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1 de abril de 2017

"O Super Bowl do ciclismo." As melhores frases de alguns dos pretendentes à vitória na Volta a Flandres

No últimos dias alguns dos candidatos e outros pretendentes à vitória na Volta a Flandres deram as habituais conferências de imprensa ou entrevistas, a perspectivar o segundo monumento do ano, que se realiza este domingo.  Serão 260 quilómetros que começam em Antuérpia e a meta será em Oudenaarde. Aqui ficam algumas das principais frases.

Peter Sagan (Bora-Hansgrohe, vencedor em 2016): "Estarão lá muitos bons ciclistas, não seremos só eu e ele [Greg van Avermaet] no pelotão. Teremos de ter atenção a muita gente, a quem é favorito e como se vai desenrolar a corrida. [A corrida] não é apenas de dois ciclistas. Por isso, de certeza que vamos precisar de muita sorte no domingo."

Alexander Kristoff (Katusha-Alpecin, vencedor em 2015): "Ele [Tony Martin] é mais ofensivo e pode fugir em ataques. Para mim é melhor que o grupo fique todo junto. Ele traz uma nova dimensão à equipa. Ele pode atacar. Nós não temos de tentar sempre juntar os grupos, também podemos escapar. Vamos ver o que acontece e o que nos pode beneficiar. Para mim, normalmente o melhor é que as subidas sejam fáceis, para o Tony é diferente. Temos de descobrir uma forma inteligente de correr para assim ter mais possibilidades de ganhar."

Tom Boonen (Quick-Step Floors, vencedor em 2005, 2006 e 2012): "É especial [última vez que faz a Volta a Flandres], mas neste momento ainda estou a conseguir manter-me calmo. Não sei como será no domingo, ainda mais o início [em Antuérpia] é perto da minha casa. [Sobre a possibilidade de atacar a corrida] Não quero ficar no pelotão na minha última Volta a Flandres."

Greg van Avermaet (BMC): Eu, o Peter [Sagan] e o Philippe [Gilbert] estamos mesmo em boa forma e já mostrámos bons resultados. Há outros [candidatos] que são líderes [das equipas], mas penso que podemos dizer que somos os três favoritos. Penso que pela segunda vez o Kwaremont será onde a discussão final irá começar."

John Degenkolb (Trek-Segafredo): "É óbvio que o Van Avermaet e o Sagan estão muito fortes, contudo, a força da nossa equipa como um todo não esteve muito longe do nível deles e isso dá-nos confiança para as próximas corridas. Temos duas grandes corridas pela frente [Volta a Flandres e Paris-Roubaix] e para mim são as mais importantes da época."

Philippe Gilbert (Quick-Step Floors): "Estou muito bem agora. Trabalhei muito para chegar aqui, por isso, não é só um milagre. Fiz muitos sacrifícios para chegar aqui em boa forma e foi mesmo a tempo [da Volta a Flandres]. Tenho a impressão que posso fazer melhor [na corrida], mas nunca há garantias neste tipo de provas."

Luke Rowe (Sky): "Porque o [Peter] Sagan já demonstrou o quanto é forte e o Greg [van Avermaet] também, as pessoas estão a tentar isolá-los. E quando se tem uma Quick-Step Floors tão forte, os ciclistas tentam atacar cedo e fugir. Estas clássicas [do pavé] são as mais agressivas que já fiz e há que ter isso em conta nas próximas duas corridas [Volta a Flandres e Paris-Roubaix]."

Taylor Phinney (Cannondale-Drapac): "Todos na Bélgica conhecem esta corrida. É o Super Bowl das corridas de ciclismo, até mais do que a Volta a França."

31 de março de 2017

18 muros, o regresso do Kapelmuur e os suspeitos do costume a prometerem muito espectáculo

Sagan procura a segunda vitória e Boonen terá a última oportunidade
para tentar ser o ciclista com mais triunfos na Volta a Flandres
(Fotografia: © Bora-Hansgrohe/Stiehl Photography)
Peter Sagan, Greg van Avermaet, uma super Quick-Step Floors, Alexander Kristoff... os actores principais não vão faltar à chamada de um dos monumentos mais icónicos do ciclismo: a Volta a Flandres. Este ano regressa o Kapelmuur, cinco anos depois, mas um dos muros mais famosos do ciclismo não terá a influência de outrora, pois aparece muito longe da fase decisiva da corrida. A organização optou por manter os últimos 75 quilómetros praticamente intactos, comparativamente com 2016, quando Peter Sagan venceu o seu primeiro monumento e único, até agora. Corridas aborrecidas não são hábito na Volta a Flandres e este domingo promete novamente muito espectáculo, tendo em conta a ambição dos candidatos.

Com Tom Boonen a uma semana de se retirar, o belga tem novamente o objectivo de se tornar o rei da Volta a Flandres. Em 2016, ele e Fabian Cancellara procuraram essa distinção, ou seja, queriam somar a quarta vitória no monumento, marca que nunca ninguém alcançou. O belga ficou a um minuto de Sagan, que ao arrancar deixou para trás o suíço, que viu depois Sep Vanmarcke ter um acto de enorme respeito, ao não disputar o sprint, oferecendo o segundo lugar ao Spartacus que estava no seu último ano como profissional.

Desta feita é Boonen que está a despedir-se e há muitas dúvidas como o ciclista de 36 anos irá apresentar-se. Até começou bem a temporada com uma vitória numa etapa na Volta a San Juan (tornou-se no primeiro ciclista a ganhar numa bicicleta com travões de disco). Porém, a temporada de clássicas não está a ser nem de perto nem de longe como o esperado, com Boonen a nem conseguir entrar na discussão pelas corridas. É uma ambição assumida acabar com um triunfo no Paris-Roubaix, que a concretizar-se será o quinto. Mas também a Volta a Flandres é um objectivo e Boonen já prometeu que irá dar tudo para se apresentar melhor do que nas clássicas até ao momento.

A Quick-Step Floors oferece ao belga uma equipa fortíssima para ajudar Tom Boonen. Julien Vermote, Iljo Keisse, Niki Terpstra, Zdenek Stybar, Yves Lampaert e Mateo Trentin estarão ao lado do belga, assim como Philippe Gilberto. No entanto, o campeão da Bélgica chega à Volta a Flandres numa forma que há muito que não se via. Venceu os Três Dias de Panne, depois de um segundo lugar na corrida Através da Flandres e na E3 Harelbeke. Sendo um homem que gosta mais da semana das Ardenas, o próprio já admitiu que redescobriu o gosto pelo pavé e se não terá problemas em trabalhar para Boonen, Gilbert será certamente uma segunda opção para a equipa, caso o líder não esteja à altura dos acontecimentos.

Sendo Tom Boonen um senhor nas clássicas, a verdade é que nesta altura as principais estrelas são Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) e Greg van Avermaet (BMC). Inevitavelmente as atenções vão estar centradas nos dois. Sagan venceu em 2016, mas este ano ainda só conquistou uma clássica enquanto o rival está imparável e conquistou a Omloop Het Nieuwsblad, a E3 Harelbeke e a Gent-Wevelgem. Mais do que nunca a confiança está em alta para Avermaet, que sente que chegou o momento de finalmente ter o seu monumento.

Sagan tem andado a tentar passar a mensagem aos adversários que não irá mais andar a "puxar" outros ciclistas, para depois ser batido ao sprint. Praticamente abdicou de lutar em duas clássicas, mas certamente que na Volta a Flandres dará o tudo por tudo para confirmar as expectativas criadas, nomeadamente de se vir a tornar num dos ciclistas com mais vitórias em monumentos. Escapou-lhe a Milano-Sanremo para um fenomenal Michal Kwiatkowski (Sky), mas o bicampeão do mundo quer demonstrar todo o seu poderio na Bélgica e, naturalmente, no Paris-Roubaix. a 9 de Abril.

Aos suspeitos do costume juntam-se... mais suspeitos do costume! Sep Vanmarcke (Cannondale-Drapac) está a viver a fase que Avermaet passou até há dois anos. O belga consegue estar na luta pelas vitórias, tem alguns pódios, mas só um triunfo: na Omloop Het Nieuwsblad em 2012. Já Alexander Kristoff (Katusha-Alpecin) sabe o que é ganhar a Volta a Flandres (2015), mas no ano passado e neste tem passado ao lado das principais corridas. A vitória numa etapa nos Três Dias de Panne foi como um murro na mesa para libertar alguma frustração que estava a acumular, mas não retira pressão ao norueguês que está a ver esta fase das clássicas do pavé acabar e não tem conseguido comprovar sequer o seu estatuto de candidato.

A par da Quick-Step Floors, a Trek-Segafredo leva também ela uma equipa muito forte e com mais do que uma opção para tentar ganhar. A desilusão perante os recentes resultados foi tornada pública pelo director desportivo Dirk Demol. É o tudo por tudo na Volta a Flandres e Paris-Roubaix. John Degenkolb é o líder indiscutível, mas tal como a equipa belga, a Trek-Segafredo tem um plano B, neste caso chamado Jasper Stuyven. Edward Theuns e Fabio Felline também podem fazer mais do que só trabalhar para Degenkolb se for necessário. Gregory Rast, Kiel Reijnen, Boy van Poppel e um dos principais homens de confiança de Degenkolb, Koen de Kort, completam os eleitos da formação americana.

Oliver Naesen (AG2R) é a mais recente estrela belga para as clássicas e há uma grande curiosidade para ver o que poderá fazer depois dos bons resultados nas corridas do pavé que se realizaram até agora.  A outra equipa francesa, a FDJ, aposta em Arnaud Démare, enquanto a Sky irá a jogo a pensar em Ian Stannard e Luke Rowe. A Dimension Data terá um Edvald Boasson Hagen em muito boa forma como principal referência. A Lotto Soudal repete a aposta em Tiesj Bennot e Jurgen Roelandts. Já a Lotto-Jumbo espera que Lars Boom reapareça, pois os anos estão a passar e começa a parecer que aos 31 anos o melhor do ciclista já foi visto.

Estarão dois portugueses em prova, ambos da Movistar. Nelson Oliveira está de regresso às clássicas para apostar nos dois monumentos do pavé, enquanto Nuno Bico continua a ser chamado pela formação espanhola, sendo cada vez mais claro que os responsáveis da Movistar acreditam no português e estão a preparar o ciclista para o futuro dando-lhe experiência em algumas das principais competições do calendário.


Serão 260 quilómetros (mais cinco que em 2016), com 18 muros, uma nova partida - em Antuérpia - e a meta em Oudenaarde. Além do Kapelmuur (chega a ter 20% de inclinação), esta ano teremos ainda o Ten Bosse e o Pottelberg, com Molenberg, Valkenberg e Kaperij a saírem do percurso.

Aviso: ciclista que evitar o pavé será desqualificado

Tem sido uma das questões das últimas semanas no pelotão internacional. Os ciclistas aproveitam qualquer oportunidade para não ter de passar pelo pavé. Bermas menos acidentadas, ciclovias e até passeios têm servido para evitar o empedrado. Mas quando se está a falar de clássicas do pavé, a ideia é que os corredores mostrem as suas qualidades num terreno tão complicado e não as qualidades em tentar evitá-lo. Nos Três Dias de Panne 15 ciclistas foram multados em 200 francos suíços (cerca de 187 euros), entre eles o eventual vencedor Philippe Gilbert.

Logo na primeira clássica, a Omloop Het Nieuwsblad, pediu-se a desqualificação dos três primeiros classificados, pois Greg van Avermaet, Peter Sagan e Sep Vanmarcke aproveitaram os passeios para evitar o pavé. A organização não cedeu ao pedido e manteve o resultado da corrida.

O regulamento da UCI prevê a multa e/ou a desqualificação e, por isso mesmo,  o comissário Didier Simon afirmou ao jornal belga Het Laatste Nieuws que se vir algum ciclista a evitar o pavé na Volta a Flandres, irá exclui-lo da corrida, independentemente da importância ou do currículo que tenha. Alguns directores desportivos estão a defender que sejam colocadas barreiras físicas para evitar que os ciclistas tentam "fugir" ao pavé, oferecendo também uma maior segurança a quem estiver a assistir à prova.

»»Resultados da Trek-Segafredo nas clássicas estão a desiludir e já se sente a falta de Cancellara««



24 de março de 2017

Amigos do Paris-Roubaix ultimam pormenores para que o pavé esteja perfeito

(Fotografia: Twitter Amis Paris-Roubaix)
Estamos em contagem decrescente até aos dois monumentos do pavé. No dia 2 de Abril será a Volta a Flandres e no domingo seguinte o Paris-Roubaix. São duas corridas em que se está perante muito mais do que mais um dia de ciclismo. São monumentos que marcaram e continuam a marcar a história da modalidade. A dureza dos percursos ajudou a criar verdadeiros mitos e heróis do pavé e tal só é possível se tudo estiver perfeito para receber os melhores do mundo nesta vertente tão específica do ciclismo. No chamado "Inferno do Norte", os Amigos do Paris-Roubaix estão a dedicar todo o tempo necessário para garantir que os famosos troços de pavé estejam nas melhores condições. Quando se olha para as fotografias parece que se está a realizar umas obras profundas, mas não. São apenas pormenores, uns a precisar de mais cuidado que outros, para que os troços sejam um aliado do espectáculo e não uma dor de cabeça para os ciclistas... Ou pelo menos uma dor de cabeça ainda maior!

Esta associação tem sido essencial para garantir que o pavé do Norte de França não só é mantido nas melhores condições, como tem lutado contra algumas ideias em o transformar em alcatrão... Os Amigos do Paris-Roubaix têm dado um contributo essencial para que o monumento mantenha todo o seu esplendor, umas vezes com mais pó, outra vezes com lama, dependendo do que a meteorologia oferecer.

O importante agora é arranjar algumas zonas que o Inverno deixou com alguns problemas, ainda que não sejam tão graves como o velódromo ter sido transformado numa piscina depois de uma intensa chuva que afectou Roubaix no início do mês.

Os Amigos do Paris-Roubaix tem partilhado na sua conta de Twitter algumas fotografias sobre o trabalho que está a ser realizado. E este ano, mais do que nunca, todos querem ver um percurso perfeito para a grande despedida do Rei de Roubaix: Tom Boonen.

»»Mais sectores de pavé para alimentar a lenda do Paris-Roubaix««

»»Tom Boonen, o senhor relações públicas... depois do Paris-Roubaix««

24 de fevereiro de 2017

Sagan, Avermaet, Boonen... A época das clássicas vai começar

(Fotografia: Facebook Volta a Flandres)
Antes das atenções se virarem para as competições de três semanas, chega uma altura do ano muito especial do ciclismo: a das clássicas. É a emoção das corridas de um dia com enorme tradição principalmente em terras belgas e francesas. O pavé que faz parte de algumas das mais icónicas corridas, ao que se junta muitas vezes o mau tempo que torna as provas nuns desafios infernais para os ciclistas e num espectáculo admirado por muitos fãs. Chegou o momento de grandes estrelas entrarem em acção, a maior de todas Peter Sagan, ainda sem vitórias este ano, mas já com uns segundos lugares, outra tradição (mais recente) do ciclismo! No entanto, se há um ano o eslovaco dividiu as atenções com Fabian Cancellara, que estava a fazer a despedida, em 2017 irá fazê-lo com outro dos maiores classicistas de sempre: Tom Boonen está mesmo na recta final, pois a 9 de Abril, no Paris-Roubaix, terminará uma carreira de sucesso invejável. E claro, Greg van Avermaet tem contas pendentes a ajustar, pois quando finalmente venceu uma clássica na Bélgica e parecia encaminhado para lutar pelos monumentos da Volta a Flandres e Paris-Roubaix, sofreu uma queda no primeiro e teve de assistir pela televisão à restante época das clássicas em 2016.

Tudo começa este sábado com a Omloop Het Nieuwsblad. A corrida belga irá fazer a sua estreia no calendário World Tour, uma subida que limita-se a confirmar a importância que já tinha. Em 71 edições contou com grandes vencedores e sempre foram muitos os ciclistas de renome que fizeram questão de estar presente na corrida. Em 2016, Greg van Avermaet finalmente venceu uma prova de um dia no seu país, confirmando a sua alcunha de "besta negra de Sagan", pois deixou, como já o fez noutras ocasiões, o eslovaco na segunda posição. No domingo, será a vez de outra clássica histórica. A Kuurne-Bruxelles-Kuurne é de categoria 1.HC, mas contará praticamente com o mesmo pelotão que estará na Omloop Het Nieuwsblad.

Durante os próximos dois meses haverá muita acção para se assistir. Aqui fica uma lista de ciclistas a seguir.

Tom Boonen (36 anos, Quick-Step Floors)
(Fotografia: Quick-Step Floors)
É uma questão de respeito começar pelo belga. Afinal estamos a falar de um dos grandes especialistas do ciclismo neste tipo de corrida que anunciou que chegou o momento de se retirar. Os últimos anos não têm sido fáceis para Tom Boonen. Ou não conseguia apresentar-se na melhor forma, ou uma queda acabava por lhe estragar a fase do ano que mais gosta. É preciso não esquecer que até se destacou como sprinter no início da carreira, mas foi nas clássicas que construiu o seu maior legado. Inevitavelmente as quatro vitórias no Paris-Roubaix e as três na Volta a Flandres são os seus maiores feitos, ao lado dos Mundiais em 2005. 2012 foi um ano memorável para Boonen, sendo quase imbatível nas clássicas, tendo conquistado pela última vez os dois monumentos. O objectivo de 2017 é terminar a carreira com uma vitória no Paris-Roubaix, depois de no ano passado ter sido surpreendido por Mathew Hayman. Mas até lá quer mais uns triunfos. E a julgar pelas provas que já realizou este ano, Boonen deverá apresentar-se em boa forma e nada melhor que começar as clássicas com uma conquista que falta no seu currículo: a Omloop Het Nieuwsblad.

Peter Sagan (27 anos, Bora-Hansgrohe)
(Fotografia: Bora-Hansgrohe)
É o maior especialista da actualidade. Porém, ainda só conta com um monumento, conquistado precisamente no ano passado, na Volta a Flandres. Em qualquer clássica que Sagan participe dificilmente (e estranhamente) não será considerado o principal favorito. No entanto, tem uma tendência em somar segundos lugares. Claro que isso significa que está na luta pelas vitórias e o próprio não se deixa abater por tal, preferindo de imediato pensar em ganhar a próxima corrida. Contudo, depois de dois Mundiais conquistados, cinco classificações por pontos do Tour e 89 vitórias como profissional aos 27 anos, o eslovaco quererá definitivamente afirmar-se como o rei das clássicas, sendo apontado como o ciclista que tem todas as qualidades para conquistar os cinco monumentos, ainda que a Lombardia não seja uma corrida que aprecie muito. A sua inteligência, a sua potência, o seu estilo de ataque tornaram-no numa referência. Agora é altura de consolidar um currículo que tem tudo para ser um dos mais impressionantes do ciclismo. Boonen, por exemplo, tem 113 vitórias como profissional.

Greg van Avermaet (31 anos, BMC)
(Fotografia: BMC)
2016 só não foi perfeito porque a queda com elementos da sua equipa na Volta a Flandres retirou-lhe a possibilidade de lutar por essa corrida e depois pelo Paris-Roubaix. No entanto, depois de anos a ver da primeira fila outros ganharem, Avermaet começou a somar triunfos e no ano passado venceu finalmente uma corrida na Bélgica. Apesar da queda, o ano teve tudo para ser memorável por boas razões. Venceu o Tirreno-Adriatico (bateu Sagan, pois claro), venceu uma etapa no Tour e vestiu a camisola amarela e foi campeão olímpico. O belga conquistou o seu espaço na BMC, que não se preocupou em tentar segurar Philippe Gilbert. Avermaet será o único líder da equipa para esta altura do ano e estando no seu melhor momento da carreira, é de esperar vê-lo sempre entre os primeiros... se não mesmo em primeiro.

Philippe Gilbert (34 anos, Quick-Step Floors)
(Fotografia: Quick-Step Floors)
O belga tenta reencontrar-se com as vitórias. Depois de dominar no início da década, a passagem pela BMC acabou por ser um pouco aziaga. Parecia que Gilbert tinha tudo para se transformar num dos grandes classicistas da história. Porém, depois de três monumentos em outros tantos anos (duas Lombardias e uma Liège-Bastogne-Liège), a última grande vitória numa clássica data de 2014, quando conquistou a sua terceira Amstel Gold Race. Na Quick-Step Floors, o ciclista espera recuperar algum dos prestígio perdido. Nesta primeira fase das clássicas estará mais no apoio a Boonen - algo que não o incomodará muito, pois não é um fã do pavé -, mas depois do Paris-Roubaix, terá caminho aberto para liderar a equipa, ainda que Niki Terpstra terá também sempre a sua oportunidade para lutar por vitórias.

John Degenkolb (28 anos, Trek-Segafredo)
(Fotografia: Trek-Segafredo)
Depois de um 2016 para esquecer - foi atropelado na pré-época e quase perdeu um dedo -, Degenkolb mudou de ares. Deixou a Giant-Alpecin e assinou pela Trek-Segafredo, que acredita que o alemão tem tudo para ocupar o lugar deixado vago por Fabian Cancellara. Em 2015 conquistou a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix e Degenkolb quer construir um grande currículo nas clássicas. As indicações de início do ano são muito animadoras. Conta com uma vitória e na Volta ao Dubai, tendo estado na luta nos sprints nessa corrida e também na Volta ao Algarve. Degenkolb está a recuperar as melhores sensações como ciclista e é um dos nomes a ter em conta. No entanto, não o vamos ver este fim-de-semana. Não está inscrito para a Omloop Het Nieuwsblad e não aparece na lista de pré-inscritos da Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Irá ao Paris-Nice antes de atacar os três monumentos: Milano-Sanremo, Volta a Flandres e Paris-Roubaix.

Jasper Stuyven (24 anos) e Edward Theuns (25)
(Fotografias: Trek-Segafredo)
A Trek-Segafredo apresenta-se com um lote muito forte de ciclistas para as clássicas. Se não há John Degenkolb, então a equipa americana joga com dois jovens de grande talento. Jasper Stuyven já comprovou que é homem para estas corridas, principalmente no inferno do pavé. Em 2010 venceu o Paris-Roubaix no escalão de juniores e no ano passado conquistou a Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Stuyven - vencedor da Volta ao Alentejo em 2013 - é uma das grandes esperanças da Trek-Segafredo, assim como Theuns. Porém, neste caso, há uma incógnita: Theuns sofreu uma queda muito grave no contra-relógio da Volta a França. A lesão nas costas fê-lo temer que o seu primeiro ano no World Tour seria o último. Recuperou, mas falta saber se conseguirá regressar ao seu melhor, para assim continuar a evoluir. Talento tem, agora é uma questão de perceber se o corpo está 100% recuperado e se mentalmente Theuns está pronto para enfrentar situações perigosas como as descidas, pois foi numa que caiu no Tour.

Tiesj Benoot (22 anos, Lotto Soudal)
(Fotografia: Lotto Soudal)
É um diamante em bruto. É muito jovem, pelo que poderemos ter de esperar algum tempo para o ver ganhar uma grande clássica. Ou talvez não... Benoot já tem resultados de nota nestas corridas, pelo que pode não ser um dos favoritos, mas é um candidato. No ano passado foi terceiro na Omloop Het Nieuwsblad e em 2015 foi quinto na Volta a Flandres. O recente vencedor da classificação da juventude na Volta ao Algarve tem tudo para se tornar na próxima referência belga nas clássicas, numa altura que Boonen vai dizer adeus e Gilbert e Avermaet já têm mais de 30 anos. A idade poderá traí-lo no que diz respeito à experiência que pode ser muito importante para corridas tão imprevisíveis como são as do pavé, por exemplo. Porém, a inteligência com que corre, revela maturidade para os apenas 22 anos que tem. É um corredor a seguir com atenção e os grandes nomes sabem que não o podem perder de vista.

Sep Vanmarcke (28 anos, Cannondale-Drapac)
(Fotografia:
Cannondale-Drapac)
O belga regressou a uma estrutura que já conhecia para tentar desbloquear a situação de ficar perto de ganhar, mas não conseguir a vitória. Sofre de uma espécie de síndroma de Avermaet. Soma pódios no Paris-Roubaix e Volta a Flandres e mais uns top dez em clássicas. Venceu em 2012 a Omloop Het Nieuwsblad, mas fica sempre perto de fazer algo mais. Porém, falta aquele bocadinho... É um ciclista feito para as corrida do pavé. Tem a estrutura física, a resistência e a inteligência necessária para triunfar. O que falta a Vanmarcke? Pode-se sempre dizer que lhe falta sorte, mas a verdade é que no momento da verdade, o belga não consegue dar a machada final, acabando por ver outros vencer. Na Cannondale-Drapac, Vanmarcke sabe que é o líder indiscutível para as clássicas. Não que não o fosse na Lotto-Jumbo, mas a formação holandesa tinha outros ciclistas também com as mesmas pretensões. A Cannondale-Drapac não hesitou em recuperar o belga, pois bem que precisa de alguém que lhe traga vitórias. A ver vamos se a união resulta.

Alexander Kristoff (29 anos, Katusha-Alpecin)
(Fotografia: Katusha-Alpecin)
Do norueguês nunca se sabe bem o que esperar. Nos três últimos anos foi capaz do melhor e do pior. Já tem uma Milano-Sanremo e uma Volta a Flandres. Porém, em 2016 ambicionou a muito, mas passou ao lado de praticamente todos os grandes momentos. Esta temporada não começou mal. Soma três vitórias em etapas e duas classificações por pontos. A Katusha-Alpecin de José Azevedo deu um voto de confiança muito forte a Kristoff ao contratar ciclistas para o ajudarem e não foram uns corredores quaisquer. Tony Martin estará ao lado do norueguês e depois do que fez em 2016 na Etixx-QuickStep nas clássicas do pavé (algo que até surpreendeu), Martin, poderá ser o verdadeiro gregário de luxo que Kristoff precisa para regressar aos bons velhos tempos... Não foram há muito, mas Kristoff já sente a pressão de precisar de voltar a conquistar grandes vitórias, ainda mais em ano de Mundiais no seu país.

E há muito mais...
Claro que estes são apenas alguns dos destaques. A lista de ciclistas a ter em conta é de respeito, o que apenas torna as corridas ainda mais interessantes. Niki Terpstra (Quick-Step Floors), Arnaud Démare (FDJ) - o primeiro conta com o Paris-Roubaix, o segundo com uma Milano-Sanremo -, Ryan Anderson (Direct Energie), Adam Blythe (Aqua Blue Sport), Stijn Vanderbergh (AG2R), Luke Rowe (Sky), Jurgen Roelandts (Lotto Soudal) e Lars Boom (Lotto-Jumbo) são outros ciclistas a seguir. E estamos a falar dos chamados classicistas, que aparecem já nas corridas de pavé, porque quando chegarmos à semana das Ardenas, outros nomes se juntarão, casos de Alejandro Valverde (Movistar) e de Rui Costa (UAE Team Emirates), por exemplo.

No que diz respeito a portugueses, o campeão do mundo de 2013 voltará a apostar forte na Liège-Bastogne-Liège, depois de no ano passado Wout Poels (Sky), lhe ter "tirado" a vitória. Já Nelson Oliveira (Movistar) está escalado para a Volta a Flandres e para o Paris-Roubaix, corrida que no ano passado não lhe correu bem. Caiu e foi obrigado a estar um tempo longe da competição.

Nem na Omloop Het Nieuwsblad (198,3 quilómetros), nem na Kuurne-Bruxelles-Kuurne (200,7) haverá portugueses, mas não faltam motivos de interesse. A começar que a meteorologia não estará nada simpática, algo que da perspectiva de quem assiste descansado no sofá às corridas é sempre mais uma razão para esperar espectáculo. Ambas as corridas têm transmissão em directo no Eurosport.

Veja aqui a lista de inscritos para a Omloop Het Niewsblad.

»»Mais sectores de pavé para alimentar a lenda do Paris-Roubaix««

»»Theuns entre a motivação de mostrar a sua qualidade e o medo de não conseguir voltar a estar ao melhor nível««

29 de janeiro de 2017

Volta a San Juan. Muita Quick-Step Floors e os sinais positivos de Bauke Mollema, Rui Costa e Rafael Reis

Bauke Mollema começa 2017 com uma vitória moralizadora,
a pensar na Volta a Itália (Fotografia: Twitter Trek-Segafredo)
No ano da internacionalização, ou seja, da subida de categoria UCI para 2.1, a Volta a San Juan só não foi 100% internacional, porque Maximiliano Richeze venceu duas etapas, dando um toque argentino a uma corrida que apenas pela segunda vez nos seus 35 anos de história não teve um vencedor da casa. San Juan sempre viveu com intensidade a sua corrida e a festa foi intensa com a presença de algumas das melhores equipas e também de ciclistas de renome. E como é uma edição para ficar para a história, então é perfeito que tenha sido inscrito na lista de vencedores de etapas dois campeões do mundo - Tom Boonen e Rui Costa -, um dos mais promissores sprinters - Fernando Gaviria - e um vencedor que começa 2017 a mostrar que aos 30 anos está pronto para lutar por uma grande volta: Bauke Mollema.

Para garantir que a Volta a San Juan seja ainda mais falada no futuro, a Bahrain-Merida, a primeira equipa do Médio Oriente no World Tour, venceu pela primeira vez por intermédio de Ramunas Navardauskas. A segunda equipa do Médio Oriente no World Tour, a UAE Abu Dhabi - e o estatuto de primeira e segunda é apenas por uma questão de datas de confirmação da existência das formações, pois fazem as duas a estreia no principal escalão - também já ganha, com Rui Costa a ficar com o feito de ter sido o primeiro.

Quick-Step Floors venceu cinco das sete etapas
(Fotografia: Volta a San Juan)
Mas vamos a algumas conclusões que se podem tirar desta Volta a San Juan. O grande destaque vai para a Quick-Step Floors. A equipa belga dominou a corrida, conquistando cinco das sete etapas. Sem Marcel Kittel, Fernando Gaviria (22 anos) tinha um hipótese de ouro para se mostrar. Duas tiradas foram para ele e o colombiano comprovou que a formação belga tem mais um potencial grande sprinter a despontar. Richeze (33) também aproveitou a oportunidade para vencer outras duas etapas, mas o argentino sabe que lhe está reservado um papel de apoio aos líderes durante grande parte da época. E para começar bem o último ano da carreira, ou melhor, os últimos quatro meses da carreira, Tom Boonen também ganhou, um triunfo motivante para o veterano ciclista (36 anos) que se prepara para se despedir no Paris-Roubaix, a 9 de Abril.


Rui Costa com razões para sorrir
(Fotografia: Volta a San Juan)
Rui Costa regressou às vitórias depois de mais de um ano sem celebrar uma conquista. Um triunfo importante para o ciclista português - e logo na etapa rainha da Volta a San Juan - que surge em 2017 com uma ambição renovada, apostado em experimentar um novo calendário, como comprova a estreia na Volta a Itália, deixando o Tour de ser o momento do ano para Rui Costa. A vitória permiti-lhe também deixar garantias aos responsáveis da UAE Abu Dhabi que podem contar com ele como líder, mesmo depois de três anos frustrantes numa Lampre-Merida que nunca deu a Rui Costa as condições esperadas de apoio a um chefe-de-fila.

Quanto ao outro português em prova, Rafael Reis fez a sua estreia pela Caja Rural. E que estreia! Se o quinto lugar de Rui Costa na geral (a 26 segundos de Mollema) é um resultado expectável para um ciclista do nível do campeão do mundo de 2013, já Rafael Reis alcançou uma classificação que por um lado comprova o seu talento, mas que por outro talvez não fosse esperada tão cedo na temporada. O ciclista de Palmela foi 15º  na geral (a 2:36 do vencedor), e 17º na sua especialidade, o contra-relógio, na terceira etapa. E este resultado pode muito bem ser só o início de uma carreira internacional promissora. Rafael Reis estará na Volta ao Algarve com a equipa espanhola.





Naturalmente que o grande vencedor da corrida argentina é Bauke Mollema. Mas mais do que ter conquistado a Volta a San Juan, o ciclista holandês deixou indicações muito fortes que quer chegar à Volta a Itália em condições de lutar pela maglia rosa. Com a chegada de Alberto Contador à Trek-Segafredo, Mollema sabia que não podia fazer do Tour o seu principal objectivo, mesmo depois de em 2016 ter sonhado com a vitória ao estar na segunda posição durante várias etapas (acabou em 11º).

O holandês mudou os objectivos, contudo, parece aparecer mais motivado que nunca e principalmente terá atingido a maturidade tanto física como psicologicamente. Aos 30 anos poderá começar a confirmar todo o potencial que há muito lhe é reconhecido, para ser um forte candidato nas grandes voltas, depois de em 2011 ter sido quarto na Volta a Espanha.

Veja as classificações da 35ª edição da Volta a San Juan.

»»A longa espera terminou. Rui Costa voltou às vitórias e bem ao seu estilo««

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»»Tom Boonen, o senhor relações públicas... depois do Paris-Roubaix««

25 de janeiro de 2017

Tom Boonen é o primeiro a ganhar uma corrida numa bicicleta com travões de disco. O que pensam os ciclistas portugueses deste sistema?

Tom Boonen diz ser fã dos travões de disco (Fotografia: Instagram do ciclista belga)
A poucos meses de se retirar da competição, Tom Boonen fez um pouco mais de história. Ao vencer a segunda etapa da Volta a San Juan, na Argentina, o belga tornou-se no primeiro ciclista a conquistar uma vitória utilizando uma bicicleta com travões de disco. Depois de no ano passado a fase de testes ter sido cancelada pela UCI após o incidente com Francisco Ventoso no Paris-Roubaix, os travões de disco voltaram a ser permitidos e Boonen optou por terminar a sua carreira a utilizar o sistema que considera ser "um grande melhoramento". "Não só dá mais segurança, como permite um melhor controlo da bicicleta ao travar para as curvas", escreveu o belga na sua conta de Instagram.

A utilização dos travões de disco no ciclismo de estrada tem sido alvo de muita discórdia no pelotão internacional. Muitos são contras, mas também há aqueles que defendem que é um sistema bem-vindo. Em causa tem estado principalmente as questões de segurança. Numa queda colectiva, por exemplo, os travões de discos podem provocar cortes e como aquecem com a utilização também aumentam o perigo de ferimentos. Após o Paris-Roubaix, Ventoso classificou os travões de disco como facas, depois de dizer que foi cortado por um numa queda que lhe deixou a perna num estado impressionante.

A UCI suspendeu a experiência, mas este ano os travões voltaram a ser permitidos depois de, alegadamente, ter sido melhorada a sua protecção. Ninguém dúvida que a travagem é melhor, mas questiona-se se é realmente necessário. Pesando na balança as vantagens e as desvantagens, com a segurança a ser o principal elemento desequilibrador, para já tem pendido para a não utilização de grande parte dos ciclistas. E depois ainda há uma dúvida constantemente levantada: o objectivo é mesmo melhorar as condições dos ciclistas ou é uma questão de marketing por parte das marcas?

Outro problema que entretanto foi levantado por quem faz o apoio neutro nas corridas, é o facto de os travões de disco poderem ter tamanhos diferentes e as rodas serem presas também de formas distintas de equipa para equipa, ou seja, de marca para marca. Ou seja, o apoio neutro arrisca-se a não ter o material indicado para ajudar determinado ciclista. Para tal, será necessário que todos utilizem sistemas idênticos.

Em Portugal ainda não se fala na integração dos travões de disco, pois tem sido uma discussão, para já, mais a nível do World Tour. O Volta ao Ciclismo foi saber o que pensam alguns ciclistas portugueses deste sistema de travagem.

Edgar Pinto (LA Alumínios-Metalusa-BlackJack): "Sinceramente já discuti isso com alguns atletas, mas ainda não tive a oportunidade de experimentar. Tudo o que seja para melhorar a modalidade, ok, mas dentro da segurança. O problema é quando há quedas. Os discos se não estiverem devidamente protegidos podem ferir gravemente um atleta, uma pessoa do público... Não estou contra os discos, desde que estejam devidamente protegidos para que não se verifiquem acidentes."

Filipe Cardoso (Rádio Popular-Boavista): "Acho que pode ser visto de muitos pontos de vista. Se gosto de travões de disco? Gosto. Acho que são agradável, acho que funcionam, são engraçados. Se vou ser mais rápido em corrida por causa do travão de disco? Não, não vou ser mais rápido, não vou ganhar tempo nenhum. E agora tinha de entrar em mil aspectos técnicos para explicar porquê! Há mais poder de travagem, mas o contacto do pneu com o alcatrão - a largura do pneu tem no máximo 25 mm, é pouco, é um pneu estreito - dar muito poder de travagem, mas a superfície ser a mesma, ela vai derrapar, porque o chamado grip do pneu não suporta uma travagem muito potente. E o travão, no nosso caso para competir, ninguém quer chegar a uma curva e travar a fundo. Quando se trava a fundo numa corrida é para cair, é porque houve uma queda e se trava a fundo para cair o mais devagar possível. Não é travar muito, é fazê-las travar pouco, fazê-las rápido. 

Talvez seja ligeiramente mais confortável no toque. Na travagem em si é mais potente, é mais confortável à mão, mas o pneu não aguenta uma travagem muito forte. Para lhe dar um exemplo: pega nuns travões de um Ferrari e coloca-os num carro citadino. O Ferrari tem uma largura de pneu muito maior do que um citadino. Se puser o travão potente numa roda de um carro citadino, vai travar e ele simplesmente vai derrapar. A superfície que toca no alcatrão é muito estreita, não faz sentido. A mesma lógica aplica-se nas bicicletas.

Em dias de chuva trava muito melhor, a água não interfere tanto no poder de travagem no travão de disco. E depois tem o problema das quedas. Isso não tenho dúvidas nenhumas que é um risco acrescido para os ciclistas. Há um teste que é simples de fazer: pegar numa bicicleta que está parada, com travões de disco, fazer uma descida de 300/400 ou 500 metros, travar a fundo, fazer duas ou três travagens e no fim tocar com a mão no disco. Ele vai estar a ferver. Uma queda onde caiam 10 ou 20 ciclistas e discos a ferver a tocar uns nos outros, vai ser certamente... Isso já aconteceu, foi por isso que foram proibidos.

O que vai acontecer é a coisa natural das marcas estarem a pressionar muitíssimo toda a gente para que os travões de disco sejam norma e a partir desse momento, milhões e milhões de pessoas em todo o mundo vão ter de trocar as bicicletas e os assessórios e os componentes. E é isto que está a acontecer. Eu gosto dos travões de disco. Eu se neste momento comprasse uma bicicleta para mim, para ter em casa, comprava com travões de disco. Acho realmente engraçado. Para competir analiso os prós e os contras. A nível de travagem não me faz falta neste momento ter uns travões mais potentes. O travão tradicional com as pastilhas certas é um travão que trava muito bem. Pesando as coisas, tudo o que seja colocar mais um risco para o ciclista, na minha maneira de ver, não faz sentido."

Hélder Ferreira (Louletano-Hospital de Loulé): "Eu até agora não experimentei os travões de disco nas bicicletas de estrada. Acho que ainda está a haver uma polémica internacionalmente. Portugal anda sempre um passito atrás, por isso, até chegar cá vai demorar e depois posso opiniar sobre a questão. Quanto à segurança, das opiniões que tenho ouvido, há certos problemas. Mas só vendo."

Joni Brandão (Sporting-Tavira): "Eu acho que para os travões de discos serem homologados era necessário que competíssemos todos com travões de disco e não uns com travões de disco e outros com normais, porque acho que é uma desigualdade muito grande. Quem vai de travão de disco tem uma capacidade de travagem muito superior aos normais e na minha maneira de ver, esta é uma decisão que não está a ser bem tomada porque se todos fossem obrigados a correr de discos era uma coisa, agora uns com discos e outros sem discos... Acho que é uma desigualdade grande. E depois é a questão da segurança que não sei se foi rectificada, mas acho que sim. Falta saber como e só depois é que podemos dar uma opinião mais concreta em relação a isso."

José Mendes (Bora-Hansgrohe): "Eu nunca usei travões de disco em bicicletas de estrada. Há quem diga que a travagem é melhor, mas aquilo que me preocupa é a segurança e foi o que fez com que fosse suspensa a integração dos discos. Na minha opinião, penso que não se deveria usar discos. Sou contra. É óbvio que se deve evoluir, mas acho que é dos costumes que infelizmente há no nosso desporto e quando há um pelotão, com muitos ciclistas juntos, penso que aquele disco pode ser muito perigoso. 

Infelizmente não sei quem tem mais interesse que os travões de disco sejam integrados. Penso que não é da parte dos ciclistas. Eu ainda não vi nenhum ciclista a reivindicar a reintegração dos discos para a sua segurança. Por isso, falar em termos de segurança, não é correcto. Possivelmente as marcas têm interesse nessa integração. Estou um pouco apreensivo com a integração dos discos pelo problema da segurança. Penso que vai criar insegurança e medo. Com o tempo aquilo aquece. É mais um elemento que pode provocar sérias lesões. Já temos as pedaleiras, mas isso não podemos tirar. Mesmo uma bicicleta de estrada ter uma capacidade superior de travagem, à velocidade que nós atingimos, penso que até isso pode ser perigoso.

Nunca experimentei, por isso, não posso dizer se é melhor ou pior. Aquilo que me deixa apreensivo é mesmo essa parte da segurança."

Rui Vinhas (W52-FC Porto): "Em Portugal não podemos muito falar nisso. Eu pessoalmente nunca usei travões de disco. Se é uma mais valia? Penso que sim. Para incutir isso na alta competição tem de ter benefícios. Agora eu não sou a melhor pessoa para responder porque nunca trabalhei com travão de disco na estrada. Acho que tem um bom poder de travagem, uma boa segurança e penso que na bicicleta de estrada será um bocado parecido. É uma questão de experimentar para ver como seria. Há polémicas, mas isso é como em tudo. Nós tendo quedas com bicicletas normais ficamos sempre com mazelas, mas com uma bicicleta a cortar como foi o caso do Ventoso, um travão de disco que era novidade, as pessoas metem logo problemas nisso. Mas acho que é uma questão de experimentar e andar um ano ou dois para ver se realmente aquilo serve para a alta competição ou não."

Sérgio Paulinho (Efapel): "Eu tenho uma bicicleta de travão de disco e para ser sincero quando chove e com a estrada molhada, é muito melhor. A travagem é muito melhor, o tempo de reacção é muito melhor, a bicicleta trava muito melhor. Em seco não vejo diferença. Quase que digo que prefiro o travão tradicional que o travão de disco. Para mim, o grande problema que está aqui é o disco em si. Se houver um protecção do disco por causa das quedas, acho que o disco pode ser bem-vindo ao ciclismo.

Na minha opinião, se a decisão fosse minha, a decisão é não ao disco. Acho que não traz nada de novo ao ciclismo. Traz de novo às marcas porque é uma inovação, mais vendas. Que me desculpem as marcas, mas é assim mesmo. Inovação no ciclismo? Eu não a vejo. Não é por aí. Acaba por tornar a bicicleta mais pesada. Se houver uma protecção, vamos supor - e todos sabem que no Tour há sempre aquelas quedas enormes - que acontece alguma fatalidade por causa de um travão de disco... Elas às vezes já acontecem sem travão de disco, com um travão de disco há uma probabilidade maior. Acho que temos de ponderar todas as situações, por isso, na minha opinião, se fosse eu a decidir, não vale a pena."

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21 de janeiro de 2017

Tom Boonen, o senhor relações públicas... depois do Paris-Roubaix

(Fotografia: Facebook Tom Boonen)
A data está marcada. A 9 de Abril Tom Boonen sairá pela última vez para estrada e, neste caso, para o pavé do seu querido Paris-Roubaix. O objectivo é conquistar a quinta vitória no monumento e assim terminar a carreira com mais um grande triunfo. O ciclista belga já garantiu que não haverá mudanças na decisão. Aos 36 anos considera que chegou o momento de abandonar a competição, mas Boonen irá continuar ligado ao ciclismo e à Quick-Step Floors. Depois do Paris-Roubaix, Boonen será o senhor relações públicas da equipa e também da marca de bicicletas Specialized.

Foi o pai do ciclista que confirmou qual será o futuro de Boonen depois de cortar a meta no velódromo de Roubaix. "É um emprego perfeito para o Tom. Ele não só fala quatro línguas como é fácil de lidar", salientou Andre Boonen, citado pelo site holandês Het Laatste Nieuws.

O director da Quick-Step Floors também já garantiu que o futuro de Boonen passa pelas relações públicas, ainda que tenha voltado a referir a incerteza que a equipa vive, não sabendo se terá patrocinador em 2018. Patrick Lefevere referiu que a nova função foi acordada há algum tempo.

A despedida de Boonen começou em 2016 quando o belga tentou conquistar o seu segundo título mundial (o primeiro foi em 2005). Porém, apesar de se ver um Boonen a um nível muito bom, não conseguiu bater Peter Sagan. Ficou com bronze - Mark Cavendish foi segundo -, mas não escondeu a desilusão pelo resultado nos Mundiais do Qatar.

Este ano é o tudo por tudo por última grande vitória. Boonen começa a temporada na segunda-feira na Volta a San Juan, na Argentina, segue para Omã (não estará na Volta ao Algarve) e para a clássica Omloop Het Nieuwsblad. Ainda não são conhecidas as corridas em que participará em Março, mas seria muito estranho se não estivesse na E3 Harelbeke e na Gent-Wevelgem, corrida que já venceu três vezes. Depois chegarão os dois grandes momentos finais: na Volta a Flandres Tom Boonen procurará a quarta vitória (2005, 2006 e 2012) e no Paris-Roubaix a quinta (2005, 2008, 2009 e 2012).

Em 2016 foi Fabian Cancellara quem se retirou e agora o ciclismo prepara-se para perder a outra grande referência das clássicas da última década. Até agora, Boonen tem 112 vitórias na carreira, mas está a fazer uma intensa preparação para somar pelo menos mais uma, de preferência um monumento.

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16 de outubro de 2016

A lenda de Peter Sagan a ser construída vitória após vitória

(Fotografia: Facebook UCI Doha 2016)
Mais do que conquistar pela segunda vez consecutiva o título de campeão do mundo, Peter Sagan "eliminou" um dos seus raros handicaps. Até à corrida de hoje em Doha podia dizer-se que quando estava frente a frente com os sprinters puros, Sagan tinha dificuldades em ganhar. Ora, o eslovaco pode não ser um sprinter puro, mas sabe sprintar como os melhores e bate os melhores, nos momentos certos.

Aos 26 anos Peter Sagan escreve mais um pouco de história no seu cada vez mais invejável currículo. É apenas o sexto ciclista a conseguir vencer o Mundial dois anos consecutivos. O último tinha sido o italiano Paolo Bettini (2006/2007), sendo depois preciso recuar a 1991/92, com o também transalpino Gianni Bugno a conseguir o feito. O belga Rik van Looy fê-lo em 1960/61, o compatriota Rik van Steenbergen em 1956/57 e o primeiro ciclista a conquistar dois títulos mundiais consecutivos foi também um belga, Georges Ronsse, em 1928/29. Nunca ninguém ganhou três seguidos, nunca ninguém conquistou mais de três títulos mundiais.

A história espera por Peter Sagan, nos Mundiais, nos monumentos, na Volta a França... O eslovaco pode muito bem bater o recorde de camisolas do arco-íris, pode entrar na exclusiva lista de quem ganhou todos os cinco monumentos do ciclismo, ou tornar-se o rei dos triunfos numa Volta a Flandres (que venceu este ano pela primeira vez) ou de um Paris-Roubaix, as suas clássicas preferidas. E claro, no Tour parece que ninguém lhe faz frente na discussão pela camisola verde e já tem cinco.

Vitória indiscutível de Peter Sagan
O ciclista que tantas vezes termina em segundo lugar, vai provavelmente somar muitos mais. Mas isso apenas significa que está na luta por vitórias que eventualmente acontecem e acontecem cada vez mais nos principais palcos do ciclismo mundial. Não estamos a falar de um atleta sem rival, muito pelo contrário. É o facto de os ter - talvez com Greg van Avermaet a liderar a lista - que tornam Sagan melhor, cada vez mais inteligente na sua forma de correr, cada vez mais um ciclista que se poderá tornar numa lenda do desporto.

A partir deste domingo Sagan passa também a ser um homem que ganha aos melhores sprinters. No início de 2017 voltará a ser o grande favorito para a época das clássicas, depois o principal candidato à classificação dos pontos no Tour e pelo meio certamente que aparecerão mais vitórias que alimentarão uma lenda que vai crescendo a cada ano que passa, a cada triunfo conquistado.


Um pouco de acção, muito aborrecimento, muitos abandonos e o sprint final mais ou menos esperado para animar

257,5 quilómetros e meio, debaixo de um calor que atingiu os 36 graus, com passagens pelo deserto do Qatar... Não se esperava uma corrida particularmente animada. Ainda antes da marca dos 100 quilómetros para o final o vento lá deu alguma emoção, com a selecção da Grã-Bretanha a ter ideias para partir o pelotão, mas foi a Bélgica quem concretizou, deixando precisamente os britânicos em dificuldade. Formou-se um grupo de cerca de 30 ciclistas na frente, com Peter Sagan a ser o último a lá chegar e a ter de se esforçar para não deixar fugir a frente da corrida.

Naquele momento a corrida ficou (finalmente) lançada. Mark Cavendish estava surpreendentemente quase sem apoio, sobrando apenas Adam Blythe, que curiosamente o bateu ao sprint nos Campeonatos Nacionais. Mas Cavendish era o líder, ainda que com algumas razões para ficar preocupado quando percebeu que Bélgica, Itália e Noruega tinham colocado três ou mais homens naquele grupo. Já a Alemanha foi a grande desilusão. Nem André Greipel, nem Marcel Kittel, nem John Degenkolb estavam na frente. O último ainda tentou trabalhar, mas o esforço foi em vão, ainda mais quando os belgas que ficaram para trás estavam a realizar na perfeição a missão de atrapalhar a perseguição. A atitude até valeu um atirar de água de Degenkolb a um dos ciclistas belgas. O alemão acabaria por abandonar completamente exausto, tal como Kittel, numa altura em que a diferença ultrapassava mais de três minutos.

Também a França não queria acreditar. Os seus dois sprinters também falharam na colocação. Nacer Bouhanni ainda terminou a mais de cinco minutos do vencedor, enquanto Arnaud Démare foi um dos muitos ciclistas forçados a abandonar pela organização por estarem muito atrasados no circuito (o objectivo é evitar que os líderes apanhassem homens atrasados). William Bonnet viu-se com a responsabilidade e fez o que pôde, terminando na oitava posição.

José Gonçalves abandonou após uma queda com mais dois ciclistas
O calor fez algumas vítimas, como o australiano Caleb Ewan, que estando atrasado optou por abandonar a corrida, mas foram as quedas marcaram a corrida. Algumas delas bastante aparatosas, como a que tirou o Fernando Gaviria da corrida (ver vídeo em baixo). O colombiano nem chega a cair, mas a pancada de um dos dois ciclistas que foi ao chão acabou com a sua corrida. Porém, o destaque, numa perspectiva portuguesa, vai para José Gonçalves. O ciclista ficou agarrado ao ombro, mas parece não ser grave já que ao site da Federação Portuguesa de Ciclismo, José Gonçalves explicou que queda deu-se “numa altura em que havia muita tensão no pelotão e muitas quedas". Acrescentou que "agora há que recuperar".


Nelson Oliveira e Sérgio Paulinho também não saem do Qatar com grandes recordações. Paulinho rapidamente desapareceu quando começaram os cortes. Já Nelson Oliveira ainda ficou inicialmente no segundo grupo, mas acabou por cair para o terceiro. Ambos não terminaram a prova. “O vento foi mais forte do que se previa. Até nem estávamos mal colocados, mas as selecções mais fortes e numerosas levaram vantagem na hora da colocação. Ainda andei algum tempo no segundo grupo, mas não consegui aguentar e esperei pelo terceiro, acabando por encostar, porque a diferença já era muito grande e não íamos a lado nenhum", explicou Nelson Oliveira.

                                          (Fotografia: Facebook UCI Doha 2016)
Muito calor, muito vento, pouca acção, pouco público (nenhum na maior parte do percurso). Os Mundiais do Qatar não vão ser dos mais memoráveis, pelo menos por boas razões, a não ser por Peter Sagan - somou 14 vitórias este ano, incluindo os Europeus, além de ter vencido a classificação dos pontos em quatro provas -, ou então Tom Boonen, que teve uma equipa exemplar a trabalhar para si. Na despedida ficou com a medalha de bronze, enquanto a prata ficou para um muito frustrado Mark Cavendish (há algum tempo que não se via aquele mau feitio do britânico).