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12 de maio de 2017

Há poucos meses a esperança era escassa que sobrevivesse, agora deu as primeiras pedaladas

A 28 de Maio de 2016, Stig Broeckx tornou-se em mais uma vítima de um acidente com uma moto durante uma corrida, neste caso na Volta à Bélgica. Não era a primeira vez nesse ano que era atingido, mas aquele embate fez temer o pior. O jovem ciclista belga ficou gravemente ferido, entrando em coma. Nas semanas seguintes as notícias não eram as mais animadoras e o discurso ia encaminhando para que todos estivessem preparados para o pior. Broeckx poderia nunca recuperar a consciência. A família nunca deixou de acreditar que era possível melhorar e em Dezembro Broeckx saiu do coma. Iniciou-se uma longa recuperação que ainda não terminou. Porém, para um ciclista, dar as primeiras pedaladas, mesmo que seja numa bicicleta estática, é algo de motivador. E Broeckx até fez um reset ao cronómetro para que pudesse pedalar mais tempo do que era suposto!

A família espera que Broeckx possa ir para casa dentro de algumas semanas e começa a acreditar que é possível que o belga possa recuperar alguma independência na sua vida. Broeckx tem apenas 27 anos, feitos na quarta-feira. O ciclismo profissional provavelmente acabou, mas depois de meses em estado vegetativo, com gravíssimos danos cerebrais, há quem utilize a palavra de milagre para descrever a sua recuperação. Mas Broeckx teve um colega na Lotto Soudal que é a personificação de que nada é impossível. Kris Boeckmans também esteve em coma após uma queda na Volta a Espanha, em 2015, mas recuperou do grave traumatismo craniano e regressou à competição. Há ainda o caso de Adriano Malori, que em poucos meses também voltou às corridas pela Movistar, depois de uma queda muito grave no Tour de San Luis, no ano passado.

Mas se Broeckx vai voltar ou não às corridas é o menos importante nesta momento. A família só quer que recupere o máximo que for possível da sua independência, pois sendo ainda tão jovem tem uma vida pela frente, seja no ciclismo ou não.

Desde o acidente que a Lotto Soudal tem corrida sob o lema "fight for Stig" (lutem pelo Stig) e certamente que a notícia que Broeckx já deu uma pedaladas terá sido recebida com grande alegria e como mais uma força de motivação para aqueles que neste momento estão na Volta a Itália, por exemplo.

Em Março, o belga conheceu o ciclista que ajudou a salvar a sua vida. Após a queda, o francês Loïc Chetout (Cofidis) abdicou de continuar o seu caminho e rapidamente socorreu Broeckx, imobilizando a cabeça. Assim ficou durante uma hora, enquanto os médicos tentaram salvar a vida a Broeckx. O encontro realizou-se na clínica de reabilitação e no final Chetout confessou o quanto tinha ficado emocionado ao ver Broeckx, ciclista que não conhecia, mas com quem agora terá uma ligação inquebrável.

A estrada de recuperação de Broeckx ainda tem muitos quilómetros. Há quem fale em milagre, há quem diga que enganou a morte. O facto é que o belga superou um enorme obstáculo e agora poderá fazer algo que chegou-se a pensar que não o voltaria a fazer: viver!


8 de fevereiro de 2017

Novas regras para carros e motos a pensar na segurança dos ciclistas

São 38 páginas publicadas pela UCI. Um documento há muito aguardado e que contou com a participação de federações e organizações que representam os ciclistas e equipas. O objectivo é simples: garantir a segurança dos corredores durante as competições e evitar os incidentes que nos últimos anos têm provocado acidentes, alguns graves, devido a choques entre carros ou motos contra os ciclistas. O objectivo pode ser simples, encontrar uma solução tem sido exactamente o contrário. 2016 acabou por ser um ano negro com, por exemplo, Stig Broeckx (Lotto Soudal) a ser duas vezes abalroado por uma moto. Da segunda vez ficou em coma durante vários meses. Já está a recuperar, mas o pior aconteceu a Antoine Demoitié (Wanty-Groupe Gobert) que morreu após uma moto o ter atingido, quando ficou envolvido numa queda colectiva. Tinha 25 anos.

A estes casos juntam-se muitos outros que valeram ferimentos e muitos pontos a vários ciclistas, como a Peter Sagan e Sérgio Paulinho na Vuelta de 2015 ou Johnny Hoogerland e Juan Antonio Flecha no Tour de 2011, entre outros exemplos. Em 2013, a UCI começou a realizar cursos de formação para os condutores, seja de carros ou motos. No entanto, foi claramente insuficiente dado o elevado número de incidentes que se foram acumulando nos últimos anos. Ciclistas e directores desportivos exigiam mudanças, pois estavam a correr elevados riscos de serem abalroados por veículos, fossem de apoio, dos meios de comunicação social ou até de transporte de convidados.

Entre as medidas agora anunciadas está a proibição dos veículos em ultrapassar os ciclistas nos cinco quilómetros antes de um sprint intermédio, ou dois quilómetros antes do final de uma subida ou zona de alimentação e também em zonas consideradas perigosas, que serão anunciadas pela Rádio Tour.

Nos carros não será permitido existir televisões na parte da frente do veículo (os carros das equipa terão de ter alguém no banco de trás a ver as imagens, caso queiram recorrer a este método) e os condutores, seja de carros ou motos, não podem utilizar o telemóvel, nem através de kits de mãos livres. Os níveis de álcool têm de estar a zero e também não podem utilizar qualquer tipo de droga.

Um dos pontos que certamente chama a atenção é a proibição de motos que transportem convidados. Tem sido uma das críticas mais apontadas, com muitas pessoas que não pertencem a corrida a passarem pelos ciclistas. Agora só nos carros. Mas também haverá um limite - e a regra é para todos -, pois cada carro só pode levar quatro pessoas, incluindo o condutor.

E numa instrução a pensar no trabalho dos repórteres de imagem e fotografia - e claro em garantir que os patrocinadores tem a exposição desejada - os veículos que estão na frente da corrida têm de acelerar no último quilómetro de forma a passar a meta e a zona dos profissionais de comunicação pelo menos 15 segundos antes do primeiro ciclista. O objectivo é evitar que tapem a captação de imagens ou fiquem nas fotografias.

Alguns dos pontos referidos no documento têm demonstrações gráficas de como os carros e motos se devem posicionar em determinadas fases da corrida (imagem ao lado).

O incumprimento das regras pode valer a expulsão imediata da competição e poderá mesmo resultar numa suspensão até um ano e uma multa entre 200 e mil francos suíços (cerca de 188 a 940 euros).

Só o tempo e a colocação em prática dirá se as novas regras terão o efeito desejado. Porém, depois de tanto tempo de espera e com a gravidade de vários acidentes, não há margem para erros, nem para se andar a fazer experiências.

1 de junho de 2016

Boonen deixou um aviso, mas também uma sugestão que dá que pensar

A Lotto Soudal apoia de várias formas Stig Broeckx,
que está em coma (Fotografia: Twiter @Lotto_Soudal)
O ano ainda mal vai a meio e o historial de incidentes com motos é assustador. Não só pelo número, mas principalmente pela gravidade. Nos últimos anos, os ciclistas têm exigido mudanças em prol da sua protecção. Sem resultados práticos, falou agora uma das vozes mais respeitadas do pelotão, que em vez de exigência optou pela sugestão.

Já se sabe o poder que os ciclistas têm, principalmente quando tomam medidas mais drásticas. No ano passado pararam uma etapa na Volta ao Qatar devido ao calor e finalmente conseguiram que fosse implementada a medida de tempo extremo, que anula etapas/corridas caso não estejam reunidas condições de segurança, seja com calor ou frio. Porém, também se sabe que há tendência a deixar-se arrastar os casos enquanto se procura, investiga, analisa-se e volta-se a fazer tudo de novo uma quantas vezes, até que finalmente há uma decisão, muitas vezes depois da pressão dos ciclistas aumentar.

Durante tantos anos os ciclistas competiram debaixo de neve ou com temperaturas de derreter pneus (literalmente), mas este ano tudo mudou. Agora aguarda-se, quase que se desespera, por mudanças profundas nos veículos motorizados que acompanham as corridas. Uma morte e um ciclista em coma, e vários outros incidentes, marcam um ano negro nestes casos.

Nos próximos dias deverá ser conhecida a resolução, ou falta dela, do diferendo com a ASO. É a época de 2017 que está em causa. Porém, com a questão das motos e carros, é a vida dos ciclistas que está em causa. Poderá a UCI continuar a adiar medidas mais eficazes? Mas afinal, que medidas são essas?

Muito se tem falado da diminuição do número de veículos, que parece ser a solução mais consensual. Existem regras para quando e como devem passar pelo pelotão e por mais que existam, enquanto o fizerem haverá sempre o risco de acidentes e menos veículos não significa menos passagens. As motos de apoio neutro e que transportam os repórteres, os carros dos comissários, vão continuar a ter de passar, estando dependentes do desenrolar da corrida.

E os carros dos patrocinadores e convidados? Seria lógico cortar radicalmente, mas vivendo o ciclismo de quem lhe dá dinheiro, é quase impossível tal acontecer, principalmente nas grandes corridas.

Partindo do princípio que quem conduz estes veículos está habilitado para tal, as soluções para um problema que está cada vez maior são de extrema dificuldade. Se quem manda não resolve, então é a vez do pelotão, apoiado pela Associação de Ciclistas Profissionais, começar a agir. É o que Tom Boonen fez. Em vez de apenas exigir mudanças, o belga deu uma sugestão, que vai contra tudo o que se tem falado: mais veículos tornam o pelotão mais seguro.

Pode até parecer estranho à primeira vista, mas a justificação de Boonen dá que pensar. "Se houver mais veículos, não têm de passar o pelotão tantas vezes. O problema agora é que há muita agitação", referiu Boonen ao jornal belga Het Niewsblad. Para o veterano ciclista, o facto de terem de passar em momentos que não são os ideais para o pelotão, aumentam as possibilidades de acidente. Para Boonen, mais veículos "muda pouco a corrida e é muito menos stressante para os condutores". Portanto, mais veículos, espalhados pela corrida, menos necessidade de ultrapassagens em alturas arriscadas.

Eis a sugestão, mas ficou também o aviso de Boonen que deixa antever que a paciência no pelotão começa a esgotar-se e que não irá tolerar mais tragédias: "Isto não pode continuar." Este ano já conta com dois casos muito graves: Antoine Demoitié morreu e Stig Broeckx está em coma, com os médicos a não fazerem prognósticos e foi a segunda vez que o belga esteve envolvido num acidente com motos em 2016.

O acidente de Broeckx está a ser investigado - duas motos terão chocado tendo depois provocado a queda a quase 20 ciclistas, ferindo 11 - e, numa reacção imediata, a UCI anunciou que irá aumentar a sua equipas nas corridas de forma a controlar os veículos presentes.

1 de março de 2016

Mais um "atropelamento". Exigem-se medidas urgentes

Broeckx (Foto: Lotto Soudal)
Stig Broeckx é o mais recente nome na lista de ciclistas que sofreram quedas devido a motos ou carros durante competições. Era quase difícil acreditar no que se via nas imagens televisivas. A saga dos "atropelamentos" começou em 2016. O belga, de 25 anos, da Lotto Soudal foi atirado ao chão pela moto de assistência médica (que ironia!) a cerca de 30 quilómetros da meta na clássica Kuurne-Brussels-Kuurne. O assunto parecia estar um pouco esquecido, afinal, depois de um 2015 recheado de casos, é outro ano e o "entretenimento" tem sido com o doping mecânico. Mas o problema continua e fez mais uma vítima. Levantam-se as vozes contra a inércia da UCI, que demora a tomar uma decisão que proteja os ciclistas.


A questão não é nova, mas em 2015 ganhou proporção devido aos vários incidentes que afectaram alguns dos principais ciclistas do pelotão. Casos de Greg van Avermaet na clássica de San Sebastian (choque com uma moto), Jesse Sergent na Volta a Flandres (um carro de apoio neutro atirou-o ao chão), Jakob Fuglsang na Volta a França, Sérgio Paulinho e Peter Sagan (ambos da Tinkoff) na Volta a Espanha, os três todos vítimas de contactos com motos.

Recuando um pouco no tempo, Taylor Phinney quase acabou a carreira quando numa descida deparou-se com uma moto parada (em 2014, no campeonatos dos EUA) e Juan Antonio Flecha e Johnny Hoogerland tiveram um arrepiante acidente com um carro, com o holandês a cair no arame farpado na Volta a França em 2011.

Ao contrário do que Cédric Vasseur diz no site Cycling Weekly, a Lotto Soudal não está sozinha nesta luta. O director desportivo da BMC - equipa de Greg Avermaet -, Jim Ochowicz, já veio a público pedir medidas urgentes, recordando que já no ano passado pediu a intervenção da UCI. Ochowicz acusa mesmo a UCI de nada fazer, em declarações no Cycling News.

A UCI não pode continuar a ignorar um problema que está a colocar em risco carreiras (para não dizer nada mais grave) dos ciclistas. Praticamente todas as quedas têm provocado lesões graves e Stig Broeckx é a prova disso mesmo: partiu a clavícula, uma costela e magoou ainda a mão. A Lotto Soudal anunciou que o jovem belga, que estava escalado pela equipa para a época das clássicas, vai estar longe da competição durante várias semanas.

Exigem-se medidas, mas a UCI mantém um inconfortável silêncio.