1 de setembro de 2018

As apostas de Contador para a Vuelta

(Fotografia: © Eurosport)
Há um ano, Alberto Contador dizia adeus ao ciclismo nas ruas de Madrid, deixando uma última marca com uma estrondosa vitória no Angliru. Este ano, o ritmo é outro e o próprio estranhou ter ido à praia e relaxado um pouco antes de começar uma grande volta. Não esconde que mexe com ele estar a ver de fora uma corrida que tanto gosta, mas agora assumiu o papel de comentador e deixou as suas apostas para uma Volta a Espanha que neste domingo terá uma das etapas mais esperadas. La Covatilla deverá iniciar a selecção de quem irá estar na luta pela geral.

Começando precisamente pela camisola mais ambicionada, a vermelha. Quem é o favorito a vencer a Vuelta para Contador? "Eu diria o Nairo Quintana. É um ciclista que já sabe o que é ganhar uma grande volta e acho que se preparou muito bem", respondeu em declarações ao Eurosport, canal no qual faz comentários no seu país, mas na Vuelta tem feito curtas análises que são transmitidas noutros países, incluindo Portugal. Se se confirmar a aposta do antigo ciclista, será a segunda vitória do colombiano na Vuelta. Conquistou-a em 2016, dois anos depois de ganhar o Giro.

Mas há que falar de espanhóis e Contador realça dois: "O Alejandro Valverde [Movistar] é um ciclista que pode fazer grandes coisas e tenho a certeza que ele vai dar muita luta. À medida que a corrida evoluir, se ele cometer algum erro, pode vir a ficar sob as ordens da equipa e ter de ajudar o Nairo Quintana. O David de La Cruz [Sky] está especialmente motivado e já sabe o que é ganhar uma etapa, mesmo que partilhe liderança com um companheiro de equipa."

Valverde já venceu duas etapas, lidera a classificação dos pontos e o prémio combinado e está apenas a 37 segundos de Rudy Molard (Groupama-FDJ), sendo um forte candidato a vestir a vermelha já este domingo. Quanto a De la Cruz, perdeu algum tempo no contra-relógio e não escondeu a sua desilusão, tendo deixado escapar mais alguns segundos noutros dias. Contudo, parece estar a melhorar à medida que os dias passam. Tem Michal Kwiatkowski como outra possível aposta dentro da Sky. Foi dos poucos que preparou a temporada a pensar na Vuelta. Está neste momento a 1:34 minutos de Molard.

Para Contador, Valverde é ainda o favorito para ganhar a classificação dos pontos. "Acho que o [Peter] Sagan não vai terminar a Vuelta", disse, referindo-se ao ciclista que no Tour não dá hipóteses nesta luta particular. Na montanha, a aposta vai para Omar Fraile. O espanhola da Astana tem estado discreto, mas terá etapas mais ao seu jeito nas próximas duas semanas. Para já, não soma qualquer ponto, mas essa disputa vai agora começar mais a sério, com Luis Ángel Maté (Cofidis) a controlar até agora, mas os 42 pontos não são garantia de nada nesta fase.

Entre as etapas, Alberto Contador destacou a 15ª (9 de Setembro, domingo): "A etapa de Covadonga é sempre importante e volta a ser decisiva ano após ano. É um ponto de grande importância e geralmente muito difícil de atingir sozinho. É uma das etapas que terá maior influência nos desenvolvimentos da corrida e da classificação geral. Tudo dependerá de como os ciclistas cheguem lá e, acima de tudo, se antes não tiverem problemas mecânicos ou físicos." Claro que a penúltima tirada também não podia ficar de fora do comentário. Serão apenas 97,3 quilómetros sempre a subir e descer, com a meta numa categoria especial. "Faz-te pensar noutras etapas do Tour ou mesmo da Vuelta, como a etapa de Formigal, que também é curta, mas muito dura. Tenho a certeza de que vamos assistir a uma etapa muito bonita", realçou.

Convidado a colocar-se no papel de director da Volta a Espanha, Contador disse que "talvez procurasse ter etapas de montanha mais longas, não sempre tão curtas e explosivas". Porém, gosta do percurso da edição de 2018. "Acho que está muito bem para esta altura do ano." Referiu ainda como nesta corrida não há dias de descanso, o que talvez o levasse a reduzir um pouco as chegadas em alto. "Noutras edições da Vuelta tivemos onze etapas."

Para terminar, como está afinal Contador a viver uma Vuelta como ex-ciclista? "Não sei como é que os fãs imaginam, mas para mim é algo estranho porque antes do início da corrida pude ir de ferias e estar na praia. Vejo a Vuelta com alguma nostalgia porque não estou a competir numa corrida na qual sempre me senti muito bem. Desfrutei de cada momento e a memória do ano passado é inesquecível. Tive a sorte de viver isso. É algo que me vai acompanhar para o resto da vida. Agora já não compito a nível profissional. Posso dizer que é algo complicado de lidar, uma vez que sou uma pessoa muito competitiva e vivi sempre para a bicicleta, mas acho que tomei a decisão certa."

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Movistar prepara ataque à liderança. Mas com quem?

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Nem sequer estava a pensar em ganhar a etapa. Alejandro Valverde só queria estar bem colocado e evitar perder tempo, no dia que antecedeu o primeiro que irá demonstrar quem está de facto na luta pela camisola vermelha. Pelo rádio, recebeu instruções para que tentasse a segunda vitória de etapa. O staff que tinha chegado mais cedo à meta tinha explicado ao director desportivo que o final era mais difícil do que o esperado e ao jeito do espanhol. E lá foi Valverde. Nem Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) lhe fez frente - foi outra vez segundo -, vendo o veterano ciclista ultrapassá-lo para vencer com autoridade. Duas vitórias de etapa na primeira semana para Valverde e com Nairo Quintana a evitar problemas de maior, a Movistar tem os seus dois líderes preparados para atacar a liderança.

Valverde bonificou 10 segundos e ficou a 37 de Rudy Molard. Quintana está a 1:14, mas a etapa de La Covatilla está marcada na sua agenda desde que foi anunciado que ia à Vuelta. É ao seu jeito e nem o próprio esconde que terá um importante teste pela frente, que tem "de passar com boa nota", como afirmou à rádio COPE. Mas por Espanha olha-se para Valverde. Afinal, é algo natural querer que um "ciclista da casa" vença a corrida. Porém, o Bala, como é conhecido, não se compromete com nada, apenas com um simples "vamos ver". "Amanhã [domingo] se verá o que poderá acontecer no resto da Vuelta. O Nairo encontra-se muito bem e um ou outro - oxalá estejamos os dois - vamos tentar estar ali [na disputa pela vitória]. A partir da Covatilla vamos começar a ver se nos centramos exclusivamente no Nairo ou se sigo por ali", salientou Valverde. E depois de duas vitórias de etapas, o ciclista de 38 anos acrescentou: "Tensão... nenhuma. Estou muito, muito tranquilo."

Esta postura do ciclista da Movistar deixa os espanhóis ainda mais entusiasmados. Valverde mostra-se calmo, confiante e está claramente em boa forma. Questionado porque não estava assim no Tour, Valverde respondeu que a diferença "é a cabeça, que está mais relaxada". É na Vuelta que se sente melhor. Até o actual líder, o francês Rudy Molard (Groupama-FDJ) aposta no espanhol para que na Covatilla apareça novamente ao seu melhor e lhe tire a camisola vermelha. Ainda assim, ficou o aviso de quem está a viver um momento que não esperava: "Vou tentar defendê-la."

Valverde assegurou que a equipa vai trabalhar tanto para ele, como para Quintana. Um tem um instinto matador que poucos se podem gabar no pelotão, o outro é um dos melhores trepadores, mas tem se deixado apagar com uma atitude defensiva, que o levaram a tornar-se num ciclista que se acreditava que venceria várias grandes voltas, em um que se desconfia que possa estar no topo quando a concorrência é forte.

A Covatilla vai colocar os homens da geral no seu lugar. É proibido falhar. A Movistar parte como favorita para ocupar a posição esperada de liderança, perante o forte bloco que tem, mas Simon Yates (Mitchelton-Scott) tem deixado indicações que está ao nível das duas primeiras semanas do Giro, durante as quais foi líder e de longe, o mais forte. Ion Izagirre (Bahrain-Merida) terá a oportunidade de dizer aos espanhóis que não precisam de olhar apenas para Valverde, ainda que a admiração por Bala vá além de querer uma vitória espanhola na Vuelta. Valverde é o ídolo máximo no país, sozinho, agora que Alberto Contador saiu de cena.

Emanuel Buchmann está a ter uma oportunidade de ouro de mostrar à Bora-Hansgrohe que podem contar com ele para as três semanas. Está a 48 segundos de Molard, Yates a 51 e Izagirre a 1:11 minutos. Tony Gallopin (AG2R) disse que queria lutar pela geral depois de vencer uma etapa. São 59 segundos para o compatriota e vamos perceber se está mais forte na alta montanha, que não era a sua especialidade.

O lote de candidatos a menos de dois minutos é grande, mas há um que foi dos azarados dos últimos dias e está a 2:50 minutos. Wilco Kelderman (Sunweb) tem de começar a recuperar tempo se quer chegar pelo menos ao pódio. A Vuelta ainda é longa e com muita montanha, mas há que não desperdiçar dias como o deste domingo.

Nona etapa: Talavera de la Reina - La Covatilla, 200,8 quilómetros


A segunda tirada mais longa da Vuelta tem uma primeira categoria para começar, seguida de uma terceira, uma segunda, depois muito sobe e desce até que o pelotão, provavelmente já algo reduzido nesta fase, chegará aos 9,8 quilómetros finais. La Covatilla (imagem em baixo) fica na província de Salamanca e a pendente média de 7,1% não é mais elevada porque a fase final passa de 11% para terminar abaixo dos 2%. Durante a subida também haverá umas curtas zonas de descanso. A pendente máxima será de 12%, sensivelmente ao segundo quilómetro.



Mas vamos recuar à primeira categoria: Puerto del Pico. É mais extensa, 15,3 quilómetros, mas menos dura, 5,5% de pendente média. No entanto, tem um quilómetro e meio final muito interessante, a 10% e 15%. É nestes momentos que se pensa em Contador e como seria ciclista para tentar um ataque de longe. Talvez sendo ainda tão cedo na Vuelta, mesmo El Pistolero tivesse mais calma, afinal é uma etapa muito longa e mesmo que na segunda-feira seja possível descansar, dificilmente se verão loucuras. Mas na La Covatilla espera-se muita acção.

Relativamente à classificação, tudo na mesma depois da oitava etapa entre Linares e Almadén (195,1 quilómetros). O único destaque foi para o reforço da liderança de Valverde nos pontos e no combinado. Molard (geral), Luis Ángel Maté (montanha) e Astana (equipas) lideraram antes de um dos dias mais esperados na Vuelta.

Entre os portugueses, Tiago Machado esteve na fuga do dia, mas apesar de ter sido aquele mais mais insistiu quando o pelotão se aproximava, o prémio da combatividade foi para um dos companheiros espanhóis de ocasião, Jorge Cubero (Burgos-BH).

O ciclista da Katusha-Alpecin foi apanhado a cerca de cinco quilómetros da meta e imediatamente desligou-se da corrida e iniciou a sua recuperação. Chegou a 6:44 minutos de Valverde. José Mendes (Burgos-BH) perdeu 1:38 minutos, Nelson Oliveira 1:53 - este domingo será um dia de muito trabalho na ajuda a Quintana e Valverde -, enquanto José Gonçalves ficou a 5:25.

Pode ver aqui as classificações completas.

A oitava etapa ficou ainda marcada pelo primeiro abandono. O companheiro de Gonçalves e Machado, o holandês Maurits Lammertink nem partiu devido a dores abdominais que o estavam a afectar há uns dias. A equipa até tentou brincar um pouco com a situação, garantindo que não foi devido ao bolo de aniversário. Lammertink celebrou na sexta-feira 28 anos. Desde 1996 que não se via nas grandes voltas um primeiro abandono acontecer tão tarde.

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