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11 de novembro de 2019

Temporada interessante de uma Bahrain-Merida a olhar para o pós-Nibali

(Fotografia: © Bettiniphoto/Bahrain-Merida)
A Bahrain-Merida está numa fase de mudança. Vai deixar de ser a equipa que Vincenzo Nibali tanta influência teve em escolher os ciclistas quando o projecto arrancou em 2017, para tentar dar um passo de qualidade, tornando-se mais forte e menos dependente do italiano. O primeiro passo até era suposto ter sido dado já em 2019, ainda com Nibali na equipa - está de saída para a Trek-Segafredo -, mas acabou com o misterioso abandono de Rohan Dennis na Volta a França, na véspera do contra-relógio que se esperava poder vencer. O australiano viu o seu contrato ser terminado após o incidente e a Bahrain-Merida em vez de esperar para ver se este ciclista se tornaria de facto num voltista (que está a demorar aparecer), vai preferir esperar para ver o melhor de Mikel Landa. Se algo positivo ficou deste ano é que Dylan Teuns foi uma excelente contratação, que Iván García Cortina está a evoluir cada vez melhor, principalmente nas clássicas e Sonny Colbrelli precisa de mais companhia no sprint.

Começando por Teuns, este belga foi uma das figuras da Vuelta, andando um dia de vermelho, isto depois de ter inscrito o seu nome numa das subidas que vai ganhando cada vez mais nome no Tour: venceu a etapa na La Planche de Belles Filles. Tal como Dennis veio da BMC, mas Teuns está de facto a comprovar o potencial para as provas de três semanas e também de uma semana. Quanto a Cortina, 2019 foi o ano em que mostrou que pode ser a aposta principal para as clássicas da Primavera e vai ser um dos ciclistas a acompanhar de perto na próxima temporada. E dêem-lhe liberdade em certas etapas nas grandes voltas e o resultado poderá ser muito animador.

Já Colbrelli apareceu muito na luta nos sprints. Qualidade não lhe falta, mas falta não se ficar pelo "quase que ganha" nas principais corridas, ainda que tenha somado três vitórias: etapa na Volta a Omã, outra na Volta à Alemanha e o Grande Prémio Bruno Beghelli. É preciso mais ajuda, ainda que o italiano vá ter é mais concorrência. Mark Cavendish está a caminho e não será nenhum lançador. Também chegará Marco Haller da Katusha-Alpecin, que irá direitinho para o comboio do britânico. Vida mais difícil para Colbrelli, mas que até o poderá ajudar a ultrapassar o tal "quase". Boas vitórias, irão dar-lhe novamente o estatuto de principal sprinter, se Cavendish não recuperar a sua melhor versão.
Ranking: 13º (7200,72 pontos) 
Vitórias: 16 (incluindo duas etapas na Volta a França) 
Ciclista com mais triunfos: Sonny Colbrelli (3)
Hermann Pernsteiner tornou-se na maior curiosidade. Este austríaco foi a surpresa na Volta a Espanha. Fez top 15 e as suas exibições foram muito interessantes, mas com a chegada de Mikel Landa (Movistar), não será de surpreender que seja uma escolha (e boa) para ajudar o espanhol, que terá ainda Wout Poels (Ineos) a seu lado. Pello Bilbao (Astana) e Eros Capecchi (Deceuninck-QuickStep) são outros reforços muito interessantes para este bloco para as provas por etapas.

A Bahrain-Merida teve uma temporada consistente - mesmo com o desentendimento de Rohan Dennis, que não estaria satisfeito com a bicicleta de contra-relógio - sem que fosse segredo que durante muitos meses os responsáveis já estavam a preparar o 2020 pós-Nibali, com uma das principais contratações a ser o director de performance da Ineos, Rod Ellingworth. Matej Mohoric, Mark Padun e Luka Pibernik, por exemplo, mostraram esta temporada que podem ter lugar numa estrutura que quer crescer mais rapidamente e que quer tornar-se numa forte candidata principalmente nas grandes voltas, ainda que Nibali nesse aspecto já tenha dado pódios e vitórias de etapas, despedindo-se com uma na Volta a França, naquele estilo que tanto caracteriza este ciclista. Um ataque no momento certo e ninguém o apanha. Nibali podia estar de saída da equipa, mas foi profissional até ao fim.

2019 não foi o mais feliz dos anos do italiano na equipa do Médio Oriente, mas nos anos anteriores ainda deu dois monumentos, pelo que o legado que deixa é de respeito. Porém, a equipa segue agora o rumo que coloca Landa no caminho de ganhar o que mais se quer: uma grande volta. A Bahrain-Merida não tem um plantel como a Ineos ou a Jumbo-Visma, mas entre os ciclistas que já foram dando bons resultados desde 2017 e os nomes fortes que vão chegar, será uma formação com outros argumentos e cuja expectativa sobe de nível.


20 de dezembro de 2018

Dois anos, dois monumentos, mas uma enorme desilusão no Tour

(Fotografia: @bettiniphoto.net/Bahrain-Merida)
No ano de estreia, a Bahrain-Merida não ganhou muito, mas também não é qualquer equipa que possa dizer que chegou ao World Tour e venceu um monumento (Lombardia), uma etapa no Giro e Vuelta e ainda teve dois pódios nestas mesmas grandes voltas. Tudo da autoria de Vincenzo Nibali. No entanto, os 12 triunfos não igualaram a enorme ambição e investimento da equipa, que queria mais para 2018. E em termos de números conseguiu. Mais do que duplicou as vitórias, somou mais um monumento e uma vitória de etapa no Giro. Contudo, a grande aposta foi perdida devido a um adepto que estragou o Tour a Nibali, prejudicando o resto da temporada. A desilusão foi enorme.

Esta frustração está a assombrar Nibali - que começou tão bem o ano ao ganhar a Milano-Sanremo - e os responsáveis da Bahrain-Merida, que inclusivamente vêem o sucedido a ser investigado pela polícia. A fractura numa vértebra levou-o a uma recuperação que não o permitiu estar ao melhor nível nos Mundiais, como tanto ambicionava, não conseguindo discutir, antes, a Vuelta. Na Lombardia tentou terminar como em 2017, mas Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) estava forte de mais e Nibali foi segundo.

Com a Bahrain-Merida a jogar muito no Tour, com Nibali a abdicar mesmo de participar no Giro por considerar que, então com 33 anos, estaria perante uma última oportunidade de ganhar pela segunda vez a corrida francesa, ver o seu líder desperdiçar uma época devido a uma desatenção de um adepto no Alpe d'Huez está a ser algo difícil de superar. No entanto, a época da Bahrain-Merida teve aspectos positivos, principalmente tendo em conta ao crescimento da equipa além de Nibali.

A equipa quer ser das mais fortes e ganhadoras e viu Sonny Colbrelli a melhorar nos sprints, tendo feito cinco top dez no Tour, incluindo dois segundos lugares. Nas clássicas foi mais irregular, mas foi igualmente um aspecto em que revelou melhorias. Colbrelli ainda poderá ser um ciclista de vitórias na Bahrain-Merida.

O esloveno Matej Mohoric (24 anos) confirmou que é ciclista de futuro, com sete triunfos e muitas mais exibições de nível. O ucraniano Mark Padun (22) deixou as primeiras indicações convincentes que podem apostar mais nele, ao que ajudou bastante ter ganho em Innsbruck, na última etapa da Volta aos Alpes.


Ranking: 7º (7409 pontos)
Vitórias: 26 (incluindo a Milano-Sanremo e uma etapa no Giro)
Ciclista com mais triunfos: Matej Mohoric (7)

Os irmãos Izagirre tentaram assumir algum protagonismo. No Tour, Ion fez dois segundos lugares e Gorka um. Durante a época somaram resultados de topo, mas nunca foram os líderes de garantias em grandes voltas como a Bahrain-Merida procura. Talvez por isso os responsáveis não tenham lamentado excessivamente a decisão de ambos mudarem-se para a Astana.

Brent Copeland, director da estrutura, está a querer construir uma equipa com base nos jovens com quem está a trabalhar. Além de Mohoric e Padun, há um espanhol que também começou a destacar-se ainda mais, depois de já em 2017 ter mostrado o seu potencial. Ivan García Cortina aproveitou bem a liberdade que teve na Vuelta, sendo um ciclista que a Bahrain-Merida quer ver ainda desenvolver as suas características para as clássicas do pavé. Abandonou algumas das principais, mas são poucos os que chegam a dominam a particularidade deste terreno. Vai ganhando experiência e é um jovem a ter em atenção em 2019.

Talvez 2018 possa ser visto como um ano de passagem depois de um aparecimento mediático na época anterior, com Nibali a ser o ciclista que se deu ao luxo de escolher quem queria a seu lado. Conquistado o lugar e o respeito no pelotão do World Tour com grandes vitórias que equipas com muitos mais anos não têm, a Bahrain-Merida quer dar um passo em frente... Ou vários! Aos jovens talentos, a equipa irá juntar ciclistas com mais experiência e que explorar outras possibilidade que não incluam Nibali.

Vão chegar três homens da BMC. Rohan Dennis quer continuar o trabalho iniciado na equipa americana para ser um voltista de nível. Se será possível o australiano discutir uma grande volta, é algo que ainda gera muita desconfiança, mas a Bahrain-Merida ganha o campeão do mundo de contra-relógio, o que também poderá ser sinónimo de mais vitórias e mais camisolas. Dennis já vestiu as três do Giro, Tour e Vuelta. Com o australiano chegará Damiano Caruso e Dylan Teuns. Ambos tanto podem ser valiosos a trabalhar para os líderes, como podem ir atrás de vitórias com garantias de competitividade.

O esloveno Jan Tratnik (CCC) reforça o bloco das corridas por etapas, enquanto o estagiário Stephen Williams (SEG Racing Academy) recebeu um contrato e vai fazer a sua adaptação ao World Tour. Marcel Sieberg (Lotto Soudal) e Phil Bauhaus (Sunweb) são homens de clássicas, comprovando como a equipa quer lutar em várias frentes, não centrando tanto as atenções num só homem.

Ainda assim, Vincenzo Nibali será novamente o líder nas grandes voltas, estando confirmado que vai regressar ao Giro. A Bahrain-Merida quer que 2019 seja o ano em que vencerá uma prova de três semanas. O pequeno Domenico Pozzovivo ainda ambiciona a alcançar algo especial na carreira. Porém, mesmo com um Giro de elevado nível esta época, coroado com o quinto lugar, é Nibali quem tem prioridade, pelo que aos 36 anos Pozzovivo poderá ter de regressar ao papel de gregário e esperar por outras oportunidades na próxima época. Talvez na Vuelta, ainda que com a chegada de Dennis, a vida poderá complicar-se para o veterano ciclista.

2019 poderá ainda ficar marcado por uma novela fora da estrada. A renovação de Nibali já começou a ser falada este ano. O italiano quer dois anos de contrato, mas a sua continuidade na Bahrain-Merida está longe de estar garantida. Se Nibali chegou como a única referência, agora os planos são outros. Até já foi piscando o olho à Sky, mas a equipa britânica vai perder o patrocinador e desconhece-se se vai sequer continuar. Se fechar portas, no mercado estarão um grupo de ciclistas que serão muito disputados. Se Nibali procurava um último grande contrato, poderá ver-se com uma concorrência enorme no momento de discutir negociações com equipas, inclusivamente com a Bahrain-Merida, que tem poderio financeiro para tentar contratar algum homem da Sky.

2018 ficou ainda marcado pelo positivo por EPO de Kanstantsin Siutsou. O bielorrusso venceu a Volta à Croácia, havia expectativa para o Giro, mas caiu no reconhecimento do contra-relógio e nem partiu. Mais tarde, deu positivo por EPO, estando suspenso provisoriamente. A Bahrain-Merida anunciou que, ainda antes de conhecer o resultado do teste, tinha alertado o corredor de 36 anos que não iria renovar o contrato.

Mas para acabar em grande o ano, a equipa revelou a chegada da McLaren, numa parceria de cooperação tecnológica, rumo ao objectivo de tornar a estrutura numa das mais fortes do mundo (pode ler mais neste link).

Permanências: Vincenzo Nibali, Sonny Colbrelli, Domenico Pozzovivo, Matej Mohoric, Valerio Agnoli, Grega Bole, Yukiya Arashiro, Ivan García Cortina, Chun Kai Feng, Henrich Haussler, Antonio Nibali, Domen Novak, Mark Padun, Luka Pibernik, Meiyin Wang e Hermann Pernsteiner.

Contratações: Rohan Dennis (BMC), Damiano Caruso (BMC), Dylan Teuns (BMC), Marcel Sierberg (Lotto Soudal), Phil Bauhaus (Sunweb), Jan Tratnik (CCC), Stephen Williams SEG Racing Academy) e Andrea Garosio (D'Amico-Utensilnord).

»»A aposta falhada num trio que não foi maravilha««

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29 de novembro de 2017

Nibali cumpriu o mínimo exigido na equipa em que os petrodólares prometiam mais

(Fotografia: Giro d'Italia)
Numa outra situação poder-se-ia dizer que para uma equipa que foi construída do zero para entrar directamente no principal escalão do ciclismo, vencer uma etapa e fazer pódio no Giro, ganhar depois uma tirada na Vuelta e alcançar mais um pódio e ainda terminar a temporada a conquistar um monumento, seria uma época fantástica. E é claro que são excelentes resultados. Tomara a muitas equipas. Contudo, para quem chegou com milhões de petrodólares para entrar de rompante no World Tour, o certo é que a Bahrain-Merida ficou um pouco aquém da grandeza que quis ostentar, ou que pelo menos o seu patrão assim quis passar.

O xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa queria uma equipa de ciclismo, aliciou o amigo Vincenzo Nibali a precisar de novos ares, depois de ver a relação com Alexander Vinokourov deteriorar-se na Astana, e contratou o muito experiente director, então na Lampre-Merida, Brett Copeland. Além dos milhões em causa para convencer Nibali a arriscar a carreira num projeto novo, também ajudou ter dado liberdade ao italiano de escolher a maioria dos seus companheiros. Nibali seria sempre o líder indiscutível. Em troca exigiam-se resultados.

Num misto de experiência e juventude, o plantel da Bahrain-Merida apresentou-se interessante: os espanhóis Ion Izagirre (que seria o segundo na hierarquia nas grandes voltas), Javier Moreno, Jon Insausti e o inevitável contingente italiano composto por exemplo por Valerio Agnoli, Manuele Boaro, Enrico Gasparotto, Giovanni Visconti e o veteraníssimo Franco Pellizotti, que cinco anos depois regressou ao World Tour, numa fase em que já pensava mais em terminar a carreira. Nibali levou ainda o irmão Antonio, com Janez Brajkovic, Ramunas Navardauskas, Kanstantsin Siutsou e Luka Pibernik a contribuir para um grupo de qualidade.


Ranking: 14º (5277 pontos)
Vitórias: 12 (incluindo uma etapa no Giro e uma na Vuelta e a Il Lombardia)
Ciclista com mais triunfos: Vincenzo Nibali (4)

Nibali não entrou em loucuras e deixou de parte o Tour (ou seja Chris Froome e a Sky) para estar presente no Giro100, opção perfeitamente justificável, tendo em conta a sua nacionalidade e o percurso passava pela sua Sicília. Chegou a Itália com uma pouco convincente vitória na Volta à Croácia e a Bahrain-Merida tentou apresentar uma união ao estilo Sky, mas também rapidamente se percebeu que era para durar pouco. Não ajudou Javier Moreno ser expulso da corrida por conduta imprópria (empurrou Diego Rosa, da Sky), mas ajudou Pellizotti continuar a ser um ciclista consistente e em boa forma, mesmo aos 39 anos. Foi difícil ver Nibali como verdadeiro candidato, mas ganhou na subida de Bormio, na etapa rainha, e fechou em terceiro. Ainda assim, por mais que se mostrasse feliz, ganhar o Giro era o objectivo e não se viu um ciclista com esse potencial. Claro que quando se recorda 2016... Também parecia a corrida estar mais do que perdida e Nibali acabou com a camisola rosa.

Uma das grandes curiosidades era Ion Izagirre. O espanhol deixou a Movistar para deixar o papel de gregário de Nairo Quintana ou Alejandro Valverde e poder ele ser líder. Ao contrário de Nibali, havia uma elevada expectativa para Izagirre no Tour. Não para ganhar, mas, de resto, tudo parecia possível. Nunca se conseguiu perceber, nem um bocadinho, o que valeria Izagirre como líder. Caiu no contra-relógio inaugural e a época terminou ali, em Dusseldorf, tal como a do antigo companheiro, Valverde.

A responsabilidade recaiu novamente toda em Nibali e em Espanha esteve melhor, mas tanto estava com toda a força, como numa subida mais inclinada e o italiano fraquejava. Ganhou uma etapa e só Chris Froome o bateu. Ainda foi depois até à Lombardia vencer pela segunda vez o último monumento do ano.

O que faltou então à Bahrain-Merida? Faltou mostrar um maior protagonismo e não ficar tanto na expectativa, faltou apostar mais noutras corridas e não centrar-se tanto nas grandes voltas, pois tinha plantel para tal e faltou principalmente estar no Giro ou na Vuelta para ganhar. Apesar dos pódios, Nibali nunca convenceu que poderia bater Tom Dumoulin ou Nairo Quintana em Itália, ou Froome em Espanha. Mantém-se aquele estigma que ganha quando os melhores não estão... Não é justo que tal marque a sua carreira, mas Nibali tem de conseguir bater os grandes nomes da actualidade.

Não fica esquecido uma das estrelas do ano para a equipa: Sonny Colbrelli. Finalmente deu o salto mais do que merecido para o World Tour, depois de muito ajudar a que se falasse da Bardiani-CSF. A etapa no Paris-Nice, prova do principal calendário, foi um momento marcante para o sprinter de 27 anos. Ainda conquistou mais dois triunfos em 2017 e apresentou algumas exibições interessantes. Porém, ficou a sensação que Colbrelli pode fazer mais, mas sofrerá com o facto das atenções centrarem-se em Nibali e depois em Izagirre. Colbrelli tem potencial para estar na luta em algumas clássicas, contudo, terá de desenvolver ainda mais a sua capacidade de trabalhar sozinho pelo melhor posicionamento. Já o fazia na Bardiani-CSF, mas é muito diferente ter de o fazer quando tem pela frente Peter Sagan ou Greg van Avermaet. Nos sprints tem uma missão difícil perante os actuais dominadores da especialidade. Será uma pena (e desperdício) se a Bahrain-Merida não tirar maior partido de Sonny Colbrelli.

Em 2018 chegarão ciclistas que poderão ser importantes para Nibali e para Izagirre, que contará com o seu irmão Gorka. A Movistar perde mais um ciclista de qualidade. Domenico Pozzovivo (AG2R) procura um novo desafio, ainda que vá perder protagonismo, enquanto da Eslovénia chega Kristijan Koren (Cannondale-Drapac) e Matej Mohoric. E este último poderá revelar-se ser uma grande contratação. A UAE Team Emirates abriu os cordões à bolsa para garantir Fabio Aru, Daniel Martin e Alexander Kristoff, mas deixou sair este jovem de 23 anos com um potencial ainda por perceber na totalidade. Venceu uma etapa na Vuelta e andou bem em toda a prova. Como trepador demonstra capacidade para evoluir e tornar-se num caso sério de competitividade, precisando de trabalhar o contra-relógio, onde também revela ter margem de manobra para, pelo menos, se defender bem. Pode ser um ciclista para o futuro se o xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa quiser de facto construir um projecto sólido e duradouro.

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7 de junho de 2017

Bahrain-Merida e a mania das grandezas

(Fotografia: Facebook Bahrain-Merida)
Foi uma das novelas de 2016. O xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa queria constituir uma equipa de ciclismo profissional e entrar directamente no World Tour. Seduziu Vincenzo Nibali com os petrodólares e a promessa de que seria o líder indiscutível e não demorou muito a fazer propostas que ciclistas como Ion Izagirre consideraram ser irrecusáveis, mesmo que isso significasse ir para uma equipa nova, sem rotinas, deixando para trás a segurança de uma estrutura como a Movistar, no caso do espanhol. Uma coisa era certa, dinheiro não era problema. O problema foi (e é) que nem todos vêem a questão monetária como a mais importante e a Bahrain-Merida não apresentou um conjunto tão forte como seria de esperar dado o poderio financeiro. Mas estamos a falar de uma espécie de ano zero em 2017. O primeiro e principal objectivo já foi falhado: a vitória no Giro com Nibali. É provável que o italiano aposte agora na Vuelta, mas os responsáveis parecem já estar a começar a pensar no futuro e em construir a super equipa que os petrodólares possam comprar.

Brent Copeland - que foi uma das grandes contratações, mas para director da equipa - sabe que precisa de um plantel melhor. Afinal ter Franco Pellizotti como o melhor apoio de Nibali na Volta a Itália - e atenção que foi mesmo uma excelente exibição do veterano ciclista - é excelente para o ciclista e mais um exemplo de como a idade nem sempre pesa assim tanto nas pernas. Porém, o facto de ter 39 anos demonstra que a Bahrain-Merida precisa de repensar a sua política de contratações. Uma parte do plantel foi escolhida a pedido de Nibali, mas para 2018 já poderá não ser bem assim.

Mikel Landa e Gorka Izagirre são dois dos nomes que estarão no topo da lista de reforços para o próximo ano. No caso de Landa torna-se óbvio que a amizade entre o xeque e Nibali foi muito bonita para começar a equipa, mas agora é altura de pensar em mais opções de liderança e em mais opções de vitórias nas corridas por etapas. O ciclista da Sky estará a pensar em sair depois de dois anos em que não conseguiu afirmar-se entre Chris Froome e companhia. Entre azares e falta de confiança, pouco correu bem a Mikel Landa, que até já terá um pré-acordo com a sua antiga formação, a Astana, mas isso não desmoraliza a Bahrain-Merida. Segundo o jornal Marca, Landa é mesmo o alvo prioritário.

Financeiramente a Astana é também uma equipa poderosa, pelo que um bom cheque poderá não chegar para atrair Landa. Porém, a formação cazaque atravessa uma crise de resultados e não tem atraído grandes nomes do ciclismo, sendo também uma equipa que vive eternamente sob suspeita devido ao passado do seu director Alexander Vinokourov e a um ou outro caso de doping nos últimos anos. À Bahrain-Merida restará apresentar um projecto com futuro e com um forte suporte em ciclistas de qualidade para apoiar Mikel Landa. E claro que um ordenado bem interessante ajudará sempre, mesmo não sendo decisivo neste caso.

Já Gorka Izagirre será um caso fechado, segundo a Marca. Se assim for, o espanhol irá juntar-se ao irmão mais novo, que deverá ser o líder da equipa na Volta a França. Gorka é um dos principais homens de trabalho de Quintana e Valverde, tendo ganho uma etapa no Giro100. É claramente uma contratação de qualidade e que comprova como a Bahrain-Merida quer subir de nível competitivo e aproximar-se das principais formações do World Tour.

Nibali não perdeu crédito por não ter vencido o Giro. O terceiro lugar até foi descrito como uma boa classificação, tanto pelo ciclista, como pelo próprio xeque. Não é uma afirmação que seja completamente convincente, mas dado o que aconteceu com Tom Dumoulin que foi simplesmente superior a todos, o pódio não foi de facto um mau resultado. Ainda assim, certamente soube a pouco para quem queria a sua terceira Volta a Itália na 100ª edição. Além disso, o italiano não se mostrou no seu melhor. A amizade com Nasser bin Hamad Al Khalifa deverá render a Nibali uma renovação de contrato pelo menos por mais um ano e a oportunidade de lutar pela Volta a França em 2018, como o italiano já revelou ser o seu desejo. Assim percebe-se ainda melhor a pretensão de desviar Landa da Astana, pois o espanhol tem como principal ambição (para já) conquistar o Giro, corrida que diz ser a sua preferida entre as provas de três semanas.

Mas a tal lista tem pelo menos mais um nome muito interessante: Davide Formolo. O italiano de 24 anos é uma das estrelas em ascensão e com o futuro da Cannondale-Drapac a ser uma enorme incógnita, ao que se junta o facto de terminar o contrato este ano, Formolo poderá ser tentado em resolver rapidamente a sua situação. Financeiramente não há dúvidas que a actual formação americana não tem capacidade para contrariar uma eventual oferta da equipa do Médio Oriente.

Qualquer contratação que já esteja ou venha a ser negociada só pode ser publicamente anunciada a partir de 1 de Agosto (pode ver aqui quem está em final de contrato). Porém, as renovações já estão a acontecer e sem surpresa, Sonny Colbrelli foi o primeiro. O sprinter italiano assinou até 2019 e bem merece ter alguma segurança. Soma duas vitórias, uma no Paris-Nice e outra na clássica belga De Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne. Além dos triunfos, esteve na disputa de outras corridas. Uma estreia positiva ao mais alto nível aos 27 anos, depois de ter evoluído na Bardiani-CSF.

Colbrelli destacou como considera que a equipa é a ideal para o levar até ao topo do ciclismo, admitindo que não pensou duas vezes em renovar o contrato. Já o director Brent Copeland salientou como Colbrelli foi dos primeiros a acreditar no projecto do Médio Oriente, sendo agora dos primeiros a renovar: "O Sonny é um elemento muito importante para a equipa. Vimos como melhorou e como está mais confiante. Está a aprender em lidar com o papel de um verdadeiro líder e acreditamos que tem ainda muito espaço para desenvolver [as suas capacidades]."

Sonny Colbrelli é de facto um ciclista importante para a equipa, tendo tudo para ser sinónimos de grandes vitórias num futuro próximo. A Bahrain-Merida parece estar numa fase ascendente, não tendo receio de mostrar como tem a mania das grandezas e que a quer transformar em momentos de glória. A dúvida que persiste sempre com projectos megalómanos dependentes de petrodólares, ou de outro tipo de multimilionários que resolvem entrar no ciclismo, é o que acontece quando alguém decide que já chega?

Vejamos o que aconteceu no Qatar, numa perspectiva de um pouco diferente. Tanto gastaram na sua volta, conseguiram organizar uns Mundiais e até a Volta ao Qatar subiu para a categoria World Tour. Porém, foi cancelada por falta de dinheiro e entretanto surgiram notícias que muitos dos trabalhadores nos Mundiais não receberam o salário devido.

E este é um exemplo da mesma zona do globo, porque se formos até à Rússia, Oleg Tinkov também sempre teve a mania das grandezas e de um dia para o outro fartou-se e bateu com a porta. Os ciclistas que até tinham mais anos de contrato e que pensariam estar seguros, tiveram de inesperadamente procurar outras equipas.

Vamos ver se este ano zero da Bahrain-Merida servirá de facto para impulsionar uma equipa forte e com futuro, ou se viverá e morrerá à custa da vontade do seu xeque.

»»O lado ensombrado da Bahrain-Merida««