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30 de dezembro de 2017

2017 marcou o final de carreira de algumas grandes figuras do ciclismo

(Fotografia: Twitter Alberto Contador)
Esta temporada foi a última para alguns ciclistas que marcaram o pelotão na última década (ou mais) no ciclismo. O destino quis que dois dos mais idolatrados decidem-se que tinha chegado o momento em 2017. Primeiro foi Tom Boonen, que escolheu o "seu" Paris-Roubaix para última corrida. Meses depois Alberto Contador considerou que a Vuelta seria o palco ideal para dar as últimas pedaladas. Sem as vitórias do belga e do espanhol, Thomas Voeckler também deixou a sua marca. Por cá, o ciclismo nacional despediu-se de Rui Sousa, uma referência da modalidade que desta vez não adiou mais o abandono, mas antes teve um derradeiro grande momento na Volta a Portugal.

Aqui ficam alguns dos abandonos que marcam 2017.

Alberto Contador, 35 anos
Apostou a época na Volta a França e a Trek-Segafredo deu-lhe essa liberdade. No entanto, Alberto Contador não conseguiu ser uma ameaça a Chris Froome e à concorrência mais forte. O espanhol percebeu que o seu melhor já tinha passado e anunciou que a Vuelta seria a última corrida. Sonhava com um final perfeito, mas logo na primeira etapa de montanha, Contador ficou praticamente fora das contas. Foi recuperando, mas se tudo o que correu mal levou até àquela subida no Angliru, então valeu a pena a espera por um último disparo de El Pistolero. Uma última grande exibição! E foi mesmo! Seguiu-se aquela volta de glória em Madrid antes do pelotão discutir a etapa. Ponto final na carreira de um dos melhores da história do ciclismo. Dois Tours e dois Giros, três Vueltas, sete Voltas ao País Basco, dois Paris-Nice... 68 vitórias no total e muito espectáculo.

Mas Espanha viu ainda mais ciclistas abandonarem o ciclismo: Ángel Vicioso (40) e Alberto Losada (35), ambos da Katusha-Alpecin, Haimar Zubeldia (40) e um dos fiéis escudeiros de Contador, Jesús Hernández (36), da Trek-Segafredo. É altura da nova geração espanhola se mostrar.

Tom Boonen, 37 anos
Um dos reis das clássicas. Há um ano foi Fabian Cancellara, agora o ciclismo ficou sem o outro grande animador das corridas de um dia dos últimos anos. Boonen já estava algo afastado das grandes exibições, mas apareceu em 2017 convicto que poderia ter uma despedida em grande. Estava marcada logo para Abril, no Paris-Roubaix. Queria sair com uma quinta conquista, algo que o tornaria no primeiro a alcançar esse número. Não houve final de conto de fadas, mas o seu nome foi ecoado antes e depois por muitos adeptos. Boonen é um ícone que será recordado pelos incríveis números e exibições. 119 vitórias e além dos quatros monumentos em França, tem ainda mais três na Volta a Flandres, seis etapas no Tour e o título mundial, em 2005.

Thomas Voeckler, 38 anos
Não será recordado pelas grandes vitórias como Contador e Boonen, mas aquele estilo inconfundível do francês não será esquecido. Um lutador nato, aquela língua de fora não enganava quem estava ali. Aquela Volta a França em 2011 foi um dos seus grandes momentos. Foram 10 dias de amarelo e praticamente em todos se dizia que iria perdê-la. De facto acabou por ficar sem ela, mas foi incrível como enfrentou tudo e todos, quebrando as expectativas. Faltou-lhe um pódio para talvez consagrar a sua carreira, mas entre as 40 vitórias, quatro são de etapas no Tour, corrida que escolheu para este ano se despedir.

Andrew Talansky, 29 anos
Quando parecia que o americano estava a recuperar alguma confiança para tentar ainda confirmar um pouco do que tanto se esperava dele, Talansky provocou uma enorme surpresa ao anunciar que colocava um ponto final numa carreira que tanto prometeu, mas que nunca se confirmou. Talansky sentiu que estava na altura de procurar novos desafios e encontrou-os no triatlo, modalidade na qual já ganha. As sete vitórias, destacando-se o Critérium du Dauphiné, em 2014, sabem a pouco.

Tyler Farrar, 33 anos
Mais um ciclista que ficou um pouco aquém das expectativas. No início da década, Farrar prometeu muito com vitórias no Giro (duas), na Vuelta (três) e no Tour (uma). Porém, foi-se eclipsando e apesar da mudança para a então MTN-Qhubeka, actual Dimension Data, não conseguiu encontrar a sua melhor forma, para fazer frente aos principais sprinters. A equipa sul-africana confiava no americano, que soube sempre ser um ciclista que pensava no colectivo e não apenas no sucesso pessoal.

Jurgen van der Broeck, 34 anos
Quando se fala de ciclistas que não concretizaram todo o seu potencial, o que será o que os belgas dirão de Van der Broeck? Fez praticamente toda a sua carreira na estrutura da Lotto e ano após ano foi considerado um candidato a algo mais que um top dez numa grande volta. Mas nunca foi além disso, de um candidato e de um ciclista de top dez, que alcançou no Giro, Tour e Vuelta. Só tem duas vitórias: um título nacional de contra-relógio e uma etapa do Critérium du Dauphiné. Esteve um ano na Katusha-Alpecin e outro na Lotto-Jumbo, mas já praticamente ninguém se lembrava que estava sequer em prova, tão discretas foram as performances. Qualidades de trepador e voltista tinha, mas nunca conseguiu estar ao nível das principais figuras. Faltou-lhe equipa em alguns momentos, mas também pareceu faltar... aquele clique.

Adriano Malori, 29 anos
Teve uma recuperação considerada milagrosa depois de uma queda na Argentina que o deixou em coma. Porém, o italiano não mais conseguiu encontrar o ritmo necessário para estar ao mais alto nível no pelotão. Nas poucas provas em que participou, inclusivamente na Volta ao Alentejo, não as terminou e percebeu que a sua carreira tinha chegado ao fim. Anunciou durante a Volta a França, com a Movistar a perder um excelente homem de trabalho, com capacidade para também ele tentar algumas vitórias, sendo ainda um dos melhores contra-relogistas da actualidade.

Christophe Riblon, 36 anos
Foi toda uma carreira na AG2R. Tanto foi um fiel homem de trabalho, como soube mostrar-se quando lhe foi dada alguma liberdade. Ganhou duas etapas no Tour, o que para um francês ser mais especial, só se estiver no pódio nos Campos Elísios. Porém, o ciclismo tem destas coisas. Uma carreira dedicada a uma equipa que não lhe renovou agora o contrato. Riblon não estava a pensar em retirar-se, mas não conseguiu lugar noutra equipa e optou pelo adeus.

Rui Sousa, 41 anos
Foram mais de 20 anos no pelotão nacional. Rui Sousa tornou-se numa das vozes mais importantes do ciclismo nacional e num ciclista admirado por muitos. A sua forma de correr, sempre com garra, sempre com vontade de dar espectáculo e de procurar vitórias transformaram Rui Sousa num dos ciclistas com mais adeptos. Esteve para retirar-se em 2016, mas cedeu aos pedidos dos fãs e da equipa, Rádio Popular-Boavista, para competir mais um ano. Estava decidido que 2017 seria mesmo o último e se lutar pela Volta a Portugal cedo terminou, Fafe foi o palco de um último espectáculo bem ao seu estilo. Cortou a meta isolado, aplaudido por todos. O adeus merecido. Pódios e top dez tornaram-se normais, mas faltou-lhe a vitória na geral. De recordar que fez a Volta a Espanha em 2002, terminando na 16ª posição.

Mais algumas despedidas: Paolo Tiralongo (Astana), Manuel Quinziato e Martin Elmiger (BMC), Martin Velits (Quick-Step Floors), Twan Castelijns (Lotto-Jumbo), Cédric Pineau (FDJ), Ondrej Cink (Bahrain-Merida), Albert Timmer (Team Sunweb) e Lars Peter Nordhaug (Aqua Blue Sport).

»»Houve mesmo um último disparo. Gracias Contador««

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3 de dezembro de 2017

Um ano em que as atenções dividiram-se entre Uran e o director da equipa

Uran venceu uma etapa no Tour, foi segundo na geral e acabou o ano a vencer
a Milano-Torino (Fotografia: Facebook Cannondale-Drapac)
É difícil escolher uma figura de destaque na Cannondale-Drapac. A dúvida é entre Rigoberto Uran, que regressou ao seu melhor, e Jonathan Vaughters, o director que lá vai conseguindo tirar uns coelhos da cartola e manter a equipa viva, mesmo depois de anunciar que já não dava mais. Se há um exemplo a tirar desta estrutura, é como viver na corda bamba e terminar o ano com um sorriso. Não só sobreviveu, como até conquistou novamente grandes vitórias. Seria perfeito dizer que pode ser o início de uma nova fase, muito mais tranquila e de sucesso, contudo, não deverá ser bem assim.

É justo começar pelo que de bom aconteceu a uma equipa que há dois anos nem uma vitória no World Tour conseguia. Apesar de ciclistas de qualidade, os resultados de destaque não apareciam, nem nas clássicas por Sep Vanmarcke, nem nas grandes voltas por Rigoberto Uran. Enquanto o belga vai ameaçando tornar-se numa expectativa nunca confirmada com vitórias (apesar de estar praticamente sempre na luta e até chegar a pódios), Uran reapareceu e reentra no grupo de ciclistas candidatos a algo mais do que um top dez numa grande volta.

O colombiano foi a grande figura na estrada. A Volta a França que realizou foi fantástica, mesmo que não se goste do facto de jogar muito à defesa. Porém, sem uma equipa para o ajudar como têm Chris Froome e Romain Bardet, Uran jogou e bem as cartas que tinha. Venceu uma etapa e terminou em segundo nos Campos Elísios. Seriam poucos e talvez fossem só na própria equipa que acreditavam que tal era possível. É este o Rigoberto Uran que esteve perto de ganhar a Volta a Itália, foi este o Uran que deixou uma Sky como claro homem de qualidade para ser líder. Aos 30 anos, o colombiano encontrou o equilíbrio no seu ciclismo e foi a nível táctico que mais se notou a diferença. Houve quem o criticasse, inclusivamente outros corredores, mas estar mais à defesa resultou, não resultou?


Ranking: 10º (5748 pontos)
Vitórias: 14 (incluindo uma etapa no Giro e outra no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Rigoberto Uran, Pierre Rolland, Alex Howes e Ryan Mullen (2)

Uran acabou o ano a ganhar a Milano-Torino e a pensar se teria de mudar os planos com uma transferência inesperada. Andrew Talansky - que entretanto terminou a carreira precocemente e dedicou-se ao triatlo - foi quem quebrou a seca de dois anos de vitórias no World Tour da Cannondale-Drapac com um triunfo numa etapa na Volta a Califórnia, em Maio. Nem uma semana depois, Pierre Rolland fez ainda melhor e venceu no Giro. Não só a equipa suspirava de alívio, como o próprio francês retirava alguma da pressão que recaia nele, tendo em conta que a sua contratação em 2016 não estava a ser uma aposta ganha.

O problema da formação americana foi que os resultados desportivos não foram acompanhados por tranquilidade nos patrocinadores. Ao surgirem rumores que a Slipstream Sports poderia estar a reformular os seus objectivos e que ter uma equipa no World Tour estava a tornar-se demasiado caro, toda a estrutura abanou. É aqui que surge Jonathan Vaughters, um dos grandes especialistas em arranjar salvações para manter o projecto vivo.

O director da Cannondale-Drapac conseguiu garantir o apoio da Oath, empresa ligada aos meios de comunicação social, que permitiria dar segurança financeira à equipa. Os contratos começaram a ser renovados e tudo parecia tranquilo. Durante a Volta a Espanha o inesperado aconteceu: faltavam sete milhões de dólares (cerca de seis milhões de euros) para garantir a continuidade da estrutura em 2018. Os ciclistas receberam mesmo autorização para negociarem com outras formações. Os que estavam na Vuelta admitiram que até dormiam mal, apesar de a corrida até estar a correr bem, com Michael Woods a terminar no sétimo lugar na geral. Houve quem não perdesse tempo, outros, como Uran deram um prazo para que a situação se resolvesse.

Vaughters até recorreu ao crowdfunding para tentar angariar os sete milhões e o que pareceu ser um acto desesperado e condenado ao fracasso, acabou por ser a solução. A EF Education First soube da iniciativa e acabou por negociar com Vaughters, tornando-se no principal patrocinador. Foi da Suécia que veio a salvação. Mas, só para recordar que no ciclismo nunca nada está seguro, eis que a Oath acabou por retirar o patrocínio. Vaughters apressou-se a garantir que não prejudicaria os planos para 2018.

O trabalho de Vaughters nos bastidores, não foi suficiente para manter Davide Villella e Toms Skujins, por exemplo, mas o resultado de Uran no Tour tornou esta equipa mais ambiciosa, mesmo que o orçamento não permita loucuras. Matti Breschel (Astana) poderá ser mais aposta para as clássicas, mas chegam ainda Mitchell Docker (Orica-Scott), Kim Magnusson (da equipa Continental Tre Berg-Postnord), Daniel McLay (Fortuneo-Oscaro) e o jovem Logan Owen da Axeo Hagens Berman.

O sprinter Sacha Modolo (UAE Team Emirates) é o reforço mais sonante, ainda que dada a falta de resultados nos últimos tempos, haja um enorme ponto de interrogação quanto à sua contratação. Mais importante do que os que chegam, sãor as permanências de ciclistas como Hugh Carthy, Lawson Craddock, Joe Dombrowski e Michael Woods.

Um objectivo da equipa em 2018 será acabar o ano a falar-se do que se fez desportivamente e não tanto de como Jonathan Vaughters trabalhou para salvar a equipa. Mas não se avizinha um ano fácil para a EF Education First powered by Cannondale.

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1 de novembro de 2017

Talansky começa com uma vitória a sua nova carreira

(Fotografia: Instagram Andrew Talansky)
Regressou às origens e até quase que passou despercebido o vencedor do triatlo Marin County. Num jornal local o nome Andrew Talansky surge juntamente com o de Claudia Thompson, a mais rápida entre as mulheres. Não há qualquer menção ao passado do americano, que aos 28 anos surpreendeu ao anunciar o fim da carreira de ciclista. Talansky - que representava a Cannondale-Drapac - nem se deve importar, afinal, ele próprio referiu que foi o regresso às origens no início de uma nova carreira. Há 11 anos foi numa corrida local que aquele que viria a ser considerado uma das grandes esperanças do ciclismo dos Estados Unidos começou a competir. Pode nunca ter sido aquele grande corredor que tanto se esperava no país, mas volta a a criar expectativas na sua nova carreira: um triatlo, uma vitória. E Talansky está ansioso pela próxima prova.

"Não me sentia tão nervoso antes de uma corrida desde, talvez, a minha primeira Volta a França em 2013", escreveu o antigo ciclista no Instagram, mostrando feliz por ter conhecido "boas pessoas". O agora triatleta salientou como este tipo de eventos locais demonstram o que é o desporto. A corrida em Marin County tinha a distância olímpica: 1500 metros a nadar, 40 quilómetros de ciclismo e 10 a correr. Surpresa das surpresas... Talansky foi o mais rápido na bicicleta, sendo o único atleta a completar a distância em menos de uma hora (57:25 minutos). Foi nessa altura que passou para a liderança. Fez 20:57 na natação e 39:30 na corrida, num total de 2:00.14 horas. Apenas como referência, o campeão olímpico, Alistair Brownlee ganhou nos Jogos do Rio de Janeiro, há um ano, com o tempo de 1:45.01, mas claro que estamos a falar de um triatleta experiente, enquanto Talansky está a dar os primeiros passos, ainda que enquanto jovem tenha praticado natação e corrida.

Se os Jogos Olímpicos de Tóquio2020 estão no horizonte do americano, não se sabe, pois Talansky tem um objectivo já para 2018: quer estar no famoso Ironman do Havai: 3,8 quilómetros de natação, 180 de ciclismo e para terminar, uma maratona de 42,195 quilómetros.

Não é invulgar ver um ciclista abraçar o triatlo. Fabian Cancellara, por exemplo, também já começou a fazer algumas competições, mais de sprint (a distância mais curta) ainda que admita que não o faz para perseguir vitórias. Talansky tem como exemplo o compatriota Steve Larsen, ciclista na década de 90 e que em 2001 venceu um Ironman. Um nome bem mais popular, Laurent Jalabert também participou em algumas destas duras competições. A suíça Karin Thurig conciliou as duas modalidades no início do século, vencendo cinco Ironman e foi duas vezes campeã mundial de contra-relógio.

Andrew Talansky já terá conseguido reunir um grupo de patrocinadores para trabalhar neste seu novo objectivo. A vitória no Critérium du Dauphiné, os top dez na Vuelta e outros bons resultados fazem agora parte do passado. Talansky vai à conquista daquela que diz ser a sua nova paixão.


5 de setembro de 2017

A promessa nunca confirmada que acaba a carreira aos 28 anos

(Fotografia: Facebook Andrew Talansky)
Foi apenas há três anos que Andrew Talansky se tornou na nova grande esperança de um ciclismo americano desesperado por encontrar um herói que faça esquecer o falso que o país teve durante uma década, que teve tanto de glória, como de uma grande mentira. A vitória no Critérium do Dauphiné, a competição vista como de antevisão para a Volta a França, colocou Talansky num patamar onde já estava Tejay van Garderen, outro jovem talento. Os EUA olhavam para estes dois ciclistas como as maiores esperanças para voltarem a vencer uma grande volta. Talansky deixou-se apanhar pela pressão de ser o próximo grande ciclista e quando não conseguiu cumprir as expectativas, o ciclista viveu uma crise de confiança que nunca recuperou completamente. Parecia que 2017 seria o ano de viragem. A confiança misturou-se com alguma arrogância, mas foi a forma que encontrou de se tentar afirmar definitivamente. Mas algo mudou. Aos 28 anos, Talansky não quer mais tentar confirmar expectativas. Quer uma nova vida. Fim de carreira para uma promessa que não passou disso mesmo.

A decisão foi comunicada pelo próprio nas redes sociais, apanhando o mundo de ciclismo de surpresa. Numa altura em que a Cannondale-Drapac luta por uma sobrevivência que está difícil de alcançar, a dúvida era para onde poderia ir Andrew Talansky, com que papel e com que capacidade para apresentar resultados. Depois de sete anos como profissional na estrutura americana, Talansky considera que chegou o momento de seguir a sua outra paixão. Não diz qual, mas promete partilhar em breve o que irá fazer.

"Vou sentir a falta dos meus colegas de equipa e da camaradagem, mas principalmente vou sentir falta dos fãs. São poucos os desportos que colocam os fãs tão próximos da acção, o que é uma grande parte do que torna o ciclismo tão especial", escreveu Talansky no Instagram. "Vivi o meu sonho", salientou. No entanto, é difícil afastar a sensação que não explorou todo o potencial que o seu sonho poderia ter na realidade. Em 2012 foi segundo na Volta à Romandia, no ano seguinte fez o mesmo, mas no Paris-Nice, onde venceu ainda uma etapa. Em 2014 venceu então o Critérium do Dauphiné, batendo Alberto Contador, naquele que acaba por ser o ponto alto da sua curta carreira. Nesse ano chegou ao Tour como um dos potenciais ciclistas a lutar por um lugar de topo.

Porém, o grande momento de Talansky acabou em lágrimas. Caiu na 11ª etapa e por pouco conseguiu chegar à meta dentro do tempo limite. A emoção levou a melhor do jovem americano. Chorou e no dia seguinte já não partiu. Mais quedas e uns problemas de saúde levaram Talansky a ter mais um ano aquém do esperado em 2015. Ainda assim foi campeão nacional de contra-relógio, 10º no Critérium du Dauphiné e 11º no Tour. O talento estava lá e de vez em quando vinha ao de cima todo o potencial deste ciclista. Os resultados foram mais consistentes em 2016 e o quinto lugar na Vuelta motivou o americano, que recuperou a confiança.

Talvez por estar novamente a realizar resultados aquém do nível que todos esperavam, tenha sido de mais. Não acabou na Catalunha e no País Basco e chegou à Volta a Califórnia a desafiar quem o poderia bater, colocando mesmo a fasquia bem alta. Ali estava um pouco do melhor Talansky, a mostrar uma arrogância que apenas tentava esconder algumas debilidades. Ficou-se por uma vitória de etapa e o terceiro lugar na geral. Pouco para quem assumiu que era uma corrida para ganhar. Pouco se viu no Critérium du Dauphiné, ainda menos no Tour, onde foi completamente ofuscado por um Rigoberto Uran numa forma que surpreendeu muitos. Na Clássica de San Sebastian nem acabou. A atitude estava lá, a confiança também, mas os resultados é que não apareceram. Outra vez! Queria que 2017 fosse o seu ano de mudança, mas foi apenas a confirmação da promessa que não iria passar disso.

Não significa que não viéssemos a ver um Talansky mais ganhador ou pelo menos a lutar por mais vitórias nos próximos anos. Talvez o americano precisasse mesmo de parar de tentar agradar a quem tanto dizia que iria ser "the next big thing" (o próximo grande corredor, traduzindo a pensar no ciclismo) e concentrar-se em sentir-se feliz e com objectivos mais realistas e não tão ambiciosos. Talvez ser um grande voltista surgisse um pouco mais tarde. Talvez Talansky não tenha o que é preciso para estar entre os melhores. Ficam muitos "talvez" por se perceber. Além de talento é preciso um compromisso físico e psicológico nem sempre fáceis de atingir numa modalidade tão exigente, principalmente num país tão ansioso por ter um novo herói, um herói verdadeiro e honesto. Não será Talansky. Isso está agora mais do que confirmado.

»»Carta aberta a Alberto Contador««

»»Malori teve uma recuperação milagrosa, mas não recuperou a carreira««

13 de maio de 2017

Volta à Califórnia e a recuperação de prestígio do ciclismo americano

Em 11 edições, a Volta a Califórnia não só se consolidou como uma das melhores (se não a melhor) corrida nos EUA, como a cada edição foi atraindo cada vez mais equipas e ciclistas de renome do pelotão internacional. Com o crescente mediatismo foi também contribuindo para que jovens ciclistas americanos (e não só) tivessem uma janela para se mostrarem e tentarem dar o salto para outro nível. A Volta à Califórnia sobreviveu ao descrédito em que caiu o ciclismo norte-americano depois do caso Armstrong, manteve-se na estrada apesar da diminuição de patrocínios que custou a realização de outras corridas e chega a 2017 fortalecida com o estatuto World Tour. É uma das competições que se estreia no principal calendário, mas mais importante é também a prova que o ciclismo nos EUA está a renascer das cinzas.

A importância desta corrida é tal que as equipas daquele país desesperaram este ano para receber um convite. Com porta aberta às formações do World Tour - e serão 12 das 18 -, a subida de escalão colocou em causa a presença de equipas que nos últimos anos se habituaram a ter garantido um lugar e uma enorme oportunidade para competir ao lado dos melhores. O renascimento do ciclismo americano tem sido de tal forma, que sem ter equipas de um nível muito elevado, a verdade é que têm sido nesta corrida que alguns ciclistas têm conseguido convencer directores desportivos a darem-lhes contratos no World Tour.

A subida à principal categoria da corrida custou um lugar à Axeon Hagens Berman dos gémeos Oliveira. É considerada uma das melhores equipas de formação e tem estado em destaque sempre que participa na Volta à Califórnia. Mas alguém teve de ficar de fora e a fava tocou ao conjunto de Axel Merckx. Há um ano Ruben Guerreiro foi um dos animadores da competição por esta equipa. Este ano regressa como uma das jovens promessas da Trek-Segafredo.

Com o tempo o caso Armstrong vai sendo ultrapassado, ainda que nos tribunais continuem a decorrer processos contra o americano. E não, Armstrong não morreu, apesar da notícia que circulou na internet e que começou num site de notícias falsas. Mas a modalidade foi recuperando alguma credibilidade, ainda que continue frágil. Em nada tem ajudado os recentes estudos que demonstram que o doping é uma realidade assustadora e disseminada no ciclismo amador. No profissional, não se têm verificado casos e essa credibilidade tem sido construída com ciclistas que podem não ser os mais ganhadores, mas têm presença forte no pelotão.

Dos que estarão presentes na Volta à Califórnia, Andrew Talansky tem sido uma das principais figuras. É certo que aos 28 anos ainda não confirmou as expectativas criadas nos seus primeiros tempos de profissional sempre na estrutura da actual Cannondale-Drapac. Tem três top dez em grandes voltas, conquistou um Critérium du Dauphiné, mas tem faltado sempre algo a este talentoso ciclista. Nesta equipa americana, há ainda dois nomes que tiveram os seus momentos nesta corrida antes de "darem o salto": Nathan Brown (25 anos) e Lawson Craddock. São dois "produtos" da escola Axel Merckx que ajudam a compor a invejável lista de corredores que o belga ajudou a evoluir e a chegar ao World Tour, como é o caso recente de Ruben Guerreiro.

O que os americanos gostariam mesmo de ver este ano seria um dos seus ganhar. Seria a forma perfeita de começar a carreira da corrida no calendário principal. Brent Bookwalter é dos mais experientes. Tem 33 anos e já avisou que apesar de Samuel Sánchez estar presente, está na Califórnia para tentar ganhar. A BMC não se importa, já que é uma das equipas com mais vitórias este ano e é americana. Tyler Farrar (Dimension Data) e Taylor Phinney (Cannondale-Drapac) são dois dos ciclistas locais mais admirados, mas há muito afastados dos bons resultados.

A verdade é que de ano para ano são mais os nomes de ciclistas americanos que se tem vindo a falar no pelotão dada a qualidade, ainda que continue a faltar um grande vencedor. Não vamos dizer como Armstrong, pois é algo que o ciclismo não precisa, mas falta um homem que conquiste uma vitória mediática numa grande volta ou num monumento. Tejay van Garderen parece cada vez menos ser o candidato a tal, mas é tempo de deixar o talento de outros evoluir e talvez a curto prazo os EUA tenha um campeão que resista ao teste do tempo e das suspeitas.

Mas a Volta à Califórnia está longe de se fazer apenas de americanos. Continuando com os portugueses, além de Ruben Guerreiro - e vamos ter atenção a este ciclista que tanto gosta daquelas estradas - estará presente Tiago Machado na ajuda a Alexander Kristoff, numa Katusha-Alpecin que quer ver o seu sprinter ganhar forma para o Tour. Vamos ficar de olho em Jhonatan Restrepo porque este colombiano é de muita qualidade e é um facto que os colombianos têm tendência a aparecer nesta corrida.

Elia Viviani (Sky) estará com uma vontade enorme em vencer depois de ter sido excluído da equipa para o Giro100, mas o sprint terá uma das suas maiores estrelas da actualidade: Marcel Kittel (Quick-Step Floors) é mais um nos EUA a pensar no Tour. Também se deverá ver John Degenkolb (Trek-Segafredo) nesta luta.

Porém, todas estas estrelas sabem que a nível de popularidade não batem Peter Sagan. O eslovaco como que foi adoptado pela Califórnia e é absolutamente idolatrado. E ele retribui esse carinho, admitindo também o quanto gosta desta corrida. Desde 2010 que vence etapas e já lá vão 15, além de uma surpreendente vitória na geral em 2015. Agora a competição já não é tanto para as suas características - naquele ano Sagan defendeu-se bem na etapa rainha e fez valer a sua qualidade em contra-relógios para bater Alaphilippe -, mas a Bora-Hansgrohe vem com vontade de ganhar. Rafal Majka também está nos EUA e é possível que se comece a ver mais do polaco nesta fase da temporada. O vencedor de 2016, Julian Alaphilippe, não estará presente, pois foi operado ao joelho e vai inclusivamente falhar a Volta a França.


A Volta a Califórnia implica uma longa viagem, logística sempre mais complicada e dispendiosa, realiza-se ao mesmo tempo do Giro, mas sem surpresa não tem problema algum em chamar equipas do World Tour, sendo das competições que apresenta para já todas as condições para continuar no principal calendário, sendo cada vez mais encarada como preparação para o Tour, seja para os sprinters, como para os trepadores. É uma corrida completa, com percurso interessante, com os adeptos que gostam de se distinguir com fatos (às vezes falta deles) originais e claro que para quem está na Europa ainda tem aquele pormenor de se assistir a ciclismo em horário nobre.

»»Há poucos meses a esperança era escassa que sobrevivesse, agora deu as primeiras pedaladas««

»»Selfie sticks estão a tornar-se um problema para o pelotão««