23 de fevereiro de 2017

Polémica dos travões de disco regressa em força após corte provocado em queda na Volta a Abu Dhabi

Corte é bem visível no sapato de Doull 
(Fotografia: Twitter: @SophieSmith86)
O principal foco da Volta a Abu Dhabi foi até à entrada do último quilómetro o fantástico pelotão, com quase todos os grandes nomes do ciclismo presentes, no que diz respeito a sprinters e a voltistas. Porém, uma queda mudou tudo e a polémica utilização dos travões de disco está de regresso em força. Não que tenha desaparecido, mas uma nova queda, um novo corte alegadamente provocado por um disco e os ciclistas viraram-se para o Twitter para contestar o novo período de experiência que a UCI autorizou para este ano.

Marcel Kittel é o único ciclista dos 158 presentes em Abu Dhabi a utilizar este sistema de travagem. O alemão foi um dos envolvidos na queda no último quilómetro. Vários corredores ficaram feridos e um dos mais graves foi Owain Doull. Porém, se fisicamente o britânico poderá recuperar, Doull não se conforma com o que lhe aconteceu. O ciclista até atribuiu o facto de não estar gravemente ferido a uma dose de sorte, no meio de um grande azar. O jovem, que está a fazer a sua estreia no World Tour, mostrou como ficou um dos seus sapatos. O corte, visível na fotografia divulgada, é atribuído aos travões de disco da bicicleta de Kittel.

"Atravessou o sapato até ao meu pé. Sinceramente, foi uma sorte não ter sido a minha perna. Eu acabei por ter sorte, pois se tivesse sido na perna, tê-la-ia cortado certamente. Nada mais poderia ter cortado assim. É como uma faca"; afirmou Doull no final da etapa, mostrando ainda como ficou mal tratado após aparatosa queda.


A imagem provocou uma reacção em cadeia de vários ciclistas que se insurgiram contra a utilização dos travões de disco. Um deles foi Alberto Contador. O corredor da Trek-Segafredo - que também caiu a cerca de cinco quilómetros da meta - escreveu na rede social: "Uma bicicleta com travões de disco das 158 no pelotão e acontece isto. Por sorte não atingiu o pé, o que aconteceria com 158?"

Wout Poels, colega de Doull, pede que a segurança dos ciclistas esteja em primeiro lugar antes de se experimentar coisas novas. Alex Dowsett (Movistar) questiona se compensa o risco, apelando para que as consequências sejam consideradas, enquanto Leopold König (Bora-Hansgrohe) pede união entre ciclistas e equipas.


Em 2016, o período de experiência dos travões de disco foi suspenso depois do incidente que resultou num corte profundo na perna de Francisco Ventoso, então ciclista da Movistar, no Paris-Roubaix. No entanto, a UCI voltou a autorizar a utilização do sistema. Tom Boonen tornou-se na Volta a San Juan o primeiro a vencer com travões de disco na sua bicicleta. O seu colega da Quick-Step Floors, Marcel Kittel, também é adepto do sistema, apesar de só ter concordado em utilizá-lo se os discos fossem redondos. Peter Sagan também já utilizou uma bicicleta com o sistema, mas apenas nos treinos. Todos têm bicicletas da Specialized. Porém, também a Cannondale já começou a adoptar os travões de disco e na Ruta del Sol todos os ciclistas da equipa tinham o sistema montado.
UCI pede respeito pelo "processo democrático"

A Associação de Ciclistas Profissionais (ACP) tem estado muito activa para tentar que a experiência de utilização dos travões de disco seja cancelada. A ACP considera que a maioria dos ciclistas estão contra este sistema, com outros a contestarem que num pelotão uns tenham travões de disco e outros o método mais tradicional.

Mark Barfield, presidente da Comissão de Equipamento da UCI, enviou uma carta à ACP - antes do incidente com Owain Doull -, que o site Cycling News teve acesso. Na missiva, Barfield pede respeito pelo "processo democrático", considerando infundadas as preocupações da associação e salientando que muitos ciclistas mostraram-se a favor dos travões de disco.

A integração dos travões de disco é considerada por alguns como inevitável, mas outros ciclistas continuam a resistir a esta mudança, alegando questões de segurança. Além da possibilidade de cortes - que a julgar pelo corte no sapato de Doull (caso tenha sido mesmo provocado pelo disco) não se resolveu com o arredondamento dos discos -, há ainda a questão do aquecimento, podendo causar queimaduras se os discos entrarem em contacto com a pele. A principal preocupação prende-se de em caso de uma queda entre vários ciclistas, os travões de disco serem mais um instrumento que poderá provocar ferimentos.

Uma das acusações é contra as marcas, com ciclistas a dizerem que estas têm um interesse comercial na introdução dos travões de disco ao mais alto nível do ciclismo profissional. Apesar de ser notório o melhoramento do tempo de travagem, sendo principalmente importante em dias de chuva, no entanto, os que defendem a manutenção do método de travagem tradicional dizem que o risco não compensa os benefícios, pois na maioria das corridas, o actual sistema é mais do que suficiente.

A polémica vai certamente continuar.

Um início difícil para Owain Doull

Aos 23 anos e depois de se revelar na Team Wiggins, Owain Doull conseguiu um contratado com a toda poderosa Sky. Estagiou na equipa nos últimos meses de 2016 e convenceu os responsáveis. Naturalmente entusiasmado com a oportunidade, Doull acabou por começar mal a temporada. Quando estava escalado para competir no Tour Down Under, o britânico sofreu uma apendicite. Recuperado, foi chamado para estar na Volta a Abu Dhabi.

Segundo Marcel Kittel, os guiadores da sua bicicleta e de Doull ficaram entrelaçados o que provocou a queda. O alemão ficou com umas mazelas no joelho e cotovelo, mas Doull terá certamente uma noite bem penosa tendo em conta as imagens que mostram como ficou a parte esquerda do corpo.

A queda ainda provocou ferimentos noutros ciclistas. Caleb Ewan e Phil Bauhaus foram ao hospital. O ciclista da Orica-Scott ficou com dores no ombro esquerdo e no pulso, enquanto o da Sunweb queixou-se da mão direita. Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) ficou com dores no peito e numa mão e Alex Dowsett terá sido o que saiu com menos mazelas da queda.

Quanto à etapa, Mark Cavendish (Dimension Data) conquistou a primeira vitória da temporada, ao bater ao sprint André Greipel (Lotto Soudal) e Niccolo Bonifazio (Bahrain-Merida).

»»O que pensam os ciclistas portugueses deste sistema?««

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22 de fevereiro de 2017

Mais sectores de pavé para alimentar a lenda do Paris-Roubaix

Mathew Hayman surpreendeu todos os favoritos e venceu em 2016
(Fotografia: Facebook Orica-Scott)
A época das clássicas está prestes a arrancar. Começará no sábado com a Omloop Het Nieuwsblad, mas entretanto estão a ser apresentados os percursos de outras corridas. Um dos destaques vai inevitavelmente para o Paris-Roubaix. O mítico monumento francês terá mais dois sectores de pavé, para aumentar o espectáculo. "Não é o nosso desejo tornar a corrida mais difícil nesta fase, mas sim encontrar mais diversidade entre os sectores de pavé e garantir que essas zonas continuem a alimentar a lenda", salientou Thierry Gouvenou, que "desenhou" o percurso da clássica, que se realiza a 9 de Abril.

Os dois sectores em causa aparecem na primeira metade da corrida de 217 quilómetros (55 em pavé) e não eram integrados desde 1987. O de Briastre será aos 112,5 quilómetros e terá cerca de três quilómetros. Apesar de ter sido alvo de melhoramento desde 1987, Gouvenou garante que continua a manter as características necessárias para fazer parte do Paris-Roubaix. O sector de Solesmes, aos 116 quilómetros, é mais curto, mas será a subir.

Peter Sagan e Greg van Avermaet serão dois dos principais favoritos, mas esta edição de um dos monumentos do ciclismo ficará marcada pela despedida de Tom Boonen. Será a última corrida do belga da Quick-Step Floors, que pretende sair em grande, conquistando aquela que será a sua quinta vitória no Paris-Roubaix, se conseguir concretizar o seu objectivo. Relativamente aos ciclistas portugueses, para já está apenas agendada a participação de Nelson Oliveira (Movistar).

Além das 18 equipas do World Tour, a organização convidou as quatro equipas francesas do escalão Profissional Continental - Cofidis, Direct Energie, Fortuneo-Vital Concept e Delko Marseille Provence KTM -, assim como as formações belgas da Wanty-Groupe Gobert e Sport Vlaanderen-Baloise e a holandesa Roompot-Nederlandse Loterij.