26 de agosto de 2018

Lições logo ao segundo dia

(Fotografia: La Vuelta)
A primeira lição é a que Alejandro Valverde deu a Michal Kwiatkowski. Quem sabe, sabe e Valverde tem a escola toda. Aquele final de etapa teve tanto de boa condição física, como de inteligência. O polaco não se intimidou perante o espanhol, mas na última curva viu Valverde passá-lo, deixando-o a olhar para as suas costas. Soube escolher a melhor trajectória e jogar com o vento, deixando o Kwiatkowski mais exposto. Antes assumiu a perseguição a um Laurens de Plus (Quick-Step Floors) sem que sacrificar forças que poderia precisar no sprint. E são 120 vitórias na carreira para o espanhol que, aos 38 anos, tem as pernas de um ciclista no seu auge, beneficiando da mentalidade de quem tem muitos anos de ciclismo.

Recentemente, após os testes médicos na Juventus, foi revelado que Cristiano Ronaldo tem o corpo de um jovem de 23 anos. Menos dez da sua idade real. Seria interessante saber o caso de Valverde... Claro que por Espanha é aguardado com expectativa se esta forma inicial poderá significar que o ciclista vai atrás da sua segunda Vuelta. Venceu em 2009, com esta a ser a sua 10º vitória de etapa. Nairo Quintana pode não ser um líder tão indiscutível como queria na Movistar, apesar de só ter perdido três segundos para o duo da frente, mas são 33 para o novo líder: Kwiatkowski.

Dois segundos lugares podem um pouco frustrantes, mas o polaco já está com a camisola vermelha. Melhor motivação seria impossível para quem pode na Vuelta mostrar que a Sky pode contar com ele como líder para três semanas. Mas se há lição que todos conhecem na modalidade, é que começar bem, ou mesmo muito bem, não é sinónimo de glória no final. Na geral, Valverde está a 14 segundos e Wilco Kelderman (Sunweb) a 25.

Segunda lição do dia: Richie Porte e Vincenzo Nibali não fizeram bluff.

Só foram precisos duas etapas para perceber que Richie Porte não estava a fazer bluff. Era apontado como um dos favoritos, com as casas de aposta até o colocaram como principal candidato. O australiano bem disse que não estava bem e que esperava ir melhorando durante a Vuelta para aparecer mais forte na terceira semana, com os Mundiais em mente, não a geral em Espanha. O ciclista da BMC perdeu só neste domingo 13:31 minutos. Já são mais de 14 para o líder. Porte estava a falar muito a sério sobre a sua condição física, mas não significa que não se o veja pelo menos a lutar por etapas.

Não está tão mal como Porte - que ainda sofreu uma gastroenterite antes do arranque da corrida -, mas Vincenzo Nibali também não fez bluff quando disse que não se sentia a 100% para discutir a Vuelta. Perdeu 4:04 minutos. De recordar que ambos sofreram quedas que os obrigaram a abandonar o Tour.

Adam Yates desiludiu na Volta a França e é mais um ciclista que veio à Vuelta para tentar algo melhor na derradeira corrida de três semanas, para a qual nem estava inicialmente escalado. Está com o irmão e não ficam dúvidas que é Simon o único líder. Adam cortou a meta com Richie Porte e pensará em etapas e em ser o braço-direito do irmão.

E o que dizer de Ilnur Zakarin... Este corredor russo não consegue manter-se afastado de azares. Caiu e o joelho e ombro não ficaram nada bem tratados. A Katusha-Alpecin anunciou que o seu líder foi transportado para o hospital no final da etapa, mas os raios-X não mostraram fracturas. Zakarin aguentou como pôde, mas perdeu 1:01 minutos. A equipa teve pelo menos uma razão para sorrir, mas na Alemanha, com Nils Politt a vencer a última etapa da prova germânica, conquistada por Matej Mohoric (Bahrain-Merida).

Porém, numa altura em que Marcel Kittel vai ser sujeito a exames médicos para tentar perceber porque não consegue estar a um bom nível, ter Zakarin limitado na Vuelta, será mais uma desilusão em 2018 para a equipa. Ainda mais quando há um ano o ciclista fez pódio na Vuelta e parecia estar finalmente preparado para voos mais altos. José Gonçalves, que no Giro foi 14º, está em Espanha com objectivos diferentes. Perdeu 1:18 minutos no contra-relógio e hoje foram mais 6:31, pelo que não será um plano B, mas deverá ter liberdade para entrar em fugas e procurar algum triunfo que a equipa bem precisa.

Quanto aos restantes portugueses, José Mendes (Burgos-BH) terminou no grupo de Richie Porte, enquanto Tiago Machado (Katusha-Alpecin) e Nelson Oliveira (Movistar) estiveram no trabalho para os líderes, cortando a meta juntos a 3:13 minutos.

Lição final para quem talvez conheça menos a Vuelta: esta grande volta é muito diferente do Giro e Tour. Ao segundo dia teve uma etapa que sem dificuldades extremas, deixou muita gente "sufocada" principalmente nos últimos quilómetros. Eram uma segunda categoria e três de terceira, com chegada em alto. O calor teve a sua influência, ainda mais com um constante sobe e desce. A etapa foi tão complicada para alguns ciclistas que Julien Duval (AG2R) e Lars Boom (Lotto-Jumbo) ficaram dentro do tempo limite para terminar a etapa por apenas quatro segundos!

De referir que Rohan Dennis (BMC), o primeiro líder da Vuelta após a vitória no contra-relógio de Málaga, ficou para trás com Porte e não se incomodou nada em perder a camisola vermelha. Kwiatkowski ficou com a liderança na geral e nos pontos, Luis Ángel Maté (Cofidis) aproveitou a fuga para garantir a camisola da montanha, enquanto a Sky é a primeira entre as equipas.

Pode ver aqui as classificações completas, com alguns dos candidatos a ficarem em pequenos cortes nos últimos metros, mas sem que causem grandes dores de cabeça, por enquanto.

Uma primeira categoria numa etapa para sprinters

Se os 163,5 quilómetros entre Marbelha e Caminito del Rey serviram para perceber principalmente que Porte não é candidato e Nibali também só o será com uma grande reviravolta, a etapa de segunda-feira será uma oportunidade para os sprinters. Mas nova lição: nesta Vuelta, os sprinters têm mesmo de ultrapassar bem as montanhas. O dia irá começar com uma primeira categoria!

Termina aos 45 quilómetros dos 178,2 que unem Mijas a Alhaurín de la Torre e pouco depois haverá uma terceira categoria. Tendo em conta que só haverão mais quatro ou cinco oportunidades para este tipo de ciclistas, Sagan, Elia Viviani (Quick-Step Floors) e Nacer Bouhanni (Cofidis) não vão querer desperdiçar, mesmo tendo de começar a etapa a subir. Mas as respectivas equipas bem que terão de trabalhar para anular a fuga e garantir que os seus líderes não ficam demasiado para trás logo no início. Terça-feira haverá chegada em alto de primeira categoria num dia em que os homens da geral serão novamente testados.

Nesta Vuelta não há tempo para ir ganhando ritmo. É preciso começar o melhor possível e conseguir manter o nível alto durante três semanas... numa temporada que já vai longa e com muitos ainda a pensar nos Mundiais e na Lombardia, o último monumento do ano.



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25 de agosto de 2018

Dennis vestiu mais uma camisola de liderança que quase foi de Nelson Oliveira

(Fotografia: La Vuelta)
Lá esteve Nelson Oliveira mais uma vez sentado no "trono" dado a quem tem o tempo mais rápido num contra-relógio. Nada de novo para o ciclista português. Por momentos pensou-se que não só venceria uma etapa na Vuelta - teria sido a sua segunda -, mas seria ainda o primeiro líder da grande volta. Mas Michal Kwiatkowski foi o "desmancha prazer", contudo, os favoritos confirmaram depois as suas credenciais. Rohan Dennis já tinha liderado o Giro, é agora primeiro na Vuelta, algo que já tinha feito em 2017. O australiano também já tem uma camisola amarela do Tour. Kwiatkowski ficou a seis segundos, Victor Campanaerts, campeão europeu da especialidade, ficou a sete e Oliveira acabou em quarto, a 17.

Um excelente início de Volta a Espanha do tetra campeão nacional da especialidade e que há um ano ficou à porta do pódio nos Mundiais. Nelson Oliveira ficou desiludido ao não entrar no grupo de eleitos para o Tour, com o Paris-Roubaix a mais uma vez a estragar-lhe parte da temporada, após uma queda. Esta foi a resposta perfeita de Nelson Oliveira, numa Vuelta em que a Movistar está para ganhar, depois de ter falhado com o tridente Nairo Quintana/Mikel Landa/Alejandro Valverde em França.

Quintana até foi um dos destaques do dia, ficando a 24 segundos de Kwiatkowski, a 12 de Wilco Kelderman (Sunweb) e a menos de dez dos irmãos Izagirre (Bahrain-Merida). E empatou com Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), por exemplo. O colombiano dá um sinal importante, numa corrida em que está sob pressão depois de dois Tours em que não conseguiu estar na luta pela vitória na geral e de ter ficado em segundo no Giro de 2017.

Nos técnicos oito quilómetros de Málaga, que Dennis cumpriu em 9:39 minutos, Richie Porte (BMC) confirmou que não está a 100%. Ainda não recuperou a forma depois da queda na nona etapa do Tour e a gastroenterite que o afectou antes da Vuelta também não ajudou. Considerando Kwiatkowski o primeiro da lista de candidatos, o australiano perdeu 45 segundos. Pior fez Louis Meintjes (Dimension Data), começa logo com um défice de 51 segundos.

Nelson Oliveira não terá aspirações a vestir a camisola vermelha e talvez no contra-relógio da última semana se o possa voltar a ver na luta por uma etapa. Certo, é que pensando nos Mundiais, este é o Oliveira que se quer ver em Innsbruck. Fez uma excelente exibição num contra-relógio que nem sequer o beneficiava. Gosta deles mais longos e com mais dificuldades. O sinal está dado.

Quanto aos restantes portugueses em prova, Tiago Machado foi 87º a 47 segundos de Dennis e o companheiro da Katusha-Alpecin, José Gonçalves, perdeu 1:18 minutos, sendo 170º. José Mendes (Burgos-BH) fez mais 1:04 minutos, ocupando a 134ª posição.

Pode ver aqui as classificações completas.

Quem é o líder da Sky?

Sim, a questão volta-se a colocar. Agora é entre Michal Kwiatkowski e David de la Cruz. O espanhol ficou com o dorsal um da equipa e tem falado como líder. O polaco vem do Tour, mas começou muito forte e tem na Vuelta a oportunidade desejada de mostrar que pode ser o próximo voltista da Sky. Ainda é cedo para se entrar em disputas e especulações, mas a montanha chega rápido nesta corrida e pode ser que não se demore muito a perceber como irá funcionar a formação britânica que pode fazer o pleno de vitórias em grandes voltas neste ano. Seria ainda a quinta vitória consecutiva. A etapa de domingo tem um final que Kwiatkowski até poderá gostar para se afirmar um pouco mais frente ao espanhol.

De la Cruz, que esteve no Giro, mas preparou a época a pensar na Vuelta (um dos poucos a fazê-lo), ficou a 39 segundos do companheiro de equipa. Nada que não se recupere na montanha, mas teria sido importante mostrar-se mais forte logo no início. Talvez por isso, o espanhol não tenha escondido a desilusão no final do dia.

Kwiatkowski é um nome possível para a subida de terceira categoria, mas é o de Alejandro Valverde que mais salta à vista. Tal como Rohan Dennis tinha este contra-relógio com o seu nome escrito para ganhar, este domingo é o espanhol que tem um final ao seu jeito. Será a subir (terceira categoria), ainda que não demasiado íngreme. Quem tem capacidade de explosão neste tipo de subidas, tem esta etapa na mira. Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não pode ser excluído, ele que faz bem este finais, tal como Matteo Trentin (Mitchelton-Scott) ou Tiesj Benoot (Lotto Soudal). A questão de Sagan é se já estará recuperado das mazelas da queda já perto do fim do Tour.

Serão 163,5 quilómetros entre Marbelha e Caminito del Rey, com uma segunda categoria logo a abrir e três terceiras pelo caminho. Poderá haver uma selecção nos últimos quilómetros, mas não entre os candidatos, a não ser que alguém não esteja de facto bem neste início de Vuelta.



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