24 de agosto de 2017

"Nunca pensei que pudesse vencer uma etapa na Volta a Portugal"

Os dias vão passando e apesar de estar a assimilar melhor o que lhe aconteceu na Volta a Portugal, Antonio Barbio ainda se emociona quando recorda aquela que foi a sua primeira vitória como profissional. Nunca pensou em ganhar, estava concentrado em cumprir a sua função de ajudar os companheiros. Venceu em Santo Tirso, mas não pensa em exigir outro estatuto na equipa. Apenas quer continuar a sua evolução, esperar por novas oportunidades e então tentar somar mais vitórias. Não lhe falta ambição, contudo, mostra estar ciente que o ciclismo não é uma garantia para o futuro, pelo que podemos estar perante um eventual presidente da Junta.

Barbio prepara-se para ser estudante universitário. Quer tirar o curso de Gestão Pública e Autárquica e não nega que Rui Sousa teve a sua influência. O ciclista da Rádio Popular-Boavista é o presidente da Junta de Freguesia de Barroselas e vai de novo a votos em Outubro. "O Rui é uma grande inspiração e tem estado a dar-me alguns conselhos", confessou ao Volta ao Ciclismo. A conversa surge quando se fala da renovação de contrato. Com a temporada em Portugal a aproximar-se do fim, começam as negociações dos ciclistas que competem no país. "Quem faz aqui carreira, quando sai do ciclismo tem de ir trabalhar. Não dá para poupar dinheiro", salientou.

Aos 23 anos, o ciclista da Efapel gostaria de continuar na equipa. Já teve uma experiência pouco feliz no estrangeiro, mas não fecha a portas a nova tentativa. Porém, ficar por cá, não é assim tão mau: "É óptimo ser ciclista em Portugal. Temos um calendário que nos permite estar com a família, mas se os ordenados fossem maiores... Merecemos um mínimo mais alto." Para António Barbio, um ciclista corre riscos todos os dias quando vai treinar na estrada e fá-lo "faça chuva ou faça sol". Diz que não vale a pena tentar comparar a realidade do ciclismo com a do futebol e até considera que nos últimos anos os ordenados e as condições da modalidade estão a melhorar no país. Ainda assim, quer apostar no curso, apesar de saber que será difícil estar a 100% na universidade. Quer licenciar-se e utilizar o ciclismo para pelo menos pagar os estudos.

"Ainda não tinha cruzado a meta e comecei logo a emocionar-me. Já estava a pensar em todas aquelas pessoas que me ajudaram, nas pessoas que não estão cá e que sempre quiseram que eu tivesse sucesso"

Barbio e Joaquim Agostinho são duas gerações completamente diferentes, mas os laços familiares fazem com que as suas histórias se cruzem. "O meu avô era seccionista do Sporting na época do Agostinho. As famílias ficaram sempre ligadas", recordou. Quando o avô saiu, a tia e mãe de Barbio continuaram a acompanhar a modalidade com a mulher do ciclista, ainda hoje considerado o melhor corredor português de sempre. "Quando eu quis ir para o ciclismo as famílias voltaram a estar em contacto", contou. Esta aproximação permitiu-lhe (e permite) que conheça muitas histórias, ainda que tenha salientado que são duas eras distintas. "Gosto de as ouvir. Claro que ouço que 'as bicicletas pesavam 15 quilos, comiam tudo e agora não comes nada!'", referiu, sorrindo. Porém, considera que "há sempre coisas que se podem retirar" do que lhe vão contando do tempo em que Joaquim Agostinho levou Portugal ao mais alto nível nas grandes corridas internacionais e entusiasmou multidões por cá.

Regressando ao motivo que motivou esta conversa, António Barbio suspira quando recorda aqueles quilómetros finais na sétima etapa da Volta a Portugal, em que só pensou: "Ou vou à morte e mais à frente sou apanhado, ou meto o meu passo, tento gerir da melhor forma a subida e veremos o que acontece." Barbio refere-se à ascensão ao Santuário Nossa Senhora da Assunção, a que fechava a tirada. "A subida vai passando e a cerca de três quilómetros para a meta vejo o carro da Efapel atrás de mim, o que é um sinal que tenho pelo menos um minutinho de vantagem. As esperanças aumentaram e parece que vieram forças não sei de onde."

Ainda sofre um susto numa curva que acabaria até por ser local de queda de outros ciclistas. Mas o dia era mesmo o de Barbio: "Ainda não tinha cruzado a meta e comecei logo a emocionar-me. Já estava a pensar em todas aquelas pessoas que me ajudaram, nas pessoas que não estão cá e que sempre quiseram que eu tivesse sucesso... Foi uma enorme alegria."

"Nós fomos para a Volta para a discutir, mas depois de vermos que na etapa da Senhora da Graça isso ficou um bocadinho longe, tivemos de alterar os objectivos"

Havia uma pessoa em que pensava muito. O amigo Rafael Silva viveu momentos dramáticos, pois fez uma Volta a Portugal com 14 pontos nas costas, três no braço e hematomas num joelho. Barbio esteve muitas vezes ao lado de Rafael para o motivar a continuar. Naquele dia esperou pelo amigo antes de subir ao pódio, mas Rafael estava ainda um pouco atrasado. "Nem consigo imaginar a dor que deve ter sentido... Este triunfo também foi por ele", frisou.

A vitória de etapa de Barbio acabou por ser o ponto alto da Volta para a Efapel. Daniel Mestre andou perto, mas a equipa de Américo Silva ficou-se por um triunfo e o top dez de Henrique Casimiro e Sérgio Paulinho. "Nós fomos para a Volta para a discutir, mas depois de vermos que na etapa da Senhora da Graça isso ficou um bocadinho longe, tivemos de alterar os objectivos. Tive a felicidade de ter sido comigo e ficámos um pouco mais tranquilos. Mesmo com objectivos cumpridos, tentámos sempre fazer mais e melhor", realçou, referindo-se precisamente à forma como a equipa trabalhou para Daniel Mestre.

"Nunca pensei que pudesse vencer uma etapa na Volta a Portugal", confessou, pois a sua função era de ajudar os companheiros. Mas foi, naturalmente, um momento marcante e espera ter a oportunidade para juntar pelo menos mais um: ganhar o Troféu Joaquim Agostinho. A proximidade para com a família do ciclista, o facto de ter crescido naquela zona do país, faz com que seja um grande sonho. Já tem lutado por etapas, que lhe têm escapado, mas vai continuar a tentar.

Para já, quer aproveitar este final de temporada nos tradicionais circuitos, num ambiente de maior descontracção. Na Malveira, este domingo, garantiu que vai tentar estar ao ataque. Entretanto, vai pensando também no contrato para 2018. Se aparecer um bom projecto no estrangeiro, pode agarrar o convite, ainda que considere que "há muita gente para um lugar". Por isso e por se sentir tão bem na Efapel, gostaria de continuar. "À partida sei que esta equipa poderá querer-me", disse. No entanto, há algo que alimenta mais este desejo: "Aqui não são meus colegas, são família."

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Contador apareceu e lançou o pânico no pelotão

(Fotografia: Facebook La Vuelta)
Uma última volta, um último fôlego, um último espectáculo de Alberto Contador. Ninguém espera que ganhe a Vuelta, nem o próprio, mas deseja-se que para um final de carreira ainda se possa ver um pouco daquele Contador que o tornou num dos melhores ciclistas da história. Já não tem muito para dar, isso é claro, mas o que tem, ainda é o suficiente para deixar os rivais em pânico. Não tanto para proveito próprio, mas porque num ataque bem ao seu estilo, com 40 quilómetros ainda para a meta, Chris Froome respondeu, enquanto os restantes rivais foram quebrando um a um. Até Johan Esteban Chaves cedeu, ele que não tinha ainda largado a roda de Froome nesta Volta a Espanha. Há um ano foi um ataque deste género - ainda de mais longe - que acabou por decidir a Vuelta para Nairo Quintana. Nesse dia o colombiano colaborou com Contador. Estava-se mais próximo do final da corrida. Já esta quinta-feira, Froome optou por aproveitar a boleia do espanhol e apenas isso. Sentiu que ainda não era o momento para se desgastar em demasia quando há tanta etapa difícil para gerir até dia 10 de Setembro.

O ataque de Contador serviu mais para o espanhol provar que ainda tem uma palavra a dizer nesta Vuelta. Não ganhou a etapa, mas vai lutar por uma etapa e já admitiu que o pódio é um objectivo por agora. Mais do que isso, fez os adversários terem um respeito diferente por ele. Contador pode não estar na luta pela Vuelta, mas com ataques destes, aproveitando as famosas rampas que se tornaram uma tradição nesta corrida, o espanhol pode decidir a Volta a Espanha ao deixar algum candidato de fora. Fê-lo no ano passado e quando está bem, não há Fabio Aru, Romain Bardet, Chaves, Vincenzo Nibali, ou seja quem for, que esteja imune a simplesmente não aguentar o ritmo do El Pistolero. Um último disparo ainda estará para vir e olha-se agora para Contador com desconfiança, depois de um início de Vuelta triste, que parecia mesmo de um ciclista acabado. Não, ainda falta um disparo.

No final Contador queixou-se da ausência de ajuda. Froome respondeu que se sentiu confortável e que não considerou haver necessidade em forçar o andamento nesta fase da corrida. A vantagem a certa altura parecia que poderia tornar-se preocupante para os que têm pretensões, mas acabaram todos por recuperar, pois Contador não durou para sempre, ainda mais a ter de "puxar" Froome.

A sexta etapa, Vila-Real-Sagunt (204,4 quilómetros), mostrou então um Contador ainda com uma derradeira ambição e comprovou um Froome forte e que está mais do que decidido a vencer de uma vez por todas a Vuelta. Com Chaves a ceder no ataque do espanhol, apesar de ter recuperado, agora todos os rivais do britânico mostraram fraquezas. Só um ciclista mantém-se sólido durante todos estes dias e que não foram nada fáceis: Chris Froome. Uma vitória anunciada? É uma corrida de três semanas e ainda mais uma sempre imprevisível Volta a Espanha. Porém, está a ser o show do todo-poderoso Froome.

David de la Cruz (Quick-Step Floors) perdeu mais alguns segundos, revelando grandes dificuldades quando à subidas com zonas com pendentes a rondar os 20%. Tejay van Garderen (BMC) lá se vai candidatando para mais um prémio de azarado da competição. Numa só etapa caiu duas vezes e furou entre as quedas. Sempre que aparece em boa forma, acontece algo.

O polaco Tomasz Marczynski inscreveu o seu nome na história da Vuelta. Aos 33 anos alcançou a maior vitória da carreira. Já foi três vezes campeão nacional de estrada e conta ainda com triunfos em corridas que participou na sua passagem pelos escalões inferiores. Para a Lotto Soudal é o respirar de alívio. Já tem a sua etapa, o que poderá libertar a equipa de uma pressão crescente, derivada de uma época um pouco abaixo do esperado: são apenas 16 vitórias em 2017, "apenas" na perspectiva de uma formação habituada a ter mais de 20 triunfos nesta fase da temporada.

A Vuelta não pára e para a sétima etapa será mais um pouco de sobe e desce, mas com os favoritos a pensar no fim-de-semana em que a alta montanha estará de volta.