Mostrar mensagens com a etiqueta Tinkoff. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tinkoff. Mostrar todas as mensagens

25 de junho de 2018

Camisolas das equipas não são para Peter Sagan

(Fotografia: Bora-Hansgrohe/© Bettiniphoto)
Coleccionar camisolas é algo tão banal para Peter Sagan, como qualquer um fazer uma colecção de cromos! Se as três de campeão do mundo têm, naturalmente, o maior destaque, neste domingo, o eslovaco foi buscar a sexta de campeão nacional. Também já tem uma de campeão da Europa, além das cinco verdes da classificação por pontos na Volta a França. São muitas mais se incluirmos todas as corridas que o ciclista fez. Certo é que há muito tempo que Sagan não sabe o que é vestir o equipamento normal das equipas que representa, a não ser no contra-relógio. A última vez que envergou a camisola standard foi a 13 de Junho... de 2011!

Sagan, então com 21 anos, estava na Volta a Suíça e no final desse dia, na terceira etapa, o ciclista foi o mais forte no sprint e subiu à liderança da classificação por pontos, que não mais abandonou. Depois dessa corrida foi para os Nacionais, onde conquistou o primeiro título eslovaco, dos cinco consecutivos. O resto é história e essa conta com o feito inédito de três títulos mundiais consecutivos entre 2015 e 2017. As únicas vezes que não teve uma camisola de campeão vestida foi quando teve de envergar as de liderança de uma classificação, normalmente a de pontos, mas também umas das gerais. Houve uma que só vestiu quando subiu ao pódio: a de campeão da Europa (2016). Como era campeão do mundo e assim continuou, não iria certamente trocá-la!

A última equipa a ver Sagan com a camisola dos patrocinadores, utilizada por todos os ciclistas, foi a Liquigas-Cannondale, que em 2013 passaria a ser somente Cannondale. A Tinkoff contratou, em 2015, um campeão nacional que nesse mesmo ano conquistou o primeiro título mundial. Nesse ano também venceu o contra-relógio nos Nacionais, só para ter dois equipamentos especiais! A Bora-Hansgrohe subiu ao World Tour em 2017 e tem aquele que não larga a mais famosa camisola, a do arco-iris (partilha a notoriedade com a amarela da Volta a França).

Vontade não falta a Sagan de escrever um pouco mais de história nos Mundiais e ganhar o quarto título consecutivo. Nunca ninguém ganhou tantos, seguidos ou não (nem Eddy Merckx). O problema é que o percurso de Innsbruck, na Áustria, é claramente para os trepadores. O eslovaco até tem alterado um pouco a sua temporada - também devido à sua recente paternidade -, apostando nos estágios em altitude. Até já foi noticiado que depois do Tour estaria a pensar perder algum peso e assim tentar ter alguma hipótese de manter a camisola de campeão do mundo. Ainda assim, desta feita Sagan não vai aparecer entre os principais favoritos.

(Fotografia: Twitter @BORAhansgrohe)
Nos últimos dois anos, o irmão Juraj Sagan tinha sido o campeão eslovaco, com Peter a ser segundo. Em 2018 trocaram as posições. Será que Peter quis garantir que vai continuar com uma camisola de campeão, caso se concretize a possível perda da do arco-íris?

Certo é que resolveu conquistar o sexto título nacional em grande estilo: 95 quilómetros de fuga solitária! Juraj ficou a 2:16 minutos e o também ciclista da Bora-Hansgrohe, Michael Kolar, fechou o pódio a 6:07 (fotografia à direita), tendo surpreendido ao terminar a carreira nesta corrida. A equipa alemã anunciou a decisão do corredor de apenas 25 anos, que irá permanecer na Bora-Hansgrohe, mas num papel de relações públicas.

Nem todas as equipas gostam de ter de mudar os equipamentos escolhidos para dar a maior visibilidade possível aos patrocinadores. A Bora-Hansgrohe não está entre elas, tendo tendência a coleccionar títulos nacionais e a aproveitar muito bem esse facto a nível de marketing. Quem tem Sagan já sabe que terá de lhe fazer equipamentos especiais de campeão, mas tendo em conta as vitórias e a popularidade que o tornaram num dos ciclistas com imagem mais valiosa, talvez nenhuma equipa se importasse de mudar as camisolas.


Outros campeões de fundo:
Domigos Gonçalves (Rádio Popular-Boavista) - Portugal
Gorka Izagirre (Bahrain-Merida) - Espanha
Yves Lampaert (Quick-Step Floors) - Bélgica
Michal Kwiatkowski (Sky) - Polónia
Vegard Stake Laengen (UAE Team Emirates) - Noruega
Matej Mohoric (Bahrain-Merida) - Eslovénia
Antoine Duchene (Groupama-FDJ) - Canadá
Gediminas Bagdonas (AG2R) - Lituânia
Jonathan Brown (Hagens Berman Axeon) - Estados Unidos da América
Merhawi Kudus (Dimension Data) - Eritreia
Tsgabu Grmay (Trek-Segafredo) - Eitópia

20 de março de 2017

Tinkov e a obsessão anti-Contador

(Fotografia: Direitos Reservados)
Ser discreto, ter tento na linguagem, ter respeito por ciclistas que até foram líderes da sua equipa e lhe deram muitas vitórias, são pormenores que não fazem (de todo) parte da personalidade de Oleg Tinkov. Já sabe que o magnata russo adora ser ele próprio uma estrela e sempre fez tudo para chamar a atenção desde que comprou a equipa de ciclismo, que colocou um ponto final no ano passado. O magnata nunca teve problemas em atirar-se a um dos seus ciclistas quando estes não rendiam o que pretendia. Nem Peter Sagan escapou às palavras venenosas de Tinkov. No entanto, é sobre Alberto Contador que alimenta o que só se pode considerar um ódio de estimação. Ainda quando os dois tinham a relação dono/líder da equipa, o russo não poupava nas palavras contra o espanhol, que se tornaram bem piores principalmente depois da Lombardia, última competição World Tour do ano. Nessa altura, Tinkov passou das críticas às ofensas e agora voltou ao ataque.

Mais começa a parecer uma obsessão anti-Contador. O espanhol reencontrou a alegria na Trek-Segafredo e está 100% concentrado em ganhar a Volta a França, depois de anos em que falhou o seu objectivo, ou por falta de condição física, ou por quedas, ou porque Tinkov meteu na cabeça que Contador tinha de ganhar o Giro e o Tour no mesmo ano, sem dar ao espanhol uma equipa forte para o ajudar no ambicioso objectivo. Em Outubro, o magnata apelidou Contador de "pato coxo", salientando que o ciclista nunca mais ia ganhar uma grande volta e que devia reformar-se. Ora a segunda parte mantém-se mais ou menos igual (agora diz que não vai ganhar mais nada), mas a primeira foi substituída por palavras bem mais agressivas.

Cá vai, sem censura: "Contador é um pedaço de merda espanhola e nunca mais vai ganhar nada, é demasiado velho e demasiado maldoso. A dieta tornou-o maluco e ganancioso." As declarações surgiram na sua conta de Instagram, em reacção a algumas mensagens de seguidores, que tinham começado após um post sobre a exibição de Peter Sagan na Milano-Sanremo. Se Tinkov não foi nada simpático, não se fizeram esperar respostas ainda piores. O russo está a ser muito atacado pelo que escreveu sobre o ciclista espanhol.

Contador mantém-se fiel a ele próprio e tenta não se deixar afectar por Tinkov, ou pelo menos tenta não deixar transparecer esse sentimento. Da primeira vez demorou, mas até acabou por deixar algumas palavras dirigidas ao antigo patrão, nomeadamente sobre a falta de capacidade de gerir uma equipa de ciclismo, apesar de ter o dinheiro para comprar uma das melhores do pelotão internacional.

Será que vai responder desta vez? Será que vale sequer a pena? Ou será dar uma atenção que Tinkov demonstra não merecer? Contador não é perfeito, já tomou más opções e pode nem sempre ter agido da forma mais correcta. Porém, não há dúvidas que estamos perante de um grande campeão, de um dos melhores ciclistas da história da modalidade, que já conquistou as três grandes voltas. Tinkoff achava que tinha a melhor equipa do mundo e até ofendia a Sky, mas isso só comprovava que lhe faltava perceber melhor a essência do ciclismo e, principalmente, faltava-lhe um pouco de humildade, que não faz mal a ninguém. Afinal, não chega ser um adepto com muito dinheiro para gastar. Faltava-lhe e continua a faltar-lhe respeito.

Antigos ciclistas da Tinkov, como Sérgio Paulinho e Matteo Tosatto, já disseram que acreditam que Tinkov há-de voltar ao ciclismo. Um pouco de irreverência, até alguém que levante determinadas questões por vezes polémicas, não faz mal nenhum, mas esta versão de Tinkov não faz falta à modalidade.

»»Oleg Tinkov: "Contador vai ser como um pato coxo. Nunca mais vai ganhar uma grande Volta"««

»»Contador quebra o silêncio sobre Oleg Tinkov: "Tinha muito dinheiro, comprou a equipa, mas não soube geri-la"««

12 de janeiro de 2017

O destino dos ciclistas da Tinkoff, da IAM e da LA Alumínios-Antarte

O fim de duas equipas do World Tour mexeu e muito com o mercado de transferências. Além dos ciclistas em final de contrato, de repente muitos mais iam ficar livres quando 2016 terminasse. Foi o momento perfeito para algumas equipas reforçarem-se e a Bora-Hansgrohe foi quem mais aproveitou. A equipa do português José Mendes subiu este ano ao principal escalão e entre ciclistas da Tinkoff e da IAM a formação alemã contratou 10 corredores, com destaque, claro, para Peter Sagan, que receberá seis milhões de euros por ano.

No caso da Tinkoff, a maioria conseguiu contrato com equipas do World Tour, mas do contingente russo, três vão para a formação do seu país Gazprom-RusVelo, com Yuri Trofimov a ser uma das transferências surpresa ao assinar pela espanhola da Caja Rural. Ambas as equipas são do escalão Profissional Continental. O português Sérgio Paulinho também regressou ao seu país para representar a Efapel. Já Matteo Tosatto não encontrou equipa. Aos 42 anos queria continuar no World Tour, mas acabou por optar por terminar a carreira perante a falta de um contrato.

Na IAM são cinco os que não irão mais competir, quatro assinaram pela AG2R, incluindo uma das principais figuras da extinta equipa suíça, Mathias Frank. A primeira equipa irlandesa no escalão Profissional Continental, a Aqua Blue Sport, também aproveitou para contratar três ciclistas.

Veja a lista dos destinos dos corredores da Tinkoff e da IAM, que se dividiram entre equipas dos três escalões: World Tour (WT), Profissional Continental (PC) e Continental (C).

  • Peter Sagan (26 anos) - Bora-Hansgrohe (WT)
  • Juraj Sagan (28) - Bora-Hansgrohe
  • Rafal Majka (27) - Bora-Hansgrohe
  • Maciej Bodnar (31) - Bora-Hansgrohe
  • Michael Kolar (24) - Bora-Hansgrohe
  • Pawel Poljanski (26) - Bora-Hansgrohe
  • Jay McCarthy (24) - Bora-Hansgrohe
  • Erik Baška (23) - Bora-Hansgrohe
  • Alberto Contador (34) - Trek-Segafredo
  • Jesús Hernández (35) - Trek-Segafredo
  • Michael Gogl (23) - Trek-Segafredo
  • Roman Kreuziger (30) - Orica-Scott
  • Robert Kišerlovski (30) - Katusha-Alpecin
  • Oscar Gatto (32) - Astana
  • Jesper Hansen (26) - Astana
  • Michael Valgren (24) - Astana
  • Daniele Bennati (36) - Movistar
  • Manuele Boaro (29) - Bahrain-Merida
  • Adam Blythe (27) - Aqua Blue Sport (PC)
  • Yuri Trofimov (32) - Caja Rural
  • Ivan Rovny (29) - Gazprom-RusVelo
  • Pavel Brutt (34) - Gazprom-RusVelo 
  • Nikolay Trusov (31) - Gazprom-RusVelo
  • Sérgio Paulinho (36) - Efapel (C)
  • Evgeni Petrov (38) - sem equipa
  • Matteo Tosatto (42) - não encontrou equipa e optou por terminar a carreira
  • Michael Rogers (37) - terminou a carreira em Abril
  • Davide Ballerini (22, estagiário) - Androni Giocattoli-Sidermec (PC)
  • Lorenzo Fortunato (20, estagiário) - Hopplà-PetroliFirenze (sub-23)
  • Andrea Montagnoli (21, estagiário) - Hopplà-PetroliFirenze (sub-23)


  • Mathias Frank (30 anos) - AG2R (WT)
  • Oliver Naesen (26) - AG2R
  • Clément Chevrier (24) - AG2R
  • Sondre Holst Enger (23) - AG2R
  • Matthias Brändle (27) - Trek-Segafredo
  • Jarlinson Pantano (28) - Trek-Segafredo
  • Matteo Pelucchi (27) - Bora-Hansgrohe
  • Aleksejs Saramotins (34) - Bora-Hansgrohe
  • Roger Kluge (30) - Orica-Scott
  • Reto Hollenstein (31) - Katusha-Alpecin
  • Stef Clement (34) - Lotto-Jumbo
  • Dries Devenyns (33) - Quick-Step Floors
  • Martin Elmiger (38) - BMC
  • Vegard Stake Laengen (27) - UAE Abu Dhabi 
  • Heinrich Haussler (32) -  Bahrain-Merida
  • Jonas van Genechten (30) - Cofidis (PC)
  • Larry Warbasse (28) - Aqua Blue Sport
  • Stefan Denifl (29) - Aqua Blue Sport
  • Leigh Howard (27) - Aqua Blue Sport
  • Jonathan Fumeaux (28) - Roth-Akros (C)
  • Pirmin Lang (32) - Roth-Akros
  • Simon Pellaud (24) - Illuminate
  • David Tanner (32) - sem equipa
  • Jérome Coppel (30) - terminou a carreira em Agosto
  • Vicente Reynes (35) - terminou a carreira
  • Marcel Aregger (26) - terminou a carreira
  • Marcel Wyss (30) - terminou a carreira
  • Oliver Zaugg (35) - terminou a carreira

Também em Portugal uma equipa fechou portas. Mário Rocha anunciou a decisão depois da Volta a Portugal, surpreendendo o pelotão nacional. Foi o final da LA Alumínios-Antarte, ainda que o primeiro patrocinador tenha resolvido continuar, contribuindo para a criação da nova equipa LA Alumínios-Metalusa-BlackJack. Dois ciclistas passaram para a recém-criada formação.

  • Amaro Antunes (26 anos) - W52-FC Porto
  • Alejandro Marque (35) - Sporting-Tavira
  • Bruno Silva (28) - Efapel
  • Hugo Sancho (34) - LA Alumínios-Metalusa-BlackJack
  • Luís Afonso (26) - LA Alumínios-Metalusa-BlackJack
  • Pedro Paulinho (26) - Louletano-Hospital de Loulé
  • Nuno Meireles (25) - Bolívia
  • Leonel Coutinho (24) - Super Froiz
  • Hernâni Brôco (35) - terminou a carreira
»»Tinkoff. No ano do adeus “esqueceram-se” do que é ser uma equipa. Salvou-se o inevitável Peter Sagan««

10 de janeiro de 2017

Contador quebra o silêncio sobre Oleg Tinkov: "Tinha muito dinheiro, comprou a equipa, mas não soube geri-la"

(Fotografia: Facebook de Alberto Contador)
Em Outubro Oleg Tinkov deu uma entrevista na qual atacou Alberto Contador. O espanhol pouco tem falado publicamente desde o final da temporada e nunca reagiu às declarações do seu antigo patrão na Tinkoff. Agora que já prepara a época na Trek-Segafredo, o espanhol falou sobre o magnata russo, evitando alimentar grandes polémicas, mas também não se coibiu de acusar Tinkov de não ter sabido gerir a equipa depois de ter despedido Bjarne Riis.

Recordando as palavras de Tinkov. O russo disse numa entrevista ao Cycling News que não gostava de Contador, o que talvez tenha sido a declaração mais simpática: "Respeito-o como ciclista pelo passado que tem, mas como pessoa nunca me agradou. Não gosto dele. Mesmo na equipa, a maioria dos ciclistas não gosta dele. Ele acabou por ter uma má relação com quase toda a gente, exceptuando o seu grupinho espanhol." E continuou a criticar o ciclista: "Pessoalmente penso que o Alberto devia deixar o ciclismo porque ele já não é tão forte. Eu deixo de ser dono de uma equipa no momento certo, no topo. Ele é um grande campeão e devia parar já. Penso que ele vai ser como um pato coxo. Ele vai parecer um estúpido. Na Vuelta ele foi deixado para trás pelos quatro ou cinco melhores ciclistas. No próximo ano vai ser pelos melhores 20. Acho que nunca mais vai ganhar uma grande volta. Ele devia esquecer isso e abandonar."


Ainda afirmou que o espanhol era uma "pessoa triste". "Nunca quer beber champanhe e está sempre com cuidado com o que come porque está focado em ganhar a Volta a França em Julho. Era assim que ele era em Novembro, em Moscovo. É uma atitude estúpida", salientou.

Demorou, mas chegou a resposta de Alberto Contador que começou por dizer na Cadena Ser: "Ensinaram-me vários valores, entre eles o ter o respeito que as pessoas merecem ter." E salientou: "O champanhe bebo com os amigos, não com ele." O ciclista espanhol disse que não ficou afectado pelas palavras de Tinkov e recordou que quando Riis foi despedido pelo magnata que sabia que tudo seria diferente. "O principal problema foi quando renovei em 2014 e quatro dias depois destituíram o fundador da equipa, Bjarne Riis. A partir desse momento sabia que tudo mudaria e assim foi. Não havia um líder na equipa para gerir um grupo de 70 pessoas", realçou Contador, que foi mais longe: "Tinha muito dinheiro, comprou a equipa, mas não soube geri-la, pois são necessárias uma série de capacidades que Bjarne Riis tinha e ele não."

Contador disse mesmo que Riis tinha sido a razão pela qual tinha ido para a equipa. No entanto, o ciclista quer deixar para trás o que viveu na Tinkoff e concentrar-se na nova equipa. "Foi uma parte da minha carreira desportiva, mas terminou. Não vou perder energia em responder-lhe", afirmou.

Quanto a 2017, está muito satisfeito na Trek-Segafredo e está focado em lutar pela vitória na Volta a França e "desfrutar da corrida". E deixou uma mensagem para os fãs: "Gostaria de lhes dar uma última alegria. Eles são uma razão para continuar [no ciclismo]." A expressão "última alegria" volta a lançar algumas suspeitas que Contador poderá mesmo estar a ponderar terminar a carreira caso consiga a muito desejada terceira vitória no Tour, apesar de ter assinado por dois anos pela equipa americana.

Alberto Contador recordou ainda a acusação de doping, no caso que ficou conhecido como "bife à Contador", e que lhe custou um triunfo no Tour (2010) e também no Giro (competiu enquanto esperava pela decisão, tendo vencido a Volta a Itália em 2011, mas quando foi conhecida a sanção todos os resultados que tinha desde o Tour foram anulados). "Foi uma injustiça. É impossível esquecer. O dano que me provocou e às pessoas mais próximas, vai estar sempre ali. Não o desejo nem ao meu pior inimigo", admitiu.

»»Oleg Tinkov: "Contador vai ser como um pato coxo. Nunca mais vai ganhar uma grande Volta"««

2 de janeiro de 2017

"O Alberto Contador nunca foi capaz de me dizer nada. Foi isso que mais me magoou"

Sérgio Paulinho esteve muitos anos ao lado de Alberto Contador
Quando Sérgio Paulinho conquistou uma inesperada medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, a carreira do ciclista português deu o salto mais ambicionado. Paulinho chegava ao World Tour aos 24 anos e encontrava na Liberty Seguros-Würth Team um jovem espanhol de quem muito se esperava: Alberto Contador. Só em 2010 e 2011 estiveram em equipas diferentes. O ciclista tornou-se num dos homens de confiança de Contador e esteve a seu lado em muitas das vitórias de El Pistolero. Porém, na altura em que regressa a Portugal, para a Efapel, Sérgio Paulinho não esconde a mágoa que ficou pelo comportamento de Contador. "Sempre disse que o Alberto não era obrigado a levar-me [para a sua nova equipa]. O Alberto leva quem ele entender. No entanto, depois de ter dito a mim e a outras pessoas para estarmos tranquilos e depois não dizer nada... Foi isso que mais me magoou", admitiu o ciclista português ao Volta ao Ciclismo.

Quando Oleg Tinkov anunciou que iria acabar com a equipa, muito se especulou sobre o futuro de Contador que entretanto tinha recuado na decisão de terminar a carreira. O espanhol pensou em formar uma equipa, mas acabou por assinar pela Trek-Segafredo. "Desde o Dauphiné que o Alberto dizia-me 'está tranquilo' porque queria que eu fosse com ele. Disse que primeiro assinava ele e depois faria um telefonema para me dizer por que equipa assinava, para eu depois falar com o meu representante, para ele entrar em contacto com a equipa. Nunca fez esse telefonema... Nunca me disse nada", referiu. O ciclista contou que os dois chegaram a treinar juntos depois da Volta a Espanha: "Nunca foi capaz de me dizer nada."

Sérgio Paulinho não encontrou equipa para continuar no World Tour e aos 36 anos assumirá o papel de líder na Efapel. Porém, considera que ser gregário não é um papel ingrato. "Talvez o seja por parte da comunicação social, por exemplo, que não reconhece o nosso trabalho. Sempre digo que por trás das vitórias do Alberto está o nosso trabalho. Sem ele, o Alberto nunca conseguiria vencer", realçou.

"O ano não me correu bem. Comecei logo com uma lesão no Paris-Nice e tive de estar um mês parado. Depois quando comecei a preparação para o Tour tive uma semana de cama com febre"

2016 não foi um ano fácil para Sérgio Paulinho. Além de toda a incerteza quanto ao seu futuro, o ciclista também não esteve bem fisicamente. "O ano não me correu bem. Comecei logo com uma lesão no Paris-Nice e tive de estar um mês parado. Depois quando comecei a preparação para o Tour tive uma semana de cama com febre, que me condicionou bastante e acabei por ficar de fora do Tour porque a minha preparação não era a indicada", explicou. Salientou que não saber onde iria estar a competir em 2017 não foi o que mais o afectou: "É claro que afecta um bocado, mas o pior foi mesmo a tal lesão e também de ter ficado doente. A partir daí a minha condição física foi sempre de altos e baixos. Nunca foi aquela condição estável. Fazia dois/três dias bons, um mau..."

Os portugueses no World Tour

Sérgio Paulinho com o seu novo equipamento
Sai Sérgio Paulinho, entram José Mendes (Bora-Hansgrohe), José Gonçalves (Katusha-Alpecin) e os jovens Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) e Nuno Bico (Movistar). Portugal vai tendo cada vez mais ciclistas ao mais alto nível. Paulinho considera que existem muitos corredores com valor no país e "com condições para estarem nas melhores equipas" e dá o exemplo do antigo líder da Efapel: "Acho que o Joni Brandão tem condições para estar numa equipa do World Tour, tal como outros ciclistas. A ida do Ruben Guerreiro e do Nuno Bico acaba por ser um despertar para as outras equipas da qualidade do ciclismo jovem português."

É uma realidade bem diferente de quando em 2005 Sérgio Paulinho chegou ao World Tour, mas não significa que seja mais fácil. "Na altura, quando fui eu, se calhar tinha um impacto maior. Agora como nos últimos anos tem havido um ou dois portugueses a ir - o André [Cardoso], o Tiago [Machado] -, não significa que seja uma coisa normal, mas se calhar não tem um impacto tão grande", afirmou. Acrescentou que é preciso "muitos sacrifícios e muito trabalho" para chegar ao World Tour, mas "estando lá e fazendo um bom trabalho, é complicado sair".

Orlando Rodrigues, José Azevedo, Américo Silva ou Rui Costa (e o próprio Sérgio Paulinho) - nomes apontados pelo ciclista - deram uma preciosa ajuda para o reconhecimento do ciclismo nacional. "O que eles fizeram ajuda a que os jovens de agora possam ter também oportunidades a nível internacional."

As duas faces de Oleg Tinkov

"Ele vai voltar. Ele disse que dois anos e volta. O ciclismo está no sangue dele." Sérgio Paulinho não é o primeiro ciclista da extinta Tinkoff que afirma que ainda vamos ter de novo o magnata russo no ciclismo. Mas então porque teve esta decisão tão radical de acabar com a equipa? "Ele estava no ciclismo com uma ideia. Ele queria mudar o ciclismo, queria fazer algo como a Liga dos Campeões, uma liga a que pertenceriam as equipas e as corridas e o dinheiro das transmissões televisivas seria dividido pelas formações para que elas pudessem ter uma ajuda financeira. Não conseguiu, foi criticado e acabou por dizer: chega", explicou.

"Depois da Lombardia ele disse-nos que o fazia [criticava publicamente] para que nós déssemos conta que tínhamos de fazer melhor, que não era uma crítica, mas um incentivo"

Trabalhar com Tinkov nem sempre foi fácil. Porém, Sérgio Paulinho referiu que o pior era quando criticava os seus ciclistas publicamente: "Depois da Lombardia ele disse-nos que o fazia para que nós déssemos conta que tínhamos de fazer melhor, que não era uma crítica, mas um incentivo. Não era [uma situação] fácil..."

Apesar de extravagante e polémico, Sérgio Paulinho disse que Oleg Tinkov "passa uma imagem para fora e poucos conhecem a sua outra face". "Esse outro lado era aquele em que ele se sentava connosco à mesa, ouvia o que tínhamos para dizer e dava também a sua opinião. Se considerasse que a nossa era correcta, aceitava e tentava conjugar as coisas", afirmou.

A facilidade de trabalhar com Peter Sagan

Que não fiquem dúvidas: Peter Sagan é aquilo que se vê. "Leva a maior parte do tempo na brincadeira", contou Sérgio Paulinho. Estamos perante um talento puro do ciclismo: "Quando leva as coisas a sério ganha e quando leva na brincadeira... Ganha!" O ciclista português frisou que trabalhar com o eslovaco é muito fácil e que o ambiente do grupo na presença de Sagan é completamente diferente daquele, por exemplo, criado por Alberto Contador. "O Alberto é um ciclista mais sério, mais rigoroso e que se não ganha fica chateado. Esse espírito acaba por afectar o grupo, num bom sentido. Já com o Peter não é assim. Se não ganha diz: 'Não se preocupem, amanhã há outra corrida, tentamos amanhã.' São duas pessoas diferentes e com o Peter nunca ninguém está chateado", realçou.

Os momentos mais marcantes

Agora que está de volta a Portugal e que já veste as cores da Efapel, Sérgio Paulinho recordou alguns momentos que marcaram a sua carreira. Inevitavelmente a medalha de prata olímpica é um deles, mas o ciclista recorda também a primeira vez que fez a Volta a França, em 2007. "É o sonho de qualquer ciclista e para mim aquele primeiro Tour foi marcante", recordou. Então representava a Discovery Channel,, naquela que foi a primeira vitória numa grande volta de Alberto Contador, com Sérgio Paulinho a seu lado.

No entanto, foi também nesta Volta a França que o português viveu um dos momentos mais difíceis. "O dia em que estive quase para desistir... Se não tivesse o carro de apoio atrás de mim teria desistido", admitiu. Mas terminou, na 63ª posição a mais de duas horas de Contador e subiu ao pódio, pois a equipa conquistou a classificação colectiva.

Continuando no Tour, mas agora de 2010. Em Gap, Sérgio Paulinho conquistava a 10ª etapa e claro que afirma recordar todos aqueles quilómetros até cortar a meta. Nesse ano vestia a camisola da RadioShack.

Paulinho a ser tratado após uma moto o ter atirado ao chão
Depois houve um momento marcante e que deixou muitas marcas (17 pontos na perna esquerda). Na 11ª etapa da Vuelta de 2015, Sérgio Paulinho foi abalroado por uma moto, naquilo que descreve como um "acidente caricato". E essa experiência é mais uma prova que "há demasiadas motos no pelotão", como referiu o ciclista. "Há motos de televisão, há motos dos fotógrafos, há motos para os convidados... Acaba por ser um mar de carros e motos. Há mais carros e motos que ciclistas! E deveria ser ao contrário."

Momentos inesquecíveis. Bons e maus. Porém, Sérgio Paulinho quer viver mais uns bons ao serviço da Efapel. Agora no papel de líder irá lutar pela conquista da Volta a Portugal.

»»Sérgio Paulinho (primeira parte da conversa): "Acho que 2017 vai ser um ano espectacular. Acho que vou ser bastante feliz"««

1 de janeiro de 2017

"Acho que 2017 vai ser um ano espectacular. Acho que vou ser bastante feliz"

Sérgio Paulinho está de volta a Portugal e já veste as cores da Efapel. Aos 36 anos e depois de uma longa experiência ao mais alto nível como gregário de um dos corredores mais importantes, Alberto Contador, o ciclista regressa para um desafio que não esperava ter nesta fase da carreira: ser líder de uma equipa. E não se pense que ser forçado a abandonar o World Tour por não ter encontrado uma equipa deixou Sérgio Paulinho desmoralizado. Muito pelo contrário. Fala da aventura que o espera sempre com um grande sorriso, visivelmente motivado pela experiência de ser líder e de ter a oportunidade de lutar pela conquista da Volta a Portugal.

"[Ser líder] vai ser, senão o maior, um dos maiores desafios da minha vida", confessou ao Volta ao Ciclismo, mostrando-se consciente do trabalho que tem pela frente, principalmente a nível mental, mas transparecendo confiança: "Acho que 2017 vai ser um ano espectacular. Acho que vou ser bastante feliz. Não quer dizer que vá ganhar a Volta a Portugal, mas vou trabalhar para isso." Mas até lá, espera-o uma árdua tarefa. Nas suas palavras, é preciso "mudar o chip", ou seja, depois de anos a trabalhar para um líder, agora terá de ser o ciclista português a liderar, terá de ser ele a assumir a responsabilidade de ganhar.

"É um trabalho mais mental do que físico", explicou. "A nível físico, em termos de preparação como gregário ou líder, acaba por não ser muito diferente. A grande diferença vai ser a nível mental porque quando era gregário, fazia o meu trabalho, encostava e ia devagar até à meta. Agora, como líder, o caso é completamente diferente." Sérgio Paulinho disse que já começou a trabalhar na tal "mudança de chip" com Américo Silva. O director desportivo da Efapel é um amigo de longa data do ciclista. Ainda jovem, Paulinho já treinava com Américo Silva, então ciclista profissional, e a amizade perdura. A intervenção do director desportivo foi mesmo decisiva para convencer o ciclista a assinar pela Efapel: "Voltar a trabalhar com ele foi também o que me fez regressar a Portugal."

"A minha carreira tem passado principalmente por fazer a Volta a França e a Volta a Espanha. Ao fim do terceiro ano já começa a ser algo monótono. Esta vinda para Portugal acaba por me dar ânimo, dá-me mais motivação"

Foram 12 anos no World Tour que chegaram ao fim juntamente com o fechar de portas da Tinkoff. Como qualquer ciclista viveu aquilo que sempre ambicionou, participou nas melhores corridas internacionais. Ainda assim, confessou que a carreira estava a tornar-se monótona.  "A minha carreira tem passado principalmente por fazer a Volta a França e a Volta a Espanha. Os primeiros dois/três anos são sempre muito interessantes. Tudo é novidade. Porém, ao fim do terceiro ano já começa a ser algo monótono. Já sabia que na Volta a França o Alberto [Contador] era o líder, já sabia o que ia fazer. Esta vinda para Portugal acaba por me dar ânimo, dá-me mais motivação... É uma motivação diferente", salientou.

Afirmou não lamentar ter deixado o World Tour, ainda que admita que não gostou da forma como saiu. Por isso, até deixa a porta aberta para um possível regresso: "Gostava de voltar para fazer mais um ano e depois, quem sabe, voltar a Portugal ou terminar a carreira." No entanto, que não restem dúvidas, está muito feliz por regressar ao seu país e de representar a Efapel, realçando que se não voltar ao World Tour, não perderá o sono por causa disso. Quer competir mais dois anos e não se importa de ficar em Portugal, referindo que, depois desse tempo, irá avaliar ano a ano a continuidade da carreira, não impondo um limite para a terminar.

Agora, na Efapel, quer viver o ciclismo de uma forma mais calma - ainda que sempre com a pressão inerente à sua responsabilidade - e perto da família. "Não lamento ter deixado o World Tour porque se passa muito tempo fora de casa. Tenho 36 anos, dois filhos e adoro a vida que tenho e a minha carreira, mas acaba por ser cansativo. Em 2015, quando fiz a Volta a Itália, em quatro meses se estive três semanas em casa foi muito. Entre corridas, estágios... Depois de anos a fazer isto consecutivamente, acaba por cansar. Estava a ficar um pouco saturado." Ao receber a proposta de Américo Silva e sem convites para continuar no World Tour, conversou com a família sobre a mudança que queria enfrentar. "Disse-lhes: "Chega! Para mim este projecto vai ser melhor, vai ser uma motivação diferente e vou aceitar o convite."

2017, um ano importante para o ciclismo nacional

Sérgio Paulinho é o nome mais sonante, num ano em que o pelotão português irá voltar a contar também com Edgar Pinto e Fábio Silvestre, além de terem permanecido outros ciclistas importantes, como Joni Brandão, o galego Gustavo Veloso, Frederico Figueiredo e Amaro Antunes, por exemplo. "Vai ser um pelotão mais recheado. Acho que irá haver mais discussão nas corridas e isso só beneficia o ciclismo português. Será um ano bastante importante para o ciclismo nacional", frisou.

"A equipa está melhor do que no ano passado. Está mais completa tanto para a alta como para a média montanha"

A W52-FC Porto dominou em 2016 e a equipa tem sido a mais forte nos últimos anos em Portugal. O Sporting-Tavira também se reforçou, Rádio Popular-Boavista, Louletano-Hospital de Loulé e a nova equipa LA Alumínios-Metalusa-BlackJack prometem dar luta em todas as corridas. E como está a Efapel? "A equipa está melhor do que no ano passado. Está mais completa tanto para a alta como para a média montanha. Acaba por ser uma equipa mais composta e acho que estamos preparados para nos bater com a W52-FC Porto, Sporting-Tavira ou qualquer outra equipa", respondeu.

O ciclista, agora líder da Efapel, será o que terá maior experiência internacional ao mais alto nível no pelotão. Sérgio Paulinho considera que os anos de World Tour poderão fazer a diferença, pois poderá transmiti-la aos seus novos companheiros e poderá também ter "um papel fundamental na Volta a Portugal". Contudo, referiu de novo que a "mudança de chip" será decisiva para estar na luta pela vitória na competição mais importante para as equipas portuguesas.

Até lá, Sérgio Paulinho terá outros objectivos e a estreia pela Efapel será feita numa corrida na qual continuará a sentir o ambiente World Tour: Volta ao Algarve. A prova, que se realiza entre 15 e 19 de Fevereiro, contará com 12 das 18 equipas do principal escalão do ciclismo. "Vai ser estranho e engraçado. Estranho porque vou estar numa equipa diferente ao que estava habituado. A realidade é esta: a Efapel não tem as mesmas condições de uma equipa do World Tour. Será engraçado porque estou a fazer uma Volta ao Algarve para mim, como líder da equipa e não, como nos últimos anos, como gregário do Alberto Contador ou de outro líder da equipa. Acaba por ser um misto de sensações", admitiu.

Sempre disponível para a selecção

Em 2016, Sérgio Paulinho esteve nos Europeus e nos Mundiais e deseja continuar a ter a oportunidade de representar Portugal, mas com uma condição: "Sempre disse ao José Poeira que se eu estiver bem fisicamente, que pode contar comigo, caso contrário, se tem um ciclista que possa representar o papel melhor do que eu, então deve levar o outro ciclista. Mas a selecção pode sempre contar comigo."

"Esta mudança era o que eu estava a precisar para dar outro rumo à minha carreira"

Num ano complicado, os Europeus acabaram por ser uma das melhores exibições do ciclista português. "Se calhar foi das corridas que terminei mais satisfeito. Estive ali até ao último momento, ajudei o Rui [Costa] até onde pude e acabei bastante contente com o trabalho feito", disse. Acrescentou que a sua performance também se deveu ao facto de, apesar de o Rui Costa ser o líder, Paulinho também tinha alguma liberdade, o que normalmente não acontecia na Tinkoff.

Mas para Sérgio Paulinho, a equipa vem sempre em primeiro lugar e a partir de hoje estará na estrada com o equipamento da Efapel e com a sua nova bicicleta. O ciclista está ansioso pelo momento em que começará a competir, até porque, confessa, ficou "muito contente" com a reacção das pessoas nas redes sociais quando foi anunciada a sua contratação. "Esta mudança era o que eu estava a precisar para dar outro rumo à minha carreira. Vai ser um desafio bastante interessante e acho que o vou conseguir superá-lo."

Esta segunda-feira será publicada a segunda parte da conversa com Sérgio Paulinho. O ciclista português falou de um 2016 complicado a nível físico, de Oleg Tinkov, Peter Sagan e da mágoa que ficou da atitude de Alberto Contador. Recordou os momentos que mais o marcaram na carreira e falou também dos cada vez mais portugueses que vão conseguindo entrar no World Tour.


21 de novembro de 2016

Tinkoff. No ano do adeus “esqueceram-se” do que é ser uma equipa. Salvou-se o inevitável Peter Sagan

(Fotografia: Facebook Tinkoff)
A equipa que não era mais do que um brinquedo para quem tem dinheiro acabou por ser vítima também dos caprichos de um dono que achava que estava no ciclismo para ser rei e senhor da modalidade. Amuado como qualquer criança, Oleg Tinkov fartou-se de ver a UCI, ASO e outros responsáveis ignorar as suas ideias e anunciou que ia abandonar o ciclismo. Talvez se se tivesse mantido pelas que até fazem sentido – como as equipas terem direito a uma fatia dos direitos televisivos – e não andar querer fazer do ciclismo um desporto com bancadas pagas para os adeptos e Tinkov poderia ter sido levado mais a sério. A sua excentricidade acabou também por se ressentir dentro da própria equipa que este ano foi tudo menos… uma equipa. Alberto Contador e Peter Sagan estiveram basicamente por sua conta, mas se o eslovaco tem capacidade para se “desenrascar” e teve um ano sensacional, já o espanhol enfrentava uma missão impossível, pois fazer frente a Froome e uma Sky ou Quintana e a uma Movistar sozinho…

O anúncio de Tinkov surpreendeu e fomentou ainda mais a divisão na equipa. Começou a ser cada um por si para assim garantir um contrato para 2017. O que Roman Kreuziger fez a Alberto Contador no Tour (deixou-o deliberadamente para trás quando o espanhol estava em dificuldades, indo à procura de conseguir ele próprio um bom resultado) foi a prova visível que esta Tinkoff não tinha futuro, com um magnata a liderar como se tudo fosse um divertimento e como se tudo se resolvesse com umas declarações polémicas e com umas asneiras pelo meio, que na mente de Tinkov tinham piada.

Alberto Contador esteve muito bem no início de temporada. Apareceu forte logo na Volta ao Algarve e venceu no Alto do Malhão. Quando chegou a provas do World Tour normalmente vistas como preparação para Tour, o espanhol somou vitórias de etapas, pódios, venceu a Volta ao País Basco, mas de que vale se quando chega ao momento que tanto se preparou e se é vítima de mais uma queda estúpida e de um abandono daqueles que eram suposto ser os seus braços-direitos. Na Vuelta até esteve melhor e ainda tentou o pódio, mas acabou empurrado para o quarto lugar após mais uma grande exibição de Johan Esteban Chaves, que esse sim, teve uma equipa a ajudá-lo a atacar um objectivo.

  • 2º lugar no ranking World Tour com 1361 pontos
  • 34 vitórias (13 no World Tour, incluindo três no Tour por Peter Sagan)
  • Peter Sagan foi o ciclista com mais vitórias: 15 (9 no World Tour)


Portanto, a época da Tinkoff resume-se a Peter Sagan, que apesar de todos os problemas internos acabou por ter um 2016 memorável. Não foi um início fácil. Primeiro vieram os habituais segundos lugares, mas depois de vencer a Gent-Wevelgem partiu para uma época de grandes vitórias a começar pelo seu primeiro monumento, a Volta a Flandres. Seguiram-se triunfos em etapas na Volta à Califórnia, Volta à Suíça, até que chegou ao Tour, onde quebrou o enguiço de dois anos sem vitórias. Foram três etapas, a habitual classificação por pontos (e aí vão cinco) e ainda uns dias de camisola amarela. Foi o primeiro campeão da Europa de elite e ainda comprovou que afinal pode muito bem vencer os melhores sprinters, sagrando-se novamente campeão do mundo, em Doha.

Muito se fala da maldição da camisola do arco-íris. Peter Sagan ou acabou com ela ou simplesmente comprovou que não é mais do que um tema de conversa quando se quer justificar épocas menos boas. O eslovaco é simplesmente fenomenal, até viu o irmão sagrar-se campeão do seu país, tendo Peter sido segundo. Uma figura incontornável do ciclismo que até se treme em pensar o que poderá alcançar se na Bora-Hansgrohe encontrar realmente um grupo que o ajude a fazer parte do trabalho que na Tinkoff se via obrigado a fazer, como controlar corridas ou liderar perseguições.

Sagan foi o principal responsável pela classificação da equipa no ranking World Tour. Ainda assim Tinkov, talvez frustrado por não ter vencido nenhuma grande volta, terminou o ano a atacar Alberto Contador quando este resolveu não competir na Lombardia, último monumento do ano, por motivos físicos. Tinkov considerou que o espanhol retirou a oportunidade da sua equipa se despedir como número um do ranking mundial.

De referir ainda Rafal Majka. O polaco quase parecia um ciclista à parte. Manteve-se concentrado nos seus objectivos pessoais. Foi quinto no Giro, venceu a classificação da montanha no Tour e foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos. Também vai para a Bora-Hansgrohe e é dos ciclistas que mais se expectativa tem para saber do que é capaz como líder com uma equipa a apoiá-lo.

Quanto a Sérgio Paulinho, o português foi mais uma vítima de toda esta confusão que se viveu na Tinkoff. Há tantos anos que era um dos homens de confiança de Alberto Contador, mas não foi convocado para a Volta a França e chegou mesmo a criticar os ciclistas escolhidos. E o tempo deu-lhe razão. Foi à Vuelta, cumpriu, mas o ingrato trabalho de gregário fez com que chegasse ao final da temporada sem convites para continuar no World Tour. E claro que não ajudou Contador lhe ter prometido que o levaria com ele fosse para uma equipa criada pelo espanhol ou para outra e não ter cumprido. O espanhol assinou pela Trek-Segafredo e não mais contactou o português.

Sérgio Paulinho demonstrou nos Europeus que apesar dos 36 anos continua a ser um ciclista de grande valor. Porém, Contador parece ter-lhe virado as costas. O ciclismo tem tendência a esquecer os “gregários” quando chega a altura de contratar e o português vai regressar a Portugal e assumir um papel de liderança na Efapel do amigo Américo Silva. Perde o World Tour um grande homem de trabalho, ganhámos nós, adeptos em Portugal, que podemos ver o medalha de prata dos Jogos Olímpicos de 2004 novamente nas nossas estradas.



15 de novembro de 2016

One shot, Alberto

por Octávio Lousada Oliveira


(Fotografia: Facebook Alberto Contador)
O título conquistou-me. O teor da peça, nem tanto. Li no As que Alberto Contador “falou claro”. “Se ganhar o Tour no próximo ano, deixo de correr”, disse o espanhol numa entrevista que concedeu ao “The Telegraph Cycling Podcast”. No entanto, nada havia ali de verdadeiramente surpreendente, uma vez que o adeus, prometido para 2016, só não se confirmou porque El Pistolero falhou, outra vez, o objectivo de vestir a maillot jaune nos Campos Elísios.

Aos 33 anos (serão 34 quando a temporada de 2017 arrancar), aquele que pode legitimamente reclamar o estatuto de melhor ciclista do pós-Lance Armstrong – pelo menos, até ver – tenciona apenas provar (a si mesmo e ao mundo) ainda ter pernas para ganhar em França e que consegue (a)bater Christopher Froome, Nairo Quintana e os inúmeros lobitos que vão aparecendo pelas estradas gaulesas.

Após seis anos de uma experiência agridoce no projecto Saxo Bank, primeiro, e Tinkoff, depois, - não obstante os vários triunfos alcançados, com destaque para a Vuelta (em 2012 e 2014) e para o Giro (em 2015) - Contador aterra agora na Trek-Segafredo. Na bagagem leva vários manuais sobre como evitar tensões em grupos difíceis e na cabeça terá certamente presente um avisado tweet do ex-colega e antigo-rival Armstrong: “There is no ‘I’ in ‘team’.” Traduzindo: não existe “eu” na palavra “equipa”.

Ora, sob a liderança do excêntrico Oleg Tinkov, o equilíbrio de egos foi sempre mais complicado do que a gestão de euros - ou rublos. O magnata russo despachou Bjarne Riis, pressionou uma e outra vez Peter Sagan, ignorou o palmarés de Contador e fez-lhe vários ataques de carácter e ainda sinalizou, sem cuidados de maior, que a ideia de ter entrado no ciclismo foi um disparate. Somente porque a modalidade não se transformou à sua imagem. Pois que vá. E não volte.

Feito o parêntesis, importa recordar que entre 2011 e 2016 Contador coabitou com atletas como Rafal Majka, Daniel Navarro, Roman Kreuziger, Daniele Bennati, Michael Rogers, Nicholas Roche, Ivan Basso, Robert Kiserlovski e Peter Sagan. E a alguns dos antigos gregários não consta que vá deixar saudades. Não será, de resto, em vão que a faustosa Tinkoff nunca chegou a jogar naquele que seria o seu campeonato: o da igualmente milionária Sky.

Como na prática a teoria é outra, os pupilos de Dave Brailsford provaram ser sempre mais fortes, mais unidos e mais coesos, mesmo quando as circunstâncias exigiam o sacrifício de ambições pessoais. “Froomey” que o diga; Bradley Wiggins que o reconheça. Na Tinkoff, vimos Contador isolado num sem-número de ocasiões, encontrámos desatenções permanentes no que toca à colocação do líder entre o pelotão, lamentámos quedas absolutamente escusadas, vislumbrámos elementos da equipa a perseguirem colegas em fuga e, claro, não foram raros os relatos de que o ambiente seria de cortar à faca nos hotéis em que a equipa pernoitava. 

Para esta aventura na Trek-Segafredo, órfã de Fabian Cancellara e dos manos Schleck, Contador leva consigo o fiel Jesús Hernández, mas deixa para trás um dos seus, que é também um dos nossos, o veterano Sérgio Paulinho, que regressará a Portugal para chefiar a Efapel. Contudo, numa formação ainda “verde” para as grandes voltas – Bauke Mollema, Jarlinson Pantano e Haimar Zubeldia serão curtos para uma época exigente e desgastante - encontrará dois ciclistas lusos: uma certeza, André Cardoso, e uma promessa, Ruben Guerreiro. Veremos o que cada um poderá dar a El Pistolero.

Nos próximos meses, nas concentrações e nos estágios, Alberto enfrentará o primeiro exame: fazer com que os seus novos colegas encarem a guerra de Julho, o Tour, como sendo também sua. Nas 21 batalhas que vai travar, contra adversários mais poderosos, não lhe basta ter oito companheiros ao seu lado, necessita de ter consigo oito guerreiros dispostos a deixar a pele na estrada. Como Ivan Rovny e Yuri Trofimov fizeram naquela mítica jornada, a 15.ª, da última Volta a Espanha, em que o espanhol soltou o inferno logo aos seis quilómetros e, para infortúnio de Froome, entregou a corrida a Quintana.

Na verdade, podemos recuar a 2015, quando a Astana jogou como sabe (sujo) e Fabio Aru e Mikel Landa exploraram um problema mecânico, obrigando Contador a fazer uma recuperação inolvidável Mortirolo a cima, num dia que ajudou a sentenciar esse Giro a seu favor. Perdoem-me outro flashback, desta feita a 2012: de regresso à competição, depois da suspensão por doping, o natural de Pinto (Madrid) quase pôs a Vuelta no bolso quando, na 17.ª tirada, se lançou ao ataque de forma kamikaze a 60 quilómetros da meta. Deixou o então camisola vermelha, Joaquim Rodríguez, a pé, encontrou amparo na roda de Sérgio Paulinho (que seguia mais à frente) e em Fuente Dé celebrou como nos habituou: com o dedo no “gatilho”.

Se há alguém capaz de furar as contas a toda a gente, doravante esse alguém vai vestir as cores da Trek. Iniciará a sua terceira vida - e não é crível que os pedais lhe concedam uma quarta. Se 2017 não for o seu ano, 2018 (o segundo de contrato) dificilmente será. Em todo o caso, e quando as odds não estão do seu lado, só Contador poderá pôr em prática a doutrina de Frank Underwood: “If you don't like how the table is set, turn over the table.” Em português, seria algo do tipo: “Se não gostas da forma como a mesa foi posta, vira a mesa.” Sou gajo para acreditar nisso. Daqui a oito meses, cá estarei para responder pelo tiro. E pela fezada.

Octávio Lousada Oliveira é jornalista da revista Sábado, depois de ter passado pelo Diário de Notícias, pela SIC e pelo Record. Escreve habitualmente sobre política, mas tende a exasperar entre Novembro e Fevereiro, pois precisa de ciclismo como pão para a boca.

4 de novembro de 2016

Bjarne Riis está de volta, mais discreto do que o esperado, mas com ambição de regressar rapidamente à ribalta. E voltam também as suspeições do costume

(Fotografia: Twitter Bjarne Riis)
Era um regresso esperado, mas nem por isso desejado. Bjarne Riis vai voltar ao ciclismo, ainda que por uma "porta de trás". Desde o início do ano que falava em dirigir novamente uma equipa, depois de em 2015 ter sido despedido por Oleg Tinkov, a quem tinha vendido a formação dois anos antes, mas continuado como director desportivo. Com o anúncio do magnata russo de deixar a modalidade, o nome de Riis surgiu como possível comprador da Tinkoff, já que mantém a estreita relação com Lars Seier Christensen, co-fundador do Saxo Bank, que patrocinou a equipa antes da chegada de Tinkov (ainda chegaram a partilhar a formação). Ora a reacção de Oleg Tinkov foi ao seu estilo: perante a animosidade que sente por Riis disse logo que preferia acabar com a equipa do que vendê-la ao dinamarquês.

Além deste "bloqueio" de Oleg Tinkov, o possível regresso de Bjarne Riis foi visto como algo muito indesejado, sendo o antigo ciclista um dos homens com ligações ao doping. Riis é daqueles nomes que se preferia deixar no passado (esquecer é difícil, mas porque não tentar), já que o dinamarquês foi um dos que admitiu ter recorrido a EPO, hormonas de crescimento e cortisona durante parte da sua carreira, inclusivamente quando venceu a Volta a França em 1996. A confissão em 2007 surgiu depois de outros ciclistas, que tinham sido seus companheiros, terem admitido o uso de doping.

Então Bjarne Riis já era o director desportivo da equipa que viria a ser a Tinkoff e que era das mais fortes do pelotão. As suspeitas de doping também foram surgindo na equipa e Tyler Hamilton, antigo ciclista, escreveu um livro no qual divulgou como Riis incentivava os seus atletas a recorrer a substâncias ilegais para melhorar as performances. Ivan Basso (vencedor do Giro em 2006), por exemplo, esteve envolvido na chamada Operação Puerta, um dos esquemas de doping que foi investigado.

O despedimento de Riis por Tinkov foi justificado por diferenças de ideias, com o empresário russo a mais tarde a acusar do dinamarquês de receber um ordenado muito alto para as funções que exercia, dizendo que a equipa continuava a ganhar sem ele e por menos dinheiro. E esta terá sido das críticas mais "simpáticas" que fez.

Mas um dos rostos daquela que acabou por ser uma era negra para o ciclismo conseguiu agora voltar e mesmo que esteja a ter uma entrada discreta, a ambição é regressar ao World Tour rapidamente. Riis e o parceiro do costume - Lars Seier Christensen - são agora donos da Virtu Pro-VéloConcept, do escalão Continental, e também da formação feminina BMS Birn, que irá ter o mesmo nome que a equipa masculina e vai competir no World Tour.

Bjarne Riis destacou que o objectivo é continuar a explorar o potencial que os conjuntos têm demonstrado, inclusive na formação de ciclistas dinamarqueses. No entanto, realçou que a aquisição das equipas "é o primeiro passo". Riis referiu que "há pressão para que os planos avancem", assegurando que tem "patrocinadores interessados" em colocar a equipa masculina no principal escalão já em 2018. Só não ficou claro se irá manter a estrutura actual da Virtu Pro-VéloConcept, ou se montará uma nova.

Numa altura em que a UCI recuou na decisão de diminuir de 18 para 17 as equipas no World Tour e enfrenta ainda uma luta contra a regra de promoções e descidas de escalões, Riis ameaça dar mais uma dor de cabeça ao organismo caso queira mesmo reentrar no World Tour, Isto além, claro, de ser impossível não trazer as suspeitas do costume com ele, isso sim, uma questão bem mais preocupante e que o ciclismo não precisava.

4 de outubro de 2016

Oleg Tinkov: "Contador vai ser como um pato coxo. Nunca mais vai ganhar uma grande Volta"

Dias que pareciam ser felizes... (Fotografia: Facebook Oleg Tinkov)
Já estava a parecer estranho Oleg Tinkov abandonar o ciclismo sem uma derradeira polémica, sem uma derradeira tirada "à la Tinkov". Naquela que é descrita como a "última entrevista" o dono da equipa russa - que fecha portas este ano - disparou novamente em várias direcções, repetindo a defesa da adopção do ciclismo como um modelo de negócio, críticas à UCI, mas a grande surpresa foram mesmo as declarações sobre Alberto Contador. E ao seu estilo, Tinkov disse tudo o que pensava sobre o espanhol e como elogio salvou-se "é um grande campeão", ao que se seguiu "deve abandonar" a modalidade! Para se perceber bem a relação entre os dois: "Não gosto dele." Foi o que disse sobre o líder da sua equipa nos últimos cinco anos, não se coibindo, como é costume, de utilizar as asneiras sem qualquer tipo de tento.

Este é um dos casos que o melhor é mesmo colocar as declarações de Tinkov, tal como estão na entrevista dada ao Cycling News. O assunto Contador surgiu quando lhe foi questionada a relação com Peter Sagan depois de ter tido que lhe queria cortar no salário, após uma fase de clássicas aquém do esperado em 2015. Com Sagan está tudo bem, já com Contador...

"Para ser honesto tenho uma relação muito pior com o Contador, mas os meios de comunicação social nunca se aperceberam disso. Aliás, eu não tenho uma relação com ele. Respeito-o como ciclista pelo passado que tem, mas como pessoa nunca me agradou. Não gosto dele. Mesmo na equipa, a maioria dos ciclistas não gosta dele. Ele acabou por ter uma má relação com quase toda a gente, exceptuando o seu grupinho espanhol."

Oleg Tinkov estava apenas a aquecer no seu discurso anti-Contador, aconselhando o director desportivo da Trek-Segafredo - equipa do espanhol em 2017 -, Luca Guercilena, "a ter cuidado". "Ele assinou com eles como um grupo, mas penso que este grupo vai criar muita confusão na Trek."

Voltando directamente ao ataque a Contador: "Pessoalmente penso que o Alberto devia deixar o ciclismo porque ele já não é tão forte. Eu deixo de ser dono de uma equipa no momento certo, no topo. Ele é um grande campeão e devia parar já. Penso que ele vai ser como um pato coxo. Ele vai parecer um estúpido. Na Vuelta ele foi deixado para trás pelos quatro ou cinco melhores ciclistas. No próximo ano vai ser pelos melhores 20. Acho que nunca mais vai ganhar uma grande Volta. Ele devia esquecer isso e abandonar."

Mas afinal o que leva Tinkov a criticar desta forma Alberto Contador? "Estou zangado porque não ganhámos o ranking World Tour [por equipas] porque ele ou caía, ou estava doente, ou abandonava. Ele não esteve na Lombardia e eu não sei se ele não fez de propósito, mas eu não gosto disso. É uma merda. Pelo dinheiro que ele ganha, isto não deveria ter acontecido. Valverde esteve doente três dias antes e competiu na Lombardia e terminou no top dez. Isso é classe."

E não se pense que o magnata ficou por aqui, porque ainda criticou a personalidade de Contador em momentos de festa, dizendo que não o convidou para a de despedida porque se ele estava doente então não deveria estar com os outros ciclistas e pegar-lhes o vírus antes dos Mundiais.

"Penso que a festa será melhor sem ele porque ele é uma pessoa triste. Ele nunca quer beber champanhe e está sempre com cuidado com o que come porque está focado em ganhar a Volta a França em Julho. Era assim que ele era em Novembro, em Moscovo. É uma atitude estúpida. Por isso é que está sempre a cair, é demasiado rígido como ele próprio, demasiado focado. O Peter [Sagan] é mais relaxado e fácil de se estar. Os que são mais sérios são sempre mais aborrecidos. Eles podem ir foder-se. São chatos, têm uma vida terrível."

As declarações de Oleg Tinkov são por um lado surpreendente, pois realmente não era conhecida que a relação com uma das suas estrelas era tão má. Percebia-se que existia tensão, agora estas palavras são de uma dureza extrema. Por outro lado, ninguém fica surpreendido por magnata falar desta forma sobre um seu ciclista. Nunca teve problemas em dizer o que pensava e não era agora que vai abandonar o ciclismo que ia parar.

Uma coisa é certa, as declarações, a serem verdade, explicam muito sobre o que aconteceu este ano com Alberto Contador e a Tinkoff. Se o apoio ao espanhol já não vinha sendo o melhor desde 2015 (pelo menos) este ano, Contador não só acabou grande parte das corridas por conta própria nos momentos decisivos e às vezes muito mais cedo, como na Volta a França viu um companheiro deixá-lo para trás, naquilo que só se pode considerar um ataque a um próprio colega que por acaso era suposto ser o líder a defender. Roman Kreuziger deu o primeiro sinal mais do que visível que a união na equipa era nula. Aliás, durante o Tour, até Sérgio Paulinho criticou as escolhas de apoio a Contador, numa entrevista ao Eurosport, considerando-as que não eram as indicadas. Mais uma demonstração que algo não ia bem na equipa russa.

Tinkov ataca Contador por ter sido deixado para trás na Vuelta. Ainda assim acabou por ser uma boa prova para o espanhol (quarto lugar), tendo em conta que não tinha equipa, algo que era da responsabilidade do magnata russo garantir que existia, que respeitaria o seu líder e que tinha qualidade para fazer frente às outras formações.

Mas mesmo Peter Sagan, que acabou por ser elogiado e foi quem mais vitórias trouxe à equipa, incluindo o monumento da Volta a Flandres, sofreu muito este ano precisamente porque não tinha companheiros para o ajudarem. Quando era preciso apanhar fugas, evitar que adversários directos atacassem, ajudar Sagan na colocação dos sprints, foram tão raras as vezes que o eslovaco teve ajuda que o ciclista fez-se valer de toda a sua qualidade para conseguir lutar contra tudo e contra todos sozinho para vencer por 13 vezes (mais a conquista do título europeu pela selecção), ao que se juntaram ainda umas camisolas de pontos e a amarela por uns dias no Tour.

Oleg Tinkov pode atacar Contador à vontade, pode até ter razão. Porém, deve também olhar para o seu trabalho, pois não basta gastar dinheiro - e parece que foram 50 milhões euros ao longo de cinco anos -, se não se constrói uma equipa coesa, que respeita o seu líder, goste-se ou não dele, uma equipa que se propõe a um objectivo e tenta alcançá-lo toda a junta, então não há campeões como Contador, nem como Froome ou Quintana que resistam.

Chris Froome tem uma Sky que roça a perfeição na Volta a França. Nairo Quintana tem uma Movistar que pode não ser tão forte como a equipa britânica, mas protege o seu líder até onde pode, dando tudo o que tem. Tinkov gostava de ter estrelas e pagava por elas, mas parece não ter percebido que no ciclismo ganham as individualidades, mas na maioria das vezes só o conseguem fazer devido ao esforço conjunto. A Tinkoff há muito que tinha deixado de se mostrar como equipa.

»»André Cardoso vai estar ao lado de Alberto Contador««

»»Até Oleg Tinkov considera demasiado caro viajar para o Qatar««