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20 de maio de 2018

O efeito Zoncolan a que Yates esteve imune

(Fotografia: Giro d'Italia)
Simon Yates tinha avisado que a etapa deste domingo tinha tudo para ser importante. Talvez mais do que a do Zoncolan. Pode não ter andado num reconhecimento minucioso como outros adversários, mas o britânico e a Mitchelton-Scott têm este Giro muito bem estudado. No dia em que quase todos pagaram, uns mais que outros, o esforço do Zoncolan, Yates apareceu ainda mais forte. Atacou a 18 quilómetros do fim e ninguém conseguiu reagir. Yates foi enorme! Recebeu o prémio que mais queria, mais do que a vitória da etapa (e já são três!): os segundos ambicionados para se distanciar Tom Dumoulin. O camisola rosa queria partir para o contra-relógio com dois minutos. Leva mais 11 segundos como bónus.

Depois de uma etapa em que a subida não permitia grandes ataques, mas ainda assim Yates ganhou tempo, recuperar do Zoncolan era tão importante como sobreviver à sua ascensão. O ciclista que tem tudo analisado ao mais ínfimo pormenor, viu as suas contas saírem completamente trocadas: Froome afinal não está tão vivo como pareceu no sábado. Perdeu 1:32 e está agora 4:52 minutos da liderança. Se o ciclista da Sky tinha planeado usar o contra-relógio para reentrar na luta pela camisola rosa, agora quanto muito poderá aspirar ao pódio. Porém, será difícil afastar o sentimento de desilusão. A festa de Froome quando ganhou no Zoncolan foi de alguém que recuperava uma confiança que estava a ficar abalada depois de duas semanas difíceis. Sol de pouca dura para o britânico.

E o que dizer de Fabio Aru... O lutador que não desiste nem por nada, que tem aquele estilo de abanar tanto a bicicleta quando está em dificuldade, mas recusa ceder, esse ciclista conheceu este domingo o seu limite. Não pôs o pé no chão, ainda que por momentos quase pareceu que o ia fazer, mas afundou-se na classificação, perdendo 19:31 minutos. Parecia parado na estrada. Alguns dos seus companheiros ainda o rodearam. O apoio que faltou quando Aru mais precisou na frente da corrida, chegou num momento em que se sentiu derrotado e ficou para trás. Mais vale tarde do que nunca, mas esta UAE Team Emirates não convence e depois de uma fase de clássicas em que Daniel Martin desiludiu, a aposta no Giro saiu gorada. As grandes contratações da equipa de Rui Costa não estão a render nem de perto, nem de longe o esperado. Há um ano o português fez três segundos lugares e Jan Polanc venceu no Etna, ficando ainda à porta do top dez. Aru junta-se a Johan Esteban Chaves na lista de desilusões desta corrida.

Regressando a Yates e àqueles que continuam a ser os adversários do britânico. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), Domenico Pozzovivo (Bahrain-Merida), Tom Dumoulin (Sunweb), Miguel Ángel López (Astana) e Richard Carapaz (Movistar) ficaram na perseguição ao maglia rosa. Porém, nunca houve entendimento. Marcaram-se, atacaram-se e Yates aproveitou, chegando a ter um minuto de vantagem. Dumoulin ainda assustou ao descolar, mas o desentendimento acabou por o ajudar a pelo menos recolar e ser terceiro, ficando com as últimas bonificações bonificações. 

O holandês está a fazer um Giro de autêntica sobrevivência. Não sendo um trepador exímio, faltando-lhe a mudança de ritmo que ciclistas como Yates, Pozzovivo e Pinot, por exemplo, têm, Dumoulin faz-se valer das armas que dispõe. A capacidade de não entrar em pânico e manter uma frieza quando tudo ameaça desmoronar-se, mantém o vencedor de 2017 na luta. No entanto, 2:11 poderá ser muito tempo até para tentar recuperar a camisola rosa que vestiu na primeira etapa, precisamente após o contra-relógio. Mesmo que o venha a fazer, em situação normal Yates não deverá perder muito mais tempo. A manter a forma, na montanha tem tudo regressar ao primeiro lugar.

O Giro não está ganho. Seria uma arrogância pensar isso. Está bem encaminhado para Simon Yates, de longe o homem mais forte da corrida até ao momento. Não só não teve dias maus, como só tem tido dias bons. Já ninguém se lembra que Johan Esteban Chaves ficou de fora da luta no início desta segunda semana (parece que foi há tanto tempo!) e que estragou os planos da Mitchelton-Scott de jogar com os dois ciclistas. A pedalar assim, claramente basta ter Yates!

Se o britânico confirmar uma vitória que está a ser muito bem trabalhada por toda a equipa, a etapa deste domingo será aquela que poderá ser recordada como o dia em que Yates fez o ataque que ajudou a definir a Volta a Itália. Sappada foi o local da terceira vitória do ciclista neste Giro - há 31 anos que nenhuma etapa lá terminava -, sempre com a camisola rosa vestida. É preciso recuar a 2003 para ver um corredor com o mesmo feito. O italiano Gilberto Simoni também venceu três etapas com a maglia rosa, tendo conquistado o seu segundo Giro. Ainda faltam três tiradas de montanha, pelo que não é de excluir que Yates ainda junte mais alguma.

Pormenores estatísticos. Mas são outros que Yates vai estar concentrado na terça-feira, pois amanhã é dia de descanso. São os segundos que vão estar no pensamento do britânico. São então 2:11 para Dumoulin. Serão 34,2 quilómetros no contra-relógio. No que abriu o Giro, Yates perdeu 20 segundos em 9,7, demonstrando que fez muito trabalho de casa para melhorar nesta especialidade. Também Domenico Pozzovivo esteve bem nesse dia, perdendo então 27 segundos. O italiano está ao nível de Yates, pelo que a sua preocupação estará mais em defender um lugar no pódio, do que tentar o impossível e tirar os 2:28 que o separam de Yates. Thibaut Pinot está a 2:37. A partir do quinto lugar, todos têm mais de quatro minutos para recuperar.



José Gonçalves que tão bem esteve naquele primeiro dia - foi quarto, a 12 segundos de Dumoulin - continua a realizar um excelente Giro. Está novamente na 20ª posição, beneficiando das quebras de Aru e Max Schachmann (Quick-Step Floors), a 15:20 de Yates.

O contra-relógio entre Trento e Rovereto irá abrir uma última semana que contará com seis subidas de primeira categoria, três no sábado. A Cima Coppi, no Colle delle Finestre (2170 metros), será na sexta-feira. Simon Yates e a Mitchelton-Scott têm controlado esta Volta a Itália de forma exímia e algo inesperada. Porém, basta perguntar a Steven Kruijswijk como tudo se perde num instante. Em 2016, o holandês da Lotto-Jumbo entrou na 19ª etapa com três minutos de vantagem sobre Chaves, 3:23 sobre Alejandro Valverde e 4:43 sobre Vincenzo Nibali. Uma queda numa descida, um mortal para a neve e foi o adeus à vitória e no dia seguinte perderia também o pódio. Tudo pode mudar num dia, mas a seis etapas do fim, não restam dúvidas quem até agora mais merece estar de rosa.

Veja aqui os resultados da 15ª etapa e as classificações. Yates lidera na geral e na montanha, Miguel Ángel López na juventude, Elia Viviani (Quick-Step Floors) nos pontos e a Sky colectivamente.




»»Froome está vivo, mas nem ele, nem o Zoncolan vergaram Simon Yates««

»»Zoncolan: "É como uma execução lenta", diz quem lá venceu duas vezes««

19 de maio de 2018

Froome está vivo, mas nem ele, nem o Zoncolan vergaram Simon Yates

(Fotografia: Giro d'Italia)
Que ambiente deveria estar no Zoncolan! As imagens foram impressionantes. A previsão apontava para cem mil pessoas! Sim, já se viu este tipo de "moldura humana" noutras grandes subidas (e não só), mas não deixa de criar alguns arrepios e principalmente de se pensar "quem me dera lá estar"!

Era um dia de praticamente tudo ou nada para Chris Froome. Mais do que recuperar muito tempo - o que não aconteceu - o britânico precisava de um sinal de que estava vivo neste Giro. O Zoncolan estava estudado ao pormenor por parte da Sky. Wout Poels apareceu finalmente e preparou o caminho mais perto do estilo habitual desta equipa (ainda assim foi o único a ficar com o líder, o que já não é tão habitual). Quando chegou o momento, Froome não falhou. Esta performance surge um dia depois de Egan Bernal ter sido fenomenal na Volta à Califórnia, que conquistou, além de vencer duas etapas. A nova geração da Sky dá sinais de estar cada vez mais perto de se transformar na imagem da equipa, mas o Froome ainda não está pronto para atirar a toalha ao chão, mesmo que ninguém esqueça que está pendente da decisão sobre o caso do excesso de salbutamol, substância para a asma. Contudo, até o processo ficar concluído, o que conta é o que faz em competição e no Zoncolan vimos o Froome que tem dominado na Volta a França.

Foram duas semanas muito complicadas para o ciclista, mas conquistar o "monstro" que é esta subida em Itália, dá moral para atacar a terceira semana. O único problema de Froome foi Simon Yates. O camisola rosa pode não ter conseguido apanhar o compatriota, mas 10 segundos de perda (seis na estrada, mas quatro na diferença das bonificações) em nada melindra a posição do corredor da Mitchelton-Scott. Pelo contrário. Froome pode ter mostrado que estava vivo, mas Yates respondeu demonstrado que continua muito forte e nem o Zoncolan o vergou.

(Fotografia: Giro d'Italia)
São inevitavelmente as figuras do dia, mas há que destacar Tom Dumoulin. Fez mais do que se aguentar. O holandês fez uma grande subida. Nunca entrou em pânico quando Froome, depois Yates com Domenico Pozzovivo e Miguel Ángel López também se afastaram. Encontrou o seu ritmo e um bom ritmo. A forte concorrência deste Giro está a trazer ao de cima um cada vez melhor Dumoulin. O ciclista da Sunweb perdeu 43 segundos (entre o tempo na estrada e a bonificação de Yates), mas com 1:24 a separá-lo de liderança, a sua arma, o contra-relógio, poderá ainda mudar o rumo dos acontecimentos que continuam a favor do britânico.

O esforço individual tem sido uma das obsessões de Yates. Muito tem o britânico dito que precisa de ganhar tempo na montanha. Antes das atenções se virarem para a 16ª etapa, na terça-feira depois do dia de descanso, há mais uma de montanha neste domingo. Serão uma terceira categoria e três de segunda. Mas é nos últimos 40 quilómetros que poderá haver mais acção, pois apesar do dia terminar a subir, nem sequer a ascensão está categorizada, não tendo extensão para permitir grandes diferenças.



Só depois desta etapa será possível fazer melhor algumas contas. Recuperar do Zoncolan será essencial para todos os homens da geral. Porém, certo é que Chris Froome reentrou na luta pelo pódio, pelo menos. Pela camisola rosa... é cedo para dizer. Yates não dá sinais de fraqueza. São 3:10 minutos para o camisola rosa e mesmo não sendo o melhor no contra-relógio, é difícil ver o ciclista da Mitchelton-Scott perder tanto tempo em 34,2 quilómetros, em condições normais. Tom Dumoulin até poderá tirar a rosa a Yates, mas mesmo estando a melhorar a forma, na montanha o britânico tem tudo para recuperar a liderança, se a vier a perder.

Mas como foi dito, o dia de domingo não será de recuperação. As diferenças podem aumentar, reduzir... Ainda há muito por decidir neste Giro. Como a classificação da juventude. Richard Carapaz foi um dos que não aguentou o ritmo dos favoritos. No Zoncolan não há ataques e contra-ataques, pois isso pode significar uma quebra física que deixará o ciclista a ver os outros irem embora. Froome atacou uma vez. Sabia que teria de ser certeiro. Fez mais uma pequena aceleração e depois foi manter o ritmo. Carapaz foi apenas um dos muitos que fez o possível para sobreviver ao Zoncolan, dez quilómetros de subida, com uma média de 11,5% de pendente média e 22% de máxima. Porém, o equatoriano da Movistar viu Miguel Ángel López tirar-lhe a camisola branca por 14 segundos.

E finalmente houve boas notícias para a Astana. Continua sem ganhar a desejada etapa - o Zoncolan estava nos planos, mas Froome e a Sky não deram hipótese -, contudo, não só López apareceu bem, como além de ser líder na juventude, reentrou no top dez (sexto), onde também continua Pello Bilbao (nono).

Yates voltou a estar em grande nível em mais um teste à liderança,
um dos mais sérios desta Volta a Itália (Fotografia: Giro d'Italia)
Dali saíram Rohan Dennis (BMC), o primeiro a ceder quando se entrou nos oito quilómetros finais, os mais brutais desta subida. Porém, se conseguir não perder mais tempo neste domingo, os 28 segundos que o separam de Patrick Konrad (Bora-Hansgrohe), 10º na geral, são recuperáveis no contra-relógio, a sua especialidade. Pode até subir mais um lugares. Claro que ainda falta uma terceira semana com muita alta montanha... Ainda assim, há que dizer que o australiano até está a comportar-se bem melhor do que o esperado nas etapas mais difíceis.

Fabio Aru também caiu, três lugares, sendo agora 13º. O italiano da UAE Team Emirates está a ser uma das maiores desilusões do Giro. Vitória, pódio, nada está na equação e com 5:33 de desvantagem, regressar ao top dez pode ser um objectivo, mas talvez seja altura de começar a pensar em ganhar uma etapa para salvar algo desta corrida.

Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) "só" saiu do pódio, desalojado por Domenico Pozzovivo - o italiano da Bahrain-Merida é cada vez mais um sério candidato a ficar com um destes lugares -, mas o seu sofrimento no Zoncolan levantou algumas dúvidas. Agarrou-se à roda de Dumoulin como se não houvesse amanhã e mesmo assim acabou por perdê-la já na parte final da subida. Estava a ser o ciclista que parecia estar mais perto do nível de Yates, mas neste sábado foi bem diferente. É absolutamente normal ter um mau dia numa grande volta e ficar a 1:46 minutos da liderança não é uma má situação para o francês. Agora falta perceber se foi apenas um mau dia.

Uma palavra para Johan Esteban Chaves. Nem para ajudar Yates o colombiano está em condições. Antes do Zoncolan já estava em dificuldades. Perdeu mais 26 minutos! 1:17.40 horas é o tempo acumulado por Chaves. Algo impensável! A Mitchelton-Scott tem uma decisão a tomar: deixar seguir o ciclista na esperança que desta vez o dia de descanso lhe faça bem ou retirá-lo da corrida e em vez de apostar só na Vuelta, levá-lo antes ao Tour. Este Giro é para esquecer para Chaves.

E ainda falta: José Gonçalves. O português da Katusha-Alpecin não desarma na luta por uma boa classificação nesta Volta a Itália. Foi 33º no topo de Zoncolan, perdendo 5:36. Caiu duas posições, para 22º, estando agora a 10:57. A desvantagem temporal poderá dar-lhe maior liberdade para atacar uma etapa. Na última semana, além do contra-relógio e da última etapa de consagração e para os sprinters em Roma, haverá três a acabar em alta montanha e que estarão na mira dos homens da geral. No entanto, na quarta-feira, é um dia para se apostar forte numa fuga.

O Zoncolan não desiludiu e deixou o Giro em aberto tendo em conta a muita dificuldade que o pelotão terá pela frente. Faltam seis subidas de primeira categoria, incluindo a Cima Coppi (ponto mais alto) no Colle delle Finestre (sexta-feira). Três delas estão guardadas para a etapa do próximo sábado (pode ver aqui as classificações).

Tim Wellens abandonou

Todos os que começaram a etapa chegaram ao fim. Mas Tim Wellens não esteve à partida. O belga, que venceu a quarta tirada, vai para casa devido a doença. A Lotto Fix ALL explicou que o ciclista estava com febre. Wellens lamentou não poder terminar a corrida, já que ambicionava a mais um triunfo. O ciclista referiu que desde a mudança de Israel para a Sicília que não estava a conseguir ter o sono em dia e que a situação não melhorou quando o Giro foi para o continente.

A Volta a Itália foi a quinta grande volta de Wellens e pela segunda vez não conseguiu terminar. O belga tem prevista a presença na Volta à Suíça em Junho, mas ainda não se sabe se estará no Tour ou na Vuelta.

O neozelandês Thomas Scully (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) também não partiu para a 14ª etapa, elevando para dez os ciclistas que abandonaram a 101ª edição da Volta a Itália.




»»Zoncolan: "É como uma execução lenta", diz quem lá venceu duas vezes««

»»Não há descanso nesta Volta a Itália««

16 de maio de 2018

A resposta perfeita de Yates num dia com uma má notícia para o camisola rosa

(Fotografia: Giro d'Italia)
Simon Yates volta a demonstrar que perante as contrariedades só há uma forma de reagir: ganhando. A mensagem mais poderosa que poderia passar era que continua forte. Muito forte, mesmo depois de ter visto Johan Esteban Chaves acumular mais de 25 minutos num só dia e de ver a táctica da Mitchelton-Scott ser forçada a mudar. Pode ter perdido para a luta pela geral o companheiro que permitiria jogar com dois ciclistas, mas Yates sozinho está a dar conta do recado. Sozinho quando chega o momento de ser ele a mexer com a corrida, porque até então, a equipa demonstra que continua unida e com capacidade para defender aquela preciosa maglia rosa.

O britânico venceu a sua segunda etapa neste Giro e mais uma vez com autoridade (só não tem três porque não quis tirar o triunfo a Chaves no Etna). Nem era a sua intenção. Yates queria aproveitar aquela rampa final - que chegou a ter 16% de pendente, além do pavé para complicar um pouco mais as coisas - para ganhar mais uns segundos, pois continua a pensar como precisa de ganhar tempo para se distanciar principalmente de Tom Dumoulin. Porém, Zdenek Stybar (Quick-Step Floors) não teve força para levar o seu ataque até ao fim e Tim Wellens (Lotto Fix ALL) quando olhou para o lado viu um Simon Yates a subir como se até fosse fácil!

A melhor reacção veio de quem o britânico mais quer ver ao longe. Dumoulin percebeu que não pode estar à espera de recuperar o tempo todo de desvantagem no contra-relógio e foi atrás de Yates, até com ideias de tentar vencer a etapa em Osimo. O holandês é mais de impor um ritmo certinho nas subidas do que fazer grandes acelerações, mas o líder da Sunweb conseguiu uma mudança de velocidade que ainda deixou Yates a olhar para trás para ter a certeza que estava mesmo a ver Dumoulin a persegui-lo. Só perdeu dois segundos na estrada, mais quatro nas bonificações, que ambos alcançaram.

Enquanto Dumoulin recebeu um extra para a sua motivação ao conseguir não deixar escapar em demasia Yates (está a 47 segundos), o britânico não esconde que são más notícias para ele ver o rival a dar sinais de melhoria de forma. "Teria preferido ganhar mais tempo ao Tom [Dumoulin]. Ele esteve mesmo a perseguir-me todo o caminho até ao fim. Ele parece estar melhor do que no outro dia nos finais em alto. Penso que ele está a melhorar com o decorrer da corrida e isso não são boas notícias para mim", admitiu Yates.

Até esta 11ª etapa era Thibaut Pinot quem estava a apresentar-se como a maior ameaça. mas Dumoulin começa a aparecer e numa boa altura. No próximo sábado, na subida ao Zoncolan, não haverá margens para falhar. Será um dia em que os candidatos terão de estar no seu melhor para não deitar tudo a perder. Esta exibição de Dumoulin, vencedor do Giro de 2017, é mais um motivo de espectáculo numa corrida que tem Simon Yates como o senhor da Volta a Itália até agora, mas, como a etapa de terça-feira demonstrou com a quebra de Chaves, tudo pode mudar num instante.

Yates pensa muito no contra-relógio da 16ª etapa e esta obsessão está a permitir que todas as etapas com montanha tenham espectáculo. Não há controlos excessivos, não há esperas por aquela ou outra tirada. Todas são boas para ganhar tempo, logo a postura de ataque está a fazer deste Giro uma corrida com emoção e muito interessante.

E o mais difícil ainda está para vir. A dúvida do britânico é se irá contar com Chaves. O colombiano perdeu hoje mais quase cinco minutos e continua a dizer que não sabe o que lhe aconteceu na etapa de ontem. Já recuperou um pouco o seu sorriso, resignado com o adeus à geral, mas a Mitchelton-Scott estará ansiosa por perceber se o seu ciclista, um dos candidatos à partida para este Giro, poderá pelo menos ser uma ajuda importante para Yates.

E agora Froome?

Mais 40 segundos perdidos na estrada, mais os dez de bonificação que Yates teve. 3:20 minutos de desvantagem e a queda para fora do top dez (12º). Já se viram coisas incríveis no ciclismo, mas começa a parecer de mais para Chris Froome pensar na vitória no Giro. Mesmo o pódio está a ficar longe. O líder da Sky não está bem. Mais uma vez não conseguiu sequer reagir minimamente ao ataque de Yates, nem às resposta de Dumoulin e de outros adversários, como Domenico Pozzovivo (Bahrain-Merida) ou Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), que não perderam muito tempo (cortaram a meta oito segundos depois de Yates).

Um possível abandono de Chris Froome vai ganhando força. Vencer o quinto Tour continua a ser o principal repto da carreira do britânico, pelo que desgastar-se por um resultado que não seja, no mínimo, o pódio, é algo a ponderar. O ciclista vem agora dizer que a queda que sofreu no reconhecimento do percurso do contra-relógio inaugural do Giro deixou marcas e que ainda tem dores no lado direito do corpo. No entanto, são as pernas que mais parecem não estar como desejaria...

O discurso é, para já, de quem não atirará a toalha ao chão. O Zoncolan, no sábado, será a oportunidade para tentar recuperar algum tempo e depois ir a fundo no contra-relógio, no arranque da terceira semana. Porém, se a perda de tempo continuar, a Sky poderá ver mais uma vez o seu líder para o Giro a não terminar a corrida, como aconteceu no passado com Bradley Wiggins, Richie Porte e Geraint Thomas. A Volta a Itália continua a ser madrasta para a equipa britânica.

Os próximos dois dias são aqueles que os sprinters que resistem vão tentar aparecer. Tentar, porque ambas as etapas têm no final uma subida de quarta categoria, que poderão proporcionar alguns ataques que possam surpreender as equipas dos homens rápidos. Elia Viviani (Quick-Step Floors) venceu as duas etapas em Israel, com Sam Bennett (Bora-Hansgrohe) a ser o mais forte já em Itália. O irlandês quer mais e ainda não desistiu de tentar tirar a camisola ciclamino a Viviani. São 66 pontos os que os separam.



Na tirada desta quinta-feira (imagem de cima), entre Osimo e o Autódromo de Imola (214 quilómetros), a subida chega a ter 10% de pendente máxima. Depois será sempre a descer até à meta, num final que tem todas as condições para ser feito a alta velocidade.

De referir que o português José Gonçalves continua a sua excelente performance na Volta a Itália. Foi 19º, a 36 segundos de Simon Yates, terminando ao lado de ciclistas como Pello Bilbao (Astana) e Ben O'Connor (Dimension Data). Na geral mantém a 20ª posição a 5:21. Pode conferir aqui as classificações do Giro.




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15 de maio de 2018

Chaves nem sabe o que aconteceu. Mitchelton-Scott forçada a mudar a táctica

(Fotografia: Giro d'Italia)
A espera foi longa. 25 minutos desde que Matej Mohoric (Bahrain-Merida) festejou a vitória de etapa até um desiludido Johan Esteban Chaves cortar a meta. 25:25, mais precisamente, ainda que pouco importe mais ou menos segundos perante tanta perda de tempo. Um ciclista que é tão conhecido pelo seu sorriso rasgado, irá demorar a encontrar razões para o mostrar novamente neste Giro. Era segundo classificado, a 32 segundos do companheiro de equipa, Simon Yates, quando a corrida foi para o seu segundo dia de descanso. Os planos da Mitchelton-Scott poderiam incluir jogar com estes dois excelentes ciclistas para garantir a vitória na grande volta. Agora é preciso repensar as ideias. Repensar a táctica. Chaves está completamente fora da discussão e de candidato passará a gregário. A estrada tratou de esclarecer quem é o líder na equipa australiana e a Chaves não deverá restar muito mais que não seja estar ao lado de Yates.

Já com uma etapa ganha, o colombiano arrisca a nem sequer ter a oportunidade de tentar procurar mais um triunfo. Yates também ganhou uma, o que faz com a Mitchelton-Scott só queira pensar em garantir a maglia rosa. Agora é tudo o que interessa. A classificação da montanha poderá se um bónus, mas dificilmente um objectivo principal (Yates lidera com 55 pontos, com Chaves a ter 47). Muito se fala que o dia de descanso faz por vezes mal a alguns ciclistas. Os responsáveis da equipa garantiram que o seu corredor não deu indicações de ter algum problema, mesmo antes de começar a etapa mais longa do Giro. Foram 244 quilómetros (mais cinco do que os estavam previstos no gráfico disponível ontem), com uma segunda categoria logo a começar, antes dos primeiros dez quilómetros. Foi logo aí que tudo de desmoronou para Chaves.

Caiu? Estava doente? Estava mal colocado? Eram tantas as dúvidas e só a da queda foi rapidamente esclarecida. Essa possibilidade foi afastada durante a etapa. "Ainda temos de compreender os meus problemas. Simplesmente não tive força e não consegui ficar com os melhores na primeira subida", desabafou no final um frustrado Chaves, que viu esfumar-se um dos objectivos da temporada, lutar pelo Giro. "Tenho uma difícil relação com Itália. É de amor e ódio. Há uns dias estava a viver um dos melhores dias da minha carreira e agora é duro para o meu moral", disse à Rai.

Apesar de inicialmente ainda ter tentando recolar no grupo de favoritos, com uma ajuda da Quick-Step Floors que procurava levar à frente o seu sprinter Elia Viviani, quando a equipa belga abandonou a perseguição, também não demorou muito à Mitchelton-Scott a fazer o mesmo.

É um rude golpe nos planos da equipa, mas como tanto o ciclista, como os directores salientaram, nada muda. No aspecto de ter Simon Yates de rosa, de facto, nada muda. O britânico continua a mostrar que está bem e foi inclusivamente buscar mais segundos de bonificação no sprint intermédio. Porém, tudo estava a correr muito bem à Mitchelton-Scott e o que aconteceu a Chaves é a dolorosa lembrança que tudo muda num instante. Já não será possível ter duas armas para "atirar" aos adversários. Agora será a disputa mais normal entre equipas e, quando chegarem os momentos decisivos, os seus líderes.

Será preciso perceber se Chaves está em condições para se tornar num gregário de luxo para Yates, ou se tem algum problema que o continue a limitar. A equipa quererá manter a ter um bloco unido em redor (a partir de agora somente) de Yates. Será uma situação a gerir também psicologicamente. Se tudo estava a correr bem, será um teste importante de passar agora que enfrenta uma enorme contrariedade.

O que custa a Chaves e à Mitchelont-Scott, é um ânimo extra para as equipas adversárias. Não é muito habitual ver praticamente todas as que têm um homem para a geral a revezarem-se na frente para garantir que não só Chaves não recuperasse, como para aumentar o máximo possível o tempo, garantindo que ficava mesmo como uma carta fora do baralho. E muitas das formações até tinham ficado com vários ciclistas também para trás, mas a união fez mesmo a força.

A queda na geral de Chaves (de segundo para 39º) permitiu que Tom Dumoulin regressasse ao segundo lugar, ainda que tenha perdido mais uns segundos devido às bonificações de Yates. Está a 41 e não ganhou para o susto quando furou e teve de recuperar numa altura em que o grupo seguia a grande velocidade. Os maiores testes do holandês da Sunweb vão chegar já nas etapas do fim-de-semana, nas quais haverá expectativa para ver Thibaut Pinot (Groupama-FDJ). O francês anda atrás da bonificações como Yates e esta terça-feira até sprintou com o britânico. Perdeu, mas os 46 segundos ainda não são uma enorme preocupação. Pinot continua a parecer ser quem está com maior capacidade para fazer frente a Yates.

A segunda semana do Giro começou então com uma etapa que alterou mais a corrida do que se esperava. Para Chaves foi muito mau. Para a emoção da corrida, não melindrou em nada e este Giro cresce de interesse a cada etapa que passa.


Esta quarta-feira será, na teoria, menos dura. No entanto, haverá um sobe e desce constante (ver imagem em cima). São menos quilómetros que esta terça-feira: "só" 156 entre Assisi e Osimo, com duas terceiras categorias e uma quarta no final. Mas, no Giro não há descanso. Na segunda subida, de 1800 metros, haverá uma parte com 16% de pendente. No final a mesma pendente volta a surgir e poderá proporcionar alguns ataques para tentar conquistar mais uns segundos. Depois de um dia tão duro - o mau tempo regressou e dificultou ainda mais a missão do pelotão -, não será de afastar que uma fuga possa ter uma oportunidade de vingar novamente.

José Gonçalves fechou em 10º, entrando inserido no grupo de favoritos, é 20º na geral, a 4:35 e continua a espreitar a possibilidade de vencer uma etapa. O perfil da tirada 11 poderá ser interessante para o português da Katusha-Alpecin. Pode ver aqui as classificações.




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13 de maio de 2018

Simon Yates, um senhor ciclista neste Giro

(Fotografia: Giro d'Italia)
No ano em que se pedia que os gémeos Yates dessem um passo em frente na carreira, deixando as classificações das juventudes - pelas quais já não podem competir - e os objectivos de top dez, para apontar ao pódio e porque não a uma vitória, principalmente num Giro ou Vuelta. Simon foi o primeiro a ser chamado a dar resposta a este repto. Aí está ela. Nesta primeira semana - nove etapas, mais precisamente -, Simon foi o mais forte, muito bem ajudado por uma equipa que está a fazer o que é inevitável chamar de papel da Sky. A Mitchelton-Scott está transformada numa equipa para as grandes voltas. Agora, "só" faltam mais duas semanas!

Yates (25 anos) foi o mais forte até ao momento, com um Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) a mostrar que está próximo. Muito próximo. Mas estes primeiros dias de Giro tiveram o britânico como estrela. Está, e justamente, com a maglia rosa e neste domingo venceu uma etapa que merecia, depois de no Etna ter sido um excelente companheiro ao não tirar a vitória a Johan Esteban Chaves. E atenção que o colombiano continua a ser uma opção, caso aconteça algo a Yates (quem estiver a apoiar o gémeo, bata três vezes na madeira).

Ter perdido apenas 20 segundos no contra-relógio já foi um sinal que Yates estava bem, comprovando as indicações deixada tanto no Paris-Nice (segundo na geral e uma etapa) e na Volta à Catalunha (quarto e mais uma etapa). Quando chegou a montanha, a facilidade com que pedalou deverá ter deixado os seus adversários algo desconcertados. Na etapa de hoje, deu-se ao luxo de até ver alguns dos seus rivais afastarem-se, só para tentar obrigar Tom Dumoulin a mostrar-se. Porém, o holandês da Sunweb está a perceber que estão a colocar à prova a sua capacidade de trepador. Já se sabe que não é um daqueles  a quem se chama de "puro", mas foi suficiente para o ajudar a ganhar o Giro há um ano, que claro teve o contra-relógio como grande influência. Desta feita, Dumoulin terá de mostrar mais, ainda que não haja razões para entrar em pânico. Por enquanto, pelo menos. Caiu para terceiro, a 38 segundos de Yates. Chaves é agora segundo, a 32.

E Chris Froome? O que dizer... Está uma sombra de si mesmo. Não há nada a esconder. O britânico da Sky não está bem e para quem dizia que iria atacar na terceira semana, tendo perdido 1:07 e tendo 2:27 para recuperar, o dia de folga nesta segunda-feira irá certamente ser utilizado para repensar estratégias.

O mesmo irá acontecer com a Astana de Miguel Ángel López. Aquele aceleramento foi fraquinho, por assim dizer, e lá foram mais 12 segundos para juntar aos  2:12 minutos que já tinha.

Na UAE Team Emirates ainda não é preciso mudar planos, mas Fabio Aru perdeu mais de um minuto e já está 2:36. O italiano tem tendência para ir melhorando e não é de baixar os braços. Mas esta primeira semana de Giro não foi muito animadora.

Já se tem falado de Domenico Pozzovivo. O líder da Bahrain-Merida não está a conseguir rematar no final o seu bom trabalho durante as etapas de montanha. Porém, se continuar assim, o pequeno italiano tem tudo para estar na luta pelo pódio, no mínimo. Está a 57 segundos de Yates.

Num dia em que os ataques ficaram muito para o final. Em poucos quilómetros fizeram-se diferenças interessantes. Não esquecer que Yates ao vencer a etapa bonificou dez segundos e está a amealhar o tempo que tem reiterado ser necessário para ficar mais à vontade quando chegar o contra-relógio da 16ª etapa. A forma como pensa, a longo prazo, não deixa dúvidas que Yates está no Giro 100% crente que o pode ganhar. Pelo que mostrou até agora, tirando Pinot, Pozzovivo e o colega Chaves, ninguém tem conseguido ser suficientemente regular para apresentar uma candidatura mais séria. Mas lá está, ainda faltam duas semanas e muita, muita montanha pela frente.

José Gonçalves esteve novamente muito bem. Tem conseguido manter-se com os favoritos durante bastante tempo na alta montanha. Acaba por ir perdendo algum espaço para os favoritos nas partes finais, mas está a mostrar um lado pouco conhecido dele. Sabia-se que subia bem, mas este é um José Gonçalves com uma ambição bem diferente da habitual. Manteve a 21ª posição, mas agora a 4:32.

A semana foi de Simon Yates, no que diz respeito à geral, que há dois anos vivia um momento difícil ao ser suspenso por quatro meses, depois de ter dado positivo por terbutalina. O médico da equipa assumiu a responsabilidade, tendo dito que deu a substância para a asma ao ciclista, mas não a reportou. Yates cumpriu a sanção e logo deu uma demonstração de carácter. Quando regressou venceu uma etapa na Vuelta, a sua primeira em grandes voltas. Hoje foi a segunda e a continuar assim, tem tudo para ambicionar a muito mais e a Mtichelton-Scott parece estar mais perto que nunca de alcançar o objectivo de finalmente ganhar uma corrida de três semanas, depois de Chaves ter estado um dia de rosa no Giro, há dois anos.

Segunda-feira é dia para recuperar forças e esperar que não faça mal a ninguém, pois os dois dias seguintes é sobe e desce constante e a etapa de terça-feira será a mais longa, com 239 quilómetros.

Pode ver aqui as classificações após nove etapas de corrida. Com a vitória na etapa Yates tirou a camisola azul a Chaves, Richard Carapaz (Movistar) é o melhor jovem, Elia Viviani (Quick-Step Floors) domina nos pontos e a Mitchelton-Scott lidera por equipas. 



11 de maio de 2018

Fim-de-semana com muitos quilómetros e alta montanha à espera do pelotão

(Fotografia: Giro d'Italia)
A subida ao Etna e as duas etapas anteriores bem intensas, deixaram as suas marcas nos ciclistas. A sétima tirada serviu principalmente para recuperar forças para o fim-de-semana e até o vento deu tréguas, permitindo que não houvesse o habitual stress quando o pelotão anda mais perto do mar. Foi mesmo dia para os sprinters, apesar de uma subida perto do final, que acabou por não provocar qualquer surpresa. Sam Bennett descobriu como bater Elia Viviani. Primeira vitória numa grande volta para o sprinter irlandês, que apesar de estar na Bora-Hansgrohe, tem conseguido não ficar na sombra de Peter Sagan. Tem a oportunidade de ir a outras corridas e no ano passado começou a dar garantias que a equipa também podia contar com ele para os grandes momentos que lhe proporcionassem.

(Fotografia: Giro d'Italia)
"Sinto-me aliviado. Já tinha ficado perto tantas vezes no Giro. Ter o timing certo foi a chave para muitos dos sprints aqui. Não é fácil bater o Viviani. Ele sabe mesmo que o está a fazer. A minha hora chegou e houve uma altura que pensei que nunca chegaria", admitiu Bennett após ter descoberto como bater um Viviani que tinha sido avassalador nos dois sprints, ainda em Israel. Para o irlandâes, de 27 anos, o segredo está em ter paciência, saber aguentar e resistir à tentação de arrancar cedo de mais. E não entrar em pânico quando parece que não está a correr bem, o que chegou a acontecer quando Bennett teve de deixar de pedalar para evitar toques e uma possível queda. Ainda assim, manteve-se na roda de Viviani e depois de dois terceiros lugar, venceu.

Os sprinters ficarão a partir de agora em segundo plano. Só a última etapa é completamente plana, com a 12ª e 13ª a serem as mais simpáticas, mas terão subidas de quarta categoria que podem proporcionar outro tipo de finais.

Subida final deste sábado, na segunda chegada em alto deste Giro
Voltamos a atenção para geral. Será um fim-de-semana com muitos quilómetros pela frente. No sábado serão 209 (entre Praia a Mare, onde acabou hoje a etapa, e Montevergine di Mercoglian) e no domingo 225. E de plano têm muito pouco. A primeira parte do dia de amanhã será um sobe e desce constante, com direito a uma acalmia antes da única subida categorizada (uma segunda). Será uma ascensão muito constante ao longo de cerca de 18 quilómetros. A pendente média é de 6%, com uma máxima de dez (ver imagem ao lado).

Simon Yates é o primeiro a dizer que precisa de ganhar tempo aos rivais, a pensar já no contra-relógio da derradeira semana, onde estará sempre em desvantagem para ciclistas como Tom Dumoulin e Chris Froome, apesar de ter estado bem no que abriu o Giro. Porém, eram apenas 9,7 quilómetros, contra os 34,5 que o espera na 16ª etapa.

Ainda assim, tendo em conta o panorama que espera os homens da geral no domingo, é possível que exista alguma tendência a guardar alguma energia. No domingo, entre Pesco Sannita e Gran Sasso d'Italia (Campo Imperatore), estarão uma segunda categoria e duas primeiras nos últimos 50 quilómetros. Praticamente nem há tempo para respirar entre uma e a que levará até à meta. Olhando ainda para a quilometragem, domingo promete ser um dia muito duro, mas segunda-feira haverá tempo para descansar, no segundo dia de pausa do Giro.

Como terminar esta primeira fase do Giro irá determinar a restante corrida para alguns ciclistas. Caso de Miguel Ángel López, com 2:12 de atraso. Ou o colombiano consegue tirar algum tempo, ou a Astana tem definitivamente de mudar os seus planos. À equipa cazaque resta ainda Pello Bilbao, no top dez, a 1:03. Mas mesmo Carlos Betancur (Movistar) que hoje ficou cortado e perdeu mais 23 segundos (está a 1:44) e Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale, a 1:39) também quererão tentar diminuir a diferença. E porque não pensar que Froome possa finalmente aparecer, sem ser a tentar recuperar distâncias para os favoritos. O britânico mantém uma aparente calma após uma semana difícil, que começou logo com uma queda ainda no reconhecimento do contra-relógio inaugural. E nas primeiras dificuldades, não esteve particularmente convincente. Já tem 1:10 para recuperar, o que não é muito habitual.

O Etna, na quinta-feira, deixou perceber que o Giro tem tudo para ser uma corrida muito aberta e atacada. E ainda bem! As etapas do próximo fim-de-semana (19 e 20 de Maio) têm tudo para ser memoráveis, mas não haverá tempo para poupanças neste que aí vem. Não com tantos pretendentes a mostrarem estar em bom nível em Itália.



Pode ver aqui as classificações. José Gonçalves terminou no grupo da frente, mantendo a 20ª posição, a 2:06 minutos. O ciclista português está a ser muito protegido pela Katusha-Alpecin e pela forma que tem demonstrado, é possível que se mostre este sábado.




»»Haja coragem, união e qualidade! A Mitchelton-Scott tem a dobrar««

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»»E o Giro animou««

10 de maio de 2018

Haja coragem, união e qualidade! A Mitchelton-Scott tem a dobrar

(Fotografia: Giro d'Italia)
Não foi planeada, segundo Simon Yates, mas dificilmente a etapa poderia ter corrido melhor à Mitchelton-Scott. A equipa venceu no Etna com Johan Esteban Chaves, vestiu a maglia rosa com Yates e ainda demonstrou que tem ciclistas para ajudar os seus líderes (excelente exibição de Jack Haig). No primeiro dia de alta montanha no Giro101, a Mitchelton-Scott deixou bem claro que podem contar com ela para a luta. Podem contar com esta equipa para lutar pela vitória numa grande volta, a corrida que lhe falta no currículo. A formação muito tem evoluído desde que surgiu em 2012, com os objectivos de "caçar" etapas ou corridas de um dia, para se tornar numa força para as três semanas.

Tem sido um percurso trabalhado principalmente com Chaves e os gémeos Yates. Ainda é muito cedo para festejos numa corrida tão longa, mas se o colombiano esteve bem, o britânico esteve a um super nível. Depois do bom contra-relógio na etapa inaugural (perdeu apenas 20 segundos para Tom Dumoulin), Simon Yates comprovou como está num excelente momento de forma. Quando atacou no Etna, o seu colega Chaves estava na frente, com a etapa praticamente segura. Yates sabia que não podia levar ninguém com ele para não colocar em risco essa vitória, mas testou um pouco a concorrência e percebeu que ninguém o conseguiria acompanhar.

Em situação normal, teria passado por Chaves como um foguete, mas em momentos como este é preciso ter em mente como o ciclismo é um desporto de equipa. Yates trouxe o companheiro na roda nos metros finais, deixando-o ganhar. Foi preciso coragem para arriscar um ataque como aquele. Na meta, a união ficou ainda mais reforçada e se assim se mantiver, então os adversários vão ter duas grandes dores de cabeça para lidar, pois Yates e Chaves poderão fazer um jogo difícil de controlar, para tentar que um deles garanta a conquista do Giro. O colombiano é agora terceiro, a 26 segundos do colega e vestiu a camisola azul, de líder da classificação da montanha.

Para o colombiano, a vitória no Etna é muito importante depois de um 2017 para esquecer. Uma lesão no joelho estragou-lhe parte da temporada e Chaves nunca foi aquele ciclista que fez pódio no Giro e na Vuelta em 2016. Está de volta e em boa hora. Integrou uma fuga invulgar com mais de 20 ciclistas, com alguns a poderem ambicionar a vestir a camisola rosa. Porém, no Etna, Chaves os que ainda resistiam para trás, incluindo um jovem que está a suscitar cada vez mais interesse: Giulio Ciccone. O trepador da Bardiani-CSF já tinha estado bem na Volta aos Alpes e muito tentou ganhar pela segunda vez no Giro. A primeira foi há dois anos, com apenas 21 anos.

O Monte Etna foi este ano palco de um grande espectáculo
(Fotografia: Giro d'Italia)
A Mitchelton-Scott roubou por completo as atenções que estavam com tendência a centrarem-se em Tom Dumoulin e Chris Froome. Mas como se comportaram os candidatos à vitória e top dez no primeiro dia de alta montanha, além de Chaves e Yates?

Tom Dumoulin: Exibição q.b. do holandês, que venceu o Giro em 2017. Quando foi preciso acelerar para não perder contacto com os principais adversários, Dumoulin fê-lo, mas acabou por preferir tentar manter-se nesse grupo. Ainda é cedo para correr grandes riscos para o líder da Sunweb. De certa forma, testou-se a ele próprio. Manteve a segunda posição, estando a 16 segundos de Yates.

Chris Froome: O britânico disse que cumpriu o objectivo de se manter com os seus principais adversários. Mas não convence. Se este é um plano para mais tarde fazer algo impressionante para ganhar o Giro... É um plano estranho para Froome e Sky. Pelo menos não perdeu mais tempo, ainda que por momentos tenha ameaçado ficar para trás. Ao ciclista também falta uma equipa mais forte em seu redor. Wout Poels é para esquecer. Sergio Henao andou na fuga e acabou por descolar depois de ser alcançado, tal como David de la Cruz que rapidamente desapareceu. Valeu Kenny Elissonde, mas quando o ritmo aumentou muito, também não resistiu e ficou com Henao. Froome está em oitavo, a 1:10 minutos.

Thibaut Pinot: Está bem e poderá ainda melhorar. O francês da Groupama-FDJ foi terceiro, ainda tentou lançar uma perseguição à dupla da frente para reduzir a desvantagem, tendo acabado por levar com ele os restantes candidatos. Confirmou que podem contar com ele para discutir o Giro. Está a 45 segundos de Yates.

Fabio Aru: A UAE Team Emirates poderá estar a ficar algo ansiosa. Cortou a meta no grupo de Pinot, a 26 segundos de Yates, mas passou por momentos difíceis no Etna. Aquela sua característica de nunca desistir valeu-lhe uma resultado menos mal, mas o italiano ainda tem de melhorar se quiser discutir a corrida. Na geral fecha o top dez, a 1:12 minutos.

Domenico Pozzovivo: Começa-se a pensar se o italiano poderá estar com ideias bem ambiciosas para o Giro. Confirmou que está bem, tentou atacar e só a aceleração de Yates o deixou sentado. A Bahrain-Merida estará muito satisfeita com o seu líder e o melhor ainda poderá estar para vir. É um ciclista experiente que recebeu uma renovada dose de confiança ao ser contratado por esta equipa. A seguir com atenção... Está a 43 segundos da maglia rosa.

George Bennett: O chefe-de-fila da Lotto-Jumbo pouco se viu, mas fechou logo atrás de Thibaut Pinot. Um bom sinal do neozelandês que há três semanas foi contra um carro que se atravessou à sua frente durante um treino, antes da Volta aos Alpes. Está a 1:11 da liderança.

Miguel Ángel López: Tentou. Valeu isso. Mas ao Super-Homem faltou-lhe aquele arranque que lhe é tão característico e que desta vez foi Simon Yates quem o teve. No entanto, mesmo tendo chegado no grupo dos favoritos, já são 2:12 de desvantagem. A Astana tem Pello Bilbao a 1:03, apesar do espanhol não ter estado no seu melhor no Etna. Poderá ser altura de repensar a estratégia. Um top dez é possível, mas a ver vamos se ganhar etapas não passará para o topo da lista de prioridades.

Carlos Betancur: Parecia estar bem, mas acabou por não conseguir aguentar o ritmo da frente e perdeu 57 segundos. Tem agora 1:21 para recuperar e o colombiano poderá mesmo ter de repartir a liderança na Movistar com o jovem Richard Carapaz.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Richard Carapaz: Esperava-se ver o equatoriano e ele não desiludiu. Aguentou-se no grupo dos favoritos, assumiu a liderança da juventude (Max Schachmann, da Quick-Step Floors perdeu quase dois minutos) e a Movistar tem definitivamente outra carta para jogar. Tem mais dois segundos que Betancur, mas já é difícil não lhe dar liberdade total para procurar o seu resultado. Se ganhar o Giro é difícil, um top dez, uma classificação secundária e, claro, vencer uma etapa são objectivos que a equipa espanhola procurará concretizar. Carapaz tem apenas 24 anos, mas é mais um jovem de talento a aparecer na Movistar.

Michael Woods: O canadiano da EF Education First-Drapac p/b Cannondale desiludiu. Cortou a meta com Betancur e já tem 1:39 para recuperar. Para quem queria que se voltasse a falar do seu país no ciclismo, depois de Ryder Hesjedal ter vencido o Giro em 2012, Woods terá de melhorar bastante na alta montanha para estar na luta pelo top dez, como deseja.

Rohan Dennis: Tentou aguentar, lutou para se manter na roda dos favoritos, mas a alta montanha não é para o australiano. Não na perspectiva de quem precisa estar praticamente sempre bem neste tipo de etapas para ganhar uma grande volta. Não surpreendeu que Dennis tenha perdido a rosa e é possível que ainda o venhamos a ver noutras etapas e de certeza no contra-relógio. Mas Dennis continua longe de ser o voltista que se propôs em transformar.

José Gonçalves: Muito se gostaria de o estar a colocar entre os favoritos! E a verdade é que o português voltou a estar muito bem. Durante muito tempo esteve com os favoritos. Porém, foi descolando e perdeu 1:45. Mas tendo em conta que a alta montanha não é a sua especialidade, não restam dúvidas que o português quer deixar a sua marca neste Giro e vincar a sua posição na Katusha-Alpecin. Saiu do top dez, sendo agora 20º, a 2:06 minutos. Mas ainda se vai falar mais de José Gonçalves...

Foi apenas a sexta etapa e em mais de duas semanas de prova tudo pode mudar, mas pelo menos este ano o Etna deixou-nos ver os homens da geral a começar já a lutar por um bom resultado e em Itália a corrida ameaça ser muito aberta, mesmo com Chris Froome e a Sky (não tão super como no Tour) em prova (pode ver aqui as classificações completas).

Sétima etapa: Pizzo-Praia a Mare, 159 quilómetros

Eis a oportunidade para os sprinters tentarem bater Elia Viviani, que venceu os dois primeiros, ainda em Israel. Porém, haverá uma grande diferença. Todos vão ter nas pernas três dias bem complicados, que acabaram com a subida ao Etna. A ver vamos como reagem os homens rápidos do pelotão, ainda mais tendo em conta que, apesar da etapa ser essencialmente plana, a cerca de 20 quilómetros haverá uma subida que poderá testar a recuperação dos sprinters do esforço dos últimos dias, além de poder proporcionar algum ataque.

O Giro deixa a Sicília para entrar no continente e com a proximidade do mar, já se sabe: cuidado com o vento.



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2 de maio de 2018

Chaves e o regresso a uma base que tanto o fez sorrir

(Fotografia: Giro d'Italia)
Numa recente entrevista, Johan Esteban Chaves disse que passou 2017 a apressar o regresso a uma forma que no ano anterior o tinha colocado no pódio do Giro e Vuelta. A expectativa e confiança era tal para apostar na Volta a França, que depois de um bom início de ano na Austrália, recuperar da lesão no joelho que o afastou da competição durante quatro meses, acabou por se tornar numa missão quase obsessiva para o ciclista e para a própria equipa.

Em 2013, Chaves sofreu uma queda tão grave que só o facto de ter conseguido regressar ao ciclismo foi uma grande vitória. Ainda hoje o colombiano admite como aquele incidente o ensinou a aproveitar melhor tudo o que vive e não se deixar afundar em pressão e stress. Porém, não evitou que a lesão do ano passado o deixasse algo frustrado. Confessou como passou tanto tempo a apressar o regresso à melhor forma, que era difícil afastar a ansiedade por estar constantemente a tentar estar no peso certo, com os todos os números ideais para quem está a este nível no ciclismo. Passou ao lado do Tour, mas na Vuelta deu finalmente mostras que poderiam contar com ele para 2018.

A Mitchelton-Scott optou por regressar à base com Chaves. Vai novamente ao Giro, corrida em que por um dia sonhou com a vitória. Vestiu a maglia rosa que Vincenzo Nibali reclamou para si em 2016. A Volta a Itália poderá fazer muito bem a um ciclista como Chaves. No Tour fica sempre a sensação como a maioria fica presa ao pensamento de ter cuidado para não perder tempo e nem sempre vai tanto à procura de o tentar ganhar. É algo praticamente generalizado. No Giro e Vuelta a mentalidade é um pouco diferente, ainda que vamos ver o que a presença de Chris Froome fará. O colombiano tem uma mentalidade de quem gosta de mexer com as corridas, de quem gosta de andar mais "solto".

Chaves andou a treinar na mesma zona da Colômbia que Quintana tanto gosta: Paipa, na região de Boyacá. Ambos são uma referência no país, mas no currículo de Quintana já só falta o Tour. No de Chaves falta a primeira grande volta. Tem 28 anos, ainda que a rosto de menino sempre a sorrir bem engane. Mas este rosto alegre não esconde um ciclista ambicioso, que sabe que pode estar e ficar de rosa no Giro, ainda que falte saber se será já neste.

Com a excepção da vitória numa etapa do Herald Sun Tour, Chaves nada mostrou até ao momento esta época. A sua concentração tem estado nos estágios. "Se estou melhor do que em 2016? Boa pergunta. Pergunto a mim próprio de vez em quando. Vou ver na Volta a Itália. Às vezes penso que estou melhor do que em 2016, outras vezes não", disse ao Cycling Weekly. Portanto, tal como o seu compatriota, Carlos Betancur (Movistar) ou mesmo o italiano Fabio Aru (UAE Team Emirates) e ainda mais o sul-africano Louis Meintjes (Dimension Data), não se sabe bem o que esperar de Chaves. Mas fazendo crer que o pior já passou e pela motivação de regressar a uma corrida onde foi feliz e quase conheceu a felicidade suprema de a vencer, de Chaves pode-se esperar espectáculo e que vá estar de olhos postos no pódio.

Porém, uma equipa que também leva Simon Yates, não se pode pensar que seja tudo feito apenas para Chaves. A Mitchelton-Scott leva duas armas. Em primeiro lugar, podem ajudar-se mutuamente. Em segundo, se ambos estiverem bem, podem jogar a dobrar para "partir" adversários colectivamente mais fortes. E em terceiro, a estrada ditará quem estará em condições de reclamar a posição de líder.

Nos gémeos Yates recai uma grande esperança por parte dos britânicos. Já se percebeu que quando se fala de classificações da juventude, poucas hipóteses dão, contudo, aos 25 anos, chegou o momento de ir além destas camisolas e dar o salto dos top dez para atacar os pódios. Simon vai estrear-se no Giro. Tem estado mais activo do que Chaves: ganhou uma etapa no Paris-Nice e foi segundo na geral; venceu outra na Volta à Catalunha, ficando à porta do pódio.

Se a Michelton-Scott conseguir gerir os egos e ambições destes dois ciclistas, certo será que vão animar e muito as etapas de montanha do Giro e ter aquela classificação geral debaixo de olho. A ajudá-los estarão: Sam Bewley, Jack Haig, Christopher Juul-Jensen, Roman Kreuziger, Mikel Nieve e Svein Tuft.