18 de novembro de 2019

Sonho olímpico para dois portugueses

Nelson Oliveira vai à procura da medalha no contra-relógio
(Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
É oficial. Portugal vai poder estar representado nos Jogos Olímpicos de Tóquio por dois ciclistas, tanto na prova de estrada, como no contra-relógio. Rui Costa e Nelson Oliveira são os candidatos naturais a serem seleccionados por José Poeira, em condições normais. O difícil percurso de 234 quilómetros com quase cinco mil metros de acumulado será o objectivo do poveiro, enquanto o ciclista de Anadia tem os olhos postos na sua especialidade do esforço individual e até pensa em alterar a sua época para chegar mais forte aos Jogos.

Serão 44,2 quilómetros muito complicados. Mesmo com Nelson Oliveira a preferir terrenos menos planos, o percurso do contra-relógio de Tóquio será difícil e imprevisível. Oliveira irá para os seus terceiros Jogos, tendo sido 18º em Londres (2012) e sétimo no Rio de Janeiro (2016). Aos 30 anos está mais do que consagrado entre os melhores desta vertente do ciclismo, mas ainda persegue uma medalha ou nos Jogos ou nos Mundiais, nunca esquecendo que ganhou a prata em 2009, enquanto sub-23, nos Campeonatos do Mundo realizados em Mendrisio, Suíça.



A Volta a França tem estado sempre no plano de temporada do português - por vezes não foi cumprido, principalmente devido a quedas mais ou menos graves nas clássicas -, mas em 2020, com menos de uma semana a separar o final do Tour da prova de estrada dos Jogos, Nelson Oliveira não se importaria de regressar ao Giro - grande volta que fez em 2012 e 2013 - e depois ir à Vuelta. Apesar do principal objectivo de Oliveira ser o contra-relógio, os dois eleitos pelo seleccionador farão as duas provas em Tóquio. A de estrada está marcada para dia 25 de Julho (o Tour termina a 19), enquanto o contra-relógio, para homens e mulheres, realiza-se a 29. A 26 será a prova em linha das senhoras, que não terá representantes portuguesas.

Perante as muitas mudanças entre entrada e saída de ciclistas na equipa de Oliveira, só no estágio de Dezembro o corredor ficará a saber qual o plano delineado pela Movistar, mas não restam dúvidas de como já pensa em preparar a sua temporada de forma a tentar chegar a Tóquio o melhor possível para lutar por uma medalha.


Se Nelson Oliveira não tem à espera uma missão fácil, ainda assim depende dele próprio. Já Rui Costa só contará com a ajuda precisamente do compatriota, enquanto selecções como Itália, Holanda, França, Espanha, Colômbia e Bélgica levarão cinco ciclistas, o máximo permitido (no contra-relógio são dois). Serão 234 quilómetros que de planos pouco têm, com 4865 metros de acumulado.



Também ainda não são conhecidos os planos para Rui Costa para 2020 na UAE Team Emirates, sabendo que também este ciclista, campeão do mundo em 2013, gosta de dar preferência ao Tour. Em 2010, no Rio de Janeiro, Rui Costa foi 10º e quatro anos antes foi 13º.

Oliveira não é o único que prefere mudar o seu calendário habitual para melhor encaixar os Jogos Olímpicos no planeamento. Vincenzo Nibali, por exemplo, não quer ir ao Tour. Mas há também corredores que não estão a ver qualquer problema em ter muito pouco tempo de recuperação entre a grande volta e os Jogos Olímpicos, tendo ainda em conta a longa viagem e o diferente fuso horário. São mais nove horas na cidade japonesa do que em Portugal Continental. Tom Dumoulin e Alejandro Valverde poderão ser dois ciclistas que vão optar por esse calendário, mas ainda não está confirmado.

E nunca é de mais recordar que Portugal conta com uma medalha olímpica no ciclismo. Em Atenas 2004, um jovem talento chamado Sérgio Paulinho conquistou a prata, numa corrida ganha por uma das grandes figuras da modalidade, Paolo Bettini, com Axel Merckx a ficar com o bronze.

Poderão haver mais ciclistas portugueses nos Jogos Olímpicos de Tóquio, pois na pista luta-se por uma qualificação inédita nesta vertente, nas disciplinas do omnium e madison. Na pista, Portugal poderá estar também representado no feminino, pois Maria Martins tem feito grandes prestações no omnium.

Neste link pode confirmar a lista oficial de vagas divulgada pela UCI.

17 de novembro de 2019

Trek-Segafredo com final de temporada memorável no ano de ascensão de Ciccone

(Fotografia: Facebook Trek-Segafredo)
Uma boa parte do melhor da Trek-Segafredo foi guardada para o final da temporada. Não tendo sido uma época ganhadora, 2019 demonstrou que os jovens que a equipa tem contratado, podem mesmo ser apostas ganhas, ainda que no final foram os mais experientes a salvar os números fracos da formação americana. Com a excepção de um. Quando menos se esperava, um desses jovens ciclistas - mas que não tinha estado bem até então - surpreendeu tudo e todos ao sagrar-se campeão do mundo. Mads Pedersen estavam bem encaminhado para ser uma das desilusões da temporada, depois de um 2018 de revelação. Antes Giulio Ciccone tinha sido a grande figura, numa primeira época no World Tour simplesmente brilhante, enquanto a fechar Bauke Mollema conquistou um monumento.

Começando por Pedersen, o próprio admitiu que não teve um bom ano, mas como basta um dia muito bom para tudo mudar, inclusivamente uma carreira, Pedersen teve esse dia no temporal de Yorkshire. Foi uma vitória pela selecção dinamarquesa, mas é a Trek-Segafredo que vai tirar o maior dos proveitos ao ter a camisola do arco-íris e toda a notoriedade que traz a quem a usa e aos patrocinadores.

Poderá servir de motivação para Pedersen recuperar os níveis de 2018 e continuar a evoluir, ainda que a pressão será exponencialmente maior. Tem 23 anos e nas clássicas ninguém o vai menosprezar. Entre Setembro e Outubro a Trek-Segafredo alcançou cinco das suas 11 vitórias na temporada, ao que se soma o título mundial. Se até então nomes como Matteo Moschetti (23 anos), Ryan Mullen (25) e claro Giulio Ciccone (24) eram dos mais falados - principalmente o de Ciccone - por estarem a demonstrar ser ciclistas de futuro, Bauke Mollema, Edward Theuns e Jasper Stuyven mostraram que a experiência também continua a valer e muito à Trek-Segafredo.
Ranking: 10º (8268 pontos)  
Vitórias: 11 (incluindo uma etapa no Giro - acresce o título mundial ganho por Pedersen)  
Ciclistas com mais triunfos: Bauke Mollema e Giulio Ciccone (2)
Estes ciclistas terminaram a época a vencer, ao contrário de um John Degenkolb que praticamente caiu no esquecimento. Aposta completamente falhada da equipa, com o alemão a estar de partida para a Lotto Soudal, para tentar recuperar uma carreira em queda livre. Richie Porte também não consegue reencontrar-se com a sua melhor versão e não terá muitas mais oportunidades, ainda mais com a chegada de Vincenzo Nibali.

Mollema pode estar a ser ultrapassado na hierarquia para as grandes volta, mas vencer um monumento é sempre um marco na carreira e a vitória na Lombardia ajuda a que não se possa dizer que tudo foi mau na temporada para a Trek-Segafredo.

A equipa precisa de continuar a sua reestruturação e apesar de ter contratado um dos veteranos do pelotão, Nibali é para resultados imediatos, também muito a pensar em agradar o patrocinador italiano, Segafredo. Aos poucos, a equipa americana vai construir um bloco que faça de Ciccone o sua figura nas provas por etapas - Kenny Elissonde (Ineos) pode ser um reforço importante para o papel de gregário -, enquanto Pedersen e Mullen serão apostas nas clássicas, sem esquecer o super regular Stuyven - não vence muito, mas está quase sempre entre os melhores -, enquanto no sprint Moschetti e Jacopo Mosca vão ter maior protagonismo.

E haverá ainda um outro campeão do mundo, mas de sub-23, que irá concentrar algumas atenções. O americano Quinn Simmons vai começar a evoluir ao mais alto nível nas provas por etapas. Já agora, Mollema também foi campeão mundial, mas de contra-relógio por equipas misto.

O ano pode ter acabo bem, mas esta equipa precisa de fazer melhor durante toda a temporada tendo em conta os investimentos que faz. As grandes contratações não têm trazido os resultados ambicionados, mas os de jovens talentos que têm chegado estão a mostrar que pode ser muito bem sucedidos. Ciccone foi a maior prova disso, com uma etapa ganha no Giro, a camisola da montanha e ainda foi ao Tour vestir dois dias a amarela. Numa primeira fase de 2020 vai estar ao lado de Nibali na Volta a Itália, mas se continuar a mostrar o mesmo elevado nível, vai ter a sua oportunidade de liderança ainda em 2020.