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10 de novembro de 2018

Van Aert arrisca perder época de 2019

(Fotografia: © Kristof Ramon/Red Bull Content Pool)
A decisão de quebrar contrato com a Veranda’s Willems-Crelan poderá ter um custo elevado. Wout van Aert arrisca falhar a temporada de 2019, pois a Sniper Cycling (detentora da equipa) não abdica de receber uma indemnização, caso o ciclista assine por outra formação. A Lotto-Jumbo fechou por três anos com o ciclista a partir de 2020, já que Van Aert ainda tinha uma época de contrato com a equipa que representava. O desejo do ciclista é juntar-se já à formação do World Tour e certamente que os responsáveis da Lotto-Jumbo também não se importariam nada que tal se concretizasse. Contudo, com o caso da rescisão em tribunal e com a previsão de poder demorar meses até ficar resolvido, o futuro próximo de um dos ciclistas revelação de 2018 poderá passar por assistir de fora às corridas, se não houver um acordo ou uma intervenção da UCI.

O caminho que o seu advogado está a explorar é precisamente o da UCI. Walter van Steenbrugge espera que o organismo considere que Van Aert não tenha de cumprir o contrato com a Veranda’s Willems-Crelan, ficando assim livre de assinar pela Lotto-Jumbo. "Se o acordo com a UCI chegar, não haverá nada que evite que Wout van Aert assine pela Jumbo [nome da equipa em 2019]. Espero novidades durante o mês de Novembro", afirmou o advogado ao jornal belga Het Laatse Nieuws.

Um acordo com a Sniper Cycling parece estar fora de questão, segundo Van Steenbrugge, o que coloca então um ponto de interrogação sobre a próxima temporada para Van Aert. 

Os problemas começaram em Agosto quando foi avançada a hipótese de fusão da Veranda’s Willems-Crelan com a irlandesa Aqua Blue Sport. Tal não aconteceu. No entanto, houve mesmo fusão, mas com a Roompot-Nederlanse Loterij.

Van Aert rapidamente demonstrou o seu desagrado como as negociações decorreram, sem que ele, ou os restantes ciclistas, fossem informados do que estava a acontecer. O corredor belga, de 24 anos, nunca gostou de não ter conhecimento de nada, ainda mais quando era constantemente questionado sobre o assunto, já que, sendo o rosto da equipa, acabava por estar completamente exposto a nível mediático sempre que ia competir. 


É uma das estrelas em ascensão no ciclismo. Nasceu para as clássicas do pavé, ainda que separar-se do ciclocrosse não é algo que esteja para já nos seus planos. É tricampeão do mundo e também foi campeão mundial de sub-23 da especialidade. Aos poucos tem feito a passagem para a estrada e este ano foi uma das sensações de início de época. O terceiro lugar na Strade Bianche foi o mote para uma época de clássicas que deixou as equipas do World Tour loucas pelo belga. No pavé foi sempre muito regular. Nos monumentos foi nono na Volta a Flandres e 13º no Paris-Roubaix. E representava uma equipa Profissional Continental.

É senhor do seu destino, deixando claro como gosta de gerir a sua carreira, a sua época e como quer conciliar o ciclocrosse com a estrada, pelo menos por agora. Ser um ciclista muito desejado no World Tour, reforçou o estatuto dentro da que era a sua equipa. Quando em Setembro anunciou a rescisão, disse apenas que dias antes tinham acontecido factos que tornavam impossíveis uma cooperação. A Sniper Cycling reagiu, explicando que chegou a oferecer um contrato melhorado para 2019, mas que Van Aert recusou. O pedido de rescisão foi para tribunal e poderá demorar até um ano a ficar resolvido.

A época de ciclocrosse está a decorrer, mas se a UCI não decidir a favor de Van Aert, em 2019 não se verá um dos ciclistas que mais se quer voltar a ver em acção nas corridas do pavé.

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8 de agosto de 2018

Moscon suspenso apenas pela UCI. Sky reitera apoio ao seu ciclista

(Fotografia: © Team Sky)
Serão cinco semanas fora de competição, ou seja, até 12 de Setembro. A agressão a Elie Gesbert, da Fortuneo-Samsic, na 15ª etapa do Tour, valeu a Gianni Moscon a expulsão imediata da corrida e agora conheceu a restante sanção. O ciclista e a Sky aceitam a decisão, com o italiano fazer novamente mea culpa. No entanto, sendo o corredor recorrente em situações pouco abonatórias, parece estar a escapar a um castigo interno.

"Reagi no calor do momento e nunca foi a minha intenção atingir o ciclista. As imagens demonstram que não lhe acertei, mas arrependo-me das minhas acções e já pedi desculpa tanto ao Elie Gesbert como à equipa Fortuneo-Samsic", afirmou o ciclista, em declarações publicadas pela Sky. "Temos uma responsabilidade para com todos os nossos ciclistas que levamos muito a sério. Gianni ainda é um ciclista relativamente jovem, no início da carreira e vamos continuar a ajudá-lo e a apoiá-lo no que ele precisa de aprender, desenvolver e ultrapassar isto", salientou o director Dave Brailsford.

As palavras do responsável máximo já dão a entender que não serão tomadas medidas drásticas apesar de há um ano Moscon ter sido acusado de proferir comentários racistas contra Kevin Reza, então ciclista da FDJ. A Sky suspendeu-o por seis semanas, obrigou-o a frequentar um curso de consciencialização e ficou a ameaça que comportamento idêntico levaria ao término imediato do seu contrato. Apesar da gravidade da acção de Moscon no Tour - mesmo que não tenha acertado em Gesbert - o italiano de 24 anos poderá passar incólume a nível interno.

De recordar que Moscon enfrentou recentemente as acusações de Sebastien Reichenbach, também da FDJ, de o ter atirado ao chão numa corrida, no final de época de 2017. Foi o suíço quem divulgou publicamente os comentários de Moscon contra Reza. No entanto, o italiano foi ilibado por falta de provas.

E com tantos casos, o facto de nos Mundiais ter aproveitado uma "boleia" do carro de apoio para recuperar tempo perdido, o que o levou a ser desqualificado, tornou-se em mais uma mancha numa curta carreira que continua a prometer muito, mas que está a começar muito mal a nível de personalidade. Para um ciclista de tanto talento, é lamentável que em pouco mais de um ano se veja envolvido em tantas situações negativas.

Em casos idênticos ao de Moscon no Tour, tivemos a UCI a suspender Lars Boom (Lotto-Jumbo) durante um mês depois de ter agredido Preben Van Hecke (Sport Vlaanderen-Baloise), na Volta à Noruega. No ano passado, Andrey Grivko cumpriu 45 dias de suspensão depois de dar um murro a Marcel Kittel (então na Quick-Step Floors), que deixou o alemão a sangrar do sobrolho, na Volta ao Dubai.

14 de junho de 2018

UCI aprova calendário World Tour para 2019 com algumas mudanças

Ainda há muito por acontecer neste ano, mas 2019 já está a ser preparado e foi aprovado o calendário World Tour para a próxima época. Se tudo se mantém igual no arranque, com a Austrália à espera do pelotão no Tour Down Under e na Cadel Evans Great Ocean Race, há depois algumas alterações, a começar pela introdução da UAE Tour. O Giro irá ter uma alteração na data, enquanto o final da temporada não será na China, mas sim na Europa.

A UAE Tour, ou Volta aos Emirados Árabes Unidos, será o resultado da fusão entre o Dubai Tour (de categoria 2.HC) e a Volta a Abu Dhabi, essa já do World Tour. A corrida irá realizar-se entre 25 de Fevereiro e 2 de Março. A Volta a Itália avança uma semana e irá acabar em Junho, no dia 2, começando no dia 11 de Maio. Isto significa que o Tour irá manter-se nas datas deste ano. Devido ao Campeonato do Mundo de futebol, o início foi adiado uma semana para não haver um excesso de sobreposição entre as provas, mas a data vai continuar. A Volta a França será então entre 6 e 28 de Julho.

A Volta à Turquia, que não tem tido vida fácil desde que passou a ser da principal categoria, irá encerrar a temporada World Tour, em vez da prova chinesa em Guangxi. A corrida turca passará para o final de Outubro, de 22 a 27.

Pormenores sobre os calendários das restantes categorias serão conhecidos só em Setembro.

Aqui ficam as datas apresentadas pela UCI.

15 a 20 de Janeiro: Santos Tour Down Under (Austrália)
27 de Janeiro: Cadel Evans Great Ocean Race (Austrália)
25 de Fevereiro a 2 de Março: UAE Tour (Emirados Árabes Unidos)
2 de Março: Omloop Het Nieuwsblad Elite (Bélgica)
9 de Março: Strade Bianche (Itália)
10 a 17 de Março: Paris-Nice (França)
13 a 19 de Março: Tirreno-Adriatico (Itália)
23 de Março: Milano-Sanremo (Itália)
25 a 31 de Março: Volta à Catalunha (Espanha)
29 de Março: E3 Harelbeke (Bélgica)
31 de Março: Gent-Wevelgem (Bélgica)
3 de Abril: Através da Flandres (Bélgica)
7 de Abril: Volta a Flandres (Bélgica)
8 a 13 de Abril: Volta ao País Basco (Espanha)
14 de Abril: Paris-Roubaix (França)
21 de Abril: Amstel Gold Race (Holanda)
24 de Abril: Flèche Wallonne (Bélgica)
28 de Abril: Liège-Bastogne-Liège (Bélgica)
30 de Abril a 5 de Maio: Volta à Romândia (Suíça)
1 de Maio: Eschborn-Frankfurt (Alemanha)
11 de Maio a 2 de Junho: Volta a Itália
12 a 18 de Maio: Volta à Califórnia (Estados Unidos)
9 a 16 de Junho: Critérium du Dauphiné (França)
15 a 23 de Junho: Volta à Suíça
6 a 28 de Julho: Volta a França
3 de Agosto: Clássica de San Sebastian (Espanha)
3 a 9 de Agosto: Volta à Polónia
4 de Agosto: Prudential RideLondon-Surrey (Grã-Bretanha)
12 a 18 de Agosto: BinckBank Tour (Bélgica e Holanda)
24 de Agosto a 15 de Setembro: Volta a Espanha
25 de Agosto: Clássica de Hamburgo (Alemanha)
1 de Setembro: Bretagne Classic-Ouest-France (França)
13 de Setembro: Grande Prémio do Quebeque (Canadá)
15 de Setembro: Grande Prémio de Montreal (Canadá)
12 de Outubro: Il Lombardia (Itália)
15 a 20 de Outubro: Volta a Guangxi (China)
22 a 27 de Outubro: Volta à Turquia


9 de junho de 2018

Aumenta a pressão sobre Chris Froome

(Fotografia: Facebook Team Sky)
Se se falava sobre a decisão de Chris Froome em competir enquanto espera pela conclusão do processo salbutamol antes da Volta a Itália, se se falou depois do Giro, agora quase não se irá falar de outra coisa com a aproximação da Volta a França. A pressão que o britânico sofreu pode quase não ser comparável ao que vai viver nas próximas semanas e, principalmente, no Tour, se participar.

Do lado da UCI, o presidente, David Lappartient, tem afirmado várias vezes que dificilmente haverá uma decisão antes da corrida ou mesmo durante. Do lado da ASO, organizadora da prova, pede-se (já é mais um exige-se) que se resolva rapidamente uma situação que se arrasta desde Setembro. E depois há Romain Bardet, um dos ciclistas que tem dado voz à escolha de Froome em não auto-suspender-se. O francês da AG2R tem sido dos que não se tem coibido de publicamente criticar Froome e desta vez disse mesmo que teria vergonha se estivesse envolvido em caso idêntico.

Christian Prudhomme, director da Volta a França, não esconde o seu descontentamento por, a um mês do arranque da grande volta, não haja qualquer sinal sobre o fim do processo de Chris Froome. "Como é possível no ciclismo que algo que tenha acontecido em Setembro, nove meses depois, antes da maior corrida do mundo, não tenhamos uma resposta? Precisamos de um avanço neste assunto", desabafou Prudhomme ao canal australiano SBS, em declarações citadas pelo Cycling News.

O responsável da ASO não tem dúvidas que o arrastamento do processo está a prejudicar todos. No entanto, quando questionado sobre a possibilidade de não permitir a presença do britânico no Tour, Prudhomme não confirmou que poderá ser a organização a barrar a inscrição de Froome: "Como o David Lappartient tem dito muitas vezes, a decisão terá de ser da UCI. É evidente que é o que precisamos. O que as pessoas estão a ter problemas em compreender, é que o mundo do ciclismo funciona como tudo o resto. Não se imaginaria um Mundial que não fosse feito pela FIFA. É a FIFA que faz as regras e garante que as regras são respeitadas. Nós não fazemos as regras."

Em Março, a Press Association Sport avançou que a ASO poderia impedir a inscrição de Froome recorrendo a um ponto do regulamento do Tour, que prevê que poderá ser recusada a participação ou então desqualificar uma equipa ou um dos seus elementos, se em causa estiver danos à imagem ou reputação da ASO, ou de quem pertença ao evento.

Quanto a Romain Bardet, o líder da AG2R foi claro numa entrevista ao jornal belga Het Nieuwsblad: "Se estivesse na posição dele, não reconsideraria estar no Tour e teria vergonha por estar ligado a um caso como este." Acrescenta que, contudo, as regras permitem e que todos, a começar por Froome, querem que a situação seja resolvida rapidamente.

Chris Froome saiu de cena após a vitória no Giro, que poderá perder caso seja sancionado e se o castigo abranger a corrida. Não cedeu à pressão quando as vozes se elevaram para se auto-suspender antes da prova italiana e não dá mostras que o vá fazer agora, numa altura em que persegue a quinta vitória na Volta a França, o máximo alguma vez atingido

Se de facto participar na corrida, Froome terá também de lidar com um público que já foi muito hostil no passado, pelo que o ambiente que o espera em França será bem diferente daquele em Itália. Como lidar com a pressão que vem de todos os lados, também irá definir como este ciclista se apresentará no Tour.

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29 de maio de 2018

Froome não é uma lenda e recorreu ao doping, diz... uma lenda do ciclismo

(Fotografia: Giro d'Italia)
Ao vencer o Giro, Chris Froome juntou-se a Eddy Merckx e Bernard Hinault como os únicos ciclistas a conquistarem as três grandes voltas de forma consecutiva. O feito já foi dito e escrito muitas vezes nos últimos dias, com o britânico a ser elevado ao nível de duas das maiores lendas do ciclismo, ainda que à condição. Porém, uma dessas lendas diz que Froome não o é, nem à condição. Para Hinault não há zonas cinzentas no caso do salbutamol. O francês considera que Froome recorreu ao doping e que, por isso, deveria estar suspenso e não a competir.

Hinault venceu cinco Tours, três Giros e duas Vueltas tendo sido uma das grandes figuras do ciclismo entre os anos 70 e 80. Não é surpresa que as suas palavras tenham um grande peso, ainda mais aquelas que disse sobre Froome. Não esteve com meias medidas. "Froome não pertence àquela lista. Ele deu positivo na Vuelta e, depois, a contra-análise, confirmou o positivo. Por isso, ele recorreu ao doping e deveria estar suspenso. Ele nunca deveria ter sido autorizado a começar o Giro", afirmou Hinault ao jornal belga Het Laatste Nieuws.

O antigo ciclista, agora com 63 anos, mostra-se ainda revoltado pela demora na resolução do processo, que se arrasta desde Setembro, quando foi detectado o dobro da substància salbutamol - utilizada para a asma - na amostra recolhida durante a Vuelta: "Porque temos de esperar tanto tempo por um veredicto? Os dois italianos que tiveram a mesma coisa [Alessando Petacchi e Diego Ulissi] foram suspensos muito mais rápido. Que direito é o que o Froome tem para dispor de tanto tempo para encontrar uma explicação? É por a Sky ter tanto dinheiro?"

Hinault junta-se às vozes que consideram que a situação do britânico é prejudicial para a imagem da modalidade. O francês mostra-se triste com o que está a acontecer, dizendo mesmo ser "um verdadeiro escândalo" e que "tem de parar". "Froome não faz parte das lendas do desporto porque que imagem está ele a dar ao ciclismo?" Mais uma questão que Mauro Vegni, director do Giro, também já tinha levantado quando se tornou claro que o processo não seria concluído antes da grande volta italiana.

E como também não parece que estará antes do Tour, em França estará a pensar-se impedir a presença do ciclista da Sky na corrida, em Julho. A ASO, organizadora da prova, poderá precisamente alegar danos para a imagem como forma de bloquear a inscrição de Froome, que tem como objectivo conquistar o seu quinto Tour e assim igualar... Hinault, Merckx e também Jacques Anquetil e Miguel Indurain.

David Lappartient tem dito várias vezes que a possibilidade do processo estar concluído antes da Volta a França é muito reduzida. O jornal espanhol As perguntou ao presidente da UCI por que razão está a demorar tanto tempo, pois se Froome não vir a sua entrada no Tour bloqueada, a dúvida sobre os resultados poderá ser comum aos responsáveis pelas três grandes voltas.  A resposta até segue a linha das questões levantadas por Hinault: "Trata-se de um caso muito complexo, com muitos advogados, muitos interesses, muita documentação e muito dinheiro pelo meio. Tomaremos a decisão o mais cedo possível, mas não existe limite de tempo. O procedimento será alargado: as nossas dúvidas deverão ser contestadas e os seus estudos terão de ser valorizados. As duas partes dispõem de representantes legais poderosos e tudo acaba por ser mais complicado do que o costume."

A equipa e o ciclista mantêm a postura de quem está concentrado apenas nas corridas, acreditando que quando o processo chegar ao fim, o veredicto lhes será favorável. No Twitter têm sido partilhadas imagens que consagram as três conquistas. De recordar, que a substância em causa não acarreta uma suspensão imediata e é por isso que Froome pode continuar a competir.

Ciclistas como Romain Bardet já se mostraram contra Chris Froome estar a competir. Tom Dumoulin chegou a dizer que se fosse ele não teria tomado essa decisão, até porque a sua equipa, a Sunweb, pertence ao Movimento por um Ciclismo Credível. Ou seja, estaria longe das corridas até o caso estar finalizado. A Sky não está nesse movimento, até porque diz que as suas regras são mais exigentes. 

Depois da vitória no Giro, Froome não conseguiu evitar as perguntas sobre o processo, mas repetiu a frase que disse quando venceu o seu primeiro Tour, isto é, que a vitória no Giro iria persistir no tempo, realçando ainda que tem divulgados os seus dados, mais do que a maioria dos ciclistas.

Froome poderia de facto ser, por estes dias, a figura principal da história das lendas do ciclismo. Contudo, irá continuar a ver o seu nome arrastado para a lista de suspeitas enquanto o processo não chegar ao fim. E se a ASO tomar a decisão de impedir o britânico de estar no Tour, então vai-se continuar a falar muito sobre este tema, sobre estas suspeitas e não sobre as competições, sobre o que está a acontecer na estrada.

»»Froome poderá ser impedido de estar na Volta a França««

»»A vitória mais bonita e brutal««

»»E para terminar o Giro...««

21 de maio de 2018

UCI acaba com contra-relógio por equipas nos Mundiais

A Sunweb quebrou em 2017 a hegemonia partilhada
entre a Quick-Steo Floors e a BMC (Fotografia: Team Sunweb)
Era um fim anunciado e vai acontecer já em 2018. A possibilidade do contra-relógio por equipas nos Mundiais se realizar ainda no próximo ano, em Yorkshire estava em cima da mesa, mas o programa dos campeonatos está a ser revisto e certo é que depois de sete edições, as equipas não irão mais lutar por este título. David Lappartient, presidente da UCI, tinha avisado pouco depois de ter sido eleito, que esta era uma prova que queria eliminar. No entanto, poderá ser substituída.

Innsbruck, na Áustria, irá assim receber a última edição desta prova que foi dominada pela Quick-Step Floors (três títulos) e a BMC (dois), até que a Sunweb quebrou essa hegemonia no ano passado. A equipa até conseguiu a dobradinha, ou seja, foi também campeã mundial no competição feminina. Esta é a única corrida nos Mundiais que não é disputada pelas selecções nacionais. Entre 1962 e 1994 o contra-relógio colectivo integrava os países. Em 2012 regressou, mas para as equipas. As do World Tour estavam obrigadas a participar, enquanto as melhores Profissionais Continentais e Continentais recebiam convites. Em 2016 a polémica instalou-se com a decisão de realizar os Mundiais em Doha, no Qatar. O elevado custo da deslocação levou as equipas a ameaçar boicotar o contra-relógio. A UCI tornou opcional a presença na prova e deu uma maior ajuda financeira.

No comunicado em que anuncia o final desta competição e que para a despedida terá um prémio monetário igual para homens e mulheres, o organismo referiu: "A UCI está a rever o programa dos Campeonatos de Mundo de estrada para 2019, em colaboração com o comité organizador de Yorkshire 2019, para assegurar uma excelente visibilidade para as federações nacionais e os ciclistas." Fica assim dúvida se esta revisão poderá significar o regresso do contra-relógio disputado pelas selecções e que assim substituiria o das equipas na abertura dos Mundiais. Neste momento é apenas especulação.

Innsbruck será o centro das atenções do ciclismo entre 23 e 30 de Setembro, com a prova de estrada a já dar muito que falar dada a enorme dificuldade que alguns ciclistas dizem que irão enfrentar e que até tem surpreendido nos reconhecimentos que têm sido feitos, como aconteceu com Vincenzo Nibali. Quanto ao último contra-relógio por equipas, as 18 formações do World Tour foram convidadas, assim como as top 15 das estruturas femininas. Mais tarde na época serão enviados os convites para as restantes equipas masculinas dos escalões inferiores, dependendo do ranking.


3 de maio de 2018

Vegni garante que se Froome ganhar o Giro a vitória não será retirada. A UCI não tem tanta certeza...

(Fotografia: Giro d'Italia)
Não há volta a dar. O caso do excesso de salbutamol de Chris Froome, que tem marcado os últimos meses no ciclismo, é o assunto que domina este arranque da 101ª edição do Giro. O ciclista acabou por responder às questões colocadas na conferência antes da corrida, já o director da Sky, Dave Brailsford foi mais evasivo. Porém, são as de Mauro Vegni que fazem as manchetes, por assim dizer. O director da corrida afirmou que recebeu abertura por parte do presidente da UCI para que se Froome ganhar o Giro, o resultado não será anulado, caso venha a ser sancionado no processo que decorre. Acaba mesmo por realçar que recebeu garantias. Porém, o organismo apressou-se a dizer que não é bem assim...

Já em Abril o responsável da Volta a Itália tinha assegurado que não se repetiria a situação de Alberto Contador, em 2011. O espanhol também estava a competir "à condição", ganhou o Giro, mas como acabou sancionado ficou sem essa grande volta. Michele Scarponi foi declarado o vencedor. Vegni explicou agora melhor, dizendo que conversou com o presidente da UCI e que David Lappartient concordou com a proposta que um eventual castigo só entraria em vigor no dia em que fosse anunciado.

"Dado o tempo que o caso está a demorar, propus ao presidente Lappartient que qualquer suspensão começasse no momento em que fosse atribuída. Se acontecesse depois do Giro, a suspensão começaria depois do Giro. Se acontecesse depois do Tour, a suspensão começaria depois do Tour", explicou Vegni. "A incerteza não é correcta para o público, para os organizadores e para o atleta. Se Froome for sancionado, ele perderá a vitória na Vuelta, mas qualquer sanção só começaria no momento em que fosse confirmada. O [David] Lappartient parece aberto a esta hipótese e de certa forma garantiu-me que não haveria muitos problemas com o Giro", acrescentou.

Vegni, que se encontrou com o presidente da UCI antes da Milano-Sanremo, em Março, disse mesmo: "Recebemos garantias que isto não aconteceria [Froome perder uma eventual vitória], por isso, estamos confiantes que o resultado final em Roma será o resultado que permanecerá do Giro."

Porém, estas alegadas garantias afinal não estão assim tão... garantidas. "A UCI gostaria de clarificar que o presidente da UCI não está numa posição de decidir quando deve começar uma potencial suspensão por uma qualquer violação anti-doping e se os resultados obtidos antes do início da suspensão devem ser anulados ou mantidos", lê-se num twit, escrito na conta @UCI_media (ver em baixo). A questão é que o caso é analisado no Tribunal Anti-doping, que, estando englobado na UCI é, no entanto, um órgão independente.

De recordar que o salbutamol é uma substância permitida até determinado limite. Froome acusou o dobro do permitido na Vuelta. Visto não ser uma substância proibida (é utilizada por asmáticos), o ciclista não foi suspenso provisoriamente, mas caso não consiga provar que não tomou o correspondente aos valores que surgiram nos testes, pode ser sancionado. Em situações idênticas - e Alberto Contador é exemplo disso, ainda que tenha sido por outra substância, o clembuterol - o ciclista vê todos os resultados desde a corrida em que foi detectada a ilegalidade serem anulados. Para Froome significaria não só a perda da Vuelta, como também ficaria sem a medalha de bronze no contra-relógio nos Mundiais, que passaria para o português Nelson Oliveira (Movistar). Também todas as outras classificações nas corridas que tem feito seriam anuladas.

A Volta a Itália começa esta sexta-feira e mesmo com as atenções a estarem maioritariamente na estrada, será difícil não pensar se o que Froome está a fazer irá de facto contar.

O britânico mantém-se firme em dizer que não fez nada de errado e que o caso era suposto ser confidencial. Defende-se com as regras que o permitem competir e nas declarações antes do arranque da primeira grande volta do ano, Froome tentou desviar o assunto para a parte competitiva. Salientou o quanto se sente feliz por regressar a Itália, onde tudo começou nas competições de três semanas ao serviço da Sky, mas agora como candidato a vencê-la. Em 2010, na sua segunda participação e a primeira pela actual equipa, Froome foi excluído depois de se ter agarrado a uma moto. 

O seu rival, Tom Dumoulin, também foi questionado sobre o processo salbutamol. O holandês afirmou que não estaria no Giro, até porque a Sunweb faz parte do Movimento por um Ciclismo Credível, o que faria com que nem tivesse escolha. A Sky não faz parte deste grupo, pois considera que as suas regras até são mais exigentes.

»»Um Giro com muitas distracções mas a prometer espectáculo««

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»»Um Chris Froome no Giro rodeado por algumas incertezas««

27 de março de 2018

Peraud acredita que já se utilizaram motores, mas agora "seria um suicídio"

Antigo ciclista da AG2R é agora o responsável da UCI
pelo combate ao doping mecânico (Fotografia: AG2R)
Jean-Christophe Peraud foi o escolhido para liderar a luta contra o doping mecânico, quando David Lappartient assumiu a presidência da UCI em Setembro do ano passado. O antigo ciclista francês apresentou há poucos dias o resultado do trabalhado realizado nos últimos meses, um novo mecanismo para detectar possíveis motores nas bicicletas, sendo igualmente eficaz se a fraude tecnológica for a utilização de rodas electromagnéticas, segundo foi garantindo pelos responsáveis pela máquina de raio-X. Peraud destaca a importância da tecnologia estar a ser melhorada para encontrar infractores, ainda que acredite que neste momento funcione mais como elemento dissuasor. Para o ex-ciclista, actualmente esta é uma realidade que talvez possa ser encontrada em corridas amadoras ou mais pequenas, mas não ao mais alto nível.

"Penso que no passado foram utilizados [motores], mas agora não. Um motor numa bicicleta de um profissional seria agora um suicídio. Estamos atentos e colocámos muitos meios para detectar batotas", salientou Peraud ao jornal As. Contou que quando era ciclista ouviu rumores, "como quase todos nestes últimos tempos", mas garantiu que nunca soube de nada fraudulento. "Temos de fazer tudo para evitar qualquer problema. Antes de encarámos um escândalo, é preferível utilizar a tecnologia ao nosso alcance para prevenir e dissuadir", explicou Peraud, para assim justificar o muito dinheiro que está a ser investido nesta luta. O francês destacou a importância de "salvaguardar a credibilidade do ciclismo". "Sofremos demasiados golpes e há que procurar oferecer aos adeptos um produto sólido, livre de mentiras", realçou.

Apesar da carreira de ciclista, grande parte passada na AG2R, Jean-Christophe Peraud também foi uma pessoa dedicada aos estudos, tendo diplomas em Engenharia Química ou ainda em Engenheiria Energética e do Meio Ambiente. "Tento aproveitar tanto a experiência académica como a de ciclista", referiu sobre a nova fase da sua vida, depois de ter deixado as corridas em 2016. O segundo classificado do Tour em 2014, atrás de Vincenzo Nibali, explicou que a sua função inclui "regular materiais, estar atento a novidades e implementar planos contra a utilização de motores".

E nos próximos tempos, o pelotão irá habituar-se a ver uma máquina de raio-X que permitirá colocar a bicicleta sem a desmontar e assim, em tempo real, averiguar se há algo de irregular.


21 de março de 2018

Máquina de raio-X irá combater o doping mecânico

(Fotografia: UCI)
Era uma das bandeiras de David Lappartient e o presidente da UCI apresentou a sua arma para combater o doping mecânico. O sistema com os tablets era muito criticado, sendo mesmo colocado em causa a sua eficácia. A partir de agora será uma máquina de raio-X que irá procurar um possível motor no quadro, mas também irá permitir averiguar se as rodas têm alguma ilegalidade, já que é uma das formas apontadas deste tipo de doping e que se alegava que através dos tablets não era identificado qualquer problema.

"O ciclismo é um desporto magnífico, um dos mais bonitos. As pessoas têm de poder acreditar nos resultados. Por isso, nós continuamos a lutar contra o doping. A fraude tecnológica é mais fácil de resolver do que o doping", salientou Lappartient, durante a apresentação da máquina de raio-X, em Genebra, na Suíça. "Queremos evitar os vídeos nas redes sociais que, por vezes, lançam dúvidas entre os fãs. Queremos que os adeptos apoiem e acreditem nos resultados e também no trabalho feito pela UCI É da nossa responsabilidade garantir os resultados e estamos determinados em fazê-lo", acrescentou.

Lappartient foi eleito em Setembro, batendo nas eleições o até então presidente Brian Cookson. O francês não demorou muito a afastar Mark Barfield, que era o responsável por esta área, contratando Jean-Christophe Peraud. O antigo ciclista, segundo classificado no Tour de 2014, retirou-se em 2016 e esteve nos últimos meses a trabalhar no novo sistema para analisar as bicicletas minuciosamente. A UCI fez uma parecia com a VJ Technologies, empresa que criou máquinas de raio-X para a indústria aeroespacial e automóvel. O organismo assegurou que o equipamento foi certificado por laboratórios independentes.

A máquina que passará a ser vista em muitas corrida é portátil (na perspectiva que será rebocada por um carro) e o seu tamanho permite precisamente que a bicicleta possa ser analisada sem que seja preciso desmontá-la. A estrutura está devidamente protegida para que quem esteja a operá-la ou esteja nas proximidades não corra qualquer risco de saúde. Depois da bicicleta estar dentro da máquina, as imagens são vistas através de um computador em tempo real.

Depois das dúvidas, algumas criadas por reportagens em meios de comunicação social que davam conta da utilização de motores e como o software utilizado nos tablets não era o mais eficaz, a UCI assegura que o raio-X não deixará passar um motor, ou a utilização das rodas electromagnéticas. Esta forma de doping mecânico é considerada a mais evoluída tecnologicamente. São instalados cabos na roda traseira que, ao serem activados, permitem uma aceleração sem que seja preciso um esforço físico maior. A diferença pode variar entre 20 a 60 watts de potência. O preço pode rondar os 20 mil euros e, num artigo publicado na Gazzetta dello Sport em 2016, lia-se que o ciclista até poderia estar a utilizar uma roda destas e não saber. Ou seja, em causa poderia estar o recurso de algumas equipas a este método.

No ciclismo amador já foram detectados alguns motores, mas o caso que despertou de vez a atenção para o doping mecânico aconteceu durante os Mundiais de Ciclocrosse, quando a belga Femke Van den Driessche foi apanhada, após a corrida de sub-23. A ciclista alegou que a bicicleta não era a sua e que tinha trocado com um amigo por engano. Acabou suspensa por seis anos e multada em pouco mais de 18 mil euros. Driessche optou por colocar um ponto final na carreira que ainda estava a começar.

Antes, temos a eterna suspeita que recai sobre Fabian Cancellara e a vitória na Volta a Flandres em 2010. Ainda hoje este assunto tem uma tendência a assombrar a carreira do suíço, tendo recentemente o ex-ciclista Phil Gaimon reacendido a polémica. Nas redes sociais são várias as suspeitas que vão sendo lançadas, muitas vezes quando se vê bicicletas tombadas, cujas rodas não param de se movimentar.

A UCI pretende utilizar a máquina de raio-X em cerca de metade das corridas do World Tour. Ao todos serão qualquer coisa como 150 dias de competições em que as bicicletas serão examinadas. Apesar deste novo sistema, David Lappartient quer ir mais longe. Nos planos está a possibilidade de se analisar imagens televisivas para procurar alguma possível irregularidade, assim como ver os dados das performances dos ciclistas. Outra questão é a mudança de bicicletas ou rodas durante a corrida. O objectivo é que seja criado um dispositivo que permita seguir estas alterações.



15 de março de 2018

Não mexam no Giro e na Vuelta... ou então, mexam também no Tour

(Fotografia: Giro d'Italia)
A sugestão de reduzir a Volta a Itália e Espanha para no máximo 17 dias não foi recebida com agrado, principalmente pelos organizadores das duas grandes voltas. Ambos defendem a importância que as corridas têm actualmente a nível desportivo e financeiro. Para Mauro Vegni, se for para mexer nas duas provas, então o Tour não pode ficar de fora: "Se eles [UCI] conseguirem demonstrar a validade [da redução], então poderemos considerar [a hipótese], mas também terá de ser para o Tour, senão é como se todas corridas as fosse alteráveis menos as francesas!"

Um recado bem claro para o presidente da UCI, o francês David Lappartient, que foi quem adiantou a ideia de reduzir o Giro e a Vuelta, mas considerando que a Volta a França é "o evento mundial de ciclismo" e que não deve ser alterado. "Estamos a caminhar para um mundo onde só o Tour importa. Não gosto disso", salientou Vegni, director do Giro, em declarações ao Cycling Weekly. Javier Guillén, responsável da corrida espanhola, foi o primeiro a responder a Lappartient: "A Vuelta e o Giro são monumentos do ciclismo que crescem a cada ano a nível desportivo, social e mediático. Seria um erro tirar-lhes dias de competição."

À agência EFE, citado pelo As, Guillén afirmou não perceber porque razão o presidente da UCI tem esta pretensão, considerando que se viesse a acontecer a redução de dias, tal poderia prejudicar "a possibilidade de crescimento das marcas que apoiam esta modalidade e as equipas".

Mauro Vegni referiu precisamente como a parte financeira pode ser colocada em causa. "Somos um negócio. Ele [Lappartient] pode provocar-nos danos económicos por dizer coisas dessas", realçou. O director do Giro acrescentou que gostaria que Lappartient consultasse primeiro os organizadores. Mesmo tendo falado publicamente sem conversar antes com os visados, o responsável da UCI disse na altura que qualquer possível alteração teria sempre de passar pelos organizadores do Giro e Vuelta.

As mudanças no ciclismo não é algo que Vegni esteja contra. O próprio recordou como até há pouco mais de dez anos a Volta a Itália terminava em Junho, por vezes até já durante a segunda semana do mês. "Antecipámos [a data], mas isso não significa que estejam mais ciclistas a fazer o Giro e o Tour. Se calhar há menos", disse.

Segundo Guillén, a Vuelta foi mesmo o segundo evento de ciclismo mais visto em 2017, só ultrapassado pelo Tour. No entanto, algo que talvez seja mais difícil de medir, seja o sucesso entre os amantes da modalidade. A corrida espanhola tem sido cada vez mais elogiada por quem assiste, cuja a aposta em etapas de muita montanha ou então com chegadas em alto, tornou-a diferente das outras duas grandes voltas. Também os ciclistas - mais os trepadores, não tanto os sprinters que criticam um percurso pouco dado para eles - estão cada vez mais rendidos. Os grandes nomes colocam cada vez mais a Vuelta como objectivo.

Também o Giro tem vindo a ganhar terreno. Mesmo por vezes não conseguindo chamar o pelotão do Tour ou mesmo da Vuelta, tem sido palco de dias de muito espectáculo, algo que tem faltado à histórica volta francesa que vive cada vez mais precisamente dessa sua história, da sua tradição. Falta-lhe a incerteza do resultado, as etapas de grande espectáculo, os ciclistas arriscarem mais em ataques... E como aqui já foi escrito, a culpa não é só do controlo da Sky.

Esta intenção de Lappartient não é inédita e foi levantada há poucos anos, mas acabou por nunca avançar. E esta não é a única ideia do presidente da UCI que está a encontrar resistência. Depois de reduzir o número de ciclistas nas grandes voltas de nove para oito e de oito para sete nas restantes competições, o responsável quer ainda menos corredores por equipas. Já este ano algumas estruturas cortaram não só no número de atletas, mas também nos elementos do staff, pelo que a pretensão de reduzir ainda mais os ciclistas por parte da UCI, está a levantar questões como os postos de trabalho que estão a ser colocados em causa. Muitos consideram que a nível competitivo não há muito a ganhar com esta diminuição.

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9 de março de 2018

Aperta-se o cerco à Sky e Froome está a tornar-se no indesejável

Presença de Froome no Tirreno-Adriatico não agrada a todos
(Fotografia: Facebook Tirreno-Adriatico)
A paciência está no limite para os organizadores, ciclistas, directores de equipas... Ver Chris Froome a competir está a provocar um mal-estar que começa a não ser possível esconder. Pede-se celeridade na resolução do processo do uso da substância salbutamol - o único pormenor em que todos, inclusivamente Froome e Sky, estão de acordo -, mas é pouco provável que venha a acontecer. Para agravar a situação da equipa britânica, o relatório divulgado no Reino Unido que levantou suspeitas sobre Bradley Wiggins e possivelmente outros ciclistas no Tour de 2012, faz com que a Sky esteja a ser atacada praticamente por todos os lados. Independentemente do que venha a acontecer, estes casos que envolvem a Sky podem levar a uma mudança nos regulamentos.

O presidente da UCI, David Lappartient está a ser pressionado para passar das palavras à acção. Na sequência do relatório divulgado pelo comité do departamento digital, cultural, media e desporto no Reino Unido (ver link no final do texto), o dirigente quer que o organismo inicie uma investigação à Sky, pois considera que se foram utilizadas substâncias para melhorar a performance e não para problemas de saúde, como foi defendido pela equipa que recorreu ao uso de excepção terapêutico, então "é batota", nas palavras de Lappartient, em entrevista à BBC.

O responsável considera que chegou o momento de se terminar com as "zonas cinzentas", levantando também dúvidas sobre as declarações de um antigo director da Sky, Shane Sutton, "Penso que temos de saber mais sobre estas histórias, ainda existem zonas cinzentas, mesmo no relatório. E vi que o Shane Sutton pediu ao Wiggins para dizer a verdade. O que é que isso significa?" Para Lappartient, o relatório deixa transparecer que o que terá acontecido foi "organizado" e não um "deslize". "Pode afectar e credibilidade do desporto e é por isso que estou preocupado com isto", afirmou o presidente da UCI.

Sobre Chris Froome, Lappartient já tinha expressado a opinião que o ciclista não deveria estar a competir. Porém, as regras permitem que o faça. O dirigente deseja que o caso esteja fechado antes do Tour, dizendo mesmo que seria catastrófico para a modalidade que a Froome competisse e eventualmente visse depois os resultados serem anulados, se a sua defesa não resultar. Mauro Vegni, responsável pelo Giro, não queria ver acontecer com Froome o que se passou com Alberto Contador em 2011. O espanhol ganhou, mas ao perder o processo sobre o uso de uma substância proibida, acabou por ficar sem a vitória. Porém, o discurso de Lappartient deixa antever que será impossível o processo de Froome estar concluído antes de 4 de Maio, dia em que arranca a Volta a Itália.

E também não parece convencido que estará fechado a 7 de Julho, no início do Tour. Se assim for, o presidente da UCI espera que Froome aceite a proposta de não competir na Volta a França. "Para ele estar mais concentrado em defender o seu caso, do meu ponto de vista, seria melhor ele não correr", afirmou. Aqui também começa a ficar em causa o ambiente hostil, por parte dos adeptos, que poderá estar à espera do ciclista e da Sky, como já aconteceu há uns anos.

Froome, o indesejável

O ciclista britânico respondeu às declarações de Lappartient, dizendo que faria melhor em dizê-lo pessoalmente e não através dos meios de comunicação social. Froome refugia-se nas regras que lhe permitem competir e reitera: "Obviamente que estou a fazer o que posso para resolver isto o mais rapidamente possível." Também repete que o caso não era suposto ser público.

Chris Froome está actualmente a competir no Tirreno-Adriatico, tendo em vista a preparação para a Volta a Itália, depois de ter sido 10º na Ruta del Sol. Em Itália está também um Romain Bardet (AG2R) que foi dos primeiros a apelar a Froome que se auto-suspendesse e agora foi Tom Dumoulin (Sunweb) que afirmou que se fosse ele, não estaria a competir e não apenas pelo facto da sua equipa pertencer ao Movimento Por um Ciclismo Credível (MPCC) - a Sky não faz parte. "[Froome] não quebrou nenhuma regra. Pode estar aqui? Pode. É bom para o ciclismo? Não. Traz algum benefício? Não", afirmou o holandês.

Froome está mesmo a tornar-se num indesejável. Vegni considerou uma grande vitória ter o britânico no Giro, agora já só quer evitar passar novamente pela situação de ter de retirar uma possível vitória a um ciclista, como aconteceu a Contador, tendo Michele Scarponi sido declarado o vencedor. Christian Prudhomme, director do Tour, considera grotesco que ainda não se tenha chegado a uma conclusão. "Queremos uma resposta. Precisamos de uma resposta, não apenas para nós na Volta a França, mas para todos os organizadores, para que não haja um ciclista que mais tarde se diga que não deveria ter estado na partida. É de loucos. É completamente grotesco! Precisamos de uma resposta", salientou à RMC Sport.

Quanto ao MPCC, é feita nova insistência para que Froome não esteja em competição e o movimento deseja que os organizadores possam excluir ciclistas que estejam na situação do britânico. O único problema é que tal iria contra os actuais regulamentos, que o MPCC quer ver mudados. "O MPCC pede à UCI que altere a suas regras no World Tour para que os organizadores possam excluir das suas corridas quem tenha uma investigação pendente após um controlo positivo num resultado adverso", lê-se num comunicado.

De recordar que Froome acusou o dobro do permitido de salbutamol durante a Vuelta, uma substância utilizada por asmáticos. O caso não era suposto ser revelado publicamente, mas foi publicado em dois jornais.

O calendário do ciclista vai sendo anunciado à medida que as corridas se vão aproximando, estando apenas confirmado o que já se conhecia antes da polémica rebentar: Froome quer atacar Giro e Tour.

Todos querem o lugar de Froome

O seu caso e a sua presença nas corridas acaba por desviar as atenções desportivas para as suspeitas crescentes sobre a Sky. Questiona-se o futuro da equipa, mas a curto prazo as dúvidas são também sobre o ambiente dentro da equipa. Geraint Thomas, por exemplo, nem quer ouvir falar de corticóides e do uso de excepção terapêutico. Certo é que há quem queira ficar com o lugar de líder de Froome, se o posto vier a ficar livre. Thomas foi o primeiro a avisar que iria ao Tour a pensar na sua corrida e não apenas para ajudar o colega. O galês não ficou nada satisfeito por ver Froome ir ao Giro e ao Tour, quando Thomas pensava que teria pelo menos a oportunidade de ser novamente líder em Itália. E a Vuelta, não o deixa satisfeito. Está em final de contrato e não seria surpreendente vê-lo seguir as pisadas de Richie Porte e procurar uma equipa que lhe desse estatuto de número um.

Michal Kwiatkowski também já chegou a dizer que gostaria de ter mais destaque numa grande volta. Sendo quatro anos mais novo que Thomas - tem 27 -, ainda vai muito a tempo de ter a sua oportunidade e talvez por isso tenha mudado o discurso para: "Quero ganhar todas as clássicas." E a julgar pela exibição na Volta ao Algarve, uma corridas de uma semana também serão objectivo.

Wout Poels (30) - que sofreu esta sexta-feira uma grave queda no Paris-Nice - é outro que já pediu papel de líder numa grande volta, mas não estava na equação, ainda mais quando Mikel Landa pertencia à Sky. O espanhol saiu, mas holandês poderia aspirar no máximo a corridas por etapas mais curtas. Agora já disse publicamente que quer assumir a responsabilidade de Froome, caso este seja sancionado. David de la Cruz acabou de chegar à Sky e estará no Giro como gregário, mas foi peremptório em dizer que lhe foi prometido que na Vuelta teria a sua oportunidade.

Até que ponto é que as suspeitas sobre Bradley Wiggins e o comportamento na equipa no ano em que ganharam o primeiro Tour, mais o caso do "pacote suspeito" que envolve também Wiggins e agora a situação de Chris Froome, estão a destruir um alicerce essencial da equipa: a união em torno de um líder, aconteça ou que acontecer? Evitar o desmoronar interior da Sky é desde logo uma missão que estará a decorrer.

Mais do que palavras a falar de mudanças, todo este mal-estar é a prova que é preciso agir e rápido, mesmo que já não se vá a tempo de ser rápido na resolução de pelo menos do caso de Chris Froome.

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27 de fevereiro de 2018

E se o Giro e Vuelta fossem mais curtos? Mas no Tour não se mexe

(Fotografia: Giro d'Italia)
David Lappartient não tem parado de disparar em todas as direcções, querendo ser um presidente da UCI que pretende implementar várias mudanças no ciclismo que façam muita diferença. O doping mecânico tornou-se numa bandeira do seu mandato, abriu guerra aos rádios e aos medidores de potência, quer reduzir ainda mais os ciclistas por equipa nas corridas e agora quer mexer no calendário. Para o francês, Giro e Vuelta deveriam ser mais curtos, mas no Tour não se mexe.

"Creio que o percurso da Volta a França deve-se deixar em três semanas. É o evento mundial de ciclismo", afirmou Lappartient ao jornal italiano La Stampa. Quanto ao Giro e Vuelta, aponta para os 17 dias, mas com três fim-de-semanas: "Falaremos, sem forçar nada. Respeitaremos a vontade dos organizadores." Mas há mais. Para o presidente da UCI exagerou-se na expansão do ciclismo que actualmente chega a todos os continentes. "O ciclismo deve confiar nas suas raízes, que estão na Europa", afirmou, considerando que o aumento de corridas fora do Velho Continente se deveu há globalização.

O que para a anterior direcção foi visto como uma vitória levar o World Tour até à China, por exemplo, ou cimentar a presença na Austrália e na América do Norte com as recentes inclusões no principal calendário da Cadel Evans Great Ocean Race e da Volta à Califórnia, já Lappartient não parece estar tão convencido. Ainda assim, este não parece ser um ponto que esteja a pensar mexer. Já o das grandes voltas tem intenções de pelo menos abordar os organizadores.

Mas fica desde logo a questão: porquê mexer no Giro e na Vuelta e não no Tour, que nos últimos anos tem sido a corrida de três semanas com menos espectáculo e menos indefinição quanto ao resultado final? Lappartient dá valor à história e ainda bem que o faz. Muitas têm sido a corridas que nem o factor histórico as salva. E é francês, isso também terá a sua influência.  A Volta a França foi pioneira. Começou em 1903, sete anos antes do Giro. A Vuelta só em 1935 teve a sua primeira edição. Durante décadas o Tour foi a corrida onde nasceram heróis, criaram-se mitos, viveram-se momentos que sem qualquer dúvida marcam o ciclismo. Mas também o Giro e mesmo a Vuelta têm as suas histórias marcantes.

Porém, nas edições mais recentes, tem sido o Tour que tem perdido para as outras grandes voltas. A domínio da Sky tirou espectáculo e principalmente uma maior indefinição, ainda que seja em França que o melhor do pelotão para este tipo de corridas continua a estar e também continua a ser aquela prova que todos querem estar e eventualmente ganhar. No entanto, a culpa está longe de ser apenas da Sky. O próprio percurso tem sido criticado. As longas etapas planas são desesperantes, as de montanha têm sido perfeitas para o controlo da Sky... Falta um elemento que quebre com o normal e esse até será este ano levar um pouco de Vuelta para França, com uma etapa curta e montanhosa.

Já o Giro e a Vuelta têm sido mais inovadores. Principalmente em Espanha, que se tornou na volta dos trepadores de excelência. Não há praticamente espaço para os sprinters e de ano para ano vai conquistando a preferência de cada vez mais grandes figuras. E o espectáculo? Fica ao gosto de cada um, é certo, mas tem sido uma corrida com muito bom ciclismo quase dia sim, dia sim. E mesmo com a Sky a querer ganhá-la, não houve aquele controlo do Tour, pois o percurso (e os muitos quilómetros nas pernas no final da temporada) torna-o mais complicado. Em Itália há uns anos melhores do que outros, mas só o facto de ser difícil apontar um vencedor, de ser uma das grandes voltas onde têm aparecido novas figuras, beneficiando da fixação das estrelas pelo Tour, tudo isso tem contribuído para três semanas bem interessantes de ciclismo.

Em suma, o Tour... é o Tour, mas deixem as grandes voltas serem três, cada uma com a sua própria alma, cada uma com a sua própria história, cada uma com o seu próprio espectáculo. E com três semanas. O ciclismo evoluiu, como qualquer desporto. Deixou as etapas de mais de 200 quilómetros (até 300), que duravam quase um dia inteiro a completarem, ou as tiradas de montanha de enorme violência... A Vuelta, por exemplo, reinventou-se para encontrar o seu lugar de destaque. O ciclismo não está perfeito, mas dá vontade de dizer, não mexam nas grandes voltas. Principalmente quando há tanto para fazer... Doping, doping mecânico, viabilidade das organizações das corridas, viabilidade e condições das equipas de todos os escalões, das estruturas de formação...

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