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23 de janeiro de 2018

Aru e Nibali inimigos? "Aprendi muito com o Vincenzo"

(Fotografia: Facebook UAE Team Emirates)
Fabio Aru prepara-se para uma nova fase da carreira depois de seis anos na Astana, durante os quais se tornou num dos mais respeitados ciclistas do pelotão, mas a quem falta dar seguimento à vitória na Vuelta em 2015, mas se tornar em mais do que um candidato a top dez ou pódio. Na UAE Team Emirates, o italiano quer definitivamente ser um candidato à vitória. Quer ser um grande vencedor como o amigo (e até conselheiro) Vincenzo Nibali. Numa recente entrevista, o ciclista de 27 anos falou sobre a sua relação com o compatriota e de como está a apontar aos Mundiais, à Vuelta e talvez ao Giro... ou ao Tour.

Com seis anos a separá-los, Aru ainda está longe do currículo que Nibali apresenta aos 33 anos. Ganhou as três grandes voltas, o Giro por duas vezes, tem duas vitórias em monumentos, ambas da Lombardia, sete etapas na Volta a Itália, cinco no Tour, ao todo 50 triunfos. Aru vai em nove, com uma Vuelta já ganha, mais duas tiradas, além das três no Giro. Os seus melhores anos foram 2014 e 2015, ainda que no ano passado tenho feito quinto no Tour, tendo até vestido a camisola amarela e ganho uma etapa. Porém, falta algo a Aru para dar o passo para um nível de triunfos que já era expectável ter alcançado com maior regularidade O italiano espera encontrar o que lhe falta na UAE Team Emirates, mas também, quem sabe, beneficiando dos conselhos de Nibali.

"Eu sei que muitos pensam que somos inimigos, mas, de facto, somos amigos, vamos pedalar juntos. Às vezes vamos aos jantares de família e passamos muito tempo juntos", contou Aru ao Corriere dello Sport. O italiano admitiu mesmo: "Aprendi muito com o Vincenzo. Para mim é uma motivação. Somos de dimensões diferentes, ele ganhou muito e para mim o Nibali é um objectivo, um ponto de chegada." Para já será a Volta a Espanha que poderá contar com os dois principais símbolos do ciclismo transalpino actual, pois Aru referiu que ainda não está decidido se irá à Volta a Itália, como inicialmente se previa. Nibali preferiu o Tour, já na UAE Team Emirates estará por decidir se a equipa levará todas as suas novas armas a França. Daniel Martin e Alexander Kristoff estão garantidos, mas Aru está a ser equacionado para assim aumentar a possibilidade de pelo menos um pódio em Paris. Numa visão mais portuguesa, continua-se sem saber que papel terá Rui Costa perante estes reforços de luxo.

Amigos, amigos, corridas à parte... Ou talvez não. Se durante todo o ano serão rivais, já nos Mundiais é possível que Aru e Nibali que tenham de trabalhar juntos em prol do título mundial. Quem será o líder? Será preciso esperar e ver como decorre a temporada, mas Aru não duvida que tanto Nibali, como ele próprio trabalharão na ajuda de quem for o número um. "Não quero parecer trivial e vou ser honesto, gostaria de fazer um bom Mundial, mas não disse que o queria para mim", afirmou, salientando ainda que, além dele e Nibali, Gianni Moscon e Diego Ulissi são outros ciclistas que podem muito bem estar em condições de lutar pela camisola do arco-íris. Não haverá dúvidas que a selecção italiana terá o potencial para ser uma das mais forte nos Mundiais de Innsbruck.

E não há entrevista que nas últimas semanas não inclua o tema Chris Froome. Tal como a maioria dos corredores, Aru apela a uma rápida conclusão do processo "para o bem do ciclismo". No entanto, abordou a vertente competitiva, longe do caso do salbutamol: "Honestamente não acho que ele seja imbatível. Nunca penso isso de ninguém. Mas ele é muito forte tanto na montanha, como no contra-relógio. É um incentivo tentar batê-lo."

Contudo, neste momento, nem Fabio Aru, nem nenhum ciclista sabe quando e onde irá poder enfrentar Chris Froome. Resta pensarem neles próprios e é isso que o italiano está a fazer, tendo estado a trabalhar no contra-relógio, vertente que admitiu precisar de melhorar. A estreia de Aru pela UAE Team Emirates está marcada para 21 de Fevereiro, no arranque da Volta a Abu Dhabi. Para a nova equipa será estar a correr em casa e com a responsabilidade de ter o vencedor em prova, Rui Costa, que estará ao lado do italiano. Aru segue para o Tirreno-Adriatico, Milano-Sanremo, Volta à Catalunha, Volta ao Alpes e Liège-Bastogne-Liège.

Quanto ao amigo Nibali, começou a temporada com problemas de estômago que o afastaram da Volta a San Juan. A viagem à Argentina foi em vão, pelo que o italiano da Bahrain-Merida alterou os seus planos. O início de temporada foi adiado para 13 de Fevereiro, na Volta a Omã. Irá cruzar-se com Aru na Milano-Sanremo e Liège-Bastogne-Liège, mas pelo meio fará a Volta a Flandres. É difícil esconder que Nibali quer ganhar mais um monumento, além da Lombardia. A pensar na Volta a França, irá estar no Critérium du Dauphiné.


29 de novembro de 2017

Nibali cumpriu o mínimo exigido na equipa em que os petrodólares prometiam mais

(Fotografia: Giro d'Italia)
Numa outra situação poder-se-ia dizer que para uma equipa que foi construída do zero para entrar directamente no principal escalão do ciclismo, vencer uma etapa e fazer pódio no Giro, ganhar depois uma tirada na Vuelta e alcançar mais um pódio e ainda terminar a temporada a conquistar um monumento, seria uma época fantástica. E é claro que são excelentes resultados. Tomara a muitas equipas. Contudo, para quem chegou com milhões de petrodólares para entrar de rompante no World Tour, o certo é que a Bahrain-Merida ficou um pouco aquém da grandeza que quis ostentar, ou que pelo menos o seu patrão assim quis passar.

O xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa queria uma equipa de ciclismo, aliciou o amigo Vincenzo Nibali a precisar de novos ares, depois de ver a relação com Alexander Vinokourov deteriorar-se na Astana, e contratou o muito experiente director, então na Lampre-Merida, Brett Copeland. Além dos milhões em causa para convencer Nibali a arriscar a carreira num projeto novo, também ajudou ter dado liberdade ao italiano de escolher a maioria dos seus companheiros. Nibali seria sempre o líder indiscutível. Em troca exigiam-se resultados.

Num misto de experiência e juventude, o plantel da Bahrain-Merida apresentou-se interessante: os espanhóis Ion Izagirre (que seria o segundo na hierarquia nas grandes voltas), Javier Moreno, Jon Insausti e o inevitável contingente italiano composto por exemplo por Valerio Agnoli, Manuele Boaro, Enrico Gasparotto, Giovanni Visconti e o veteraníssimo Franco Pellizotti, que cinco anos depois regressou ao World Tour, numa fase em que já pensava mais em terminar a carreira. Nibali levou ainda o irmão Antonio, com Janez Brajkovic, Ramunas Navardauskas, Kanstantsin Siutsou e Luka Pibernik a contribuir para um grupo de qualidade.


Ranking: 14º (5277 pontos)
Vitórias: 12 (incluindo uma etapa no Giro e uma na Vuelta e a Il Lombardia)
Ciclista com mais triunfos: Vincenzo Nibali (4)

Nibali não entrou em loucuras e deixou de parte o Tour (ou seja Chris Froome e a Sky) para estar presente no Giro100, opção perfeitamente justificável, tendo em conta a sua nacionalidade e o percurso passava pela sua Sicília. Chegou a Itália com uma pouco convincente vitória na Volta à Croácia e a Bahrain-Merida tentou apresentar uma união ao estilo Sky, mas também rapidamente se percebeu que era para durar pouco. Não ajudou Javier Moreno ser expulso da corrida por conduta imprópria (empurrou Diego Rosa, da Sky), mas ajudou Pellizotti continuar a ser um ciclista consistente e em boa forma, mesmo aos 39 anos. Foi difícil ver Nibali como verdadeiro candidato, mas ganhou na subida de Bormio, na etapa rainha, e fechou em terceiro. Ainda assim, por mais que se mostrasse feliz, ganhar o Giro era o objectivo e não se viu um ciclista com esse potencial. Claro que quando se recorda 2016... Também parecia a corrida estar mais do que perdida e Nibali acabou com a camisola rosa.

Uma das grandes curiosidades era Ion Izagirre. O espanhol deixou a Movistar para deixar o papel de gregário de Nairo Quintana ou Alejandro Valverde e poder ele ser líder. Ao contrário de Nibali, havia uma elevada expectativa para Izagirre no Tour. Não para ganhar, mas, de resto, tudo parecia possível. Nunca se conseguiu perceber, nem um bocadinho, o que valeria Izagirre como líder. Caiu no contra-relógio inaugural e a época terminou ali, em Dusseldorf, tal como a do antigo companheiro, Valverde.

A responsabilidade recaiu novamente toda em Nibali e em Espanha esteve melhor, mas tanto estava com toda a força, como numa subida mais inclinada e o italiano fraquejava. Ganhou uma etapa e só Chris Froome o bateu. Ainda foi depois até à Lombardia vencer pela segunda vez o último monumento do ano.

O que faltou então à Bahrain-Merida? Faltou mostrar um maior protagonismo e não ficar tanto na expectativa, faltou apostar mais noutras corridas e não centrar-se tanto nas grandes voltas, pois tinha plantel para tal e faltou principalmente estar no Giro ou na Vuelta para ganhar. Apesar dos pódios, Nibali nunca convenceu que poderia bater Tom Dumoulin ou Nairo Quintana em Itália, ou Froome em Espanha. Mantém-se aquele estigma que ganha quando os melhores não estão... Não é justo que tal marque a sua carreira, mas Nibali tem de conseguir bater os grandes nomes da actualidade.

Não fica esquecido uma das estrelas do ano para a equipa: Sonny Colbrelli. Finalmente deu o salto mais do que merecido para o World Tour, depois de muito ajudar a que se falasse da Bardiani-CSF. A etapa no Paris-Nice, prova do principal calendário, foi um momento marcante para o sprinter de 27 anos. Ainda conquistou mais dois triunfos em 2017 e apresentou algumas exibições interessantes. Porém, ficou a sensação que Colbrelli pode fazer mais, mas sofrerá com o facto das atenções centrarem-se em Nibali e depois em Izagirre. Colbrelli tem potencial para estar na luta em algumas clássicas, contudo, terá de desenvolver ainda mais a sua capacidade de trabalhar sozinho pelo melhor posicionamento. Já o fazia na Bardiani-CSF, mas é muito diferente ter de o fazer quando tem pela frente Peter Sagan ou Greg van Avermaet. Nos sprints tem uma missão difícil perante os actuais dominadores da especialidade. Será uma pena (e desperdício) se a Bahrain-Merida não tirar maior partido de Sonny Colbrelli.

Em 2018 chegarão ciclistas que poderão ser importantes para Nibali e para Izagirre, que contará com o seu irmão Gorka. A Movistar perde mais um ciclista de qualidade. Domenico Pozzovivo (AG2R) procura um novo desafio, ainda que vá perder protagonismo, enquanto da Eslovénia chega Kristijan Koren (Cannondale-Drapac) e Matej Mohoric. E este último poderá revelar-se ser uma grande contratação. A UAE Team Emirates abriu os cordões à bolsa para garantir Fabio Aru, Daniel Martin e Alexander Kristoff, mas deixou sair este jovem de 23 anos com um potencial ainda por perceber na totalidade. Venceu uma etapa na Vuelta e andou bem em toda a prova. Como trepador demonstra capacidade para evoluir e tornar-se num caso sério de competitividade, precisando de trabalhar o contra-relógio, onde também revela ter margem de manobra para, pelo menos, se defender bem. Pode ser um ciclista para o futuro se o xeque Nasser bin Hamad Al Khalifa quiser de facto construir um projecto sólido e duradouro.

»»Um ano com Scarponi no pensamento e com as vitórias a escassearem««

»»Bons ciclistas a ficarem cada vez melhor, mas falta mais equipa à Lotto-Jumbo««

»»Um pouco (mas pouco) de Pinot e Démare a confirmar-se nas clássicas. FDJ precisa de mais e melhor««

22 de outubro de 2017

Astana tem dinheiro mas não chega para segurar os seus líderes

Dinheiro não é problema, mas não é suficiente e a Astana é exemplo disso. A equipa do Cazaquistão não consegue segurar os seus líderes das grandes voltas. Em dois anos perde as duas referências, que conquistaram as três competições e no final de 2015 saiu aquele que tinha todo o potencial para vir a assumir essa função, Mikel Landa. Vincenzo Nibali bateu com a porta, depois de ter dado à Astana dois Giros e um Tour, agora é Fabio Aru que se prepara para dizer adeus, depois de uma Vuelta ganha em 2015. Assinou pela UAE Team Emirates de Rui Costa. Ambos os italianos não parecem sair com a melhor das relações com o director Alexander Vinokourov. Mas este não é problema que se resume ao antigo ciclista. Alberto Contador, por exemplo, saiu no final de 2010 e deixou a equipa orfã de uma referência, depois de no ano antes dois dos principais nomes terem estado no plantel: o espanhol e Lance Armstrong.

Essa foi uma época que ainda hoje é recordada, principalmente pela clara divisão que havia na equipa. Mas são outras histórias. Agora a Astana volta a ficar não sem ninguém, mas com alguém com pouca experiência e ainda muito jovem. Miguel Ángel López tem a oportunidade de ouro de ser a única escolha para as grandes voltas. Jakob Fuglsang ganhou o Critérium du Dauphiné - de forma brilhante, diga-se - mas não convence para as três semanas. López tem apenas 23 anos e a sua afirmação tem sido um pouco aos soluços devido a quedas. Porém, depois de muitos meses sem competir por uma fractura na perna, o colombiano chegou à Vuelta, venceu duas etapas e fez oitavo na geral. Estará pronto para assumir a candidatura a um pódio, pelo menos?

Vinokourov não terá hipótese senão tentar apostar em López, se o mercado não trouxer nenhuma surpresa de última hora. Certo é que não terá um ciclista de renome disponível. E não foi por falta de tentativa. Perante a mais que certa saída de Aru, o responsável cazaque tentou tudo: levou um não de Rigoberto Uran, que preferiu ficar na estrutura da Cannondale-Drapac após ficar garantido um novo patrocinador para 2018; tentou explorar a relação mais distante entre Eusebio Unzué e Nairo Quintana na Movistar, mas o colombiano quer cumprir contrato com a formação espanhola; ainda tentou o regresso de Mikel Landa, mas depois de ter deixado a Astana há dois anos, nem quis pensar em regressar.

Landa era então um ciclista com futuro e quem bem esteve no Giro de 2015, como gregário de Aru. Agora é uma confirmação que a Astana perdeu um excelente ciclista a quem lhe falta agora uma vitória numa grande volta. Nibali pertence à elite de quem venceu as três e Aru é inevitavelmente uma das principais esperanças italianas de continuar a ganhar depois da Vuelta há dois anos.

A personalidade forte de Vinokourov é bem conhecida. Estes três ciclistas também a têm. Nem sempre é fácil conjugar a vontade de todos. Nibali, por exemplo, saiu mesmo de costas voltadas para o cazaque. Quando percebeu que não haveria hipótese de manter o seu estatuto perante o despontar de Aru, Nibali bateu com a porta e foi para a nova Bahrain-Merida. A Astana não se importou. Afinal tinha a sua nova grande estrela. Porém, este ano deparou-se com a intenção do italiano seguir o seu caminho. É certo que Aru estava a pedir um ordenado bem alto (fala-se em mais de dois milhões por ano), mas esse não terá sido o problema. As declarações de Vinokourov deixam transparecer que havia algo mais.

"Nunca comentou o seu desejo de sair. Questionámos regularmente sobre o seu futuro e nunca recebemos resposta", disse ao L'Equipe. O responsável disse mesmo que soube da assinatura com a UAE Team Emirates pela imprensa, criticando a atitude porque agora a Astana fica "numa situação complicada para contratar", por ser "demasiado tarde". Que Vinokourov não soubesse das intenções de Aru, ninguém acredita, mas denota que a comunicação entre os dois já não era a melhor...

Numa perspectiva de quem gosta de ciclismo, poder ver López a ter mais oportunidades é óptimo, tendo em conta que é um ciclista que dá espectáculo e vitórias. É chamado de Superman López e na Colômbia já vai roubando as atenções a Quintana e Uran. Quanto a contratações, o espanhol Omar Fraile é um bom corredor para lutar por etapas e gosta muito de tentar as camisolas da montanha. Jan Hirt será a curiosidade. Este checo de 26 anos esteve muito bem no Giro, ao serviço da CCC Sprandi Polkowice - futura equipa de Amaro Antunes -, mas falta saber como será a sua adaptação ao World Tour. Talento tem, mas às vezes não chega.

Este ano a Astana perdeu Michele Scarponi pela pior das razões. Era um ciclista muito importante, mesmo estando relegado a um papel secundário. Com a saída de Aru, não só poderia reassumir uma liderança, como aliás estava previsto acontecer no Giro100 antes do atropelamento mortal, como seria essencial para ajuda à "educação" de López.

Não se adivinha uma época de 2018 fácil para a Astana, que já passou por momentos idênticos - quando Contador saiu - e acaba sempre por reaparecer em grande. Até porque, lá está, dinheiro não é problema. Já a comunicação...

»»Condutor que atropelou Scarponi estaria a ver um vídeo no telemóvel««

»»Fabio Aru na UAE Team Emirates. Que papel terá Rui Costa em 2018?««

14 de outubro de 2017

105 quilómetros a subir, o próximo desafio de Nibali ao lado de Cadel Evans

(Fotografia: Giro d'Italia)
Depois de ganhar na Lombardia pela segunda vez, naquela que foi a 50ª vitória da carreira, Vincenzo Nibali aceitou um desafio diferente, longe das corridas do World Tour. O italiano da Bahrain-Merida vai até Taiwan para estar ao lado de muitos ciclistas amadores e de um antigo campeão da Volta a França: Cadel Evans. Os dois são inevitavelmente as grandes figuras de uma prova que tem um percurso que coloca à prova o mais puro dos trepadores. 105 quilómetros praticamente sempre a subir, com o início ao nível do mar, mas com a meta a estar a 3275 metros de altitude.

Esta será a sexta edição do Taiwan KOM Challenge, a 20 de Outubro (sexta-feira), e nas anteriores participaram alguns nomes de destaque do ciclismo, como Francisco Mancebo e Omar Fraile. Este último está actualmente na Dimension Data e vai mudar-se para a Astana. No entanto, este é um desafio que não é só para quem compete ao mais alto nível. Em Taiwan, o mais desconhecido dos ciclistas tem a sua oportunidade. E não é todos os dias que se pode pedalar ao lado de Nibali, vencedor das três grandes voltas e dois monumentos, e Cadel Evans, australiano que ganhou a Volta a França e foi campeão do mundo. Está retirado desde 2015, mas Evans de vez em quando reaparece neste tipo de provas que o continuam a desafiar, mesmo aos 40 anos. De recordar que Cadel Evans dá nome a uma das corridas que agora marca o arranque de calendário World Tour.

Gráfico dos últimos quilómetros
O Taiwan KOM Challenge faz parte de um conjunto de quatro corridas que decorrem durante o ano nesta ilha asiática. As suas paisagens paradisíacas são um do atractivo, com muitos dos ciclistas a admitirem que é de facto um palco lindíssimo para se pedalar. Mas não deixa de ser uma corrida e os Nibali - o irmão de Vincenzo, Antonio, também estará presente - e Evans irão ter uns primeiros 20 quilómetros para aquecer em Hualien Qixingtan, mas depois, aos poucos, o terreno começa a inclinar.

Com alguns locais a ultrapassarem os 10% de pendente, é a parte final que vai testar o mais resistente dos corredores. Depois de uma pequena descida, os ciclistas voltam a subir e vão encontrar uma rampa de 27%, antes de... subirem mais um pouco até à meta em Wuling Pass.

Esta é uma festa de ciclismo que junta centenas de amantes da modalidade, divididos pelas diversas categorias, dos mais novos, aos mais velhos, com lugar para as senhoras. Nibali e Evans ajudam à publicidade da corrida e promoção de Taiwan. Mas lá que é um desafio interessante para quem pratica ciclismo, seja a que nível for, lá isso é! E o vencedor terá um cheque de cerca de 14 mil euros à sua espera.

»»Qual é o lugar de Nibali na história?««

7 de outubro de 2017

Qual é o lugar de Nibali na história?

(Fotografia: Facebook Il Lombardia)
Esta foi uma pergunta muito feita a Chris Froome depois do britânico ter vencido a Vuelta. Pode-se também fazer a Vincenzo Nibali. O italiano é uma espécie de mal-amado no ciclismo, mas quando se olha para o currículo, tem um que o coloca entre a elite. Mas então porque razão é tão menosprezado? Nibali venceu a três grandes voltas e este sábado somou o seu segundo monumento, ao vencer novamente na Lombardia. Foi também a sua 50ª vitória na carreira. Aos 32 anos, Nibali pode parecer não ter nada a provar. Ainda assim falta algo aos olhos de muitos.

O italiano não se consegue livrar da fama de vencer quando não estão presentes os principais candidatos. Este é o factor que assombra a sua conquista da Volta a França em 2014, por exemplo, e também a Vuelta em 2010. Mas é principalmente o Tour que ficou na memória. Nesse ano esperava-se uma grande luta entre Chris Froome, então à procura da segunda vitória consecutiva, e um em forma Alberto Contador. Ambos acabaram por abandonar devido a quedas e Nibali aproveitou a passadeira estendida. Conquistou o Tour com mais de sete minutos de vantagem para Jean-Christophe Peraud e mais de oito para Thibaut Pinot. Um pódio do mais inesperado dos últimos anos.

Se Froome estivesse... Se Contador não tivesse caído numa descida... De "ses" não se faz a realidade. Se não fosse Nibali, outro teria aproveitado a oportunidade para vencer aquela que continua a ser vista como a mais importante corrida de três semanas. Pode ser complicado dar-lhe o mérito, mas Nibali teve todo o mérito na forma como conquistou esse Tour.

Hoje, na Lombardia foi perfeito, ou quase. Era desnecessário aquele ataque quando Pinot tinha acabado de agarrar um bidão. São estes pequenos pormenores que não ajudam a Nibali ganhar um maior respeito. Será sempre lembrado por se ter agarrado ao carro na Vuelta de 2015 para recuperar o lugar no grupo da frente, depois de ter ficado num corte do pelotão. Foi um acto de tão baixo nível, que ainda hoje se fala de um gesto à Nibali, sempre que um ciclista repete a batota.

Mas voltando à Lombardia deste sábado. A Bahrain-Merida teve das melhores exibições do ano em corridas do World Tour. Era claro que iria ser todos contra Nibali. Foi Thibaut Pinot quem mexeu com a corrida perto do final. Nibali esperou pelo momento certo para ir buscar o francês e na descida já se sabe, o italiano é dos melhores do mundo. Isso ninguém nega. Pinot está muito mais ágil a descer, mas nunca há-de chegar ao nível de Nibali. Perdeu assim a Lombardia. Ou melhor, assim ganhou o italiano a Lombardia. Faça-se justiça. Foi uma exibição de enorme nível frente a um pelotão de luxo (que pena Tom Dumoulin ter falhado à última hora devido a doença, pois certamente que teria ajudado ao espectáculo).

Olhando para os números, Nibali teve um ano sensacional. Olhando para os números, Nibali tem de figurar entre os melhores da história. Mas os números nem sempre contam tudo. Recuando ao Giro. O italiano foi terceiro a apenas 40 segundos de Tom Dumoulin. Porém, esperava-se mais. Nunca foi um Nibali realmente candidato a conquistar o seu terceiro Giro. Em 2016 proporcionou uma reviravolta fantástica na corrida, quando parecia que estava prestes a ir para casa, recuperou física e psicologicamente para vencer... com uma ajuda da queda Steven Kruijswijk (lá está, sempre algo que parece minimizar o mérito).

No entanto, este ano esteve muito defensivo, parecia simplesmente intimidado por a corrida ter Nairo Quintana e depois por Tom Dumoulin ter aparecido simplesmente grandioso. As curtas diferenças devem-se mais à necessidade do holandês de ter de melhorar na alta montanha do que propriamente por Nibali ter alguma vez assustado Dumoulin. Venceu uma etapa, foi ao pódio, mas não foi o ciclista que se esperaria, principalmente para quem colocou a Volta a Itália como objectivo e não o Tour.

Na Vuelta ficou a 2:15 de Chris Froome. Acabou por ser ele quem mais parecia que poderia ser o adversário do britânico. Froome não teve uma vitória cantada, mas Nibali tanto aparecia a tentar mostrar-se como cada vez que surgia uma subida mais complicada, o italiano teve tendência a fraquejar. Foi difícil vê-lo como verdadeira ameaça.

Quando daqui a uns anos, já com Nibali, Froome e as actuais estrelas a verem as corridas fora das bicicletas, os números vão colocar o italiano como uma referência, principalmente do ciclismo transalpino. Mas falta uma grande vitória frente aos principais nomes, um triunfo que vá além dos números. E terá de ser no Tour. Para o ano irá, tudo indica, à Volta a França. Poderá ser o tudo ou nada para que deixe de ser falado como o ciclista que só ganha quando a concorrência não é tão forte.

Talvez esteja destinado a ser o mal-amado até ao fim, ainda que em Itália seja admirado. É além fronteiras que não gera muito apreço. Também não parece muito incomodado. É um ciclista de personalidade forte, que gosta de fazer tudo à sua maneira, independentemente do que pensam dele. Foi por isso que aceitou de bom grado um projecto como o da Bahrain-Merida. Assim passou  a ter mais do que uma palavra a dizer. Nibali sabe que já tem o seu lugar na história mais do que garantido, goste-se ou não se goste, mas até ele quererá o tal triunfo para história que não seja apenas mais um número.



26 de setembro de 2017

Sanção mais pesada para quem beneficiar de "boleia" dos carros de apoio

(Imagem: print screen)
A partir de 1 de Janeiro de 2018, quem for apanhado a ser levado por um carro de apoio não irá apenas enfrentar a desqualificação da corrida e uma multa de 200 francos suíços (cerca de 175 euros). Gianni Moscon foi o caso mais recente, nos Mundiais de Bergen, mas este ano já Romain Bardet tinha sido desqualificado - e consequentemente expulso - do Paris-Nice pela mesma razão. A UCI quer persuadir que situações destas continuem a acontecer e a nova sanção prevê uma possível suspensão de um mês e a multa sobe para cinco mil francos suíços (cerca de 4400 euros).

Não é invulgar ver os ciclistas tentarem aproveitar a deslocação dos carros para recolar ao pelotão, colocando-se atrás destes ou até agarrarem-se para o mecânico realizar algum trabalho, por exemplo. Desde que não exagerem, por norma não há problema. A questão está mesmo em agarrarem-se e o veículo acelerar, recuperando assim vários metros. Moscon, por exemplo, caiu a 35 quilómetros da meta e depois foi buscar um bidão ao carro. As imagens captam como naquele momento houve uma aceleração, sendo demasiado óbvio já que Sergio Henao, que também tinha caído, ficou rapidamente para trás. O ciclista italiano até chegou a estar numa fuga nos quilómetros finais, foi 29º, mas acabou desqualificado. Outro exemplo muito popular foi o de Vincenzo Nibali na Volta a Espanha de 2015. Tanto ele como o condutor do veículo, membro da equipa da Astana, foram mandados para casa.

Quanto ao caso de Moscon, um dos responsáveis da selecção italiana, Davide Cassani, assumiu publicamente a responsabilidade do que aconteceu. "A culpa foi minha. Eu dei-lhe o bidão e disse-lhe para se agarrar. Sei que não o deveria ter feito e peço desculpa porque toda a Itália fica mal vista. No entanto, o que aconteceu não deverá afectar a imagem do Gianni. Ele não merece ser afectado por isto. Ele é uma boa pessoa e honesta", salientou Cassani, à Gazzetta dello Sport.

Outra mudança nas sanções que será implementada pela UCI em 2018 é relativa a quem atravessa passagens de níveis quando a cancela vai fechar ou já estiver fechada, como aconteceu no Paris-Roubaix, em 2015. Até agora o ciclista seria ou desqualificado ou ainda durante a corrida poderia ser obrigado a abandonar. Agora o infractor enfrentará também uma pena de um mês de suspensão mais a multa de cinco mil francos suíços.

Estas alterações chegam quando David Lappartient foi eleito o novo presidente da UCI, na quinta-feira. No entanto, ainda foram acordadas durante o mandato do antecessor Brian Cookson, tal como a redução do número de ciclistas nas corridas: de nove para oito nas grandes voltas e de oito para sete nas restantes competições.

8 de setembro de 2017

Aí está o tão temido e brutal Angliru

(Fotografia: Mikel Ortega/Flickr)
Se há subida capaz de tirar o sorriso ao mais confiante dos ciclistas é o Angliru. Até os melhores dos trepadores o temem. Esta é apenas a sétima vez que faz parte da Volta a Espanha, mas foi o suficiente para ganhar fama como uma das subidas mais difíceis do ciclismo, com muitos a considerarem mesmo a pior. Este sábado é lá que se vai voltar a decidir uma Vuelta, depois de Juan Cobo o ter feito em 2011, então frente a um Bradley Wiggins, o rei da Sky naquela altura. O Angliru por si só é de tirar o sono a muitos, mas com as previsões a apontarem para a piores das versões da subida... Froome já o disse: "Vai ser brutal!" Contador diz que vai ser um dia de loucos. É um Angliru à chuva que espera pelo pelotão, a tal pior das versões. Mais do que apenas se pensar quem irá ganhar, fica-se também a pensar quem lhe irá resistir?

Aqui vai uma tentativa de explicar porque razão o Angliru é tão temido, ainda mais quando irá decidir uma grande volta que tem sido simplesmente espectacular! São 12,5 quilómetros de ascensão, a terminar uma curta etapa de 117,5 (com duas primeiras categorias "para aquecer"). A primeira metade do Angliru varia entre os 6 e 7%, mas tem logo uma fase a 22,5%. Chega a ter uma fase de descanso, mas quando começa a segunda metade... Cabanes-20%, Llagos-12,5%, Picones-18%, Cobayos-17%, Cueña les Cabres-23,6% e Aviru-20%. O final até é em ligeira descida, mas até lá se chegar será uma batalha de resistência. Aqui não há margem para erros. Um ataque mal feito e de primeiro passa-se rapidamente para uma desvantagem irrecuperável. Uma reacção demasiado tardia a um ataque e poderá já não haver tempo nem força para apanhar quem escapou. O Angliru está na categoria especial de montanhas que os ciclistas sabem que têm de aparecer no seu melhor.

A chuva aumenta em muito a dificuldade. Já houve ocasiões em que os carros nem poderem acompanhar os ciclistas até ao fim porque não conseguiam ter aderência. Um furo, uma avaria mecânica, um imprevisto seja ele qual for e recuperar torna-se numa missão impossível. A maioria dos ciclistas que está a lutar pela geral conhece este Angliru. Froome era um jovem aspirante a suceder a Wiggins quando por lá passou em 2011, ano em que começou a mostrar o seu talento. Foi segundo na geral, a 13 segundos de Cobo. A Sky tanto queria que Wiggins ganhasse que só demasiado tarde deu autorização a Froome para tentar bater Cobo. No Angliru, Froome acompanhou Wiggins até final, perdendo mais de um minuto. A história que entretanto o britânico escreveu no ciclismo é conhecida, mas falta-lhe a Vuelta. São três segundos lugares. "Chega!" Pensará Froome.

O líder da Sky tem 1:37 minutos de vantagem sobre Vincenzo Nibali. Entre os dois, é Froome quem se deu melhor com o Angliru. Não é uma subida que goste, pois aquelas rampas acima de 20% não são as suas preferidas. No entanto, sendo uma ascensão longa, assenta melhor nas suas características de alguém que gosta de impor um ritmo. O italiano da Bahrain-Merida não se importa de subidas longas, mas estas rampas têm sido a sua perdição em algumas ocasiões. A luta pela geral será em condições normais entre estes dois ciclistas, a não ser que o Angliru provoque alguma catástrofre o que nunca é de afastar dadas as dificuldades, não esquecendo que estamos em final de Vuelta, ou seja, muitos quilómetros e muitas subidas já ultrapassadas. Um desgaste físico enorme.

Porém, há um homem que até é provável que roube as atenções a Froome: Alberto Contador. O espanhol tem atacado sempre que pode desde que recuperou da doença que lhe tirou a hipótese de lutar pela Vuelta, na subida em Andorra. Rampas acima dos 20%, subidas longas... Há poucas subidas que não sejam adequadas para Contador. Era ele a mais recente coqueluche do ciclismo espanhol quando venceu no Angliru e ganhou ainda essa Vuelta. Se há candidato à vitória na etapa deste sábado, é Contador. E se Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) e Wilco Kelderman (Sunweb) fraquejarem o mínimo que seja, o espanhol pode recuperar o pouco mais de um minuto de desvantagem que tem. Mais do que o terceiro lugar é difícil, mas a forma como tem estado a pedalar - ainda esta sexta-feira lá foi na última subida do dia, ainda que tenha sido apanhado depois na parte plana -, este Contador pode ser sinónimo de um derradeiro espectáculo. Um daqueles espectáculo que falaremos durante anos e anos!


Um pouco de história

O Angliru aparece na Volta a Espanha pela primeira vez em 1999, na sexta etapa, tendo o então ídolo espanhol José María Jiménez sido o vencedor. No ano seguinte foi o italiano Gilberto Simoni. Em 2002 foi Roberto Heras que também vestiu a camisola da liderança que não seguraria até final da Vuelta. Em 2008 foi Alberto Contador e 2011 o surpreendente Cobo, que fez a corrida da sua vida. A última vez que por lá se passou na Vuelta foi em 2013. Kenny Elissonde tinha apenas 22 anos quando ganhou, a vitória mais importante da carreira do actual ciclista da Sky, mas que então representava a FDJ.

Quanto a recordes, o ciclista mais rápido a subir o Angliru na Volta a Espanha foi Roberto Heras: 41:55 minutos, uma média de 18,3 quilómetros/hora. Segue-se Chris Horner, que não conseguiu ultrapassar Elissonde, mas ainda assim foi mais rápido na subida: 43:06 minutos. O americano - que em 2013 ganhou a Vuelta aos 41 anos - bateu por pouco a marca de Contador: 43:12.

De Gendt é o número 101º

No início desta Vuelta, Matteo Trentin tornou-se no 100º ciclista a conseguir vencer pelo menos uma etapa nas três grandes voltas. Esse era também o objectivo do belga Thomas de Gendt. É o senhor fugas. O rei, mesmo. Ele que já venceu no Stelvio (2012) e no Mont Ventoux (2016), conseguiu em Gijon o seu grande objectivo do ano e um da sua carreira.

Foi ao sprint que De Gendt conquistou a etapa depois de uma fuga que o pelotão chegou a deixar ter quase 18 minutos de vantagem. Bateu Jarlinson Pantano (Trek-Segafredo) e jovem espanhol Ivan García Cortina (Bahrain-Merida), que aos 21 anos tentou ganhar em casa - é de Gijon -, mas acabou por ficar em terceiro.

Para os portugueses foi mais um dia de sofrimento, na perspectiva de pensar: será desta? Rui Costa (UAE Team Emirates) esteve na fuga, trabalhou muito, mas não conseguiu discutir o sprint como queria. Terminou em quarto, mas foram boas as indicações que deixou, numa altura em que irá começar a pensar nos Mundiais... depois de sobreviver ao Angliru, claro!

Veja aqui as classificações.


Summary - Stage 19 - La Vuelta 2017 por la_vuelta


»»Aguenta coração!««

»»Este é El Pistolero! Froome bem avisou...««

7 de setembro de 2017

Aguenta coração!

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Depois desta etapa foi a primeira expressão que ocorreu. Aguenta coração! É uma conhecida expressão dita por uma das vozes de rádio mais conhecida nos relatos de futebol, Nuno Matos, mas que aqui, no ciclismo, assenta perfeitamente com tudo o que está a acontecer nesta Volta a Espanha. Não há sossego, não há momentos mortos. É para lutar até ao fim. Uns dias ganham-se segundos, noutros perde-se e no dia seguinte lá se vai novamente para a batalha. Para aqueles que estão a questionar-se se esta é uma das melhores Vueltas dos últimos anos, aqui fica uma opinião: sim, sem dúvida! Talvez até se possa ir um pouco mais longe: é uma das melhores corridas de três semanas dos últimos anos.

A competição está de tal forma intensa e indefinida, que com duas etapas para terminar (mais a de consagração em Madrid), começam a faltar palavras para descrever, de analisar sem que cair na repetição de palavras como emocionante, excelente, brilhante... Já só dá vontade de pedir que o tempo passe rápido e que chegue a próxima etapa e a do Angliru no sábado. Nesta altura é difícil delinear possíveis tácticas, criar expectativas sobre determinados ciclistas, se vão atacar, se vão quebrar... É de tirar o fôlego até para quem está num sofá a ver a corrida!

Um dia depois de Chris Froome não ter estado tão bem, depois de ter feito um grande contra-relógio, eis que o britânico surpreendeu (um pouco) ao forçar o andamento na última rampa do dia. Era uma subida de terceira categoria, mas como é normal na Vuelta, são autênticas rampas que em poucos metros estragam corridas. E que o diga Vincenzo Nibali. Está bem num dia, mas está mal noutro. Se fosse um pouco mais consistente, se calhar estaria mesmo a pisar os calcanhares a Froome. Como não consegue, hoje perdeu 21 segundos e está 1:37 minutos. Nada que possa deixar o britânico a respirar mais aliviado. Longe disso.

Já aqui se tinha falado das alianças poderem ser a forma de construir uma frente mais forte contra Chris Froome. Ora a aliança aconteceu, mas não bem aquela mais esperada. Alberto Contador (que etapa realizou, outra vez!) que muito mexeu na corrida e sufocou toda a gente, aproveitou a aceleração de Froome para se colar ao britânico. Deixou o líder da Sky sofrer um pouco, contudo, lá deu uma ajuda com mais um autêntico safanão que obrigou Froome a pedalar rápido. Os dois uniram-se para deixar Nibali, Kelderman e Zakarin para trás, enquanto Michael Woods (Cannondale-Drapac) aguentou-se como pôde na roda dos dois homens fortes deste final de Vuelta.

Para Froome foi perfeito ganhar mais uns segundos a Nibali. Da maneira como está a ser esta Vuelta, a estratégia de ganhar todos os segundos possíveis está claramente a resultar. Para Contador é o pódio que fica um pouco mais perto. E não, o espanhol não desistiu de ainda fazer derradeira surpresa. É um objectivo de cada vez. Chegar ao pódio depois de ter estado abaixo do top 30, seria fenomenal por si só. Contador vai fazer tudo para esse objectivo e para ganhar uma etapa - não pode é continuar a deixar as fugas ganharem tanto tempo, mas para isso precisava de uma Trek-Segafredo mais forte em seu redor -, estando sempre à espreita de ver quando Froome possa fraquejar um pouco. Já se percebeu que Contador está endiabrado. É um final de carreira para recordar, seja qual for o resultado!

Wilco Kelderman (Sunweb) e Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) uniram-se primeiro para não deixar fugir em demasia Froome e Contador e depois para ganhar tempo a Nibali. No primeiro caso estiveram bem, pois perderam apenas quatro segundos. No segundo, ganharam 17. Pode não parecer muito, mas dá sempre um alento extra que nestas situações tão indefinidas pode ter o seu papel. É certo que para o russo é mais viável tentar tirar Kelderman do terceiro lugar, mas dadas as circunstâncias de corrida, não desaproveitou a aliança momentânea, não vá Nibali ter mais alguma falha nas duas etapas que faltam e Kelderman não. O italiano, por seu lado, não teve ninguém! Chegou sozinho e cabisbaixo.

O compatriota Fabio Aru, também andou em solitário, mas por escolha própria. O ciclista da Astana pouco conseguiu: ultrapassou Wout Poels na classificação (é agora oitavo) e está empatado com Michael Woods. Porém, conseguiu lançar a discussão que na Astana ninguém se estará a entender com quem tem "prioridade": Miguel Ángel Lopez (duas vitórias de etapa, sexto, a 5:16 e que bem precisou de uma ajuda que não teve nesta etapa), ou Aru (a 6:33), o líder da equipa no arranque da Vuelta, mas que dificilmente conseguirá mais do que ultrapassar Woods e o mesmo o colega López?

Não vale a pena prolongar a escrita. O que se quer mesmo é ver as etapas que faltam e conhecer quem ganha esta super Volta a Espanha.


Esta sexta-feira é mais uma etapa curta (149,7 quilómetros), com a maior dificuldade logo no início. Ou seja, pode ser atacada nos primeiros quilómetros. Ou não... Da maneira como estes ciclistas estão a lutar, tem tudo para ser mais um grande dia, mesmo com o Angliru ali tão perto (sábado). Aguenta coração!

E lá está o vencedor da tirada a ficar para segundo plano! A Lotto Soudal pode não estar a ter aquele protagonismo mais mediático que André Greipel, por exemplo, costuma dar, mas depois de um Tour nada produtivo, na Vuelta a equipa belga somou a terceira vitória. Depois das duas de Tomasz Marczynski, foi Sander Armée que se isolou na última subida e conquistou a sua primeira etapa numa grande volta aos 31 anos.


Summary - Stage 18 - La Vuelta 2017 por la_vuelta



6 de setembro de 2017

Este é El Pistolero! Froome bem avisou...

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Estava Alberto Contador enterrado na classificação geral, a mais de três minutos e com a Volta a Espanha a ter enfrentado apenas a primeira grande dificuldade em Andorra. Para muitos o espanhol estava arrumado e restava-lhe tentar uma vitória de etapa para sair com um momento de glória na corrida do adeus. Chris Froome sempre desconfiou e recusou tirar Contador da lista dos seus rivais. O ciclista da Trek-Segafredo veio depois dizer que tinha estado doente e aos poucos foi recuperando. Três semanas pode de facto parecer uma eternidade numa competição. O Contador que se viu na subida de Machucos nada tem a ver com o corredor infeliz, de ar derrotado em Andorra. Este Contador é o El Pistolero que espalha terror ao atacar numa subida, com todos a tentar seguir alguém que é quase impossível de o fazer quando está em forma. 

Estamos perante um último esforço. Um último tudo ou nada. Não ganhou a etapa, mas ganhou tempo. O espanhol já tinha avisado que o top 10 saberia a pouco. O pódio seria bem melhor. Entrar em Madrid com a camisola vermelha um sonho que está afinal vivo. "Claro que quero ganhar a Vuelta", disse. E porque não? Froome bem avisou, mais do que uma vez, que não se poderia menosprezar Contador e lá está ele a deixar novamente o britânico preocupado em terras espanholas.

A distância ainda é grande, 3:34 minutos, quando faltam três dias para terminar (isto contando que no domingo será a etapa da consagração). Porém, na tirada desta quarta-feira, Contador tirou 1:18 minutos a Froome. Na primeira semana o espanhol era um ciclista triste, que pensava no que poderia fazer para não acabar a carreira sem deixar uma derradeira marca. Agora, Contador é um corredor de motivação renovada e em alta. O pódio está a pouco mais de um minuto, mas se as pernas continuarem a responder como fizeram hoje, Contador ameaça tentar algo mais. Pergunta-se novamente: e porque não? Se é para acabar, que acabe a tentar tudo. Froome nunca o tirou da sua lista e não tendo razões para perder o sono, irá certamente estar bem acordado nas próximas etapas.

É que Contador pode não ser o mais forte candidato a tirar a camisola vermelha de Froome, mas é o mais forte candidato a impulsionar algum ataque que possa levar o britânico a ficar novamente para trás, com Vincenzo Nibali à espreita. O italiano da Bahrain-Merida mostrou-se algo derrotado após o contra-relógio, mas mesmo dizendo que não acredita que Froome esteja mais fraco depois do líder da Sky ter ficado para trás em Machucos, os mais de 40 segundos recuperados, voltam a fazer Nibali acreditar que ainda há uma hipótese, mesmo com uma Sky fortíssima no apoio a Froome.

Terá o britânico pagado o esforço de um contra-relógio em que ganhou tempo a todos? Talvez, mas este tipo de rampas - em Machucos os dois primeiros quilómetros rondaram os 25% - não é o tipo de subida que agrade mais a Froome, que prefere subidas onde possa impor um ritmo. Já Contador adora estas rampas. Notou-se! Nibali não é doido por elas, mas também as aproveita quando se sente bem. Froome não entrou em pânico, preferindo encontrar o tal ritmo. Não é que estivesse assim tão confortável na classificação para ver os seus rivais afastarem-se, mas também é verdade que o esforço do contra-relógio ainda lhe permite ter uma vantagem maior do que a que tinha antes do esforço individual de terça-feira.


Em condições normais poder-se-ia dizer que os dois próximos dias não seriam os preferidos para tentar mexer com a geral, ainda mais quando no sábado o Angliru espera o pelotão. Porém, se realmente Contador, Nibali e não vamos esquecer Wilco Kelderman (Sunweb) e Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), quiserem pressionar Froome, então é melhor não deixar tudo para o fim... Ainda que esse fim no Angliru tenha tudo para ter contornos épicos. Que grande Volta a Espanha!

Em dias como este, em que tanto está em jogo pela vitória final, há tendência a deixar para segundo plano quem resistiu na frente e conquistou um brilhante triunfo. Não terá sido fácil para o austríaco Stefan Denifl gerir o esforço e manter a calma quando sabia que Contador vinha a subir a um ritmo alucinante. Aguentou, ganhou uma excelente etapa e deu uma vitória histórica para a Aqua Blue Sport. Esta nova equipa, de origem irlandesa e que recebeu, algo surpreendentemente, um convite para a Volta a Espanha, viveu momentos difíceis quando na quinta-feira ficou sem o seu autocarro. Alguém incendiou-o, danificando uma boa parte do veículo. A equipa continuou em prova e ganhou em Machucos, um nome que não será esquecido no ciclismo irlandês e austríaco.


Summary - Stage 17 - La Vuelta 2017 por la_vuelta



5 de setembro de 2017

Como é que Froome pode perder a Vuelta

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Chris Froome foi sensacional, mas não resolveu a Volta a Espanha como se calhar pretendia. Bateu todos no contra-relógio e só Vincenzo Nibali não está a mais de dois minutos, mas por apenas dois segundos. O italiano até parecia estar a pedalar rumo a uma catástrofe, mas afinal soube gerir bem o esforço e nos últimos quilómetros recuperou de forma a pelo menos não perder o segundo lugar para um super Wilco Kelderman, que fecha agora o pódio. As distâncias podem não ser decisivas, contudo, mais do que alguém ainda vir a ganhar a Froome, é mais o próprio britânico que poderá ser o principal responsável se perder a Vuelta. Por outro lado, a luta pelo pódio está completamente em aberto. Vão ser quatro dias de nervos.

Os 40,2 quilómetros que começaram no circuito de Navarra e acabaram em Logroños foram encarados por todos como de importância extrema. Não havia tempo para poupanças a pensar na montanha que por aí vem nos quatro competitivos de Vuelta (mais a etapa de consagração de domingo). Todos sabiam que Chris Froome tinha este contra-relógio marcado como um dia essencial para ganhar uma vantagem que pode revelar-se determinante. Froome não desiludiu, Wilco Kelderman foi excelente, Vincenzo Nibali sai um pouco cabisbaixo. Já Alberto Contador esperava mais, mas foi um dos melhores contra-relógios que fez nos últimos anos e para quem já andou fora do top dez, é agora quinto e tem o pódio na mira.

Nibali ficou a 1:58 minutos do britânico da Sky (estava a 1:01) e apesar de não deixar de olhar para a frente na tabela - apesar de estar algo pessimista -, tem mesmo de começar a olhar para trás, pois Kelderman (Sunweb) está somente a 42 segundos. E é melhor o líder da Bahrain-Merida não facilitar nem um metro, é que Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) e Alberto Contador (Trek-Segafredo) podem aproveitar uma subida mais explosiva para criar dificuldades a um Nibali que já demonstrou uma ou outra fraqueza, ainda que tenha sido o rival mais consistente de Chris Froome.

O britânico não arrumou com as decisões na Vuelta, mas ganhou uma margem que lhe vai permitir (e à Sky) controlar ainda mais a corrida, ganhando ainda uma motivação extra pela sua segunda vitória de etapa. Parece impossível controlar ainda mais, mas não é. Com a luta pelo pódio lançada e com quase dois minutos para Nibali, Froome poderá jogar um pouco mais frio, ficando na expectativa quando aparecerem os ataques. Não signifique que vá deixar alguém escapar. Não o fez até agora e com o final tão próximo, não vai deixar certamente, afinal um azar (e teve três numa só etapa - duas quedas e uma avaria) e lá se vão segundos muito rapidamente. Nem Contador irá ter ordem para fugir. Froome já afirmou mais do que uma vez que o espanhol não pode ser excluído da disputa. O britânico sabe como um ataque do líder da Trek-Segafredo pode fazer estragos difíceis de remediar.

Mais do que alguém ainda poder ganhar esta Vuelta, será preciso Froome perdê-la. Está sentado na pole-position, onde gere muito melhor a corrida do que quando tem ainda de fazer alguma jogada de ataque. O ciclista que analisa todos os seus números ao ínfimo pormenor, que raramente dá uma pedalada que não esteja prevista, Froome contará com Mikel Nieve e Wout Poels para estudar bem os adversários durante as próximas etapas. Tudo será controlado, todos os rostos, todas as pedaladas. Já se percebeu que todos irem atacando é algo que não assusta a Sky. Para derrotar o britânico, os rivais vão precisar de mais do que cada um tentar a sua sorte. Chegou o momento de algumas alianças, tentando estudar que objectivos encaixam melhor uns nos outros.

Exemplo: Nibali ataca com Contador. O italiano aponta ainda à camisola vermelha, o espanhol sabe que é muito difícil, mas poderá ficar com a vitória de etapa e ainda chegar ao pódio. E claro, as alianças são momentâneas e Contador pode sempre noutro dia tentar algo mais... Ainda no campo das suposições, Zakarin e Kelderman querem ambos o pódio e podem aliar-se para tirar de lá Nibali e ainda tentar aproximarem-se de Froome... Isto para falar apenas dos cinco primeiros.

O britânico da Sky só perderá esta Vuelta se os adversários o conseguirem enervar. Não é impossível. Se recuarmos à etapa em que caiu duas vezes, a segunda queda aconteceu porque o britânico deixou-se apoderar por algum nervosismo depois da primeira queda e da avaria que o fizeram perder tempo. É um ciclista experiente, mas a ansiedade nestas fases decisivas das corridas, ainda mais quando Froome poderá fazer um pouco de história, pode influenciar até o mais controlado dos ciclistas a nível emocional.

É preciso testar Froome fisicamente, claro, mas a nível psicológico pode estar algo a explorar. Contador e Nibali sabem como o fazer. Já Zakarin e Kelderman ainda estão a aprender este lado do ciclismo. O importante é não deixar Froome ficar confortável nas etapas de montanha. O britânico só tem de resistir mais quatro dias. Quanto mais tempo passar e o vantagem não diminuir, mesmo sendo um ciclista que já demonstrou algumas dificuldades na última semana no passado, Froome irá manter sem problemas de maior a camisola vermelha.

Alianças e algum risco. Vai ser preciso assumir algo diferente e esta quarta-feira isso certamente que irá acontecer. Machucos é uma subida considerada pelo pelotão como brutal e não é para menos (imagem ao lado). Só no início estão rampas de 26% e 25%. Baixa depois um pouco, mas anda quase sempre acima dos 10%. A média de 8,7% é enganadora, pois é influenciada pelas curtas zonas de descanso. Curtas, mas que podem ser importantes para recuperar um pouco de fôlego. Não há ciclista do topo da tabela que não considere que Machucos poderá ser muito importante na decisão desta Vuelta.

E é Froome quem o diz: tudo pode mudar rapidamente nesta Volta a Espanha...


Os portugueses

Em dia de contra-relógio e com dois especialistas portugueses em prova, nem Nelson Oliveira, nem Rafael Reis conseguiram mostrar-se. O quatro vezes campeão nacional foi 24º a 2:47 de Froome, talvez acusando um pouco o esforço de uma Vuelta dura para a Movistar e na qual se tem visto Oliveira a tentar um bom resultado para a equipa espanhola. É de recordar que já chegou a estar à porta do top 10. O vice-campeão nacional ficou a 4:00 de Froome, sendo que Rafael Reis vai continuando a acumular experiência naquela que está a ser a sua primeira grande volta, ao serviço da Caja Rural.

Rui Costa (UAE Team Emirates) ficou a 4:31 e Ricardo Vilela (Manzana Postobón) a 4:47. Não está fácil, mas Rui Costa tem o objectivo de ainda tentar uma vitória de etapa na sua estreia na Vuelta. Já integrou fugas, mas não tem sido sucesso. Tem resistido aos ferimentos nas costas provocados por uma queda e é de esperar uma última tentativa do campeão do mundo de 2013 de ter o seu momento na Vuelta.

AG2R manda para casa dois dos seus ciclistas

O vídeo surgiu ontem na internet, mas as imagens eram pouco nítidas. Nelas viam-se ciclistas agarrados a um carro da AG2R numa subida durante a etapa de domingo. Não se conseguia perceber quem eram, mas a equipa francesa identificou-os e mandou-os para casa. Alexandre Geniez e Nico Denz "apanharam uma boleia" e perante as imagens a equipa nem quis esperar por uma sanção da organização, até porque é a credibilidade da formação que está em causa.

No Paris-Nice, Romain Bardet também fez o mesmo ainda que por razões diferentes, pois o seu objectivo era não perder tempo para a frente da corrida. Foi expulso. A AG2R pediu desculpa pela acção de Geniez e Denz.


Summary - Stage 16 - La Vuelta 2017 por la_vuelta



2 de setembro de 2017

O fantasma de Formigal sobre um Froome que resistiu a tudo e a quase todos

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
4 de Setembro de 2016. 15ª etapa de uma Vuelta que tinha Nairo Quintana na liderança, mas com uns escassos 54 segundos de vantagem sobre Chris Froome e com um contra-relógio ainda por realizar. A tirada era uma daquelas "canhão", com apenas 118,5 quilómetros, que terminavam na subida de primeira categoria em Aramon Formigal. Antes havia uma terceira e uma segunda categoria para ultrapassar. Os ciclistas mal tinham começado a pedalar quando Alberto Contador atacou numa zona inesperada. Nairo Quitana foi com ele e não foi sozinho. A Sky estava distraída e Chris Froome não esperava tamanho ataque tão cedo e por aqueles ciclistas. Quando reagiu era tarde e nem tinha equipa, que tinha ficado num corte no pelotão. A velocidade foi alucinante tendo em conta o percurso: 40,7 quilómetros/hora de média. Ganhou Gianluca Brambilla, mas disso poucos se lembram. Mas quem assistiu não esquece como Quintana ganhou a Vuelta naquele dia porque soube aproveitar um ataque que só Contador tem coragem para fazer entre corredores da sua especialidade. Froome ficou a 3:37 minutos, recuperou ainda um pouco, mas perdeu a corrida nesse dia e só não perdeu a equipa porque a organização não quis excluir boa parte do pelotão, que chegou fora do tempo limite.

3 de Setembro de 2017. 15ª etapa da Vuelta. Froome lidera com 55 segundos de vantagem sobre Vincenzo Nibali. 129 quilómetros esperam o pelotão, com duas primeiras categorias e uma especial a terminar na Serra Nevada, quase aos três mil metros de altitude e sem tempo para descansar da ascensão anterior. Consideram a etapa rainha, mesmo com o Angliru ainda por ultrapassar no próximo sábado. Estará o receio de uma repetição de Formigal a assombrar Froome? O britânico garante que não. Não acredita que tal possa voltar a acontecer, principalmente a parte da Sky e de ele próprio serem apanhados desprevenidos. Naquele dia aprenderam que a concentração tem de ser desde o primeiro ao último metro e Froome já demonstrou este ano que a lição ficou bem assimilada.

A etapa deste domingo tem o nome de Contador escrito. É incontornável. Começou mal a Vuelta, mas tem estado a lutar pela sua etapa e por subir na classificação na corrida da despedida. Sabe que o elemento surpresa é quase inexistente depois do que fez em Formigal, mas é nele que se vão centrar muitas das atenções. Talvez seja o momento perfeito para outro ciclista tentar ser ele a surpresa...


Froome não esquecerá Formigal e preparou esta Vuelta bem de mais para a deixar escapar de uma forma tão infantil como aconteceu há um ano. Mérito para os que atacaram, demérito para uma equipa que relaxou, talvez vítima de um excesso de confiança. O passado já lá vai. É pelo que vai acontecer neste domingo que se anseia por ver. Podem-se fazer previsões, antecipar possíveis cenários, mas simplesmente parece que são tantas as variáveis que o texto não teria fim. Espera-se espectáculo. Seja ele qual for e proporcionado por quem for.

Estas etapas "canhão" estão cada vez mais presentes nas grandes voltas. Por um dia, os trepadores podem andar a fundo. E com as distâncias grandes (mais de dois minutos, exceptuando Nibali), ninguém poderá pensar em poupanças. Os dias estão a passar e Froome não cede (com excepção das duas quedas que teve na quinta-feira). Neste sábado os rivais atacaram à vez e Froome lá foi apanhando-os a todos. Até lhes ganhou tempo, menos a Nibali, que bonificou quatro segundos. Mesmo quem já não sonhe em ganhar a Vuelta, há ainda muito por definir no top dez e a luta de uns, pode resultar em alianças com a luta de outros. Sozinhos começa a ser cada vez mais difícil bater Froome.

Rafal Majka venceu uma etapa, salvando uma temporada menos conseguida do polaco. Apostou forte num Tour que acabou numa queda. Chegou fora de forma à Vuelta devido à recuperação física que teve de fazer, mas este ciclista da Bora-Hansgrohe tem qualidade para muito mais e em Espanha já fez um pódio. No ano em que conseguir escapar a alguns azares e ser mais consistente nos resultados, este é um ciclista que pode muito bem deixar os polacos a imaginar grandes vitórias (mais umas para juntar às de Michal Kwiatkowski). Por agora fica-se por uma etapa na Vuelta em 2017, mas é noutro triunfo que se concentram as atenções. A luta pela geral está ao rubro. Esperava-se que Majka fosse um dos seus intervenientes, mas tornou-se num actor secundário para desilusão da equipa alemã e dele próprio, certamente.


Summary - Stage 14 - La Vuelta 2017 por la_vuelta


Veja aqui as classificações.

»»Enquanto os sprinters se queixam, Trentin ganha e Escartín dá ao público o que este mais gosta de ver««

»»Não lhes chamem etapas de transição. Não na Vuelta!««