2 de setembro de 2017

Assim se desce com muita adrenalina os 659 degraus do Santuário de Santa Luzia

(Fotografia: Hugo Silva/Red Bull Content Pool)
659 degraus é um desafio para qualquer um, seja lá como se os for enfrentar. Aquela subida até ao Santuário de Santa Luzia feita de bicicleta de estrada dá uns finais de corrida bem interessantes. Gustavo Veloso ganhou lá uma etapa da Volta a Portugal este ano. Descer os degraus propriamente ditos, é outra história e não se pode dizer que a descer todos os santos ajudam. "A exigência é máxima, pois a proximidade dos degraus e a velocidade não deixam margem para muitos erros." Quem o diz é Marcelo Gutierrez, um colombiano que se apaixonou por aquele local em Viana do Castelo mal o viu e que desde logo começou a imaginar como seria descer os 659 degraus.

Depois de muitos treinos concretizou o desafio em Julho em apenas 1:15 minutos, acompanhado pelo português Francisco Pardal. “A ideia surgiu há dois anos, quando encontrei este incrível percurso durante um simples passeio. Além da vista incrível, fiquei fascinado com todas aquelas escadas e a grande inclinação do terreno. Descobri aqui um novo desafio e durante alguns dias procurei encontrar o ritmo certo para o superar, melhorando os tempos a cada descida", afirmou ao site da Red Bull.

O feito ficou registado num espectacular vídeo que pode ver em baixo.



Em Portugal, não é só em Viana do Castelo que Gutierrez (27 anos) gosta de desafiar os limites. "Na Lousã é muito bom, desde que não esteja demasiado seco. Da última vez que lá estive estava muito seco, por isso, também depende muito do estado do tempo, mas é um óptimo sítio. Arouca é bom e Ponte de Lima é também um óptimo spot. Já estive também em Sintra. Há muitos sítios muito bons em Portugal! É uma loucura! As pessoas são muito simpáticas, arranjam os trilhos. É divertido", afirmou Gutierrez.


(Fotografia: Hugo Silva/Red Bull Content Pool)
Porém, Viana do Castelo será sempre um lugar especial, pois foi uma espécie de amor à primeira vista: "Tem uma vista espectacular! Enquanto subia, reparei naquelas escadas todas e pensei em descer por ali, esperando não me meter em apuros. A partir daí, fui lá todos os dias e, a cada novo dia, descia mais rápido e encontrava novas gaps. Estava com uma bicicleta de Enduro e ela estava a sofrer [risos]!Nnão estava a gostar! Quando passei para a de Downhill, foi super divertido."

E caso alguém esteja a pensar fazer o mesmo que Gutierrez, aqui fica um conselho de um dos principais atletas desta modalidade: "Se tentares ir rápido, boa sorte, verás as consequências. Precisas de encontrar a velocidade certa."

Um pouco de história: da autoria do arquiteto Miguel Ventura Terra, que era natural desta região, o Santuário de Santa Luzia foi inspirado na basílica do Sagrado Coração, em Paris, cidade onde estudou. A obra foi iniciada em 1904 e concluída em 1959.

»»Prepare-se para descer a 167 quilómetros/hora numa bicicleta««

»»Descer assim não é para todos... Mas é para todos verem!««

1 de setembro de 2017

Enquanto os sprinters se queixam, Trentin ganha e Escartín dá ao público o que este mais gosta de ver

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Mark Cavendish e André Greipel são dois dos actuais grandes sprinters que já ganharam etapas na Volta a Espanha, mas há muito que por lá não passam. Tal como vários dos ciclistas com estas características, riscaram a Vuelta dos seus calendários, pois o percurso muito montanhoso, com poucos dias para que possam lutar por uma vitória, não é nada atractivo para quem só sobe se tiver mesmo de ser, ou seja, com a perspectiva de ainda obter um grande triunfo. É simplesmente sacrifício a mais para tão pouca compensação na Vuelta. Porém, enquanto uns criticam o percurso espanhol, outros aproveitam para ficar com um marco na carreira, como está a ser o caso de Matteo Trentin.

O italiano conquistou a sua terceira vitória na Vuelta e logo na edição em que passou a ser o centésimo ciclista a ganhar nas três grandes voltas. Dois destes triunfos foram conquistados precisamente nos dois verdadeiros sprints que esta corrida teve. Talvez o sprinter mais cotado fosse John Degenkolb (Trek-Segafredo), mas que está longe do seu melhor e até já está longe da Vuelta. Trentin aproveitou a sua oportunidade (e de que maneira), numa altura em que se despede da Quick-Step Floors, onde está desde 2011, tendo começado como estagiário.

Trentin é um dos lançadores de confiança de Marcel Kittel, que nem sequer pensa em estar na Vuelta. Para ele já chega sofrer no Tour, a sua grande volta de eleição. A sua e a de praticamente todos os principais sprinters. São muitos os que criticam o facto da Vuelta ter cada vez menos etapas para sprinters. Este ano podem-se considerar quatro e mesmo assim, nem sempre com as condições que homens como Kittel ou Cavendish gostam (tinham umas subidas mais íngremes para os seus gostos). Trentin não é o maior dos especialistas, mas a qualidade está lá e a Orica-Scott deve estar bem satisfeita por já ter garantido o ciclista de 28 anos para 2018. A equipa australiana até o terá contratado a pensar nas clássicas, mas esta exibição pode abrir outras portas a Trentin.

Os sprinters são uma espécie em vias de extinção na Vuelta e o da Cannondale-Drapac, Tom Van Asbroeck, é bem frontal na sua opinião: "É uma treta!" Bom, a palavra talvez fosse um pouco mais agressiva, mas dá para perceber o que pensa! Fernando Escartín, director da corrida e um ciclista que muita acção oferecia nas montanhas no seu tempo, responde de forma peremptória a este tipo de críticas: "[Muita montanha] é o que o público gosta." E provavelmente tem razão.

Sim, é sempre bonito ver um bom sprint, com os melhores do mundo. Porém, são etapas em que por vezes é difícil manter os olhos abertos. São normalmente longas e no Tour bem nos lembramos de ver 200 quilómetros sem se passar nada até àqueles 10 finais em que os comboios começam a tentar organizar o sprint. Faz parte do ciclismo, mas sim, são as etapas de montanha que acabam por atrair mais, mesmo quando os corredores esperam pela última subida para mexer com a corrida. É que ainda assim, a emoção dura sempre mais tempo do que os breves segundos de um sprint e as tiradas têm mais importância a nível da geral, claro.

O sucesso que a Vuelta tem cada vez mais junto do público, com as audiências também a serem melhores, dá razão a Escartín. Já não é nada estranho ouvir alguém dizer que a Volta a Espanha é a sua preferida das três grandes. O Tour há muito que perdeu esse estatuto. Pode ser visto como o mais importante mais por tradição, contudo, os grandes embates dia após dia são cada vez mais frequentes em Espanha e não em França.

A crescente presença dos principais voltistas do pelotão na Vuelta é mais uma demonstração que Escartín tem razão. Dirk Demol, director desportivo da Trek-Segafredo, considera que para se ter os grandes sprinters numa grande volta, terão de existir sete a oito etapas só a pensar neles. Nada de parecido acontece na Vuelta. A decisão da organização está aberta às opiniões pessoais, mas com três grandes voltas por ano é assim tão importante serem todas com um formato idêntico? Isto é, as tais oito etapas para sprinters, outras para favorecer fugas e depois umas poucas de alta montanha para tentar decidir a geral, sobrando sempre um ou dois contra-relógios (um às vezes colectivo) que, dependendo da distância e tipo de percurso, irá favorecer aquele ou outro ciclista, têm de estar sempre presentes?

Se assim é no Giro, se assim é no Tour - a corrida que mais etapas completamente planas tem -, porque não há-de haver uma corrida em que se teste de forma diferente e mais intensa os chamados trepadores? Por enquanto parece que podem queixar à vontade, que Escartín não se deixa influenciar. De ano para ano a Vuelta está cada vez mais interessante e a despertar interesse nos ciclistas que podem muito bem começar a ter um novo objectivo, até agora pouco ou nada pensado. Tanto se fala na dobradinha Giro/Tour e como ninguém a consegue desde 1998 (Marco Pantani), que se Chris Froome se tornar no primeiro a fazer a de Tour/Vuelta (com o calendário no actual formato), é quase certo que mais se seguirão para tentar fazer o que começará a ser visto como um feito.

Quanto ao assunto dos sprinters, resta dizer que a Quick-Step Floors ganhou a quinta etapa na Vuelta, repetindo o número que já tinha obtido no Giro e Tour. Fantástico! Ficamos por aqui quanto a sprints, porque vêm aí as grandes montanhas.

Este fim-de-semana é daqueles em que é melhor reorganizar as idas à praia para o final da tarde, depois das etapas. Ambas são já típicas da Vuelta: curtas e a subir. No domingo temos a que é considerada a etapa rainha, mas comecemos pela deste sábado. Serão 175 quilómetros, com uma terceira e segunda categoria só para aquecer. A ascensão até à Sierra de la Pandera levará o pelotão aos 1830 metros de altitude. É uma categoria especial, ainda que a pendente média possa não assustar muito à primeira vista: 7,3%. Terá 13% de máxima. É longa, alta e já são muitos quilómetros nas pernas dos candidatos e todos eles já tiveram dias menos bons. Até o líder Chris Froome, ainda que tenha sido mais devido a duas quedas na tirada de quinta-feira. Queixou-se esta sexta-feira de algumas dores na anca. Um bluff para pensarem que não está tão bem?



A dúvida é se se irá mexer muito na corrida neste sábado ou se haverá alguma contenção a pensar no que aí vem no domingo: duas primeiras categorias e o final numa especial em 129,4 quilómetros. Sim, Fernando Escartín, o público gosta de grandes voltas bem montanhosas! Tem razão! É que se na segunda-feira é dia de descanso, ainda há muito para subir até ao Angliru no sábado da próxima semana.


Summary - Stage 13 - La Vuelta 2017 por la_vuelta


Veja aqui as classificações.

»»Não lhes chamem etapas de transição. Não na Vuelta!««

»»O dia em que os rivais viram Chris Froome ficar muito (demasiado?) longe««