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7 de março de 2018

Cavendish candidato a azarado do ano

(Imagem: print screen)
Desejoso de deixar bem enterrado no passado o incidente da Volta a França, Mark Cavendish está a ser perseguido pelo azar. Duas quedas nas primeiras etapas de duas corridas! Numa abandonou ainda nem o pelotão estava a preparar-se para o arranque oficial, na outra nem teve tempo de decidir se abandonaria ou não, pois chegou fora do tempo limite no contra-relógio colectivo, ganho pela BMC. "A minha mãe diz que as coisas más acontecem às três. Esta foi a terceira, portanto vamos esperar que tenham desaparecido e que possamos trabalhar e ter uma fase decente", desabafou o director desportivo da Dimension Data, Roger Hammond.

Na equipa sul-africana nem se tenta esconder o desalento por mais esta queda de Mark Cavendish. O ciclista cortou a meta em Lido di Camaiore com o rosto ferido, a inchar, mas as marcas estendiam-se a mais zonas do corpo. "Foi uma queda grave. Mesmo grave. As quedas nos contra-relógios colectivos nunca são boas. Por definição eles vão muito rápido. Foi uma rajada de vento que não se estava à espera. Foi uma daquelas quedas em que te levantas e não sabes o que aconteceu", explicou Hammond. Apesar de na transmissão televisiva não terem sido mostradas imagens, o responsável afirmou que a equipa gravou o que aconteceu e vai agora analisar.

Uma queda nunca vem numa boa altura, mas esta deixa a Dimension Data a fazer contas sobre o futuro próximo de Mark Cavendish. O britânico queria disputar etapas no Tirreno-Adriatico - principalmente a desta quinta-feira -, mas com o pensamento na Milano-Sanremo, agendada para 17 de Março. O ciclista foi transportado para o hospital e no momento em que este texto é escrito ainda não há relato das consequências do incidente.

"Definitivamente as coisas não estão a decorrer a nosso favor e é muito frustrante. Começou-se bem no Dubai, mas agora...", disse Rolf Aldag, outro director, citado pelo Cycling News. Cavendish venceu a terceira etapa na Volta ao Dubai, foi segundo no primeira em Omã, mas depois em Abu Dhabi foi vítima de um acidente no mínimo insólito. Ainda nos quilómetros neutralizados, Cavendish foi contra o carro da organização. A RCS Sport admitiu que os veículos estavam equipados com o sistema de segurança de travagem, ou seja, quando uns ciclistas colocaram-se ao lado do carro, este activou automaticamente o travão. Quem vinha atrás... Cavendish bateu com a cabeça no chão e o ombro também não ficou muito bem. Nem começou a Volta a Abu Dhabi. Cinco semanas depois, o britânico regressa à competição... e acaba de novo a bater com a cabeça no chão.



A caminho dos 33 anos, Cavendish começou a temporada optimista depois de um 2017 para esquecer. Somou apenas uma vitória, em Abu Dhabi, sofreu de mononucleose que o limitou grande parte da época, obrigando-o mesmo a parar. Conseguiu recuperar a tempo de ir ao Tour, mas na quarta etapa esteve envolvido no incidente que terminou com uma queda muito aparatosa do britânico e uma muito discutível expulsão de Peter Sagan da corrida. Dois meses depois Cavendish regressou, mas sempre a pensar mais no ano seguinte e nos quatro triunfos que lhe faltam para igualar Eddy Merckx em conquistas de etapas na Volta a França.

Com tanto azar depois de um 2016 de tanto sucesso e que trouxe de volta o míssil da Ilha de Man aos grandes momentos - destacam-se as quatro tiradas no Tour e o sonho cumprido de vestir a camisola amarela -, a força mental de Cavendish está a ser constantemente colocada à prova. Falta saber se o mau aspecto das lesões correspondem ou não a lesões graves, mas estará sempre em causa mais uma recuperação física.



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25 de fevereiro de 2018

Dia de espectáculo da velha e da nova geração

Duas corridas por etapas, duas vitórias para Valverde
(Fotografia: Facebook Volta a Abu Dhabi)
A época está a começar a aquecer. Arrancaram as clássicas, mas vão continuando as provas por etapas e hoje foi um daqueles dias de muito bom ciclismo com a velha e a nova geração a mostrarem-se. E de que maneira! Alejandro Valverde retomou definitivamente a forma de 2017. Não parecem restar sequelas da grave queda no Tour, depois de se ter temido que a carreira poderia chegar ao fim. Duas corridas por etapas, duas vitórias. Por outro lado tivemos Dylan Groenewegen. Ganhou recentemente os sprints de Lagos e Tavira na Volta ao Algarve, antes venceu na primeira tirada da Volta a Omã e agora foi até à Kuurne-Bruxelles-Kuurne bater novamente Arnaud Démare. Não foi apenas melhor, foi de uma superioridade que já só se pede (quase se implora) vê-lo na discussão com mais concorrência, em luta com os principais sprinters, além de um Démare que já deve estar a ficar algo frustrado com o holandês.

Mas há que respeitar quem já tem um enorme currículo - que continua a aumentar - e começar por Alejandro Valverde. Iniciou a temporada a dizer que estava à procura de perceber como estava fisicamente nas corridas. Essa questão ficou resolvida com um 40º lugar na primeira das clássicas espanholas e depois foi terceiro e quarto lugar. Na Volta à Comunidade Valenciana ganhou duas etapas e a geral, fez segundo em Múrcia (prova de um dia) e agora venceu a etapa rainha em Abu Dhabi e a geral. "Começar desta maneira o ano dá muita motivação e anima-te para continuar a trabalhar", salientou o espanhol. E a motivação está mesmo em alta. O "Bala" já fala até em ir à Strade Bianche no próximo sábado, ainda que a próxima corrida no seu calendário fosse a Volta à Catalunha, que começa a 19 de Março.

Caminha para os 38 anos e simplesmente quer mais, mais e mais. Numa equipa que tenta mostrar união numa clara divisão entre Nairo Quintana e o reforço Mikel Landa, Valverde mantém o seu lugar intocável na Movistar. Onde vai, é para ganhar e se ninguém duvida que estará mais do que disponível para ajudar os outros dois líderes quando chegar a altura, ainda são menos as dúvidas que este Valverde, que pareceu estar tão perto de terminar a carreira devido à queda no contra-relógio no Tour, ainda tem tanto para dar. Abram alas, Valverde tem mais umas vitórias para amealhar e o olhar começa a ficar muito fixo nos Mundiais, a grande conquista que lhe falta na carreira.

Groenewegen deixou Démare bem distante (Imagem: print screen)
Quem também tem muitas vitórias pela frente é certamente Dylan Groenewegen. Está feito num sprinter fortíssimo e vai confirmando credenciais nas clássicas. 24 anos, 27 vitórias e vencer nos Campos Elísios em 2017 foi provavelmente apenas o início de uma senda grandes triunfos. O na Kuurne-Bruxelles-Kuurne confirma também a sua apetência para este tipo de clássicas. É certo que esta é das provas de pavé mais "simpática" para os sprinters, mas Groenewegen teve a oportunidade para ganhar experiência nestas corridas nos últimos anos e tem agora a liberdade e a responsabilidade de começar a recolher os frutos dessa fase de aprendizagem. E bem pode dar umas dicas a Fernando Gaviria (Quick-Step Floors), outro sprinter a tentar vingar nas clássicas do pavé, mas com um início desanimador: caiu na Omloop Het Nieuwsblad e abandonou na Kuurne-Bruxelles-Kuurne.

O trabalho da Lotto-Jumbo - descendente da Rabobank - com ciclistas jovens, a paciência que teve em esperar que se fizessem ciclistas, poderá a curto prazo colocar esta equipa noutro nível. Groenewegen está a fazer a sua parte, segue-se George Bennett (27 anos), que se irá tornar na grande aposta para as grandes voltas, sem que se tenha perdido totalmente a esperança em Steven Kruijswijk (30).

Em baixo ficam as classificações, via ProCyclingStats, da Volta a Abu Dhabi, com Rui Costa (UAE Team Emirates), vencedor em 2017, a terminar na oitavo posição, a 1:28 de Valverde (por defeito está a aparecer a classificação por equipas, basta carregar na "general" para ver a individual)...


... e da Kuurne-Bruxelles-Kuurne, que não contou com ciclistas portugueses.


»»Astana perdeu Aru, está sem financiamento, mas reencontrou-se com as vitórias««


21 de fevereiro de 2018

Rui Costa garante que continua a ser líder na UAE Team Emirates e até está mais tranquilo

Rui Costa é uma das incógnitas para 2018. Qual é o papel do ciclista nesta nova fase da UAE Team Emirates? O ciclista português diz que é de líder e que a chegada de mais uns grandes nomes do ciclismo actual apenas lhe permite ter maior tranquilidade. No entanto, Rui Costa não abre muito o jogo sobre a sua temporada, numa altura em que ainda se desconhece qual ou quais as grandes voltas em que irá estar. Nem sequer avança se irá à procura de etapas como aconteceu no ano passado, ou se poderá tentar novamente apostar na classificação geral. O estatuto na equipa será confirmado com o decorrer das corridas que se seguem no seu calendário.

Por enquanto está em Abu Dhabi, onde tem o dorsal número um. Em 2017 venceu a corrida no primeiro ano em que esta prova pertenceu ao calendário World Tour e, mais importante, na casa do novo patrocinador. Em entrevista ao jornal espanhol Marca, Rui Costa referiu que o contra-relógio altera as perspectivas desta volta, mas que no domingo, último dia e com a etapa rainha, tanto ele, como Fabio Aru e Diego Ulissi vão estar preparados para tentar ganhar novamente a corrida para a UAE Team Emirates. Para já, a formação do Médio Oriente até começou bem, com uma vitória para Alexander Kristoff na primeira etapa, decidida ao sprint.

Mas é do futuro próximo de Rui Costa que mais se quer saber. "Vou continuar a ser líder, mas é certo que agora haverá outros e isso dar-me-á tranquilidade. Já sabemos que é importante ter os pontos UCI e, a partir de agora, vamos trazê-los com vários corredores", salientou. Afirmou ainda que a equipa "é um luxo" com as contratações que garantiu: "O repto é ser no futuro a melhor do mundo e está a trabalhar-se para isso." Além de Fabio Aru e Kristoff, Daniel Martin chegou para formar este trio de destaque, mas Rui Costa passa a ideia que tem de se falar de um quarteto e contar com ele para alcançar bons resultados. "[No Paris-Nice] iremos com o Daniel Martin e com o Kristoff. Assim teremos a capacidade de lutar por vitórias em etapas e também pela geral", disse.

Depois de Paris-Nice, Rui Costa tem ainda no seu calendário a Volta ao País Basco, à Romandia, a semana das Ardenas... Mas quanto às grandes voltas, o Giro parece estar fora de questão e é difícil esconder que é o regresso ao Tour que tem nos seus planos, depois de em 2017 se ter estreado na Volta a Itália e Espanha. "Teremos de ver com calma. O Fabio estará no Giro. Ali não estarei. Com o tempo iremos decidir. Quem sabe Tour e Vuelta", adiantou, recordando que não teve muita sorte em França desde que saiu da Movistar. "Espero que a sorte mude e assim possa fazer algo bonito", frisou o ciclista que conta com três vitórias de etapa no Tour.

Questionado se irá concentrar-se em "caçar etapas", Rui Costa respondeu apenas que é uma das hipóteses. "Temos ciclistas para tudo, mas por agora vou pouco a pouco. Seja como for, acredito que posso celebrar algumas vitórias." Em 2017, além de Abu Dhabi, conquistou antes da etapa rainha Volta a San Juan. No Giro foi três vezes segundo classificado, mas com o decorrer do ano, os resultados foram tendo menos relevância. 

Em 2018, espera estar bem em Innsbruck, nuns Mundiais a convidar os trepadores a tirarem a camisola do arco-íris a Peter Sagan. Rui Costa considera que a prova na Áustria poderá ser a mais dura e não acredita que o eslovaco consiga um histórico quarto título consecutivo. Nunca nenhum ciclista venceu mais de três.

Muito acontecerá até aos Mundiais e Rui Costa (31 anos) tem mente que está em final de contrato. "Por agora não me preocupa em demasia", afirmou, mas não esconde que se sente bem na UAE Team Emirates e que o objectivo passar por renovar.

20 de fevereiro de 2018

O inesperado regresso de Luke Rowe na corrida em que Rui Costa é o número um

(Fotografia: Team Sky)
Fabio Aru, Alexander Kristoff, Diego Ulissi, três das principais estrelas da UAE Team Emirates não podiam faltar à corrida em casa da equipa. Tal como Rui Costa. O ciclista português terá o dorsal número um, pois foi ele que deu uma das grandes alegrias ao então novo patrocinador. Em 2017, a Volta a Abu Dhabi estreou-se no calendário World Tour, tendo também mudado o seu posicionamento para Fevereiro, em vez de ser uma corrida de final de temporada, sendo que a UCI aproveitava ainda para realizar a habitual gala de consagração das figuras da temporada. Naturalmente que os patrocinadores ,que tanto dinheiro estão a investir nesta estrutura, querem grandes vitórias, mas ganhar em casa é quase igualmente importante, pelo que o triunfo de Rui Costa há um ano foi de extrema relevância.

A corrida mantém o percurso maioritariamente plano e com uma etapa que decide o vencedor, desta feita com 199 quilómetros, com alguma montanha e o explosivo final em Jebel Hafeet. Nesta edição será a última. No dia antes, haverá um contra-relógio de 11 quilómetros. Tom Dumoulin (Sunweb) - que vai começar a sua época - Miguel Ángel López (Astana), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Rohan Dennis (BMC), Alejandro Valverde (Movistar), Simon Yates (Mitchelton-Scott), Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) e Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) são desde logo alguns dos candidatos a suceder Rui Costa, além de Aru e claro que não se poderá tirar o português da equação, ainda mais quando demonstrou em Omã que está em clara subida de forma. Depois haverá Mark Cavendish (Dimension Data), Marcel Kittel (Katusha-Alpecin), Caleb Ewan (Mitchelton-Scott) e Elia Viviani (Quick-Step Floors) para animar os sprints.

Porém, algumas das atenções vão focar-se em Luke Rowe. O britânico da Sky sofreu um daqueles infelizes acidentes num momento que era suposto ser de descontracção e recebeu a difícil notícia que a época de 2018 seria praticamente toda perdida. Há seis meses, o britânico de 27 anos, partiu a perna quando saltou do barco de rafting para a água, numa zona pouco profunda. 20 fracturas... No entanto, a recuperação superou qualquer das melhores expectativas. No final do ano, Rowe já falava em talvez estar preparado para ir à Volta a França, aquela que acabou por ser a sua última corrida em 2017, tendo sido um ciclista importante na quarta conquista de Chris Froome. No entanto, eis que Rowe se sentiu preparado para voltar já à competição e até pensar em atacar as clássicas.

"Quando regressei aos treinos como deve ser, percebi que, se calhar, não estava tão em baixo de forma como pensava. Conseguir sofrer um pouco no início e levei uns pontapés na cabeça algumas vezes, mas recuperei a forma e a força muito rapidamente", explicou o ciclista, no comunicado da Sky. "No estágio em Janeiro senti-me bem, fui ter com a equipa e disse que queria estar em Abu Dhabi", acrescentou.

Rowe até considera que ao ser uma estreia para ele a prova no Médio Oriente, até é uma mudança boa, mas claro que o percurso teve influência na decisão: "É uma corrida perfeita para regressar. Os sprints são turbulentos, é certo, mas as estradas são largas e muito planas, por isso, é um pouco menos stressante."

O britânico considera que estes próximos dias serão importante para perceber como poderá enfrentar as próximas semanas. E não esconde que estar nas clássicas "seria um sonho". "Tinha excluído por completo [a hipótese], mas é possível olhar para a fase final das clássicas e estar em boa forma. Seria um sonho. Mas talvez seja demasiado optimista estar lá a 100%. Ainda é cedo no processo e obviamente que ainda estou em recuperação. É um enorme objectivo e o tempo o dirá." Ou seja, tem mês e meio para perceber se estará em condições de enfrentar as duríssimas Volta a Flandres e Paris-Roubaix, a não ser que mude o seu foco para a semana das Ardenas, que não se adequam tanto às suas características.

A despedida de solteiro do irmão, na República Checa, acabou por ser memorável pelas piores razões, mas Rowe ultrapassou uma enorme adversidade. Só o seu regresso cerca de seis meses antes do que era minimamente expectável, é uma vitória. Agora é esperar para ver se a Sky poderá contar com um ciclista que tem sido aposta no bloco das clássicas, além de se ter tornado também importante na ajuda ao líder nas grandes voltas.

A Volta a Abu Dhabi arranca esta quarta-feira, com a etapa rainha final marcada para domingo e terá transmissão no Eurosport 2.

»»Philippe Gilbert: "Foi bom ganhar a Volta a Flandres, mas o futuro é muito mais interessante"««

»»Elia Viviani e um antídoto chamado Quick-Step Floors««

29 de janeiro de 2018

Cavendish já sabe o que poderá fazer depois do ciclismo. E continua a ser sobre rodas

(Fotografia: Scott Mitchell/Dimension Data)
Trinta etapas na Volta a França. Faltam quatro para igualar o recorde de Eddy Merckx e aos 32 anos, Mark Cavendish está concentrado em recuperar a melhor forma e deixar para trás um 2017 marcado por uma mononucleose e a violenta queda na Volta a França. Porém, ao ser questionado sobre o seu futuro pós-ciclismo, o britânico não esconde que tem outra paixão e que não se importaria de a seguir a desportivamente.

Mark Cavendish foi entrevistado pela Esquire, na versão para o Médio Oriente, e admitiu o quanto gosta daquela zona do globo, principalmente Abu Dhabi, onde quando terminar a carreira de ciclista não se importará de ir viver. Começando por recordar que está há umas semanas no local e que até esteve no Grande Prémio de Fórmula 1, em Novembro, essa revelação acabou por servir de mote para a conversa sobre o seu futuro quando deixar as bicicletas.

"Acho que não seria suficientemente bom", realçou quando questionado se poderia tornar-se num piloto de automóveis. "Todos pensam que é como conduzir um carro em passeio, mas não é bem a mesma coisa. Para ser honesto, prefiro mais as motos. Gostaria antes de competir nelas", afirmou. De imediato o jornalista perguntou: "Então é isso que se segue? Depois do ciclismo?" Resposta: "Muito seriamente, penso que sim." E para que não se tenha dúvidas desta sua paixão das duas rodas, mas com motor, Mark Cavendish tem várias motos... Talvez 20, pois nem tem bem a certeza quantas estão na sua garagem.

Mas que descansem os fãs de Cavendish, o britânico não tem planos para se retirar do ciclismo para já. No entanto, confessou que fazer 30 anos foi algo que o deixou algo perturbado, por uns momentos. "Pensei que me ia 'passar', pensei que ia comprar um carro desportivo", disse, bem humorado. Porém, a família acabou por ser uma enorme inspiração para enfrentar a nova década na sua vida. "A um mês de fazer 30 anos, recordo-me que era o aniversário da minha filha e que a minha mulher estava grávida. Sentei-me e vi-a a andar de um lado para o outro, a garantir que estavam todos bem e a Delilah estava com o seu vestidinho, só me lembro de pensar: 'Que mais posso querer quando fizer 30?' Não poderia desejar alcançar mais e não poderia desejar ter uma melhor família", salientou.

Convidado a deixar um conselho a si próprio se tivesse 21 anos, Cavendish diria: "Pára de lutar contra o mundo. O mundo não está contra ti. Só parece que sim, às vezes. Livra-te daquele chip no teu ombro. Quando agora olho para trás, eu era apenas um homem zangado, a lutar contra toda a gente."

E numa altura em que a segurança dos ciclistas na estrada voltou a ser muito falada após o atropelamento de Laurens de Plus e Petr Vakoc (Quick-Step Floors) quando treinavam na África do Sul, Cavendish deixou a sua mensagem. "Na bicicleta és uma pessoa só. As pessoas nos carros deveriam ter atenção, mesmo que alguém esteja zangado, você está protegido na sua concha e a segurança deles [ciclistas] está nas suas mãos. Por isso, tenha cuidado ao zangar-se e nas suas reacções para com eles", apelou.

Mark Cavendish vai arrancar a sua temporada, a terceira na Dimension Data (está em final de contrato), precisamente no Médio Oriente, primeiro no Dubai, de 6 a 10 de Fevereiro e depois na Volta a Abu Dhabi, de 21 a 25 do mesmo mês. O seu grande objectivo de temporada (e de carreira) é chegar ao número 34 em etapas no Tour e de preferência chegar ao 35 e passar assim a ser ele o recordista.


26 de fevereiro de 2017

Volta a Abu Dhabi: uma aposta ganha pela organização e por Rui Costa

(Fotografia: Facebook Volta a Abu Dhabi)
Foram apenas precisas duas edições para que a Volta a Abu Dhabi mostrasse à UCI que tinha lugar entre o calendário World Tour. A terceira realizou-se poucos meses depois da última, pois em 2016 a corrida realizou-se em Outubro, com o Emirado a receber também a gala de fim de temporada. O pouco tempo para preparar a prova não foi um problema e passar a realizar-se em Fevereiro só trouxe benefícios para todos. Sprinters e trepadores têm mais uma oportunidade para preparar a temporada num local com uma meteorologia mais simpática. Bom... quase sempre: este domingo um dilúvio marcou a última etapa. Um pelotão de luxo esteve em Abu Dhabi e estamos a falar de um conjunto de ciclistas que dificilmente se juntam numa grande volta, já que acabam por se dividir entre Giro, Tour e Vuelta. O resultado foi uma corrida que gerou muito interesse, teve uma grande exposição mediática, o que faz com que seja um exemplo de sucesso de uma nova prova do calendário World Tour, depois da Volta ao Qatar ter sido cancelada, a Volta a Turquia ter sido adiada, enquanto outras organizações estão a queixar-se do investimento que poderá não ser recompensado.

E claro, para os portugueses a Volta a Abu Dhabi também ficará para história do ciclismo. A terceira edição fica marcada pelo regresso do campeão do mundo de 2013 às vitórias no World Tour e à conquista de uma prova por etapas. Rui Costa está de regresso ao seu melhor e numa altura perfeita. Venceu na casa da sua equipa (a UAE Team Emirates), do novo patrocinador que salvou a formação de um final abrupto depois do investidor chinês não ter concretizado o apoio prometido.

O ciclista português teve de enfrentar um dia de muita chuva no circuito Yas Marina, onde se realiza o Grande Prémio de Fórmula 1, mas ninguém tentou ameaçar a liderança de Rui Costa. Depois dos 4 Dias de Dunkerque (2009) e de três Voltas à Suíça (2012/13/14), o poveiro volta a conquistar uma corrida por etapas, naquela que é a terceira vitória do ano, depois das etapas rainhas na Volta a San Juan e na de precisamente em Abu Dhabi.

Voltando à organização. As novas competições do World Tour não são de presença obrigatória para as equipas do principal escalão, ao contrário do que acontece com as mais antigas. No entanto, têm de garantir no mínimo dez formações para assegurar a continuidade no calendário em 2018. Das 18 equipas, só a FDJ e a Cannondale Drapac não marcaram presença e das 16 que competiram, só a Sky não apresentou nenhum líder. Aliás, só foram seis dos oito ciclistas que deveriam compor a equipa.

Coincidindo com o início da época das clássicas, pode-se dizer que a Volta a Abu Dhabi foi um estrondoso sucesso. Não contou, naturalmente, com classicistas, nem com contra-relogistas, já que não conta com uma etapa de esforço individual. Mas tendo em conta os ciclistas que lá estiveram... Não será uma preocupação. A ASO, que organiza a Volta a França, encontrou o equilíbrio perfeito para mais uma competição. Mesmo obrigando as equipas a uma deslocação longa ao Médio Oriente, as formações vêem vantagens nessa viagem. Abu Dhabi chegou ao World Tour para ficar e a primeira vitória da corrida ao mais alto nível será sempre recordada como sendo de Rui Costa. Já agora, os anteriores vencedores foram Johan Esteban Chaves e Tanel Kangert.

Classificação final da Volta a Abu Dhabi.


Sagan e Ewan aprenderam rapidamente com os erros

Ewan já ia festejar quando Kittel o ultrapassou, no sprint da 2ª etapa em Abu Dhabi
(Fotografia: Facebook Volta a Abu Dhabi)
Mesmo os mais experientes fazem erros. Faz parte de qualquer profissão, de qualquer atleta de alta competição. Por outro lado, quando ainda se está numa fase de desenvolvimento, há lições que podem ser muito dolorosas e a forma como se as "encaixa" e como as colocam em prática, pode ser a diferença entre um atleta se tornar num vencedor, ou ficar a ver os outros vencerem. Quando já se tem alguma experiência, é preciso saber admitir que não se é invencível e que se está sempre a aprender. Este domingo assistimos aos dois casos. O primeiro refere-se a Caleb Ewan, o segundo a Peter Sagan. Ambos conquistaram vitórias depois de dois erros quase de principiantes em dias anteriores. Sagan já se sabe que é um ganhador, mas pode ser ainda mais se começar a assimilar melhor algumas lições. Quanto a Ewan, a juventude e a emoção pregaram-lhe uma dura partida, mas o australiano está agora pronto para se impor entre a elite dos sprinters.

Comecemos por Caleb Ewan. O australiano tem apenas 22 anos, mas desde 2014 que a Orica-Scott acredita que está perante um talentoso sprinter. No ano seguinte foi à Volta a Espanha conquistar uma etapa, mas 2016 não foi exactamente o ano de afirmação que se esperava. No que diz respeito em debater-se com os melhores, Ewan mostrou na época passada ainda não estar preparado. Começou 2017 em grande no seu país: quatro vitórias no Tour Down Under, mais a classificação por pontos. Porém, continuava a faltar aquele triunfo em frente dos grandes nomes. O momento parecia ter chegado na segunda etapa da Volta a Abu Dhabi. Tudo bem feito pela Orica-Scott e Ewan já levantava os braços quando Marcel Kittel o passou. Mais do que um erro de principiante, é um daqueles humilhantes e que é preciso estofo para recuperar. Dois dias depois, chegou a redenção e a prova que Ewan tem o que é necessário para se debater com os melhores, tanto física, como psicologicamente.



Foi com autoridade que bateu Mark Cavendish e André Greipel e o pequeno australiano, -que sprinta de forma tão estranha, deitado no guiador - admitiu publicamente o erro de festejo precoce, mostrando que custou, mas que foi uma lição que perdurará para o resto da carreira. E se era preciso mais provas, desta feita até teve tempo para festejar antes de cortar a meta, mas só o fez depois! Pelo sim, pelo não! Há que não esquecer, tem apenas 22 anos. É pequeno e com umas constituição física bem diferente de sprinters como Kittel e Greipel, mas Ewan, assim como Fernando Gaviria (Quick-Step Floors), são desde já os líderes de uma nova geração de sprinters que está preparada para se impor nos grandes momentos da temporada.

Quanto a Peter Sagan, com tantos segundos lugares seria de esperar que já tivesse a fórmula certa para não cometer erros básicos. Porém, isto é ciclismo e uma decisão mal feita num segundo e estraga-se horas de trabalho. Foi o que aconteceu no sábado na Omloop Het Nieuwsblad. A forma como quis controlar Avermaet no sprint final, abrindo espaço na curva, deixando caminho aberto para o belga foi algo estranho de se ver. Depois faltaram pernas para apanhar Avermaet. Sagan foi ainda criticado por ter trabalho durante muitos quilómetros antes da formação do trio que disputaria a vitória. Porém, é a forma de Sagan correr e se é certo que tem de se resguardar um pouco mais, também é verdade que é quase contranatura ver Sagan jogar à defesa.

Peter Sagan conquistou a primeira vitória de 2017
(Fotografia: ©BORA-hansgrohe/Stiehl Photography)
Na Kuurne-Bruxelles-Kuurne, Sagan não deixou de trabalhar bastante, ainda que teve mais ajuda, até porque o grupo era composto por cinco ciclistas. Porém, o factor decisivo foi a forma como encarou a última curva antes da recta da meta. Preocupou-se em ficar bem colocado e não em ver como estavam os outros. Depois foi esperar pelo momento certo para atacar. Quase parece fácil quando se vê Sagan ganhar assim. E desta vez não houve Avermaet para estragar a festa do eslovaco. A "besta negra" do campeão do mundo ficou para trás quando Jasper Stuyven atacou e não foi atrás de Sagan quando o ciclista da Bora-Hansgrohe resolveu ir para a frente da corrida.

Por falar em Bora-Hansgrohe, certamente que os responsáveis estarão mais tranquilos. A sua grande estrela mostrou que aprende rápido e conquistou a primeira vitória da equipa desde que a formação alemã - que conta com o campeão nacional José Mendes - chegou ao escalão World Tour. Ainda assim, é um pouco preocupante ver que ninguém consegue acompanhar Sagan para o ajudar em momentos importantes das corridas. O eslovaco está habituado, é certo - teve uma grande escola na Tinkoff -, e há muito que se "desenrasca" sozinho. Mas ainda assim, esperava-se mais da Bora-Hansgrohe como equipa.

Veja aqui os resultados da clássica belga.

Lições aprendidas e vitórias conquistadas. Para Ewan foi a primeira frente aos melhores, para Sagan a primeira de 2017. Tanto um como outro certamente que terão oportunidade para mais festejos. É muito provavelmente uma questão de começar a contar e, para Sagan, o difícil costuma ser conquistar a primeira vitória, depois... engata!

»»Clássicas. Tudo começou com um cenário bem conhecido: Avermaet a bater Sagan. Mas será que vão ser desqualificados?««

»»Sagan, Avermaet, Boonen... A época das clássicas vai começar««

»»Mais sectores de pavé para alimentar a lenda do Paris-Roubaix««

25 de fevereiro de 2017

Triunfo de Rui Costa em Abu Dhabi é muito mais do que uma "simples" vitória

Momento da vitória em Jebel Hafeet (Fotografia: Facebook Volta a Abu Dhabi)
Qualquer vitória conquistada ao mais alto nível no ciclismo nada tem de simples. A utilização desta palavra prende-se com o facto de o triunfo de Rui Costa na etapa rainha da Volta a Abu Dhabi não ser apenas mais uma na sua carreira. As implicações são importantes para o ciclista português e para o futuro da equipa. Mas para começar, ser o primeiro em Jebel Hafeet confirma um sensacional início de temporada. Também venceu a etapa rainha na Volta a San Juan e foi segundo na geral na Volta a Omã.

Primeira grande diferença desta vitória em Abu Dhabi: a corrida pertence este ano ao calendário World Tour. Logo muitos pontos e também muito prestígio, neste último caso reforçado pelo facto de estarmos a falar de um pelotão que nem nas grandes voltas se vê. Basicamente, só a Sky, FDJ e Cannondale-Drapac "faltaram à chamada". No caso da equipa britânica só levou seis dos oito ciclistas que compõem as equipas. Já as formações francesa e americana nem viajaram para o Médio Oriente. Nairo Quintana, Alberto Contador, Vincenzo Nibali, Fabio Aru, Bauke Mollema, Ilnur Zakarin... praticamente todos os principais candidatos a vencer ou a top dez de uma grande volta este ano estão em Abu Dhabi. E se alguns casos a preparação está numa fase inicial, outros estão já em bons momentos, pois estão a preparar a Volta a Itália.

O que é que isto tudo quer dizer? Rui Costa bateu os melhores e bateu-os num jogo táctico perfeito. O próprio admite que a vitória foi mais com a cabeça do que com as pernas. O grupo de luxo que ficou para discutir o subida final contava com os grandes nomes. As atenções estavam, naturalmente, em Quintana e Contador. E foi aqui que Rui Costa demonstrou porque é um dos ciclistas mais inteligentes do pelotão. O português sabia que teria dificuldades em aguentar prováveis ataques e contra-ataques, por isso, atacou ele e aproveitando a cerrada marcação entre o colombiano e o espanhol e com os restantes ciclistas na expectativa, foi-se embora. Primeiro teve dois ciclistas a tentarem acompanhá-lo, mas seria com Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) que formaria uma aliança para levar o esforço até final.

Contador resolveu que iria apostar em manter-se na roda de Quintana. O colombiano ainda atacou, mas com o espanhol apenas a segui-lo, resolveu não ser ele a puxar o adversário. Enquanto Rui Costa e Zakarin entendiam-se às mil maravilhas, outros começaram a perceber que não podiam esperar pela dupla maravilha de Abu Dhabi. Foram atacando, mas já era tarde. O timing é tudo numa corrida tão táctica e com tantos corredores de qualidade. Rui Costa e depois Zakarin foram perfeitos.

Ao resistir a umas tentativas de aumentar de ritmo de Zakarin, ao sprint o russo não teve hipóteses, como já sabia. Rui Costa venceu, saltou para a liderança e será preciso algo muito anormal para lhe tirar a vitória na geral de Abu Dhabi, já que a etapa de domingo volta a ser plana.



Vamos então às implicações da vitória. Para Rui Costa é a confirmação que é o líder da equipa. Com a Lampre-Merida a relação não correu de feição, mas a mudança de dono e apesar da estrutura ser a mesma, a verdade é que o português reencontrou a melhor forma e o caminho das vitórias. Este é um Rui Costa motivado, alegre e confiante, como há muito não se via. De recordar que antes da etapa de San Juan, não vencia desde os Campeonatos Nacionais de 2015. A nível de corridas do World Tour, a última conquista foi também em 2015, quando a 12 de Junho venceu uma etapa no Critérium du Dauphiné.

Louis Meintjes ganhou o estatuto de líder para a Volta a França que Rui Costa sempre preparou a época em redor. Diego Ulissi era aposta para as provas de um dia e a contratação de Ben Swift trouxe à equipa mais um homem que não veio apenas para ajudar os outros. Com este início de temporada, Rui Costa dá garantias desde cedo que é a escolha certa para se apostar nas corridas em que participar. E este ano há objectivos diferentes definidos, principalmente na estreia agendada para a Volta a Itália, a que se juntará a grande ambição que tem em ganhar a Liège-Bastogne-Liège. Se vai ao Giro para tentar um top dez ou para ganhar etapas ainda não se sabe, mas com esta forma de correr e como parece que tomou novamente o gosto pelo triunfos, é muito provável que Rui Costa vá ao ataque de conquistar etapas.

Abu Dhabi é a terra natal da sua equipa. Aliás, até ao início desta semana, a formação chamava-se UAE Abu Dhabi. Porém, garantiu um patrocinador de peso, a companhia aérea Fly Emirates, e passou a chamar-se UAE Team Emirates. Certamente que havia pressão para fazer um bom resultado "em casa". A vitória? Desejar certamente que os responsáveis desejavam, mas com o pelotão presente era vista como complicada, mas, claramente, não impossível.

A felicidade do patrão Matar Suhail Al Yabhouni Al Dhaheri pode traduzir-se numa aposta cada vez maior neste projecto. Afinal, foi chegar e vencer graças ao português. E claro, ter este resultado mal entrou a Fly Emirates é algo que deixará os directores desportivos muito mais tranquilos e confiantes para a restante temporada. O dinheiro está a entrar e os resultados a aparecerem. É uma vitória que não poderá ficar por aqui. Vão sempre ser exigidas mais. Contudo, Rui Costa deu vida a uma equipa que esteve perto de fechar portas quando o patrocinador chinês não apareceu com o investimento prometido. Rui Costa demonstrou que a UAE Team Emirates oferece condições para se lutar por triunfos e que não está no World Tour apenas como uma aposta momentânea de um investidor.

Aos 30 anos, Rui Costa está a sentir-se um líder vencedor, como queria quando deixou a Movistar no final de 2013, poucos meses depois de se ter sagrado campeão do mundo. Se conseguir manter este nível, o português tem garantindo um lugar de destaque numa estrutura que precisava de líder ganhador, mas falta saber se a outra parte irá também aparecer: ciclistas que o apoiem incondicionalmente. Em Abu Dhabi, não se viu, até porque Diego Ulissi e Louis Meintjes não só têm as suas agendas, como ainda estão muitos furos abaixo da forma de Rui Costa.

"Estou satisfeitíssimo com o meu início de época", escreveu Rui Costa no seu blog. E não é para menos. Foi uma travessia no deserto, mas o português está de volta ao seu melhor e com estas vitórias, as expectativas são enormes. Mais pressão? Nunca pareceu ser algo que o preocupasse ou o influenciasse. E agora que voltou às vitórias, a confiança e motivação que precisava estão em alta.

Veja aqui os resultados da terceira etapa da Volta a Abu Dhabi, ganha por Rui Costa.

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23 de fevereiro de 2017

Polémica dos travões de disco regressa em força após corte provocado em queda na Volta a Abu Dhabi

Corte é bem visível no sapato de Doull 
(Fotografia: Twitter: @SophieSmith86)
O principal foco da Volta a Abu Dhabi foi até à entrada do último quilómetro o fantástico pelotão, com quase todos os grandes nomes do ciclismo presentes, no que diz respeito a sprinters e a voltistas. Porém, uma queda mudou tudo e a polémica utilização dos travões de disco está de regresso em força. Não que tenha desaparecido, mas uma nova queda, um novo corte alegadamente provocado por um disco e os ciclistas viraram-se para o Twitter para contestar o novo período de experiência que a UCI autorizou para este ano.

Marcel Kittel é o único ciclista dos 158 presentes em Abu Dhabi a utilizar este sistema de travagem. O alemão foi um dos envolvidos na queda no último quilómetro. Vários corredores ficaram feridos e um dos mais graves foi Owain Doull. Porém, se fisicamente o britânico poderá recuperar, Doull não se conforma com o que lhe aconteceu. O ciclista até atribuiu o facto de não estar gravemente ferido a uma dose de sorte, no meio de um grande azar. O jovem, que está a fazer a sua estreia no World Tour, mostrou como ficou um dos seus sapatos. O corte, visível na fotografia divulgada, é atribuído aos travões de disco da bicicleta de Kittel.

"Atravessou o sapato até ao meu pé. Sinceramente, foi uma sorte não ter sido a minha perna. Eu acabei por ter sorte, pois se tivesse sido na perna, tê-la-ia cortado certamente. Nada mais poderia ter cortado assim. É como uma faca"; afirmou Doull no final da etapa, mostrando ainda como ficou mal tratado após aparatosa queda.


A imagem provocou uma reacção em cadeia de vários ciclistas que se insurgiram contra a utilização dos travões de disco. Um deles foi Alberto Contador. O corredor da Trek-Segafredo - que também caiu a cerca de cinco quilómetros da meta - escreveu na rede social: "Uma bicicleta com travões de disco das 158 no pelotão e acontece isto. Por sorte não atingiu o pé, o que aconteceria com 158?"

Wout Poels, colega de Doull, pede que a segurança dos ciclistas esteja em primeiro lugar antes de se experimentar coisas novas. Alex Dowsett (Movistar) questiona se compensa o risco, apelando para que as consequências sejam consideradas, enquanto Leopold König (Bora-Hansgrohe) pede união entre ciclistas e equipas.


Em 2016, o período de experiência dos travões de disco foi suspenso depois do incidente que resultou num corte profundo na perna de Francisco Ventoso, então ciclista da Movistar, no Paris-Roubaix. No entanto, a UCI voltou a autorizar a utilização do sistema. Tom Boonen tornou-se na Volta a San Juan o primeiro a vencer com travões de disco na sua bicicleta. O seu colega da Quick-Step Floors, Marcel Kittel, também é adepto do sistema, apesar de só ter concordado em utilizá-lo se os discos fossem redondos. Peter Sagan também já utilizou uma bicicleta com o sistema, mas apenas nos treinos. Todos têm bicicletas da Specialized. Porém, também a Cannondale já começou a adoptar os travões de disco e na Ruta del Sol todos os ciclistas da equipa tinham o sistema montado.
UCI pede respeito pelo "processo democrático"

A Associação de Ciclistas Profissionais (ACP) tem estado muito activa para tentar que a experiência de utilização dos travões de disco seja cancelada. A ACP considera que a maioria dos ciclistas estão contra este sistema, com outros a contestarem que num pelotão uns tenham travões de disco e outros o método mais tradicional.

Mark Barfield, presidente da Comissão de Equipamento da UCI, enviou uma carta à ACP - antes do incidente com Owain Doull -, que o site Cycling News teve acesso. Na missiva, Barfield pede respeito pelo "processo democrático", considerando infundadas as preocupações da associação e salientando que muitos ciclistas mostraram-se a favor dos travões de disco.

A integração dos travões de disco é considerada por alguns como inevitável, mas outros ciclistas continuam a resistir a esta mudança, alegando questões de segurança. Além da possibilidade de cortes - que a julgar pelo corte no sapato de Doull (caso tenha sido mesmo provocado pelo disco) não se resolveu com o arredondamento dos discos -, há ainda a questão do aquecimento, podendo causar queimaduras se os discos entrarem em contacto com a pele. A principal preocupação prende-se de em caso de uma queda entre vários ciclistas, os travões de disco serem mais um instrumento que poderá provocar ferimentos.

Uma das acusações é contra as marcas, com ciclistas a dizerem que estas têm um interesse comercial na introdução dos travões de disco ao mais alto nível do ciclismo profissional. Apesar de ser notório o melhoramento do tempo de travagem, sendo principalmente importante em dias de chuva, no entanto, os que defendem a manutenção do método de travagem tradicional dizem que o risco não compensa os benefícios, pois na maioria das corridas, o actual sistema é mais do que suficiente.

A polémica vai certamente continuar.

Um início difícil para Owain Doull

Aos 23 anos e depois de se revelar na Team Wiggins, Owain Doull conseguiu um contratado com a toda poderosa Sky. Estagiou na equipa nos últimos meses de 2016 e convenceu os responsáveis. Naturalmente entusiasmado com a oportunidade, Doull acabou por começar mal a temporada. Quando estava escalado para competir no Tour Down Under, o britânico sofreu uma apendicite. Recuperado, foi chamado para estar na Volta a Abu Dhabi.

Segundo Marcel Kittel, os guiadores da sua bicicleta e de Doull ficaram entrelaçados o que provocou a queda. O alemão ficou com umas mazelas no joelho e cotovelo, mas Doull terá certamente uma noite bem penosa tendo em conta as imagens que mostram como ficou a parte esquerda do corpo.

A queda ainda provocou ferimentos noutros ciclistas. Caleb Ewan e Phil Bauhaus foram ao hospital. O ciclista da Orica-Scott ficou com dores no ombro esquerdo e no pulso, enquanto o da Sunweb queixou-se da mão direita. Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) ficou com dores no peito e numa mão e Alex Dowsett terá sido o que saiu com menos mazelas da queda.

Quanto à etapa, Mark Cavendish (Dimension Data) conquistou a primeira vitória da temporada, ao bater ao sprint André Greipel (Lotto Soudal) e Niccolo Bonifazio (Bahrain-Merida).

»»O que pensam os ciclistas portugueses deste sistema?««

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