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31 de março de 2019

Um Kristoff de raiva que não se deixa abater

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Mais do que nunca, aquele gesto de celebração e aquela expressão com dentes cerrados deixou transparecer alguma (provavelmente até muita) libertação de raiva e frustração, demonstrando tudo o que vai na alma de Alexander Kristoff. Desde que venceu dois monumentos em 2014 e 2015 que o norueguês tem estado constantemente a ter de provar que é um ciclista de topo e que merece ser um líder. Porém, tem revelado a capacidade de, por mais que as coisas lhe corram mal, conseguir aparecer com pelo menos uma grande vitória todas as épocas. Pode não ganhar muito nas principais corridas como outrora, mas ao juntar a Gent-Wevelgem deste domingo ao seu currículo, a lista é de respeito e deixa claro que mantê-lo como lançador de Fernando Gaviria será injusto.

A sua saída da Katusha foi inevitável, depois de ter tantas dificuldades em manter o nível que tinha demonstrado. Nunca deixou de ganhar, mas começou a vencer menos e parecia estar sempre a ver as costas dos principais rivais. Em 2015 chegou a somar 20 triunfos, tendo conquistado a Volta a Flandres, um ano depois de ter sido o mais forte na Milano-Sanremo e em duas etapas no Tour. Estava no topo, mas a queda (e a quebra) foi grande. Chegou ao ponto de ser acusado de estar gordo! Aguentou toda a desconfiança, tentando não se deixar afectar e desconfiar dele próprio. Na UAE Team Emirates reencontrou quem lhe oferecia tudo para ser líder, mas acabou por ser só durante 2018.

Não foi uma época fantástica, mas vencer nos Campos Elísios é o ponto alto de qualquer sprinter. Kristoff, então o campeão europeu em título, deixou novamente a mensagem que não estava acabado, mas, aos 31 anos, não conseguiu transmitir toda a confiança aos responsáveis de uma equipa com cada vez mais dinheiro e que agarraram a oportunidade de contratar Fernando Gaviria. O norueguês foi-se resignando ao facto de ter de ser um lançador e até já desempenhou e bem o papel, com o colombiano a elogiá-lo. Contudo, não estava, nem era possível alguma vez estar, satisfeito com essa quebra de estatuto.

Na Gent-Wevelgem, uma das mais importantes corridas do pavé, Kristoff admitiu que tinha de preparar o sprint para o companheiro. Era este o plano da UAE Team Emirates. Foi Gaviria quem lhe disse para tentar a sua sorte, já que não se sentia no seu melhor, depois de ter sido segundo na Driedaagse Brugge-De Panne, onde foi batido categoricamente por Dylan Groenewegen (Jumbo-Visma).

O norueguês aproveitou, mas já antes tinha mostrado quilómetros antes que não queria ser o número dois. Atacou, tentou apanhar a frente da corrida onde estavam, entre outros, Peter Sagan (Bora-Hangrohe) e Matteo Trentin (Mitchelton-Scott), demonstrando logo ali uma força e uma vontade de raiva de lutar por uma vitória que a chegada de Gaviria à equipa não lhe permite.

Foi então um esforço inglório, é certo, mas ficaram forças para um sprint aos bons velhos tempos de Kristoff. Numa corrida de 251,5 quilómetros, feitos a uma velocidade louca - a média ficou nos 46,2 quilómetros/hora, mas chegou a ultrapassar os 51 -, era difícil não haver uma perna cansada nos que conseguiram chegar à recta da meta na frente. Mas foi Kristoff que deixou desta vez todos a verem as suas costas.

Foi a segunda vitória do ano - menos uma do que Gaviria -, depois de uma etapa na Volta a Omã, onde desde 2014 vence sempre. Kristoff precisa de mais se quer sair da inconfortável posição em que ficou com a chegada de Gaviria. Ir ao Tour como líder do sprint é uma ilusão, em circunstâncias normais. No entanto, se conseguir manter o nível, talvez tenha aberto uma porta para mais oportunidades, sem ter o colombiano a limitá-lo. E estando em final de contrato, se o seu pensamento estiver em procurar, outra vez, uma equipa que lhe dê o estatuto de líder para o sprint e clássicas, então é este Kristoff da Gent-Wevelgem que tem de aparecer mais vezes e não apenas numa grande vitória por ano.

A concorrência é forte, as opções para contratar são muitas, mas este Kristoff vale a pena não deixar cair para segundo plano. Nesta altura precisa de consistência e tem de se mostrar nos monumentos que se aproximam. Daqui a uma semana é a Volta a Flandres, seguindo-se no domingo seguinte, 14 de Abril, o Paris-Roubaix.

E no início do ponto alto das clássicas do pavé - a Através da Flandres realiza-se na quarta-feira - Kristoff e Oliver Naesen (AG2R) são duas das principais figuras pela forma que estão a apresentar. Quem diria! O belga fez pódio na Milano-Sanremo e foi agora terceiro na Gent-Wevelgem. Não está fácil confirmar as expectativas criadas há dois anos, mas este Naesen promete. Já Peter Sagan e Greg van Avermaet (CCC), os eternos favoritos, levantam muitas dúvidas quando ao estado de forma. Ambos precisam de um bom resultado. E sim, a Deceuninck-QuickStep pode ser derrotada. Essa foi uma das lições da Gent-Wevelgem.

Pode ver aqui a classificação completa da 81ª edição da Gent-Wevelgem neste link, via ProCyclingStats.

Na corrida feminina, a holandesa Kirsten Wild (WNT-Rotor Pro Cycling) está a mostrar-se imbatível neste terreno, vencendo novamente, depois de ter conquistado a Driedaagse Brugge-De Panne. A portuguesa Daniela Reis (Doltcini-Van Eyck Sport) continua a fazer uma boa campanha de clássicas, terminando na 44ª posição, integrada no pelotão (resultados completos neste link).
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27 de março de 2017

Greg van Avermaet: um monumento se faz favor

(Fotografia: Facebook Gent-Wevelgem)
Os anos passavam e Greg van Avermaet parecia destinado a ser um daqueles ciclistas que talento não lhe faltava, mas faltava aquela capacidade de finalizar com vitórias o excelente trabalho que fazia nas corridas. Os anos passavam e a Bélgica começava à procura de nomes que pudessem ser os próximos grandes homens para ganhar as suas clássicas. Porém, Avermaet é o exemplo de como olhar apenas para a idade é cada vez mais um erro no ciclismo. Custou, mas quando começou a ganhar, não mais parou. Em dois anos concretizou alguns dos seus grandes objectivos, mas falta um: o monumento. É um ciclista com capacidade para lutar por um Paris-Roubaix, mas sendo belga, é a Volta a Flandres o maior desejo de Avermaet. Naturalmente que há ainda um outro título que não se importa nada de juntar ao seu currículo: um Mundial. Ainda assim, a Volta a Flandres será aquela vitória que colocará o ciclista definitivamente na lista dos melhores desta nação do ciclismo. Mesmo que venha a conseguir uma camisola do arco-íris, Avermaet não quer terminar uma carreira sem um monumento, sem a Volta a Flandres.

Por esta altura em 2016, Greg van Avermaet era considerado um dos grandes favoritos à vitória no monumento belga. O ciclista da BMC tinha conquistado pela primeira vez uma clássica no seu país, a Omloop Net Nieuwsblad. Pouco depois surpreendeu (até a ele próprio) ao conquistar o Tirreno-Adriatico, beneficiando do cancelamento da etapa rainha devido ao mau tempo. No entanto, uma queda juntamente com colegas da equipa obrigou-o a abandonar a Volta a Flandres e falhou o Paris-Roubaix. Mais uma vez a desilusão batia à porta de Avermaet e mais uma vez o ciclista teve de demonstrar uma das características que marca a sua carreira: perseverança. Voltou para garantir uma brilhante exibição na Volta a França, que lhe valeu uma etapa e a camisola amarela, que defendeu até aos seus limites, talvez até mais além, nos dois dias seguintes.

No entanto, foi aquele 6 de Agosto que acabaria por ser o momento alto de um ano que estava a ser perto da perfeição. A medalha de ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro elevou de vez o ciclista à condição de um dos mais importantes do pelotão. Para trás ficou definitivamente o estigma do segundo classificado. Avermaet, o campeão olímpico. Avermaet, o belga vencedor. O ciclista trabalhou muito para conquistar o seu lugar entre os melhores e não para ser chamado apenas a besta negra de Peter Sagan. Naturalmente que não é uma forma que queira ser conhecido, ainda que, no fundo, seja até um elogio, tendo em conta a importância de Sagan. Porém, Avermaet é agora um corredor que agora ganha aos melhores e não apenas a um dos melhores. E é um dos melhores.

Aos 31 anos, o homem da BMC sabe que chegou o momento da machada final, ou seja, de dar o tudo por tudo pela Volta a Flandres. A porta das vitórias está aberta, mas Avermaet sabe que rapidamente se pode fechar, tendo em conta os novos valores para as clássicas que estão a aparecer. Se conquistar o monumento, será mais um ano memorável, pois o belga tornou-se apenas no segundo ciclista da história a fazer a tripla, ou seja, a ganhar a Omloop Het Nieuwsblad, E3 Harelbeke e Gent-Wevelgem. O holandês Jan Raas fê-lo em 1981. Rematar esta fase com a Volta a Flandres seria para Greg van Avermaet... perfeito!





»»Clássicas. Tudo começou com um cenário bem conhecido: Avermaet a bater Sagan««

»»Sagan atingiu a maturidade: "Não posso trabalhar para todos para depois me ganharem ao sprint"««

26 de março de 2017

Sagan atingiu a maturidade: "Não posso trabalhar para todos para depois me ganharem ao sprint"

(Fotografia: © BORA-hansgrohe/Stiehl Photography)
A evolução de Peter Sagan tem sido muito pública e acompanhada ao pormenor. O facto de ser um ciclista que aos 27 anos já soma 92 vitórias como profissional faz com que tudo o que faça seja analisado escrupulosamente, pelo que há muito se esperava por este momento, o momento em que o eslovaco, já bicampeão do mundo, atingiu a maturidade. Este domingo Sagan abdicou de vencer uma corrida, mas a decisão poderá valer-lhe muitos triunfos no futuro e confirmou a mensagem que já tinha deixado na sexta-feira na E3 Harelbeke: não contem mais com ele para trabalhar e depois ver os outros ganharem.

"Não sei o que queria fazer, porque atacou para ir na fuga e depois não quis trabalhar. Este é um exemplo de como podes perder a corrida contra mim. Que posso fazer? Não somos companheiros de equipa. Não posso trabalhar para todos para depois me ganharem ao sprint." As duras palavras de Sagan logo após a Gent-Wevelgem eram o sinal que o eslovaco fartou-se de ver os adversários colocarem-se na sua roda e não o ajudarem, seja numa fuga, seja numa perseguição. Depois de tantas vezes ter sido criticado por se expor em demasia, acabando por ser batido ao sprint, Sagan finalmente aprendeu que tem de começar a ser mais frio, mais calculista. Chegou o momento de fazer um jogo mental mais forte, mas descansem os fãs do ciclista e do ciclismo, atingir a maturidade não significa que se vá ver menos espectáculo de Sagan, apenas entraremos numa fase diferente da carreira de um corredor que agora sim tem tudo para se tornar num dos melhores ciclistas de clássicas da história.

Na frase citada, Sagan refere-se a Niki Terpstra. O homem da Quick-Step Floors entrou na fuga a cinco, mas começou a tentar resguardar-se, deixando o eslovaco a trabalhar, juntamente com Greg van Avermaet (BMC) - que acabaria por vencer - e Jens Keukeleire (Orica-Scott) e Søren Kragh Andersen (Sunweb). Este jovem dinamarquês também tentou jogar mais à defesa, mas o facto de ter 22 anos provavelmente fez com que fosse poupado nas críticas de Sagan. Já Terpstra tem 32, algumas vitórias importantes, incluindo um Paris-Roubaix, e naquela altura da corrida era a única esperança da Quick-Step Floors em vencer a clássica belga,

Em poucas palavras: ao aperceber-se da jogada de Terpstra, Sagan fez sinal para que o companheiro de ocasião trabalhasse e como isso não aconteceu, deixou praticamente de pedalar, abrandou muito para se colocar atrás do holandês e Andersen. Os dois preocuparam-se mais em não ajudar o ciclista da Bora-Hansgrohe e enquanto isso Avermaet e Keukeleire continuaram no seu ritmo e a pequena diferença que ganharam - chegou a rondar os 15 segundos - acabou por ser suficiente.

Sendo um ciclista que quer vencer, não lutar por uma vitória deve ser o mais difícil para Peter Sagan. Neste domingo, se alguém pensou que estava a fazer bluff na sexta-feira, percebeu que o eslovaco não mais será o ciclista que puxa para depois ver os outros ganharem. Era notório que não estava nada satisfeito com o resultado (foi terceiro), mas fez o que fez a pensar no futuro próximo. "Não estou decepcionado, estou mais motivado agora. Vamos ver o que acontece na Volta a Flandres e no Paris-Roubaix", salientou. E mesmo num dia menos feliz, lá deixou uma tirada à Sagan: "Se ganhar sempre perco a motivação!"

O que aconteceu na Gent-Wevelgem dificilmente se verá num dos monumentos, que mais do que nunca são a ambição de Peter Sagan. No entanto, fica agora a curiosidade para ver como esta maturidade de Sagan o poderá influenciar nas duas corridas. E como influenciará os seus rivais. Sendo a Volta a Flandres e o Paris-Roubaix, os pontos de interesse são sempre muitos. Mas acabaram de ganhar mais dois.




25 de março de 2017

Todos contra Sagan... de tal forma que até abdicam de lutar pela vitória

(Fotografia: © Bora Hansgrohe/Stiehl Photography)
É o homem espectáculo, é o homem de ataque, é o homem que entra em todas as corridas para ganhar. Peter Sagan é a definição do que mais se gosta de um atleta. Porém, as características fazem com que crie mais rivalidades do que amizades. Quantos vezes já se viu o bicampeão do mundo tentar formar uma fuga e ver que ninguém está disponível para o ajudar? Quantas vezes se viu o eslovaco a organizar uma perseguição e os ciclistas colocarem-se atrás dele, tentando apenas aproveitar o seu trabalho? Quantas vezes se viu equipas abdicarem de anular fugas só para não levarem por arrasto Sagan até à meta? Todas estas situações parecem ser mais frustrantes para quem assiste do que para o próprio ciclista, que lá deixa as suas críticas, mas rapidamente "parte para outra". Mas é de facto frustrante e principalmente estranho ver corredores abdicarem de tentar uma vitória, só porque têm Sagan com eles. Se analisarmos bem, o eslovaco é exímio em colocar-se em posição de discutir vitórias, mas a quantidade de segundos lugares que soma todos os anos são a prova que é um grande ciclista, contudo, não é imbatível.

Este domingo temos a Gent-Wevelgem. Ciclista que queira ganhar um monumento do pavé, está na corrida belga, em mais um passo rumo à Volta a Flandres (2 de Abril) e Paris-Roubaix (9 de Abril). Mais uma vez serão todos contra Peter Sagan, que no fundo é uma forma de dizer que o ciclista da Bora-Hansgrohe é novamente o principal favorito. Situação normal, que o próprio enfrenta dessa forma: com total naturalidade. E Sagan deverá estar com alguma vontade de vingar o que aconteceu no E3 Harelbeke. Por uma vez não conseguiu entrar no grupo da frente - que acabaria por decidir a corrida - e quando tentou organizar uma perseguição... Foi de tal forma frustrante, que o próprio tomou uma decisão pouco vista, isto é, deixou-se descair no pelotão, passando uma mensagem bem clara: se não ajudam, então trabalhem vocês. Entretanto caiu e nem se incomodou mais com a corrida, terminando a quase 11 minutos do vencedor, talvez o seu maior rival, Greg van Avermaet.

O exemplo mais gritante aconteceu quando Fabio Felline (Trek-Segafredo) tentou aumentar o ritmo, afastando-se ligeiramente do pelotão. Nesta altura, já Avermaet, Philippe Gilbert e Oliver Naesen tinham fugido e estavam a entender-se perfeitamente na frente. Sagan naturalmente que aproveitou a saída de Felline para tentar também chegar ao trio belga. O que aconteceu? Felline colocou-se na roda do eslovaco que olhou uma, duas vezes para trás e ao perceber que não teria ajuda optou por não se desgastar. Uma decisão que denota que Sagan está a amadurecer como ciclista, continuando a correr muito com o coração, mas aos poucos cada vez mais com cabeça, o que só o vai tornar num atleta muito completo e ainda mais temível (parece impossível, mas é verdade).

Para comprovar que realmente ninguém quer ajudar Sagan, Felline voltaria a tentar fugir sozinho, quando já era notório que não chegaria à frente, enquanto a Katusha-Alpecin nem sequer se organizava, mesmo tendo um Tony Martin, esse sim, com vontade de ter Alexander Kristoff a discutir a vitória. Mas foi basicamente o único que não se assustou com o nome Sagan. De resto, ficou a ideia que era mais importante não contribuir para o eslovaco chegar à meta em condições de sprintar, do que propriamente colocar outros ciclistas nessa posição. Claro que há a outra situação: a Bora-Hansgrohe não consegue estar ao nível do seu líder. Já vai melhorando, mas ainda está longe de ser o apoio necessário em todas (reforço no "todas") as corridas.

Agradeceu Avermaet, Gilbert e Naesen. Os dois primeiros já homens experientes e ganhadores neste tipo de competições, o terceiro, um talento que vai impondo cada vez mais respeito nas clássicas. E apenas dois dias depois de Harelbeke é de esperar que os três voltem a mostrar-se na Gent-Wevelgem, com Philippe Gilbert a começar a gerar alguma curiosidade. Ele que é mais um ciclista para as Ardenas, está a redescobrir o gosto pelo pavé. É certo que quando se chegar aos monumentos, Tom Boonen será o líder indiscutível, ainda mais quando está a preparar a sua despedida. Porém, o ciclista que tanta sensação provocou entre 2009 e 2011, mas foi perdendo algum fôlego nos últimos anos, parece estar a recuperar a sua melhor versão. Quem gosta de clássicas agradece, pois Gilbert é mais um daqueles homens que quer ganhar e dá espectáculo.

Neste link poderá confirmar a lista de inscritos para a Gent-Wevelgem (249 quilómetros), que contará com o português Nuno Bico. A Movistar continua a apostar no jovem ciclista nestas corridas, sendo uma experiência muito importante para alguém que demonstrou enquanto sub-23 ter talento para as provas de um dia.



9 de março de 2017

Cobrar bilhetes no ciclismo é inevitável?

Quando o assunto é cobrar bilhetes em corridas de ciclismo, inevitavelmente pensa-se em Oleg Tinkov. Esta forma de rentabilização da modalidade foi uma das várias propostas que o magnata russo fez e que nem sequer foi considerada. Tinkov fartou-se de ninguém o ouvir e de o modelo de negócio do ciclismo pouco ou nada favorecer as equipas, colocando um ponto final na sua formação no final do ano passado. Porém, Tinkov deve ter pensado "agora já acham boa ideia" quando uma sondagem revelou que cerca de metade dos organizadores de corridas na Bélgica consideram que a cobrança de bilhetes será inevitável para garantir a sobrevivência das provas, completamente dependentes de patrocínios.

O trabalho foi publicado no final do mês de Fevereiro pelo jornal belga Het Nieuwsblad e mostra que cerca de metade dos organizadores de corridas naquela país estão a ponderar implementar o sistema, alegando a necessidade de facturar algum dinheiro, de forma a não depender exclusivamente de patrocínios. Algumas provas têm estado em risco de não se realizarem por falta de investimento e já há uma que cobra cinco euros - a Nokere Koerse - a quem quiser assistir à passagem dos ciclistas nos últimos 30 quilómetros. É chamada a "zona da verdade".

Mas há um pormenor muito importante a ter em conta: os organizadores que defendem este sistema são de corridas mais pequenas na Bélgica, pois as grandes empresas que metem na estrada a Volta a Flandres, a Gent-Wevelgem e a E3 Harelbeke, por exemplo, garantem que vão manter o acesso gratuito em qualquer zona dos percursos.

O resultado desta sondagem levantou a questão: a cobrança de bilhetes é inevitável? Numa modalidade sempre vista como do povo, muito pela forma como tem a capacidade de atrair muitas pessoas à berma da estrada para apoiar os ciclistas, a cobrança de bilhetes quase parece um piada de mau gosto. Conseguiremos imaginar pagar cinco euros (pegando no exemplo da Nokere Koerse) para estar no Alto da Senhora da Graça, na Volta a Portugal? Se alguma vez a ideia vier a ser implementada, seja em que país for, uma coisa é certa: será necessário promover uma enorme mudança de mentalidade, que não será nada fácil.


29 de março de 2016

A pergunta que se impõe... ou talvez não

Foto: Twitter @TeamWantyGobert
As tragédias são muitas vezes impulsionadoras de mudanças no desporto. A morte de Ayrton Senna deu origem a várias alterações nos monolugares de Fórmula 1 e não só, a morte de futebolistas em campo fez com que agora exista, em alguns países, desfibrilhadores nos estádios. No ciclismo, a morte de Andrei Kivilev no Paris-Nice, em 2003, fez com que os capacetes passassem a ser obrigatórios. Antoine Demoitié era um nome até este domingo, 27 de março, relativamente desconhecido. Agora vê-se envolvido numa polémica que tem marcado os últimos anos no ciclismo: ciclistas e os incidentes com motos e carros nas corridas.

Demoitié participava na Gent-Wevelgem quando caiu juntamente com vários ciclistas. O diretor desportivo da equipa do belga, a Wanty-Groupe Gobert, explicou numa conferência de imprensa os momentos que se seguiram, ao que o próprio referiu como sendo uma queda como tantas outras que acontecem nas corridas. Hilaire Van der Schueren disse que o condutor da moto da organização tentou travar, mas não conseguiu parar a tempo. A moto caiu sobre a cabeça e pescoço do ciclista. Demoitié recebeu ajuda médica imediata, apesar de Van der Schueren admitir que percebeu que a situação era grave e ficou ainda mais ciente que a situação de Demoitié era dramática quando a organização pediu os contactos da família. A morte do ciclista de belga, de 25 anos - e que tinha feito a sua primeira prova do World Tour no E3 Harelbeke na sexta-feira -, foi confirmada pouco depois da meia-noite (hora local, menos uma em Lisboa).


Inevitavelmente a pergunta que se impunha foi feita na conferência desta segunda-feira: "Há demasiadas motos no pelotão?" Ou seja, seria esta a tragédia que há muito se temia depois de tantos acidentes nos últimos meses, como o de Stig Broeckx já este ano? "Não queremos discutir isso e não é o momento certo para discutir isso. Foi um terrível acidente, mas foi um acidente. Não o culpamos [ao condutor da moto] e não nos compete a nós culpá-lo", respondeu o assessor da equipa José Been.

Acidente é a palavra chave. Naturalmente que os outros incidentes que aconteceram não passaram também de acidentes. Mas é necessário entender que se tem falado de conduções perigosas, acelerações em momentos errados, o forçar passagem e colocar a integridade física do ciclista em perigo. No caso de Demoitié, as testemunhas apontam que o condutor da moto não conseguiu travar.  Estaria a ir rápido de mais, demasiado próximo... as dúvidas são muitas e aguardam-se respostas que uma investigação certamente dará. E são certamente aguardadas por ciclistas, directores desportivos e todos com ligação a esta modalidade.

Para já, tanto a UCI como a Associação de Ciclistas Profissionais também estão a reagir com cautela, salientando a importância de manter a segurança dos ciclistas, mas também referindo a necessidade de investigar o que aconteceu.

A pergunta impunha-se, mas talvez esta tragédia não passe disso mesmo: de um trágico acidente. No entanto, não significa que não venha a contribuir para possíveis mudanças que há muito se exigem no pelotão internacional. Mas a resposta da equipa à questão dos motos/carros e incidentes com ciclistas foi a ideal para evitar alimentar polémicas à custa da memória de Demoitié. Mas mesmo sendo um acidente, será um que não deixará de ser sempre referido até que as mudanças sejam feitas. E ficará sempre a sensação que é preciso uma tragédia como uma morte para que as alterações apareçam (se aparecerem).

Porém, agora é o momento de luto e a equipa já confirmou que estará na Volta a Flandres com o objectivo de concretizar a melhor homenagem para Demoitié: uma vitória. #RideForAntoine