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8 de fevereiro de 2017

Novas regras para carros e motos a pensar na segurança dos ciclistas

São 38 páginas publicadas pela UCI. Um documento há muito aguardado e que contou com a participação de federações e organizações que representam os ciclistas e equipas. O objectivo é simples: garantir a segurança dos corredores durante as competições e evitar os incidentes que nos últimos anos têm provocado acidentes, alguns graves, devido a choques entre carros ou motos contra os ciclistas. O objectivo pode ser simples, encontrar uma solução tem sido exactamente o contrário. 2016 acabou por ser um ano negro com, por exemplo, Stig Broeckx (Lotto Soudal) a ser duas vezes abalroado por uma moto. Da segunda vez ficou em coma durante vários meses. Já está a recuperar, mas o pior aconteceu a Antoine Demoitié (Wanty-Groupe Gobert) que morreu após uma moto o ter atingido, quando ficou envolvido numa queda colectiva. Tinha 25 anos.

A estes casos juntam-se muitos outros que valeram ferimentos e muitos pontos a vários ciclistas, como a Peter Sagan e Sérgio Paulinho na Vuelta de 2015 ou Johnny Hoogerland e Juan Antonio Flecha no Tour de 2011, entre outros exemplos. Em 2013, a UCI começou a realizar cursos de formação para os condutores, seja de carros ou motos. No entanto, foi claramente insuficiente dado o elevado número de incidentes que se foram acumulando nos últimos anos. Ciclistas e directores desportivos exigiam mudanças, pois estavam a correr elevados riscos de serem abalroados por veículos, fossem de apoio, dos meios de comunicação social ou até de transporte de convidados.

Entre as medidas agora anunciadas está a proibição dos veículos em ultrapassar os ciclistas nos cinco quilómetros antes de um sprint intermédio, ou dois quilómetros antes do final de uma subida ou zona de alimentação e também em zonas consideradas perigosas, que serão anunciadas pela Rádio Tour.

Nos carros não será permitido existir televisões na parte da frente do veículo (os carros das equipa terão de ter alguém no banco de trás a ver as imagens, caso queiram recorrer a este método) e os condutores, seja de carros ou motos, não podem utilizar o telemóvel, nem através de kits de mãos livres. Os níveis de álcool têm de estar a zero e também não podem utilizar qualquer tipo de droga.

Um dos pontos que certamente chama a atenção é a proibição de motos que transportem convidados. Tem sido uma das críticas mais apontadas, com muitas pessoas que não pertencem a corrida a passarem pelos ciclistas. Agora só nos carros. Mas também haverá um limite - e a regra é para todos -, pois cada carro só pode levar quatro pessoas, incluindo o condutor.

E numa instrução a pensar no trabalho dos repórteres de imagem e fotografia - e claro em garantir que os patrocinadores tem a exposição desejada - os veículos que estão na frente da corrida têm de acelerar no último quilómetro de forma a passar a meta e a zona dos profissionais de comunicação pelo menos 15 segundos antes do primeiro ciclista. O objectivo é evitar que tapem a captação de imagens ou fiquem nas fotografias.

Alguns dos pontos referidos no documento têm demonstrações gráficas de como os carros e motos se devem posicionar em determinadas fases da corrida (imagem ao lado).

O incumprimento das regras pode valer a expulsão imediata da competição e poderá mesmo resultar numa suspensão até um ano e uma multa entre 200 e mil francos suíços (cerca de 188 a 940 euros).

Só o tempo e a colocação em prática dirá se as novas regras terão o efeito desejado. Porém, depois de tanto tempo de espera e com a gravidade de vários acidentes, não há margem para erros, nem para se andar a fazer experiências.

17 de abril de 2016

Vitória da experiência e da emoção

(Fotografia: Twitter @UCI_cycling)
"Esta foi pelo Antoine." Foram as primeiras palavras de Enrico Gasparotto depois de vencer a Amstel Gold Race, de uma forma algo surpreendente. Aos 34 anos, o italiano venceu pela segunda vez a corrida holandesa, naquela que foi uma vitória muito emocional para Gasparotto e para a Wanty - Groupe Gobert.

A 27 de março a equipa do segundo escalão profissional ganhava um indesejado protagonismo. Antoine Demoitié foi atingido por uma moto e acabou por morrer. Três semanas depois, a Wanty alcançou a sua primeira vitória numa prova World Tour. Não surpreende que, por isso, a equipa viva sentimentos mistos.

O triunfo na Amstel Gold Race muito se deve à experiência de Gasparotto. O italiano confessou que repetiu alguns pormenores técnicos de quando venceu em 2008, então ao serviço da Astana, ao atacar na última subida ao Cauberg. A experiência permitiu-lhe ainda "convencer" o jovem Michael Valgren (Tinkoff) a ajudá-lo naquele ataque. "Tive sorte que o Valgren veio comigo. Não teria sido capaz sozinho porque estava um vento de frente muito forte", explicou Gasparotto.

Inicialmente Valgren foi na roda do italiano, mas acabou por "puxá-lo", permitindo a Gasparotto guardar forças para o sprint final. O grupo com alguns dos favoritos, que incluía Rui Costa, ficou apenas a quatro segundos, o que certamente deixou muitos deles frustrados.

Foi a nona vitória como profissional de Enrico Gasparotto, que conta no currículo com uma etapa no Giro e um campeonato de estrada italiano. A última vitória havia sido precisamente na Amstel.

Já Michal Kwiatkowski (vencedor em 2015) e Philippe Gilbert (que já triunfou por três vezes) não acabaram a corrida. Rui Costa foi 17º, o irmão Mário Costa terminou no 64º lugar e Tiago Machado no 85º, ambos a 4:32 minutos.

O momento insólito

Ainda a Amstel Gold Race não tinha começado e já se registava uma queda que acabou por ter consequências graves para Fabio Felline. O sprinter da Trek caiu sem se perceber muito bem porquê. "Tem um nariz partido e cortes na face. Os radiologistas também encontraram uma fractura na base do crânio. Ele precisa de mais exames para determinar se está estável ou instável e isso irá determinar qual o tratamento para a sua recuperação", explicou o médico da equipa Jens Hinder, citado pelo site da Trek-Segafredo.


E esta foi uma corrida mesmo insólita para a equipa: dois oito ciclistas só Bauke Mollema terminou (em 14º a quatro segundos do vencedor).




29 de março de 2016

A pergunta que se impõe... ou talvez não

Foto: Twitter @TeamWantyGobert
As tragédias são muitas vezes impulsionadoras de mudanças no desporto. A morte de Ayrton Senna deu origem a várias alterações nos monolugares de Fórmula 1 e não só, a morte de futebolistas em campo fez com que agora exista, em alguns países, desfibrilhadores nos estádios. No ciclismo, a morte de Andrei Kivilev no Paris-Nice, em 2003, fez com que os capacetes passassem a ser obrigatórios. Antoine Demoitié era um nome até este domingo, 27 de março, relativamente desconhecido. Agora vê-se envolvido numa polémica que tem marcado os últimos anos no ciclismo: ciclistas e os incidentes com motos e carros nas corridas.

Demoitié participava na Gent-Wevelgem quando caiu juntamente com vários ciclistas. O diretor desportivo da equipa do belga, a Wanty-Groupe Gobert, explicou numa conferência de imprensa os momentos que se seguiram, ao que o próprio referiu como sendo uma queda como tantas outras que acontecem nas corridas. Hilaire Van der Schueren disse que o condutor da moto da organização tentou travar, mas não conseguiu parar a tempo. A moto caiu sobre a cabeça e pescoço do ciclista. Demoitié recebeu ajuda médica imediata, apesar de Van der Schueren admitir que percebeu que a situação era grave e ficou ainda mais ciente que a situação de Demoitié era dramática quando a organização pediu os contactos da família. A morte do ciclista de belga, de 25 anos - e que tinha feito a sua primeira prova do World Tour no E3 Harelbeke na sexta-feira -, foi confirmada pouco depois da meia-noite (hora local, menos uma em Lisboa).


Inevitavelmente a pergunta que se impunha foi feita na conferência desta segunda-feira: "Há demasiadas motos no pelotão?" Ou seja, seria esta a tragédia que há muito se temia depois de tantos acidentes nos últimos meses, como o de Stig Broeckx já este ano? "Não queremos discutir isso e não é o momento certo para discutir isso. Foi um terrível acidente, mas foi um acidente. Não o culpamos [ao condutor da moto] e não nos compete a nós culpá-lo", respondeu o assessor da equipa José Been.

Acidente é a palavra chave. Naturalmente que os outros incidentes que aconteceram não passaram também de acidentes. Mas é necessário entender que se tem falado de conduções perigosas, acelerações em momentos errados, o forçar passagem e colocar a integridade física do ciclista em perigo. No caso de Demoitié, as testemunhas apontam que o condutor da moto não conseguiu travar.  Estaria a ir rápido de mais, demasiado próximo... as dúvidas são muitas e aguardam-se respostas que uma investigação certamente dará. E são certamente aguardadas por ciclistas, directores desportivos e todos com ligação a esta modalidade.

Para já, tanto a UCI como a Associação de Ciclistas Profissionais também estão a reagir com cautela, salientando a importância de manter a segurança dos ciclistas, mas também referindo a necessidade de investigar o que aconteceu.

A pergunta impunha-se, mas talvez esta tragédia não passe disso mesmo: de um trágico acidente. No entanto, não significa que não venha a contribuir para possíveis mudanças que há muito se exigem no pelotão internacional. Mas a resposta da equipa à questão dos motos/carros e incidentes com ciclistas foi a ideal para evitar alimentar polémicas à custa da memória de Demoitié. Mas mesmo sendo um acidente, será um que não deixará de ser sempre referido até que as mudanças sejam feitas. E ficará sempre a sensação que é preciso uma tragédia como uma morte para que as alterações apareçam (se aparecerem).

Porém, agora é o momento de luto e a equipa já confirmou que estará na Volta a Flandres com o objectivo de concretizar a melhor homenagem para Demoitié: uma vitória. #RideForAntoine