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22 de maio de 2016

Kruijswijk, o discreto. Chaves, o lutador

(Fotografia: giroditalia.it)
Pedia-se espectáculo e houve espectáculo. Pedia-se ataques dos favoritos e houve ataques dos favoritos, mas sobre o que seria de esperar para a etapa rainha do Giro, ficamos por aqui. Depois foram só surpresas.

Quando alguém perguntar porque se gosta tanta de ciclismo, o melhor é mostrar-lhe a 14ª etapa da Volta a Itália. Pode não ter tido momentos épicos - talvez falte Alberto Contador para isso -, mas quem assistiu dificilmente esquecerá a passagem do pelotão pelas Dolomitas. As expectativas eram altas: 210 quilómetros, seis subidas categorizadas em 150 e um muro para terminar. Era o dia para definir de uma vez por todas quem são os candidatos. E assim foi. Só não foram os esperados...

Há novo líder (o sexto) e o vencedor da etapa foi um ciclista que há três anos disseram-lhe que não voltaria a competir

Nibali atacou. Ficou surpreendido com quem respondeu

As primeiras subidas serviram para ir eliminando quem não está nesta luta. Todos os pretendentes seguraram-se até à penúltima, uma primeira categoria. Bob Jungels (Etixx-QuickStep) foi dos primeiros a ceder, sem grande surpresa. O holandês poderá estar algo desiludido por ter saído do top dez, mas ainda está na luta. O jovem ciclista ainda tem muito a desenvolver, mas a Etixx tem claramente um homem para as três semanas.

Mas a verdadeira acção ficou guardada para a última, ainda que Amador, o camisola rosa, tenha perdido contacto no Passo Giau, recuperando na descida antes da Valparola.

Uma segunda categoria decisiva. Já se perguntava quem iria atacar? Alguém teria de o fazer. Vincenzo Nibali (Astana) assumiu a responsabilidade depois de um excelente trabalho de Michele Scarponi. O Tubarão mostrava as suas credenciais... Valverde mostrava que não as tinha. Quando olhou para trás, certamente que o italiano nem queria acreditar: era Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo) e Johan Esteban Chaves (Orica-GreenEDGE) quem respondia. O grande rival ficava irremediavelmente para trás.

Surpresa número 1. E não demorou muito para se chegar à surpresa número 2. Kruijswijk tem andado discreto. Quase passa despercebido. Não que alguém o subestime, afinal já tem dois top dez no Giro. O holandês tem demonstrado estar forte, mas manteve-se até este sábado longe dos holofotes. Quando contra-atacou Nibali resolveu que estava na altura de também ele saltar para a ribalta e só Chaves foi com ele. Era a vez de Nibali ficar sentado.

Steven Kruijswijk é o sexto líder do Giro (Fotografia: giroditalia.it)
Lá na frente, Atapuma (BMC) chegou a parecer que tinha a vitória garantida. Mas neste Giro, nada é garantido. Foi apanhado por Georg Preidler (Giant-Alpecin), um dos sobreviventes da fuga inicial de 37 (!) ciclistas. Mas Kruijswijk e Chaves aproximaram-se do duo da frente e acabaram por discutir a etapa, com um triunfo emocional para Chaves e uma camisola rosa para um Kruijswijk de impor respeito.

Entre Nibali, que cortou a meta acompanhado por Kanstantsin Siutsou (Dimension Data) - uma das figuras da etapa, que chegou a ser o líder virtual -, e Valverde, estavam Majka, Zakarin, Uran... as outras figuras do top dez, ou que aspiram a tal.

O novo trio de favoritos

Quando o Giro começou há duas semanas, Nibali, Valverde e Mikel Landa (Sky) eram apontados como o trio de favoritos. Uma gastroenterite e umas Dolomitas depois e ainda temos um trio, mas só Nibali sobrevive. Perante as diferenças feitas na 14ª etapa, o italiano (segundo a 41 segundos), Chaves (terceiro a 1:32 minutos) e o novo líder Kruijswijk assumem-se como os principais candidatos. O mais próximo deste trio é Valverde a já 3:06. Faltam muitas montanhas. Recuperar ainda é possível, mas Nibali terá encontrado os ciclistas com quem tem realmente de se preocupar.

A história de Chaves

Depois da Vuelta, Chaves venceu agora no Giro

(Fotografia: Twitter @giroditalia)
O colombiano fechou quinto na Vuelta de 2015, onde venceu duas etapas, dando à Orica a opção que procurava para as três semanas. Ainda mais importante foi como se tornou um símbolo de luta. Em Fevereiro de 2013, Chaves teve uma queda gravíssima ao chocar contra um sinal de trânsito. O seu braço direito ficou de tal forma que os médicos no seu país e em Itália disseram-lhe que não voltaria a competir. Chaves procurou outras opiniões e acabou por ser operado, tendo-lhe sido retirado nervos do pé para colocar no braço. O movimento do braço pode nunca ter ficado completamente normal, mas aos 26 anos, o colombiano sonha agora com a vitória no Giro.

"Se posso ganhar a Volta a Itália? Porque não! O Mat Hayman ganhou o Paris-Roubaix e cinco semanas antes tinha partido o braço. Quando eu caí, os médicos disseram-me que com o meu braço não poderia voltar a competir. Agora ganhei uma etapa, por isso, tudo é possível", salientou o colombiano.

Cunego aguentou a camisola azul

O italiano da Nippo-Vini Fantini quer a camisola da montanha. Aos 34 anos é muito bom ver de novo Cunego a aparecer em destaque. Entrou na fuga e conquistou a pontuação máxima na primeira categoria do dia. Depois o grupo começou a atacar e Damiano Cunego acabou por tentar encontrar o seu ritmo e foi pontuando. Tem 134 pontos, mais 62 que Stefan Denifl (IAM). Há muita montanha pela frente, mas o vencedor do Giro de 2004 passou no teste da etapa rainha.

O ataque do vírus estomacal

A gastroenterite está a tornar-se numa das "figuras" do Giro... Primeiro foi Fabian Cancellara a perder a possibilidade de concretizar o objectivo de final de carreira de vestir a camisola rosa. Depois foi Mikel Landa que abandonou e disse adeus ao sonho de ganhar o Giro, pelo meio Elia Viviani também não se sentia bem quando chegou fora do tempo limite na etapa 8.

Na etapa 14 a gastroenterite atacou em força: Arnaud Démare (FDJ) e Ryder Hesjedal (Trek-Segafredo) não terminaram a tirada - o francês mal a começou - e a justificação foi um vírus estomacal. Foram sete as desistências na etapa rainha, nem todos alegaram doença, mas ainda assim tem sido um Giro complicado neste aspecto... Destaque ainda o adeus, algo surpreendente, para Przemyslaw Niemiec, certamente uma desilusão para a Lampre que apostaria no polaco para as etapas de montanha da última semana.


Giro d'Italia - Stage 14 - Highlights por giroditalia

Confira os resultados e as classificações.

Etapa 15: Castelrotto - Alpe di Siusi (10,8 quilómetros)


Para encerrar três dias infernais, antes de um merecido dia de descanso, uma crono-escalada. Chega a ter uma pendente máxima de 11%, mas tem uma média de 7/8%. É um teste à liderança de Kruijswijk, principalmente com Nibali a ter possibilidade de lhe tirar a maglia rosa. Mas esta etapa é ainda mais importante para basicamente todos os que estão do quarto lugar para baixo na classificação. Há muito tempo a recuperar e têm de começar nesta crono-escalada para ainda ambicionarem a algo mais que o top dez.


Giro d'Italia 2016 - Stage 15 por giroditalia

21 de maio de 2016

Como perder uma grande volta. Um guia da Movistar

(Fotografia: Twitter @giroditalia)
Num dia elogia-se e no seguinte corre tudo muito mal. Num dia estão dois ciclistas a sonhar com a vitória, no outro pede-se vingança como forma de disfarçar que o Giro pode estar (e provavelmente está) perdido. A Movistar desceu do céu ao inferno em 210 quilómetros, na etapa rainha da Volta a Itália. Primeiro a equipa mostrou não conseguir acompanhar os dois líderes, depois foi Andrey Amador que não conseguiu aguentar o ritmo e logo se viu que a camisola rosa ficaria pouco tempo no seu corpo. E para terminar em desgraça, Alejandro Valverde ficou sentado quando Vincenzo Nibali atacou e perdeu muito tempo.

Na 13ª etapa, na sexta-feira, Amador fez história ao tornar-se o primeiro costa-riquenho a liderar uma grande volta. Momento de festa, mas também de discussão sobre quem afinal era o número 1 da equipa espanhola. Eusebio Unzué, director desportivo, preferiu esperar e deixar a estrada decidir. Pelo meio Giovanni Visconti tentou ganhar a etapa e somou pontos para a montanha. Parecia tudo controlado e a Movistar mostrava a sua força. Parecia, pelo menos...

O primeiro problema surgiu logo com a polémica de Valverde dizer que não sabia que havia bonificações em jogo, deixando Nibali ganhar quatro segundos. A ser verdade, foi uma grande falha, ainda que, pelas indicações que o espanhol estava a dar, não seria razão para fazer uma tempestade num copo de água. Pelo menos, não nesta altura. E realmente não vale a pena tendo em conta o que aconteceu depois. Os quatro segundos não preocupavam em demasia, já os 3:06 minutos deste sábado são um enorme problema.

Outra discussão era em relação a Visconti: deveria ter ficado para trás e esperar por Valverde ou fez bem em tentar a vitória? Unzué achou que ficar na frente era o melhor e dado o resultado da etapa, nada lhe tirou a razão, pois não haveria garantias que Valverde conseguisse bonificar (tendo em conta o engano quanto às bonificações, se calhar foi mesmo melhor assim) e o espanhol estava confortável no grupo de favoritos.

Neste sábado, a Movistar falhou em todas as frentes na etapa rainha. A equipa rapidamente deixou os seus líderes sozinhos, numa etapa que apenas teve uns poucos quilómetros planos no início. Seis subidas em 150 quilómetros arruinaram a Movistar. Visconti pagou caro o esforço do dia anterior. Quando o ritmo aumentou, muito devido à Astana, o italiano desapareceu e não sobrou ninguém para ajudar Valverde e Amador. O costa-riquenho também não aguentou muito mais tempo.

Quando vestiu a camisola rosa, Amador não teve dúvidas em considerar Valverde o líder indiscutível. A pressão não era dele e o ciclista sabia que tinha de a afastar. A 14ª etapa deu-lhe razão em o ter feito. Amador não falhou. Fez o que pôde. Depois de perder o contacto, aproveitou a descida para recolar. Assumiu uma pequena ajuda a Valverde, sabendo que não demoraria muito a voltar a ficar para trás.

A pressão estava mesmo do lado de Valverde. No primeiro real teste à sua capacidade, o espanhol chumbou completamente. No primeiro ataque não teve reacção. Ficou a ver Nibali afastar-se com Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo), Johan Esteban Chavez (Orica-GreenEDGE) e outros dos candidatos.

A aposta em dois candidatos, a liberdade dada a Visconti não era afinal um sinal de força. Era um erro táctico. O Giro está numa fase de três dias muito importantes, que termina este domingo com a crono-escalada. E neste domingo também pode terminar de vez as hipóteses da equipa em lutar pelo Giro, se é que já não terminaram. Como vão estar Valverde e Amador física e animicamente? Essa é a dúvida.

A Astana também chegou a ter outro ciclista melhor que o seu líder. Mas se não quis afastar a possibilidade de ter um plano B, nunca houve dúvidas que Jakob Fuglsang trabalharia para Nibali. Ficará sempre a questão para discussão: cometeu a Movistar um erro em permitir ter dois ciclistas a lutar pela vitória? Ainda falta muita montanha e no site da equipa lê-se que as Dolomitas (onde ocorreu a tirada deste sábado) pedem vingança, mas depois da 14ª etapa, a equipa terá de repensar toda a sua estratégia e esperar por um dia muito bom de um dos seus ciclistas e de um muito mau dos que agora ocupam o lugares do pódio. Esta "vingança" está dependente de demasiado factores.

Porém, esta Volta a Itália tem sido rica em mudanças de dia para dia. Com a etapa rainha a definir três favoritos - Kruijswijk, novo líder, Nibali e Chaves - falta saber se algum outsider ainda tem capacidade para surpreender. Porque sim, Valverde passou de favorito a outsider.