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20 de abril de 2019

Será ano de tripla nas Ardenas? Alaphilippe é o candidato e tem a seu lado o último ciclista a alcançar o feito

(Fotografia: © Deceuninck-QuickStep)
É altura de deixar o pavé e atacar os muros das Ardenas. A famosa semana de clássicas começa com a Amstel Gold Race que, objectivamente, não fica nas Ardenas! Mas faz parte do trio de corridas que este ano tem Julian Alaphilippe como a grande figura. Em 2018 como que houve uma espécie de passagem de testemunho entre Alejandro Valverde e o francês. Perante a temporada que o ciclista da Deceuninck-QuickStep está a realizar, a questão é se vai conseguir fazer a tripla. O favoritismo é dele, mas a concorrência é grande, tanto em qualidade, como em número de adversários, neste último caso principalmente na Amstel Gold Race.

Apesar de esta ser uma semana que muito tem tido Valverde como figura, o espanhol nunca ganhou a Amstel. É rei na Flèche Wallonne: cinco vitórias, quatro consecutivas, com Alaphilippe a quebrar a senda no ano passado, mostrando que o Muro de Huy afinal não era o Muro Valverde. Ficou a sensação de uma passagem de testemunho... Na Liège-Bastogne-Liège, Valverde vai em quatro conquistas e no ano em que está de arco-íris vestido, o campeão do mundo não se importaria nada de juntar mais umas vitórias ao seu vasto currículo, a começar pela Amstel Gold Race. A época não tem sido pródiga em triunfos como no passado recente, mas ninguém coloca Valverde como carta fora do baralho.

Porém, é inevitável que Alaphilippe chegue às Ardenas como o grande favorito. É o ciclista mais em forma, com oito vitórias, tendo conquistado o seu primeiro monumento na Milano-Sanremo. Pensou-se que seria na Liège-Bastogne-Liége que abriria a contagem pessoal, mas o francês está feito num todo o terreno. No entanto, é este terreno, das próximas três corridas, que lhe assenta tão bem. Desde 2011 que ninguém faz a tripla e Alaphilippe pode pedir uns conselhos ao último autor da proeza: o companheiro de equipa, Philippe Gilbert. Claro que será de contar que o belga terá também alguns planos próprios, ainda mais com a motivação que traz ao ter ganho o Paris-Roubaix. E já se sabe, nesta Deceuninck-QuickStep há sempre mais do que uma opção, o que se tem revelado um formato de sucesso.

É já na Amstel Gold Race deste domingo que Alaphilippe poderá encontrar o maior entrave a fazer a tripla. É a corrida com um maior lote de candidatos, porque tendo alguns "berg" (os famosos muros), não são os que esperam ao pelotão nas duas corridas seguintes. Por isso, a prova holandesa seduz tanto ciclistas que apostam na fase do pavé, como os que têm as Ardenas como objectivo.

Peter Sagan (Bora-Hansgrohe), Wout van Aert (Jumbo-Visma), Oliver Naesen (AG2R) e Greg van Avermaet (CCC) são exemplo disso mesmo. Sagan - que em 2018 estreou-se na Amstel com um quarto lugar - vai fugir à regra e este ano irá estrear-se na Liège, enquanto os restantes terminarão esta fase da época na Amstel. E não, não nos estamos a esquecer de Mathieu van der Poel. O ciclista da Corendon-Circus é o único a conseguir ofuscar um pouco o estrelato de Alaphilippe e até bateu o francês no sprint da Brabantse Pijl, naquela que foi a primeira prova de 2019 que Alaphilippe não venceu. Até então tinha conquistado as duas clássicas em que tinha participado (Strade Bianche e Milano-Sanremo) e pelo menos uma tirada nas corridas por etapas.

Van der Poel tem, em cada corrida que se tem estreado este ano, deixado o seu impacto. Soma cinco vitórias e é um dos principais favoritos numa corrida que o pai, Adrie, ganhou em 1990. Para Mathieu a maior preocupação prende-se na distância, pois está pouco habituado a fazer provas acima dos 200 quilómetros. Mas o quarto lugar na Volta a Flandres mostrou que não é um problema de maior!

Todos os nomes até agora mencionados estão entre os candidatos, mas podemos juntar mais alguns há lista. A começar pelo vencedor de 2018: Michael Valgren. Não está a ser uma mudança nada feliz do dinamarquês para a Dimension Data, depois de um ano tão forte na Astana. Contudo, regressar a um palco de uma grande vitória poderá ser o tónico que precisa. A seu lado estará outro vencedor da Amstel: Enrico Gasparotto. Venceu em 2012 e 2016, sendo terceiro há um ano, ao serviço da Bahrain-Merida. Já tem 37 anos, mas as Ardenas traz sempre ao de cima o melhor deste italiano.

E é curioso como a Dimension Data contratou o pódio da Amstel de 2018, pois o segundo classificado foi Roman Kreuziger, que trocou a Mitchelton-Scott pela formação sul-americana. Boa equipa para a Amstel, a ver vamos se a equipa encontra o caminho de uma bem vitória bem necessária.

Precisamente na Mitchelton-Scott temos outro nome do pavé, Matteo Trentin, mas atenção a Michael Albasini e Daryl Impey. Alexey Lutsenko é uma das figuras de 2019 da Astana, que terá ainda Jakob Fulgsang e não será de esperar um Luis León Sánchez à espera de pedir licença para atacar. Depois de vencer a Volta a Flandres, Alberto Bettiol (EF Education-First) ganhou outro destaque, com Tim Wellens (Lotto Soudal) e Michael Matthews (Sunweb) a serem dos mais fortes candidatos. Michal Kwiatkowski (Sky) é outro homem a ter em conta e atenção a Dylan Teuns (Bahrain-Merida).

Entre os portugueses temos Rui Costa (UAE Team Emirates) que sempre gostou muito desta semana das Ardenas. A Katusha-Alpecin chamou Ruben Guerreiro para a Amstel, com José Gonçalves a ficar guardado para a Flèche Wallonne (quarta-feira) e Liège-Bastogne-Liège (domingo, dia 28).

O pelotão para as corridas belgas já terá algumas alterações, mas antes temos então a Amstel Gold Race, a corrida que tem à espera dos três primeiros umas cervejas para o brinde no pódio, não fosse o nome da prova o de uma cerveja!

É uma corrida que se tornou bem mais interessante desde que o seu percurso foi alterado, principalmente com a retirada do Cauberg como ponto de decisão. A tentação do pelotão era esperar por esta subida, o que retirava aos mais de 200 quilómetros anteriores um ponto de interesse. Depois do Cauberg há então ainda mais duas subidas: Geulhemmerberg e Bemeleberg. Antes de aqui se chegar, acaba por se verificar uma maior eliminação de ciclistas e o percurso pode proporcionar mais ataques. Serão 265,7 quilómetros, com partida em Maastricht e o final em Berg en Terblijt. O Eurosport 1 tem previsto o início da transmissão para as 14:15, depois da última etapa da Volta à Turquia.

Lista completa de inscritos, via ProCyclingStats.

(Gráfico: La Flamme Rouge)


22 de abril de 2018

Todos a olhar para Valverde e Alaphilippe e a Quick-Step ganhou com Bob Jungels

(Fotografia: Twitter Quick-Step Floors)
Se há algo que ficou bem claro nesta Liège-Bastogne-Liège é que esta Quick-Step Floors anda perto da perfeição como equipa e que o monumento mais antigo da história do ciclismo está desesperadamente a precisar de uma revitalização no seu percurso. Em 258 quilómetros apenas os últimos 30 serem de facto interessantes, é muito redutor  numa corrida desta magnitude. Valeu Bob Jungels que animou (e de que maneira) a fase decisiva, com a concorrência a marcar-se de tal maneira que as reacções acabaram por ser pouco assustadoras e bem controladas por um Julian Alaphilippe, que de principal candidato - a par de Alejandro Valverde - passou a um homem de trabalho, brilhante em "atrapalhar" a perseguição ao colega de equipa. A forma como o francês festejou ao cortar a meta e aquele abraço de Enric Mas a Jungels diz tudo: esta Quick-Step Floors é uma equipa por excelência. Quem não ganha festeja e emociona-se como se tivesse sido o vencedor.

Tantos perguntam se o ciclismo é um desporto colectivo. A Quick-Step Floors é um exemplo perfeito que sim. Ganha a individualidade, é certo, mas é o trabalho de todos que permite que nesta fase do ano já sejam 27 as vitórias, distribuídas por 12 ciclistas. E dois monumentos, nos quatro realizados (fica a faltar a Lombardia, a 13 de Outubro). Alaphilippe era o líder, ainda mais depois de ter ganho a Flèche Wallonne. Philippe Gilbert a outra carta a jogar (já venceu a Liège em 2011) e Bob Jungels acabava quase por ser um outsider. Mas nesta Quick-Step Floors, todos têm a sua oportunidade e um líder nunca é indiscutível. A corrida acaba por ditar quem vai lutar pelo triunfo.

Até foi Gilbert quem finalmente mexeu numa corrida até então a roçar um absoluto aborrecimento. Antes a subida que sempre marcou este monumento, La Redoute, passou-se sem história. Foi em Roche-aux-Faucons que as movimentações se tornaram decisivas. Bob Jungels colocou-se na frente e na descida ganhou vantagem sobre quem sobreviveu a estes ataques que partiram por completo um grupo que era então estranhamente grande.

Curiosamente, foi precisamente neste local que Andy Schleck atacou quando em 2009 venceu a Liège-Bastogne-Liège. Outro luxemburguês inscreve agora o seu nome na mítica corrida, que acabou por ter um final menos habitual comparativamente com os últimos anos, já que Jungels chegou isolado. Chegou a ter um minuto de vantagem, muito por culpa de atrás ninguém se entender e até deixarem Alaphilippe liderar o grupo e claro que o francês tirava sempre o pé do acelerador. Só por uma vez tentou ele próprio atacar, quando Jelle Vanendert (Lotto Soudal) chegou a reduzir a diferença para 20 segundos. Porém, o belga, que foi terceiro na Flèche Wallonne, quebrou e Alaphilippe abortou o seu ataque.

Jungels ficou mesmo com o monumento, com Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) - atenção ao canadiano para o Giro - e Romain Bardet (AG2R) a fechar o pódio. Boa época de clássicas para o francês, tanto no seu país, como em corridas mais importantes. Tinha terminado em segundo na Strade Bianche e no Tour du Finistère, sendo nono na Flèche Wallonne. No início da temporada venceu a clássica de l'Ardèche Rhône Crussol.

Pequeno pormenor: os quatro monumentos já realizados foram todos decididos por ataques a alguns quilómetros da meta. Foi assim na Milano-Sanremo, por Vincenzo Nibali, repetiu-se a história na Volta a Flandres com Niki Terpstra e Peter Sagan escapou ao grupo de favoritos no Paris-Roubaix, ainda que no final tenha sido obrigado a fazer um sprint com Silvan Dillier.

Regressando à Liège, Valverde procurava igualar Eddy Merckx com cinco vitórias, mas desta feita nem no top dez ficou (13º, a 51 segundos). Ainda tentou um ou outro ataque, mas no grupo simplesmente ninguém se entendia o suficiente para perseguir seriamente Jungels. Daniel Martin foi dos mais insatisfeitos. Depois de uma Flèche Wallonne em que ficou para trás, sendo uma enorme desilusão a forma que apresentou, o irlandês mostrou que teve um mau dia na quarta-feira e esteve muito activo na Liège. Um furo a oito quilómetros acabou com a sua corrida. Levou as mãos à cabeça e tinha razão para tal. Cortou a meta a 2:41 minutos (18º). 15 segundos depois chegou Rui Costa (22º). O português não conseguiu manter-se no grupo dos favoritos quando começaram as movimentações a 30 quilómetros do final. A UAE Team Emirates mostrou intenções ao liderar o pelotão durante muito tempo, mas no final saiu frustrada.

Domenico Pozzovivo veio de um segundo lugar na Volta aos Alpes para um quinto na Liège. Este italiano na Bahrain-Merida está a prometer para o Giro, tal como Davide Formolo (Bora-Hansgrohe), que foi sétimo. Tom Dumoulin (Sunweb) ainda tentou, mas claramente não se apresentava com o objectivo de vencer (15º). É difícil perceber como estará para o arranque da corrida que ganhou há um ano. E na perspectiva de quem foi à clássica a pensar um pouco na preparação para o Giro, Chris Froome terá gostado do que viu sobre Sergio Henao, mas já deve estar preocupado com o Wout Poels que teve uma semana das Ardenas para esquecer.

Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) era o outro português em prova, tendo abandonado. O mesmo sucedeu com Daniela Reis (Doltcini-Van Eyck Sport), na corrida feminina, ganha novamente por Anna van der Breggen. A semana das Ardenas pertence ao Women's World Tour desde o ano passado, quando o calendário começou, e a holandesa só falhou a vitória na última Amstel Gold Race, que, no entanto, foi ganha pela colega da Boels-Dolmans, Chantal Blaak.


Para Bob Jungels é a vitória mais importante da carreira. Porém, já venceu uma etapa no Giro no ano passado, em Bergamo, além de ter conquistado a classificação da juventude em 2016 e 2017. É quatro vezes campeão nacional de estrada e três de contra-relógio. A Quick-Step Floors vai apostar no ciclista de 25 anos no Tour, com o objectivo mínimo de o meter no top dez.

Mudança de percurso

Se tirar o muro de Huy da decisão da Flèche Wallonne poderia originar uma revolução, já tirar o final da Liège-Bastogne-Liège de Ans será uma mudança bem-vinda para a maioria. Desde 1992 que este monumento está preso a um percurso muito idêntico. As pequenas mudanças, como por exemplo este ano a subida de La Redoute surgiu um pouco mais afastada da meta, não têm oferecido um maior entusiasmo à corrida.

No próximo ano é possível que o final da La Doyenne regresse a algo mais tradicional antes de se fixar em Ans. A diferença é que será uma aproximação à meta em plano. A Liège-Bastogne-Liège irá assim chamar outro tipo de ciclistas, além dos trepadores. Nomes como Peter Sagan ou Greg van Avermaet podem muito bem colocar esta prova no seu calendário. As subidas ganharão outra importância. Favorecerá ataques daqueles que não quererão um sprint. Pelo menos na teoria, a Liège-Bastogne-Liège poderá tornar-se mais "movimentada".

Mas é só para 2019. Esta época terminaram as emoções fortes desta fase das clássicas. Agora é tempo de entrar definitivamente em contagem decrescente para o Giro, a primeira grande volta do ano, que começa dia 4 de Maio, em Jerusalém, Israel.





14 de abril de 2018

Valverde procura a vitória que lhe falta e Gilbert persegue um recorde

(Fotografia: Facebook Volta à Catalunha)
Respirámos fundo, recuperámos de um intenso Paris-Roubaix e de uma época de pavé com muito espectáculo e agora mergulhamos no mundo das Ardenas. Mudam a maioria dos protagonistas, mas prometem emoção e claro que as atenções vão centrar-se muito em Alejandro Valverde. O espanhol já tem sido a estrela desta semana de clássicas, que inclui a Amstel Gold Race, a Flèche Wallonne e a Liège-Bastogne-Liège, mas este ano está a reescrever uma página fantástica da sua já incrível história. E no dia 25 celebrará 38 anos.

A 1 de Julho temeu-se que a carreira de Valverde pudesse ter terminado, depois da grave queda no contra-relógio do Tour. O espanhol recuperou e regressou à sua senda vitoriosa: já são nove, contando com etapas, classificações gerais e montanha. Há algo que falta no seu currículo: a Amstel Gold Race. Tem cinco Flèche Wallonne e quatro Liège-Bastogne-Liège. Há três curiosidades que fazem com que Valverde vá receber muita atenção: será que vence finalmente a Amstel Gold Race; será que faz a tripla das Ardenas; será que bate o recorde de Eddy Merckx? Neste caso está a duas vitórias do belga na semana das Ardenas. Tem oito contra dez de Merckx, que venceu nas três corridas.

Mas fiquemos por agora pela competição que se realiza na Holanda. Há outro nome que procura uma marca história: Philippe Gilbert. O belga está a um triunfo de igualar o holandês Jan Raas, ou seja, cinco Amstel Gold Race. Não conseguiu o primeiro cinco do ano, isto é, ganhar a Milano-Sanremo e o Paris-Roubaix e assim ficar com os cinco monumentos, mas também admite não estar obcecado em ganhar este domingo. Aliás, avisa que a Quick-Step Floors tem outra arma a jogar: Julian Alaphilippe. Valverde tem andado a frustar o jovem belga nas outras duas corridas das Ardenas, mas já ficou mais do que claro que Alaphilippe é homem para se tornar numa figura destas clássicas na Holanda e Bélgica. E a equipa bem precisa de uma vitória, afinal há uma semana que não ganha!

Michal Kwiatkowski venceu em 2015 e foi segundo em 2017, atrás de Gilbert. O polaco da Sky já se tornou um candidato em praticamente todas as corridas em que participa. Porém, atenção. Mesmo muita atenção a Tim Wellens e Tiesj Benoot. Os dois ciclista da Lotto Soudal demonstraram na Brabantse Pijl que estão bem fisicamente. Primeiro e terceiro classificado. Estão entre os principais candidatos. E é melhor não desviar o olhar nem por instantes de Vincenzo Nibali. Ganhou a Milano-Sanremo e nem era um dos principais objectivos. Mas a semana das Ardenas é.

Peter Sagan está de regresso à Amstel Gold Race cinco anos depois. Chega à corrida confiante e com o pedregulho, troféu do Paris-Roubaix. Será a única corrida das Ardenas que fará, mas o eslovaco não sabe competir só para passear a sua camisola de campeão do mundo. E até tem um incentivo, pois uma vitória será uma bela forma de festejar a renovação de contrato do patrocinador Bora até 2021.

Dos homens que vêm da fase do pavé, é Greg van Avermaet quem estará mais pressionado. O belga da BMC está a zero e a temporada não tem estado a correr nada bem.

Atenção aos portugueses

Rui Costa tem esta semana como uma das suas preferidas do ano, tendo um especial apreço pela Liège-Bastogne-Liège, na qual já fez terceiro em 2016. A UAE Team Emirates levará também Daniel Martin e Diego Ulissi, mas será importante para o ciclista português obter um bom resultado, até porque tem uma posição a defender na estrutura, numa altura em que se continua sem saber que grandes volta ou grandes voltas irá fazer. Depois da queda no Paris-Nice, Rui Costa mostrou na Volta ao País Basco que estava a recuperar a boa forma.

Ruben Guerreiro também gosta destas corridas das Ardenas. Ele que foi terceiro na Liège-Bastogne-Liège em sub-23 há dois anos, em 2017 experimentou pela primeira vez na categoria de elite e ganhou experiência como pretendia a Trek-Segafredo. Este ano surge com um estatuto de maior relevo e o início de temporada tem sido bastante positivo, com aquele segundo lugar no Malhão a ser uma das suas grandes exibições. Terá Bauke Mollema como líder, mas o português poderá ter a sua oportunidade.

Pode ver aqui a lista de inscritos completa.

De referir que a semana das Ardenas também está no calendário World Tour feminino e Daniela Reis, da Doltcini-Van Eyck Sport, estará em prova na Amstel Gold Race.

O Cauberg tão longe



Serão 263 quilómetros entre Maastricht e Berg en Terblijt. O famoso Cauberg será passado três vezes, a última das quais a cerca de 20 quilómetros do fim. No entanto, o facto de já não ser o factor decisivo causa algumas dúvidas entre os ciclistas e alguns adeptos. Mas as corridas evoluem e não vão faltar motivos de interesse. E não será apenas o sobe e desce, os muros que farão a diferença. A organização irá colocar o pelotão a passar por estradas bem estreitas e já referiu que tal poderá fazer diferenças. Uma má colocação e a corrida pode ser perdida.




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23 de abril de 2017

Valverde e a quarta vitória na Liège-Bastogne-Liège: "Para ti, amigo Scarponi"

(Fotografia: Facebook Liège-Bastogne-Liège)
A exibição foi fenomenal, como Alejandro Valverde tem repetido este ano em quase todas as corridas em que participa. Porém, a maior emoção foi quando o espanhol quis dedicar a vitória ao amigo Scarponi e as lágrimas tomaram conta do momento. "Quero dedicar esta vitória ao Michele Scarponi e a toda a sua família. Era um grande amigo. Quando soube fiquei paralisado. Não conseguia acreditar..." As palavras emocionadas eram o reflexo de uma Liège-Bastogne-Liège que se desenrolou num ambiente de pesar que marcou um pelotão ainda incrédulo com a trágica morte do italiano no sábado, atropelado por uma carrinha durante um treino. Valverde queria muito ganhar, não apenas por estar nos seus genes, mas porque desejava oferecer o prémio monetário à mulher e aos dois filhos, gémeos, de Scarponi. No dia em que o espanhol acrescentou mais uma vitória que consagra-o cada vez mais como os um dos melhores de sempre, Valverde mostrou também o ser humano que é ao partilhar mais um feito com Scarponi e a família.

Scarponi esteve no pensamento de todos e antes do arranque, o minuto de silêncio foi o momento arrepiante de uma homenagem merecida. No entanto, havia um monumento para disputar, o quarto do ano. Depois de uma Flèche Wallonne algo previsível e que apenas foi interessante nos quilómetros finais, a Liège-Bastogne-Liège ofereceu um espectáculo bem mais ao nível do que se pede, ainda mais quando se trata de uma das cinco clássicas mais importantes do ciclismo (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Il Lombardia). Não é muito vulgar no ciclismo actual, mas a fuga, que incluiu Tiago Machado (Katusha-Alpecin), chegou a ter quase 15 minutos de avanço. No pelotão esperavam que fosse a Movistar a liderar a perseguição, mas durante muito tempo foi algo confuso o que se passava. Ninguém assumia mais do uns poucos quilómetros a frente do pelotão e até chegou a ver-se um ataque, sem grande sentido e que apenas serviu para o grupo da frente continuar a ter uma vantagem que a certa altura começou a parecer que iria chegar.

Tiago Machado foi extremamente activo. Talvez um pouco de mais. Desgastou-se e se tivesse chegado ao fim e falhado um pódio, por exemplo, se calhar estaríamos a falar de como o português talvez tivesse trabalhado mais do que os companheiros de ocasião, que deveria ter sido mais frio... Mas desta vez, aquele espírito de luta foi precisamente o que lhe valeu a esperança de alcançar um resultado histórico. Tentou e deu tudo o que tinha. Foi uma exibição à Tiago Machado. Não se tem visto muito destas conhecidas qualidades do ciclista português desde que foi para a Katusha-Alpecin, mas de vez em quando lá surge das sombras e faz-nos sonhar.

Quando o pelotão finalmente organizou-se, a fuga ficou mesmo condenada. Movistar, Quick-Step Floors e BMC a trabalharem juntas, não deram hipótese. Quanto a portugueses as atenções viravam-se para Rui Costa (UAE Team Emirates) - que tanto adora a Liège-Bastogne-Liège e há um ano esteve no pódio - e ia-se espreitando para ver se José Gonçalves (Katusha-Alpecin) ainda tinha alguma cartada para jogar.

No final, os previsíveis candidatos apresentaram as suas credenciais. Daniel Martin desferiu um ataque brutal. Parecia que era desta. O irlandês ganhou distância e a segunda vitória no monumento estava cada vez mais perto. Mas onde está Alejandro Valverde, nunca há triunfos antecipados. O espanhol colou-se e esperou um pouco. Martin já pouco mais tinha a dar e Valverde deu a machada final. Pela terceira vez conseguiu a dobradinha Liège/Flèche e está a apenas uma vitória de igualar Eddy Merckx nas clássicas conquistadas na semana das Ardenas, ainda que nunca tenha ganho a Amstel Gold Race.

Na terça-feira Valverde fará 37 anos. Tens muitas razões para celebrar, pois está a viver um dos melhores anos da sua carreira. A morte de Scarponi retira alguma da felicidade destes feitos sensacionais do espanhol, que não esquecerá como a sua quarta Liège-Bastogne-Liège teve um sabor tão agridoce.

Outro ciclista que está a fazer uma excelente temporada é Michal Kwiatkowski (Sky), que fechou na terceira posição. Rui Costa foi 14º, a dez segundos, depois de ter quebrado na subida final. José Gonçalves terminou na 51ª posição a um minuto, Tiago Machado na 64ª a 3:50, André Cardoso (Trek-Segafredo) na 69ª a 4:42 e Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) na 88ª a 7:40. Com o mesmo tempo ficou José Mendes (Bora-Hansgrohe), que terminou no 100º lugar. Nunca Portugal tinha tido tantos representantes na Liège-Bastogne-Liège.

Tradicionalmente diz-se que o monumento fecha a época das clássicas, ainda que mais vão realizar-se durante o ano. Desta vez até falta uma nesta fase do temporada, com a Eschborn-Frankfurt a fazer a estreia no calendário World Tour, no dia 1 de Maio. Porém, inevitavelmente, fechado este período sempre espectacular das clássicas do pavé e das Ardenas, é altura de começar a olhar para a Volta Itália, Volta a França e Espanha. Para já, que venha o Giro100.

Resultados da 103ª edição da Liège-Bastogne-Liège.

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Na corrida feminina, a holandesa Anna van der Breggen completou a tripla das Ardenas com a vitória na Liège-Bastogne-Liège, no primeiro ano em que as três clássicas fizeram parte do calendário World Tour das senhoras. E tal como na Amstel Gold Race e na Flèche Wallonne, na segunda posição ficou a companheira da Boels-Dolmans, Lizzie Deignan e a polaca Katarzyna Niewiadoma (WM3 Energie) fechou novamente o pódio. A portuguesa Daniela Reis (Lares-Waowdeals), terminou na 60ª posição, a 8:13 minutos. Veja aqui a classificação completa.

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17 de abril de 2017

Adeus tripla das Ardenas. Gilbert foi mais herói na Amstel do que se pensava, mas não compete mais esta semana

Gilbert disse adeus ao sonho de mais uma tripla na Ardenas
(Fotografia: Facebook Quick-Step Floors)
Por esta não se esperava. Tão rapidamente se falou de Philippe Gilbert apontar a repetir a tripla das Ardenas, que conseguiu em 2011, e agora comenta-se a infelicidade que atingiu o ciclista quando estava num fenomenal momento de forma. O belga teve de passar 24 horas no hospital após a vitória na Amstel Gold Race e vai falhar a Flèche Wallonne (quarta-feira) e a Liège-Bastogne-Liège. A notícia que Gilbert sofreu uma ruptura no rim numa queda a cerca de 130 quilómetros do final da Amstel Gold Race teve tanto de desilusão, como de transformar a vitória na clássica ainda mais heróica. O ciclista admitiu que não se sentiu bem após a queda, mas que foi melhorando com o passar do tempo. Melhorou de tal forma que quando chegou ao momento decisivo, teve um final explosivo para bater Michal Kwiatkowski (Sky) e assim garantir o quarto triunfo nesta corrida.

Nunca imaginou que o problema seria uma ruptura no rim, mas agora tenta aceitar que o seu regresso às vitórias vai ter uma paragem forçada. Gilbert espera recuperar a tempo de estar preparado para a Volta a Itália. "É triste não estar nas restantes corridas da semana porque estava numa grande forma, mas a nossa equipa é forte e estou confiante que outros bons resultados se seguirão", afirmou o ciclista, num comunicado divulgado pela Quick-Step Floors. Um voto de confiança que a formação bem espera que possa traduzir-se em mais sucessos. A verdade é que o afastamento de Gilbert é um rude golpe nessa confiança, pois para esta semana das Ardenas a equipa esperava ter um super trio constituído pelo belga, Julian Alaphilippe e Daniel Martin, contudo, agora vê-se reduzida a um ciclista. O francês foi excluído devido a um problema no joelho e é o irlandês quem terá de mostrar o seu melhor, ele que até já venceu uma Liège-Bastogne-Liége.

"Quando caí senti dores, mas quando voltei para a bicicleta e continuei a correr, as coisas foram melhorando e a dor desapareceu. Infelizmente, depois de terminar, as dores na zona lombar voltaram. Juntamente com o médico da equipa decidi ir ao hospital. Felizmente não é nada grave e se tudo correr bem, dentro de uma semana regresso aos treinos", explicou Philippe Gilbert. A desilusão é natural, mas o campeão belga tenta agora agarrar-se às excelentes semanas que viveu, depois de anos longe dos grandes momentos. "Está a ser um dos meus melhores anos e estou muito feliz com o que alcancei. Ser competitivo tanto nas clássicas do pavé como nas Ardenas e ajudar a equipa a ser a melhor do mundo, dá-me muita satisfação", salientou.

Aquela vitória épica na Volta a Flandres será para sempre um dos principais momentos da história da corrida e da carreira de Gilbert. Contudo, também a forma como conquistou a Amstel Gold Race será difícil de esquecer. Mas não há tempo para lamentos. Gilbert parte com ambição para a Volta a Itália, onde terá tanto um papel de ajuda aos líderes, seja Jungels na geral, como na preparação dos sprints para Gaviria, mas, naturalmente, que terá liberdade para também ele procurar vitórias, que nunca alcançou no Giro.

»»Bem-vindo Philippe Gilbert, novamente o ciclista das grandes vitórias««

»»Épico Gilbert reacende sonho dos cinco monumentos««

14 de abril de 2017

Ardenas e um aguardado embate Valverde vs Gilbert

Valverde e Gilbert estão em grande forma
(Fotografias: Facebook Movistar e Quick-Step Floors)

Reduzir os candidatos às três corridas da apelidada semana das Ardenas é claramente injusto, mas tendo em conta os resultados da primeira fase da temporada e o passado nestas provas, Alejandro Valverde e Philippe Gilbert serão dois dos principais ciclistas a ter em atenção e é esperado muito espectáculo de ambos. Estão em boa forma e gostam de atacar. Não se pode pedir mais. Porém, quando se olha para as listas de inscritos, fazer uma aposta na Amstel Gold Race, Flèche Wallonne e Liège-Bastogne-Liège - que será o quarto monumento do ano - não é missão nada fácil.

Na fase das clássicas do pavé também havia muitos candidatos, mas inevitavelmente as atenções centraram-se em Peter Sagan e Greg van Avermaet e o belga foi mesmo o rei dessas corridas, tendo perdido a Volta a Flandres para um renascido Philippe Gilbert. Avermaet vai à Amstel Gold Race e estando on fire em 2017, já tudo se espera do ciclista da BMC. Mas é em Gilbert que a Bélgica mais olha neste caso. Este é o terreno em que o corredor da Quick-Step Floors se notabilizou e em 2011 fez mesmo a tripla das Ardenas.

A lesão de Julian Alaphilippe dá uma liderança praticamente indiscutível a Gilbert para as três corridas. Daniel Martin é também uma forte possibilidade, até porque já conquistou uma Liège-Bastogne-Liège em 2013, mas perante o momento de forma de Gilbert, o belga será sempre o plano A. Na Amstel Gold Race (este domingo), o ciclista de 34 anos procurará a sua quarta vitória.

Valverde vai nos 36 e simplesmente parece cada vez melhor. A idade deu-lhe experiência e tendo em conta todas as características que o fazem temível em quase todos os terrenos, o espanhol é cada vez mais um exemplo perfeito do que é um ciclista completo. Longe estão cada vez mais os tempos em que corredores com as idades do espanhol e Gilbert já eram considerados velhos. Para estes dois ciclistas, nesta altura das suas carreiras, a idade não é mais do que um número. Gilbert teve uma travessia no deserto na BMC, Valverde viveu-a durante a sua suspensão por doping. Porém, quando regressou à competição continuou a construir um currículo que já ultrapassa cem vitórias e este ano já são 12, contando com etapas e classificações gerais, por pontos e montanha.

E o "Bala", como é conhecido, quer juntar mais uma, que será inédita. É que apesar das Ardenas ser uma semana que tanto gosta, nunca conquistou a Amstel, ao contrário da Flèche Wallonne (quatro, incluindo as últimas três edições) e da Liège-Bastogne-Liège (três).

Digamos que Valverde e Gilbert são como os cabeças de cartaz, num filme com muitos actores brilhantes. Michal Kwiatkowski (Sky) também regressou ao seu melhor este ano, tal como Gilbert, com a grande diferença de ter apenas 26 anos. Depois de mais de um ano longe do seu melhor, de uma assentada ganhou a Strade Bianche e a Milano-Sanremo, o seu primeiro monumento. Não esquecer que estamos a falar de um campeão do mundo (2014) e que em 2015 venceu a Amstel Gold Race. O polaco é tão favorito como Valverde e Gilbert.

Michael Matthews prometeu muito à Sunweb, que o contratou este ano, mas está com dificuldades em retribuir a confiança da equipa e em cumprir as promessas. Ele que costuma começar bem as temporadas (ainda que tenha tendência a arrancar mais tarde do que o normal), em 2017 só soma uma vitória e a Amstel e a Flèche Wallonne serão duas corridas muito importantes para o australiano, que não está escalado para a Liège-Bastogne-Liège.

Roman Kreuziger (Orica-Scott), Lars Boom (Lotto-Jumbo) e Jakob Fuglsang (Astana) são ciclistas a ter sempre em conta. Há ainda uma Lotto Soudal desesperada por salvar algo desta época de clássicas. Tim Wellens e Tiesj Benoot têm a responsabilidade de não só colocar a equipa na luta, mas de dar o tudo por tudo por uma desejada (e quase desesperada) vitória.

E atenção, mas mesmo muita atenção, a Rui Costa. O ciclista português esteve um mês afastado da competição depois de um início de ano fulgurante e regressa agora para a semana das Ardenas, com uma motivação renovada para conquistar o monumento que tanto ambiciona: a Liège-Bastogne-Liège. Em 2016 foi terceiro, após de um 10º lugar na Flèche Wallonne e um 17º na Amstel Gold Race. Depois da etapa rainha em San Juan e em Abu Dhabi, mais a geral na corrida do Médio Oriente, Rui Costa sonha com uma clássica, antes de fazer a sua estreia na Volta a Itália.

Há um ano Enrico Gasparotto surpreendeu ao vencer a Amstel Gold Race, então ao serviço da Wanty-Groupe Gobert. O triunfo chamou novamente a atenção para um ciclista há muito afastado da ribalta e o italiano até regressou em 2017 ao World Tour, ao assinar pela Bahrain-Merida. A formação do Médio Oriente conta ainda com um Sonny Colbrelli muito entusiasmado para continuar a mostrar que está preparado para se debater com os melhores, já contando com duas vitórias este ano, a última na clássica De Brabantse Pijl-La Flèche Brabançonne.

A Amstel Gold Race é a segunda corrida de um dia mais longa, 261 quilómetros entre Maastricht e Berg en Terblijt, depois da Milano-Sanremo. Serão 35 subidas para enfrentar, com a última, Bemelerberg, a cinco quilómetros da meta. O Cauberg não faltará e os ciclistas passarão por este muro três vezes.

Quarta-feira será dia de Flèche Wallonne (200,5 quilómetros) e no domingo, 23 de Abril, a Liège-Bastogne-Liège (258) fecha a semana das Ardenas.

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11 de abril de 2017

Aru cai numa descida e diz adeus ao Giro. Alaphilippe falha clássicas das Ardenas

Fabio Aru tinha o Giro como o principal objectivo para 2017 (Fotografia: Astana)
Costuma dizer-se que uma má notícia nunca vem só. Terminada a fase das clássicas do pavé, chega uma das semanas mais importantes do ciclismo, a das Ardenas, que antecede a primeira competição de três semanas do ano, a Volta a Itália. Julian Alaphilippe estava a realizar uma primeira fase de temporada excelente, mas a Volta ao País Basco dificilmente poderia ter sido mais aziaga para o francês da Quick-Step Floors. As Ardenas eram um dos seus principais objectivos do ano, mas um problema no joelho vai afastá-lo umas semanas da competição. Ainda mais desiludido deve estar Fabio Aru. A 100ª edição do Giro vai começar na sua terra, Sardenha, e o italiano não esconde a desilusão de falhar um ano tão especial da Volta a Itália.

Depois de em 2016 ter remetido Vincenzo Nibali para segundo plano na Astana, tornando-se a primeira escolha para liderar a equipa no Tour (depois de vencer a Vuelta em 2015), Aru não convenceu e este ano optou por regressar ao programa habitual, apontando ao Giro. O facto de ser a 100ª edição foi também um factor que pesou na decisão, ainda mais quando a organização homenageou os dois principais voltistas italianos ao colocar as suas terras no percurso da corrida. Não se pode dizer que Fabio Aru estivesse a realizar uma época muito convincente, mas as expectativas para o que o ciclista pudesse fazer no Giro eram altas. Aliás, a Volta a Itália era mesmo o grande objectivo da equipa cazaque para 2017.

O italiano, de 26 anos, caiu durante um treino na Serra Nevada, no dia 2 de Abril. Estava a 47 quilómetros/hora quando um pneu rebentou. Aru explicou que pouco antes tinha atingido os 70 quilómetros/hora e nem quer pensar no que poderia ter acontecido se tivesse caído nessa altura. Ainda assim, a lesão no joelho revelou ser grave. "Não consigo dobrar a perna esquerda. Não posso pedalar e não treino há nove dias. Preciso de um milagre. De momento dói só de subir umas escadas, de andar", explicou Aru à Gazzetta dello Sport. Quando falou com o jornal, a esperança de Aru ainda não tinha morrido, mas a Astana confirmou esta segunda-feira que o seu líder vai mesmo falhar a Volta a Itália, que começa dia 5 de Maio.

A grande desilusão de Aru vai tornar-se num momento importante para Michele Scarponi. Aos 37 anos, há muito que o veterano ciclista está afastado dos tempos em que era visto como candidato. Ainda assim, em 2016 esteve a bom nível tanto no Giro, como na Vuelta. Desde que deixou a Lampre no final de 2013 que Scarponi assumiu um papel de apoio a Nibali na Astana e depois também a Aru. Esta liderança da equipa poderá muito bem ser a última vez que a terá. Contudo, para o vencedor do Giro de 2011 - após a desqualificação de Alberto Contador -, será extremamente especial ser novamente um líder, tendo em conta que é a 100ª edição da sua competição favorita.

Poderá não ser um candidato à vitória, como seria Fabio Aru, mas é de esperar um Scarponi que procurará o seu momento de glória, muito provavelmente com a vitória numa etapa. Alexandre Vinokourov confirmou esta aposta no experiente ciclista e o director da Astana disse ainda que Jakob Fuglsang (32 anos) será o líder da equipa no Tour. As afirmações parecem indicar que Vinokourov não quer quebrar a promessa feita ao dinamarquês de ser o número um da Astana em França, o que poderá significar que Aru terá de se contentar com a Volta a Espanha.
(Fotografia: Facebook Julian Alaphilippe)

É também um joelho que vai afastar Julian Alaphilippe da semana das Ardenas. Nos últimos dois anos, o francês esteve muito bem nestas clássicas, com dois segundos lugares na Flèche Wallonne e outro na Liège-Bastogne-Liège. Curiosamente foi sempre batido por Alejandro Valverde. Os resultados dos primeiros meses da temporada foram muito animadores para o ciclista da Quick-Step Floors, com destaque para o quinto lugar no Paris-Nice - que chegou a liderar depois de uma excelente crono-escalada - e para o terceiro posto na Milano-Sanremo, este mais surpreendente tendo em conta que é uma corrida normalmente dominada por homens mais rápidos.

Alaphilippe queria aos 24 anos conquistar o seu primeiro monumento na Liège-Bastogne-Liège. "É um momento muito difícil para mim. Nos últimos dias não treinei na esperança que a dor desaparecesse, mas isso não aconteceu. Estou triste por falhar as clássicas da Ardenas, mas não há nada a fazer. No entanto, continuo motivado e espero regressar o mais rápido possível", explicou o francês.

Foi na Volta ao País Basco que tudo começou a correr mal. Na primeira etapa atacou e quando parecia que tinha tudo para concretizar uma fuga solitária nos derradeiros quilómetros furou e perdeu inclusivamente tempo na geral. Na terceira etapa caiu, ainda apareceu na quarta, mas tornou-se evidente que não estava bem e que o melhor era parar.

A Quick-Step Floors apostava forte em Alaphilippe para continuar a magnífica senda de vitórias  da equipa em 2017. Já são 23. Mas se a Astana ficou sem grandes opções para atacar o Giro, a formação belga tem Philippe Gilbert e Daniel Martin. Não será o desejado trio temível, mas mesmo sendo "apenas" um duo, a formação é uma forte candidata a conquistar mais vitórias na semana das Ardenas.

Quanto a Alaphilippe, resta-lhe recuperar e apesar de não estar estabelecida uma data de regresso, o francês tentará estar pronto para ir à Volta à Califórnia, competição que venceu no ano passado, com o próximo grande objectivo a ser a Volta a França.

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31 de março de 2017

O segredo do sucesso de Valverde aos 36 anos e o que seria se não fosse ciclista

(Fotografia: Facebook Movistar)
Os anos passam e as vitórias continuam a aparecer a bom ritmo para Alejandro Valverde. O ciclista espanhol é mesmo o caso que a idade é apenas um número porque no que diz respeito a rendimento, Valverde continua a estar ao melhor nível e em 2017 já conquistou a Volta a Múrcia, a Volta à Andaluzia (mais uma etapa) e a Volta à Catalunha (mais três etapas). E não se pense que está a pensar em abrandar. Já este sábado quer conquistar o Grande Prémio Miguel Indurain e a Volta ao País Basco é o objectivo seguinte, antes de partir para uma das suas semanas preferidas do ano: das Ardenas.

Com contrato até 2019, a confiança da Movistar em Valverde é exclusivamente para ser um líder. A manutenção do ciclista na equipa acontece porque dá garantias de triunfos e não já a pensar que o espanhol pode partilhar a sua experiência e ajudar os mais jovens, como por vezes acontece com corredores mais veteranos. Naturalmente que também o fará, mas Valverde ensina melhor ao mostrar como se conquistam vitórias e algumas em grande estilo. Perante tanto sucesso, apesar dos 36 anos (faz 37 a 25 de Abril), é normal que se coloque a pergunta de qual é o segredo do sucesso. Sim, parte da resposta acaba por ser o esperado: ter muito cuidado com a alimentação, treinos bem estruturados, saber quando descansar... "A diferença é que já fiz tudo no ciclismo e corro sem pressão. Tenho-a, mas compito com mais tranquilidade. Quero fazer as coisas bem e ganhar por mim, pela equipa e pelos adeptos, mas a pressão não é como antes. Corre-se melhor assim", explicou numa entrevista ao jornal espanhol Mundo Deportivo.

Valverde admitiu que ele próprio está surpreendido com a forma que apresenta actualmente: "As sensações são muito boas e estou muito bem. Não são piores do que noutros anos. Até me surpreende a mim mesmo." O espanhol alcançou este ano a fantástica marca de 100 primeiros lugares como profissional, aliás, já vai em 103. Referiu que agora dá muito importância aos pormenores, ao contrário do que acontecia na juventude e apesar de estar concentrado nas próximas corridas, é impossível não pensar na Volta a Espanha, onde deverá ser o líder da Movistar, com Nairo Quintana a estar no Giro e Tour. Porém, falta um triunfo no impressionante currículo de Valverde: um título mundial. "Sou quem tem mais medalhas, mas estou tranquilo. Há que estudar bem o percurso deste ano. Não vou ficar obcecado, mas oxalá consiga a medalha de ouro", afirmou.

Quanto a Quintana, Valverde garantiu estar motivado para voltar a trabalhar para o colombiano na Volta a França e realçou que o colega "tem um grande motor". "Ao Nairo não o assusta fazer o Giro e o Tour [no mesmo ano]", disse.

Para terminar, quando eventualmente decidir colocar um ponto final na carreira, Valverde assegurou que irá continuar a treinar e a desfrutar da bicicleta. Mas ainda surgiu a pergunta do que teria sido se não fosse ciclista: "Seria como o meu pai, camionista. Gosto muito de camiões, mas não tenho licença [para os conduzir]."



23 de abril de 2016

LBL: Uma aposta em Rui Costa

Alejandro Valverde é o grande favorito para a Liège - Bastogne - Liège (LBL) e depois da exibição na Flèche Wallonne, não se poderia esperar outra coisa. Mas no monumento que fecha a semana das Ardenas não faltará concorrência ao espanhol da Movistar e a meteorologia poderá ajudar a confundir ainda mais as contas. E esta é um corrida para Rui Costa, não surpreendendo que apareça como um dos outsiders. Perante a forma que apresentou na Amstel Gold Race (17º) e na Flèche Wallonne (10º), há que apostar no ciclista português para estar na luta pela vitória. Foi quarto no ano passado e em 2016, Rui Costa quer mais.

Esta é uma corrida de constante sobe e desce e com as previsões de temperaturas baixas (deverão rondar os sete a oito graus de máxima, menos em alguns locais), chuva e até neve, o cenário ameaça tornar-se um pouco caótico. Valverde sabe disso e, por isso, expressou a sua preocupação quanto às previsões meteorológicas. Preocupa-o mais do que propriamente a nova subida que poderá tornar ainda mais imprevisível o final. É que a três quilómetros do fim, os ciclistas terão de subir 600 metros com 10,5% de inclinação... em pavé. Esta dificuldade em Naniot será a décima do dia e ainda faltará o obstáculo final.




"É uma pequena alteração no percurso, mas que pode mesmo modificar o final [da corrida]", afirmou Jean-Michel Monin, responsável pela percurso da LBL, citado pelo site oficial da prova.

Valverde sem pressão

Já não bastava estar em grande forma, depois de fazer história na Flèche Wallonne - tornou-se no primeiro ciclista a vencer a corrida quatro vezes - Valverde não está pressionado a ganhar. E para ajudar há ainda motivação extra para conseguir a terceira "dobradinha", a segunda consecutiva (vencer a Flèche Wallonne e a LBL no mesmo ano). A única pressão que tem será eventualmente colocada por ele próprio.

A dupla dinâmica da Etixx-QuickStep

Daniel Martin e Julian Alaphilippe apresentam-se como os maiores adversários de Valverde. Foram os únicos que conseguiram atacar o espanhol no Muro de Huy, mas nem com jogo de equipa conseguiram derrotar Valverde. Lição aprendida?

Martin venceu esta corrida em 2013 e uma queda no ano seguinte retirou-lhe de forma dramática a hipótese que repetir o triunfo. Alaphilippe foi segundo no ano passado, tal como tinha sido na Flèche Wallonne, tal como na quarta-feira... sempre atrás de Valverde. E ainda há um factor importante: à Etixx, que já muito ganhou este ano (22), ainda lhe falta uma vitória numa das principais clássicas.

A muita concorrência

Simon Gerrans (Orica) é um dos homens que Valverde mais teme (o próprio espanhol colocou o australiano entre os seus principais adversários). Vencedor em 2014, começou o ano com uma vitória na geral do Tour Down Under (mais duas etapas) e na Europa também já alcançou alguns top dez. Mas esta é uma corrida perfeita para as suas características.

Vincenzo Nibali esteve longe do seu melhor no Giro del Trentino, mas o italiano da Astana tem a capacidade para recuperar rápido de maus momentos. E acrescentar mais um monumento ao seu currículo, depois da vitória na Volta à Lombardia - não esquecendo que já venceu as três grandes voltas - antes do Giro, seria perfeito. Ainda mais numa altura que perdeu protagonismo na equipa para Fabio Aru.

Apesar de Christopher Froome aparecer com o dorsal número um da Sky, o líder será Michal Kwiatkowski. Porém, a equipa britânica tem apostado forte para tentar ganhar o seu primeiro monumento, pelo que não só se pode esperar qualquer coisa de Froome, como Wout Poels é um nome a ter muito em conta.

Sem Philippe Gilbert, a BMC aposta em Richie Porte, com Alessandro De Marchi e Samuel Sánchez como alternativas viáveis. Robert Gesink (Lotto-Jumbo) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo) estarão na discussão, mas atenção a dois homens que gostam de atacar e sabem ganhar dessa forma: Roman Kreuziger (Tinkoff) e Stephen Cummings (Dimension Data).

Tony Gallopin (Louto Soudal), Warren Barguil (Giant), Tom-Jelte Slagter e Lawson Craddock (ambos da Cannondale), Enrico Gasparotto (Wanty) - vencedor da Amstel Gold Race - e Pieter Weening (Roompot) poderão constituir uma meia surpresa.

Falta ainda Joaquin Rodríguez. Talvez um favorito, talvez não. Depois de na Flèche Wallonne a Katusha ter trabalho para o seu líder e o espanhol ter falhado no Muro de Huy (depois de tentar atacar acabou em 28º), há uma incerteza quanto à forma como Rodríguez se irá apresentar. O português Tiago Machado voltará a estar ao lado de Purito.

E a aposta em Rui Costa

Numa corrida de eliminação a cada dificuldade que os ciclistas forem passando, uma das características que distingue Rui Costa poderá ser decisiva. A sua inteligência táctica, a forma como se coloca no pelotão poderão ter um papel muito importante no controlo aos mais que prováveis ataques, ainda mais se voltar a ficar sem apoio da equipa nos momentos decisivos E o próprio português poderá tentar fugir. Mesmo que tenha de ir ao sprint, já se sabe que Rui Costa não se intimida.

Esta é uma corrida que o português há muito ambiciona e que claramente preparou a pensar na vitória. E que bem ficaria um monumento ao lado do Campeonato do Mundo de 2013 e as três vitórias em etapas no Tour, não esquecendo os três triunfos na Volta à Suíça...

O irmão Mário Costa voltará a estar a seu lado. José Mendes (Bora-Aragon) fecha a participação de portugueses na LBL.


2016 Teaser (English) - Liège Bastogne Liège... por tourdefrance

21 de abril de 2016

Um pouco de história para Valverde

(Fotografia: Twitter @Movistar_Team)
Ataque, contra-ataque e mais uns ataques, mas no fim ganha Alejandro Valverde. Há três anos que é assim na Flèche Wallonne, onde o espanhol fez história: somou a quarta vitória, a terceira consecutiva depois da primeira em 2006. Feito inédito nesta clássica das Ardenas. O espanhol supera ciclistas como Eddy Merckx (1967, 70 e 72), Moreno Argentin (1990, 91 e 94), Marcel Kint (1943, 44 e 45 - a corrida foi das poucas que se realizou durante a II Guerra Mundial) e, mais recentemente, Davide Rebellin (2004, 07 e 09).

"A verdade é que isto é inacreditável. Estar na história da Flèche Wallonne é uma grande honra. Eu sabia que me sentia bem, mas as circunstâncias na corrida podem mudar rapidamente, por isso, estou muito satisfeito", salientou Valverde que fez algum bluff antes da prova ao afirmar que não estava a 100%. Ora se aquilo que demonstrou não é a 100%, então os adversários que tenham mesmo muito cuidado para a corrida de domingo.

Mas esta é uma daquelas vitórias que obrigatoriamente tem de se falar da equipa. A Movistar sabia que teria de assumir a responsabilidade da corrida. A equipa trabalhou e ainda foi tacticamente perfeita ao colocar, por exemplo, Izaguirre na frente quando Bob Jungels tentou fugir. A Katusha, que ia de forma ténue ia ajudando, teve de trabalhar mais para garantir que Joaquin Rodríguez podia estar na luta. Onde estava Valverde? A controlar. Confiança total na equipa e nas suas capacidades.

Como era de esperar, não houve fuga que triunfasse e o Muro de Huy voltaria a ser decisivo. Rodríguez foi a vítima da subida. Atacou, mas claudicou. Terminou em 28º a 29 segundos do vencedor. Valverde controlou a subida toda. Não se assustou quando dois homens da Etixx-QuickStep o rodearam. Daniel Martin atacou primeiro, abrindo caminho a Julian Alaphilippe. Valverde esperou e atacou a menos de 100 metros. Ninguém conseguiu responder.

Não foi por isso descabido que no final lhe tenham dito que o Muro de Huy deveria ser o Muro de Valverde. Timing, inteligência táctica e boa forma, claro. Assim se passa Huy. Assim faz Valverde.

"Planeámos a táctica para o Julian ficar na roda do Alejandro e batê-lo na meta, enquanto eu tentaria atacar um pouco mais cedo. Mas o Alejandro conhece a subida e leu a nossa táctica na perfeição. É difícil batê-lo", desabafou Daniel Martin (terceiro classificado). A Etixx-QuickStep acaba por ser, outra vez, a grande derrotada do dia. E a época das clássicas continua sem vitórias para a equipa belga. Porém, tem uma garantia: Alaphilippe repete o segundo lugar de 2015, mostrando que esta é uma corrida perfeita para as suas características e atenção ao francês na Liège - Bastogne - Liège de domingo... se Valverde deixar alguém mais brilhar.


Rui Costa no top dez

O ciclista português alcançou o seu melhor resultado na Flèche Wallonne. Entrou no Muro de Huy com o grupo principal, muito bem colocado. Não conseguiu ir com Valverde e os homens da Etixx, mas Rui Costa conseguiu terminar na décima posição, a cinco segundos do vencedor. Que venha a corrida de Liège, pois o português da Lampre mostrou tanto na Amstel como esta quarta-feira, estar num bom momento.

Neste top dez, destaque para Enrico Gasparotto. Depois de vencer a Amstel Gold Race, o italiano da Wanty voltou a estar na luta por uma vitória na semana das Ardenas. Foi quinto. Wout Poels continua a fazer uma excelente temporada. Com a retirada da prova de Sergio Henao - foram levantadas questões sobre o seu passaporte biológico e a Sky decidiu não colocar o seu ciclista na corrida, a exemplo do que aconteceu em 2014 numa situação idêntica - o holandês acabou por ser um plano B que a equipa sabe que pode confiar. Ficou no quarto lugar.

Uma palavra ainda para Samuel Sánchez. Aos 38 anos, o campeão olímpico de 2008 tem tido um Abril muito positivo. Terminou em sexto na Volta a Catalunha, onde venceu uma etapa, e agora foi novamente sexto. Com Philippe Gilbert limitado devido ao dedo fracturado, o espanhol aproveitou a oportunidade de ter maior liberdade na BMC.

Quanto aos restantes portugueses, Mário Costa (Lampre) terminou em 118º a 6:58 minutos e Tiago Machado (Katusha), que muito trabalhou para Rodríguez foi 101º a 5:11.

A semana das Ardenas aproxima-se do fim. Domingo é a vez da Liège - Bastogne - Liège. E a questão é simplesmente: conseguirá Valverde repetir a "dobradinha" de 2015?