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19 de setembro de 2018

O triunfo do ciclismo britânico que vai além da Sky

Os gémeos Yates disseram não à Sky, com os sucesso britânico a estar
agora além da equipa que mudou a modalidade na estrada
naquele país (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
As referências existiam. Várias conquistas importantes também, mas a Grã-Bretanha nunca tinha conseguido tornar-se num potência do ciclismo ao nível das nações mais tradicionais, como França, Itália, Espanha, Bélgica e Holanda, por exemplo. A chegada da Sky ao pelotão internacional mudou profundamente essa realidade, mas as bases do actual sucesso começaram a ser construídas muito antes e foi a aposta na pista que se mudou o ciclismo naquele país. As repercussões na estrada são estrondosas, com os britânicos a passarem de não ter vencedores em grandes voltas para quatro num espaço de sete temporadas, num total de nove classificações gerais.

Tom Simpson (década de 60) é um nome que marca o ciclismo britânico de estrada, infelizmente não só pelas melhores razões. Tem  vitórias em três monumentos (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Lombardia), uns Mundiais e foi ainda o primeiro corredor daquele país a vestir a mítica amarela do Tour, ainda que não a tenha mantido. A sua morte em pleno Mont Ventoux deu-lhe um estatuto de lenda, apesar do consumo de álcool e drogas, numa era muito diferente do ciclismo.

Nos anos 80 e 90 foi Robert Millar a referência, com dois segundos lugares na Vuelta e um no Giro. Quando Millar entrou na recta final da carreira apareceu Chris Boardman. Na Grã-Bretanha, aponta-se as grandes mudanças naquele país no ciclismo a uma conquista inesperada deste corredor. Nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, Boardman conquistou o ouro olímpico na perseguição individual, uma prova de pista. Tornou-se um especialista no contra-relógio e até deteve o recorde da hora. Contudo, aquela medalha de ouro, conquistada com muito trabalho, mesmo sem um apoio que hoje seria impensável não existir na Grã-Bretanha, foi a que fez com que os responsáveis iniciassem um programa que mudaria praticamente tudo no ciclismo britânico.

Nos anos seguintes a federação sofreu profundas remodelações, lutou por credibilidade de forma a garantir financiamentos e aumentou substancialmente o número de federados. Boardman tornar-se-ia uma das figuras das alterações implementadas, após terminar a carreira em 2000. Dave Brailsford seria outro dos rostos da mudança. O ciclismo britânico passaria a ser uma potência na pista e foi lá que nasceram algumas das estrelas que viriam depois a conquistar a estrada.

Mark Cavendish afirmou-se como um dos melhores sprinters da história, mas foi a chegada da Sky que abriria definitivamente o caminho do sucesso dos britânicos nas grandes voltas. Brailsford acreditava que poderia construir uma equipa forte, capaz de ganhar a Volta a França e de forma limpa. Estávamos numa fase de desconfiança, com Lance Armstrong sob suspeita, no que viria a ser confirmado como um dos maiores casos de doping organizado no ciclismo.

A Sky aproveitou o trabalho que era feito na pista e fez a passagem de ciclistas dessa vertente para a estrada, mas contratou Bradley Wiggins, um campeão olímpico na pista, já com experiência na estrada. Procurou ainda o melhor do talento estrangeiro, com uma capacidade económica que, com o passar dos anos, faz que só um não de um ciclista faça com que não contrate quem quer.

Na terceira temporada, a Sky conseguiu o seu Tour, Wiggins foi o primeiro britânico a ganhar uma grande volta e o ciclismo não mais foi o mesmo. A expressão "ganhos marginais" entrou definitivamente no léxico ciclístico e a forma dominante como encarava o Tour obrigou as restantes equipas a procurar tácticas que não têm tido muito efeito. Desde esse triunfo em 2012, só em 2014 a Sky não venceu o Tour, com Chris Froome a abandonar após queda.

Foi também em 2012 que Londres recebeu os Jogos Olímpicos e no contra-relógio todos olharam para Bradley Wiggins que cumpriu e ficou assim com ouro na pista e na estrada. A prova de fundo teve um percurso que beneficiava Mark Cavendish, mas Alexandre Vinokourov fugiu ao pelotão e o sprinter acabou até por nem terminar no pelotão. Ainda hoje é uma corrida recordada com alguma frustração, até pelo passado de doping do cazaque.

Os tentáculos da Sky foram crescendo para as outras grandes voltas e aos poucos também para as clássicas, com Wout Poels a ganhar uma Liège-Bastogne-Liège e Michal Kwiatkwoski a Milano-Sanremo. No entanto, neste tipo de corridas, ainda não apareceu a referência britânica e o no Giro e na Vuelta, Chris Froome venceu, mas a Sky não é aquela dominadora do Tour. Brailsford é tanto o mentor de um dos projectos de maior sucesso da modalidade, como um director envolto em desconfiança, mesmo que as suspeitas que surgem a acabarem por serem arquivadas, como aconteceu recentemente com Chris Froome e o caso do salbutamol ou o "pacote suspeito" de Bradley Wiggins.

Enquanto a Sky ia construindo o seu domínio, o trabalho na pista continuou, com a equipa a tentar não deixar escapar os talentos que vão surgindo. Os gémeos Yates contrariaram a tendência e disseram não à equipa. Assinaram por uma estrutura que então estava concentrada nos sprints e clássicas, mas que já tinha planos para ir mais além. Adam e Simon foram os eleitos para evoluírem dentro da então Orica-GreenEDGE (actual Mitchelton-Scott), para ali, numa equipa australiana, se tornarem uns vencedores em corridas de três semanas. Simon concretizou na Vuelta esse plano. Falta agora Adam confirmar as credenciais.

A tentação da Sky esteve sempre presente, mas os gémeos sabiam e sabem que uma mudança para a equipa britânica os atiraria para um plano diferente, numa hierarquia tão rígida que se viriam relegados a uma espera por liderança que não saberiam quanto tempo duraria. A performance no Giro, mesmo quebrando a três dias do fim e perdendo a camisola rosa para Froome, deixou a Sky (e não só) a olhar para Simon com uma vontade enorme de o contratar. Tanto ele como Adam disseram não a contratos milionários para frenovarem com quem sabem que lhes dá o estatuto máximo, ainda mais Simon que agora se tornou uma das figuras de um ciclo de ouro do ciclismo britânico.

De uma nação que não vencia grandes voltas, a Grã-Bretanha tornou-se na primeira a ganhar Giro, Tour e Vuelta no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Geraint Thomas conseguiu furar a hierarquia da Sky para vencer o Tour, sendo ele mais um medalhado olímpico na pista. A vitória de Simon Yates até pode abrir um novo capítulo na história de sucesso da Grã-Bretanha. Um capítulo em que os britânicos continuam a conquistar grandes triunfos sem ser preciso vestir o equipamento da Sky.

E tendo em conta que cada vez mais são aqueles que procuram outras equipas, até mesmo abandonando a Sky, significa que a equipa pode ser importante, mas mais ainda são  as bases criadas e que continuam a ser reforçadas. Mesmo com polémicas - suspeitas de doping, acusações de tratamento sexista - o programa britânico está a produzir campeões e campeãs ou potenciais campeões/campeãs.

Chris Froome foge à regra. É produto da estrada, queniano de nascimento e já considerado um dos melhores da história, com quatro Tours, um Giro e uma Vuelta (foi o primeiro britânico a ganhar estas duas corridas) e ainda não terá terminado. Froome é a excepção que confirma a regra.

»»A vitória da nova geração««

»»Thomas deixou cair a máscara num ano que se espera ser de mudança para o Tour««

»»A vitória mais bonita e brutal««

16 de setembro de 2018

As equipas uma a uma na Vuelta de Yates e da Mitchelton-Scott

Primeira vitória numa grande volta da Mitchelton-Scott
que se vestiu a rigor (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Chegou ao fim a última grande volta do ano. Para não variar, a Vuelta foi rica em emoção e espectáculo, principalmente na derradeira semana. Contudo, durante as três houve reviravoltas, surpresas, o inesperado fez parte da sua génese e é por isso que continua a ser aquela que acaba por ganhar no apreço dos adeptos. Simon Yates fez história ao ganhar a sua primeira corrida de três semanas, fechando um ciclo brilhante da Grã-Bretanha, pois nunca tinha acontecido um país ganhar as três grandes no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Como sempre, houve vencedores e derrotados. Houve quem cumprisse as expectativas, quem superasse, quem tem muito mudar. Três dos quatro portugueses chegaram ao fim e Madrid voltou a ser palco de uma despedida de um ciclista espanhol. Aqui fica uma análise equipa a equipa, com a ordem a ser definida pela classificação colectiva.

Movistar: Ganhou novamente por equipas, mas perdeu individualmente. Não deixa de ser irónico que estando em primeiro seja a maior derrotada da Vuelta. Assumiu que a corrida era para ganhar, depois de em 2017 não ter levado nenhum dos seus líderes e ter passado ao lado da prova caseira, algo estranho tendo em conta o patrocinador. Falhou no Tour e quis levar o tridente a Espanha, mas Mikel Landa lesionou-se. Ainda assim, era a equipa mais forte da Vuelta. Apostar novamente em mais do que um ciclista para a liderança correu mal. Nairo Quintana é uma sombra de si mesmo e Alejandro Valverde acabou por fraquejar nas duas etapas de montanha decisivas. Sonhou com a vitória e nem o pódio conseguiu segurar. A Movistar ganhou duas etapas e a classificação dos pontos por intermédio de Valverde e venceu colectivamente, o que para qualquer outra equipa (menos a Sky) seria excelente, mas para a formação espanhola é muito pouco. Há toda uma estratégia a repensar para 2019. Assim, com tantos galos para um poleiro, esta equipa não funciona. Uma palavra por Nelson Oliveira (71º, a 2:30:07). O ciclista português esteve bem. É um corredor com quem se pode contar estar sempre ao nível que os seus líderes precisam. Não foi por ele que a Movistar falhou. Nos contra-relógios foi quarto e sétimo, o que deixa as expectativas altas para os Mundiais.

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali confirmou desde cedo que não conseguiria lutar pela geral, depois da grave queda no Tour. No entanto, não foi à Vuelta apenas para ganhar ritmo ficando perdido no pelotão. Com o passar dos dias, o italiano começou a aparecer na frente do pelotão a trabalhar, foi para as fugas e quis mesmo ganhar uma etapa. Excelente atitude deste ciclista, ao contrário do que aconteceu com Richie Porte (BMC) que esteve em Espanha só a pensar nos Mundiais. A postura de Nibali foi o ponto positivo da Bahrain-Merida que viu Ion Izagirre ficar longe de disputar a geral, apesar da oportunidade para o fazer. O nono lugar a 11:09 é pouco para este ciclista e para a equipa.

Bora-Hansgrohe: Como equipa funcionou bem, mas não conseguiu selar um resultado de nota. Rafal Majka não veio à Vuelta para a vencer, mas foi activo na procura por uma etapa, deixando para Emanuel Buchmann a responsabilidade da geral. Com 25 anos, o alemão demonstrou que pode vir a ser uma aposta, mas terá de ser mais regular. Foi perdendo fôlego com o aproximar do fim e falhou o top dez, onde esteve bastante tempo. E depois há Peter Sagan. O que dizer de um ciclista que faz quatro segundos lugares e dois terceiros? Às vezes simplesmente não dá e a desejada última vitória com a camisola do arco-íris não foi alcançada. Aquela queda no Tour, ainda não o deixou recuperar por completo a forma e talvez já nem seja preciso fazê-lo este ano, já que os Mundiais não são para ele. Foi uma Vuelta dos "quase" para a equipa. Merecia um pouco mais.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Astana: Atacante, agressiva, sempre a acreditar que só se tentar é que se poderá alcançar o sucesso. É esta a mentalidade e, por isso, Miguel Ángel López encaixa na perfeição nesta estrutura. Dois terceiros lugares este ano em grandes voltas, ainda que Alexander Vinokourov não esconda que faltou a etapa na Vuelta. Mas foi uma boa corrida da equipa cazaque e do seu líder, que tem de melhorar no contra-relógio se quiser de facto ganhar uma grande volta. O director pode ter ficado furioso por Fabio Aru ter deixado a equipa no final de 2017 e não ter um substituto para o italiano. O que fica de 2018, do Giro e da Vuelta, é que a Astana tem o seu novo líder. Contratou os irmãos Izagirre para a próxima temporada, mas o futuro é López. Está aí um grande ciclista, de quem muito se espera. Estes pódios são só o início.

EF Education First-Drapac p/b Cannondale: Esperava-se um pouco mais de Rigoberto Urán, um dos muitos que chegou a Espanha depois do Tour ter corrido mal (abandonou após a etapa de Roubaix, devido a uma queda). Foi sétimo, a 6:07 minutos, o que é sempre positivo, mas o que a equipa americana mais agradece são as vitórias de Simon Clarke e Michael Woods. São agora seis os triunfos em 2018. Muito pouco, mas duas vitórias numa grande volta têm sempre peso e a formação bem precisava delas. Por isso, sai de Espanha com razões para celebrar, ainda que não muito dado o ano muito aquém do desejado.


(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Mitchelton-Scott: Venceu a Vuelta, foi inteligente na forma como controlou a corrida e como forçou a Movistar a desgastar-se em controlar algumas etapas. Não foi só Simon Yates que aprendeu a lição do Giro, foi toda a equipa. Jack Haig é um gregário que está entre os melhores da actualidade e pela primeira vez, a dupla Yates funcionou numa grande volta, com Adam a estar desaparecido durante duas semanas, para aparecer na terceira em grande forma. Foi um longo caminho de uma equipa que ao ser criada começou por apostar em clássicas e sprints, mas que pegou nuns jovens gémeos e formou-os, indo aos poucos construindo uma estrutura para as grandes voltas. Aí está a primeira vitória, que o director Matt White considerou ser um alívio. A Mitchelton-Scott vai continuar a sua transformação para as três semanas, ainda mais agora que tem de facto um ciclista capaz de ganhar um corrida destas, Simon, e outro, Adam, que pode seguir o mesmo caminho. A fasquia fica agora mais alta.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dimension Data: Que alívio foi para a equipa sul-africana esta Vuelta. Duas etapas ganhas por Ben King ajudaram a dar algum alento a uma formação com apenas sete vitórias. E há mais de um ano que não ganhava no World Tour. King salvou a Dimension Data de mais uma grande volta para esquecer, pois Louis Meintjes falhou novamente, tal como no Giro. Este regresso às origens não correu bem para o sul-africano. No final, um momento emotivo. No sábado ao finício da noite, Igor Antón anunciou que iria terminar a carreira quando cortasse a meta em Madrid. O espanhol, de 35 anos, venceu quatro etapas na Vuelta e uma no Giro, no total de 14 vitórias como profissional (a última foi em 2015, na Volta às Astúrias). Tal como Alberto Contador há um ano, Antón teve direito a uma ovação pelas ruas da capital, no adeus a um ciclista que foi um dos principais da Euskaltel-Euskadi, passou depois pela Movistar, antes de assinar pela Dimension Data.

AG2R: As equipas francesas estiveram em grande em Espanha. A AG2R não conseguiu liderar a Vuelta como a Groupama-FDJ e a Cofidis, mas alcançou duas vitórias de etapa por intermédio de Tony Gallopin e Alexandre Geniez. No entanto, ver Gallopin cair para fora do top dez (11º) na última etapa de montanha não deixou de ser uma desilusão para a equipa e principalmente para o ciclista, que está a tentar fazer a passagem para ser um voltista que lute por lugares cimeiros da geral. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a AG2R.

Sky: Vuelta falhada para a equipa que venceu quatro grandes voltas consecutivas. David de la Cruz teve a sua oportunidade, mas desde cedo mostrou que não estava à altura de lutar por uma vitória na geral. O espanhol poderá não ter outra tão cedo. Fez o Giro, mas foi dos poucos que apontou o seu pico de forma para a Vuelta e nem a vitória de etapa conseguiu. Michal Kwiatkowski andou de vermelho e até se pensou que poderia ser ele quem tentaria fazer o pleno para a Sky em 2017, depois de Chris Froome ver o Giro e Geraint Thomas o Tour. Mas a época vai longa e desgastante para o polaco, pelo que não foi uma surpresa quando quebrou. Porém, este ciclista sim, irá ter uma nova oportunidade para liderar a equipa numa grande volta. De Sérgio Henao também se esperava mais. Dos dois jovens, Tao Geoghegan Hart esteve bem, dentro do possível, já Pavel Sivakov não foi feliz e abandonou. Mas o objectivo de dar experiência a ambos foi alcançado. Era o que se pretendia. Soube a pouco esta Sky, que nem uma vitória de etapa, nem um top dez conseguiu. Coisa rara.

Euskadi-Murias: Gerou alguma desconfiança, pois estava longe de ter o melhor dos plantéis, tal como a Burgos-BH, mas a equipa basca foi, depois da Cofidis, a melhor entre as do segundo escalão. Pedia-se que se mostrasse, que lutasse, que estivesse em fugas, que fosse activa. Assim foi. Os seus corredores mostraram agressividade e não estavam a passar despercebidos até que Óscar Rodríguez conseguiu o impensável. Conquistou La Camperona, uma das subidas mais difíceis. A equipa teve uma cobertura mediática imensa devido à vitória e o País Basco volta a sonhar com uma estrutura de referência, com a Euskaltel-Euskadi ainda na memória de todos. Com uma etapa ganha, a Vuelta estava mais do que feita para uma equipa como esta, mas a Euskadi-Murias nunca baixou os braços até ao fim. Boa atitude de quem vai continuar neste escalão e já começa a pensar mais alto.

Lotto-Jumbo: Steven Kruikswijk poderia ter ficado numa situação delicada na equipa. Com Primoz Roglic a afirmar-se e com George Bennett a ameaçar fazer o mesmo, o holandês bem precisava de uma boa temporada. Quinto no Tour e quarto na Vuelta. Excelente. Porém, sai de Espanha desiludido, pois sente que deixou escapar o pódio, outra vez, tal como em 2016 no Giro, onde até esteve perto de ganhar. Faltou-lhe consistência na montanha, já que no contra-relógio esteve muito bem. Mas é um bom resultado para o holandês. Já Bennett desiludiu e se no Giro esteve menos mal, na Vuelta esperava bem mais. A equipa, no seu todo, deu mais uma demonstração como está a tornar-se numa de respeito, com destaque para um Sep Kuss, que aos 24 anos deixou uma excelente imagem de como trabalhar para o líder, na sua estreia numa grande volta.

Groupama-FDJ: Com tantos ciclistas a tentarem redimir-se na Vuelta de uma temporada menos conseguida, por terem ficado aquém no Giro ou no Tour, Thibaut Pinot foi dos que alcançou essa redenção. Duas vitórias de etapa - e entrou assim para a lista dos que venceram nas três grandes voltas - e depois de ter perdido tempo ao ficar cortado num abanico, acabou por conseguir reentrar no top dez e até foi subindo, com o sexto lugar a 5:57, a ser mais do que a certa altura pensou-se ser possível. Mas antes de Pinot ser a estrela, foi Rudy Molard o grande destaque. Quatro dias de camisola vermelha, alcançando algo que não tem sido comum nesta equipa: a liderança numa prova de três semanas. Vuelta para recordar de uma estrutura que para o ano irá apostar novamente tudo (ou quase) no Tour. Em casa, portanto.

Sunweb: A equipa foi cuidadosa com as expectativas criadas em redor de Wilco Kelderman. Há um ano esteve na luta pelo pódio, mas desta feita, uma queda pouco antes do Tour, tirou-o dessa corrida e o holandês não conseguiu recuperar até a uma forma ideal para repetir ou fazer melhor em Espanha. Ainda assim, num último fôlego nas derradeiras montanhas, Kelderman conseguiu fechar o top dez, a 11:11 de Yates. Perante a equipa presente e com o seu líder a não estar a 100%, não se poderia pedir muito mais a uma Sunweb que jogou forte no Giro e Tour e ainda não tem estrutura para estar em grande nas três grandes voltas. Mas para lá caminha.

Caja Rural: Apostou nas fugas, Lluís Mas foi um ciclista muito activo, mas a Caja Rural já teve Vueltas bem mais conseguidas. Os seus corredores costumam ser mais agressivos na procura por vitórias, que podem não conseguir, mas são normalmente mais ameaçadores. Esperava-se um pouco mais, pelo menos sendo um pouco mais competitiva. Foi uma pena Joaquim Silva ter ficado de fora das escolhas, depois de na Volta a Portugal ter sofrido com o calor, abandonando logo na primeira etapa em linha. Rafael Reis não foi escolhido para repetir a presença de 2017. Com mais duas equipas espanholas agora como Profissionais Continentais, a Caja Rural já tem termos de comparação e perdeu claramente para a Euskadi-Murias.


BMC: Foi um adeus positivo deste patrocinador às grandes voltas no que diz respeito às vitórias de etapas. Rohan Dennis venceu os dois contra-relógios - cuidado com o australiano para os Mundiais - e vestiu a camisola vermelha por um dia. Alessandro de Marchi conquistou também ele uma etapa. Porém, fica uma desilusão: Richie Porte. O ciclista bem avisou que não estava em condições físicas de lutar pela Vuelta depois da queda no Tour e não ajudou ter começado a corrida a recuperar de uma gastroenterite. Ainda assim, Porte poderia ter tentado um pouco mais do que uma fuga numa etapa plana! Ainda se viu uma ou outra vez, mas nada de nota. A equipa virou-se para Nicholas Roche, mas este é um ciclista que se vê o seu melhor quando faz de gregário e é por isso que irá apoiar Tom Dumoulin na Sunweb em 2019. Quanto a Richie Porte, pensar apenas nos Mundiais ficou-lhe mal, tendo em conta que caso vença, nem é pela equipa que agora representa - que terá um novo patrocinador, a CCC - que irá vestir a camisola do arco-íris. Tentar seriamente uma etapa ter-lhe-ia ficado bem, a exemplo do que fez Vincenzo Nibali.

Trek-Segafredo: Valeu Bauke Mollema. Numa altura em que já se vai falando da chegada de Richie Porte em 2019, o holandês pode não ter conseguido estar na luta pela geral, mas talvez tenha encontrado a melhor função para o futuro próximo, se não quiser ficar como gregário. Foi um dos melhores animadores desta Vuelta e por isso ganhou a distinção de mais combativo (bateu os espanhóis, o que não foi fácil, tendo em conta as votações durante as etapas). Foi duas vezes segundo em tiradas e foi segundo na classificação da montanha. Não ganhou, mas foi muito bom vê-lo ao ataque, à procura de um resultado. Porém, no geral, ficou novamente bem claro que esta Trek-Segafredo precisa de uma renovação, que já está a ser preparada para o próximo ano.

Quick-Step Floors: Quatro vitórias de etapas, três por Elia Viviani e uma por Enric Mas, segundo lugar na geral com o jovem ciclista espanhol. Mais uma excelente grande volta para a equipa belga, que não só saiu com os triunfos que sempre aposta, como teve o enorme bónus de ver Mas afirmar-se a este nível e logo com um pódio. Cinco triunfos no Giro, mais quatro no Tour, são 67 no total, com uma ajuda de Julian Alaphilippe que venceu a Volta à Grã-Bretanha e hoje à Eslováquia, enquanto decorreu a Vuelta. Que temporada impressionante!

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Lotto Soudal: Cumpriu quase todas as expectativas. Ganhou uma etapa por Jelle Wallays, teve Thomas de Gendt como um dos animadores da Vuelta, tornando-se no primeiro belga a vencer a classificação da montanha na grande volta espanhola. Só Tiesj Benoot acabou por ser uma pequena desilusão. O belga não escondeu que não estava completamente recuperado da queda no Tour, mas queria pelo menos lutar por uma etapa. Quase que deu para esquecer que estava na corrida. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a Lotto Soudal.

UAE Team Emirates: Fabio Aru falhou outra vez. Um ano para esquecer do italiano no primeiro em que representa esta equipa. Esteve mal no Giro, não esteve muito melhor na Vuelta, que pelo menos acabou. A frustração foi tal que ao sofrer uma queda devido a um problema na corrente, teve uma reacção tão agressiva que, mais tarde, acabou a pedir desculpa. Aru foi 23º, a 1:03:07 horas. Daniel Martin abandonou após o primeiro dia de descanso para juntar-se à mulher que estava em final de gravidez e fez falta a uma equipa que teve Sven Erik Bystrom a ficar perto de um triunfo que teria ajudado a amenizar mais uma desilusão com o líder Aru. Rui Costa ficou de fora das opções, o que não deixou de se estranho ao saber-se que Martin afinal poderia ir embora a qualquer momento.

Cofidis: A época foi conturbada com a relação fria entre Nacer Bouhanni e o novo director, Cédric Vasseur. O sprinter ficou de fora do Tour, mas na Vuelta picou o ponto com uma vitória de etapa, quebrando um jejum de quatro anos em corridas de três semanas. Luis Ángel Maté andou com a camisola da montanha boa parte da corrida - da segunda à 16ª etapa -, mas a alta montanha não é para ele e acabou por perder a classificação para Thomas de Gendt. Jesús Herrada foi líder durante dois dias, no ponto alto da Cofidis em Espanha. Excelente corrida da equipa que tinha desiludido no Tour, mas que na Vuelta foi uma das formações em destaque.

Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin deve sentir que é perseguido por azares. Mais uma vez, uma queda arruinou a corrida do russo, que acabou por tentar lutar por etapas, mas, apesar de entrar em fugas, nunca esteve perto de conseguir uma vitória. Mais uma grande volta que ficou muito aquém do desejado pela equipa liderada por José Azevedo. A figura foi mesmo Tiago Machado (79º, a 2:48:38 horas). Com Zakarin fora da disputa pela geral, o português recebeu luz verde para procurar um triunfo. Bem tentou ao entrar em fugas e merecia ter recebido pelo menos um prémio de mais combativo, mas a votação foi quase sempre a favor dos espanhóis. Boa corrida de Machado, numa altura em que ainda não se conhece o futuro do ciclista português. José Gonçalves abandonou na 13ª etapa, ele que esteve longe da forma do Giro, onde foi também a figura da equipa.

Burgos-BH: Apostou nas fugas e na experiência de José Mendes e Jetse Bol, contratado em Agosto à Manzana Postobón para reforçar a Burgos-BH a pensar na Vuelta. O português esteve mais activo do que o holandês, mas em geral a equipa mostrou que precisa de crescer para ambicionar ser algo mais do que uma camisola a mostrar, mas que desaparece quando as decisões das etapas se aproximam. Mendes teve uma temporada complicada, devido a uma queda na Clássica da Arrábida que o deixou fora de competição durante algum tempo. A época acabou por se centrar muito na Vuelta, mas também não foi feliz, com alguns azares pelo caminho, mas foi o melhor da equipa na geral: 83º, a 2:57:10 horas de Simon Yates. A queda grave de Jordi Simón, continua internado no hospital, acabou por marcar a corrida de uma das equipas espanholas que este ano subiu a Profissional Continental.

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»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

15 de setembro de 2018

A vitória da nova geração

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Alejandro Valverde é um senhor no ciclismo. Quando se pensava que já não voltaria a estar numa disputa por uma grande volta, eis que surge numa forma invejável, ainda mais tendo em conta a sua idade. Aos 38 anos, continua a ser dos ciclistas mais fiáveis que uma equipa pode ter. Porém, é humano como todos os outros e quebrou como tantas vezes se vê acontecer com os melhores. E nem é uma questão de idade. É uma questão de ser um atleta. Simon Yates que o diga. Há quatro meses viveu o mesmo pesadelo de ver escapar-lhe uma grande volta, ele que até era o líder. Num ponto a idade faz diferença: Valverde não sabe se terá mais oportunidades como esta Vuelta, Yates sabia após o Giro que tinha tempo para tentar de novo.

Em Espanha esperou-se pelo triunfo de uma das referências, mas o que aconteceu foi o aparecer da nova geração, com um espanhol entre um trio de enorme futuro, o que compensou de certa forma a desilusão de Valverde não vencer e nem no pódio terminar. E principalmente descansou os muitos que temiam que a sucessão de Alberto Contador, Purito Rodríguez ou Valverde não parecia estar à altura destes nomes.

Haverá muita reflexão a fazer na Movistar, mas o dia pertence a Simon Yates e Enric Mas. Domingo o britânico receberá a atenção completa, mas pelo que o jovem espanhol fez, tem de ser um dos destaques da última etapa de montanha e mesmo da Vuelta.

Começando ainda assim por Yates. À medida que a curta tirada de 97,3 quilómetros por Andorra - com cinco subidas e uma sexta de categoria especial - ia avançado, num ritmo não muito rápido, tornava-se claro que Yates continuava muito bem. A Mitchelton-Scott controlou o andamento durante uma primeira fase, mas rapidamente foi só o irmão Adam que ficou com Simon, principalmente quando a Astana começou a preparar a jogada de López. Chegou ter Adam e nem teve de trabalhar tanto como se esperava. A 17 quilómetros da meta, Simon, que já muito tinha analisado a concorrência, percebeu que era o momento de atacar. É assim que corre. A lição que ficou do Giro não foi esquecida e tornou Simon Yates mais forte, mais completo. Geriu o esforço de forma perfeita. O Giro tornou-o num voltista, a Vuelta transformou-o num vencedor e a partir de agora tem-se a certeza que pode ganhar uma grande volta e não vai demorar começar-se a falar quando irá atacar o Tour.

O camisola vermelha juntou-se na frente da corrida a Miguel Ángel López, que muito tentou mexer na corrida. Enric Mas completou um trio - Nairo Quintana também estava na frente, mas acabaria por ter de esperar por Valverde - e com os objectivos dos três a encaixarem na perfeição - um pouco à imagem do que aconteceu na sexta-feira, mas com Thibaut Pinot e Steven Kruijswijk -, colaboraram e concretizaram o que pretendiam. López e Mas sabiam que com Yates nesta forma não iriam surpreender com uma vitória na Vuelta, pelo que apontaram ao pódio e lutaram entre eles pela etapa. Desta vez López ficou em branco, mas subirá ao terceiro lugar do pódio em Madrid. Enric Mas venceu a sua primeira etapa numa grande volta e fez um segundo lugar completamente inesperado.

O espanhol da Quick-Step Floors tem 23 de anos de muito talento. Por esta altura em 2017 em Espanha lamentava-se o adeus de Alberto Contador, que não deixava um sucessor claro. O próprio tinha alertado para Mas, um ciclista que conhece bem, pois passou pela equipa da sua fundação. No ano passado pouco se viu de Mas na Vuelta, agora é a revelação. Talvez um pouco mais. Pode mesmo ser a confirmação que a nova geração espanhola está aí. O seu feito é ainda mais notável quando está numa equipa que pouco aponta às classificações gerais em grandes voltas, pelo que Mas teve pouca ajuda, mas foi suficiente, pois soube bem como colocar-se no pelotão e procurar os momentos certos para subir na classificação e agora ganhar a sua primeira etapa numa corrida de três semanas.

Confirmada também está que a nova geração do ciclismo nas grandes voltas vai começar a ocupar o seu lugar de destaque. O pódio desta Vuelta é do mais jovem que se tem visto em anos recentes. Yates tem 26 anos, López, 24. Olhando para os pódios nas últimas edições de Giro, Tour e Vuelta, há sempre pelo menos um ciclista de maior experiência num dos lugares.

Este trio vai agora entrar na fase de ter de mostrar que não é por acaso que alcançou o sucesso na Vuelta. No caso de López é o segundo terceiro lugar consecutivo, depois de o ter feito em Itália, em Maio. Fica-se à espera que melhore no contra-relógio para que possa ser uma ameaça maior para vencer uma grande volta. Mas que dá espectáculo, isso dá.

López, Yates e Mas são idênticos na forma como encaram as corridas. Arriscaram, procuraram o resultado e não ficaram tão à espera do que poderia acontecer. Resultou. O conservadorismo saiu derrotado na Vuelta.

Se a este trio juntarmos um Tom Dumoulin, Primoz Roglic (um pouco mais velho, 28 anos, mas agora a afirmar-se nas três semanas), a melhor versão de Fabio Aru (ainda não se perdeu a esperança que o italiano vai confirmar o que mostrou quando venceu a Vuelta há três anos). E claro, os jovens que tal como Enric Mas estão agora a aparecer: Egan Bernal, Richard Carapaz, Marc Soler, Sam Oomen (para já preso ao papel de gregário de Dumoulin)... Podemos respirar fundo, pois não vai faltar qualidade nos próximos anos. E ainda poderemos ter o bónus de muitos serem precisamente ciclistas de ataque, de gostarem de mexer com as corridas, de assumirem os riscos. São sempre características apreciadas e que proporcionam espectáculo. Só mais um nome: Adam Yates. Talvez ver o irmão ganhar, motive o gémeo a também atingir um potencial que demonstrou ter, tal como Simon, como sub-25.

Fica ainda a nota de como Simon Yates ajudou a fazer um pouco de história. Pela primeira vez uma nação venceu as três grandes voltas com diferentes ciclistas. É o poderio da Grã-Bretanha a afirmar-se: Chris Froome venceu o Giro, Geraint Thomas o Tour - ambos ciclistas da Sky - e agora Yates a Vuelta. E feitas as contas são cinco conquistas consecutivas para os britânicos, já que Froome venceu em França e em Espanha em 2017.

Os derrotados

Alejandro Valverde foi o maior derrotado, pois de sonhar com a segunda conquista da Vuelta, acaba no quinto lugar, a 4:28 minutos de Yates. Que quebra teve o espanhol nestes dois dias decisivos. Com Nairo Quintana a já ter falhado antes, a Movistar sai da Vuelta com praticamente todos os objectivos falhados. Valeram as duas etapas ganhas por Valverde.

Segue-se Steven Kruijswijk. O forma iô-iô do holandês da Lotto-Jumbo nesta Vuelta custou-lhe o pódio. Tanto mostrou-se forte, como quebrou no dia seguinte. Sai derrotado, mas de cabeça bem levantada, pois foi uma excelente temporada para Kruijswijk. Quando parecia que iria perder protagonismo para os dois ciclistas em ascensão dentro da equipa, George Bennett e Primoz Roglic, o holandês renasceu com um quinto lugar no Tour e agora um quarto na Vuelta.

Tony Gallopin (AG2R) e Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) viram o top dez escapar nesta última etapa de montanha. O francês tem uma etapa que faz com que a sua Vuelta seja sempre positiva. O alemão mostrou que a equipa pode trabalhar mais com ele para o tornar num voltista de qualidade, mas falhar o top dez vai deixar um sentimento de frustração.

21ª etapa: Alcorcón-Madrid, 100,9 quilómetros



Falta a consagração de Madrid, numa Vuelta marcada por reviravoltas, incertezas, jogos tácticos, ciclismo de ataque e com o melhor a ficar guardado para o fim, muito por culpa de Yates, Enric Mas e López. Há ainda um Thomas de Gendt (Lotto Soudal) que venceu a classificação da montanha e foi um constante animador das etapas, tal como Bauke Mollema (Trek-Segafredo), que pode não ser um ciclista para ganhar uma grande volta, mas este lado de lutar por etapas e pela montanha, poderá ser uma vertente a explorar agora que a equipa irá ter Richie Porte para a geral. A correr assim, talvez Mollema tenha mostrado que não merece ser reduzido apenas a gregário.

Alejandro Valverde lidera nos pontos, mas no combinado é Yates quem está em primeiro. A Movistar subirá ao pódio como melhor equipa. Se no Tour fizeram desta classificação um objectivo, agora o director desportivo Eusebio Unzué terá dificuldade em esconder que não serve sequer de consolação. Enric Mas é o melhor jovem, ainda que na Vuelta esta classificação não existe, com apenas um dorsal vermelho a identificar este ciclista. Mas fica a distinção.

Falta saber quem vencerá a última etapa. Elia Viviani procura a terceira vitória de etapa, com Peter Sagan desejoso de celebrar um último triunfo com a camisola do arco-íris. O eslovaco já soma três segundos lugares e dois terceiros nesta Vuelta.

Dos portugueses, Nelson Oliveira (Movistar, 71º a 2:29:30 horas), Tiago Machado (Katusha-Alpecin, 79º a 2:48:01) e José Mendes (Burgos-BH, 84º a 2:57:10) vão chegar a Madrid, salvo algum imprevisto. José Gonçalves (Katusha-Alpecin) abandonou na 13ª etapa.

Pode ver aqui as classificações completas.

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»»Ao ataque««

14 de setembro de 2018

Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Um senhor ciclista. Simon Yates olhou para o Giro e inverteu a sua táctica. Em três semanas é sempre importante não começar mal, não ter nenhuma grande quebra a meio, mas o essencial é mesmo acabar bem. Yates está a acabar muito, muito bem. Que ciclista emocionante de ver foi o britânico numa subida longa, em que até se esperava que pudessem ser feitas diferenças, mas poder ser a que decide a Vuelta, não estava nas expectativas... Mais um pormenor inesperado nesta corrida tão recheada deles. Não está ganha, mas o maior de inimigo de Yates é ele próprio quando faltam os 97,3 quilómetros mais esperados.

Não houve planos, nem pretensões de conseguir colocar a vantagem de 25 segundos em 1:38 minutos! Yates seguiu os instintos, pois este britânico não segue o exemplo calculista de um popular compatriota da Sky que tanto gosta de olhar para o potenciómetro, ele que pode suceder precisamente a Chris Froome no historial de vencedores da Vuelta. Yates está a afirmar o seu estilo, a sua forma de estar, a sua forma de não ficar à espera de ninguém e de tomar as rédeas do seu destino. Se se sente bem, ataca. Foi o que fez. Admitiu que foi o momento que lhe pareceu ideal para o tentar fazer. Ainda faltavam mais de nove quilómetros. Mas foi a altura mais do que certa.

Jack Haig tinha sido fenomenal quando Nairo Quintana atacou para preparar caminho para Alejandro Valverde, ou talvez ele próprio reentrar na luta pelo menos pelo pódio. Porém, foi o gregário de Yates quem preparou o melhor caminho para o seu líder e nem foi preciso Adam Yates entrar ao trabalho. Mais força fica para sábado. A Movistar saiu derrotada em todas as frentes. Tentou o abanico, Yates assustou-se, mas fechou o espaço.Na subida final, Quintana não só não conseguiu que o seu ataque abanasse Yates, como ainda viu o britânico apanhá-lo e quando foi ajudar Valverde, foi nessa altura que a diferença começou a aumentar para a frente da corrida. Nada correu bem a Quintana nesta Vuelta e nesta 19ª etapa até furou na última subida, só para completar a lista do que não correu bem ao colombiano.

Yates foi aquele ciclista que nas duas primeiras semanas de Giro não deu hipóteses. Na Vuelta deixou o melhor para o fim e se não falhar, se não tiver nenhuma quebra, nenhum azar, talvez desta vez o que parece ser pode mesmo realizar-se na Volta a Espanha: Yates vencer a sua primeira grande volta.

Não se pode dar mérito apenas ao britânico da Mitchelton-Scott. Os companheiros de ocasião foram essenciais para que a vantagem crescesse tanto. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) ajudou a pensar na vitória de etapa - a segunda ficou garantida para o francês - e para aproveitar subir na classificação. Passou de nono para sétimo. Mas foi Steven Kruijswijk o outro grande vencedor do dia.

Tinha-se aqui dito que o holandês precisava de se mostrar na alta montanha ao nível que tinha apresentado no contra-relógio. O holandês da Lotto-Jumbo fez isso mesmo e está novamente no pódio. Não foi quem mais ajudou Yates e até quebrou, mas o trio pegou nos seus interesses individuais e trabalhou em conjunto para os concretizar. Todos ficaram felizes no fim. Kruijswijk está a 1:58 de Yates e Valverde ficou à distância de 20 segundos.

Mau dia para os ciclistas espanhóis com Enric Mas (Quick-Step Floors) a não conseguir estar tão forte como em dias anteriores. Escapou-lhe o terceiro posto e a ambição de surpreender ainda mais fica agora para trás. Sábado irá à procura de um pódio que ficou a 17 segundos.

Se na 20ª e penúltima etapa já se esperavam ataques, perante as diferenças e sabendo que não haverá mais oportunidades, não há tempo para se ser conservador. Atacar é a solução, esperando Valverde sentir-se melhor, ele que mais uma vez não se deu com altitudes acima dos 1500 metros.

O pleno britânico nas grandes voltas está perto de se concretizar. Chris Froome, Geraint Thomas e agora Simon Yates poderá estrear-se, tal como Thomas, nestas vitórias. Tem apenas 26 anos e todo o trabalho da Mitchelton-Scott em criar um vencedor deste nível poderá finalmente concretizar-se.

No entanto, é necessária uma última demonstração de classe de um ciclista que este ano demonstrou tê-la em abundância e que depois de lhe ter faltado maior inteligência táctica e de gestão de esforço, em seis meses assimilou as lições do Giro para não repetir o desgosto. Talvez seja um dia em que possa tentar controlar um pouco mais os adversários, ser um pouco mais calculistas, ainda que para Yates a melhor defesa seja mesmo o ataque.

Faltam 97,3 quilómetros com uma segunda, três primeiras e uma terceira categoria antes da última rampa da Vuelta. Uma categoria especial para terminar, como só poderia ser numa corrida como esta Volta a Espanha. O pelotão arrancará de Andorra e o Coll de la Gallina definirá se Yates aguentará a última investida dos adversários - Valverde prometeu não atirar a toalha ao chão - ou se esta Vuelta tem uma derradeira surpresa para revelar.

Coll de la Gallina tem uma contagem de montanha de 3,5 quilómetros, mas a subida começa antes. Na fase final, serão rampas de 11%, 7% e 9%. Sendo uma etapa tão curta, será uma espécie de sprint para os trepadores. A etapa poderá ser vista na íntegra no Eurosport e a TVI24 também irá começar a sua transmissão mais cedo do que o habitual para que não se perca nada da muito aguardada etapa da Vuelta.


11 de setembro de 2018

Baralha e volta a dar. Afinal temos um sexteto

Yates aumentou vantagem para três rivais, mas tem agora mais dois
(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Nesta Vuelta o que parece ser, afinal não é bem assim. Têm-se visto algumas reviravoltas durante as primeiras duas semanas e o contra-relógio trouxe mais uma. É melhor não dizer que foi a última. Quando parecia que os Lagos de Covadonga tinham definido um quarteto, eis que Steven Kruijswijk reentra de rompante na luta pela geral e um Enric Mas não está para esperar mais tempo para se afirmar numa grande volta. O contra-relógio até pode ter alargado um pouco as diferenças a favor de Simon Yates relativamente aos três que começaram o dia como principais rivais, mas ter 1:34 minutos a separar o primeiro do sexto não dá qualquer garantia ao britânico, nem a ninguém que queira estar no pódio em Madrid, no domingo.

Yates foi o principal vencedor do dia, pois conseguiu ganhar vantagem sobre aqueles que eram os adversários até ao início desta terceira semana de competição: Alejandro Valverde, Nairo Quintana e Miguel Ángel López. Porém, Steven Kruijswijk partilha o destaque do dia e até roubou um pouco as atenções. Sabia-se que sabe defender-se no contra-relógio, mas o holandês do Lotto-Jumbo chegou a estar a voar na estrada. Aos 10 quilómetros, dos 32, estava mais rápido cinco segundos que o super especialista Rohan Dennis (BMC). Não aguentou o ritmo para ganhar a etapa, mas foi um contra-relógio fenomenal, daqueles que deixa um bocadinho a quem assiste de boca aberta. Saltou de quinto para terceiro e cortou a diferença de 1:29 minutos para 52 segundos. Agora é também ele um dos principais adversários de Yates.

Depois de ter estado tão bem no Tour, Kruijswijk está ainda melhor na Vuelta. O Giro que lhe escapou em 2016 irá sempre marcar a sua carreira, mas o holandês está a mostrar que afinal pode repetir a exibição e ambicionar de novo a uma grande vitória. Só falta saber se não pagará o esforço deste contra-relógio nas etapas de montanha que aí vêm, a primeira, já nesta quarta-feira.

Há mais uma preocupação para Yates e Kruijswijk tem ainda a vantagem de uma equipa que tem sido forte. Conta também com um jovem Sepp Kuss que tem sido o gregário que mais tem ajudado na montanha. Mas Simon Yates tem razões para sair de Torrelavega a sorrir. O trabalho feito nesta especialidade já tinha dado frutos no Giro e deu agora na Vuelta. Na disputa com Nairo Quintana (Movistar) e Miguel Ángel López (Astana), Yates saiu muito a ganhar: tem mais 42 segundos sobre Quintana (1:15 é agora a diferença, com o ciclista a cair para o quarto lugar) e 51 sobre López (1:34 no total, caiu para sexto). "Não estava preocupado porque melhorei no contra-relógio. Não ia estar à altura do Rohan Dennis, mas não tinha por que estar preocupado", disse Yates, cuja auto-confiança está claramente em alta.

E tem razões para isso. Se Valverde tivesse saído do contra-relógio com a camisola vermelha não teria sido uma surpresa. Na teoria era mais forte nesta especialidade entre o quarteto. Na prática perdeu sete segundos para Yates. Pode parecer pouco comparado com os casos de Quintana e López, mas numa Vuelta que ameaça ser decidida ao segundo, o conta-relógio poderá ter um peso importante nas contas finais.

Em suma, Yates esteve muito bem, Kruijswijk foi fenomenal, Valverde desiludiu, Quintana foi igual a si próprio e López tem de melhorar no contra-relógio com urgência. Não é fácil ganhar uma grande volta sem pelo menos defender-se nesta especialidade. O colombiano da Astana está longe de conseguir fazer uma defesa deste tipo. Pode ter deitado fora a oportunidade de chegar à vitória e talvez ao pódio. Mas é a Vuelta. Não há certezas.

Enric Mas merece um destaque à parte. Pé ante pé foi subindo na classificação, foi aparecendo entre os melhores e nos Lagos de Covadonga deixou a certeza que estava preparado para agarrar um top dez na sua segunda participação na Vuelta. São 23 anos de muito talento, com tanto para evoluir. Até Alberto Contador já se tinha rendido a este ciclista da Quick-Step Floors, tento ele próprio nomeado Mas como um provável sucessor de uma geração que já quase toda terminou a carreira. Está numa equipa que não aposta em vitórias na geral nas grandes voltas, mas aqui está ele para mostrar-se e para mostrar que na estrutura belga também se formam bons ciclistas para estas corridas, como Bob Jungels é também a prova.

Enric Mas fechou no top dez da etapa e entre o sexteto que se formou para a geral, só não bateu Kruijswijk. Recuperou 25 segundos para Yates e se 1:30 de desvantagem, mais a falta de experiência poderá ser um handicap para Mas, o pódio pode e deve tornar-se num objectivo. Já tinha animado a tirada nos Lagos de Covadonga e Mas tem tudo para ser um dos ciclistas que não dará sossego a ninguém. Temos voltista!

Thibaut Pinot ficou a 2:53 num contra-relógio pouco conseguido do francês que vê assim o pódio ficar mais como uma miragem. Do oitavo lugar para baixo são mais de três minutos de diferença para Yates. Pelo que tem acontecido na Vuelta, a racionalidade diz para se ter cuidado em excluir alguém, até porque, com os ataques esperados já a partir de amanhã poderão aparecer mais reviravoltas. Porém, Yates terá sempre mais atenção aos cinco que ficaram abaixo dos dois minutos após o contra-relógio. Tanta gente para controlar!

Na Movistar assume-se a derrota no dia, mas Valverde nem quer ouvir falar de Quintana estar fora da disputa. Em vez disso, avisa que os dois podem jogar em equipa no ataque a Yates. A ver vamos se haverá mesmo união em prol da Movistar. Mas que não se tenham dúvidas: para Simon Yates a melhor defesa será o ataque. Não vai ficar só a controlar.

Baralha e volta a dar. A ver vamos quem terá o ás que o levará à conquista da Vuelta, ou se haverá um joker que provoque uma derradeira reviravolta numa corrida que terá três dias de montanha emocionantes, com uma etapa de 97,3 quilómetros no sábado.

17ª etapa: Getxo - Balcón de Bizkaia, 157 quilómetros


Rohan Dennis andou a poupar-se nos últimos dias para ser avassalador no contra-relógio. Ganhou os dois nesta Vuelta, depois de vencer um no Giro e só não fez o pleno porque Tom Dumoulin (Sunweb), o campeão do mundo em título da especialidade, conquistou o que abriu a Volta a Itália. A missão do australiano ficou cumprida em Espanha e agora vai directamente para a preparação dos Mundiais, abandonando a Vuelta. O companheiro da BMC, Joey Rosskopf, foi quem mais se aproximou de Dennis. Mas o campeão americano da especialidade ficou a 50 segundos!

Nelson Oliveira ficou novamente entre os melhores, fechando com o sétimo melhor tempo, a 1:05 de Dennis. O ciclista da Movistar teve a "desvantagem" de estar a trabalhar arduamente para Quintana e Valverde, pelo que o desgaste teve o seu peso no que, ainda assim, foi mais um motivador resultado para quem também tem os Mundiais em mente. Tiago Machado (Katusha-Alpecin) ficou a 3:14 do vencedor e José Mendes (Burgos-BH) a 4:51.

Pode ver aqui as classificações completas.

Esta quarta-feira a etapa será de enorme desgaste e com muita montanha para atacar. É o dia típico das mais recentes edições da Vuelta. O percurso convida que se mexa na corrida ainda antes do muro final. Oo Alto del Balcón de Bizkaia será uma chegada inédita. Nos 7,3 quilómetros de subida, a meio do terceiro e quase até ao final do sexto, a pendente começa nos 12% e acaba quase nos 24% (gráfico em baixo).



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9 de setembro de 2018

Yates, López e Valverde atacam. Quintana mantém conservadorismo que só lhe custa segundos

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Na Volta a Itália, Simon Yates mostrou-se sempre muito preocupado em ganhar tempo para melhor se defender no contra-relógio que estava agendado, tal como na Vuelta, para o primeiro dia da última semana da corrida. Claro que ter um especialista com Tom Dumoulin e também Chris Froome contribuiu para essa obsessão. Pagou caro esse esforço dias depois. Na Vuelta, Yates preocupou-se em controlar os adversários, que já não restam dúvidas serem principalmente três: a dupla da Movistar, Nairo Quintana e Alejandro Valverde, e Miguel Ángel López (Astana). Sem abusar no desgaste físico tentou ganhar uns segundos. Esta Vuelta não está a ser de minutos, é mesmo ao segundo que se fazem as contas e só uma quebra ou um contra-relógio muito mau de alguém mudará esse factor. Yates está forte e mais inteligente no aspecto táctico (aprendeu a lição do Giro), mas a declaração de intenções da Astana mete respeito, que Quintana vai perdendo com a sua frustrante atitude conservadora.

Os Lagos de Covadonga definiram o quarteto que, não havendo surpresas de maior - o que é sempre bem possível na Vuelta -, irá então discutir a geral. Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo) está a 1:29 minutos e Enric Mas (Quick-Step Floors) - que grande corrida está o jovem espanhol a realizar - a 1:55, mas o quarteto está forte e um pouco acima no nível de forma destes dois ciclistas. Pelo menos, no encerrar desta segunda semana.

A declaração de intenções da Astana foi muito interessante. Não se meteu em discussões entre Mitchelton-Scott e Movistar. Quando quis assumir a corrida, foi para a frente do pelotão. A afirmação era clara: estão ali para lutar pela Vuelta e queriam ganhar a etapa com López. Thibaut Pinot estragou esta parte dos planos, mas o colombiano animou e bem a mítica subida espanhola de 11 quilómetros, com muitos metros acima dos 10% e com uns  metros a 20% à espera dos ciclistas já perto do final. López atacou, foi apanhado, controlou, voltou a atacar... Este colombiano entusiasma e este ano está mesmo na disputa pela Vuelta, depois de duas vitórias de etapa em 2017, que aconteceram quando a geral estava fora de questão.

López foi quem acabou o dia melhor. Conseguiu ganhar uma pequena vantagem para ser segundo, o que lhe deu automaticamente seis segundos de bonificação. Na estada ganhou mais quatro a Valverde e seis a Quintana. Só Yates minimizou as perdas, pois também bonificou (quatro segundos), ganhando vantagem sobre a dupla da Movistar. López está a 43 segundos do britânico, Quintana a 33 e Valverde a 26.

Miguel Ángel López e Simon Yates, dois ciclistas que dão espectáculo e que para ganhar a Vuelta, agem, não ficam à espera. Aqui entra Nairo Quintana. No sábado ainda tentou mexer um pouco na etapa, mas nos Lagos de Covadonga foi o ciclista que se tornou habitual em tempos recentes. Sempre conservador, sempre à espera de um momento ideal que parece nunca chegar. É quase irritante ver um ciclista com a qualidade de Quintana ficar a olhar tanto para os adversários, quando demonstra que pode fazer mais. Não foi um Quintana conservador que ganhou o Giro e a Vuelta. Nesta última, foi precisamente uma vitória nos Lagos de Covadonga que o lançou para o triunfo na geral em 2016.

Não deixou de ser curioso como Yates protestou com Quintana por não ajudar na perseguição a López, isto vindo de um ciclista, cuja equipa não quis nem assumir, nem ajudar a Movistar no controlo do pelotão há uns dias. E não deixa de ser ainda mais curioso como Quintana não tenta fazer mais, mesmo indo perdendo valiosos segundos quase todos os dias.

O colombiano pediu ajuda a Valverde. Este quase deitou muito a perder ao atacar e depois ao não conseguir aguentar o contra-ataque de Yates. Lá recuperou, mas admitiu que precisou de respirar quando o colega lhe pediu ajuda. Valverde acabou à frente de Quintana e não esconde que também estava preocupado em não perder tempo. Com o aproximar das decisões finais e com um Valverde em condições normais a ganhar tempo a Quintana no contra-relógio, haverá mais uma rivalidade do que propriamente jogo de equipa. Será ainda mais difícil para o colombiano se Valverde vestir a camisola vermelha no contra-relógio. Do quarteto é o mais forte nesta especialidade e 26 segundos estão absolutamente ao seu alcance, apesar de Yates ter melhorado bastante no esforço individual.

Foi um dia de espectáculo e a emoção está finalmente a aumentar nesta Vuelta, que tem ainda mais três etapas de montanha, sendo no sábado a de apenas 97,5 quilómetros. Mais uma vez, o tempo e a montanha escasseiam para um Quintana que terá de deixar o conservadorismo se quiser ganhar a Vuelta. Se quiser ganhar mais uma grande volta, seja ela qual for.

Pinot fez o pleno

Era uma vitória que o francês bem estava a precisar. Depois de quebrar no final do Giro e devido a uma pneumonia nem terminar a corrida, ficou ainda afastado do Tour, pois a recuperação foi longa. A vitória na Volta aos Alpes criou boas expectativas, não confirmadas, mas Pinot reagiu nesta Vuelta. Chegou a Espanha a falar em ganhar etapas, mas só não está mais próximo na luta pela geral porque foi apanhado num "abanico". Mas aqui está a vitória desejada, aquela que lhe permite fazer o pleno: venceu nas três grandes voltas.

Pinot disse que triunfou no Alpe d'Huez espanhol, numa referência à sua última conquista no Tour, em 2015. Foi um ataque perfeito que soube explorar a fase em que o quarteto da geral estava preocupado consigo próprio, não esquecendo que por ali estava um Steven Kruijswijk que nunca se sabe quando pode tirar um coelho da cartola e um Enric Mas que vai finalmente conquistar o apreço dos espanhóis que tanto medo têm de não terem sucessores à altura de Alberto Contador, 'Purito' Rodríguez e Valverde, este último o único ainda em actividade. Aqui está mais um mais que provável sucessor, com uma grande margem de progressão, tal como Marc Soler (Movistar), por exemplo, que não está na Vuelta.

Quanto a Pinot, só ganhou 28 segundos aos candidatos, mas com a restante concorrência a entrar a mais de minuto meio - com excepção de Rigoberto Uran (EF Education First-Cannondale-Drapac) - o francês saltou quatro lugares, sendo agora sétimo, a 2:10 de Yates. Se mantiver a forma, não só segura o top dez, como ainda poderá subir um pouco mais.

A saga francesa na Vuelta continua, a Groupama-FDJ já tinha tido Rudy Molard como líder e agora tem a sua etapa, à imagem da Cofidis. A AG2R vai com duas tiradas ganhas.

Pode ver aqui as classificações completas.

16ª etapa: Santillana del Mar - Torrelavega (contra-relógio), 32 quilómetros



Numa corrida com segundos a separar os candidatos, estes 32 quilómetros podem mesmo ter um grande peso na decisão final. É Valverde quem, em teoria, parte em vantagem. Yates, López e Quintana estão longe de ser especialistas, mas é o britânico quem demonstrou que mais evoluiu nos últimos meses para melhor se defender. Segunda-feira é dia de descanso.

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8 de setembro de 2018

Yates o mesmo ciclista de Itália... mas numa versão melhorada

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dois dias antes de ceder a camisola vermelha a Jesús Herrada, Simon Yates tinha dito que tinha um plano para esta Vuelta. Qual? Não o quis desvendar, obviamente, mas não foi difícil perceber os primeiros pontos que faziam parte desse plano. Primeiro foi tentar passar a responsabilidade de controlo da corrida no pelotão à Movistar, o que gerou algum descontentamento de Alejandro Valverde e Nairo Quintana, os chefes-de-fila da equipa espanhola. Segundo foi deixar a liderança, de preferência para alguém que não fosse um grande risco no futuro. Herrada foi perfeito. Aos poucos Yates e a Mitchelton-Scott vão revelando como estão a querer ganhar a Volta a Espanha. Depois de deixar escapar o Giro em apenas uma etapa, depois de 18 de trabalho, 13 vestindo de rosa. Yates avisa que é o mesmo homem que se apresentou em Itália... mas numa versão melhorada.

Ganhou a etapa, recuperou a camisola vermelha e como que banalizou um Nairo Quintana de ataque, que acabou a lutar pela sobrevivência. Quando parecia que o colombiano preparava-se para assumir a Vuelta, como há muito não o faz numa grande volta, os seus ataques resultaram em nada. Chegou a ter cerca de 15 segundos de avanço, com apenas Miguel Ángel López (Astana) na sua roda. Yates limitou-se a esperar pelo momento certo, controlando também um Valverde que o britânico já percebeu pode ser o seu maior adversário (mas cuidado com López). Yates foi buscar a dupla da frente e quem o tentou seguir não conseguiu seguir na sua roda. As diferenças não foram muitas, é certo, mas aqueles sete segundos (mais os dez de bonificação) que o separaram de Quintana, por exemplo, são um golpe na confiança de um colombiano que esperava começar nestes três dias de montanha, antes do descanso, assumir-se como o grande líder. Se ainda não da Vuelta, pelo menos da Movistar.

Foi Valverde quem esteve melhor e ultrapassou o companheiro. Com o desaparecimento de Herrada da frente da geral, os homens da Movistar estão novamente em segundo e terceiro, com 20 e 25 segundos de diferença para Yates.

O britânico venceu com a autoridade que se viu no Giro. Porém, tem sido claro como está a dosear muito bem o seu esforço para evitar uma nova quebra, como aconteceu na 19ª etapa da Volta a Itália. "Sou o mesmo ciclista [do Giro], a mesma pessoa, tenho o mesmo nome, só mudei a minha preparação e melhorei. Cresci e evolui na minha forma", disse. Não quer ouvir falar de dominar a Vuelta, considerando que as curtas diferenças desmentem que isso possa estar a acontecer.

E tem razão. Apesar da etapa de hoje as diferenças terem começado a aumentar, muito por culpa daquela brutal última subida de quatro quilómetros, com pendentes a aproximarem-se (talvez mesmo a passarem) os 20%. Mas nada que não possa ser recuperado. Entre Yates e López (quarto) estão apenas 47 segundos. No top dez, só Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) está a mais de dois minutos (2:08). E há muita montanha pela frente nesta Vuelta.

Simon Yates afirmou que agora quer estar de vermelho e vai já assumir-se como líder nos Lagos de Covadonga, uma subida que tem tido influência no resultado final da corrida em edições passadas. Quintana venceu lá em 2016, recuperando a liderança que tinha perdido no dia antes para David de la Cruz e nunca mais a perdeu. Estávamos na 10ª etapa, um pouco mais cedo do que na edição de 2018, que vai para a 15ª tirada.

Quintana tinha dito que uma nova Vuelta começava nestes três dias e aí está ela. Yates já avisou que a sua equipa está forte e que o irmão gémeo, Adam, vai aparecer na ajuda depois de duas semanas praticamente desaparecido no pelotão. A Mitchelton-Scott terá de controlar mais as etapas, ainda que a Movistar não está livre de ser obrigada a dar uma ajuda.

A emoção e o espectáculo da luta pela geral chegaram finalmente à Volta a Espanha. Não haverá muito tempo para respirar. Terça-feira é dia de contra-relógio e só na quinta o dia não tem montanha antes da chegada a Madrid. Começaram as decisões.

De salientar que normalmente fala-se de serem os sprinters que mais vencem nas grandes voltas e Elia Viviani é um bom exemplo disso. Soma seis etapas, quatro no Giro e duas na Vuelta. Porém, há um trepador também em destaque este ano. Yates vai em quatro, três em Itália e agora uma em Espanha, onde já tinha vencido em 2016.

O fim do conto de fadas de Herrada

Não houve qualquer surpresa, mas esperava-se um pouco mais de um ciclista que se quer assumir como líder de uma equipa numa grande volta. Jesús Herrada perdeu 9:16 minutos, pelo que o objectivo que tinha de ficar no top dez fica praticamente fora de questão, pois a partir de agora já ninguém vai deixar um ciclista galgar tantos lugares na geral rumo aos dez primeiros. O espanhol da Cofidis caiu para a 17ª posição, a 7:44 de Yates.

Aos 28 anos teve a oportunidade de se afirmar, mas mostrou que ainda há trabalho a fazer para que seja um ciclista que possa estar na luta por um lugar entre os melhores. Qualidade tem e talvez esta aventura de dois dias de vermelho lhe possa servir de motivação. Agora é altura da equipa concentrar-se totalmente em Luis Ángel Maté que está a ver a concorrência a aproximar-se. Thomas de Gendt (Lotto Soudal) já só está a dez pontos - curiosamente o belga até já ajudou o espanhol a pontuar numa etapa - e é muito melhor na alta montanha que Maté, tal como acontece como Ben King (Dimension Data, a 24 pontos) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo, a 30)

Pode ver aqui as classificações completas, com Valverde a consolidar a camisola verde e a Bahrain-Merida a segurar-se no primeiro lugar por equipas.

Van Baarle não resistiu às dores num dia mau para a Sky

Foi um dos ciclistas envolvido na queda provocada por um membro da organização após a meta na 12ª etapa. O holandês disputou a vitória nesse dia com Alexandre Geniez, com o francês da AG2R a levar a melhor. Pouco depois de terminarem a tirada, com a estrada estreita e com parte do espaço ocupado, como habitualmente, pelos repórteres fotográficos, os ciclistas não conseguiram evitar o choque com o homem que corria de costas para os atletas, numa tentativa de recuperar a sua posição, mas sem se aperceber que os corredores estavam mesmo ali.

Dylan van Baarle foi quem ficou mais mal tratado. Não sofreu fracturas, mas as dores não diminuíram, apesar de ontem ainda ter completado a etapa. "Dói só de andar e não faz sentido continuar nestas condições. É uma desilusão, mas tento não pensar muito nisso. Só quero concentrar-me na minha recuperação. Por sorte estou em boas mãos nesta equipa, que vão ajudar-me a recuperar rapidamente", afirmou o ciclista da Sky, que não partiu para a tirada deste sábado.

Apesar de ter Michal Kwiatkowski ao ataque, integrando a fuga do dia, foi uma etapa infeliz para a equipa britânica. Além de Van Baarle, perdeu ainda Pavel Sivakov. O russo abandonou, não tendo recuperado de uma queda há uns dias. Perdeu ainda qualquer possibilidade de disputar a vitória na Vuelta. David de la Cruz perdeu 4:55 minutos para Yates, estando agora a 6:57. Kwiatkwoski tentou recuperar tempo, mas acabou por juntar mais seis minutos a uma diferença que vai agora em 9:27.

15ª etapa: Ribera de Arriba - Lagos de Covadonga. Centenarios 2018, 178,2 quilómetros



Lagos de Covadonga é mais uma categoria especial a aparecer na Vuelta. É uma subida que agrada à maioria dos que estão a discutir a Vuelta, pois não é tão explosiva. É mais longa e constante. Tem 11,7 quilómetros, pendente média 7,2%, mas não seria Espanha se não tivesse um rampa brutal pelo caminho, com alguns metros a 20%. O último 1,5 quilómetro até tem uma zona de descida, mas até lá a pendente está muitos metros acima dos 10%, com apenas uma pequena zona de descanso.

Mas antes haverá uma terceira categoria logo a abrir o dia e duas primeiras categorias numa dupla passagem pelo Mirador del Fito.



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