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20 de novembro de 2019

Mitchelton-Scott cada vez mais dependente dos gémeos Yates

(Fotografia: Facebook Mitchelton-Scott)
Dizer que uma equipa que conquista 35 vitórias, incluindo quatro etapas no Tour, uma no Giro, outra no Paris-Nice, na Volta a Catalunha e também na Volta ao País Basco ficou um pouco aquém do que se esperava para 2019, pode parecer estranho. Porém, quando finalmente se consegue não só ser uma equipa capaz de disputar uma grande volta, mas que a ganhou - Vuelta de 2018 - a Mitchelton-Scott queria dar o passo seguinte de tentar conquistar mais uma, ou pelo menos estar mais na linha da frente da discussão. Mas não. Simon Yates não deu continuidade às performances do ano anterior, Adam não conseguiu ser um líder de meter respeito no Tour com o irmão a seu lado - a dupla foi importante na referida Vuelta - e depois ainda há Esteban Chaves. Ou melhor, será que há?

Perceber se é possível recuperar o colombiano depois de um ano marcado por doença que o afastou da competição durante muitos meses, era a grande dúvida. O vírus Epstein-Barr está a prejudicar e muito a carreira de Mark Cavendish e a de Chaves também não tem  grandes certezas. A vitória na etapa do Giro teve o condão de restituir confiança - sem dúvida um momento marcante na temporada para a Mitchelton-Scott - e na Vuelta terminou no top 20. No entanto, foi perceptível as dificuldades que Chaves sente em ser regular nas três semanas e não só. A equipa acabou por renovar contrato, mas por enquanto, as garantias que o colombiano dava há dois ou três anos não existem, numa altura em que o ciclista está a cerca de dois meses de completar 30 anos.

A Mitchelton-Scott não vai desistir de Chaves, tal como não deve de desistir de fortalecer o seu bloco para ajudar os irmãos Yates. Adam e Simon (27 anos) vão ter toda a pressão de conquistar mais e melhores resultados. Simon queria ajustar contas com o Giro, depois da quebra que o fez perder a edição anterior. Apesar de começar com um segundo lugar no contra-relógio e de dizer que o deviam temer, não demorou muito a mostrar que não era o mesmo ciclista de 2018. E aprendeu a ter cuidado com o que diz publicamente. Foi oitavo, mas foi uma desilusão. Foi ao Tour - abdicando de tentar repetir o sucesso na Vuelta - e compensou o desaire do Giro com duas etapas em França. Por outro lado, Adam foi apenas 29º, o que não deixou todos os responsáveis da equipa satisfeitos.
Ranking: 8º (9108,74 pontos) 
Vitórias: 35 (incluindo quatro etapas no Tour e uma no Giro) 
Ciclista com mais triunfos: Daryl Impey (6)
Matteo Trentin e Daryl Impey também venceram no Tour, mas na Vuelta a equipa pouco se viu, com Mikel Nieve a fazer-se valer da experiência e conhecimento das estradas espanholas para fechar top dez.

A Mitchelton-Scott deixou para trás os tempos em que as clássicas e sprints eram o objectivo e a "fonte de rendimento" nas vitórias. Quer ganhar gerais das principais corridas. Impey até deu o mote com a vitória no Tour Down Under logo em Janeiro, mas mais gerais só no final do ano e foram na República Checa (Impey novamente) e na Croácia (Adam Yates). Pouco, muito pouco para os objectivos da equipa australiana.

E a equipa está concentrada em manter toda a sua aposta nos gémeos Yates. Vai perder Matteo Trentin para a CCC e Daryl Impey ainda não anunciou o seu futuro. Foram dois dos ciclistas que mais vitórias garantiram e Trentin ficou tão perto de conquistar ainda um título mundial, mas foi batido por Mads Pedersen (Trek-Segafredo). Há que não esquecer que há um ano foi Caleb Ewan que partiu para a Lotto Soudal para poder ser um sprinter de primeira linha e não apenas quando a equipa não tem pretensões à geral.

Vai aumentar a exigência de ter os seus ciclistas na luta pelas grandes voltas e pelas principais provas de uma semana. Adam e Simon vão passar a contar com o experiente Andrei Zeits (Astana), cazaque com 18 corridas de três semanas feitas. As duas outras contratações serão dois jovens que se vão estrear no World Tour. Barnabás Peák (SEG Racing Academy), sprinter húngaro, e Alexander Konychev, italiano da Dimension Data for Qhubeka (equipa de formação da Dimension Data) que tem características de trepador, mas tem apenas 21 anos.

Com Ineos e Jumbo-Visma noutro patamar a nível colectivo, com Movistar ainda que em fase de mudança, mas com bons ciclistas para o bloco de apoio a Enric Mas, com a Bahrain-Merida e a UAE Team Emirates a reforçarem-se também para crescer nas grandes voltas, a Mitchelton-Scott vê a concorrência a aumentar, numa altura em que está a ficar demasiado dependente dos resultados dos Yates.

»»Contraste de emoções na época da Lotto Soudal««

»»Trek-Segafredo com final de temporada memorável no ano de ascensão de Ciccone««

24 de julho de 2019

Ciclistas expulsos do Tour consideram decisão exagerada

(Imagem: print screen)
Os comissários voltaram a ter mão pesada e expulsaram Tony Martin e Luke Rowe da Volta a França. Nem a Jumbo-Visma, nem a Ineos se conformam com a decisão e estão a estudar um apelo para que ambos os corredores possam esta quinta-feira estar à partida em Embrun, no arranque da fase decisiva do Tour, nos Alpes. É o terceiro ano com expulsões na corrida, depois de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) em 2017 e Gianni Moscon em 2018, outro atleta da Ineos, então Sky.

Tudo começou a menos de 15 quilómetros da meta, a caminho de Gap. No pelotão lutava-se pelo melhor posicionamento dos líderes, ainda que não houvesse preocupação com a frente da corrida. Nas imagens televisivas vê-se Tony Martin a dar um "chega para lá" a Luke Rowe, que consegue evitar tocar no público e de eventualmente cair. Porém, o assunto não ficou por ali. Pouco depois, Rowe leva a mão à cara de Martin e depois ainda foram vistos numa luta de ombro a ombro, nas imagens que foram analisadas pelos comissários.


Apesar da "troca de mimos", ao cortar a meta os ciclistas cumprimentaram-se e enterraram o desentendimento, que dizem ter acontecido "no calor do momento". Ambos acabaram por ser chamados para o visionamento das imagens. Na declaração conjunta, Rowe explicou que disse aos comissários que não poderiam expulsá-los por o que tinha acontecido, mas a opinião foi outra. Os ciclistas foram acusados de terem violado o regulamento e foram expulsos. Foram ainda multados em mil francos suíços (cerca de 912 euros) e perderam 50 pontos no ranking UCI.

Tanto Rowe (29 anos) como Martin (34) assumem o erro, apesar de considerarem exagerada a exclusão da corrida. O alemão da Jumbo-Visma salientou como naquela fase se lutava por um melhor posicionamento dos líderes antes da subida final, havendo alguma pressão e claro que o intenso calor - as temperaturas andaram novamente perto dos 40 graus - acabou por contribuir para ser mais difícil controlar os ânimos. "Estávamos no limite. Peço desculpa pelo aconteceu", desabafou Martin, no vídeo que pode ver em baixo (em inglês, sem legendas).

A desilusão dos dois é grande, ainda mais tendo em conta que os seus líderes estão na luta pelo Tour: Geraint Thomas e Egan Bernal por parte da Ineos e Steven Kruijswijk da Jumbo-Visma. "Os dois não queriam conceder terreno. Acontece. Talvez seja um pouco no calor do momento, ou um pouco de irritação", referiu o holandês. Já Thomas considera que é algo que acontece várias vezes: "Estes rapazes fazem todos o mesmo trabalho. Têm de colocar os seus líderes numa boa posição. Acabam sempre a lutar por posição. Não é nada de mais, sinceramente."

Rowe e Martin esperam que o apelo possa ter um resultado positivo e vão fazendo figas (*). São ambos elementos importantes no trabalho das equipas, com Martin a realizar um Tour de grande nível, depois de uma passagem pela Katusha-Alpecin em que pouco ou nada correu bem. O alemão está em excelente forma e tem sido um motor numa Jumbo-Visma que colectivamente tem estado superior à Ineos.

Num comunicado conjunto, as equipas também consideraram a decisão dos comissários demasiado dura, considerando que os ciclistas deveriam ter sido avisados, ou seja recebido "um cartão amarelo e não um vermelho".
(Texto actualizado às 23:46 com o vídeo que mostra o que aconteceu entre ambos os ciclistas)

18ª etapa: Embrun - Valloire, 208 quilómetros



Depois de um dia que estava a ser sem grande história até ao desentendimento entre Martin e Rowe, é altura de enfrentar os três dias nos Alpes que vão decidir o vencedor da Volta a França.


(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Esta quarta-feira, na chegada a Gap de tão boa memória para os portugueses  - Sérgio Paulinho ganhou lá em 2010 e Rui Costa em 2013 -, o ciclista da UAE Team Emirates entrou na numerosa fuga para tentar repetir o feito, com Nelson Oliveira a ter um raro dia de liberdade e a juntar-se também à frente da corrida. No entanto, ambos falharam o corte decisivo e ficaram longe da discussão. Matteo Trentin, o campeão europeu, venceu isolado, dando a quarta vitória no Tour à Mitchelton-Scott, depois de Daryl Impey e de Simon Yates, o britânico já com dois triunfos.

A etapa de quinta-feira ameaça ser explosiva! Pode não ter chegada em alto, mas tem duas categorias especiais nos últimos cem quilómetros. São subidas longas, a primeira com 14,1 quilómetros e a segunda com 23, o temido Col du Galibier, a 2642 metros de altitude. Toda a tirada será bem lá no alto, o Col d'Izoard está a 2360 ficando a expectativa se os ataques ficam guardados para o fim, ou se as hostilidades começaram logo nesta ascensão. Juntar estas duas subidas e tendo em conta o que se tem visto de espectáculo no Tour, aumenta a muito a expectativa. Mas atenção à descida final, pois também poderá fazer diferenças.

Antes o pelotão passará no Col de Vars, subida mais curta, mas que está a 2109 metros, com uma terceira categoria a dar o mote para um dia duro, que terá ainda o calor como factor a ter em conta. Apesar de se esperar temperaturas um pouco mais baixas em pleno Alpes, ainda assim serão dias bem mais quentes do que os vividos nos Pirenéus.

1º Julian Alaphilippe (Deceuninck-QuickStep)
2º Geraint Thomas (Ineos) a 1:35 minutos
3º Steven Kruijswijk (Jumbo-Visma) a 1:47
4º Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) a 1:50
5º Egan Bernal (Ineos) a 2:02
6º Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) a 2:14
7º Mikel Landa (Movistar) a 4:54
8º Alejandro Valverde (Movistar) a 5:00
9º Jakob Fuglsang (Astana) a 5:27
10º Rigoberto Uran (EF Education First) a 5:33
11º Richie Porte (Trek-Segafredo) a 6:30
12º Warren Barguil (Arkéa Samsic) a 7:22
13º Nairo Quintana (Movistar) a 8:28
15º Daniel Martin (UAE Team Emirates) a 11:39

Classificações completas, via ProCyclingStats.




»»Chegou o nervosismo, o calor e as quedas««

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22 de dezembro de 2018

Mitchelton-Scott finaliza transformação, já ganha grandes voltas e quer mais. Muito mais

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Reformulação terminada, com um tremendo sucesso. Agora é altura de construir o futuro sabendo que a equipa está consolidada numa de respeito para as grandes voltas e que tem um Yates já com uma grande volta e absolutamente capaz de ganhar mais e outro Yates que não vai querer ficar muito tempo atrás do irmão. A Mitchelton-Scott não abandona por completo os seus primórdios de equipa para tentar ganhar clássicas e alguns sprints, mas esta responsabilidade ficará entregue quase exclusivamente Matteo Trentin, pois o que esta equipa na idade  adulta mais quer é o Giro, o Tour e a Vuelta e as corridas por etapas que foram aparecendo entre elas.

Pretendia-se que os gémeos Yates confirmassem que não eram apenas jovens talentosos, que dividiram entre eles classificações da juventude nos últimos anos. Era responsabilidade dos dois levarem esta equipa ao patamar para que trabalhou nos últimos anos. Na sexta temporada, Simon respondeu ao repto. Parecia que ia ser no Giro, mas em Itália, se se pode dizer que uma corrida passou de um sonho a um pesadelo, este é um dos melhores exemplos. Acabou por ser em Espanha que Simon venceu a grande volta que a Mitchelton-Scott tanto procurava.

Mais do que uma individualidade ter alcançado o desejado sucesso, o que há mais a destacar é a equipa construída em redor do britânico. Esta Mitchelton-Scott reuniu um conjunto de gregários que começam a ser vistos de luxo. Christopher Juul-Jensen, Jack Haig, Damien Howson e Sam Bewley são todos ciclistas que estão praticamente ao nível de importância em manter na equipa, como os gémeos Yates. E precisamente por ter plena noção como os seus companheiros tão bem trabalharam para ele, Simon ficou ainda mais destroçado quando, a três dias de chegar a Roma de camisola rosa, o seu corpo cedeu. Somava três vitórias de etapas, dois segundos lugares, mas quatro top dez e simplesmente estava a ser uma exibição irrepreensível. Mas foi de mais e o trambolhão na geral atirou-o para fora do top 20.

Lição aprendida e muito bem aprendida. Chegou à Vuelta menos espectacular e mais pragmático. Também a equipa controlou o seu ímpeto e até soube ceder o trabalho "pesado" - e a liderança da prova - para poupar força e não quebrar quando as decisões chegassem. Yates venceu uma etapa, foi novamente muito regular, mas menos atacante. Foi cirúrgico e venceu a Vuelta. Era o que interessava e o que merecia.

Ranking: 5º (8660,03 pontos)
Vitórias: 37 (incluindo a Volta a Espanha e uma etapa e mais três no Giro. A vitória de Trentin nos Europeus é contabilizada como ao serviço da selecção)
Ciclista com mais triunfos: Simon Yates (8)

Adam não conseguiu seguir o exemplo do irmão, com a queda na Volta à Catalunha a estragar-lhe a temporada numa fase em que estava em claro ganho de forma. Fracturou a pélvis. Foi ao Tour e tanto na Volta à Califórnia, como no Critérium du Dauphiné deu demonstração que talvez pudesse estar entre os melhores em França. A meio da corrida começou a ceder. Foi atrás de uma etapa e uma nova queda estragou-lhe os planos. O 29º lugar esteve longe de ser algo que o deixou animado. Foi à Vuelta para ser o braço-direito do irmão e foi importante nesta rara união dos gémeos, normalmente separados nas grandes voltas.

Ganhar pela primeira vez uma corrida de três semanas é, inevitavelmente, a marca que fica de 2018 para a Mitchelton-Scott, um projecto que se prepara para a sua oitava época ao mais alto nível do ciclismo e que passará a ser de vez vista como um capaz de discutir qualquer prova por etapas.

A formação australiana nem se coibiu de deixar em casa o sprinter que ajudou a formar como ciclista. Caleb Ewan apostou muito numa ida ao Tour, mas depois do que aconteceu no Giro, mais do que nunca a Mitchelton-Scott acreditou que o seu caminho era lutar pela geral. Ewan ficou devastado e não escondeu que estava num pico de forma naquela altura do ano. Em final de contrato, decidiu sair para a Lotto Soudal e ocupar o lugar de André Greipel. Nada que preocupe a equipa australiana, cujos reforços para 2019 foram escolhidos para aumentar a escolha de blocos para as corridas por etapas.

Se Simon Yates (26 anos) confirmou que já não é o futuro da equipa, mas sim o presente, Daryl Impey demonstrou que aos 34 anos, feitos este mês, não é o passado. Começou a temporada com a conquista do Tour Down Under e juntou mais uns títulos nacionais sul-africanos ao seu currículo. Apareceu várias vezes na discussão de corridas e venceu a segunda etapa do Dauphiné.

A desilusão foi Matteo Trentin. O italiano deixou a Quick-Step Floors depois de uma época com sete vitórias, quatro na Vuelta. Já se sabe que há uma tradição dos ciclistas que saem da formação belga terem dificuldade em reencontrar sucesso idêntico e Trentin teve um 2018 que só não quererá esquecer, porque foi campeão da Europa. Não tendo o pelotão que normalmente aparece num Mundial, não deixa de ser um título e uma vitória que animou Trentin. Ainda se pensou que partiria para um final de temporada forte, mas não conseguiu repetir o sucesso na Vuelta. Foi somar dois triunfos no périplo final pela China, mas já a pensar que em 2019 quer muito mais e melhor.

A equipa até poderá estar mais apostada em ganhar a Volta a Itália - onde irá apostar Simon Yates, que disse ter contas a fechar com a corrida -, contudo, a contratação de Trentin também foi pensada por ser um ciclista que sabe bem correr sem depender em demasia de um apoio de companheiros. Sprints e clássicas vão ser para ele.

Quanto a Johan Esteban Chaves não se pode falar de desilusão, mas sim de incerteza. O colombiano foi o primeiro a fraquejar no Giro, depois de ter ganho no Etna, com Yates a seu lado. Foi uma das imagens do ano e uma das últimas vezes que se viu Chaves. Depois apareceu de vez em quando na televisão na parte de trás do pelotão. Dizer que fraquejou não descreve bem o que aconteceu ao colombiano que esteve irreconhecível. Terminou a corrida, ainda que se suspeitava que algo não estava bem. Chaves não competiu mais em 2018 e depois de meses de espera foi divulgado que o ciclista, de 28 anos, sofria de uma mononucleose.

O objectivo passou a ser apenas recuperar Chaves para que em 2019 possa ir atrás da grande volta que se pensava poder ser dele antes dos Yates afirmarem-se. A dúvida é enorme, tendo em conta os exemplos recentes de problema de saúde idêntico. Mark Cavendish (Dimension Data) não mais foi o mesmo, enquanto Beñat Intxausti competiu 23 dias em três anos na Sky. Se conseguir ser o Chaves que já vez pódio no Giro e Vuelta, então a Mitchelton-Scott aspirará a ainda mais.

Permanências: Simon Yates, Adam Yates, Johan Esteban Chaves, Matteo Trentin, Daryl Impey, Michael Albasini, Jack Bauer, Sam Bewley, Alex Edmondson, Luke Durbridge, Jack Haig, Lucas Hamilton, Michael Hepburn, Damien Howson, Cameron Meyer, Luka Mezgec, Christopher Juul-Jensen, Mikel Nieve e Robert Stannard. Michael Hayman irá retirar-se após o Tour Down Under.

Contratações: Nick Schultz (Caja Rural), Dion Smith (Wanty Groupe-Gobert), Callum Scotson (Mitchelton-BikeExchange), Brent Bookwalter (BMC), Edoardo AFfini (SEG Racing Academy) e Tsgabu Grmay (Trek-Segafredo). 


11 de dezembro de 2017

Quick-Step Floors, aquela máquina de ganhar

(Fotografia: Quick-Step Floors)
Ganhar, ganhar, ganhar. É a palavra de ordem na Quick-Step Floors que ano após ano habituou o ciclismo mundial a ter uma equipa com vários corredores com elevada capacidade para conquistar vitórias. E a maioria comprova as expectativas. Marcel Kittel e Fernando Gaviria foram as estrelas que mais se destacaram, contudo, os 56 triunfos da formação belga foram distribuídos por 14 ciclistas. O curioso é que este até foi o pior ano desde 2012. Desde então que a equipa somou sempre 60 ou mais vitórias! Porém, 2017 teve um valor acrescentado: a Quick-Step Floors voltou a ser grande nas clássicas, depois de duas temporadas mais discretas. Inclusivamente conquistou novamente um monumento com um Philippe Gilbert, que recuperou a sua melhor versão. Quem não o conseguiu foi Tom Boonen que terminou a carreira no "seu" Paris-Roubaix, mas sem uma histórica quinta vitória.

Num ano avassalador em triunfos nas principais corridas, a despedida de Boonen foi um dos momentos de 2017, não só para a equipa, mas para o ciclismo, que viu sair mais um dos principais homens das clássicas dos últimos 15 anos. Meses depois de Fabian Cancellara ter-se retirado, seguiu-lhe o exemplo aquele com quem animou tantas corridas. Tom Boonen (agora com 37 anos) arrancou a época determinado a ter um adeus memorável. Logo em San Juan, na Argentina, ganhou uma etapa, tornando-se no primeiro ciclista a vencer utilizando uma bicicleta com travões de disco. Uma nota de rodapé para o objectivo do ano: Paris-Roubaix... mas a Volta a Flandres também estava na lista (ganhou-a por três vezes).

Boonen tinha vindo a perder fôlego com o aparecimento da nova geração de corredores de clássicas, liderada por Peter Sagan e com um Greg van Avermaet, um pouco mais velho que o eslovaco, que começou tarde a ganhar, mas mais do que a tempo de construir um bonito currículo. O oitavo lugar na E3 Harelbeke e o sexto na Gent-Wevelgem eram animadores para Boonen. Porém, na semana do adeus, na Volta a Flandres um problema mecânico tirou-o da discussão, ainda que claramente aquele era o dia do colega Philippe Gilbert (já lá iremos). Não se desgastou na Scheldeprijs (43º) e quando chegou o Paris-Roubaix a expectativa era enorme.

O final de conto de fadas não era impossível, mas Boonen acabou por não conseguir entrar na luta decisiva. Ao não poder ganhar ou sequer ir ao pódio, nem sprintou por um top dez. 13º lugar soube a pouco, mas o lugar na história deste belga já estava há muito confirmado. Não houve um final de sonho, mas a carreira coloca Boonen como um dos ciclistas que muito se há-de falar quando, principalmente, estiver a decorrer uma Volta a Flandres ou Paris-Roubaix.

Saiu Boonen, reapareceu um Gilbert que mais parecia estar a caminho de seguir o caminho do compatriota. Aos 34 anos, entretanto 35, o belga mostrou que aquele ciclista que parecia só saber ganhar no início da década ainda não tinha desaparecido por completo. Gilbert eclipsou-se quase por completo nos anos em que esteve na BMC. Lefevere estendeu-lhe a mão e o belga aproveitou. Aquela Volta a Flandres foi épica. Atacou a 50 quilómetros da meta e venceu isolado. Somou outras vitórias, destacando-se a Amstel Gold Race. E são quatro triunfos nesta prova, a última havia sido em 2014. Recuperou de tal forma a sua confiança, que Gilbert tem novamente a ambição de ganhar os cinco monumentos, faltando-lhe a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix.

Ranking: 2º (12.652 pontos)
Vitórias: 56 (incluindo a Volta a Flandres, cinco etapas no Giro, cinco no Tour, seis na Vuelta e duas na Volta ao Algarve)
Ciclista com mais triunfos: Fernando Gaviria (14)

Entrou-se depois na fase do ano em que Fernando Gaviria e Marcel Kittel disputaram, de certa forma, o título de melhor sprinter. O colombiano estreou-se numa grande volta com quatro etapas e a camisola dos pontos no Giro. Kittel também foi outro ciclista que reapareceu em grande em 2017: cinco tiradas no Tour e a camisola verde parecia estar bem encaminhada, mas uma queda obrigou o alemão e ir para casa mais cedo. Gaviria terminou o ano com 14 vitórias, Kittel com 12.

Ficou claro que seria difícil manter estes dois ciclistas na mesma equipa. O alemão não quis arriscar ser segunda escolha e perder o Tour, por exemplo. Foi para a Katusha-Alpecin de José Azevedo. Aos 29 anos, Kittel ainda tem muito para dar, mas Gaviria tem apenas 23. Se continuar este ritmo de triunfos, poder-se-á estar perante um "monstro" do sprint.

Habituado a ter de trabalhar para os líderes, Matteo Trentin sempre demonstrou que tinha capacidade para mais e lá foi aproveitando algumas oportunidades. Contava com duas etapas no Tour e uma no Giro. No entanto, 2017 foi de facto um ano de mudança para alguns dos ciclistas da Quick-Step Floors e Trentin é mais um exemplo. O italiano (28 anos) somou sete triunfos, quatro na Vuelta. A equipa belga não só venceu nas três grandes voltas, como dominou nos sprints. Acrescenta-se o top dez de Bob Jungels no Giro, mais uma etapa e a classificação da juventude e Daniel Martin foi sexto no Tour.

Yves Lampaert ganhou uma etapa na Vuelta, antes de começar o espectáculo Trentin. O belga (26) realizou uma boa temporada e será um ciclista que está preparado para mais responsabilidades. Julian Alaphilippe viu uma lesão estragar-lhe parte da temporada. Perdeu a semana das Ardenas e a Volta a França, mas regressou para um final de ano que deixa o aviso: cuidado com o francês em 2018. Ganhou uma etapa na Vuelta e foi fazer segundo na Il Lombardia. Antes do problema físico tinha ganho uma tirada no Paris-Nice.

Apesar de durante vários meses pairar a incerteza sobre o futuro da equipa - Patrick Lefevere chegou a colocar o Tour como prazo para conseguir mais um patrocinador -, com todos os ciclistas a terem o contrato a terminar em Dezembro, a concentração manteve-se intacta em ganhar, ganhar, ganhar.  Aos poucos os vínculos foram sendo renovados e os reforços anunciados. Michael Morkov vem da Katusha-Alpecin e Florian Sénéchal da Cofidis para reforçarem o bloco tanto das clássicas como dos sprints de Gaviria. O próprio colombiano deverá ser mais visto em corridas de um dia, com a Milano-Sanremo nos planos, assim como as clássicas do pavé.

O holandês Fabio Jakobsen dará o salto do escalão Continental e com 21 anos terá uma época para se adaptar a outra realidade. Gosta das provas de um dia. O mesmo acontecerá com o equatoriano Jhonatan Narvaez (20), que chega com o selo de qualidade da Axeon Hagens Berman. Para corridas por etapas, o britânico de 22 anos James Knox (Team Wiggins) será uma possível aposta para um futuro próximo, juntando-se assim a um Laurens de Plus, que já começou a dar os primeiros sinais que está a aparecer mais um ciclista a ter em atenção, tal como o espanhol Enric Mas. Ambos estão na estrutura belga desde 2016 e 2017, respectivamente.

A contratação mais sonante é Elia Viviani. O ciclista deu o dito por não dito e quebrou contrato com a Sky, equipa que o deixou de fora de todas as grandes voltas este ano. O italiano quer relançar a carreira, mas também saberá que será sempre o segundo sprinter na hierarquia, atrás de Gaviria. No entanto, com o colombiano a ter definido o Tour como corrida principal em 2018, Viviani tem a porta escancarada para ir ao Giro, como pretende.

David de la Cruz, Daniel Martin, Gianluca Brambilla, Matteo Trentin e Marcel Kittel optaram por novos desafios. A Quick-Step Floors irá apresentar-se mais pequena - como muitas das equipas, devido à redução de corredores nas competições, determinada pela UCI -, mas a saída de uns abrirá espaço para outros aparecerem e qualidade continua a não faltar nesta formação belga.



10 de setembro de 2017

Os mais e menos desta sensacional Vuelta

O pódio da 72ª edição da Vuelta: Zakarin (3º), Froome (1º) e Nibali (2º)
(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
É verdade que já se repetiu aqui várias vezes a "sensacional Vuelta", ou "fenomenal Vuelta". Mas foi e há que sublinhar isso mesmo. Com um Giro interessante, mas não tão espectacular como em anos anteriores e com uma Volta a França, mais emotiva do que tem sido normal, mas ainda assim a pecar por ter um percurso conservador, esta Vuelta foi uma corrida de três semanas de fazer os adeptos de ciclismo ficarem sentados quase da primeira à última etapa sem grandes momentos para se bocejar! Chegou ao fim e podemos começar a pensar no final de temporada, com os Mundiais e a Lombardia como principais destaques. Mas antes fica aqui os mais e menos de uma Vuelta de emoções fortes.

Os mais...

Chris Froome, claro. É o primeiro ciclista a fazer a dobradinha Tour/Vuelta desde que as corridas estão no actual calendário. Depois de três segundos lugares, finalmente a vitória e com uma demonstração do poderio que nos habituámos a ver no Tour e que este ano tinha sido colocado em causa. Venceu duas etapas (uma foi o contra-relógio) e vestiu a camisola vermelha na terceira etapa e nunca mais a tirou. A Sky também esteve em grande nível, depois de há um ano ter falhado perante o seu líder na Vuelta. Wout Poels foi imperial, Gianni Moscon uma confirmação que é mais um homem preparado para servir a Sky nas grandes voltas.

Alberto Contador. Começou tão mal esta Vuelta que se chegou a temer que a despedida seria marcada por um abandono. Afinal, a má etapa de Andorra tinha sido devido a um problema de saúde. Recuperou e foi espectáculo atrás de espectáculo. Custou, mas ganhou uma etapa e logo no Angliru. É o primeiro ciclista a vencer duas vezes nesta mítica subida. Faltou-lhe o pódio na hora do adeus, mas deixou uma marca tão profunda nesta Volta a Espanha, que garantiu que será lembrado por mais uma grande corrida que fez, independentemente do quarto lugar. E que bonita foi aquela entrada em Madrid, com o pelotão a deixar-se ficar para trás, deixando Contador receber uma enorme ovação pelas ruas da sua cidade. Mais um pormenor: salvou a Espanha de não ter nenhum ciclista seu a vencer em casa, algo que só aconteceu em 1996.

Ilnur Zakarin e Wilco Kelderman. O russo da Katusha-Alpecin consegue o seu primeiro pódio numa grande volta. A aposta de José Azevedo começa a render, depois do quinto lugar no Giro. A concorrência era bem mais feroz na Vuelta e apesar de um início pouco convincente, Zakarin terminou em grande e a dizer que está pronto para um maior desafio em 2018: o Tour. Quanto ao holandês da Sunweb, depois de ter sido o homem de confiança que Tom Dumoulin perdeu no incidente com a moto no Giro, agarrou com tudo o que tinha a oportunidade de liderar uma grande volta. Acabou por cair de terceiro para quinto lugar no Angliru, mas ainda assim são mais os aspectos positivos a tirar do que os negativos. Demonstrou que a Sunweb tinha razão em mandar para casa um Warren Barguil a querer ser a estrela e não um homem de equipa. A ver vamos o que reserva a Kelderman em 2018, sendo certo que não irá livrar-se de ajudar Dumoulin, mas a merecer nova oportunidade como líder.

Michael Woods. É a surpresa no top dez. Aos 30 anos fez a sua melhor corrida, naquela que foi apenas a sua segunda grande volta. Brilhante sétimo lugar do canadiano que pouco se falou até hoje, mas que agora fica-se a pensar se tem mais para mostrar ou se apenas garantiu um lugar na equipa para 2018, no apoio a Rigoberto Uran. Pode já ter aparecido tarde, mas serão três semanas marcantes na carreira de um ciclista que normalmente mostra-se em provas de uma semana nos EUA, ou nas clássicas. Por curiosidade, Woods ganhou em 2015 a Clássica Internacional de Loulé. A Cannondale-Drapac colocou ainda Davide Villella como o rei da montanha, num ano muito positivo nas provas de três semanas, mesmo com a ameaça de ser o fim da linha da formação, algo já confirmado que não irá acontecer.

Miguel Ángel López. O Super-Homem do ciclismo está de regresso. Foi um ano penoso depois no final de 2016 ter sofrido uma queda grave num treino, na qual fracturou a perna. A confirmação do seu talento para as três semanas não aconteceu na Vuelta de 2016 (também caiu e abandonou depois de ter vencido nesse ano a Volta a Suíça), surgiu nesta, com duas vitórias de etapa e o oitavo posto na geral. Foi o melhor ciclista da Astana, que tinha Fabio Aru como líder. É um ciclista com um futuro muito (mesmo muito) promissor.

Os caçadores de etapas. Matteo Trentin (quatro) e Tomasz Marczynski (duas) foram os ciclistas que repetiram vitórias na Vuelta, além de López e Froome. Para o italiano foi o passaporte para o grupo de corredores que conquistaram tiradas nas três grandes voltas, enquanto o polaco estreou-se a vencer nestas corridas. Trentin venceu em Madrid, mas falhou a camisola verde porque, ao contrário do que se esperava, Froome foi sprintar e garantiu por dois pontos essa classificação. Ainda assim, para o italiano e para a Quick-Step Floors foi um saldo muito positivo. A equipa belga sai da Vuelta com seis vitórias, mais uma do que as conquistas no Giro e no Tour. Que época tremenda! Mas Marczynski contribuiu também para a Lotto Soudal ter razões para sorrir depois de um Tour em que ficou a zero. Armée Sander e Thomas de Gendt também venceram para a equipa. O belga juntou-se a Trentin como o vencedor nas três grandes.

A Aqua Blue Sport foi a única equipa das que receberam um convite para a Vuelta a conquistar uma vitória de etapa. A formação irlandesa - que conta com o massagista português Pedro Claudino - tentou ao sprint com o campeão inglês em 2016 Adam Blythe e integrou algumas fugas. Foi assim que conseguiu um triunfo por intermédio do austríaco Stefan Denifl. Foi uma vitória de extrema importância para uma formação a cumprir o seu primeiro ano de existência e a justificar um convite que surpreendeu muitos. Cofidis, Manzana Postobón e a formação da casa, Caja Rural, não conseguiram o mesmo protagonismo.

Os menos...

Começando pelas outras promessas além de López. As atenções eram muito sobre as espanholas e foi Marc Soler quem mais se mostrou. O jovem de 23 anos entrou em fugas e esteve muito activo na Vuelta, mas não foi recompensado nem com uma vitória de etapa, nem com uma classificação na geral digna de nota (perdeu mais de duas horas). Ganhou experiência o que poderá ser importante para o futuro, já que é um ciclista muito novo. O mesmo acontece com Jaime Rosón. Esteve um pouco melhor, mas o reforço da Movistar para 2017 - actualmente na Caja Rural - não se viu muito e acabou com mais de uma hora de atraso. Mais um caso em que se pode dizer que ganhou experiência.

Há ainda Rubén Fernández e David de la Cruz. O primeiro, da Movistar, deu tanto espectáculo há um ano e neste... praticamente nada. O segundo, da Quick-Step Floors e de malas feitas para a Sky, mostrou debilidades sempre que as dificuldades montanhosas mais complicadas apareceram. Quando se queria mostrar para garantir pelo menos um top dez, caiu antes de chegar ao Angliru e abandonou. Esperava-se mais e melhor dos dois.

Já se falou de dois ciclistas da Movistar, mas se há um grande menos nesta Vuelta é a equipa espanhola. Orfã de um líder (Nairo Quintana fez o Giro e o Tour e Alejandro Valverde está a recuperar de uma grave queda na Volta a França), a oportunidade dada aos ciclistas mais novos não deu frutos, pelos menos nesta Vuelta. Aposta para o futuro dirá o director desportivo Eusebio Unzué. Também não ajudou Carlos Betancur desistir após uma queda, ele que até parecia estar de facto bem fisicamente. Mas para uma equipa espanhol, a única do World Tour, com um patrocinador tão exigente que nem deixa que o campeão espanhol utilize uma camisola que o identifique claramente como tal, ter o melhor classificado na 36ª posição a 1:43.45 horas (Richard Carapaz)... Não há razões para sorrir. E nem uma etapa foi ganha pela Movistar. Volta para esquecer da equipa de Nelson Oliveira.

Destacam-se pela negativa mais duas equipas. A BMC que começou por vestir a vermelha e tentar disputar a geral primeiro com Rohan Dennis (mais uma vez não acabou uma grande volta) e depois com Nicholas Roche que foi um descalabro depois de sonhar com o pódio. Salvou-se o top dez de Tejay van Garderen, "oferecido" por Fabio Aru no Angliru. A Orica-Scott apostou forte com Johan Esteban Chaves e os gémeos Yates. Adam e Simon foram uma tremenda desilusão. Talento não lhes falta, mas está a faltar algo para começarem finalmente a discutir grandes voltas, além das classificações da juventude. Quanto a Chaves, foi ao Tour para ganhar ritmo depois de meio ano perdido a recuperar de uma lesão no joelho. Apareceu bem na Vuelta, mas não na apresentada há um ano, que lhe valeu o pódio. Com um contra-relógio de 40 quilómetros foi impossível lutar por resultado idêntico. Apesar de no início ser o colombiano o único que não largava Froome, quebrou e terminou fora do top dez. Mesmo com alguns problemas na montanha, que revelam que ainda não está a 100%, tem de melhorar no contra-relógio se quer aspirar a algo mais.

Já aqui se falou de Fabio Aru. O que dizer de um ciclista que perdeu 15 minutos no Angliru? Terminou o Tour doente e não conseguiu estar ao seu melhor na Vuelta. É uma pena, porque numa corrida com tanto espectáculo, teria sido tão bom ver este italiano a ser aquele ciclista irreverente que sabe e gosta de ser.

Os portugueses

José Gonçalves não terminou, pois uma queda na sexta etapa acabou com a sua Vuelta. Mas o contingente português contou com mais quatro ciclistas e todos andaram em fugas. Rui Costa e Nelson Oliveira com bons resultados, mas não houve vitória. O ciclista da UAE Team Emirates conseguiu um quarto lugar, que tem de ser valorizado já que fez uma parte da Vuelta com uma ferida nas costas, resultado de uma queda. Ainda este domingo tentou novamente a sua sorte. Foi 43º, a 1:58.46 horas, mas mais do que esta classificação ficaram indicações que poderá aparecer bem nos Mundiais. Nelson Oliveira conseguiu um quinto lugar e a certa altura chegou a bater à porta do top dez. Foi um teste às capacidades de voltista do ciclista da Movistar, sem estar no papel de gregário. Mas esta Vuelta é mesmo muito dura e com o passar das montanhas Oliveira foi perdendo tempo. Terminou na 47ª posição, a 2:16.03. No contra-relógio, o próprio assumiu que foi uma desilusão a sua exibição nesse dia, ficando longe dos melhores: a 2 2:47 de Chris Froome.

Ricardo Vilela fez a Vuelta lesionado. Ainda assim manteve-se em prova até final, representando uma Manzana Postobón que tanto se quis mostrar nesta corrida. Foi 50º, a 2:25.21 de Froome. Rafael Reis fez a sua estreia e acabou por ser o intervenientes de um dos momentos negativos na Vuelta. Não por sua responsabilidade. Quando integrava uma fuga, acabou por ser tocado por uma moto, que lhe provocou uma queda. Infelicidade para o português da Caja Rural que certamente ganhou uma experiência importante durante as últimas três semanas, naquele que está a ser o seu primeiro ano numa equipa Profissional Continental. Terminou na 132ª posição, a 4:27.14.

Muito mais haveria a dizer, mas vamos evitar um testamento. De ano para ano esta Vuelta tem sido o palco de cada vez mais espectáculo e, por isso, entramos em contagem decrescente até à próxima, a 73ª edição.


Summary - Stage 21 - La Vuelta 2017 por la_vuelta



1 de setembro de 2017

Enquanto os sprinters se queixam, Trentin ganha e Escartín dá ao público o que este mais gosta de ver

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Mark Cavendish e André Greipel são dois dos actuais grandes sprinters que já ganharam etapas na Volta a Espanha, mas há muito que por lá não passam. Tal como vários dos ciclistas com estas características, riscaram a Vuelta dos seus calendários, pois o percurso muito montanhoso, com poucos dias para que possam lutar por uma vitória, não é nada atractivo para quem só sobe se tiver mesmo de ser, ou seja, com a perspectiva de ainda obter um grande triunfo. É simplesmente sacrifício a mais para tão pouca compensação na Vuelta. Porém, enquanto uns criticam o percurso espanhol, outros aproveitam para ficar com um marco na carreira, como está a ser o caso de Matteo Trentin.

O italiano conquistou a sua terceira vitória na Vuelta e logo na edição em que passou a ser o centésimo ciclista a ganhar nas três grandes voltas. Dois destes triunfos foram conquistados precisamente nos dois verdadeiros sprints que esta corrida teve. Talvez o sprinter mais cotado fosse John Degenkolb (Trek-Segafredo), mas que está longe do seu melhor e até já está longe da Vuelta. Trentin aproveitou a sua oportunidade (e de que maneira), numa altura em que se despede da Quick-Step Floors, onde está desde 2011, tendo começado como estagiário.

Trentin é um dos lançadores de confiança de Marcel Kittel, que nem sequer pensa em estar na Vuelta. Para ele já chega sofrer no Tour, a sua grande volta de eleição. A sua e a de praticamente todos os principais sprinters. São muitos os que criticam o facto da Vuelta ter cada vez menos etapas para sprinters. Este ano podem-se considerar quatro e mesmo assim, nem sempre com as condições que homens como Kittel ou Cavendish gostam (tinham umas subidas mais íngremes para os seus gostos). Trentin não é o maior dos especialistas, mas a qualidade está lá e a Orica-Scott deve estar bem satisfeita por já ter garantido o ciclista de 28 anos para 2018. A equipa australiana até o terá contratado a pensar nas clássicas, mas esta exibição pode abrir outras portas a Trentin.

Os sprinters são uma espécie em vias de extinção na Vuelta e o da Cannondale-Drapac, Tom Van Asbroeck, é bem frontal na sua opinião: "É uma treta!" Bom, a palavra talvez fosse um pouco mais agressiva, mas dá para perceber o que pensa! Fernando Escartín, director da corrida e um ciclista que muita acção oferecia nas montanhas no seu tempo, responde de forma peremptória a este tipo de críticas: "[Muita montanha] é o que o público gosta." E provavelmente tem razão.

Sim, é sempre bonito ver um bom sprint, com os melhores do mundo. Porém, são etapas em que por vezes é difícil manter os olhos abertos. São normalmente longas e no Tour bem nos lembramos de ver 200 quilómetros sem se passar nada até àqueles 10 finais em que os comboios começam a tentar organizar o sprint. Faz parte do ciclismo, mas sim, são as etapas de montanha que acabam por atrair mais, mesmo quando os corredores esperam pela última subida para mexer com a corrida. É que ainda assim, a emoção dura sempre mais tempo do que os breves segundos de um sprint e as tiradas têm mais importância a nível da geral, claro.

O sucesso que a Vuelta tem cada vez mais junto do público, com as audiências também a serem melhores, dá razão a Escartín. Já não é nada estranho ouvir alguém dizer que a Volta a Espanha é a sua preferida das três grandes. O Tour há muito que perdeu esse estatuto. Pode ser visto como o mais importante mais por tradição, contudo, os grandes embates dia após dia são cada vez mais frequentes em Espanha e não em França.

A crescente presença dos principais voltistas do pelotão na Vuelta é mais uma demonstração que Escartín tem razão. Dirk Demol, director desportivo da Trek-Segafredo, considera que para se ter os grandes sprinters numa grande volta, terão de existir sete a oito etapas só a pensar neles. Nada de parecido acontece na Vuelta. A decisão da organização está aberta às opiniões pessoais, mas com três grandes voltas por ano é assim tão importante serem todas com um formato idêntico? Isto é, as tais oito etapas para sprinters, outras para favorecer fugas e depois umas poucas de alta montanha para tentar decidir a geral, sobrando sempre um ou dois contra-relógios (um às vezes colectivo) que, dependendo da distância e tipo de percurso, irá favorecer aquele ou outro ciclista, têm de estar sempre presentes?

Se assim é no Giro, se assim é no Tour - a corrida que mais etapas completamente planas tem -, porque não há-de haver uma corrida em que se teste de forma diferente e mais intensa os chamados trepadores? Por enquanto parece que podem queixar à vontade, que Escartín não se deixa influenciar. De ano para ano a Vuelta está cada vez mais interessante e a despertar interesse nos ciclistas que podem muito bem começar a ter um novo objectivo, até agora pouco ou nada pensado. Tanto se fala na dobradinha Giro/Tour e como ninguém a consegue desde 1998 (Marco Pantani), que se Chris Froome se tornar no primeiro a fazer a de Tour/Vuelta (com o calendário no actual formato), é quase certo que mais se seguirão para tentar fazer o que começará a ser visto como um feito.

Quanto ao assunto dos sprinters, resta dizer que a Quick-Step Floors ganhou a quinta etapa na Vuelta, repetindo o número que já tinha obtido no Giro e Tour. Fantástico! Ficamos por aqui quanto a sprints, porque vêm aí as grandes montanhas.

Este fim-de-semana é daqueles em que é melhor reorganizar as idas à praia para o final da tarde, depois das etapas. Ambas são já típicas da Vuelta: curtas e a subir. No domingo temos a que é considerada a etapa rainha, mas comecemos pela deste sábado. Serão 175 quilómetros, com uma terceira e segunda categoria só para aquecer. A ascensão até à Sierra de la Pandera levará o pelotão aos 1830 metros de altitude. É uma categoria especial, ainda que a pendente média possa não assustar muito à primeira vista: 7,3%. Terá 13% de máxima. É longa, alta e já são muitos quilómetros nas pernas dos candidatos e todos eles já tiveram dias menos bons. Até o líder Chris Froome, ainda que tenha sido mais devido a duas quedas na tirada de quinta-feira. Queixou-se esta sexta-feira de algumas dores na anca. Um bluff para pensarem que não está tão bem?



A dúvida é se se irá mexer muito na corrida neste sábado ou se haverá alguma contenção a pensar no que aí vem no domingo: duas primeiras categorias e o final numa especial em 129,4 quilómetros. Sim, Fernando Escartín, o público gosta de grandes voltas bem montanhosas! Tem razão! É que se na segunda-feira é dia de descanso, ainda há muito para subir até ao Angliru no sábado da próxima semana.


Summary - Stage 13 - La Vuelta 2017 por la_vuelta


Veja aqui as classificações.

»»Não lhes chamem etapas de transição. Não na Vuelta!««

»»O dia em que os rivais viram Chris Froome ficar muito (demasiado?) longe««

22 de agosto de 2017

Trentin entra para um grupo restrito que De Gendt persegue

Trentin foi o mais forte no sprint em Tarragona
(Fotografia: Facebook Matteo Trentin)
Matteo Trentin pode não ter muitas vitórias na carreira (12), mas tem as que precisa para entrar num restrito grupo de ciclistas. Vencer numa grande volta não é para qualquer um. Vencer nas três só é para 100. E o italiano é esse centésimo. O próprio não estava a conseguir "encaixar" muito bem a vitória na Vuelta e ainda menos o feito de ter vencido pelo menos uma etapa no Giro, Tour e na corrida espanhola. Trentin pode não ser aquele ciclista que recordamos como um grande sprinter. A sua carreira tem sido marcada como homem de trabalho, de confiança para os sprinters que foram passando pela estrutura da Quick-Step Floors. Até se falava que Marcel Kittel queria Trentin a seu lado quando assinasse por uma nova equipa. Não vai acontecer. O dia foi de emoções para o ciclista de 28 anos, que toda a carreira de profissional foi feita na estrutura da formação belga. Vai para a Orica-Scott e até se baralhou nas declarações após a vitória.

O discurso inicial era quase como se já não fosse ciclista da equipa, mas mudou e reforçou o "nós" e vez do "eles". Trentin queria um último grande triunfo para o adeus. Ele que andou na sombra de Mark Cavendish e Kittel ou então de Tom Boonen, nesta caso mais nas clássicas. Quando surgiu a oportunidade agarrou-a, umas vezes com a vitória. Foi assim no Tour em 2013 e 2014, no Giro em 2016 e agora na Vuelta. Na Orica-Scott, Trentin poderá encontrar um estatuto mais importante, principalmente no que diz respeito às clássicas, mas também nos sprints, ainda que neste aspecto terá sempre um Caleb Ewan como a opção número um.

Trentin entra assim num grupo em que Fabio Aru passou a fazer parte no último Tour, no qual já estão Nairo Quintana, Alejandro Valverde e, recuando um pouco no tempo Eddy Merckx e Bernard Hinault. Entre os sprinters, Mark Cavendish também venceu nas três grandes voltas, tal como Marcel Kittel, André Greipel e Mario Cipollini. A título de curiosidade, Alberto Contador e Chris Froome não estão neste grupo, pois falta-lhes uma vitória na Volta a Itália.

Nesta Vuelta há mais um candidato a aumentar a contagem para 101. Thomas de Gendt tem um objectivo principal no que resta da sua carreira: vencer uma etapa na Vuelta. Já tem no Giro e no Tour e a confissão do que o belga procura foi feita pela própria equipa, Lotto Soudal, ao Cycling News.

De Gendt já admitiu algum cansaço depois de ter feito o Tour, mas isso não significa que tenha apontado tentar a desejada vitória em determinadas em etapas. Olhando para as suas conquistas - em 2012 venceu no Stelvio (Giro) e em 2016 no Mont Ventoux (a etapa foi encurtada devido ao vento e ficou famosa pela corrida a pé de Chris Froome) -, para fazer um triplete perfeito, então vencer o Angliru seria algo de fenomenal. Quando se fala de Thomas de Gendt, só se pode pensar "e porque não?"

Pode nunca se ter tornado no voltista que em 2012 se pensou, depois do terceiro lugar no Giro. Capaz do melhor e do pior, quando De Gendt faz o melhor, é um ciclista impossível de não se gostar de ver. Vamos ficar atentos ao belga nesta Vuelta.

Um dia calmo porque vêm aí as etapas "rompe pernas"


Esta terça-feira foi um dia atípico na Vuelta. Também os há, mas estamos tão habituados a ver acção nesta corrida, que quando surge uma etapa em que nada se passa além da fuga, perseguição e sprint final, até achamos estranho. Mas percebe-se. Depois do contra-relógio colectivo foram duas etapas infernais, primeiro por causa do vento e depois porque logo ao terceiro dia entrou-se na alta montanha. Descansou-se então um pouco na quarta e agora é subir e descer até domingo. Já nesta quarta-feira é um dos dias chamados de "rompe pernas" (imagem em cima).

Matteo Trentin deu a segunda vitória à Quick-Step Floors, depois de Yves Lampaert ter ganho na segunda etapa. Já "só" faltam três para igualar a marca alcançada no Giro e no Tour: cinco tiradas. Pela negativa esteve Daniel Moreno, que caiu já perto do final da tirada, perdendo 1:38 minutos. A Movistar tem agora como melhor classificado na geral o colombiano Carlos Betancur, a 1:35 de Chris Froome.


Summary - Stage 4 - La Vuelta 2017 por la_vuelta

27 de maio de 2016

A perfeição e companheirismo da Etixx-QuickStep

Momento do sprint. Trentin surpreendeu Moser (Fotografia: giroditalia.it)
Tudo o que falhou nas clássicas - as tácticas, as formas físicas dos ciclistas - no Giro tudo sai bem. Pode não ganhar qualquer classificação, mas quando se analisa tudo o que a equipa belga alcançou nesta Volta a Itália, inevitavelmente colocará a Etixx-QuickStep como um dos grandes destaques da 99ª edição, independentemente do que aconteça nas três etapas que faltam.

Na 18ª etapa, a mais longa do Giro com 244 quilómetros, a Etixx esteve tacticamente perfeita ao colocar dois ciclistas na frente, ao ter Gianluca Brambilla fugido com Moreno Moser e depois ajudou ter um super Matteo Trentin, que fez uma recuperação espectacular nos últimos metros para ganhar a tirada em Pinerolo. Foi a quarta vitória da equipa, depois das duas de Marcel Kittel e a de Brambilla. A estes triunfos junta-se três ciclistas que já vestiram de rosa - Kittel, Brambilla e Bob Jungels (que poderá terminar no top dez) - e o sprinter alemão também liderou a classificação por pontos.

Para uma equipa que aposta forte nas clássicas e que nas grandes voltas tem o objectivo de ganhar etapas, o director desportivo Patrick Lefevere certamente que estará a pensar: missão cumprida no Giro. Resultados muito importantes depois da Etixx ter falhado nas clássicas. E veremos se a equipa fica por aqui...

Outro aspecto a salientar é a forma como a Etixx funciona de facto como um conjunto unido. Se houvesse um prémio para o melhor colega, Brambilla era um vencedor certo. Mais uma vez o italiano sacrificou a possibilidade de ele próprio ganhar, para garantir que a equipa ficava com o triunfo que foi para Trentin.

Explicação: Brambilla estava isolado com Moreno Moser (Cannondale) à entrada do último quilómetro. Colocou-se na roda do compatriota, olhando de vez em quando para trás para garantir que ninguém se estava a aproximar. Parecia que a discussão era entre os dois italianos, até que, inesperadamente, aparece um terceiro, Trentin, lançado, a fazer um esforço descomunal para chegar à frente. Brambilla vê o colega e decide que nada fará para ajudar Moser a ficar na frente e talvez a ganhar a tirada (Moser teria provavelmente sido mais forte no sprint).

Trentin nem hesitou. Passou directo. Será que Moser viu Trentin? O ciclista da Cannondale poderá ter sido surpreendido, pensando que a única camisola azul que estava atrás de si era a de Brambilla.

Recuando à etapa 10, Brambilla vestia a camisola rosa, uma conquista que muito o orgulhou. Porém, ao aperceber-se que não tinha capacidade para a defender, sacrificou-se na ajuda a Bob Jungels de forma a assegurar que a liderança continuaria na equipa. E conseguiu.

Os ciclistas da equipa belga têm uma pulseira cor-de-rosa que lhes foi oferecida por Marcel Kittel, para os motivar a ajudá-lo a vestir a maglia rosa. Não o voltarão a fazer, mas sendo o rosa a cor da vitória no Giro, a pulseira assenta-lhes muito bem. Tal como Brambilla, Trentin conquistou a sua primeira vitória de sempre nesta competição e não deixa de ter um toque de ironia que um sprinter italiano finalmente tenha vencido... numa etapa de média montanha.

E se a Etixx até é conhecida por ter dois corredores na frente e ainda assim perder a corrida, pode-se dizer que talvez tenha dado esta quinta-feira um primeiro passo para recuperar do "trauma"!

Confira o resultado da etapa e as classificações.


Giro d'Italia 2016 - Stage 18 - HIghlights por giroditalia