21 de dezembro de 2019

Frente unida na Jumbo-Visma para lutar pela Volta a França

(Fotografia: © Team Jumbo-Visma)
Para quê esperar? A Jumbo-Visma tem mostrado em épocas recentes que quer fazer frente à Ineos na Volta a França e em 2020 a rivalidade vai subir de tom. A equipa holandesa está preparada para olhar olhos nos olhos a formação britânica na grande volta que a Ineos tem dominado e não vai fazer por menos: levará os três líderes e assume que é o ano que não vai "apenas" almejar o pódio. É para ganhar. E por isso, nem esperou mais. Não se deixa arrastar por novelas de quem será o líder, como irá dividir as responsabilidades... Não! A Jumbo-Visma anunciou os oito eleitos para o Tour e também para o Giro e Vuelta.

Não se pode dizer que seja uma novidade. Já para esta época que terminou, anunciou bastante cedo os elementos que iriam ao Giro, mas desta feita foi mais longe. Portanto, sem mais demoras:

Volta a Itália: Dylan Groenewegen, George Bennett, Antwan Tolhoek, Koen Bouwman, Lennard Hofstede, Paul Martens, Amund Grondahl Jansen e Mike Teunissen;

Volta a França: Primoz Roglic, Steven Kruijswijk, Tom Dumoulin, Wout van Aert, Robert Gesink, Sepp Kuss, Laurens de Plus e Tony Martin;

Volta a Espanha: Steven Kruijswijk, Dylan Groenewegen, Mike Teunissen, Robert Gesink, Jos van Emden, Koen Bouwman, Sepp Kuss e Tony Martin.

Com a contratação de Tom Dumoulin e tendo em conta que o Giro terá três contra-relógios, a hipótese mais falada era a Jumbo-Visma levar este ciclista a Itália (e o próprio não se importaria já que o percurso do Tour não é muito ideal para ele), Roglic a França e Kruijswijk a Espanha (este dois iriam inverter os objectivos comparativamente com 2019). Mas não. 

"Fizemos uma análise a todas as grandes voltas dos últimos cinco anos. Qual era a influência dos contra-relógios na classificação final? Qual era a composição da equipa que conseguiu conquistar e defender a camisola [da liderança]? Descobrimos um elemento em comum. Temos de ir ao Tour com a equipa mais forte possível. Assim teremos uma hipótese de ganhar. Vamos fazer tudo para conquistar a amarela. Estamos muito felizes, orgulhosos e motivados para o fazer", explicou Merijn Zeeman, o director desportivo, durante a apresentação da equipa.

Dumoulin, Roglic e Kruijswijk falam no colectivo e de como querem fazer parte da equipa que ganhará a Volta a França. Nenhum se assume como líder. Discurso para mostrar união, mas claro que este tipo de decisão levanta sempre algumas dúvidas. O passado recente não tem um bom exemplo: o tridente da Movistar (Alejandro Valverde, Mikel Landa e Nairo Quintana) foi uma experiência falhada de liderança tripartida. Os egos meteram-se no caminho e todos queriam ganhar, não estando muito interessados em trabalhar para os companheiros.

Ciclistas diferentes, de personalidades diferentes, mas passar das palavras aos actos, será o objectivo principal da Jumbo-Visma para garantir que terá de facto uma frente unida para lutar com a Ineos. "Toda a força, com os três líderes! É muito bom descobrir que os três estamos na mesma página", disse Dumoulin. E no papel a equipa é fortíssima, não só por este trio, mas pelos gregários de luxo que tem e um Wout van Aert que ajudará quando for preciso, mas será também um ciclista para conquistar alguma etapa ao sprint, um objectivo secundário em 2020 na Volta a França.

É por isso que nesta super equipa não há espaço para um dos melhores sprinters do momento. Dylan Groenewegen teve de abrir mão de um Tour que a Jumbo-Visma já só tem interesse em vencer na geral. Porém, é um ciclista que os responsáveis não querem ver insatisfeito, pelo que lhe vão dar a oportunidade de se tornar em mais um a ganhar etapas nas três grandes voltas. Vai ter apoio no Giro e Vuelta, eventualmente também a pensar na camisola dos pontos. Vai ainda apostar forte na Milano-Sanremo. O holandês deixou a mensagem que está feliz com o calendário para 2020. Tem 26 anos e muito tempo para regressar ao Tour no futuro.

E no que diz respeito a monumentos, Wout van Aert - ainda a recuperar da grave lesão após queda na Volta a França - vai com tudo para a Volta a Flandres e Paris-Roubaix, além de ser o líder para as restantes clássicas do pavé. Eventualmente Groenewegen terá a sua oportunidade em alguma mais propícia para sprinters, como a AG Driedaagse Brugge-De Panne. Para a Liège-Bastogne-Liège, Roglic assumiu o desejo de tentar vencer o monumento das Ardenas e nesta semana de três clássicas belgas, Dumoulin prefere a Amstel Gold Race.

Mas regressando às grandes voltas. A nível de geral a concentração estará no Tour, mas não significa que Groenewegen tenha exclusividade no Giro e Vuelta. A Jumbo-Visma levará ciclistas para lutar por uma vitória final, sendo provas em que o colectivo tem importância, mas não tem sido tão essencial como acontece na corrida francesa. Em Itália, George Bennett terá novamente a sua oportunidade. Tem sido difícil a sua afirmação como líder, mas mostrou ser um gregário importante. Com a chegada de Dumoulin, ir ao Giro sem ter de trabalhar para um dos três líderes é definitivamente um momento que o neozelandês tem de aproveitar.

Ainda assim o Giro será muito centrado em Groenewegen, mas a Vuelta é sempre tão montanhosa, que se justifica levar um Kruijswijk ainda à procura de uma vitória em grandes voltas, ainda que o terceiro lugar no Tour de 2019 tenha tido um sabor muito especial. Só ter Gesink e Kuss a seu lado é a prova de como a Jumbo-Visma não quer abdicar por completo de estar na luta por vencer novamente em Espanha, depois da conquista de Roglic em Setembro último.

Na teoria, a Jumbo-Visma tem uma equipa fortíssima, seja para o Tour, seja para as clássicas ou para os sprints. Será candidata a vencer muitas corridas. Mas na Volta a França, um dos assuntos mais falados será certamente como irá este trio com tanta ambição individual funcionar quando for necessário escolher alguém, a não ser que a estrada ajude nessa selecção. E depois será preciso ver se, ao contrário do que aconteceu na Movistar, quem "ficar para trás" na luta pela geral, assume o papel de ajudar quem estiver em condições de ganhar a camisola amarela.

O mais animador é ver uma equipa que tem tudo para definitivamente fazer a Ineos suar bastante no Tour. O ciclismo e a Volta a França ficam a ganhar.

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20 de dezembro de 2019

A dor de cabeça para a atribuição dos convites

(Fotografia: © Sarah Meyssonnier/La Vuelta)
A mudança de regras para 2020 quanto à atribuição convites para as grandes voltas, além dos 18 lugares automaticamente atribuídos às equipas do World Tour, tornaram-se numa dor de cabeça para as organizações. Passaram de quatro para dois. A tendência recaía muito em dar um wildcard às equipas Profissionais Continentais da casa, o que era e é sempre essencial para manter alguns desses projectos na estrada. Porém, com escolha limitada, também as "estrangeiras" que procurarem um desses convites vêem a probabilidade reduzir drasticamente. É em Espanha onde a concorrência está mais acesa.

Dos quatro lugares até agora disponíveis, um foi ocupado com a subida da Cofidis a World Tour. Passam a ser 19 as equipas neste escalão. A nova regra determina que a melhor equipa Profissional Continental do ranking ganha acesso às três grandes voltas. A vencedora foi a Total Direct Energie, tal como a Cofidis, uma formação francesa. Com os percursos de Giro, Tour e Vuelta já conhecidos, agora falta saber quais serão as eleitas para completar o pelotão que continuará a ser de 22 equipas neste tipo de corridas.

Na Volta a Itália, de 9 a 31 de Maio, uma outra regra ajudou o director Mauro Vegni a respirar de alívio. Uma consequência da diminuição de convites, é que sem ter a perspectiva de uma presença na grande volta do país dessa equipa, é também difícil convencer patrocinadores a financiarem estruturas do segundo escalão. Para os italianos é ainda mais grave tendo em conta que neste momento não têm qualquer equipa World Tour. 

Em 2017, por exemplo, a Androni ficou de fora porque a organização convidou duas equipas estrangeiras e apenas duas da casa: a polaca CCC e a russa Gazprom-RusVelo. Houve polémica. A Androni resolveu desde então essa questão vencendo a Taça de Itália, que dava entrada directa no Giro, ou seja, a equipa que ganhasse ficava com um convite. Isso acaba a partir de 2020. Nas duas últimas edições, a Israel Cycling Academy ficou com um wildcard o que atirou para fora do Giro uma das quatro formação italianas.

A situação já não era ideal, mas ia havendo esperança de um convite. Porém, com quatro equipas italianas e com as novas regras, ficava a certeza que não haveria espaço para todas. A Nippo Vini Fantini Faizanè fechou portas. Vegni continuava a ter de deixar uma equipa de fora e perante o panorama de ver importantes estruturas terminarem, deixar uma equipa italiana de fora começa a ter repercussões mais graves no ciclismo daquele país.

É aqui que entra uma das nova regras que poderá salvar a situação para as três sobreviventes Profissionais Continentais em Itália: Bardiani-CSF-Faizanè, Androni Giocattoli-Sidermec e Vini Zabú-KTM. A vencedora do ranking - neste caso a Total Direct Energie - pode abdicar da presença numa ou mais grandes voltas. Foi o que aconteceu. Os responsáveis da equipa francesa admitiram que não tinham condições para fazer um calendário tão exigente, já que têm de cumprir com as obrigações com os patrocinadores de competir muito em França. Alguns meios de comunicação social avançaram que Mauro Vegni terá ajudado a persuadir a esta escolha, inclusivamente dando dinheiro em troca. Algo não confirmado. Problema resolvido com esta renúncia, não esquecendo que a Israel Cycling Academy (Israel Start-Up Nation em 2020) também será World Tour depois de ter comprado a licença da Katusha-Alpecin, pelo que não entrará nas contas dos convites.

Viajando até França. No Tour (de 27 de Junho e 19 de Julho) a situação até nem se altera muito. Dos quatro convites, três estavam a ir para as equipas da casa, com a belga Wanty Groupe-Gobert (futura Circus-Wanty Gobert) a ficar com o quarto. A Delko Marseille sido excluída, mas é compensada com a presença em clássicas e em corridas por etapas da ASO, como o Paris-Roubaix e o Paris-Nice, por exemplo. Já a Vital Concept-B&B Hotels, criada em 2018, não ficou nada satisfeita por ficar de fora nas últimas duas edições.

Portanto, no Tour, a Cofidis e a Total Direct Energie eram crónicas convidadas, assim como a Arkéa-Samsic, que também não terá problemas em assegurar uma entrada para 2020. Portanto, a Vital Concept-B&B Hotels (o nome dos patrocinadores irá inverter-se a partir de Janeiro) e a Circus-Wanty Gobert estarão na luta pelo último wildcard, com a formação belga a já ter a garantia que estará nas clássicas, pois ao ser segunda do ranking, garantiu esses lugares. A Delko - que terá José Gonçalves no seu plantel - continua a "jogar por fora".

É em Espanha que a concorrência está maior. A Total Direct Energie não abdicou da sua entrada na Vuelta, pelo que só haverá mesmo dois convites. O director Javier Guillén tem estendido a mão às equipas espanholas que surgiram recentemente no segundo escalão, mas agora não o poderá fazer. Ou seja, havia a Caja Rural e nos últimos dois anos a Burgos-BH e Euskadi-Murias subirão ao segundo escalão e foram convidadas. A última não vai para a estrada em 2020, mas chegará a Fundação Euskadi, ou melhor Fundacíon-Orbea (a quarta convidada era a Cofidis, que apesar de ser francesa, a empresa tem muito peso no ciclismo espanhol, sendo, por exemplo, um patrocinador da federação).

Mas a francesa Arkéa-Samsic também quer estar na Vuelta e o seu reforço, Nairo Quintana, até foi à apresentação do percurso. E depois há Mathieu van der Poel. O holandês gostaria de se estrear numa grande volta em Espanha. Resultado, Javier Guillén já alertou que, apesar do orgulho em ter um ciclista como Van der Poel a querer ir à Vuelta, não haverá lugar para a Corendon. Guillén salientou que a prioridade irá para as equipas espanholas, o que criará problemas à Arkéa-Samsic.

Contudo, se o critério caseiro subsistir, qual ficará de fora? A Caja Rural tem uma década de história e tal terá o seu peso. A Fundacíon-Orbea pode só agora chegar ao nível de Profissional Continental, mas o entusiasmo em redor desta equipa e a força do ciclismo basco poderá dar argumentos para lutar com a Burgos-BH, mesmo que esta última tenha feito uma boa Vuelta em 2019 (Ángel Madrazo venceu uma etapa e andou vários dias com a camisola de líder da montanha).

Sendo a última grande volta (de 14 de Agosto a 6 de Setembro), é possível que os convites só sejam atribuídos no mês de Abril, ou seja, a temporada que as equipas estiverem a realizar será outro dos argumentos de peso.

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