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27 de novembro de 2019

Um fenomenal Pogacar leva UAE Team Emirates a um nível mais alto

(Fotografia: © João Fonseca Photographer)
Se na Ineos se diz que nasceu uma das próximas grandes figuras do ciclismo mundial, na UAE Team Emirates surgiu outra. O colombiano Egan Bernal, da equipa britânica, já tem a sua Volta à França, apenas no seu segundo ano no World Tour, mas também sabe que há uma potencial rivalidade pronta para assumir destaque na modalidade com um esloveno. Tadej Pogacar é puro talento e não perdeu tempo na sua época de estreia ao mais alto nível a conquistar grandes vitórias. E a primeira que não se esquece, foi na Volta ao Algarve.

Numa época em que a UAE Team Emirates investiu muito na contratação de Fernando Gaviria, que inclusivamente quebrou contrato com a Deceuninck-QuickStep para seguir o projecto e o dinheiro que lhe foi oferecido, acabou por ser um jovem ciclista acabinho de chegar a "roubar" quase toda a luz da ribalta, enquanto Gaviria se foi apagando entre os sprints muito aquém e uma lesão que o manteve afastado muito tempo, inclusivamente do Tour.

Esta é uma equipa que está em plena fase de mudança de mentalidade. Depois de tomar conta da antiga Lampre-Merida no final de 2016, a estrutura, agora do Médio Oriente, apostou mais em nomes já com provas dadas, aproveitando Rui Costa, que já estava na equipa, e contratando ciclistas como Daniel Martin, Alexander Kristoff e Fabio Aru. Porém, não foi alcançado o esperado a nível de triunfos e o director espanhol Joxean Fernández Matxin fez com que a equipa, enquanto tentava tirar o melhor deste trio e de Rui Costa, olhá-se para uma nova geração.

2019 foi a primeira amostra de como o trabalho está a ser feito e com Tadej Pogacar a ser simplesmente fenomenal, mas sem esquecer um Jasper Philipsen, um "licenciado" da Hagens Berman Axeon, que também esteve em destaque, além dos bons sinais dados pelo português Rui Oliveira. O irmão, Ivo, ficou com a afirmação adiada devido a uma queda gravíssima num treino, que o manteve afastado cerca de seis meses.

Daniel Martin - que está de saída para a Israel Cycling Academy - lutou contra a pressão que colocou em si próprio e que o afastou de melhores exibições; Aru foi operado à artéria ilíaca na perna - problema que levou Nuno Bico a acabar a carreira - e apesar de se ter comprometido a aparecer a bom nível na Vuelta, nem a terminou; Kristoff foi ganhando, mas são notórias as crescentes dificuldades em disputar sprints com as principais figuras. Mas houve um Tadej Pogacar, tímido e discreto fora da bicicleta, mas de enorme irreverência nas corridas.
Ranking: 4º (11765,33 pontos) 
Vitórias: 29 (incluindo três etapas na Vuelta e uma no Giro, a Volta ao Algarve, Volta à Califórnia, Volta à Noruega e Volta à Eslovénia) 
Ciclista com mais triunfos: Tadej Pogacar (8)
Com Gaviria a abandonar o Giro - venceu uma etapa, após a desclassificação de Elia Viviani - devido à lesão no joelho que o limitaria praticamente toda a temporada, foi no outro jovem, o estreante, que a UAE Team Emirates encontrou a fonte para uma boa época e o início da afirmação desejada entre as melhores equipas do mundo. O objectivo de estar entre as cinco melhores está cumprido, agora vai olhar para o top três e claro, com vontade de destronar a Ineos.

Mas para concretizar essa vontade, o necessário é elevar Pogacar ao próximo nível. O esloveno, de apenas 21 anos, deixou de ser uma promessa logo na Volta ao Algarve quando ganhou categoricamente no Alto da Fóia, segurando a geral até final. Depois foi mostrar toda a sua classe na Volta à Califórnia, tendo antes ganho a juventude na Volta ao País Basco. Porém, foi depois do que fez na Vuelta que Pogacar se transformou num ciclista que ninguém menosprezará em 2020.

Venceu três etapas, a juventude e ainda foi terceiro na geral. Além dos números, as exibições foram entusiasmantes. E nem era suposto estrear-se em grandes voltas em 2019! Não tem medo de atacar de longe, não tem receio de enfrentar sem inibições ciclistas de maior experiência. É inteligente tacticamente, completo tecnicamente, pois além de ser um excelente trepador, defende-se muito bem no contra-relógio. É impossível não pensar de como será ver um frente-a-frente entre Egan Bernal e Tadej Pogacar.

Pode parecer redutor falar da época da UAE Team Emirates quase exclusivamente na perspectiva de Pogacar, mas os seus resultados fizeram muito a diferença, enquanto ciclistas de maior estatuto estiveram abaixo das expectativas. Aru, por exemplo, vai ter um ano fulcral se quiser não só manter estatuto, como se procurar manter-se na equipa.

Mas refira-se como Jan Polanc andou de camisola rosa na Volta a Itália e de como Diego Ulissi - outra das figuras que estava na Lampre-Merida, tal como Rui Costa - continua a deixar sempre uma pequena frustração por tanto conseguir ser um ciclista capaz de discutir grandes corridas, como um que desaparece no extenso pelotão internacional.

Quanto aos portugueses, Rui Costa teve alguns bons momentos, como foi o caso na Volta à Romandia (segundo na geral) e, como tem sido normal, no final de temporada, com um 10º lugar nos Mundiais de Yorkshire. No entanto, não restam dúvidas de como está a perder estatuto e apesar de nova renovação de contrato, o seu papel será cada vez mais de apoio às figuras emergentes como Tadej Pogacar, sendo que a experiência do poveiro será essencial num grupo cada vez mais jovem desta UAE Team Emirates.

A estreia de Rui Oliveira no World Tour, outro "licenciado" da Hagens Berman Axeon, foi muito positiva, estando a transformar-se num ciclista de trabalho de muita qualidade. Ao lado de Jasper Philipsen, por exemplo, foi importante em alguns dos bons resultados deste sprinter belga, também com talento para as clássicas.

Já Ivo iniciou o seu regresso à competição na recta final da temporada e agora é aguardar que possa recuperar a sua melhor forma, tanto para se poder afirmar na estrada ao mais alto nível, como a pensar no apuramento de Portugal para os Jogos Olímpicos na vertente de pista, sendo os gémeos Oliveira elementos importantes para garantir este feito inédito.

E por falar de jovens na UAE Team Emirates, vão chegar mais uns muito prometedores: Brandon McNulty (21 anos, trepador da Rally UHC Cycling) e Mikel Bjerg (21, tricampeão mundial de contra-relógio de sub-23), com o italiano Alessandro Covi (21, Colpack) e o colombiano Andrés Ardila (20, EPM Scott) a serem mais dois ciclistas com qualidades de trepadores, com Covi a também se adaptar bem a algumas clássicas.

David Formolo (Bora-Hansgrohe), David de la Cruz (Ineos) e Joe Dombrowski (EF Education First) são contratações para equilibrar com a muita juventude, sem esquecer o veterano de 36 anos Max Richeze (Deceuninck-QuickStep), que se espera que venha a ser o líder do comboio que Gaviria deseja, sendo um reencontro depois de terem sido uma dupla de sucesso na equipa belga.

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24 de agosto de 2019

Início muito acidentado de Vuelta

(Imagem: print screen)
"Só faltam 20 etapas!" Eis uma forma de encarar o bom início de Volta a Espanha de Miguel Ángel López, o primeiro líder da corrida, depois da Astana vencer o contra-relógio colectivo. O colombiano, que tão poucas razões teve para sorrir no Giro, vê os papéis inverteram-se no frente-a-frente com a Jumbo-Visma. A equipa holandesa teve dois arranques de sonho em Itália e no Tour, viveu um pesadelo na Vuelta e ainda falta saber se as consequências da queda podem afectar as ambições para a prova. E como em Espanha tudo de facto pode acontecer, um contra-relógio que não se esperava ser de grandes acontecimentos, teve ainda uma UAE Team Emirates também a cair (salvou-se um ciclista) e o carro da Euskadi-Murias a despistar-se.

O acidente com o veículo da equipa espanhola aconteceu numa curva que o condutor tentou fazer rápido de mais, na tentativa de acompanhar os ciclistas (vídeo em baixo). Os membros do staff que estavam no carro estarão todos bem.


Mas o momento que marcou a primeira etapa da Vuelta aconteceu quando alguém resolveu regar o jardim. Segundo o Cycling Weekly terá sido esta a razão para a estrada ficar de repente molhada, o que provocou a queda dos ciclistas da UAE Team Emirates - dos que ainda seguiam juntos naquela fase, Sergio Henao já tinha ficado para trás, só Valerio Conti não caiu - e de os da Jumbo-Visma: Primoz Roglic, Steven Kruijswijk, Lennard Hofstede e Neilson Powless (imagens da queda no vídeo em baixo).




Um homem que estava no local, a seis quilómetros da meta, explicou ao site que a mangueira terá rebentado e quem estava a regar o jardim não conseguiu fechar a torneira a tempo de evitar que a água escorresse para a estrada. Várias pessoas tentaram de imediato enxugar o alcatrão, numa missão impossível, ainda mais com as equipas a passarem com uma diferença de quatro minutos.

A UAE Team Emirates foi a primeira vítima. Fernando Gaviria esteve muito tempo afastado devido a uma lesão no joelho, depois de ter abandonado o Giro, na sétima etapa. Fez a Volta à Polónia e veio à Vuelta tentar salvar algo desta sua primeira época na equipa. Porém, foi dos que ficou com feridas bem visíveis, tal como Fabio Aru, outro ciclista a apostar forte na corrida espanhola. As primeiras indicações da UAE Team Emirates é que todos vão continuar em prova. Porém, foi uma estreia numa grande volta para esquecer de Tadej Pogacar, vencedor da Volta ao Algarve e à Califórnia.

A Bora-Hansgrohe passou a seguir sem problemas de maior, ao contrário da Jumbo-Visma. Depois de ganhar a primeira etapa no Giro (Primoz Roglic) e no Tour (Mike Teunissen), era a favorita para repetir o feito na Vuelta. No entanto, saiu de Torrevieja com 40 segundos de desvantagem. A UAE Team Emirates perdeu 1:07 minutos, quando estava a nove segundos do melhor tempo no ponto intermédio. Só a Burgos-BH fez pior: 1:22.

E só não houve mais um incidente por alguma sorte e destreza dos ciclistas da Deceuninck-QuickStep. Um dos carros da Jumbo-Visma demorou a arrancar, pois ficou na ajuda a um dos corredores que não conseguir prosseguir rapidamente o seu caminho até à meta. Estava muito em cima da curva e os dois polícias que estavam de moto só tiveram tempo para se colocarem de maneira a que os ciclistas tivessem de se desviar mais cedo. Foi por muito pouco que não houve um choque. A equipa perdeu o contra-relógio por dois segundos e entre água e este momento, disse muito provavelmente adeus à vitória de etapa.

A Movistar foi a última a partir e perdeu 16 segundos para a Astana. Grande contra-relógio da EF Education First, antes do problema da água, que ficou a sete segundos, com a Sunweb a perder cinco. Os ciclistas da Ineos têm 25 segundos para recuperar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.

2ª etapa: Benidorm - Calpe (199,6 quilómetros)



E depois de 13,4 quilómetros com muito mais história para contar do que se esperava, a Vuelta começa com o seu habitual perfil: a subir. São duas segundas categorias e uma terceira e muito mais sobe e desce. Há ainda que ter atenção ao vento, que poderá criar problemas na fase inicial da etapa.

Miguel Ángel López tem na Vuelta uma corrida mais ao seu estilo, com menos contra-relógio. Ao ganhar o primeiro resolveu parte do seu handicap, mas ao ganhar tempo a especialistas como Primoz Roglic, a confiança ganhou uma dose extra. Ainda assim, não será surpresa se a Astana até ceder a liderança. É uma Vuelta com muita montanha para ter de controlar desde o primeiro instante, mas a decisão dependerá muito de quem entrar na fuga. E se há grande voltas em que as fugas muito triunfam, é na de Espanha.

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3 de julho de 2019

Sprints sem figuras de peso

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Por um lado, há um reforço da sensação que terminou uma era com a ausência de Mark Cavendish e Marcel Kittel da Volta a França. Por outro, também não vai Fernando Gaviria e Nacer Bouhanni, o primeiro uma das grandes figuras actual e para os próximos anos no sprint, o segundo alguém que ameaça ser um desperdício de talento. A estes nomes junta-se John Degenkolb. Não é só o fim de uma era, é mesmo um Tour sem um lote importante de sprinters.

Para Mark Cavendish é um enorme desgosto. O próprio não o esconde, considerando que estava em forma para fazer mais um Tour, o 13º. Porém, tem tido épocas demasiado inconstantes devido ao vírus Epstein-Barr. Este ano seria mais um a tentar regressar ao mais alto nível, mas o britânico não convence. Preparou a temporada para tentar aparecer no Tour, como no ano passado. Mas na Dimension Data optou-se por Giacomo Nizzolo, um estreante, e Edvald Boasson Hagen. Não terá sido uma decisão consensual, pois segundo a Press Association, citada pela Cycling Weekly, o director de performance, Rolf Aldag, queria Cavendish na grande volta, mas Doug Ryder, o director da equipa, decidiu excluir o britânico.

Desde 2007, quando se estreou no Tour, que Cavendish nunca tinha falhado um Tour. Aos 34 anos, está a quatro vitórias de igualar o recorde de vitórias de etapas de Eddy Merckx, mas agora sim, começa a parecer que o objectivo de carreira que lhe resta não irá ser alcançado.

O homem que fez Cavendish perceber que não era imbatível, como próprio britânico já afirmou, está num período sabático. Marcel Kittel rescindiu contrato em Maio com a Katusha-Alpecin para tentar recuperar a vontade de estar novamente a competir ao mais alto nível. Estreou-se em 2012 e só falhou em 2015 quando estava a recuperar de um problema de saúde. Soma 14 vitórias de etapa. O que vai ser da carreira de Kittel ainda se está por perceber, apesar de não faltarem interessados, a começar pela Jumbo-Visma. Porém, por agora, é altura de se dedicar à sua recuperação psicológica e também à paternidade. O ciclista anunciou há umas semanas que a sua mulher está grávida.

Quanto a Fernando Gaviria, é uma lesão no joelho que o afasta do Tour. Aos 24 anos tem tudo para ser um dos grandes nomes do sprint mundial e marcar ele uma era. Seria a sua segunda Volta a França. Na estreia, em 2018, somou logo duas vitórias de etapa e vestiu a camisola amarela por um dia. Abandonou o Giro devido ao problema no joelho e agora falha o Tour, para desilusão da UAE Team Emirates. Já Alexander Kristoff não se deverá importar muito. Será o líder nos sprints, não esquecendo que há um ano conquistou a desejada etapa dos Campos Elísios.

De Nacer Bouhanni só se pode esperar que ainda não seja um caso perdido. Aos 28 anos está a passar ao lado de uma grande carreira. Pelo segundo ano consecutivo fica de fora do Tour por opção dos responsáveis da Cofidis, tendo já falhado outro por uma lesão na mão, por ter dado um murro a um homem num hotel, que estaria a fazer barulho. Está mais do que visto que só há um caminho a seguir para Bouhanni: sair da Cofidis. Christophe Laporte será novamente a aposta da equipa francesa.

John Degenkolb (30 anos) também fica de fora por opção, com a Trek-Segafredo a preferir rodear Richie Porte de ciclistas para o apoiar na luta pela geral. Há um ano Degenkolb venceu na etapa de Roubaix. Foi um triunfo emotivo. Não só porque já tinha ganho o Paris-Roubaix, mas porque há muito que não sabia o que era uma grande vitória. Porém, não se concretizou a esperança que aquele triunfo seria o tónico para Degenkolb recuperar a sua melhor versão. O alemão nunca mais foi o mesmo depois do atropelamento durante o estágio, ainda como ciclista da Giant-Alpecin (actual Sunweb), em 2016. Fala-se que poderá estar a caminho da Lotto Soudal, para uma nova tentativa de reavivar a carreira.

Há outro francês ausente por opção da equipa, com a Groupama-FDJ a apostar tudo em Thibaut Pinot para a geral, deixando de fora Arnaud Démare (27 anos).

São ausências de vulto, mas não significa que não haverá espectáculo nos sprints, até porque há novos nomes a ganhar força. Além dos referidos Kristoff e Laporte, Dylan Groenewegen (26 anos, Jumbo-Visma) está, como Gaviria, a afirmar-se como um dos grandes sprinters. Soma três vitórias no Tour, incluindo nos Campos Elísios. Elia Viviani (30 anos, Deceuninck-QuickStep) não está a ter temporada ao nível de 2018, mas já confirmou que é mesmo sprinter para ganhar aos melhores e está com uma fome enorme de vitórias! Será apenas a sua segunda participação no Tour e se ganhar, fará o pleno em grandes voltas.

Sem Tom Dumoulin, Michael Matthews tem responsabilidade acrescida na Sunweb, mas há que ter em conta um outro nome: Cees Bol. Jovem talento holandês de 23 anos, que este ano começou a ganhar (já são duas) e é um ciclista a manter debaixo de olho. Matthews e Bol foram recompensados esta quarta-feira com uma extensão de contrato até 2021. Outro jovem a ter em conta é Jasper Philipsen, mas estará "tapado" por Alexander Kristoff na UAE Team Emirates. Será um Tour de aprendizagem para o belga de 21 anos.

Caleb Ewan encontrou na Lotto Soudal a equipa que o serve na perfeição, venceu duas etapas no Giro e quer agora mostrar-se no grande palco do Tour na sua estreia. Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida) é sempre um ciclista a ter em conta, tal como Matteo Trentin, ainda que o corredor da Mitchelton-Scott não é o chamado sprinter puro, como os restantes ciclistas aqui referidos. Mas vai querer estar na luta.

Um nome da velha guarda é André Greipel. Está completamente em quebra e a mudança para a Arkéa Samsic não foi nada positiva. Aos 36 anos, o melhor do alemão já passou, mas fica a curiosidade de ver se haverá um último fôlego deste excelente sprinter que tem 11 vitórias de etapa na Volta a França.

Do lado oposto está Rick Zabel. Ciclista com qualidade, jovem (25 anos), mas até agora algo na sombra de líderes para quem tinha de trabalhar. Chegou o momento de se mostrar e comprovar que não tem só apelido famoso, mas também tem o que é necessário para singrar ao mais alto nível no sprint.

E depois há um Peter Sagan, aquele que quer tirar o recorde do pai de Rick. Tal como Eric Zabel tem seis camisolas verdes (dos pontos). O eslovaco está irreconhecível em 2019. Desiludiu nas clássicas e só a espaços se vai vendo um pouco do poderoso ciclista que se sabe que é. A ver vamos se é no Tour que dá a volta a uma fase menos boa na carreira. Michael Matthews é um dos seus rivais à camisola verde, tendo-a conquistado há dois anos, quando Sagan foi expulso do Tour.

A Volta a França começa em Bruxelas no sábado e com uma primeira camisola amarela à espera de um sprinter ficar com ela.


13 de maio de 2019

Dia para limpar a imagem e com a acção a ficar guardada para o fim

(Fotografia: Giro d'Italia)
Emoção, indecisão até final, ataque e contra-ataque... A terceira etapa da Volta a Itália não teve nada disso. Foi um daqueles longos dias, com 220 quilómetros que, apesar de não serem totalmente planos, não entusiasmaram quase ninguém a sequer ir para uma fuga. Tivemos então algo que pouco se vê numa grande volta, um ciclista solitário, pelas estradas italianas a aproveitar para dar visibilidade aos patrocinadores e a limpar um pouco a imagem da equipa e de um compatriota. Mas até a etapa mais aborrecida pode, de repente, tornar-se num pesadelo. Que o diga Tao Geoghegan Hart e Richard Caparaz. E claro, Elia Viviani. O italiano até ganhou, mas acabou desclassificado. Basicamente, nos últimos dez quilómetros aconteceu mais do que nos 210 anteriores.

Mas falemos de Sho Hatsuyama. Nome provavelmente desconhecido, ainda que se esteja perante um campeão japonês (2016). Não é uma nação que tenha chamado muito a atenção das grandes equipas, com Fumiyuki Beppu a ser o maior destaque, pois desde 2010 que está no World Tour, a maioria das épocas passadas na Trek-Segafredo. Hatsuyama está a aproveitar a oportunidade na Nippo Vini Fantini Faizanè, um projecto que une Itália ao Japão e que este ano regressou ao Giro.

Hatsuyama e Hiroki Nishimura foram os nipónicos eleitos para a grande volta. Um momento importante nas suas carreiras. O primeiro tem 30 anos, o segundo 24. Nishimura teve uma estreia para esquecer. Terminou o contra-relógio inaugural fora do tempo limite. Fez oito quilómetros no Giro e foi excluído. A equipa explicou que Nishimura tinha dormido mal, dada a ansiedade e nervosismo por ir participar numa corrida tão importante. Não foi a melhor das imagens que deixou.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Mas, dois dias depois, a Nippo Vini Fantini Faizanè quis mostrar-se de outra forma e mostrar como os ciclistas japoneses escolhidos podem cumprir com o desejado: entrar em fugas e procurar ganhar uma etapa. Nesta segunda-feira ninguém acreditaria que, completamente sozinho, Hatsuyama iria ganhar outra coisa senão tempo de antena. Lá se deixou ficar na frente e chegou a ter uns seis minutos. Pelo menos garantiu que a equipa e ele próprio fosse falados um pouco por todo o mundo, onde chega esta corrida.

Com 75 quilómetros para o final terminou a aventura solitária e a ver vamos se não vai ainda pagar caro o esforço. Cortou a meta a mais de três minutos de Gaviria, mas o seu trabalho do dia ficou feito, tal como uma pequena redenção em nome de um compatriota que, do maior momento da sua carreira, passou em oito quilómetros para a tristeza de ser excluído logo no primeiro dia do Giro.

A acção final

Depois de tantos quilómetros em que o pelotão foi quase em ritmo de passeio, com a aproximação a Orbetello, as equipas começaram a preocupar-se com a questão do vento. Era um perigo para o qual estavam todas avisadas, pois os "abanicos" poderiam tornar-se uma realidade e um problema. Não aconteceram, mas uma queda a cerca de cinco quilómetros acabou por provocar muito nervosismo. Na frente, um sprint complicado, com muitos pretendentes. Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe) tentou impor-se novamente, mas desta feita esteve bem "marcado" pelos rivais. Elia Viviani (Deceuninck-QuickStep) - que disse que no domingo sofreu um problema nas mudanças que o impediu de sprintar em condições -, não deixou o alemão escapar e acabou por ser o mais forte, com Fernando Gaviria (UAE Team Emirates) e Arnaud Démare (Groupama-FDJ) ali bem perto.

Viviani bem chamou a atenção para a camisola que veste, de campeão nacional (agora com as cores em posição vertical, ou seja, como é de facto a bandeira italiana), mas os sorrisos duraram apenas uns minutos. Um jovem Matteo Moschetti (Trek-Segafredo) tentou intrometer-se entre os grandes do sprint. Sem querer, foi decisivo. Viviani desviou a trajectória, obrigando Moschetti a parar de pedalar. O campeão italiano foi desclassificado.

"Para mim, ele ganhou. O Elia sempre faz sprints correctos e não fez nada de mal hoje. Se virem a repetição, podem ver que não o faz de propósito. Não olhou para trás. Estava a tentar apenas fazer o seu sprint", disse Gaviria, a quem foi atribuída a vitória, que lhe valeu também a subida à liderança da classificação dos pontos. De propósito ou não, Viviani continua a zero num Giro em que prometeu fazer algo de especial.

4ª etapa: Orbetello - Frascati, 223 quilómetros



Talvez o possa fazer já esta terça-feira, mas não será surpresa se Viviani tiver de esperar pela quinta etapa. Apesar de não haver dificuldades de maior, além de uma quarta categoria na fase inicial, o problema para os sprinters são os últimos 2,5 quilómetros a subir. A pendente média é de 4,5%, mas a máxima chega aos sete, o que não será fácil para alguns dos ciclistas com características de sprinters. Caleb Ewan (Lotto Soudal) tem sido aquele que em 2019 já demonstrou não se intimidar nem um bocadinho com este tipo de finais. Ganhou assim em Hatta Dam, na Volta aos Emirados Árabes Unidos, por exemplo.

Primoz Roglic e a Jumbo-Visma terão de estar atentos para manter a camisola rosa, não vá alguém tentar recuperar alguns dos segundos perdidos no contra-relógio de Bolonha.

Desilusão de Hart e Carapaz

Estes são dois ciclistas que podem pensar em recuperar tempo nas pequenas oportunidades que forem surgindo. Tao Geoghegan Hart ficou retido na queda a cinco quilómetros e mesmo com quase toda a Ineos ao seu lado, a fazer um autêntico contra-relógio colectivo, perdeu 1:28 minutos e saiu do top dez. Pavel Sivakov ficou na frente e é agora o melhor da Ineos, a 1:01 de Roglic.


Já Richard Carapaz estará ainda mais frustrado. Depois de no contra-relógio ter ficado à frente de Mikel Landa, posição que o poderia colocar como líder da equipa mais à frente no Giro, o equatoriano teve de trocar de bicicleta a nove quilómetros da meta. Não conseguiu encostar no pelotão, ainda mais depois da queda que deixou tantos ciclistas para trás. Carapaz perdeu 46 segundos e está a 1:33 na geral. Landa tem 1:07 para recuperar. A Movistar está novamente com problemas numa grande volta.

Amaro Antunes (CCC) também perdeu os mesmos 46 segundos de Carapaz e são 2:15 para Roglic. Começa a ganhar espaço para se meter numa fuga quando o seu terreno favorito chegar.

Classificações completas, via ProCyclingStats.




»»Aquela vitória que afasta o fantasma Bennett de Ackermann««

»»Roglic avassalador já está de rosa««

15 de março de 2019

Viviani e Gaviria, aquela particular rivalidade

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Há um ano esperava-se que estivesse a nascer uma intensa rivalidade entre Fernando Gaviria e Marcel Kittel, a estrela em rápida ascensão e o considerado um dos melhores do mundo. Dois dos mais poderosos sprinters em acção. Desilusão completa devido ao "apagão" que o alemão sofreu. Essa rivalidade devia-se ao facto de na época anterior terem sido companheiros de equipa. 12 meses volvidos e eis que temos situação idêntica, mas com um novo interveniente. Agora é Viviani vs Gaviria e eis um frente-a-frente que está a prometer cada vez mais. E quem diria?!

Quando no final de 2017 Elia Viviani quebrou contrato com a Sky para agarrar o lugar que Kittel ia deixar vago na então Quick-Step Floors, a aposta da equipa belga parecia ser de uma segunda opção, atrás de Gaviria, sem que o escolhido se importasse de estar em segundo lugar na hierarquia no sprint. Kittel escolheu mudar-se para a Katusha-Alpecin precisamente porque não queria entrar numa luta interna com o colombiano, a pensar na presença na Volta a França. Kittel não estava disposto a abdicar do seu estatuto e ficou-se sem saber se de facto estaria em risco logo em 2018, depois de um sensacional 2017.

Gaviria também tinha estado brilhante nessa temporada - ambos somaram 14 vitórias cada um - e tinha (e tem) a idade do lado dele. A forma como ganha e as vezes que o faz, até dá para esquecer que tem apenas 24 anos, enquanto Kittel já chegou aos 30. Em 2018 deu-se então a separação e pareciam estar reunidas as condições para que assistisse a uma rivalidade muito especial, faltando saber se a Katusha-Alpecin conseguiria formar um comboio tão forte como a da Quick-Step Floors. Não conseguiu e Kittel ainda menos conseguiu estar perto do seu nível habitual.

Apesar de uma temporada com altos e baixos devido a quedas, Gaviria foi um homem quase sem rival quando estava bem. Por seu lado, Viviani até pode ter começado na equipa belga escondido na sombra de um Gaviria que, por direito próprio, centrou os holofotes nele no que aos sprints diz respeito. No entanto, o italiano foi roubando um pouco da ribalta. E também por direito muito próprio. Acabou a temporada como o ciclista com mais vitórias, 17, mais a geral no Dubai, umas quantas camisolas dos pontos e um contra-relógio colectivo. Gaviria "ficou-se" pelas nove, mais a desejada camisola amarela na primeira vez que competiu no Tour. Perdeu-a logo no dia seguinte, mas foi um momento muito importante. Venceu mais uma etapa. Viviani conquistou quatro no Giro e a classificação dos pontos.

Por mais que Viviani sonhasse com o Tour, sabia bem qual seria o seu lugar na equipa. Gaviria era o número um nas corridas que escolhesse e assim estava previsto continuar. Contudo, a proposta da UAE Team Emirates foi irresistível e o director Patrick Lefevere deixou sair o seu ciclista, mesmo tendo conseguido encontrar uma empresa que garantisse uma almofada financeira para segurar o colombiano, que ainda tinha um ano de contrato.

A agora Deceuninck-QuickStep nem hesitou e deu o papel principal nos sprints a Viviani, um ciclista que sempre foi um sprinter de respeito, mas nunca se tinha previsto que pudesse ser tão poderoso. Ganha aos melhores porque ele próprio é um dos melhores. Faz toda a diferença estar numa equipa que aposta no seu ciclista, o que não acontecia na Sky. Na formação britânica ficava tantas vezes sozinho na procura de vitórias. O potencial estava lá, a equipa belga conseguiu que este fosse aproveitado por completo.

Viviani completou 30 anos em Fevereiro, Gaviria fará 25 em Agosto. Duas gerações, uma rivalidade que há duas temporadas nunca se imaginaria. Nem na época passada se imaginaria. Viviani soma quatro vitórias em 2019, Gaviria três, mas no frente-a-frente directo está 2-1 para o italiano, com o desempate a ser feito esta sexta-feira na terceira etapa do Tirreno-Adriatico.

O sprint foi tão confuso que só Peter Sagan tinha alguém da Bora-Hansgrohe a ajudá-lo no metros finais. Mas Viviani fez-se valer de uma longa experiência de ter de se "safar" sozinho entre os caóticos sprints e também de tudo o que aprendeu na pista. Gaviria ainda chegou a ter Simone Consonni - cada vez mais o seu braço direito -, mas acabou a agarrar-se à roda de Viviani, enquanto este estava na de Sagan.

Como um bom sprinter não é só força, Viviani mostrou muita inteligência. Bateu Sagan na força - o eslovaco está a recuperar a forma depois de sofrer de problemas de saúde e terá ficado satisfeito com o segundo lugar - e bateu Gaviria na boa colocação. Ao sair da roda de Sagan, Viviani, sabendo onde estava Gaviria, manteve-se bem perto do rival eslovaco, forçando o colombiano a ter de abrir mais para tentar ter espaço para acelerar. Esse desvio de trajectória seria demasiado. Gaviria ficou fechado e nem teve espaço para bater Sagan. O outro frente-a-frente entre o italiano e o colombiano tinha sido nos Emirados Árabos Unidos, com cada um a vencer uma etapa e, nestes casos, com o rival a ficar em segundo.

Viviani tem a vantagem de ter um comboio mais do que oleado. O da UAE Team Emirates está em formação. Porém, ambos sabem aproveitar bem o trabalho de terceiros. Ambos conhecem-se perfeitamente. Os pontos fortes, os pontos fracos, a mentalidade... Aqui, a diferença é como Viviani é mais frio e prático, enquanto Gaviria é mais emocional, o que às vezes é uma desvantagem quando algo lhe corre mal. Viviani recupera melhor de maus momentos. Milano-Sanremo, Volta a Itália, Volta a França são corridas que estão no calendário dos dois sprinters que, mesmo com a diferença de idades, estão a equiparar-se. Se assim continuarem, é espectáculo garantido no sprint.

Numa altura em que André Greipel (36 anos) e Mark Cavendish (33) entraram na fase descendente da carreira, em que Marcel Kittel tenta recuperar uma versão que o torne novamente competitivo, com Erik Zabel a treiná-lo, Gaviria e Viviani podem ser as figuras de uma rivalidade em particular. Porque no geral, além de Peter Sagan ou Arnaud Démare, por exemplo, há toda uma geração preparada para se intrometer entre os nomes já mais consagrados: Álvaro Hodeg e Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep), Caleb Ewan (Lotto Soudal), Jasper Philipsen (UAE Team Emirates), Matteo Moschetti (Trek-Segafredo)... E sim, Sam Bennett. Tal como Viviani um sprinter a alcançar o seu potencial um pouco mais tarde, comparativamente com um Gaviria, por exemplo. O irlandês venceu pela segunda vez no Paris-Nice, quarta vitória em 2019. Foi excluído do Giro pela Bora-Hansgrohe, está em final de contrato e muito receptivo a propostas.

Uma coisa é certa, nesta Deuceninck-QuickStep, seja que nome tenha, seja que ciclistas façam parte do plantel, mantém uma competitividade impressionante. Sai um ganhador, há sempre outro mais do que pronto para somar triunfos. Não há quebras com as mudanças. São poucas as equipas com esse tipo de capacidade, quando perdem uma referência.




3 de fevereiro de 2019

Gaviria pode trazer muito mais do que vitórias à UAE Team Emirates

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Primeira corrida, duas etapas ganhas. Fernando Gaviria não quis perder tempo em começar a somar vitórias, mesmo que a sua forma ainda esteja bem longe do melhor. Mas como nesta fase estão quase todos assim, Gaviria conseguiu ser superior em duas ocasiões. Claro que é preciso esperar mais uns meses para dizer que a aposta foi completamente ganha. Mas que as perspectivas são boas, isso são. O sprinter foi contratado para aumentar o número de vitórias e a qualidade destas. Contudo, poderá trazer algo que esta formação bem precisa: saber trabalhar em equipa.

Podia não ter o plantel mais poderoso, mas a então Lampre-Merida tinha bons ciclistas, com vários a transitaram para a actual UAE Team Emirates. No entanto, se há algo que tem funcionado mal e muitas vezes não funciona de todo, é o colectivo. Rui Costa foi o exemplo disso quando chegou à estrutura para ser líder. Contou inicialmente com Nelson Oliveira, mas quando o compatriota mudou-se para a Movistar, ficou muito só. Mas o mal afectou outros ciclistas com responsabilidade de garantir resultados. As vitórias foram chegando, mas não as desejadas para colocar a equipa no topo, como é a ambição.

A chegada de Fabio Aru e Daniel Martin trouxe maior notoriedade ao renovado projecto, mas o italiano teve um ano para esquecer, enquanto o irlandês custou a pegar, mas ganhar uma etapa Tour foi um objectivo cumprido. No entanto, ambos foram líderes algo solitários. Alexander Kristoff também cumpriu ao somar vitórias (cinco, incluindo nos Campos Elísios), mas o seu comboio não foi nada de meter respeito. Muitas vezes aproveitou o comboio de adversários.

Agora chegou o momento desta mentalidade mudar. A UAE Team Emirates não se pode dar ao luxo de ver a sua equipa unida apenas nos maus momentos, como aconteceu com Aru no Giro, quando quebrou. Os egos de cada um têm de se unir em prol de quem foe o líder. E a influência de Gaviria poderá mudar isso mesmo. É um ciclista que motiva qualquer companheiro e será necessário controlar mais as corridas, preparar sprints, pois só assim haverá garantias que o colombiano estará na disputa dos grandes sprints.

Este tipo de trabalho pede união. Pede sacrifício em prol de outro. Se este espírito se enraizar finalmente na equipa, então haverão a ganhar além de Gaviria. A equipa quer colocar Fabio Aru pelo menos no pódio da Volta a Itália. Primeiro será preciso o italiano estar no seu melhor, algo que nem sequer esteve próximo de acontecer em 2018. Mas se assim for, então com um melhor apoio, talvez Aru possa demonstrar aquela forma de 2015, ou mesmo a de 2017, quando vestiu de amarelo no Tour.

A aposta milionária em Gaviria - ainda tinha um ano de contrato com a Quick-Step Floors e foi preciso abrir os cordões à bolsa para o atrair - tem tudo para ser muito rentável em todos os aspectos para tornar a UAE Team Emirates numa equipa que funciona como tal. Assim, então poderá de facto atingir rapidamente o objectivo de ser uma das melhores.

Para começar, na Volta a San Juan, na Argentina, Gaviria ficou com duas etapas. Segue agora para o seu país, para a Volta à Colômbia, e depois irá até à casa da sua equipa, para a estreia da nova corrida World Tour, a Volta aos Emirados Árabes Unidos. Dois dos objectivos desta primeira fase da temporada serão a Milano-Sanremo, com o Paris-Roubaix a entrar nos seus planos. No ano passado a fase do pavé foi madrasta para Gaviria. Depois será altura de começar a pensar no Tour.

Uma das questões da equipa para 2019, é que papel terá Kristoff. Se tiver de ser, será um gregário de luxo, mas não é isso que quer. Mas lá está, é preciso união para garantir uma equipa forte e se antes já não era fácil lidar com egos, quantas mais estrelas, maior a possibilidade de ganhar, mas também mais trabalho haverá em manter todos motivados e satisfeitos com os seus papéis.

»»A época ainda agora começou e Hodeg já recebeu um novo contrato««


30 de dezembro de 2018

Quando ganhar é completamente natural

Alaphilippe foi um dos ciclistas que muito contribuiu para a sensacional
época da equipa belga (Fotografia: Facebook Quick-Step Floors)
Resumir a época da Quick-Step Floors até se consegue fazer numa só palavra: ganhar! Será mais justo repeti-la: ganhar, ganhar, ganhar! A histórica equipa belga está habituada a ser das que mais vence, ou mesmo a que mais vence. Mais de 50 vitórias, não é nada de anormal, nem chegar às 60, mas 73? Número impressionante (um recorde da formação) ainda mais se se tiver em conta que entre elas estão monumentos, vitórias de etapas em grandes voltas e nem entra outros grande resultados que foram o pódio de Enric Mas na Vuelta, ou a camisola da montanha no Tour de Julian Alaphilippe.

Patrick Lefevere tem construído ano após ano equipas com um espírito de luta e união que se traduz em vitórias, divididas por vários dos seus ciclistas. Em 2018 foram 14 em 28 que compunham o plantel (acresce dois estagiários a partir de Agosto). Pode haver um ou outro que se destaque mais, mas há espaço para todos irem atrás do seu momento. Não foi há muito tempo que Lefevere via a Quick-Step Floors ter dificuldades em ganhar nas clássicas da casa. Uma pequena crise mais do que resolvida nas últimas duas épocas.

2018 foi simplesmente memorável: Volta a Flandres (Niki Terpstra) e Liège-Bastogne-Liège (Bob Jungels), cinco etapas do Giro, quatro no Tour e outras tantas na Vuelta. Mas há mais: E3 Harelbeke, Através da Flandres, Flèche Wallonne (que enorme exibição de Julian Alaphilippe para quebrar a senda de Alejandro Valverde), Clássica de San Sebastian, uma etapa no Critérium du Dauphiné, duas na Volta à Catalunha e no País Basco, três na Volta à Califórnia... Recorrendo ao ProCyclingStats, aqui fica o link para a lista de vitórias deste ano em que ganhar pareceu ser algo absolutamente natural para os ciclistas de azul.

E talvez esta naturalidade tenha uma base de que todos terão a sua oportunidade, tal como todos terão de ajudar outros, quando assim se impõe. É de salientar isso mesmo, que corredores como Alaphilippe, Bob Jungels e o capitão Philippe Gilbert são líderes natos que são também os primeiros a trabalharem para os companheiros. Esta capacidade e respeito pela entre-ajuda faz com que além das principais figuras, possam surgir as potenciais figuras do futuro. Álvaro Hodeg e Fabio Jakobsen são a prova disso. Quando lhes foi dada liberdade, estes dois jovens não só tiveram a ajuda dos colegas mais experientes, como aproveitaram para vencer.

A comprovar como esta equipa consegue tirar o melhor de todos os ciclistas há Elia Viviani. Quebrou contrato com a Sky, onde era um sprinter solitário, que lá ia conquistando umas vitórias, para assinar por uma equipa que fez dele o homem mais ganhador da temporada entre as formações do World Tour. Foram 19, mais nove do que em 2017, que até tinha sido a sua melhor época. A diferença esteve ainda na qualidade dos triunfos: quatro etapas no Giro e três na Vuelta como maior destaque, além do título nacional, por exemplo.

Ranking: 1º (13.385,97 pontos)
Vitórias: 73 (incluindo Volta a Flandres, Liège-Bastogne-Liège, cinco etapas no Giro, quatro no Tour e Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Elia Viviani (19)

Chegou para ocupar a vaga deixada por um Marcel Kittel que não queria competir por espaço com Fernando Gaviria. Viviani parecia ser uma segunda opção possível, mas foi uma de primeira categoria. De tal forma, que com a saída do colombiano, Viviani irá assumir o papel principal nos sprints e já pisca o olho ao Tour.

Gaviria teve uma temporada de altos e baixos. A aposta nas clássicas correu francamente mal, muito devido a quedas. Porém, no principal objectivo, a Volta a França, Gaviria confirmou tudo o que era esperado. Vestiu de amarelo logo a abrir e na sua estreia no Tour. Foram duas etapas ganhas antes de um abandono na fase montanhosa da corrida. Questão a melhorar se quiser ir discutir o mais famoso dos sprints, nos Campos Elísios. Kittel tinha ganho cinco em 2017, mas para quem foi pela primeira vez ao Tour, Gaviria confirmou que quer e pode ser o sprinter de referência desta grande volta nos próximos anos.

Falta saber se na UAE Team Emirates irá encontrar o comboio de qualidade que tinha na Quick-Step Floors. Custa acreditar que uma equipa que ganha o que ganha tenha dificuldades em garantir a sua estabilidade financeira. Sem um patrocinador principal para 2019 - a Quick-Step mantém-se, mas com um investimento menor - Lefevere viu-se obrigado a abrir mão de alguns dos seus ciclistas para aliviar o gasto com os ordenados, precavendo a eventualidade de ter um orçamento menor para o próximo ano.

Não renovou com Terpstra e permitiu que Gaviria ouvi-se propostas, ainda que tivesse  contrato com a Quick-Step Floors. Apesar de ter aparecido a Deceuninck, Lefevere percebeu que o dinheiro da UAE Team Emirates tinha dado a volta à cabeça de Gaviria. Deixou o seu sprinter sair e agora irá ver-se se o colombiano consegue quebrar o famoso enguiço do ciclista que sai da Quick-Step Floors e não mais consegue atingir o nível que tinha quando ali estava.

Max Schachmann (Bora-Hansgrohe), Laurens de Plus (Jumbo-Visma) e Jhonathan Narváez (Sky) também seguem novos rumos nas carreiras. Contudo, perante o historial desta estrutura, é difícil dizer que a Quick-Step Floors fica mais fraca, mesmo que tenha perdido Gaviria. A capacidade de se auto-renovar é incrível e o que mais se espera é ver como Hodeg, Jakobsen, Kasper Asgreen e Rémi Cavagna possam aparecer anda mais. E claro, ficaram Alaphilippe, Jungels, Stybar, Gilbert, Enric Mas...

O espanhol acaba por ser uma das questões que se coloca para 2019. Depois da tremenda exibição na Vuelta - vitória numa etapa e segundo na geral -, será que Lefevere aumentará a sua aposta nas grandes voltas, pensando também mais numa eventual vitória ou em mais pódios? Esta é uma equipa cuja génese se prende às clássicas e etapas. Jungels é outro voltista, mas dá mais indicações de ser um top dez, do que homem de discutir essas corridas, pelo menos para já.

Contudo, Enric Mas deixou indicações bem diferentes, de que pode ir mais longe e o seu discurso não engana. Vai atrás de ganhar e até já pensa em conquistar o Tour, onde estará em 2019, época que começará na Volta ao Algarve. Vai entrar no seu último ano de contrato, pelo que o director terá uma decisão a tomar, ainda que não se adivinhe ser fácil ficar com Mas tendo em conta o interesse que despertou.

Já Alaphilippe, apesar do Tour a todos os níveis impressionante - duas etapas e foi o rei da montanha -, o francês quer continuar a ser um ciclista para vencer corridas de uma semana, apostar tudo e mais alguma coisa nas Ardenas e depois ir até ao Tour fazer mais uns brilharetes. Tem 26 anos e não está afastada a hipótese de ainda se tornar num voltista, mas não para já.

Quase parece mal não falar de mais ciclistas que se mostraram em 2018 e contribuíram para o memorável ano, mas a época da Quick-Step Floors daria um livro de muitas páginas. De texto e de bonitas fotografias! Uma delas seria a da última equipa a vencer o contra-relógio colectivo nos Mundiais, vertente que o presidente da UCI decidiu terminar.

Termina-se com uma das contratações que vai receber muita atenção. O "miúdo maravilha" da Bélgica só podia assinar por esta equipa. Remco Evenepoel dá o salto de júnior directamente para o profissionalismo, depois de vencer quase todas as corridas em que participou em 2018. Títulos nacionais, europeus, mundiais, foi tudo dele. A exibição na corrida de estrada, em que fez uma recuperação incrível até chegar à frente da corrida e vencer, deu logo a entender que Evenepoel não ia ficar longe dos holofotes do World Tour.

A diferença de realidades é muita, pelo que 2019 será um ano de adaptação para Evenepoel. Não será ciclista para clássicas do pavé, querendo tornar-se num voltista. É quase inevitável colocá-lo no topo da lista de ciclistas jovens a seguir em 2019. Para já, o belga é apenas um dos dois reforços da equipa que se chamará Deceuninck-Quick Step.


Permanências: Philippe Gilbert, Julian Alaphilippe, Bob Jungels, Elia Viviani, Yves Lampaert, Enric Mas, Zdenek Stybar, Kasper Asgreen, Eros Capecchi, Rémi Cavagna, Tim Declercq, Dries Devenyns, Álvaro Hodeg, Fabio Jakobsen, James Knox, Iljo Keisse, Davide Martinelli, Michael Morkov, Fabio Sabatini, Maximiliano Richeze, Pieter Serry, Florian Sénéchal e Petr Vakoc.

Contratações: Remco Evenepoel e Mikel Frolich Honoré (Virtu Cycling).

»»A Sky de grandes vitórias, da revelação do ano e da polémica««

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1 de novembro de 2018

Alexander Kristoff, o preterido

(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Na Katusha tornou-se num ciclista com dois monumentos no currículo, mais duas etapas na Volta a França, além de muitos outros bons triunfos. 2014 e 2015 foram anos fenomenais para Alexander Kristoff. No entanto, quando não conseguiu manter o nível tão elevado, a equipa foi buscar Marcel Kittel. O norueguês considerou que ainda não estava na altura de se tornar num homem de trabalho e encontrou na UAE Team Emirates o espaço para continuar a ser líder. Pode não ter sido uma época brilhante, mas cinco das 12 vitórias da formação árabe são dele, uma delas no sprint mais desejado do ano: nos Campos Elísios, na derradeira etapa da Volta a França. A UAE Team Emirates quer mais. Muito mais. E assim, continua a abrir os cordões à bolsa e convenceu Fernando Gaviria a quebrar contrato com a Quick-Step Floors. Kristoff foi novamente preterido e vê-se forçado a pensar no que quer para o seu futuro próximo.

Tem 31 anos e acredita que pode continuar a ser um líder, ainda que vá enfrentando a possibilidade de ser afastado desse estatuto. A contratação de Gaviria apanhou-o de surpresa, mas, acima de tudo, Kristoff quer ser profissional, mesmo que isso signifique ter de trabalhar para o colombiano. "Há sempre novos ciclistas fortes, por isso, às vezes, tens de te afastar e passar a ser um homem de trabalho nos sprints. Não tenho certeza se estou preparado para isso, mas se a equipa me mandar ao Tour, gostaria de fazer o melhor possível. Não melhoras o teu valor de mercado se fizeres um mau trabalho", salientou Kristoff, ao site Procycling.no.

A equipa esteve recentemente reunida no Dubai, num encontro que serviu para os novos ciclistas se ambientarem à equipa. Fernando Gaviria foi, naturalmente, o destaque, não esquecendo que a UAE Team Emirates irá contar com os gémeos Oliveira nas próximas duas temporadas. Ainda não foi o momento para começar a definir as épocas de cada um dos corredores, pelo que Kristoff terá de aguardar por Dezembro, quando se realizar o estágio. "Há normalmente dois programas, o segundo inclui o Giro e a Vuelta, mas não o Tour. Vamos ver o que a equipa quer", explicou.

O norueguês referiu que a Volta a França é o principal objectivo da equipa, mas com apenas oito lugares disponíveis e com Gaviria a ter o Tour no topo da sua lista, Kristoff vai-se preparando para enfrentar o inevitável: "Não sei se alguém na equipa poderá ajudar mais o Gaviria do que eu, mas eu prefiro correr tendo as minhas oportunidades."

Kristoff recordou como a iminente chegada de Kittel à Katusha fez com que tentasse procurar uma solução para não ficar na sombra do alemão, ele que saiu da Quick-Step Floors com receio de ser ofuscado por Gaviria. O norueguês teve um 2017 muito complicado, chegando ao ponto de ser acusado de estar com peso a mais. O título europeu foi um ponto alto, mas não só é uma corrida longe de ser vista como um grande triunfo, como contou com um pelotão no qual não estiveram presentes quase nenhum dos principais sprinters. Aquele segundo lugar nos Mundiais teve tanto de honroso, como de frustrante. É difícil não pensar como teria sido se Kristoff tivesse vestido a camisola do arco-íris. De "ses" não se fazem os factos e ganhar a Prudential RideLondon-Surrey e a Eschborn-Frankfurt, não foi suficiente para convencer uma Katusha que queria muito mais. Tal como acontece agora com a UAE Team Emirates.

Kristoff rendeu bem mais e melhor do que Kittel este ano. Porém, Gaviria é o grande sprinter do momento. Ao norueguês talvez fique a possibilidade de liderar na Volta a Flandres (que venceu em 2015) e Paris-Roubaix, já que a experiência de Gaviria este ano no pavê não foi particularmente feliz. Na Milano-Sanremo - que Kristoff ganhou em 2014 - deverá ser o colombiano o preferido.

Ao contrário do que aconteceu na Katusha, Kristoff não pensa em sair da UAE Team Emirates, até admite continuar além de 2019, quando termina o seu actual contrato. "Gosto de estar aqui e sinto que a equipa está a evoluir na direcção certa", disse, admitindo que irá, contudo, analisar eventuais propostas que receba. "De momento, só me resta competir o melhor possível para ter mais poder negocial", realçou.

Kristoff não está disposto em desistir de ter mais algumas temporadas com destaque dentro de uma equipa, mas também já vai percebendo que o espaço é cada vez menor. Aos 24 anos, Gaviria é a figura do momento do sprint mundial, mas a UAE Team Emirates reforçou-se com outros jovens a pensar precisamente no sprint e nas clássicas que Kristoff mais gosta. Rui Oliveira (22 anos) tem demonstrado as suas características de sprinter, com Ivo a também saber bem o que fazer. A equipa foi buscar outro colombiano, Juan Sebastián Molano (23) que segue a escola colombiana de Gaviria nos sprints. Estava na Manzana Postobón. O belga Jasper Philipsen (20) - colega dos gémeos na Hagens Berman Axeon - é mais um corredor que pode ser incluído num sprint, ainda que as clássicas sejam o seu ponto forte.

A sucessão de Kristoff está em marcha, um ciclista que nunca foi aquele sprinter que se olhasse como dos mais rápidos, como um Marcel Kittel ou Mark Cavendish, sendo um mais poderoso, como um Peter Sagan, por exemplo, transformando essa força em grande vitórias. É essa virtude que lhe vale 71 vitórias. Contudo, o momento que conseguiu evitar há um ano, chega agora. O seu discurso é de um verdadeiro profissional, mas há que demonstrá-lo na estrada, lidando com todas as emoções de quem se vê preterido pelo segundo ano consecutivo.

»»Rui Costa com futuro finalmente definido««

»»Gémeos Oliveira já têm equipa no World Tour««

24 de outubro de 2018

Gaviria está de saída da Quick-Step Floors. Lefevere não esconde: "A sua partida dói"

Patrick Lefevere é um homem resignado e desiludido com uma realidade que não consegue combater. Apesar de ter encontrado um patrocinador que lhe deu garantias financeiras - a empresa de fabrico de janelas Deceuninck - o director desportivo não conseguiu segurar uma das suas grandes estrelas de agora e com potencial para ser um dos melhores sprinters do mundo durante muitas temporadas. O dinheiro terá falado demasiado alto para Fernando Gaviria resistir à tentação de deixar a equipa que o trouxe para o World Tour e ajudou a fazer dele o fortíssimo sprinter que é com apenas 24 anos. O colombiano vai quebrar contrato com a formação belga para assinar pela UAE Team Emirates.

Quando tomou conta da estrutura da Lampre-Merida, a UAE Team Emirates tinha um dos orçamentos mais baixos do World Tour, mas em poucos meses o panorama mudou, com a chegada de mais investimento de outros patrocinadores de grande poderio financeiro, como a companhia aérea Fly Emirates, por exemplo. Agora o dinheiro não é um problema e está a permitir seduzir cada vez mais nomes fortes do pelotão internacional. Depois de Daniel Martin, Fabio Aru e Alexander Kristoff - contratados para a temporada de 2018 -, Fernando Gaviria irá tornar-se na grande contratação da equipa árabe para 2019, com a diferença que o colombiano não era um ciclista em final de contrato.

"A sua partida dói", desabafa Patrick Lefevere. "A realidade económica ensina-te que não deves reagir de uma maneira emocional, mas de uma forma sóbria", afirmou o director desportivo da Quick-Step Floors ao site holandês WielerFlits. Com a Quick-Step a não querer continuar como patrocinador principal, Lefevere teve de procurar uma solução para assegurar que a equipa conseguiria manter uma estabilidade financeira que permitisse ter grandes ciclistas. Não estava fácil encontrar uma solução e além de não conseguir segurar alguns corredores em final de contrato, o responsável permitiu que ciclistas como Fernando Gaviria ouvissem outras propostas, mesmo tendo contrato para 2019.

O futuro da Quick-Step Floors não esteve em causa para a próxima temporada, mas se não aparecesse um patrocinador, o orçamento iria ser reduzido, pelo que seria necessário deixar sair alguns dos atletas com maior peso financeiro, além da possibilidade de receber uma compensação caso uma equipa contrate um ciclista ainda com contrato, com tem acontecido. "Eu tinha o pior cenário na minha cabeça. Por isso, permiti que o seu empresário falasse com outras equipas discretamente. Porém, logo se ouviram quantidades [de dinheiro] que não podia oferecer. Quando um ciclista ouve esses números, o símbolos do dinheiro começa a brilhar nos seus olhos e você sabe que chegou ao fim [a continuidade na equipa]", disse Lefevere.

A UAE Team Emirates confirmou já durante esta noite a contratação, depois de Lefevere tê-lo feito ao Cycling News, justificando que não queria manter ninguém na equipa "contra a sua [do ciclista] vontade", explicando novamente como permitiu que alguns ciclistas ouvissem propostas, mesmo tendo contrato para 2019.

A chegada da Deceuninck parecia que era a resposta para segurar estes ciclistas com contrato para 2019, depois de Lefevere não ter capacidade negocial para renovar com Niki Terpstra (vencedor de um Paris-Roubaix e Volta a Flandres), Laurens De Plus e Max Schachmann. Porém, a realidade está a ser bem diferente. Apesar do reforço financeiro, não foi possível lutar contra o poderio de uma Sky e UAE Team Emirates. Há poucos dias foi anunciada a saída de um jovem talento equatoriano, para as corridas por etapas, Jhonatan Nárvaez, para a Sky, ele que também tinha vínculo por mais uma época. Agora deverá então ser Gaviria a deixar a equipa para a UAE Team Emirates de Rui Costa e que será também dos gémeos Oliveira em 2019.

Com esta saída, cresce a curiosidade como irá Lefevere substituir Gaviria. Apostará na prata da casa, ou irá contratar alguém? Quando Marcel Kittel quis sair no final da temporada passada, para não ter de discutir com Gaviria o lugar de sprinter no Tour, o director belga foi buscar Elia Viviani (29 anos) à Sky. O italiano gerou alguma desconfiança, mas na Quick-Step Floors "desatou" a vencer como nunca. As 18 vitórias fizerem dele o ciclista mais ganhador de 2018. Gaviria tem metade, tendo como ponto alto as duas etapas do Tour e a camisola amarela que envergou na primeira etapa, naquela que foi a sua estreia nesta grande volta. A época do colombiano acabou algo marcada por quedas, estando neste momento a recuperar de uma clavícula partida na Volta à Turquia.

As únicas contratações até ao momento são do prodígio júnior belga Remco Evenepoel (18 anos), que ganhou em 2018 quase todas as corridas em que participou (incluindo os títulos europeus e mundiais de contra-relógio e estrada, no seu escalão) e do dinamarquês Mikkel Frolich Honoré (21), que está na equipa do seu país Waoo, do escalão Continental. É um sprinter.

Esta temporada a equipa revelou mais dois talentos de 22 anos: o colombiano Álvaro Hodeg somou cinco vitórias e o holandês Fabio Jakobsen sete. Na próxima época poder-se-ão abrir as portas de corridas bem mais importantes para os dois jovens.

Sprinter que sai da equipa belga tem passado por dificuldades

Sair da Quick-Step Floors tem significado para vários ciclistas deixar de ter um rendimento tão triunfante como tinham na equipa belga. Não se vai fazer um prenúncio catastrófico para Gaviria, mas os exemplos recentes não são animadores para um sprinter que deixe a estrutura de Lefevere. Inevitavelmente Marcel Kittel surge à cabeça, até por ser o mais recente. Em 2016 somou 12 vitórias e no ano seguinte 14, incluindo cinco etapas no Tour. Saiu para a Katusha-Alpecin e ganhou duas vezes.

Também no final da temporada passada Matteo Trentin optou por sair, para procurar mais espaço. Em seis anos de Quick-Step Floors somou 17 triunfos, sete dos quais em 2017, com destaque para as quatro etapas na Vuelta. Não é um sprinter puro como Kittel ou Gaviria, mas sabe bem como se faz. Este ano somou dois triunfos na Mitchelton-Scott, sendo o actual campeão europeu de estrada.

Temos depois Mark Cavendish. Nos três anos na equipa belga somou 44 vitórias: 19 em 2013, 11 em 2014 e 14 em 2015. Mudou-se para a Dimension Data e começou bem: 10 vitórias, com quatro etapas no Tour. Nos dois anos seguintes, um triunfo em cada, em temporadas marcadas por quedas e o diagnóstico de uma mononucleose.

No rescaldo da temporada mais vitoriosa da história da equipa de Lefevere (73), o responsável terá de repensar mais uma vez o plantel com a saída de uma estrela. Nada de novo para este muito experiente director, que em 2015 não hesitou em trazer o jovem colombiano para a equipa depois de o ver bater Mark Cavendish em duas etapas no Tour de San Luis, na Argentina. Gaviria estagiou, ficou e rapidamente se tornou num líder. Mas a sua carreira na Quick-Step Floors será bem mais curta do que o esperado.

NOTA: A UAE Team Emirates confirmou entretanto a contratação e o texto foi alterado com essa informação.

»»Patrocinador encontrado. Quick-Step já tem novo nome para 2019 e dinheiro para segurar os ciclistas««

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