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(Fotografia: Facebook Peter Sagan) |
Não foi um início de relação fácil, com Sagan a somar muitos segundos lugares, demorando a conquistar vitórias, levando Oleg Tinkov a colocar em causa o que pagava ao eslovaco. A resposta de Sagan foi ao seu estilo. Não se preocupou e os triunfos chegaram, principalmente o mais apetecível para um ciclista como ele: o título de campeão do mundo, em Richmond (EUA). A camisola do arco-íris estava agora num homem que conseguiu que quase unanimemente se considerasse que era o ciclista perfeito para a vestir.
Entretanto Peter Sagan ia construindo uma imagem além do ciclismo. O eslovaco deixou de ser uma estrela apenas na estrada, é agora uma referência fora dela, com toda uma organização em seu redor, digno de alguns dos mais populares desportistas do mundo. A máquina de marketing chegou a todo o gás ao ciclismo graças a Sagan.
É certo que no passado já houve outros ciclistas com carisma idêntico. Marco Cipollini, por exemplo, trabalhava muito a sua imagem (sendo muito mais polémico) numa era sem redes sociais. Marco Pantani ou Lance Armstrong também foram muito além de simples ciclistas, para falar apenas de épocas mais recentes.
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(Fotografia: Facebook Peter Sagan) |
Com Tinkov a anunciar o final da equipa no início deste ano, Sagan tornou-se num dos ciclistas mais procurados, apesar de na equipa também estar Alberto Contador. O preço estava estabelecido: seis milhões de euros/ano. Nunca foi confirmado oficialmente, mas a Trek-Segafredo, uma das primeiras equipas a abordar o eslovaco, afirmou que os valores rondavam esses números. Com Fabian Cancellara de saída e com cinco milhões a ficarem livres, a equipa americana tentou, mas preferiu antes John Degenkolb, que deixará assim a Giant-Alpecin. Apostou ainda em Alberto Contador para a geral e na evolução de Jasper Stuyven e Edward Theuns para as clássicas.
Durante meses questionou-se: quem poderá pagar seis milhões? O primeiro nome que surgia logo era o da Sky. A toda poderosa equipa britânica pode contratar quem quiser, mas Sagan não tem o perfil que a Sky deseja. Apesar da maior aposta nas clássicas, ter o eslovaco poderia significar um grande desvio para ajudar o ciclista, quando o principal objectivo é e vai continuar a ser a Volta a França. Ian Stannard, Geraint Thomas, Luke Rowe, Ben Swift e claro o próprio Wout Poels, que este ano deu o primeiro monumento à equipa na Liège-Bastogne-Liège. E a Sky já se está a reforçar com jovens talentos para formá-los, como tem sido parte importante do seu método.
Etixx-QuickStep. Tinha tudo para ser um casamento perfeito, apesar de ser uma equipa com várias hipóteses para as clássicas, a fase do ano mais importante para o conjunto belga. Um problema: Tom Boonen. Só com a saída do veterano ciclista (35 anos) faria sentido apostar em Sagan, senão seriam dois homens a apostar precisamente nas mesmas corridas, principalmente Volta a Flandres e Paris-Roubaix. Boonen renovou e a Etixx deixou quase de imediato de ser uma hipótese, se é que alguma vez foi.
A BMC teria, na teoria, a capacidade financeira para contratar Peter Sagan. Philippe Gilbert está de saída, mas a equipa americana vai apostar em Greg Van Avermaet, que tantas garantias tem dado. E ter dois rivais na mesma equipa poderia resultar muito mal.
A Astana foi uma hipótese muito falada. Chegou-se a dar como certo o acordo. Já se sabe que no Cazaquistão o dinheiro do petróleo tem feito maravilhas para a equipa e ajudava o facto das bicicletas serem da Specialized, que também tem acordo com a Tinkoff.
E a Specialized acaba por ser a chave do negócio. O suposto acordo com a Astana nunca se confirmou e surgiu antes a surpresa que o novo parceiro da Bora (uma equipa profissional continental, onde compete o português José Mendes), a Hansgrohe (empresa de torneiras para casa-de-banho e cozinha), ia proporcionar um forte impulso financeiro e Sagan tornou-se no objectivo número. Primeiro houve risos quando a probabilidade foi revelada, depois passou-se a um sorriso mais amarelo e de repente percebeu-se que era mesmo verdade.
Mas seis milhões de euros? É aqui que entra a marca de bicicletas americana que fez tudo para não perder a sua grande estrela e nos últimos anos a importância das marcas tem ajudado e muito a manter vivas algumas equipas (Trek, Giant, Cannondale). Porém, a Specialized dá um passo em frente nesse apoio. A marca deixa inclusivamente a Astana que passará a contar com a Argon 18, futura ex-parceira da Bora. A Specialized sabe que Peter Sagan é neste momento a melhor imagem que pode ter. É o marketing perfeito, ainda mais tendo em conta o sucesso que o eslovaco tem nos EUA.
O homem dos cavalinhos vai continuar com a Specialized, que sabe, tal como a Bora e a Hansgrohe, que os seis milhões de euros investidos por ano podem ser rentabilizados. Sagan abriu as portas de um mundo em que a imagem é agora um factor também no ciclismo. Acabaram-se os cabelos curtos, as barbas feitas e as depilações perfeitas. Agora um ciclista cabeludo, com barba, que por vezes nem os pêlos das pernas depila (sim, é algo muito falado sempre que anda assim), que tem direito a ténis personalizados por ter sido campeão do mundo, que até o deixam competir no BTT nos Jogos Olímpicos porque a prova de estrada não é para as suas características...agora é o que pode construir uma estrela que vai muito além da competição. Há uns anos seria provavelmente considerado um rebelde.
E há ainda que salientar: seis milhões/ano na equipa, fora a publicidade. Ainda recentemente foi Rocky, Gladiador e até Danny em Grease (ver vídeo).
Peter Sagan é a primeira superstar do ciclismo na era controlada pelas redes sociais e fará parte de uma equipa que irá ascender ao World Tour e se está a reforçar para garantir um conjunto forte, com o eslovaco a ser a figura maior. O contrato é válido até 2019.
(É irresistível não acrescentar o vídeo de Sagan ao estilo Rocky)
(É irresistível não acrescentar o vídeo de Sagan ao estilo Rocky)
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