Mostrar mensagens com a etiqueta Volta a Espanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Volta a Espanha. Mostrar todas as mensagens

19 de setembro de 2018

O triunfo do ciclismo britânico que vai além da Sky

Os gémeos Yates disseram não à Sky, com os sucesso britânico a estar
agora além da equipa que mudou a modalidade na estrada
naquele país (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
As referências existiam. Várias conquistas importantes também, mas a Grã-Bretanha nunca tinha conseguido tornar-se num potência do ciclismo ao nível das nações mais tradicionais, como França, Itália, Espanha, Bélgica e Holanda, por exemplo. A chegada da Sky ao pelotão internacional mudou profundamente essa realidade, mas as bases do actual sucesso começaram a ser construídas muito antes e foi a aposta na pista que se mudou o ciclismo naquele país. As repercussões na estrada são estrondosas, com os britânicos a passarem de não ter vencedores em grandes voltas para quatro num espaço de sete temporadas, num total de nove classificações gerais.

Tom Simpson (década de 60) é um nome que marca o ciclismo britânico de estrada, infelizmente não só pelas melhores razões. Tem  vitórias em três monumentos (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Lombardia), uns Mundiais e foi ainda o primeiro corredor daquele país a vestir a mítica amarela do Tour, ainda que não a tenha mantido. A sua morte em pleno Mont Ventoux deu-lhe um estatuto de lenda, apesar do consumo de álcool e drogas, numa era muito diferente do ciclismo.

Nos anos 80 e 90 foi Robert Millar a referência, com dois segundos lugares na Vuelta e um no Giro. Quando Millar entrou na recta final da carreira apareceu Chris Boardman. Na Grã-Bretanha, aponta-se as grandes mudanças naquele país no ciclismo a uma conquista inesperada deste corredor. Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Boardman conquistou o ouro olímpico na perseguição individual, uma prova de pista. Tornou-se um especialista no contra-relógio e até deteve o recorde da hora. Contudo, aquela medalha de ouro, conquistada com muito trabalho, mesmo sem um apoio que hoje seria impensável não existir na Grã-Bretanha, foi a que fez com que os responsáveis iniciassem um programa que mudaria praticamente tudo no ciclismo britânico.

Nos anos seguintes a federação sofreu profundas remodelações, lutou por credibilidade de forma a garantir financiamentos e aumentou substancialmente o número de federados. Boardman tornar-se-ia uma das figuras das alterações implementadas, após terminar a carreira em 2000. Dave Brailsford seria outro dos rostos da mudança. O ciclismo britânico passaria a ser uma potência na pista e foi lá que nasceram algumas das estrelas que viriam depois a conquistar a estrada.

Mark Cavendish afirmou-se como um dos melhores sprinters da história, mas foi a chegada da Sky que abriria definitivamente o caminho do sucesso dos britânicos nas grandes voltas. Brailsford acreditava que poderia construir uma equipa forte, capaz de ganhar a Volta a França e de forma limpa. Estávamos numa fase de desconfiança, com Lance Armstrong sob suspeita, no que viria a ser confirmado como um dos maiores casos de doping organizado no ciclismo.

A Sky aproveitou o trabalho que era feito na pista e fez a passagem de ciclistas dessa vertente para a estrada, mas contratou Bradley Wiggins, um campeão olímpico na pista, já com experiência na estrada. Procurou ainda o melhor do talento estrangeiro, com uma capacidade económica que, com o passar dos anos, faz que só um não de um ciclista faça com que não contrate quem quer.

Na terceira temporada, a Sky conseguiu o seu Tour, Wiggins foi o primeiro britânico a ganhar uma grande volta e o ciclismo não mais foi o mesmo. A expressão "ganhos marginais" entrou definitivamente no léxico ciclístico e a forma dominante como encarava o Tour obrigou as restantes equipas a procurar tácticas que não têm tido muito efeito. Desde esse triunfo em 2012, só em 2014 a Sky não venceu o Tour, com Chris Froome a abandonar após queda.

Foi também em 2012 que Londres recebeu os Jogos Olímpicos e no contra-relógio todos olharam para Bradley Wiggins que cumpriu e ficou assim com ouro na pista e na estrada. A prova de fundo teve um percurso que beneficiava Mark Cavendish, mas Alexandre Vinokourov fugiu ao pelotão e o sprinter acabou até por nem terminar no pelotão. Ainda hoje é uma corrida recordada com alguma frustração, até pelo passado de doping do cazaque.

Os tentáculos da Sky foram crescendo para as outras grandes voltas e aos poucos também para as clássicas, com Wout Poels a ganhar uma Liège-Bastogne-Liège e Michal Kwiatkwoski a Milano-Sanremo. No entanto, neste tipo de corridas, ainda não apareceu a referência britânica e o no Giro e na Vuelta, Chris Froome venceu, mas a Sky não é aquela dominadora do Tour. Brailsford é tanto o mentor de um dos projectos de maior sucesso da modalidade, como um director envolto em desconfiança, mesmo que as suspeitas que surgem a acabarem por serem arquivadas, como aconteceu recentemente com Chris Froome e o caso do salbutamol ou o "pacote suspeito" de Bradley Wiggins.

Enquanto a Sky ia construindo o seu domínio, o trabalho na pista continuou, com a equipa a tentar não deixar escapar os talentos que vão surgindo. Os gémeos Yates contrariaram a tendência e disseram não à equipa. Assinaram por uma estrutura que então estava concentrada nos sprints e clássicas, mas que já tinha planos para ir mais além. Adam e Simon foram os eleitos para evoluírem dentro da então Orica-GreenEDGE (actual Mitchelton-Scott), para ali, numa equipa australiana, se tornarem uns vencedores em corridas de três semanas. Simon concretizou na Vuelta esse plano. Falta agora Adam confirmar as credenciais.

A tentação da Sky esteve sempre presente, mas os gémeos sabiam e sabem que uma mudança para a equipa britânica os atiraria para um plano diferente, numa hierarquia tão rígida que se viriam relegados a uma espera por liderança que não saberiam quanto tempo duraria. A performance no Giro, mesmo quebrando a três dias do fim e perdendo a camisola rosa para Froome, deixou a Sky (e não só) a olhar para Simon com uma vontade enorme de o contratar. Tanto ele como Adam disseram não a contratos milionários para frenovarem com quem sabem que lhes dá o estatuto máximo, ainda mais Simon que agora se tornou uma das figuras de um ciclo de ouro do ciclismo britânico.

De uma nação que não vencia grandes voltas, a Grã-Bretanha tornou-se na primeira a ganhar Giro, Tour e Vuelta no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Geraint Thomas conseguiu furar a hierarquia da Sky para vencer o Tour, sendo ele mais um medalhado olímpico na pista. A vitória de Simon Yates até pode abrir um novo capítulo na história de sucesso da Grã-Bretanha. Um capítulo em que os britânicos continuam a conquistar grandes triunfos sem ser preciso vestir o equipamento da Sky.

E tendo em conta que cada vez mais são aqueles que procuram outras equipas, até mesmo abandonando a Sky, significa que a equipa pode ser importante, mas mais ainda são  as bases criadas e que continuam a ser reforçadas. Mesmo com polémicas - suspeitas de doping, acusações de tratamento sexista - o programa britânico está a produzir campeões e campeãs ou potenciais campeões/campeãs.

Chris Froome foge à regra. É produto da estrada, queniano de nascimento e já considerado um dos melhores da história, com quatro Tours, um Giro e uma Vuelta (foi o primeiro britânico a ganhar estas duas corridas) e ainda não terá terminado. Froome é a excepção que confirma a regra.

»»A vitória da nova geração««

»»Thomas deixou cair a máscara num ano que se espera ser de mudança para o Tour««

»»A vitória mais bonita e brutal««

16 de setembro de 2018

As equipas uma a uma na Vuelta de Yates e da Mitchelton-Scott

Primeira vitória numa grande volta da Mitchelton-Scott
que se vestiu a rigor (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Chegou ao fim a última grande volta do ano. Para não variar, a Vuelta foi rica em emoção e espectáculo, principalmente na derradeira semana. Contudo, durante as três houve reviravoltas, surpresas, o inesperado fez parte da sua génese e é por isso que continua a ser aquela que acaba por ganhar no apreço dos adeptos. Simon Yates fez história ao ganhar a sua primeira corrida de três semanas, fechando um ciclo brilhante da Grã-Bretanha, pois nunca tinha acontecido um país ganhar as três grandes no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Como sempre, houve vencedores e derrotados. Houve quem cumprisse as expectativas, quem superasse, quem tem muito mudar. Três dos quatro portugueses chegaram ao fim e Madrid voltou a ser palco de uma despedida de um ciclista espanhol. Aqui fica uma análise equipa a equipa, com a ordem a ser definida pela classificação colectiva.

Movistar: Ganhou novamente por equipas, mas perdeu individualmente. Não deixa de ser irónico que estando em primeiro seja a maior derrotada da Vuelta. Assumiu que a corrida era para ganhar, depois de em 2017 não ter levado nenhum dos seus líderes e ter passado ao lado da prova caseira, algo estranho tendo em conta o patrocinador. Falhou no Tour e quis levar o tridente a Espanha, mas Mikel Landa lesionou-se. Ainda assim, era a equipa mais forte da Vuelta. Apostar novamente em mais do que um ciclista para a liderança correu mal. Nairo Quintana é uma sombra de si mesmo e Alejandro Valverde acabou por fraquejar nas duas etapas de montanha decisivas. Sonhou com a vitória e nem o pódio conseguiu segurar. A Movistar ganhou duas etapas e a classificação dos pontos por intermédio de Valverde e venceu colectivamente, o que para qualquer outra equipa (menos a Sky) seria excelente, mas para a formação espanhola é muito pouco. Há toda uma estratégia a repensar para 2019. Assim, com tantos galos para um poleiro, esta equipa não funciona. Uma palavra por Nelson Oliveira (71º, a 2:30:07). O ciclista português esteve bem. É um corredor com quem se pode contar estar sempre ao nível que os seus líderes precisam. Não foi por ele que a Movistar falhou. Nos contra-relógios foi quarto e sétimo, o que deixa as expectativas altas para os Mundiais.

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali confirmou desde cedo que não conseguiria lutar pela geral, depois da grave queda no Tour. No entanto, não foi à Vuelta apenas para ganhar ritmo ficando perdido no pelotão. Com o passar dos dias, o italiano começou a aparecer na frente do pelotão a trabalhar, foi para as fugas e quis mesmo ganhar uma etapa. Excelente atitude deste ciclista, ao contrário do que aconteceu com Richie Porte (BMC) que esteve em Espanha só a pensar nos Mundiais. A postura de Nibali foi o ponto positivo da Bahrain-Merida que viu Ion Izagirre ficar longe de disputar a geral, apesar da oportunidade para o fazer. O nono lugar a 11:09 é pouco para este ciclista e para a equipa.

Bora-Hansgrohe: Como equipa funcionou bem, mas não conseguiu selar um resultado de nota. Rafal Majka não veio à Vuelta para a vencer, mas foi activo na procura por uma etapa, deixando para Emanuel Buchmann a responsabilidade da geral. Com 25 anos, o alemão demonstrou que pode vir a ser uma aposta, mas terá de ser mais regular. Foi perdendo fôlego com o aproximar do fim e falhou o top dez, onde esteve bastante tempo. E depois há Peter Sagan. O que dizer de um ciclista que faz quatro segundos lugares e dois terceiros? Às vezes simplesmente não dá e a desejada última vitória com a camisola do arco-íris não foi alcançada. Aquela queda no Tour, ainda não o deixou recuperar por completo a forma e talvez já nem seja preciso fazê-lo este ano, já que os Mundiais não são para ele. Foi uma Vuelta dos "quase" para a equipa. Merecia um pouco mais.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Astana: Atacante, agressiva, sempre a acreditar que só se tentar é que se poderá alcançar o sucesso. É esta a mentalidade e, por isso, Miguel Ángel López encaixa na perfeição nesta estrutura. Dois terceiros lugares este ano em grandes voltas, ainda que Alexander Vinokourov não esconda que faltou a etapa na Vuelta. Mas foi uma boa corrida da equipa cazaque e do seu líder, que tem de melhorar no contra-relógio se quiser de facto ganhar uma grande volta. O director pode ter ficado furioso por Fabio Aru ter deixado a equipa no final de 2017 e não ter um substituto para o italiano. O que fica de 2018, do Giro e da Vuelta, é que a Astana tem o seu novo líder. Contratou os irmãos Izagirre para a próxima temporada, mas o futuro é López. Está aí um grande ciclista, de quem muito se espera. Estes pódios são só o início.

EF Education First-Drapac p/b Cannondale: Esperava-se um pouco mais de Rigoberto Urán, um dos muitos que chegou a Espanha depois do Tour ter corrido mal (abandonou após a etapa de Roubaix, devido a uma queda). Foi sétimo, a 6:07 minutos, o que é sempre positivo, mas o que a equipa americana mais agradece são as vitórias de Simon Clarke e Michael Woods. São agora seis os triunfos em 2018. Muito pouco, mas duas vitórias numa grande volta têm sempre peso e a formação bem precisava delas. Por isso, sai de Espanha com razões para celebrar, ainda que não muito dado o ano muito aquém do desejado.


(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Mitchelton-Scott: Venceu a Vuelta, foi inteligente na forma como controlou a corrida e como forçou a Movistar a desgastar-se em controlar algumas etapas. Não foi só Simon Yates que aprendeu a lição do Giro, foi toda a equipa. Jack Haig é um gregário que está entre os melhores da actualidade e pela primeira vez, a dupla Yates funcionou numa grande volta, com Adam a estar desaparecido durante duas semanas, para aparecer na terceira em grande forma. Foi um longo caminho de uma equipa que ao ser criada começou por apostar em clássicas e sprints, mas que pegou nuns jovens gémeos e formou-os, indo aos poucos construindo uma estrutura para as grandes voltas. Aí está a primeira vitória, que o director Matt White considerou ser um alívio. A Mitchelton-Scott vai continuar a sua transformação para as três semanas, ainda mais agora que tem de facto um ciclista capaz de ganhar um corrida destas, Simon, e outro, Adam, que pode seguir o mesmo caminho. A fasquia fica agora mais alta.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dimension Data: Que alívio foi para a equipa sul-africana esta Vuelta. Duas etapas ganhas por Ben King ajudaram a dar algum alento a uma formação com apenas sete vitórias. E há mais de um ano que não ganhava no World Tour. King salvou a Dimension Data de mais uma grande volta para esquecer, pois Louis Meintjes falhou novamente, tal como no Giro. Este regresso às origens não correu bem para o sul-africano. No final, um momento emotivo. No sábado ao finício da noite, Igor Antón anunciou que iria terminar a carreira quando cortasse a meta em Madrid. O espanhol, de 35 anos, venceu quatro etapas na Vuelta e uma no Giro, no total de 14 vitórias como profissional (a última foi em 2015, na Volta às Astúrias). Tal como Alberto Contador há um ano, Antón teve direito a uma ovação pelas ruas da capital, no adeus a um ciclista que foi um dos principais da Euskaltel-Euskadi, passou depois pela Movistar, antes de assinar pela Dimension Data.

AG2R: As equipas francesas estiveram em grande em Espanha. A AG2R não conseguiu liderar a Vuelta como a Groupama-FDJ e a Cofidis, mas alcançou duas vitórias de etapa por intermédio de Tony Gallopin e Alexandre Geniez. No entanto, ver Gallopin cair para fora do top dez (11º) na última etapa de montanha não deixou de ser uma desilusão para a equipa e principalmente para o ciclista, que está a tentar fazer a passagem para ser um voltista que lute por lugares cimeiros da geral. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a AG2R.

Sky: Vuelta falhada para a equipa que venceu quatro grandes voltas consecutivas. David de la Cruz teve a sua oportunidade, mas desde cedo mostrou que não estava à altura de lutar por uma vitória na geral. O espanhol poderá não ter outra tão cedo. Fez o Giro, mas foi dos poucos que apontou o seu pico de forma para a Vuelta e nem a vitória de etapa conseguiu. Michal Kwiatkowski andou de vermelho e até se pensou que poderia ser ele quem tentaria fazer o pleno para a Sky em 2017, depois de Chris Froome ver o Giro e Geraint Thomas o Tour. Mas a época vai longa e desgastante para o polaco, pelo que não foi uma surpresa quando quebrou. Porém, este ciclista sim, irá ter uma nova oportunidade para liderar a equipa numa grande volta. De Sérgio Henao também se esperava mais. Dos dois jovens, Tao Geoghegan Hart esteve bem, dentro do possível, já Pavel Sivakov não foi feliz e abandonou. Mas o objectivo de dar experiência a ambos foi alcançado. Era o que se pretendia. Soube a pouco esta Sky, que nem uma vitória de etapa, nem um top dez conseguiu. Coisa rara.

Euskadi-Murias: Gerou alguma desconfiança, pois estava longe de ter o melhor dos plantéis, tal como a Burgos-BH, mas a equipa basca foi, depois da Cofidis, a melhor entre as do segundo escalão. Pedia-se que se mostrasse, que lutasse, que estivesse em fugas, que fosse activa. Assim foi. Os seus corredores mostraram agressividade e não estavam a passar despercebidos até que Óscar Rodríguez conseguiu o impensável. Conquistou La Camperona, uma das subidas mais difíceis. A equipa teve uma cobertura mediática imensa devido à vitória e o País Basco volta a sonhar com uma estrutura de referência, com a Euskaltel-Euskadi ainda na memória de todos. Com uma etapa ganha, a Vuelta estava mais do que feita para uma equipa como esta, mas a Euskadi-Murias nunca baixou os braços até ao fim. Boa atitude de quem vai continuar neste escalão e já começa a pensar mais alto.

Lotto-Jumbo: Steven Kruikswijk poderia ter ficado numa situação delicada na equipa. Com Primoz Roglic a afirmar-se e com George Bennett a ameaçar fazer o mesmo, o holandês bem precisava de uma boa temporada. Quinto no Tour e quarto na Vuelta. Excelente. Porém, sai de Espanha desiludido, pois sente que deixou escapar o pódio, outra vez, tal como em 2016 no Giro, onde até esteve perto de ganhar. Faltou-lhe consistência na montanha, já que no contra-relógio esteve muito bem. Mas é um bom resultado para o holandês. Já Bennett desiludiu e se no Giro esteve menos mal, na Vuelta esperava bem mais. A equipa, no seu todo, deu mais uma demonstração como está a tornar-se numa de respeito, com destaque para um Sep Kuss, que aos 24 anos deixou uma excelente imagem de como trabalhar para o líder, na sua estreia numa grande volta.

Groupama-FDJ: Com tantos ciclistas a tentarem redimir-se na Vuelta de uma temporada menos conseguida, por terem ficado aquém no Giro ou no Tour, Thibaut Pinot foi dos que alcançou essa redenção. Duas vitórias de etapa - e entrou assim para a lista dos que venceram nas três grandes voltas - e depois de ter perdido tempo ao ficar cortado num abanico, acabou por conseguir reentrar no top dez e até foi subindo, com o sexto lugar a 5:57, a ser mais do que a certa altura pensou-se ser possível. Mas antes de Pinot ser a estrela, foi Rudy Molard o grande destaque. Quatro dias de camisola vermelha, alcançando algo que não tem sido comum nesta equipa: a liderança numa prova de três semanas. Vuelta para recordar de uma estrutura que para o ano irá apostar novamente tudo (ou quase) no Tour. Em casa, portanto.

Sunweb: A equipa foi cuidadosa com as expectativas criadas em redor de Wilco Kelderman. Há um ano esteve na luta pelo pódio, mas desta feita, uma queda pouco antes do Tour, tirou-o dessa corrida e o holandês não conseguiu recuperar até a uma forma ideal para repetir ou fazer melhor em Espanha. Ainda assim, num último fôlego nas derradeiras montanhas, Kelderman conseguiu fechar o top dez, a 11:11 de Yates. Perante a equipa presente e com o seu líder a não estar a 100%, não se poderia pedir muito mais a uma Sunweb que jogou forte no Giro e Tour e ainda não tem estrutura para estar em grande nas três grandes voltas. Mas para lá caminha.

Caja Rural: Apostou nas fugas, Lluís Mas foi um ciclista muito activo, mas a Caja Rural já teve Vueltas bem mais conseguidas. Os seus corredores costumam ser mais agressivos na procura por vitórias, que podem não conseguir, mas são normalmente mais ameaçadores. Esperava-se um pouco mais, pelo menos sendo um pouco mais competitiva. Foi uma pena Joaquim Silva ter ficado de fora das escolhas, depois de na Volta a Portugal ter sofrido com o calor, abandonando logo na primeira etapa em linha. Rafael Reis não foi escolhido para repetir a presença de 2017. Com mais duas equipas espanholas agora como Profissionais Continentais, a Caja Rural já tem termos de comparação e perdeu claramente para a Euskadi-Murias.


BMC: Foi um adeus positivo deste patrocinador às grandes voltas no que diz respeito às vitórias de etapas. Rohan Dennis venceu os dois contra-relógios - cuidado com o australiano para os Mundiais - e vestiu a camisola vermelha por um dia. Alessandro de Marchi conquistou também ele uma etapa. Porém, fica uma desilusão: Richie Porte. O ciclista bem avisou que não estava em condições físicas de lutar pela Vuelta depois da queda no Tour e não ajudou ter começado a corrida a recuperar de uma gastroenterite. Ainda assim, Porte poderia ter tentado um pouco mais do que uma fuga numa etapa plana! Ainda se viu uma ou outra vez, mas nada de nota. A equipa virou-se para Nicholas Roche, mas este é um ciclista que se vê o seu melhor quando faz de gregário e é por isso que irá apoiar Tom Dumoulin na Sunweb em 2019. Quanto a Richie Porte, pensar apenas nos Mundiais ficou-lhe mal, tendo em conta que caso vença, nem é pela equipa que agora representa - que terá um novo patrocinador, a CCC - que irá vestir a camisola do arco-íris. Tentar seriamente uma etapa ter-lhe-ia ficado bem, a exemplo do que fez Vincenzo Nibali.

Trek-Segafredo: Valeu Bauke Mollema. Numa altura em que já se vai falando da chegada de Richie Porte em 2019, o holandês pode não ter conseguido estar na luta pela geral, mas talvez tenha encontrado a melhor função para o futuro próximo, se não quiser ficar como gregário. Foi um dos melhores animadores desta Vuelta e por isso ganhou a distinção de mais combativo (bateu os espanhóis, o que não foi fácil, tendo em conta as votações durante as etapas). Foi duas vezes segundo em tiradas e foi segundo na classificação da montanha. Não ganhou, mas foi muito bom vê-lo ao ataque, à procura de um resultado. Porém, no geral, ficou novamente bem claro que esta Trek-Segafredo precisa de uma renovação, que já está a ser preparada para o próximo ano.

Quick-Step Floors: Quatro vitórias de etapas, três por Elia Viviani e uma por Enric Mas, segundo lugar na geral com o jovem ciclista espanhol. Mais uma excelente grande volta para a equipa belga, que não só saiu com os triunfos que sempre aposta, como teve o enorme bónus de ver Mas afirmar-se a este nível e logo com um pódio. Cinco triunfos no Giro, mais quatro no Tour, são 67 no total, com uma ajuda de Julian Alaphilippe que venceu a Volta à Grã-Bretanha e hoje à Eslováquia, enquanto decorreu a Vuelta. Que temporada impressionante!

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Lotto Soudal: Cumpriu quase todas as expectativas. Ganhou uma etapa por Jelle Wallays, teve Thomas de Gendt como um dos animadores da Vuelta, tornando-se no primeiro belga a vencer a classificação da montanha na grande volta espanhola. Só Tiesj Benoot acabou por ser uma pequena desilusão. O belga não escondeu que não estava completamente recuperado da queda no Tour, mas queria pelo menos lutar por uma etapa. Quase que deu para esquecer que estava na corrida. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a Lotto Soudal.

UAE Team Emirates: Fabio Aru falhou outra vez. Um ano para esquecer do italiano no primeiro em que representa esta equipa. Esteve mal no Giro, não esteve muito melhor na Vuelta, que pelo menos acabou. A frustração foi tal que ao sofrer uma queda devido a um problema na corrente, teve uma reacção tão agressiva que, mais tarde, acabou a pedir desculpa. Aru foi 23º, a 1:03:07 horas. Daniel Martin abandonou após o primeiro dia de descanso para juntar-se à mulher que estava em final de gravidez e fez falta a uma equipa que teve Sven Erik Bystrom a ficar perto de um triunfo que teria ajudado a amenizar mais uma desilusão com o líder Aru. Rui Costa ficou de fora das opções, o que não deixou de se estranho ao saber-se que Martin afinal poderia ir embora a qualquer momento.

Cofidis: A época foi conturbada com a relação fria entre Nacer Bouhanni e o novo director, Cédric Vasseur. O sprinter ficou de fora do Tour, mas na Vuelta picou o ponto com uma vitória de etapa, quebrando um jejum de quatro anos em corridas de três semanas. Luis Ángel Maté andou com a camisola da montanha boa parte da corrida - da segunda à 16ª etapa -, mas a alta montanha não é para ele e acabou por perder a classificação para Thomas de Gendt. Jesús Herrada foi líder durante dois dias, no ponto alto da Cofidis em Espanha. Excelente corrida da equipa que tinha desiludido no Tour, mas que na Vuelta foi uma das formações em destaque.

Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin deve sentir que é perseguido por azares. Mais uma vez, uma queda arruinou a corrida do russo, que acabou por tentar lutar por etapas, mas, apesar de entrar em fugas, nunca esteve perto de conseguir uma vitória. Mais uma grande volta que ficou muito aquém do desejado pela equipa liderada por José Azevedo. A figura foi mesmo Tiago Machado (79º, a 2:48:38 horas). Com Zakarin fora da disputa pela geral, o português recebeu luz verde para procurar um triunfo. Bem tentou ao entrar em fugas e merecia ter recebido pelo menos um prémio de mais combativo, mas a votação foi quase sempre a favor dos espanhóis. Boa corrida de Machado, numa altura em que ainda não se conhece o futuro do ciclista português. José Gonçalves abandonou na 13ª etapa, ele que esteve longe da forma do Giro, onde foi também a figura da equipa.

Burgos-BH: Apostou nas fugas e na experiência de José Mendes e Jetse Bol, contratado em Agosto à Manzana Postobón para reforçar a Burgos-BH a pensar na Vuelta. O português esteve mais activo do que o holandês, mas em geral a equipa mostrou que precisa de crescer para ambicionar ser algo mais do que uma camisola a mostrar, mas que desaparece quando as decisões das etapas se aproximam. Mendes teve uma temporada complicada, devido a uma queda na Clássica da Arrábida que o deixou fora de competição durante algum tempo. A época acabou por se centrar muito na Vuelta, mas também não foi feliz, com alguns azares pelo caminho, mas foi o melhor da equipa na geral: 83º, a 2:57:10 horas de Simon Yates. A queda grave de Jordi Simón, continua internado no hospital, acabou por marcar a corrida de uma das equipas espanholas que este ano subiu a Profissional Continental.

»»A vitória da nova geração««

»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

15 de setembro de 2018

A vitória da nova geração

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Alejandro Valverde é um senhor no ciclismo. Quando se pensava que já não voltaria a estar numa disputa por uma grande volta, eis que surge numa forma invejável, ainda mais tendo em conta a sua idade. Aos 38 anos, continua a ser dos ciclistas mais fiáveis que uma equipa pode ter. Porém, é humano como todos os outros e quebrou como tantas vezes se vê acontecer com os melhores. E nem é uma questão de idade. É uma questão de ser um atleta. Simon Yates que o diga. Há quatro meses viveu o mesmo pesadelo de ver escapar-lhe uma grande volta, ele que até era o líder. Num ponto a idade faz diferença: Valverde não sabe se terá mais oportunidades como esta Vuelta, Yates sabia após o Giro que tinha tempo para tentar de novo.

Em Espanha esperou-se pelo triunfo de uma das referências, mas o que aconteceu foi o aparecer da nova geração, com um espanhol entre um trio de enorme futuro, o que compensou de certa forma a desilusão de Valverde não vencer e nem no pódio terminar. E principalmente descansou os muitos que temiam que a sucessão de Alberto Contador, Purito Rodríguez ou Valverde não parecia estar à altura destes nomes.

Haverá muita reflexão a fazer na Movistar, mas o dia pertence a Simon Yates e Enric Mas. Domingo o britânico receberá a atenção completa, mas pelo que o jovem espanhol fez, tem de ser um dos destaques da última etapa de montanha e mesmo da Vuelta.

Começando ainda assim por Yates. À medida que a curta tirada de 97,3 quilómetros por Andorra - com cinco subidas e uma sexta de categoria especial - ia avançado, num ritmo não muito rápido, tornava-se claro que Yates continuava muito bem. A Mitchelton-Scott controlou o andamento durante uma primeira fase, mas rapidamente foi só o irmão Adam que ficou com Simon, principalmente quando a Astana começou a preparar a jogada de López. Chegou ter Adam e nem teve de trabalhar tanto como se esperava. A 17 quilómetros da meta, Simon, que já muito tinha analisado a concorrência, percebeu que era o momento de atacar. É assim que corre. A lição que ficou do Giro não foi esquecida e tornou Simon Yates mais forte, mais completo. Geriu o esforço de forma perfeita. O Giro tornou-o num voltista, a Vuelta transformou-o num vencedor e a partir de agora tem-se a certeza que pode ganhar uma grande volta e não vai demorar começar-se a falar quando irá atacar o Tour.

O camisola vermelha juntou-se na frente da corrida a Miguel Ángel López, que muito tentou mexer na corrida. Enric Mas completou um trio - Nairo Quintana também estava na frente, mas acabaria por ter de esperar por Valverde - e com os objectivos dos três a encaixarem na perfeição - um pouco à imagem do que aconteceu na sexta-feira, mas com Thibaut Pinot e Steven Kruijswijk -, colaboraram e concretizaram o que pretendiam. López e Mas sabiam que com Yates nesta forma não iriam surpreender com uma vitória na Vuelta, pelo que apontaram ao pódio e lutaram entre eles pela etapa. Desta vez López ficou em branco, mas subirá ao terceiro lugar do pódio em Madrid. Enric Mas venceu a sua primeira etapa numa grande volta e fez um segundo lugar completamente inesperado.

O espanhol da Quick-Step Floors tem 23 de anos de muito talento. Por esta altura em 2017 em Espanha lamentava-se o adeus de Alberto Contador, que não deixava um sucessor claro. O próprio tinha alertado para Mas, um ciclista que conhece bem, pois passou pela equipa da sua fundação. No ano passado pouco se viu de Mas na Vuelta, agora é a revelação. Talvez um pouco mais. Pode mesmo ser a confirmação que a nova geração espanhola está aí. O seu feito é ainda mais notável quando está numa equipa que pouco aponta às classificações gerais em grandes voltas, pelo que Mas teve pouca ajuda, mas foi suficiente, pois soube bem como colocar-se no pelotão e procurar os momentos certos para subir na classificação e agora ganhar a sua primeira etapa numa corrida de três semanas.

Confirmada também está que a nova geração do ciclismo nas grandes voltas vai começar a ocupar o seu lugar de destaque. O pódio desta Vuelta é do mais jovem que se tem visto em anos recentes. Yates tem 26 anos, López, 24. Olhando para os pódios nas últimas edições de Giro, Tour e Vuelta, há sempre pelo menos um ciclista de maior experiência num dos lugares.

Este trio vai agora entrar na fase de ter de mostrar que não é por acaso que alcançou o sucesso na Vuelta. No caso de López é o segundo terceiro lugar consecutivo, depois de o ter feito em Itália, em Maio. Fica-se à espera que melhore no contra-relógio para que possa ser uma ameaça maior para vencer uma grande volta. Mas que dá espectáculo, isso dá.

López, Yates e Mas são idênticos na forma como encaram as corridas. Arriscaram, procuraram o resultado e não ficaram tão à espera do que poderia acontecer. Resultou. O conservadorismo saiu derrotado na Vuelta.

Se a este trio juntarmos um Tom Dumoulin, Primoz Roglic (um pouco mais velho, 28 anos, mas agora a afirmar-se nas três semanas), a melhor versão de Fabio Aru (ainda não se perdeu a esperança que o italiano vai confirmar o que mostrou quando venceu a Vuelta há três anos). E claro, os jovens que tal como Enric Mas estão agora a aparecer: Egan Bernal, Richard Carapaz, Marc Soler, Sam Oomen (para já preso ao papel de gregário de Dumoulin)... Podemos respirar fundo, pois não vai faltar qualidade nos próximos anos. E ainda poderemos ter o bónus de muitos serem precisamente ciclistas de ataque, de gostarem de mexer com as corridas, de assumirem os riscos. São sempre características apreciadas e que proporcionam espectáculo. Só mais um nome: Adam Yates. Talvez ver o irmão ganhar, motive o gémeo a também atingir um potencial que demonstrou ter, tal como Simon, como sub-25.

Fica ainda a nota de como Simon Yates ajudou a fazer um pouco de história. Pela primeira vez uma nação venceu as três grandes voltas com diferentes ciclistas. É o poderio da Grã-Bretanha a afirmar-se: Chris Froome venceu o Giro, Geraint Thomas o Tour - ambos ciclistas da Sky - e agora Yates a Vuelta. E feitas as contas são cinco conquistas consecutivas para os britânicos, já que Froome venceu em França e em Espanha em 2017.

Os derrotados

Alejandro Valverde foi o maior derrotado, pois de sonhar com a segunda conquista da Vuelta, acaba no quinto lugar, a 4:28 minutos de Yates. Que quebra teve o espanhol nestes dois dias decisivos. Com Nairo Quintana a já ter falhado antes, a Movistar sai da Vuelta com praticamente todos os objectivos falhados. Valeram as duas etapas ganhas por Valverde.

Segue-se Steven Kruijswijk. O forma iô-iô do holandês da Lotto-Jumbo nesta Vuelta custou-lhe o pódio. Tanto mostrou-se forte, como quebrou no dia seguinte. Sai derrotado, mas de cabeça bem levantada, pois foi uma excelente temporada para Kruijswijk. Quando parecia que iria perder protagonismo para os dois ciclistas em ascensão dentro da equipa, George Bennett e Primoz Roglic, o holandês renasceu com um quinto lugar no Tour e agora um quarto na Vuelta.

Tony Gallopin (AG2R) e Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) viram o top dez escapar nesta última etapa de montanha. O francês tem uma etapa que faz com que a sua Vuelta seja sempre positiva. O alemão mostrou que a equipa pode trabalhar mais com ele para o tornar num voltista de qualidade, mas falhar o top dez vai deixar um sentimento de frustração.

21ª etapa: Alcorcón-Madrid, 100,9 quilómetros



Falta a consagração de Madrid, numa Vuelta marcada por reviravoltas, incertezas, jogos tácticos, ciclismo de ataque e com o melhor a ficar guardado para o fim, muito por culpa de Yates, Enric Mas e López. Há ainda um Thomas de Gendt (Lotto Soudal) que venceu a classificação da montanha e foi um constante animador das etapas, tal como Bauke Mollema (Trek-Segafredo), que pode não ser um ciclista para ganhar uma grande volta, mas este lado de lutar por etapas e pela montanha, poderá ser uma vertente a explorar agora que a equipa irá ter Richie Porte para a geral. A correr assim, talvez Mollema tenha mostrado que não merece ser reduzido apenas a gregário.

Alejandro Valverde lidera nos pontos, mas no combinado é Yates quem está em primeiro. A Movistar subirá ao pódio como melhor equipa. Se no Tour fizeram desta classificação um objectivo, agora o director desportivo Eusebio Unzué terá dificuldade em esconder que não serve sequer de consolação. Enric Mas é o melhor jovem, ainda que na Vuelta esta classificação não existe, com apenas um dorsal vermelho a identificar este ciclista. Mas fica a distinção.

Falta saber quem vencerá a última etapa. Elia Viviani procura a terceira vitória de etapa, com Peter Sagan desejoso de celebrar um último triunfo com a camisola do arco-íris. O eslovaco já soma três segundos lugares e dois terceiros nesta Vuelta.

Dos portugueses, Nelson Oliveira (Movistar, 71º a 2:29:30 horas), Tiago Machado (Katusha-Alpecin, 79º a 2:48:01) e José Mendes (Burgos-BH, 84º a 2:57:10) vão chegar a Madrid, salvo algum imprevisto. José Gonçalves (Katusha-Alpecin) abandonou na 13ª etapa.

Pode ver aqui as classificações completas.

»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

»»Ao ataque««

14 de setembro de 2018

Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Um senhor ciclista. Simon Yates olhou para o Giro e inverteu a sua táctica. Em três semanas é sempre importante não começar mal, não ter nenhuma grande quebra a meio, mas o essencial é mesmo acabar bem. Yates está a acabar muito, muito bem. Que ciclista emocionante de ver foi o britânico numa subida longa, em que até se esperava que pudessem ser feitas diferenças, mas poder ser a que decide a Vuelta, não estava nas expectativas... Mais um pormenor inesperado nesta corrida tão recheada deles. Não está ganha, mas o maior de inimigo de Yates é ele próprio quando faltam os 97,3 quilómetros mais esperados.

Não houve planos, nem pretensões de conseguir colocar a vantagem de 25 segundos em 1:38 minutos! Yates seguiu os instintos, pois este britânico não segue o exemplo calculista de um popular compatriota da Sky que tanto gosta de olhar para o potenciómetro, ele que pode suceder precisamente a Chris Froome no historial de vencedores da Vuelta. Yates está a afirmar o seu estilo, a sua forma de estar, a sua forma de não ficar à espera de ninguém e de tomar as rédeas do seu destino. Se se sente bem, ataca. Foi o que fez. Admitiu que foi o momento que lhe pareceu ideal para o tentar fazer. Ainda faltavam mais de nove quilómetros. Mas foi a altura mais do que certa.

Jack Haig tinha sido fenomenal quando Nairo Quintana atacou para preparar caminho para Alejandro Valverde, ou talvez ele próprio reentrar na luta pelo menos pelo pódio. Porém, foi o gregário de Yates quem preparou o melhor caminho para o seu líder e nem foi preciso Adam Yates entrar ao trabalho. Mais força fica para sábado. A Movistar saiu derrotada em todas as frentes. Tentou o abanico, Yates assustou-se, mas fechou o espaço.Na subida final, Quintana não só não conseguiu que o seu ataque abanasse Yates, como ainda viu o britânico apanhá-lo e quando foi ajudar Valverde, foi nessa altura que a diferença começou a aumentar para a frente da corrida. Nada correu bem a Quintana nesta Vuelta e nesta 19ª etapa até furou na última subida, só para completar a lista do que não correu bem ao colombiano.

Yates foi aquele ciclista que nas duas primeiras semanas de Giro não deu hipóteses. Na Vuelta deixou o melhor para o fim e se não falhar, se não tiver nenhuma quebra, nenhum azar, talvez desta vez o que parece ser pode mesmo realizar-se na Volta a Espanha: Yates vencer a sua primeira grande volta.

Não se pode dar mérito apenas ao britânico da Mitchelton-Scott. Os companheiros de ocasião foram essenciais para que a vantagem crescesse tanto. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) ajudou a pensar na vitória de etapa - a segunda ficou garantida para o francês - e para aproveitar subir na classificação. Passou de nono para sétimo. Mas foi Steven Kruijswijk o outro grande vencedor do dia.

Tinha-se aqui dito que o holandês precisava de se mostrar na alta montanha ao nível que tinha apresentado no contra-relógio. O holandês da Lotto-Jumbo fez isso mesmo e está novamente no pódio. Não foi quem mais ajudou Yates e até quebrou, mas o trio pegou nos seus interesses individuais e trabalhou em conjunto para os concretizar. Todos ficaram felizes no fim. Kruijswijk está a 1:58 de Yates e Valverde ficou à distância de 20 segundos.

Mau dia para os ciclistas espanhóis com Enric Mas (Quick-Step Floors) a não conseguir estar tão forte como em dias anteriores. Escapou-lhe o terceiro posto e a ambição de surpreender ainda mais fica agora para trás. Sábado irá à procura de um pódio que ficou a 17 segundos.

Se na 20ª e penúltima etapa já se esperavam ataques, perante as diferenças e sabendo que não haverá mais oportunidades, não há tempo para se ser conservador. Atacar é a solução, esperando Valverde sentir-se melhor, ele que mais uma vez não se deu com altitudes acima dos 1500 metros.

O pleno britânico nas grandes voltas está perto de se concretizar. Chris Froome, Geraint Thomas e agora Simon Yates poderá estrear-se, tal como Thomas, nestas vitórias. Tem apenas 26 anos e todo o trabalho da Mitchelton-Scott em criar um vencedor deste nível poderá finalmente concretizar-se.

No entanto, é necessária uma última demonstração de classe de um ciclista que este ano demonstrou tê-la em abundância e que depois de lhe ter faltado maior inteligência táctica e de gestão de esforço, em seis meses assimilou as lições do Giro para não repetir o desgosto. Talvez seja um dia em que possa tentar controlar um pouco mais os adversários, ser um pouco mais calculistas, ainda que para Yates a melhor defesa seja mesmo o ataque.

Faltam 97,3 quilómetros com uma segunda, três primeiras e uma terceira categoria antes da última rampa da Vuelta. Uma categoria especial para terminar, como só poderia ser numa corrida como esta Volta a Espanha. O pelotão arrancará de Andorra e o Coll de la Gallina definirá se Yates aguentará a última investida dos adversários - Valverde prometeu não atirar a toalha ao chão - ou se esta Vuelta tem uma derradeira surpresa para revelar.

Coll de la Gallina tem uma contagem de montanha de 3,5 quilómetros, mas a subida começa antes. Na fase final, serão rampas de 11%, 7% e 9%. Sendo uma etapa tão curta, será uma espécie de sprint para os trepadores. A etapa poderá ser vista na íntegra no Eurosport e a TVI24 também irá começar a sua transmissão mais cedo do que o habitual para que não se perca nada da muito aguardada etapa da Vuelta.


13 de setembro de 2018

Ao ataque

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dois dias para tudo decidir. Simon Yates e Alejandro Valverde podem liderar o favoritismo para lutarem entre eles pela vitória na Vuelta, mas Enric Mas demonstra uma tremenda atitude para quem tem apenas 23 anos e está na sua segunda grande volta. O espanhol quer ir ao ataque e tentar levar a surpresa da sua exibição ainda mais longe. Também Yates assume um discurso ofensivo, ainda que um pouco mais comedido. Só Valverde revela uma forma de estar expectante, mais do género: "vamos ver". Mas há 25 segundos para recuperar, pelo que o espanhol também não ficará à espera que o rival falhe. A experiência é muita, pelo que não surpreende a sua postura mais sensata, por assim dizer.

Tenta-se perceber se os dois percursos decisivos da Vuelta favorecem mais um ou outro ciclista, mas depois de tantas dificuldades, de ganhos e perdas de tempo, Yates e Valverde acabam por estar a um nível idêntico e ambos parecem mais convencidos que será no sábado que se tentarão fazer as diferenças. Bluff? Enric Mas não o faz. "Se as forças me acompanharem, talvez eu possa tirar alguma vantagem." Esta postura de Mas pode baralhar os planos dos dois primeiros. O espanhol tem estado a subir de forma durante esta Vuelta e se a inexperiência o poderá trair, a irreverência tem sido um elixir de sucesso.

"Conheço muito bem as estradas de Andorra. Sei onde atacar. Se me sentir com força, sem dúvida que o farei", disse Mas. Yates é britânico, mas Andorra também não tem segredos para ele. Afinal é um dos muitos ciclistas que fez daquela região a sua casa. "As etapas serão muito difíceis, mas estou entusiasmado. Estou só a tentar fazer a minha corrida. Penso que posso ganhar", afirmou um Yates, que ao dizer que quer fazer a sua corrida, já se sabe, é ao ataque que melhor sabe pedalar.

Temos então o sábio Valverde. "Quanto às estratégias, vamos ver como será o dia. Vamos ver como estamos e como estão os nossos rivais. Na parte final veremos o que se passa", referiu. Lá está: a postura do "vamos ver". Este discurso é de alguém que não quer revelar nada do que está planeado. A Movistar assumiu que estava na Vuelta para ganhar. Nairo Quintana desiludiu, mas Valverde confirmou como aos 38 anos continua num nível altíssimo de competitividade. Até o próprio admite que não esperava estar tão bem nesta altura da competição.

Valverde não é tão metódico como Quintana, mas também não é de se lançar ao ataque de qualquer maneira. O plano está delineado. Para amanhã e para sábado e poderá muito bem passar por ver se um eventual nervosismo afecta Yates ou tentar provocar esse nervosismo. Afinal ainda não foi há muito que o britânico esteve nesta situação de líder e perdeu-a. Foi precisamente na 19ª etapa do Giro que tudo se desmoronou e ficou sem a camisola rosa. Yates está diferente, aprendeu a lição, assim como a sua equipa, Mitchelton-Scott, e o ciclsita está decidido a manter a vermelha. Valverde mais decidido está para vencer pela segunda vez a Vuelta, quando se pensava que tal já não seria possível nesta fase tardia da carreira. E Mas? Porque não uma última reviravolta numa corrida em que o que parecia ser, teve tendência a não se confirmar.


Três ciclistas de enorme qualidade. Três personalidades distintas, mas que no ciclismo são todas sinónimos de espectáculo. Assume-se um trio de candidatos - Mas (Quick-Step Floors) tem 1:22 minutos de desvantagem -, que pela forma que apresenta, é um trio perfeito para um final emocionante. É isto que se pede depois de quase três semanas de ciclismo.

E claro, se mais alguém quiser reentrar na luta numa Vuelta em que tudo é possível, nem que seja pelo pódio, haverá então mais ataques. Miguel Ángel López (Astana, a 1:36) não tem medo nem nada a perder em arriscar. Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo, a 1:48) não é de grandes mudanças de ritmo, mas, capaz do melhor e do pior, tem de mostrar na montanha a força que mostrou no contra-relógio.

19ª etapa: Lleida - Andorra. Nauturlandia, 154,4 quilómetros

Para começar, um dia de final mais explosivo, antes da curta etapa de muita montanha, num dos dias mais esperados do ano no ciclismo. Esse é só no sábado. Primeiro há que passar o Coll de la Rabassa. 17 quilómetros com os dois primeiros (nem isso) a obrigarem a todos a estarem bem atentos. As pendentes aproximam-se dos 14% (nada de mais para quem já enfrentou de 24%!), mas depois irão variar entre 7/8%, baixam para os 3/4% e serão estas oscilações constantes até ao fim da etapa.



Sábado serão os 97,5 quilómetros com três primeiras categorias, uma segunda, uma terceira a abrir e a fechar esta sequência, antes do Coll de la Gallina, uma categoria especial, para um momento ainda mais especial. Sim, já se chegou àquela fase da Vuelta em que se implora: tempo, passa rápido! Mais rápido!

Wallays e o vento frustraram Sagan

Muito quer o eslovaco uma última vitória com camisola do arco-íris. Apesar de ir para Innsbruck tentar o quarto título, Peter Sagan sabe que naquele percurso tão montanhoso seria um milagre ganhar novamente. Por isso, vencer na Vuelta antes de se despedir da camisola (pelo menos por um ano) é algo que tanto quer, que vai até ao fim da corrida, quando não surpreenderia se já tivesse feito as malas.

O pelotão tirou mal as medidas à fuga, que recebeu a preciosa ajuda do vento, que durante muitos quilómetros empurrou o trio pelas costas. Sagan fez um assalto final e aproximou na que então já era uma dupla, mas era tarde. O belga Jelle Wallays deu uma vitória à Lotto Soudal, um dia depois de Thomas de Gendt vestir a camisola da montanha. Sven Erik Bystrom (UAE Team Emirates) perdeu o sprint, com Sagan a cortar a meta logo a seguir, cabisbaixo. Tem apenas Madrid como derradeira oportunidade.

Numa etapa completamente plana, sem contagens de montanha, a média foi de 47,10 quilómetros/hora! Os 186,1 entre Ejea de los Caballeros e Lleida foram percorridos rapidamente, no que Yates considerou ser a etapa mais fácil da Vuelta, apesar da alta velocidade, principalmente da parte final. Já Valverde não gostou tanto do perigo que acabou por ser aquela perseguição desenfreada à fuga. Mas faz parte e foi um teste à atenção de todos.

Pode ver aqui as classificações completas.

»»Quintana pode não ter perdido apenas a Vuelta««

»»Carros da caravana da Vuelta foram vandalizados««

12 de setembro de 2018

Quintana pode não ter perdido apenas a Vuelta

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Desiludido, conformado, derrotado. Nairo Quintana era um homem abatido por mais um dia mau numa grande volta, que o afasta novamente de disputar uma vitória, agora na Vuelta. O ciclista que a Colômbia pensava ser aquele que iria concretizar o sueño amarillo de vencer o Tour, tornou-se num que é constantemente batido pelos adversários, que aposta num conservadorismo que nada de bom lhe tem trazido, mas que parece não querer largar.

Quintana nunca foi um ciclista de loucuras. Houve sempre um toque metódico na sua forma de correr. No entanto, ganhou o Giro em 2014 e a Vuelta em 2016 por assumir-se como um líder, como um candidato, tomando os riscos necessários para que quem ganhar. Porém, as suas vitórias trouxeram a pressão de conquistar o Tour. Chris Froome (Sky) não o deixou. Veio depois o objectivo de ganhar Giro e Tour no mesmo ano. As dificuldades nos contra-relógio mais planos e Tom Dumoulin não deixaram em Itália e em França foi o descalabro de um Quintana esgotado com o esforço inglório feito no Giro. Concentrou-se novamente no Tour em 2018 e falhou por completo, tal como toda a Movistar, que quis enfrentar a Sky olhos nos olhos e acabou por mal assustar. O "castigo" foi ir à Vuelta. Quintana falhou de novo, apesar de ter assumido que esta corrida era mesmo para ganhar.

Conservador por excelência e que tantas críticas lhe valem, das poucas vezes que tentou mexer com a corrida, chegou a fazê-lo a olhar para trás e não com os olhos postos no prémio. Em dois dias, Quintana pagou caro a sua postura. No contra-relógio faltou-lhe o de sempre: maior capacidade para se defender em percursos maioritariamente planos. Na etapa de muita montanha desta quarta-feira, faltaram-lhe as pernas. Nos outros dias tinha-lhe faltado um pouco mais de audácia, que Simon Yates (Mitchelton-Scott), o companheiro Alejandro Valverde e Miguel Ángel López (Astana) não tiveram receio de mostrar. Os dois primeiros estão a recolher os frutos dos riscos, enquanto o outro colombiano não está onde queria, mas pelo menos está a lutar e muito por conquistar o que quer.

Falta sempre algo a Quintana e com mais este falhanço na Vuelta - que só uma reviravolta, que até para esta corrida já é demasiado improvável, poderia evitar - em 2019 poderá começar a faltar um pormenor essencial: estatuto na Movistar. A contratação de Mikel Landa abanou e muito Quintana. A rivalidade interna foi sendo desmentida, mas existe. O espanhol lesionou-se e ficou de fora da Vuelta. O colombiano pensou que seria líder solitário, como não esconde preferir. Valverde mostrou que estava também para disputar a Vuelta e é agora a aposta, com Quintana a assumir que irá trabalhar para o colega.

Se Landa aparecer ao seu nível em 2019 - também ele desiludiu no Tour -, Quintana poderá ver-se definitivamente relegado para um segundo plano. Apostar nos dois, com Valverde como salvaguarda não resultou no Tour. Se se falou da possibilidade de Landa até quebrar contrato com a Movistar, tal não se confirmou. Mas não será de admirar que, tal como aconteceu no ano passado, Quintana seja falado para outras equipas. E se calhar uma mudança até pode fazer-lhe bem. Apesar de ter apenas 28 anos, o crédito está a esgotar-se numa formação que não só tem Landa, como tem um Marc Soler e um Richard Carapaz que não será possível deixar na sombra por muito mais tempo.

Aproximam-se mais tempos difíceis para Quintana a quem neste momento será muito importante demonstrar que também trabalha para a equipa. Falhou como líder. Tem de mostrar que é bom companheiro e ficar ao lado de Valverde para que a Movistar não saia derrotada de mais uma grande volta. A aposta feita no Tour pela equipa pode não ter sido a mais acertada, mas na Vuelta, mesmo com dois líderes, a equipa tem trabalhado e deixado os seus ciclistas bem posicionados. Valverde está a corresponder. Quintana não.

Luta acesa

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Um dia ganha-se, noutro perde-se. Valverde respondeu a um contra-relógio menos bom, com uma subida bem melhor no Alto del Balcón de Bizkaia (a pendente chegou aos 24%!). Recuperou oito segundos, sendo agora 25 os que o separam de Yates. Faltam duas etapas de montanha, mas primeiro há uma algo estranha para a Vuelta: a desta quinta-feira não tem contagens de montanha.

A dose de moral está agora do lado do espanhol, mas Yates tem aspectos positivos a retirar. O irmão, Adam, está de facto bem nesta última semana, tal como a restante equipa. A poupança de esforços da Mitchelton-Scott, que chegou a irritar Valverde e Quintana, está a agora a ter os seus dividendos.

Yates sempre se preocupou mais com Valverde do que com Quintana e tinha muita razão. Porém, nem um nem outro podem descuidar-se. Se têm tudo para serem os dois discutir a Vuelta, há um joker que já está no terceiro lugar. Enric Mas foi mais uma vez sensacional. O espanhol, de apenas 23 anos, da Quick-Step Floors teve mais um grande dia e, ao contrário de Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo), não pagou o esforço do excelente contra-relógio.

Enric Mas aproveitou a quebra de Quintana, López e Kruijswijk para se meter no pódio, a 1:22 de Yates. Começou a Vuelta discreto, foi aparecendo aos poucos e agora está com os melhores, ataca, contra-ataca... Arrisca e está a resultar. Pode não ser visto como a das maiores das ameaças à dupla da frente, mas como hoje ficou provado, se for consistente e manter-se na frente, basta alguém fraquejar que ele aproveita.

Apesar da etapa não ter sido perfeita, López ainda assim subiu a quarto, estando a 1:36. A Astana continua a trabalhar muito bem, faltando agora o Superman, como é conhecido, voar para um resultado que o recoloque na disputa pela vitória, ou pelo menos no pódio. Kruijswijk está agora a 1:48 e Quintana a 2:11.

De quatro candidatos, passou-se a seis no contra-relógio e é possível que se fique reduzidao a dois, com um Mas a espreitar uma surpresa. Neste momento, no pódio está a referência do ciclismo espanhol ainda em actividade e um corredor que tem tudo para vir a ser uma das referências da nova geração.

18ª etapa: Ejea de los Caballeros - Lleida, 186,1 quilómetros

Michael Woods deu a segunda vitória à EF Education First-Drapac p/b Cannondale nesta Vuelta, depois de Simon Clarke na quinta etapa. As vitórias este ano estão a escassear para a equipa americana. Tinha apenas quatro quando chegou a Espanha. O canadiano foi sétimo na geral há um ano, contudo, em 2018, tem com Rigoberto Uran destinado para a geral, Woods perseguiu a vitória de etapa, a sua primeira numa grande volta com uma dedicatória muito especial.

O ciclista, de 31 anos, contou que há dois meses o seu filho nasceu morto. "Perdemos o pequenino. O nome dele era Hunter. Todo o tempo em que ia a subir, estava a pensar nele. Queria ganhar tanto por ele e consegui", confessou o vencedor da tirada entre Getxo e Balcón de Bizkaia (157 quilómetros).

Pode ver aqui as classificações completas, com destaque para a mudança de dono na camisola da montanha. Luis Ángel Maté (Cofidis) cedeu a liderança que controlou desde a primeira etapa em linha. Thomas de Gendt atacou com tudo o que tinha esta classificação nesta etapa e tem agora dez pontos de vantagem sobre o espanhol, que até já tinha ajudado noutra etapa. O ciclista da Lotto Soudal é mais forte na alta montanha, onde Maté não tem consigo aguentar o ritmo e que provavelmente lhe custou uma camisola por que tanto trabalhou.

Esta quinta-feira será então um dia atípico na Vuelta: não há contagens de montanha. Os sprinters podem entrar em acção, antes da chegada a Madrid, no domingo. Depois chegam os dois dias de montanha finais. O último com a muito esperada etapa de 97,5 quilómetros (*).



(*) Por lapso foi referido no texto anterior que esta etapa curta era na sexta-feira. As mais sinceras desculpas pelo erro, que foi entretanto corrigido.

»»Carros da caravana da Vuelta foram vandalizados««

»»Yates, López e Valverde atacam. Quintana mantém conservadorismo que só lhe custa segundos««

Carros da caravana da Vuelta foram vandalizados

O público no País Basco proporcionou um ambiente espectacular, que o vencedor da etapa, Michael Woods, não deixou passar quando falou sobre a sua vitória em Balcón de Bizkaia. A última subida contou com as bermas preenchidas de fãs que o canadiano não escondeu terem sido importantes para o motivarem. No entanto, a manhã para a sua equipa começou em sobressalto. Alguns veículos da EF Education First-Drapac p/b Cannondale foram vandalizados durante a noite, com mensagens pintadas a pedir amnistia para os membros da ETA que se encontram presos e também a dizer para a Vuelta sair do País Basco.

Mas não foram os únicos afectados. A Bahrain-Merida também foi vítima do mesmo acto, tal como carros da comunicação social. Ao todo foram nove os carros da caravana da corrida que apareceram com as frases. A polícia explicou que os veículos estavam estacionados no passeio de La Canilla, na região de Portugalete, e na rua Río Castaños, em Barakaldo, segundo escreve o jornal Marca.

A Volta a Espanha não passou pelo País Basco durante 34 anos. Regressou em 2011 e desde então que a região tem sido presença habitual na corrida, com etapas que agradam aos ciclistas, tanto pela dificuldade, como pelo adeptos. No entanto, o passado ainda não está esquecido por algumas pessoas, o que deixou triste um dos vários bascos que fazem parte da caravana da Vuelta. Juanma Garate, um dos directores desportivos da EF Education First-Drapac p/b Cannondale, partilhou no Twitter a fotografia de um dos carros vandalizados com a mensagem: "Ainda somos assim?"


As frases pintadas nos veículos eram "Amnistía osoa" (amnistia geral) e "Vuelta alde hemendik" (Volta fora daqui). Também durante a etapa aparecem mensagens como "aqui não é Espanha", mas em dia de trabalho, o que mais se viu foi um enorme apoio aos ciclistas e a última subida contou com um corredor de fãs que esperaram horas para ver passar os corredores numa das subidas mais difíceis da Vuelta e nem o nevoeiro que pouco deixava ver no Alto del Balcón de Bizkaia afastou os adeptos.

Já no ano passado a Volta a Espanha também teve um caso de polícia. Foi noutra ponta do país, em Almeria, que o autocarro da Aqua Blue Sports ardeu, deixando a equipa sem transporte. Foi de Portugal que chegou a ajuda, com a então LA Alumínios-Metalusa-BlackJack a emprestar o seu à equipa irlandesa.

No País Basco as razões e a história são bem diferentes, mas no final, ganhou o ciclismo, pois foi um excelente dia de espectáculo, no qual os fãs tiveram forte contribuição pelo ambiente que criaram.

»»Yates, López e Valverde atacam. Quintana mantém conservadorismo que só lhe custa segundos««

11 de setembro de 2018

Baralha e volta a dar. Afinal temos um sexteto

Yates aumentou vantagem para três rivais, mas tem agora mais dois
(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Nesta Vuelta o que parece ser, afinal não é bem assim. Têm-se visto algumas reviravoltas durante as primeiras duas semanas e o contra-relógio trouxe mais uma. É melhor não dizer que foi a última. Quando parecia que os Lagos de Covadonga tinham definido um quarteto, eis que Steven Kruijswijk reentra de rompante na luta pela geral e um Enric Mas não está para esperar mais tempo para se afirmar numa grande volta. O contra-relógio até pode ter alargado um pouco as diferenças a favor de Simon Yates relativamente aos três que começaram o dia como principais rivais, mas ter 1:34 minutos a separar o primeiro do sexto não dá qualquer garantia ao britânico, nem a ninguém que queira estar no pódio em Madrid, no domingo.

Yates foi o principal vencedor do dia, pois conseguiu ganhar vantagem sobre aqueles que eram os adversários até ao início desta terceira semana de competição: Alejandro Valverde, Nairo Quintana e Miguel Ángel López. Porém, Steven Kruijswijk partilha o destaque do dia e até roubou um pouco as atenções. Sabia-se que sabe defender-se no contra-relógio, mas o holandês do Lotto-Jumbo chegou a estar a voar na estrada. Aos 10 quilómetros, dos 32, estava mais rápido cinco segundos que o super especialista Rohan Dennis (BMC). Não aguentou o ritmo para ganhar a etapa, mas foi um contra-relógio fenomenal, daqueles que deixa um bocadinho a quem assiste de boca aberta. Saltou de quinto para terceiro e cortou a diferença de 1:29 minutos para 52 segundos. Agora é também ele um dos principais adversários de Yates.

Depois de ter estado tão bem no Tour, Kruijswijk está ainda melhor na Vuelta. O Giro que lhe escapou em 2016 irá sempre marcar a sua carreira, mas o holandês está a mostrar que afinal pode repetir a exibição e ambicionar de novo a uma grande vitória. Só falta saber se não pagará o esforço deste contra-relógio nas etapas de montanha que aí vêm, a primeira, já nesta quarta-feira.

Há mais uma preocupação para Yates e Kruijswijk tem ainda a vantagem de uma equipa que tem sido forte. Conta também com um jovem Sepp Kuss que tem sido o gregário que mais tem ajudado na montanha. Mas Simon Yates tem razões para sair de Torrelavega a sorrir. O trabalho feito nesta especialidade já tinha dado frutos no Giro e deu agora na Vuelta. Na disputa com Nairo Quintana (Movistar) e Miguel Ángel López (Astana), Yates saiu muito a ganhar: tem mais 42 segundos sobre Quintana (1:15 é agora a diferença, com o ciclista a cair para o quarto lugar) e 51 sobre López (1:34 no total, caiu para sexto). "Não estava preocupado porque melhorei no contra-relógio. Não ia estar à altura do Rohan Dennis, mas não tinha por que estar preocupado", disse Yates, cuja auto-confiança está claramente em alta.

E tem razões para isso. Se Valverde tivesse saído do contra-relógio com a camisola vermelha não teria sido uma surpresa. Na teoria era mais forte nesta especialidade entre o quarteto. Na prática perdeu sete segundos para Yates. Pode parecer pouco comparado com os casos de Quintana e López, mas numa Vuelta que ameaça ser decidida ao segundo, o conta-relógio poderá ter um peso importante nas contas finais.

Em suma, Yates esteve muito bem, Kruijswijk foi fenomenal, Valverde desiludiu, Quintana foi igual a si próprio e López tem de melhorar no contra-relógio com urgência. Não é fácil ganhar uma grande volta sem pelo menos defender-se nesta especialidade. O colombiano da Astana está longe de conseguir fazer uma defesa deste tipo. Pode ter deitado fora a oportunidade de chegar à vitória e talvez ao pódio. Mas é a Vuelta. Não há certezas.

Enric Mas merece um destaque à parte. Pé ante pé foi subindo na classificação, foi aparecendo entre os melhores e nos Lagos de Covadonga deixou a certeza que estava preparado para agarrar um top dez na sua segunda participação na Vuelta. São 23 anos de muito talento, com tanto para evoluir. Até Alberto Contador já se tinha rendido a este ciclista da Quick-Step Floors, tento ele próprio nomeado Mas como um provável sucessor de uma geração que já quase toda terminou a carreira. Está numa equipa que não aposta em vitórias na geral nas grandes voltas, mas aqui está ele para mostrar-se e para mostrar que na estrutura belga também se formam bons ciclistas para estas corridas, como Bob Jungels é também a prova.

Enric Mas fechou no top dez da etapa e entre o sexteto que se formou para a geral, só não bateu Kruijswijk. Recuperou 25 segundos para Yates e se 1:30 de desvantagem, mais a falta de experiência poderá ser um handicap para Mas, o pódio pode e deve tornar-se num objectivo. Já tinha animado a tirada nos Lagos de Covadonga e Mas tem tudo para ser um dos ciclistas que não dará sossego a ninguém. Temos voltista!

Thibaut Pinot ficou a 2:53 num contra-relógio pouco conseguido do francês que vê assim o pódio ficar mais como uma miragem. Do oitavo lugar para baixo são mais de três minutos de diferença para Yates. Pelo que tem acontecido na Vuelta, a racionalidade diz para se ter cuidado em excluir alguém, até porque, com os ataques esperados já a partir de amanhã poderão aparecer mais reviravoltas. Porém, Yates terá sempre mais atenção aos cinco que ficaram abaixo dos dois minutos após o contra-relógio. Tanta gente para controlar!

Na Movistar assume-se a derrota no dia, mas Valverde nem quer ouvir falar de Quintana estar fora da disputa. Em vez disso, avisa que os dois podem jogar em equipa no ataque a Yates. A ver vamos se haverá mesmo união em prol da Movistar. Mas que não se tenham dúvidas: para Simon Yates a melhor defesa será o ataque. Não vai ficar só a controlar.

Baralha e volta a dar. A ver vamos quem terá o ás que o levará à conquista da Vuelta, ou se haverá um joker que provoque uma derradeira reviravolta numa corrida que terá três dias de montanha emocionantes, com uma etapa de 97,3 quilómetros no sábado.

17ª etapa: Getxo - Balcón de Bizkaia, 157 quilómetros


Rohan Dennis andou a poupar-se nos últimos dias para ser avassalador no contra-relógio. Ganhou os dois nesta Vuelta, depois de vencer um no Giro e só não fez o pleno porque Tom Dumoulin (Sunweb), o campeão do mundo em título da especialidade, conquistou o que abriu a Volta a Itália. A missão do australiano ficou cumprida em Espanha e agora vai directamente para a preparação dos Mundiais, abandonando a Vuelta. O companheiro da BMC, Joey Rosskopf, foi quem mais se aproximou de Dennis. Mas o campeão americano da especialidade ficou a 50 segundos!

Nelson Oliveira ficou novamente entre os melhores, fechando com o sétimo melhor tempo, a 1:05 de Dennis. O ciclista da Movistar teve a "desvantagem" de estar a trabalhar arduamente para Quintana e Valverde, pelo que o desgaste teve o seu peso no que, ainda assim, foi mais um motivador resultado para quem também tem os Mundiais em mente. Tiago Machado (Katusha-Alpecin) ficou a 3:14 do vencedor e José Mendes (Burgos-BH) a 4:51.

Pode ver aqui as classificações completas.

Esta quarta-feira a etapa será de enorme desgaste e com muita montanha para atacar. É o dia típico das mais recentes edições da Vuelta. O percurso convida que se mexa na corrida ainda antes do muro final. Oo Alto del Balcón de Bizkaia será uma chegada inédita. Nos 7,3 quilómetros de subida, a meio do terceiro e quase até ao final do sexto, a pendente começa nos 12% e acaba quase nos 24% (gráfico em baixo).



»»Yates, López e Valverde atacam. Quintana mantém conservadorismo que só lhe custa segundos««

»»Yates o mesmo ciclista de Itália... mas numa versão melhorada««