2 de novembro de 2018

Froome admite que caso do salbutamol prejudicou a sua preparação para o Tour

(Fotografia: Team Sky)
Terminada a temporada, é altura de libertar um pouco da pressão que um líder de uma das melhores equipas do mundo tem de saber gerir. E nada melhor do que contar alguns pormenores que tinham de ser mantidos longe do conhecimento público durante a época. Neste caso são os dois líderes da Sky a admitirem os momentos difíceis de uma época intensa. Primeiro foi Geraint Thomas a falar sobre a frustração ao perceber que a equipa não o estava a proteger na Volta a França, como fazia a Chris Froome, mesmo quando o galês era o melhor da Sky. Agora foi Froome que falou sobre como toda a polémica do salbutamol o afectou, principalmente na preparação para o Tour.

O ciclista dá todo o mérito da vitória a Thomas, mas não esconde que tudo o que foi aparecendo nas notícias lhe roubou muita da atenção que queria colocar nos treinos, não se podendo esquecer como a ASO, que organiza o Tour, anunciou que não iria permitir a inscrição de Froome, até que dias antes a UCI encerrou o caso, decidindo a favor do britânico. "Para ser sincero, foi definitivamente uma distracção para mim e na minha preparação para a Volta a França. Quando tens algo assim a decorrer nos bastidores, há um desgaste de energia e prejudica a atenção quando se é suposto estar a pensar na preparação e em recuperar", confessou Froome ao VeloNews.

O vencedor de seis grandes voltas reconhece que foi "muito, muito difícil" lidar com a situação, principalmente quando colocou em causa a sua "credibilidade como um desportista limpo". Realçou como tal é muito importante para ele. Quando foi ilibado, Froome ficou livre de ir ao Tour para procurar a sua quinta vitória, o que lhe teria valido a entrada no grupo de recordista de triunfos na corrida. "Fiquei muito grato por ir ao Tour e da decisão ter sido feita antes da corrida começar. Pelo menos, por esse lado, eu pude colocar um ponto final e correr com maior tranquilidade."

Foram meses de incerteza e suspeições, com o ciclista e a equipa a não pouparem esforços na defesa. Froome acusou o dobro do permitido da substância utilizada por asmáticos, mas sempre disse que não tinha tomado mais do que as regras estipulam. "Sinto que vivo de acordo com os meus princípios e ter tudo posto em causa devido a algo como o salbutamol, foi frustrante. Muitas pessoas não perceberam o que estava a acontecer", explicou, garantindo que, apesar da frustração que sentiu, não irá parar.

Mesmo com toda a suspeição e algumas críticas de outros ciclistas, que defenderam que Froome não deveria estar a competir enquanto decorria o processo, o britânico foi a Itália ganhar o Giro, completando assim o ciclo de vitórias nas três grandes voltas. No Tour, caiu na primeira etapa, mas, mais relevante, Froome nunca conseguiu demonstrar nas montanhas o nível de outras corridas, enquanto Geraint Thomas esteve exímio. Ainda assim, Froome conseguiu subir ao último lugar do pódio.

Thomas revelou recentemente que, ao contrário do que esperava, a Sky protegeu apenas Froome e chegou mesmo a avisá-lo que se tivesse algum problema no contra-relógio colectivo, ninguém esperaria por ele. Contou também que Froome alertou-o por duas vezes que iria atacar nas etapas.

Chris Froome esteve na apresentação do Giro, não afastando a possibilidade de defender o título em 2019, algo que poderá não ter sido mais do que um discurso politicamente correcto, pois, aos 33 anos, e estando ganhas as três grandes voltas, o britânico irá regressar ao plano inicial de carreira: vencer cinco Tours e juntar-se a Eddy Merckx, Bernard Hinault, Jacques Anquetil e Miguel Indurain. E claro, se conseguir, irá tentar o sexto e assim ser o recordista.

Independentemente do calendário, para Froome, o mais importante é que irá preparar 2019 sem ter de pensar na defesa do caso do salbutamol. Para já, está em Medellín, Colômbia, para participar no "El Giro de Rigo", corrida de Rigoberto Uran, ciclista da EF Education-First-Drapac p/b Cannondale, mas que foi companheiro de Froome na Sky entre 2011 e 2013.

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1 de novembro de 2018

Alexander Kristoff, o preterido

(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Na Katusha tornou-se num ciclista com dois monumentos no currículo, mais duas etapas na Volta a França, além de muitos outros bons triunfos. 2014 e 2015 foram anos fenomenais para Alexander Kristoff. No entanto, quando não conseguiu manter o nível tão elevado, a equipa foi buscar Marcel Kittel. O norueguês considerou que ainda não estava na altura de se tornar num homem de trabalho e encontrou na UAE Team Emirates o espaço para continuar a ser líder. Pode não ter sido uma época brilhante, mas cinco das 12 vitórias da formação árabe são dele, uma delas no sprint mais desejado do ano: nos Campos Elísios, na derradeira etapa da Volta a França. A UAE Team Emirates quer mais. Muito mais. E assim, continua a abrir os cordões à bolsa e convenceu Fernando Gaviria a quebrar contrato com a Quick-Step Floors. Kristoff foi novamente preterido e vê-se forçado a pensar no que quer para o seu futuro próximo.

Tem 31 anos e acredita que pode continuar a ser um líder, ainda que vá enfrentando a possibilidade de ser afastado desse estatuto. A contratação de Gaviria apanhou-o de surpresa, mas, acima de tudo, Kristoff quer ser profissional, mesmo que isso signifique ter de trabalhar para o colombiano. "Há sempre novos ciclistas fortes, por isso, às vezes, tens de te afastar e passar a ser um homem de trabalho nos sprints. Não tenho certeza se estou preparado para isso, mas se a equipa me mandar ao Tour, gostaria de fazer o melhor possível. Não melhoras o teu valor de mercado se fizeres um mau trabalho", salientou Kristoff, ao site Procycling.no.

A equipa esteve recentemente reunida no Dubai, num encontro que serviu para os novos ciclistas se ambientarem à equipa. Fernando Gaviria foi, naturalmente, o destaque, não esquecendo que a UAE Team Emirates irá contar com os gémeos Oliveira nas próximas duas temporadas. Ainda não foi o momento para começar a definir as épocas de cada um dos corredores, pelo que Kristoff terá de aguardar por Dezembro, quando se realizar o estágio. "Há normalmente dois programas, o segundo inclui o Giro e a Vuelta, mas não o Tour. Vamos ver o que a equipa quer", explicou.

O norueguês referiu que a Volta a França é o principal objectivo da equipa, mas com apenas oito lugares disponíveis e com Gaviria a ter o Tour no topo da sua lista, Kristoff vai-se preparando para enfrentar o inevitável: "Não sei se alguém na equipa poderá ajudar mais o Gaviria do que eu, mas eu prefiro correr tendo as minhas oportunidades."

Kristoff recordou como a iminente chegada de Kittel à Katusha fez com que tentasse procurar uma solução para não ficar na sombra do alemão, ele que saiu da Quick-Step Floors com receio de ser ofuscado por Gaviria. O norueguês teve um 2017 muito complicado, chegando ao ponto de ser acusado de estar com peso a mais. O título europeu foi um ponto alto, mas não só é uma corrida longe de ser vista como um grande triunfo, como contou com um pelotão no qual não estiveram presentes quase nenhum dos principais sprinters. Aquele segundo lugar nos Mundiais teve tanto de honroso, como de frustrante. É difícil não pensar como teria sido se Kristoff tivesse vestido a camisola do arco-íris. De "ses" não se fazem os factos e ganhar a Prudential RideLondon-Surrey e a Eschborn-Frankfurt, não foi suficiente para convencer uma Katusha que queria muito mais. Tal como acontece agora com a UAE Team Emirates.

Kristoff rendeu bem mais e melhor do que Kittel este ano. Porém, Gaviria é o grande sprinter do momento. Ao norueguês talvez fique a possibilidade de liderar na Volta a Flandres (que venceu em 2015) e Paris-Roubaix, já que a experiência de Gaviria este ano no pavê não foi particularmente feliz. Na Milano-Sanremo - que Kristoff ganhou em 2014 - deverá ser o colombiano o preferido.

Ao contrário do que aconteceu na Katusha, Kristoff não pensa em sair da UAE Team Emirates, até admite continuar além de 2019, quando termina o seu actual contrato. "Gosto de estar aqui e sinto que a equipa está a evoluir na direcção certa", disse, admitindo que irá, contudo, analisar eventuais propostas que receba. "De momento, só me resta competir o melhor possível para ter mais poder negocial", realçou.

Kristoff não está disposto em desistir de ter mais algumas temporadas com destaque dentro de uma equipa, mas também já vai percebendo que o espaço é cada vez menor. Aos 24 anos, Gaviria é a figura do momento do sprint mundial, mas a UAE Team Emirates reforçou-se com outros jovens a pensar precisamente no sprint e nas clássicas que Kristoff mais gosta. Rui Oliveira (22 anos) tem demonstrado as suas características de sprinter, com Ivo a também saber bem o que fazer. A equipa foi buscar outro colombiano, Juan Sebastián Molano (23) que segue a escola colombiana de Gaviria nos sprints. Estava na Manzana Postobón. O belga Jasper Philipsen (20) - colega dos gémeos na Hagens Berman Axeon - é mais um corredor que pode ser incluído num sprint, ainda que as clássicas sejam o seu ponto forte.

A sucessão de Kristoff está em marcha, um ciclista que nunca foi aquele sprinter que se olhasse como dos mais rápidos, como um Marcel Kittel ou Mark Cavendish, sendo um mais poderoso, como um Peter Sagan, por exemplo, transformando essa força em grande vitórias. É essa virtude que lhe vale 71 vitórias. Contudo, o momento que conseguiu evitar há um ano, chega agora. O seu discurso é de um verdadeiro profissional, mas há que demonstrá-lo na estrada, lidando com todas as emoções de quem se vê preterido pelo segundo ano consecutivo.

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