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27 de julho de 2018

O renascer de uma equipa

(Fotografia: © ASO/Bruno Bade)
Estabilidade. Uma palavra-chave para o renascer de uma equipa que nos finais dos anos 90 e na primeira década do século era das mais forte do pelotão. A então Rabobank estava na luta pelas grandes corridas, com planteis fortes e durante quase duas décadas, o banco holandês foi um patrocinador importante, inclusivamente para o ciclismo feminino e de formação. Foi a este último que se agarrou quando em 2012 bateu com a porta à elite devido às alegações de doping. Foi um rombo numa estrutura que teve em Richard Plugge um director que se recusou a deixar cair a equipa. A reconstrução foi difícil e a incerteza foi muita, mas 2018 está a tornar-se no ano em que há certezas que a agora denominada Lotto-Jumbo começa a mostrar potencial para regressar ao topo.

Em 2016, Steven Kruijswijk quase conseguiu dar uma inesperada vitória numa grande volta. Uma queda e Vincenzo Nibali tiraram-lhe o Giro. Escapou um triunfo na geral de uma grande volta que não acontece desde que Denis Menchov ganhou a Vuelta e o Giro, em 2007 e 2009, respectivamente. Kruijswijk não mais conseguiu aparecer àquele nível. Neste Tour tem estado muito bem, mas ofuscado por um brilhante Primoz Roglic. O saltador de esqui que deu em ciclista e que em três grandes voltas, ganhou sempre uma etapa. E na primeira vez em que lhe é concedido o estatuto de líder, está a 31 quilómetros de um contra-relógio - no qual é especialista - de conseguir o pódio, provavelmente tirando o lugar ao quatro vezes vencedor da Volta a França, Chris Froome.

Quando há dois anos venceu o contra-relógio no Giro, foi uma espécie de "Primoz quê?" Roglic é agora um nome bem conhecido - ainda mais em Portugal, onde venceu a Volta ao Algarve em 2017 - e nesta Volta a França conquistou um estatuto no pelotão que ele muito trabalhou, mas que ainda estava rodeado de alguma desconfiança. A sua qualidade como ciclista de provas de uma semana estava mais do que confirmada. Só este ano venceu a Volta à Romandia, ao País Basco e da "sua" Eslovénia. Agora confirma que é também um corredor de 21 etapas.

Esta sexta-feira, numa tirada espectacular nos Pirenéus, Roglic - que fará 29 anos em Outubro - foi irrepreensível. Saltou para o terceiro lugar e o segundo está a 19 segundos. Se Tom Dumoulin (Sunweb) tem razões para se preocupar, já Geraint Thomas (Sky) só terá de ser igual a ele próprio e evitar azares. 2:24 minutos será uma distância demasiado grande para perder em 31 quilómetros, mesmo que se esteja perante o vice-campeão do mundo. Ao contrário do campeão Dumoulin, Roglic não fez o Giro. Uma segunda vitória de etapa não é de afastar, tal como passar o holandês.

Depois há um Dylan Groenewegen (25 anos), vencedor de duas etapas neste Tour e que em 2017 ganhou nos Campos Elísios. Cada vez mais é um dos melhores sprinters da actualidade e está também a fazer o trabalho para se tornar num homem de clássicas. Kruijswijk merece o mérito de ter sido essencial nesta reconstrução da equipa, ele que ficou na estrutura desde os tempos da Rabobank, mas são Roglic e Groenewegen os rostos de uma Lotto-Jumbo que nas próximas grandes voltas não será mais uma simples outsider.

Mas estes são os nomes que se consagraram no maior palco de ciclismo do mundo. Contudo, há ainda um muito talentoso George Bennett, cujo oitavo lugar no Giro pode não ter sido bem o que esperava, mas este australiano ainda tem algo mais para dar e conquistar. Aos 24 anos, Antwan Tolhoek é uma esperança holandesa a receber a formação numa equipa que está a produzir bons ciclistas.

A par de Kruijswijk há ainda um Jos van Emden, um Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink. Todos já com mais de 30 anos, todos do tempo da Rabobank e todos de confiança para o director Richard Plugge. Gesink não se tornou no voltista esperado, no entanto, o trabalho que hoje realizou para encurtar distâncias para o grupo de Mikel Landa (Movistar) e Romain Bardet (AG2R), explica porque o contrato foi renovado até 2021. Sozinho fez o trabalho de três ou quatro ciclistas da Sky! A vitória de Roglic na etapa também tem muito de Gesink.

Para o ano será apenas Jumbo, ainda  que não esteja excluída a entrada de outro patrocinador. A Lotto sai de cena, mas a cadeia de supermercados garantiu que a aposta será forte e até aumentada, comparativamente com este ano. É tempo de crescer. O passado está mesmo lá atrás. Longe vão os tempos em que a equipa foi apenas a Blanco, sem patrocinador. A Belkin apareceu para dar um primeiro empurrão rumo à reconstrução de uma estrutura que viu alguns dos seus principais ciclistas serem envolvidos em casos de doping, ou de não se livrarem de suspeitas.

Os actuais patrocinadores vincularam-se em 2015. Ano complicado, com apenas seis vitórias. Porém, aquela de Bert-Jan Lindeman na Vuelta serviu de mote para o recomeço de uma equipa que sabe vencer, mas que ainda lhe falta uma vitória na geral de um corrida de três semanas ou num momento, pois soma triunfos em praticamente todas as principais provas. Estará a aproximar-se?...

Etapa espectáculo

A subida ao mítico Tourmalet impulsionou o espectáculo a 100 quilómetros da meta, muito devido a Mikel Landa. Apenas com tudo a ganhar, o espanhol da Movistar cumpriu o prometido e atacou de longe, levando com ele Romain Bardet (AG2R), com Ilnur Zakarin a agarrar-se ao grupo depois da Katusha-Alpecin lhe ter preparado o terreno para tentar ganhar a etapa. Juntou-se ainda um Rafal Majka à procura dar mais uma vitória à Bora-Hansgrohe além das três de Peter Sagan, depois de ter desiludido na luta pela geral.

Primoz Roglic foi o mais espectacular de todos, num dia em que Chris Froome agarrou-se como pôde a Egan Bernal para tentar salvar um terceiro lugar, que, ainda assim, está agora a 13 segundos. Tom Dumoulin fez tudo para defender o seu segundo posto, mostrando que lutar pelo Tour é algo que estava além das suas capacidades. O preço do Giro está a ser pago, pelo que fez o que lhe competia, ainda que para isso tenha ajudado Geraint Thomas a ficar a 31 quilómetros de conquistar um Tour que ninguém, ou quase, acreditaria ser possível há três semanas. Se os três actuais ocupantes do pódio ali permanecerem, o Tour terá três estreantes nestas posições nesta corrida. Só Tom Dumoulin sabe o que é subir ao pódio de uma grande volta: ganhou o Giro em 2017.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




Landa subiu ao sexto lugar, enquanto o companheiro Nairo Quintana caiu de quarto para nono, depois de uma etapa dolorosa. O colombiano sofreu uma queda na quinta-feira e não escondeu o quanto o limitou fisicamente. Salva para a Movistar a vitória na etapa dos 65 quilómetros por parte de Quintana e a classificação de equipas. Zakarin é agora 10º à custa de um Jakob Fuglsang que deu certezas à Astana que tem de contratar um ciclista para as três semanas.

Faltam então 31 quilómetros entre Saint-Pée-sur-Nivelle e Espelette, num contra-relógio que de direito pouco tem. Geraint Thomas sabe o que é vencer estas etapas, começou por o fazer há um ano no Tour, por exemplo. 2:05 é uma margem que lhe dá alguma tranquilidade. Em condições normais, nem Dumoulin, nem Roglic e muito menos um Froome cansado, conseguirão tirar-lhe a amarela. Se nada de anormal acontecer, é ele que será a estrela no desfile de campeões em Paris. Mas festas só no fim, como reitera um Peter Sagan que está a sacrificar-se como nunca para acabar o Tour e confirmar a conquista da sexta camisola verde. Escapou à exclusão por chegar fora do tempo limite, mas as dores continuam depois da queda na quarta-feira.

Quem também estará no "desfile" será Julian Alaphilippe. Mais um francês a ganhar a camisola da montanha, sucedendo a Warren Barguil. O ciclista da Quick-Step Floors pode não ser um trepador puro, mas agora já se questiona se será esse o caminho que seguirá na sua evolução, podendo assim pensar em lutar pela geral no Tour. Ainda é cedo e Alaphilippe quer é saborear esta excelente conquista. Pierre Latour partirá para o contra-relógio com 5:47 minutos de vantagem sobre Egan Bernal, pelo que também só algo de muito mau irá tirar ao francês da AG2R a camisola branca da juventude.

Está quase a terminar um Tour dos mais interessantes dos últimos anos. O contra-relógio não deverá ser aquele dia tão decisivo como a organização poderia desejar, mas vamos esperar pelo fim dos 31 quilómetros, pois há uma longa lista de ciclistas que podem atestar que tudo pode acontecer nesta Volta a França, do primeiro ao último metro.

Pode ver aqui as classificações.


21 de julho de 2018

Thomas e Roglic começam a convencer

Roglic está na luta pelo pódio e talvez mais... (Fotografia: Twitter Lotto-Jumbo)
De Geraint Thomas já se sabe que é capaz de estar bem nas grandes voltas, mas como gregário. Como líder teve uma oportunidade e foi para casa mais cedo, ainda que não por culpa sua. Primoz Roglic chegou ao Tour para mostrar que está feito num voltista capaz mais do que um top dez. Ambos têm em comum serem dos melhores em provas por etapas de uma semana. Porém, partilham também a desconfiança se realmente têm capacidade para estar na luta por uma grande volta. Até ao momento, o Tour de 2018 está a ajudar a esclarecer estas dúvidas. A resposta é que temos ciclistas para a disputar a vitória. Pelo menos, para já.

A questão com corridas de três semanas é que é preciso estar bem durante os 21 dias. Há quase sempre um dia menos bom (um dia mau não é permitido a este nível) e como ainda faltam os Pirenéus, afirmar com toda certeza que Thomas e Roglic podem ganhar o Tour, pode ser cedo. Basta recordar o que aconteceu com Simon Yates no Giro. Parecia que estava mais do que encaminhado para uma vitória e depois lá veio aquele dia terrível de Bardonecchia (nem foi mau, foi mesmo um filme de terror, com quase 40 minutos perdidos). Se recuarmos a 2015 temos um Tom Dumoulin na Vuelta a também não aguentar quando as mais difíceis das subidas apareceram na última semana, no que foi um sinal que ainda havia muito a melhorar (e melhorou e bem!).

O que já ninguém lhes tira é que com a segunda semana a terminar, são duas das principais figuras da Volta a França. Geraint Thomas comprovou que não andou a falar de mais, quando se assumiu como co-líder e com condições de disputar o Tour. Não é só o estar de amarela que o demonstra (ainda que quase que seria suficiente), mas ganhou ainda as duas etapas com chegada em alta montanha e foi convincente nessas vitórias e também nas etapas seguintes, em que tem aproveitado para aumentar a vantagem, inclusivamente ao seu colega e líder número um da Sky, Chris Froome.

Thomas está a ser um senhor. Não mostra debilidades e se não fosse ter Froome como companheiro, estaria perto do topo nas apostas nesta fase. Com 1:39 minutos de vantagem - e se assim manter este domingo -, quando chegarem os Pirenéus, a Sky não irá pedir a Thomas para ajudar Froome se este tiver alguma dificuldade. Seria simplesmente mau de mais. O contrário também não acontecerá, certamente, não fosse Froome um vencedor de seis grandes voltas. Se Thomas mantiver o nível, então poderemos mesmo estar perante uma decisão que será feita no contra-relógio, no qual estará cada um por si.

Em final de contrato e com 32 anos, uma vitória seria brilhante, mas mesmo que se fique pelo pódio, ou na pior das hipóteses um top dez, pelo que fez até agora, Thomas ganhou poder de negociação. Se aguentar bem a última semana, o galês afastar qualquer desconfiança. É um voltista e se lhe deram condições, pode disputar uma grande volta. Mas vamos esperar pelos Pirenéus.

Quanto a Roglic (Lotto-Jumbo), este ano ganhou a Volta ao País Basco, Volta à Romandia e a "sua" corrida, Volta à Eslovénia. E não nos esquecemos como em 2017 foi primoroso na Volta ao Algarve. Para quem iniciou a carreira de ciclista apenas em 2013, a progressão é simplesmente fantástica. Este antigo saltador de esqui foi visto como talentoso e muito bom no contra-relógio. Chamou a atenção quando ganhou o contra-relógio no Giro, em 2016. Agora é um ciclista completo. Há imagem de um Tom Dumoulin, por exemplo, pode não ser exímio na montanha, como um Chris Froome ou um Alberto Contador (pode já se ter retirado, mas é inevitável ser um alvo de comparações), no entanto, Roglic faz-se valer das restantes características - como contra-relógista sabe também rolar bem -, para equilibrar as forças.

Quanto muito era visto como um outsider a um top dez neste Tour. Agora... tudo está diferente. O esloveno, de 28 anos, estava a fazer uma corrida até discreta, mas sempre bem colocado. Este sábado mostrou-se e ganhou uns segundos. Mais importante avisou que contem com ele para tentar surpreender e assim confirmar o que tem tentado convencer: está pronto para se tornar num voltista de respeito.

Tom Dumoulin (Sunweb) está a ser quem mais rivalidade impõe à Sky (1:50 de Thomas), mas a 2:38 da liderança, Roglic conquistou definitivamente a atenção dos adversários, até porque olhando para os quatro primeiros, uns são especialistas de contra-relógio - Dumoulin foi campeão do mundo, Roglic segundo, Froome terceiro - e Thomas também sabe o que é ganhar nesta especialidade. O esloveno está a tornar-se na outra dor de cabeça da Sky.

Que venham os Pirenéus para confirmar então Thomas e Roglic como voltistas para ganhar. Certo é que começaram a convencer, o que no caso de Thomas acontece um ano depois. Havemos sempre de ficar na dúvida o que teria acontecido se aquela moto da polícia não tivesse parado tão mal no Giro de 2017. Thomas foi forçado a abandonar. Faz parte do passado, agora é no Tour, no maior palco de todos que o galês se está a afirmar neste novo papel.

Omar Fraile dá vitória à Astana

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
A época está a ser de grande nível para a equipa cazaque. Já são 22 vitórias. Porém, não vencer no Giro foi um pouco frustrante e com um Jakob Fuglsang a não ser ciclista para ombrear com Froome, Thomas e Dumoulin, Fraile deu um triunfo muito desejado na Astana. Este é um espanhol que Rui Costa conhece bem, pois venceu no Giro, deixando o português em segundo, no ano passado.

É um ciclista (28 anos) de grande qualidade. A nível táctico é dos melhores que neste momento está no pelotão e demonstrou isso mesmo na etapa entre Saint-Paul-Trois-Châteaux e Mende (188 quilómetros). Numa daquelas tiradas em que houve duas corridas - a fuga para vencer a etapa e a do pelotão pela geral -, Fraile soube atacar no momento certo para apanhar Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) e depois não deixou Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) aproximar-se. E entretanto garantiu que Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não recuperaria para discutir a vitória. Foi, portanto, um ataque no timing perfeito e o controlo do desgaste físico ideal para conquistar a sua primeira vitória no Tour.

É mais um daqueles ciclistas completo e que a Astana quererá aproveitar, pois tem potencial para render grandes triunfos.

Na luta particular pela geral, Roglic ganhou sete segundos ao trio Thomas/Froome/Dumoulin, enquanto Nairo Quintana continua a fraquejar e perdeu mais dez segundos para os três primeiros. Mikel Landa perdeu 19. A Movistar quis tanto, mas está a ver tudo escapar-lhe a cada dia que passa. Romain Bardet (AG2R) perdeu 14. Começa a ficar muito difícil para até aspirar ao pódio. Será preciso mexer com a corrida nos Pirenéus, até porque os três vão perder ainda mais tempo no contra-relógio.



15ª etapa: Millau - Carcassonne, 181,5 quilómetros

É o último dia antes do descanso e dada as diferenças que superam os três minutos a partir do quinto classificado, Romain Bardet, deixar tudo para os Pirenéus poderá significar entregar o pódio a quem está lá agora, com Roglic ainda na luta. Esta é uma etapa que tem o nome de Vincenzo Nibali, perante a descida até à recta da meta. Mas o italiano já não está no Tour. É mais um dia para que se possa ter uma fuga na luta pela vitória, enquanto no pelotão alguns ataques poderão verificar-se para recuperar, nem que sejam alguns segundos.




5 de julho de 2018

Uma segunda linha de muita ambição na Volta a França

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Nem todos vão ao Tour com sonhos de vencer a grande corrida. Pelo menos não para já, com a excepção de Alejandro Valverde (os 38 anos podem não se notar nas vitórias, mas não permitem pensar a longo prazo). O que não vai faltar na corrida são ciclistas ambiciosos e desejosos de ir à procura de outras glórias. Dos mais novos até ao muito experiente há muito por onde escolher entre aqueles que não querem passar despercebidos, quando o terreno começar a subir. A Volta a França começa já neste sábado.

Warren Barguil (26 anos, Fortuneo-Samsic)
O próprio admitiu recentemente que está a realizar uma temporada a roçar o miserável. O francês (na fotografia) foi uma das figuras do Tour no ano passado, com duas vitórias de etapa, a camisola das bolinhas (montanha) e muitas exibições de grande nível. Porém, no melhor pano cai a nódoa e Barguil acabou expulso pela equipa, Sunweb, da Vuelta por ter desrespeitado ordens para ajudar um companheiro. Barguil estava decidido a ser ele a estrela de uma equipa, pelo que quebrou contrato e foi para a Fortuneo-Samsic, do escalão profissional. As poucas vezes que se tem visto o ciclista é quando está a ficar para trás. Ser líder tem muito que se lhe diga e Barguil tem uma responsabilidade acrescida que terá de assumir com bons resultados no Tour se não se quiser tornar num estrela fugaz do ciclismo gaulês.

Alejandro Valverde (38 anos, Movistar)
Há um ano, o espanhol sofreu uma queda no contra-relógio inaugural e chegou-se a temer o pior. Porém, não só a carreira de Valverde não acabou, como o espanhol regressou ao ritmo impressionante de vitórias, ainda mais tendo em conta a idade: sete triunfos, mais a conquista da Volta à Comunidade Valenciana, da Volta a Abu Dhabi, da Catalunha e da Route d'Occitanie. Apesar de na Movistar ter um papel essencial de ser uma voz de comando numa equipa com um Nairo Quintana e um Mikel Landa a apresentarem-se mais como rivais do que com companheiros, perante a forma de Valverde, irá alguém negar-lhe a possibilidade de ir mais além do que estar na ajuda aos dois colegas? Isto se se proporcionar, claro. O próprio não descarta que caso se apresente a oportunidade, então poderá tentar de novo ganhar uma corrida que quis pouco com ele quando se apresentou para lutar pela camisola amarela.

Bob Jungels (25 anos, Quick-Step Floors)
Chegou o momento de começar a provar do que é realmente capaz numa grande volta. Tem evoluído, com a equipa a dar-lhe o espaço para tal. No Giro dominou na juventude, mas aos 25 anos tem de se mostrar entre os "adultos". No que diz respeito a três semanas, Jungels quis pensar em 2018 apenas no Tour, pelo que será interessante de ver como se irá comportar. A Quick-Step Floors quer ver Fernando Gaviria ganhar sprints, o que deixará o luxemburguês com Julian Alaphilippe quando o terreno começar a subir. Jungels quererá desde já procurar uma boa classificação, mas não haverá problema de maior caso acabe antes à procura de uma etapa. Ficaria mesmo bem junto da conquista da Liège-Bastogne-Liège, em Abril

Julian Alaphilippe (26 anos, Quick-Step Floors)
Ainda é difícil ver este talentoso francês como um voltista de elevado nível. Já se sabe como é nas clássicas  - "tirou" a Flèche Wallonne a Valverde - ganha etapas e com um pouco mais de trabalho poderá tornar-se num ciclista para disputar corridas de uma semana. Agora as três?... Terá de ser Alaphilippe a mostrar que tipo de evolução vai procurar. Para este Tour é de esperar um ciclista ao ataque, à procura de etapas. De grandes etapas e bons espectáculos.

Tiesj Benoot (24 anos, Lotto Soudal)
É um daqueles ciclistas que pode ser o que quiser. A épica vitória na Strade Bianche confirmou (finalmente) toda a sua aptidão para certas clássicas. No entanto, também sabe andar muito bem em provas por etapas e há um ano, na estreia numa grande volta e logo no Tour, Benoot foi 20º. Esta será uma Lotto Soudal à caça de etapas, como tem sido habitual. Thomas de Gendt é o crónico candidato a animar os dias de montanha e até procurar lutar por essa classificação. Também Benoot poderá ter esse papel, mas depois do que fez em 2017, espreitar a classificação da juventude não seria de descurar. Talvez ainda não seja nesta Volta a França que se perceba se o belga poderá pensar em desenvolver as suas capacidades de voltista, mas é, para já, um potencial ciclista a procurar um bom lugar.

Primoz Roglic (28 anos, Lotto-Jumbo)
Steven Kruijswijk é o número um. Porém, é impossível afastar a ideia que o holandês deixou escapar a sua grande oportunidade naquele Giro de 2016. É para Roglic que mais se olha. O esloveno deu definitivamente o salto para se tornar num ciclista para as três semanas. O Tour será o seu grande teste, depois de este ano ter ganho a Volta ao País Basco, a Volta à Romandia e ainda foi a casa ganhar a Volta à Eslovénia. Foram as três últimas corridas que fez rumo a França. Roglic não estará preso a trabalho de apoio. Terá liberdade na prova mais desejada por todos. É mesmo caso para dizer que chegou o momento de Roglic.

Bauke Mollema (31 anos, Trek-Segafredo)
Sim, já tem top dez. Sim, já ganhou etapas (no Tour e na Vuelta). Sim, é um ciclista que se espera andar na frente da corrida. Mas não, não se espera que por lá fique até ao fim. Ou o holandês aparece a um nível inesperado, ou a Trek-Segafredo não poderá ambicionar mais do que um top dez e talvez uma etapa. O que não seria nada mau. Mollema não conseguiu tornar-se no líder que queria, apesar de a equipa até já ter apostado nele. Quando em 2017 contratou Alberto Contador, Mollema perdeu de imediato espaço. Já o tem novamente, mas ou faz algo de extraordinário (e surpreendente) ou irá perdê-lo. Talvez até para um ciclista que é mais velho que ele, se os rumores de que Richie Porte poderá estar a caminho da Trek-Segafredo se confirmarem.

Jakob Fuglsang (33 anos, Astana)
Em 2017, este dinamarquês estava com o moral em alta. A equipa prometeu-lhe a liderança do Tour, com Fabio Aru apontado ao Giro. Porém, tudo se desmoronou quando o italiano caiu e falhou a corrida italiana e foi então apontado para França. Fuglsang quis tentar manter-se como líder, mas era óbvio que não o seria, mesmo que tivesse ganho o Critérium du Dauphiné. Com a saída de Aru e sem a entrada de nenhum grande nome, Fuglsang recuperou o estatuto e tem estado em crescendo durante a temporada. Terminou praticamente sempre entre os primeiros, acumulou pódios e procura um bom resultado no Tour, a começar pelo top dez. Uma vitória não é de descartar, até porque esta Astana está com um espírito ganhador em 2018. Mais do que isto, seria uma surpresa. Mas será sempre bem-vinda para animar a corrida!

Lilian Calmejane (25 anos, Direct Energie)
Mesmo já longe do seu melhor, Thomas Voeckler sempre teve capacidade para roubar as atenções. Porém, retirou-se no final do Tour de 2017 e ficou estendida a passadeira para Calmejane começar a conquistar de vez a atenção dos franceses. É um ciclista de enorme potencial e não podemos deixar-nos enganar só porque está numa equipa Profissional Continental e não no World Tour. Se continuar a demonstrar a evolução que tem tido nos últimos dois anos, Calmejane terá à sua espera outros voos. Na edição passada ganhou uma etapa e é candidato a fazer o mesmo nesta. Algo mais... Talvez no futuro próximo, noutra equipa. Por agora, será um bom animador de etapas.

Jesús Herrada (27 anos, Cofidis)
Fez-se ciclistas na Movistar, mas percebeu que para ser algo mais do que um gregário, tinha de procurar outro caminho. A Cofidis acreditou no espanhol e irá dar-lhe a possibilidade de lutar por vitórias neste Tour. A equipa quer regressar aos tempos em que os seus ciclistas atacavam na montanha, animavam etapas e apareciam constantemente na frente. Se houver alguma vitória, ainda melhor. Para alcançar estes objectivos, a Cofidis deixou Nacer Bouhanni em casa, ainda que tenha Christophe Laporte para os sprints. No entanto, a responsabilidade de Herrada é grande. Terá mesmo de se mostrar.

Tejay van Garderen (29 anos, BMC)

Será que assumir um papel de gregário poderá mesmo ser uma ajuda para Van Garderen ainda vir a ser um bom líder? O americano tenta tudo para recuperar a confiança perdida nele, depois de ano após ano não ter confirmado as expectativas, ainda que também tenha sido perseguido por algum azar. Com o futuro da BMC por definir, este ciclista tem de mostrar algo, nem que seja em ser um bom apoio para Richie Porte. Porém, caso haja liberdade, então uma fuga para tentar conquistar uma etapa será algo que não poderá desperdiçar. Van Garderen arrisca-se a ir caindo no esquecimento se não encontrar forma de se mostrar, mesmo que seja como gregário.

Egan Bernal (21 anos, Sky)
É irresistível colocar aqui Bernal. Já se sabe como a Sky quer todos a trabalhar em prol do líder, pelo que Bernal não terá liberdade e irá mesmo estrear-se numa grande volta a trabalhar para Chris Froome. O que é honroso para qualquer jovem ciclista. Mas depois do que fez no seu primeiro ano no World Tour, que culminou com a vitória na Volta à Califórnia, deseja-se ver um pouco daquele colombiano fenomenal e que estará em França para continuar o seu trabalho de sucessor do rei Froome.

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27 de novembro de 2017

Bons ciclistas a ficarem cada vez melhor, mas falta mais equipa à Lotto-Jumbo

Parte do sucesso da época da Lotto-Jumbo passou pela Volta ao Algarve
A Lotto-Jumbo precisa de um Steven Kruijswijk ao nível do Giro de 2016, precisa de um Robert Gesink que se deixe de inseguranças e coloque na estrada o talento que se sabe que tem, mas os anos vão passando e o holandês ameaça ser um ciclista que passou ao lado de uma grande carreira. Mas se nenhum dos dois se apresentar como o líder que a equipa quer e precisa para as grandes voltas, então abram alas a George Bennett, um neozelandês que este ano confirmou que pode e deve ser aposta. Podem também abrir mais as portas a Primoz Roglic. Este esloveno melhora de ano para ano. A Lotto-Jumbo pode não ter o mediatismo de outras equipas, até pode estar muito em baixo no ranking, mas mantendo alguns dos ciclistas que tem, muitos e bons resultados podem estar a chegar. Porém, precisa de mais equipa, mais apoio para aqueles que estão em condições de lutar por grandes vitórias.

Estamos a falar de uma formação que normalmente consegue que um ou dois ciclistas seja colocado como candidato ou, pelo menos, outsider numa clássica, num sprint, ou a um top dez. Foi uma equipa que ganhou o ano inteiro e 10 das 26 vitórias foram em provas do World Tour. Venceu duas etapas no Tour, incluindo nos Campos Elísios, que para um sprinter é como ganhar a Volta a França. Dylan Groenewegen demonstrou que está pronto para se debater com os grandes nomes com frequência. Jos van Emden também ganhou a última etapa, mas no Giro. Estamos a falar de um dia em que o vencedor da geral é quem mais atenção recebe, mas é uma subida ao pódio num momento de grande aparato mediático. O patrocinador fica sempre muito feliz. Nos Campos Elísios então, fica extasiado.

Quando se fala de atenção mediática, Victor Campenaerts foi o campeão, pois pedir a uma rapariga para sair com ele durante um contra-relógio do Giro mereceu bastante destaque... e uma multa da organização. A equipa também não gostou, mas os fãs adoraram nas redes sociais. Um momento de descontracção, numa temporada muito séria da Lotto-Jumbo.


Ranking: 16º (4846 pontos)
Vitórias: 26 (incluindo uma etapa no Giro, duas no Tour e a geral da Volta ao Algarve)
Ciclista com mais triunfos: Dylan Groenewegen (8)

A formação holandesa tem bons ciclistas, como os referidos e pode-se acrescentar mais alguns como Lars Boom, que regressou à estrutura depois de dois anos na Astana, e Juan José Lobato. O problema da Lotto-Jumbo é apresentar um conjunto forte que não deixe as suas figuras demasiado isoladas quando o apoio é essencial. Aquela exibição de Kruijswijk na Volta a Itália de 2016 - estragada pela queda que muito provavelmente lhe tirou uma vitória mais do que merecida - poderia e deveria ter servido de mote para fortalecer a formação. No entanto, foi mantida uma táctica de esperança que o holandês pudesse repetir a exibição individual e ter um pouco mais de sorte. Nem no Giro, nem noutra corrida. Não aconteceu. Kruijswijk é para já um ciclista que teve uma oportunidade de ouro que não agarrou e vai caindo na lista de candidatos e mesmo de outsiders. O nono lugar na Vuelta é animador, mas ficou a mais de 11 minutos de Chris Froome.

George Bennett poderá "roubar" o estatuto de líder. Surpreendeu (um pouco) com uma vitória na Volta à Califórnia, apareceu bem no Tour, onde entusiasmou (e muito), mas acabou por abandonar. Já na Vuelta apareceu longe da forma ideal. O 10º lugar na Volta a Espanha do ano passado e as exibições em 2017 começam a dar a indicação que a Lotto-Jumbo tem um ciclista para discutir mais do que o top dez. Mas precisa de ter uma equipa mais forte em seu redor. Os bons resultados da Lotto-Jumbo podem tornar-se em grandes resultados se houver esta aposta, que não passando por contratações, pode passar pela mudança de mentalidade em alguns dos ciclistas de trabalho.

Há que recordar que esta estrutura é a sobrevivente da famosa Rabobank, que ao retirar o o seu nome, criou dificuldades aos responsáveis em aguentar os melhores ciclistas. Surgiu a Belkin, mas foi com como Lotto-Jumbo que regressou a total estabilidade e aos poucos esse trabalho começa a dar os seus frutos. Os jovens ciclistas estão a tornar-se corredores maduros e de qualidade comprovada. A época não foi explosiva, mas foram dados passos importantes para 2018. Mas novamente: é necessário ganhar consistência colectiva.

Primoz Roglic foi dos mais ganhadores. Venceu na Volta a França, em Serre-Chevalier, juntando assim mais uma etapa numa grande volta, depois do contra-relógio no Giro de 2016. Foram seis vitórias esta temporada e claro que se tem de destacar a conquista da Volta ao Algarve. Foi ainda medalha de prata no contra-relógio dos Mundiais de Bergen. Está feito um especialista em corridas de uma semana. Aos 28 anos quer mostrar-se também nas de três. George Bennett tem 27. Uma dupla que pode ser de sucesso.

Para 2018 a Lotto-Jumbo mantém a maior parte dos ciclistas, apostando em reforçar-se com três jovens. Danny van Poppel (24 anos) deixa a Sky para procurar outro protagonismo numa equipa que aposta mais em ciclistas com as suas características. Os americanos Neilson Powless (21, Axeon Hagens Berman) e Sepp Kuss (23, Rally Cycling) são mais duas apostas para o futuro, mas não próximo.

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19 de julho de 2017

Mikel Landa avisa que Sky dará uma "machadada" esta quinta-feira

O novo pódio do Tour, ainda que não por esta ordem (Fotografia: ASO/Bruno Bade)
Não foi a etapa espectacular que se esperava, tendo em conta que só faltavam duas de montanhas antes de se chegar ao contra-relógio no sábado. O vento que na terça-feira deu alguma emoção, desta vez não ajudou nada. Houve muita contenção e um regresso às imagens habituais da Sky na frente, Chris Froome a controlar e a responder aos poucos ataques que aconteceram. Só Romain Bardet tentou e até criticou Rigoberto Uran, que considera só estar à procura das bonificações. E é uma táctica que está a dar certo, pois o colombiano saltou de quarto para segundo. Nesta etapa restou ver um Alberto Contador a tentar animar (longe do ciclista que foi, pelo menos mexeu com a corrida), um Primoz Roglic fenomenal a conquistar a tirada e, pelo lado negativo, o abandono de Marcel Kittel, que assim entregou a camisola verde a Michael Matthews.

Se o Col du Galibier acabou por não fazer diferenças, tudo fica guardado para o Col d'Izoard. E Mikel Landa deixou um aviso. Visto que será uma chegada em alto, é o momento mais do que certo para Chris Froome tentar arrumar com a questão e ir mais descansado para o contra-relógio de sábado. "Froome está muito forte e dará uma machadada", alertou Landa, fazendo então prever que a Sky vai estar ao ataque. Porém, o espanhol que ainda não afastou a hipótese de chegar ao pódio, considera que Romain Bardet e Rigoberto Uran "vão dar luta". "Gostaria de ver o Froome ganhar e logo se vê se consigo colar-me, mas os outros estão muito fortes. Amanhã será um final em alto e nós os dois podemos dar uma machadada. Veremos como vai ser o dia", salientou Mikel Landa, que está no quinto lugar, a 1:24 do seu líder.


E talvez para demonstrar que na Sky o ambiente não podia ser melhor depois do dia em que Froome perdeu a amarela, quando Landa o deixou sozinho no final de uma etapa, Chris Froome disse que gostaria muito de ver o espanhol ao seu lado no pódio em Paris, no domingo. O britânico voltou a estar muito bem na entrada nos Alpes, comprovando que de facto está forte nesta terceira semana, tendo subido de forma durante este Tour.

Ao contrário do que está a acontecer com Fabio Aru. O italiano da Astana teve muitas dificuldades no Galibier e acabou por cair para a quarta posição. Os 18 segundos passaram agora a 53. Contudo, Aru deixou a mensagem que perdeu nesta quarta-feira, mas o Tour só acaba domingo. Rigoberto Uran (Cannondale-Drapac) é agora segundo, com os mesmo 27 segundos que tem Romain Bardet. O contra-relógio da primeira etapa dita que seja o colombiano a estar na segunda posição.

Esta quinta-feira será a última oportunidade de se lutar na alta montanha e o Col d'Izoard é mais uma subida mítica para se terminar esta fase do Tour. Com uma pendente média de 7,3%, acaba por não ser maior porque os primeiros cinco dos 14,1 quilómetros não são de grande dificuldade, depois começa a aumentar até chegar aos 10%. Aqui assistiram-se a exibições fantásticas de Fausto Coppi e Bernard Thévenet, por exemplo. Chris Froome ainda não venceu nesta Volta a França. Talvez nem precise para conquistar a sua quarta vitória no Tour, mas o britânico quererá certamente juntar o seu nome a uma das subidas mais históricas desta corrida. Resta a Romain Bardet, Rigoberto Uran e Fabio Aru mostrar que não vão entregar a vitória de mão beijada e talvez baralhar as contas da Sky.

Roglic, o herói esloveno

(Fotografia: ASO/Pauline Ballet)
Em 2007, Primoz Roglic conquistou um título mundial de ski jumping. Então tornava-se uma referência do desporto esloveno, mas uma queda grave fez com que optasse por mudar de modalidade. Escolheu o ciclismo e é já a personagem principal daqueles contos de fadas que tanto se gosta de contar no desporto. Estava numa equipa Continental, a Adria Mobil, quando a Lotto-Jumbo o foi buscar. No primeiro ano no World Tour (2016) foi ao Giro e conquistou uma etapa (contra-relógio). Em 2017 foi escalado para o Tour. Segunda grande volta, segunda grande vitória de etapa, agora com uma subida mítica. Roglic teve um esforço solitário depois de ter deixado para trás o grupo que Alberto Contador tinha ajudado a formar (o espanhol regressou ao top dez e foi o mais combativo do dia). Não se intimidou com o Col du Galibier, fez uma descida perfeita e tornou-se no primeiro esloveno a ganhar na Volta a França.

Se Roglic já tinha o seu estatuto como atleta importante no seu país, agora tornou-se definitivamente num herói, em mais um episódio do seu conto de fadas que ameaça ser contado muito mais vezes. Tem 27 anos e a curiosidade sobre o que poderá vir a fazer no futuro próximo é enorme. Para já ganhou definitivamente o seu lugar de destaque na Lotto-Jumbo, pois este ano conta ainda com a vitória na Volta ao Algarve, duas etapas na Volta ao País Basco e uma na Volta à Romandia, onde foi terceiro classificado na geral.

Mas a 17ª etapa ficou ainda marcada pela queda de Marcel Kittel que não resistiu aos ferimentos e optou por abandonar. Na frente da corrida Michael Matthews já se tinha colocado a apenas nove pontos do alemão na classificação da camisola verde e esperava-se que esta luta fosse até à meta nos Campos Elísios. Kittel saiu com cinco vitórias em etapas, um grande Tour, sem dúvida, mas ficará a pequena frustração de ter estado tão perto de conquistar a classificação dos pontos.

Matthews fica agora de verde e a sua persistência em perseguir Kittel quando parecia que dificilmente se conseguiria bater o alemão irá quase de certeza ter o resultado desejado. É que mais ninguém se esforçou tanto como o australiano para se aproximar de Kittel. Agora, é líder e com 160 pontos de vantagem sobre André Greipel (Lotto Soudal). Se nada de anormal acontecer, a Sunweb está mesmo a caminho de garantir a camisola verde e das bolinhas (montanha) - por intermédio de Warren Barguil -, além de já contar com três vitórias de etapa.


Résumé - Étape 17 - Tour de France 2017 por tourdefrance

19 de fevereiro de 2017

Desculpa Roglic, mas vamos falar de Amaro Antunes

Ainda de manhã, quando se subia ao Alto do Malhão, na estrada só se lia Amaro, Amaro, Amaro. Aquela subida tinha mesmo o nome do algarvio escrito e Amaro Antunes não desiludiu. Com um ataque fantástico, o ciclista da W52-FC Porto fez algo que parecia ser impossível desde que a Volta ao Algarve começou a atrair as grandes equipas e alguns dos principais nomes do ciclismo mundial. As bermas da estrada encheram novamente para receber um pelotão de luxo, mas a multidão vibrou ao máximo ao ver o português na frente. É uma daquelas vitórias que entra para a história e pode muito bem ser uma daquelas vitórias que poderá dar o empurrão que falta a Amaro Antunes para "dar o salto" para uma equipa de outro escalão.

A W52-FC Porto, e principalmente o seu director desportivo Nuno Ribeiro, merecem o reconhecimento pelo apoio e motivação que estão a incutir no ciclista contratado este ano, depois de dois na extinta LA Alumínios-Antarte. Amaro Antunes encontrou o grupo que precisava para se mostrar ao mais alto nível. Prometeu muito na Volta à Comunidade Valenciana quando tentou seguir Nairo Quintana em Mas de la Costa, acabando essa etapa na terceira posição. Na Fóia tinha estado muito bem (foi quarto), no Malhão esteve brilhante. Enquanto a Sky cumpria o papel a que tanto está habituada de controlar a corrida de forma a permitir a Michal Kwiatkowski tentar recuperar os 22 segundos de desvantagem, a Lotto-Jumbo fazia o trabalho para garantir que Primoz Roglic ficava com uma camisola amarela muito desejada por uma equipa com bons ciclistas, mas que não é a que mais vence. No entanto, foi Amaro a estrela do dia.

Esta vitória no Malhão também demonstra como a W52-FC Porto está a querer subir o nível das exibições dos seus ciclistas, pois além de Amaro Antunes, Raul Alarcon andou na fuga, mostrando que também está a atingir bons níveis de forma nesta fase tão inicial da temporada. Subir o nível das exibições, poderá também significar subir de escalão em 2018. São conhecidas as pretensões de tornar a equipa Profissional Continental no próximo ano. As bases estão claramente solidificadas, agora é garantir uma estrutura que permita à equipa não só subir de escalão, mas ter condições para lá permanecer.

Este ano haverá uma aposta maior em provas internacionais e Amaro Antunes terá um papel de destaque nessas corridas. Gustavo Veloso continuará a ser o líder, até pela história e pelo que já deu a esta estrutura, mas Nuno Ribeiro também vai preparando uma inevitável sucessão. Se Amaro Antunes continuar com exibições como as da Comunidade Valenciana e no Algarve, dificilmente Nuno Ribeiro segurará o ciclista, mas maior exposição, maior o poder para negociar com corredores de elevada qualidade.

Uma coisa é certa, esta ligação Amaro Antunes/W52-FC Porto tem tudo para ser de grande sucesso, com ambas as partes e terem a oportunidade de tirar grandes proveitos. Agora é esperar que o algarvio consiga voltar a mostrar-se ao seu melhor noutras competições. A motivação está lá, a qualidade já se sabia que tinha e agora é transformá-la em mais momentos como o do Malhão.

Primoz Roglic, o vencedor algo inesperado

Pódio final: Greipel, Roglic, Osorio, Benoot e Amaro Antunes
Amaro Antunes nem sabia bem para onde se havia de virar. De todos os lados se ouvia alguém a chamá-lo. As fotografias foram muitas, as entrevistas... Era o seu momento. No meio de tanta emoção pela vitória do ciclista português na etapa, o vencedor da Volta ao Algarve até se viu um pouco relegado para segundo plano. O próprio provavelmente percebeu a situação, mas foi ele quem ganhou. Foi ele que não deixou Daniel Martin fugir na Fóia, foi ele quem esteve ao seu nível no contra-relógio, foi ele quem se colou a Kwiatkowski, frustrando qualquer tentativa do polaco em o deixar para trás.

No início da corrida Roglic não aparecia como um dos favoritos. Candidato, mas não favorito. Porém, aquele estilo discreto, por vezes meio tímido do ciclista, esconde o outro lado do ciclista: capacidade para resistir a subidas explosivas e inteligência táctica. A curiosidade para ver como este ciclista evolui é grande. Depois de em 2016 se ter mostrado ao vencer o contra-relógio na Volta a Itália, começa 2017 com esta vitória importante. É preciso não esquecer que estamos a falar de um atleta que só em 2013 optou pelo ciclismo, pois até então o Ski Jumping era o seu desporto de eleição. Chegou mesmo a ser campeão do mundo de juniores. Em 2007 sofreu uma queda assustadora, mas foi já com 23 anos que trocou de carreira e poderá muito bem estar a caminho de se tornar uma referência no ciclismo da Eslovénia.

Atrás ficou Michal Kwiatkowski. O homem da Sky dá sinais de estar a tentar regressar à melhor forma. A exibição poderá significar que o polaco está finalmente preparado para ocupar o lugar de destaque que a equipa pretende, tanto na ajuda aos líderes nas grandes voltas, como numa aposta para as clássicas. Principalmente, Kwiatkowski terá de ser mais regular e não aparecer numa fase da temporada e desaparecer o resto do ano. De recordar que está em final de contrato, pelo que se há uma boa altura para começar a apresentar resultados, é esta. A fechar o pódio ficou Tony Gallopin. O Malhão não foi nada simpático para Jonathan Castroviejo (Movistar) e o ciclista da Lotto Soudal aproveitou para ficar na terceira posição. A equipa belga ainda viu André Greipel ganhar a classificação por pontos e Tiesj Benoot foi o melhor jovem. A grande surpresa acabou por ser Juan Osorio. O corredor da Manzana Postobón entrou na fuga, que contou com José Gonçalves (Katusha-Alpecin), entre outros ciclistas, e aproveitou para ganhar as contagens do dia, que lhe permitiram passar um Daniel Martin (Quick-Step Floors), que não conseguiu repetir a exibição da Fóia. Este resultado é muito importante para a equipa colombiana que conta com Ricardo Vilela, pois a formação faz uma forte aposta no calendário europeu, pelo que este tipo de conquistas deixam certamente satisfeitos os responsáveis e o patrocinador.

Os outros portugueses

Amaro Antunes merece todo o destaque (terminou na quinta posição a 1:29 minutos do vencedor), mas há ainda que referir Edgar Pinto. O ciclista da LA Alumínios-Metalusa-BlackJack cumpriu o objectivo que procurava: o top dez. Foi décimo, a 2:19 minutos de Roglic. Certamente que será um resultado motivador para a restante temporada, neste regresso de Edgar Pinto ao pelotão português. Ricardo Vilela foi 17º (a 3:14) e Nelson Oliveira (Movistar) esteve a bom nível com o 18º lugar (a 3:20). A fechar o top 20 está Tiago Machado (Katusha-Alpecin), que fez uma boa etapa no Malhão.

O Sporting-Tavira também tem razões para estar satisfeito, pois Rinaldo Nocentini fechou na nona posição e Alejandro Marque na 13ª.

E foi com um final apoteótico de Amaro Antunes que terminou mais uma Volta ao Algarve. Uma edição importante na história da corrida, pois pela primeira vez pertenceu à segunda categoria da UCI (2.HC), teve transmissão televisiva e um português, de uma equipa portuguesa, mostrou que é possível lutar com alguns dos melhores do mundo. Há um ano respondeu ao ataque de Alberto Contador, mas o espanhol acabou por ganhar. Talvez tenha aprendido com os melhores, pois desta vez atacou ele na subida que conhece ao pormenor e, desculpa Roglic, mas esta vitória de Amaro será sempre o grande momento de 2017 na Algarvia.




Veja aqui os resultados da quinta e última etapa da Volta ao Algarve - que ligou Loulé ao Alto do Malhão (179,2 quillómetros) - e também as classificações finais.

»»Edgar Pinto: "Estou um bocado apreensivo, mas quero estar na discussão no Malhão"««

»»Amaro Antunes: "Vou tentar melhorar o resultado do ano passado na Volta ao Algarve"««

»»Sprintar com os melhores do mundo. O relato de Luís Mendonça e Rafael Silva««

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18 de fevereiro de 2017

O jogo das Lotto na Volta ao Algarve

Sprint em Tavira foi decidido ao milímetro, com vitória para André Greipel
Em etapas como as de hoje às vezes sobra pouco para dizer. O guião é seguido à risca para que o final seja emocionante. Missão cumprida e com o bónus de ser preciso o photo finish para decidir o vencedor. E Tavira merecia um sprint assim. A Avenida Zeca Afonso encheu para receber o pelotão. Nos passeios, nas varandas, nos degraus, qualquer sítio foi bom para tentar ver aquele instante em que os ciclistas passam a alta velocidade, nem dando por vezes para perceber quem são. Desta feita foi André Greipel (Lotto Soudal) que triunfou ao milímetro, batendo o compatriota John Degenkolb (Trek-Segafredo). O campeão alemão perdeu em Lagos e não gostou de ter sido um pouco apertado pelo então vencedor Fernando Gaviria. O "Gorila", como é conhecido, volta a vencer no Algarve e vestiu a camisola da classificação por pontos.

Mas o jogo das Lotto continua. Tiesj Benoot mantém a liderança na juventude, enquanto Primoz Roglic, este da Lotto holandesa (Lotto-Jumbo), fez o que lhe competia e amanhã tem 22 segundos de vantagem para gerir sobre Michal Kwiatkowski (Sky). Para a Lotto Soudal (belga) foi a quinta vitória do ano. Já a Lotto-Jumbo soma apenas uma, apesar de Dylan Groenewegen ter estado na disputa do sprint em Tavira (foi terceiro depois de uma recuperação fantástica, tal como Arnaud Démare, que foi quarto, mas insuficiente para vencer). Porém, a equipa irá apostar forte em Roglic para que o esloveno conquiste o seu terceiro triunfo numa geral, depois da Volta à Eslovénia e ao Azerbaijão. Para "destoar" das Lotto, Daniel Martin, da Quick-Step Floors, é o líder da montanha.

Quanto a portugueses, apesar de Bruno Carvalho, presidente do Sporting, ter sido visto de manhã e de Pinto da Costa, eterno presidente do FC Porto, ter escolhido uma varanda com vista privilegiada para a meta, o melhor voltou a ser Luís Mendonça, do Louletano-Hospital de Loulé (17º), com Fábio Silvestre (Sporting-Tavira) a terminar na 21ª posição. Mendonça tinha sido 12º na primeira etapa em Lagos e começa a sua temporada de estreia na elite com dois excelentes resultados, que alimentam grande expectativa para a restante época.

Infelizmente um português não teve um final feliz. Ruben Guerreiro, que está no ano de estreia no World Tour ao serviço da Trek-Segafredo, tem sofrido de uma infecção nos dentes e acabou por abandonar este sábado.

Cumprida a etapa mais longa das cinco da Volta ao Algarve - 203,4 quilómetros a ligar Almodôvar a Tavira - chegou o momento de todas as decisões. O Alto do Malhão volta a ser o palco final, com direito a duas passagens. A tirada começa em Loulé e serão 179,2 quilómetros até se conhecer o vencedor.







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17 de fevereiro de 2017

Os melhores mostram porque são os melhores na Volta ao Algarve

Castroviejo estreou-se a vencer com a camisola de campeão europeu
Às vezes não basta ter um pelotão com grandes nomes. Não seria inédito ciclistas importantes estarem em corridas apenas a pensar em "rolar", ou seja, a preparar outras provas que considerem mais importantes. Nesta Volta ao Algarve não se está a ver esse tipo de atitude. Até poderia parecer, pois quem esteve esta sexta-feira em Sagres foi presenteado com um dia primaveril, o que fez com que ao, se passear por entre os autocarros das equipas, via-se, por exemplo, um Arnaud Démare a desejar ter uma espreguiçadeira, um Bouhanni a rir-se enquanto olhava para o telemóvel depois de terminar a sua etapa, na Roompot e Gazprom RusVelo o ambiente não podia ser de maior relaxamento. Mas desengane-se quem poderia pensar que era um ambiente demasiado descontraído para um dia que poderia ajudar a definir a geral. Démare, por exemplo, fez um surpreendente sexto tempo.

Olhando para a classificação do contra-relógio de Sagres (18 quilómetros), facilmente se tira a conclusão: os melhores estão na Volta ao Algarve para mostrar porque são os melhores. Haverá certamente corridas mais importantes pela frente, mas esta semana, a que querem vencer decorre nas estradas algarvias. Ora vejamos: o campeão europeu de contra-relógio - que finalmente estreou a camisola -, Jonathan Castroviejo (Movistar), venceu, ficando o campeão do Mundo, Tony Martin (Katusha), a quatro segundos. Seguiram-se Primoz Roglic (Lotto-Jumbo), o campeão esloveno que no ano passado foi o mais rápido num dos contra-relógios do Giro, Michal Kwiatkowski (Sky) e Lars Boom (Lotto-Jumbo) que também andam bem nesta especialidade, Alex Dowsett (Movistar), o campeão britânico, Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), o campeão norueguês e em nono o tetra-campeão português, Nelson Oliveira, que fez mais 20 segundos que o companheiro de equipa, Castroviejo. Os melhores... chegaram-se à frente.

E é assim que se gosta de ver estas corridas de início de temporada, na qual os níveis físicos nem sempre são os ideais. Mas esta Volta ao Algarve está a proporcionar espectáculo desde o primeiro dia, quando os grandes nomes do sprint lutaram pela vitória. No segundo dia, os candidatos à geral apareceram na Fóia. O espectáculo está garantido até à meta no Alto do Malhão, no domingo, já que as diferenças deixam tudo em aberto para o último dia. Antes, será de novo dia para os sprinters, com a etapa mais longa a começar em Almodôvar e 203,4 quilómetros depois, Tavira recebe novamente o final.

Roglic cada vez mais uma certeza no ciclismo

Roglic é o novo líder e tem 22 segundos de vantagem
Tem 27 anos e só há cinco é que decidiu que era numa bicicleta que queria fazer carreira e não nos skis. Fazia Ski Jumping, até tem um título europeu, mas a Lotto-Jumbo encontrou um ciclista que apareceu "tarde", mas muito a tempo de ganhar o seu espaço entre os melhores. Em 2016 foi quinto na Volta ao Algarve, naquele que acabaria por ser o seu ano de confirmação, tendo ajudado, e muito, a vitória no contra-relógio no Giro. É certo que beneficiou da chuva que prejudicou quem partiu para a estrada mais tarde, mas também há que lembrar que perdeu a primeira etapa para Tom Dumoulin por uma questão de centésimos.

No contra-relógio Roglic dá confiança à Lotto-Jumbo, falta agora perceber se será uma aposta para corridas de uma semana, ou se irá ser um homem para as grandes voltas. Para já, corridas como a Volta ao Algarve são o que melhor lhe assentam, tendo já vencido a Volta à Eslovénia e ao Azerbaijão. No Malhão a ver vamos se está preparado para aguentar uma subida mais explosiva comparativamente com a Fóia. Os 22 segundos são uma vantagem importante, mas Michal Kwiatkowski está a ver uma oportunidade de conquistar a sua segunda Volta ao Algarve, pois é um ciclista que gosta do tipo de subida que irá enfrentar no domingo. Castroviejo está a 36 segundos e é também um forte candidato.

Quem conseguiu passar de favorito a praticamente fora da luta foi Daniel Martin (Quick-Step Floors). Já se sabe que o contra-relógio não é uma especialidade sua, mas perder mais de minuto e meio foi demasiado mau. Uma palavra ainda para Luis León Sánchez. O ciclista da Astana era o líder por esta altura na edição de 2016, mas uma queda no contra-relógio atirou-o para fora da corrida. Este ano é quinto a 59 segundos. Missão difícil, mas este espanhol é capaz do melhor e do pior, pelo que, atenção a ele.

Quanto aos portugueses, não houve surpresas. Amaro Antunes (W52-FC Porto) e Edgar Pinto (LA Alumínios-Metalusa-BlackJack) - os dois que estavam no top dez - perderam tempo, mas nada que os afaste dos objectivos. Amaro é nono (a 1:54) e Edgar Pinto caiu para 11º, a 2:07, a mesma desvantagem que tem Nelson Oliveira. Há ainda que destacar Rinaldo Nocentini. Velho? Nem pensar. O italiano de 39 anos do Sporting-Tavira ainda tem algo para dar. Esteve bem na Fóia e ainda que o contra-relógio não tenha sido brilhante, está na 10ª posição, a 1:56.

Este sábado é então dia para os sprinters, se não houver nenhuma surpresa. Ficamos à espera de todas as decisões em mais uma muita aguardada subida ao Alto do Malhão.







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