeitam a forma como sempre encarou as corridas, com uma determinação de que não há impossíveis. Há um ano adiou a despedida. Em 2017 diz que não há volta à dar. Os colegas não perdem a esperança de ainda o fazer mudar de ideias, mas como para já se mantém a decisão do adeus, então os ciclistas da Rádio Popular-Boavista estão determinados em ajudar o seu líder em ter uma despedida em grande.

41 anos, 20 de profissionalismo, 13 top dez na Volta a Portugal, cinco presenças no pódio. Falta-lhe chegar ao lugar mais alto. A equipa está recheada de ciclistas de ataque e com capacidade de em qualquer etapa ir à procura de um resultado. Praticamente todos querem lutar por isso, mas todos estão unidos em assegurar que Rui Sousa sai como merece. O Volta ao Ciclismo falou com os sete que estarão no apoio ao veterano e comum é o sentimento que estão perante um ciclista que muito tem dado ao ciclismo e que muito tem ajudado os mais novos. Por isso mesmo, preferiam que ficasse até aos 50 anos!

Filipe Cardoso é mais que um colega. É um amigo. É uma amizade que dura há muito e que até acabou por influenciar na hora de decidir em deixar a Efapel e rumar à Rádio Popular-Boavista. "Seria uma grande alegria para mim se o Rui ganhasse a geral. Ele já demonstrou noutros anos que consegue estar na luta. Não é fácil, mas penso que no fundo, no fundo, ele ainda sonha com esse triunfo que lhe assentaria tão bem", realçou. Filipe Cardoso assegura que o companheiro "está bem" e que só falta saber como estará a concorrência.

Domingos Gonçalves ficou a dois segundos de ser o primeiro líder da Volta a Portugal. Vestir a camisola amarela seria um sonho, mas ficaria satisfeito se Rui Sousa a tivesse em Viseu. "Para o Rui acabar em grande é tentar ganhar a Volta. Eu vou ajudá-lo ao máximo. Se não for para ganhar a Volta, que seja uma etapa."

João Benta foi ainda mais longe. Ele que é um dos candidatos a estar pelo menos do top dez, admitiu que abdicaria de uma vitória se isso significasse que Rui Sousa fosse o vencedor. "Ganhar é sempre bom, mas o Rui sabe que se chegasse com ele o deixaria ganhar. Sei que ele ficaria orgulhoso. Eu tenho mais voltas para fazer e mais vitórias para conquistar", salientou. "Olhando bem para ele... correria bem até aos 50 anos", acrescentou João Benta que é um dos que mantém a esperança que Rui Sousa altere a decisão. Mas: "Temos de aceitar. A vida dele está encaminhada para outros rumos e ele sabe o que é melhor para ele."

Há três anos que David Rodrigues tem o privilégio de partilhar a sua carreira com Rui Sousa, não hesitando em dizer que "é um excelente companheiro". "O Rui é um dos melhores ciclistas a nível nacional. Estamos com ele e vamos à luta todos juntos", frisou. Rodrigues referiu como tem sido ajudado pelo colega, não tendo dúvidas que fará falta ao ciclismo. "Temos muito a aprender com ele." E fica a confissão que a equipa vai continuar a tentar que não acabe já a carreira.

Enquanto Rui Sousa faz a última Volta, Luís Gomes faz a primeira. "Vou ajudá-lo em tudo o que puder para que possa discutir a Volta e, se possível, ganhar uma etapa. Seria uma excelente despedida para ele." O discurso repete-se, mas nunca é de mais o fazer: "É um excelente companheiro. Ele tem-me ajudado a ser um melhor atleta e uma melhor pessoa."

Também o espanhol Pablo Guerrero faz a sua estreia e afirmou que ficaria muito orgulhoso se ajudasse Rui Sousa a pelo menos vencer uma etapa. "É um ciclista com muita experiência e é verdade que nos ajuda muito, dá-nos muitos conselhos e é uma pena que acabe a carreira", disse. Acrescentou: "É uma super pessoa e gostava de partilhar mais anos no ciclismo com ele."

Outro estreante é Egor Silin, ainda que o russo já tenha mais expriência, tendo passado pela Katusha-Alpecin. Um pouco mais parco em palavras, fruto também da sua personalidade mais reservada, Silin afirmou: "Claro que quero ajudar o Rui. Gosto sempre de ajudar pessoas como ele. Tem-me ajudado e dá-me conselhos. Tem muita experiência e sabe muito de como se deve correr."

Os elogios não faltam, a vontade é enorme. Agora é esperar para ver se Rui Sousa tem a despedida em grande que os colegas tanto desejam ou será que ainda o convencem a mudar de opinião?

29 de março de 2017

"Gostaria de retirar-me como campeão nacional"

É desta. Não há volta a dar. Não haverá pedido nem da equipa, nem das pessoas que na berma da estrada no ano passado apelaram à continuidade do ciclista quando este passava numa corrida. Em 2016 acabou por não resistir e cedeu competir mais um ano, adiando uma anunciada retirada. Mas agora será mesmo de vez. Rui Sousa prepara-se para abandonar o pelotão nacional depois de 20 anos ao mais alto nível, depois de 20 anos a dar espectáculo e a entusiasmar todos os que gostam de ciclistas que lutam e lutam e lutam durante praticamente todas as corridas em que participam. "Há que dar lugar aos mais jovens. Claro que vai deixar saudades, afinal são muitos anos neste pelotão. Mas entendo que chegou a minha vez", salientou ao Volta ao Ciclismo.

Rui Sousa já vai preparando a próxima fase da sua vida. Não abre muito o livro sobre os seus planos, mas espera que uma parte deles possa passar pelo ciclismo: "Como é natural gostaria de permanecer ligado à modalidade porque isto é uma família, mas ainda não há nada definido." O ciclista de 40 anos diz estar a encarar este último ano da carreira mais tranquilo e tem os objectivos bem definidos. "Gostaria de estar bem no Campeonato Nacional. Gostaria de retirar-me como campeão nacional. Já venci em 2010... Sei que é difícil, mas tentarei estar o melhor possível. Depois é pensar na Volta a Portugal", explicou.

"Gostaria de dar alguma alegria à Volta, dar o meu contributo, estar ali nos ataque e contra-ataques... No fundo é isso que eu quero para a Volta a Portugal. Mas claro que lutarei por um lugar de destaque"

O ciclista confessa, mais uma vez, que é a Volta a Portugal que o motiva e se ganhar seria simplesmente perfeito, mas Rui Sousa considera que um "top dez será sempre bom". "Já tenho 13 e cinco foram pódio. Ficaria muito feliz se ganhasse a Volta, isso nem se discute, mas também ficarei muito feliz se ganhar uma etapa e, acima de tudo, se aos 41 anos - idade que terei na Volta a Portugal - conseguir dar espectáculo. Gostaria de dar alguma alegria à Volta, dar o meu contributo, estar ali nos ataque e contra-ataques... No fundo é isso que eu quero para a Volta a Portugal. Mas claro que lutarei por um lugar de destaque", garantiu.

É um dos ciclistas mais acarinhados pelo público e Rui Sousa admite que sente esse carinho. "Tenho 20 anos de carreira, alcancei alguns lugares de destaque na Volta, ganhei duas vezes na Torre, Senhora da Graça... São etapas míticas e isso marca um pouco as pessoas. E depois eu sou aquele velhote que anda aqui e que de vez em quando vai fazendo qualquer coisita!" Sempre bem disposto, Rui Sousa não tem problemas em referir que tem de "ir mais poupado que outros" ciclistas para as corridas que marcou como objectivos, explicando porque tem andado discreto neste início de temporada: "Não me encontro, nem pouco mais ou menos, nas melhores condições e nesta primeira fase e atendendo que este ano há bastante corridas, quero estar o melhor possível e apontar aos principais objectivos."

"Irei fazer alguns circuitos. Têm um ambiente diferente, mais festivo. Vou competir até ao final do ano"

Acrescentou que "os mais jovens é que têm de estar na ribalta", recordando que uma das razões que acabou por prolongar a carreira mais um ano, foi precisamente para ajudar na formação dos jovens que fazem parte da Rádio Popular-Boavista. Mas afinal, como é encarar as corridas sabendo que será a última vez que as faz? "Deixa sempre um sabor diferente. São 20 anos de profissionalismo, corro desde os 12... É uma parte da minha vida. No entanto, começa-se a sentir que é o último ano quando se percebe que, apesar de treinar diariamente, a motivação e a frescura [física] já não é como há 20 anos", frisou. Disse ainda que os projectos que vai tendo na sua vida não lhe permitem descansar como deveria, mas que tem de preparar o futuro.

Se a Volta a Portugal será o derradeiro grande momento da carreira de Rui Sousa, o ciclista afirmou que não irá retirar-se logo a seguir à competição. "Irei fazer alguns circuitos. Têm um ambiente diferente, mais festivo. Vou competir até ao final do ano." O que significa que a despedida poderá acontecer em Tavira a 5 de Outubro, se o corredor marcar presença na derradeira corrida da temporada.

Não há hesitações neste adeus. Não haverá apelos das pessoas que o façam adiar novamente a retirada, ainda que certamente que se farão ouvir: "Agradeço estes anos todos em que as pessoas me apoiaram muito, mas terão de me ver pela última vez nesta Volta a Portugal, com 41 anos, a dar o meu melhor e a tentar dar um bom espectáculo à corrida. E pronto... Será assim..."



26 de setembro de 2016

"Desde o início da Volta a Portugal que as pessoas me diziam 'mais um ano, mais um ano'"

Ao fim de 19 anos como profissional Rui Sousa considerou que era altura de abandonar a competição. Era esse o seu plano, mas o ciclista não resistiu a um pedido da equipa e também ao apelo de centenas de pessoas que nas estradas por onde passou a Volta a Portugal foram pedindo para que ficasse mais um ano.

"Desde o início da Volta que as pessoas me pediam 'mais um ano, mais um ano, mais um ano'. E não eram duas ou três, eram dezenas... centenas...", recordou Rui Sousa numa curta conversa com o Volta ao Ciclismo, pois preparava-se começar um dos circuitos que fecham a temporada em Portugal. Para o veterano ciclista, este pedido "tem a ver com a longevidade". "As pessoas habituaram-se a ver-me durante tantos anos... é um carinho muito especial e para mim é uma mais valia e que, naturalmente, me deu força para continuar mais um ano", salientou.

"A Volta a Portugal mexe mesmo comigo. É a corrida onde consigo ter uma motivação extra"

E Rui Sousa é mesmo uma referência entre o público. A sua forma de correr sempre lhe valeu o respeito e admiração dos adeptos. Para Rui Sousa não existe impossível e destacou-se vezes sem conta pela forma como lutou por vitórias de etapa... pela vitória na sua querida Volta a Portugal. Nunca conseguiu. Subiu cinco vezes ao pódio e terminou 14 vezes no top dez, inclusivamente este ano. "A Volta mexe mesmo comigo. É a corrida onde consigo ter uma motivação extra. Não é que nas outras não esteja motivado, mas a Volta dá uma motivação extra para treinar, para trabalhar cada vez mais e fazer ali o melhor possível", confessou.

O ciclista reforçou que se sente "perfeitamente bem" na Volta a Portugal, que lhe dá "um ânimo muito grande" e, por isso, podemos esperar novamente um Rui Sousa a tentar dar o seu melhor em 2017, apesar de então já contar 41 anos. Mas na Volta é como se rejuvenescesse.

Nono na edição deste ano, a 6:44 do vencedor Rui Vinhas (W52-FC Porto), Rui Sousa afirmou estar satisfeito com o que fez em 2016: "Sendo eu um ciclista com uma idade bastante alta e atendendo ao que foi a temporada, acho que estive bem em dois ou três momentos. E quando a equipa me pediu para estar melhor, encontrei-me bem. Mas perante a fortaleza dos adversários... foi o possível e estou satisfeito com a minha temporada."

Garantiu que 2017 será mesmo o último ano, referindo que foi durante a Volta a Portugal que surgiu o convite da Rádio Popular-Boavista para não terminar a carreira como estava a planear. E um dos objectivos será ajudar os mais jovens a evoluir. Sendo Rui Sousa não só a voz da experiência do pelotão nacional, mas também uma voz de liderança, muito se tem a aprender com um dos ciclistas mais acarinhados pelo público português e dos mais respeitados no ciclismo.