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16 de setembro de 2018

As equipas uma a uma na Vuelta de Yates e da Mitchelton-Scott

Primeira vitória numa grande volta da Mitchelton-Scott
que se vestiu a rigor (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Chegou ao fim a última grande volta do ano. Para não variar, a Vuelta foi rica em emoção e espectáculo, principalmente na derradeira semana. Contudo, durante as três houve reviravoltas, surpresas, o inesperado fez parte da sua génese e é por isso que continua a ser aquela que acaba por ganhar no apreço dos adeptos. Simon Yates fez história ao ganhar a sua primeira corrida de três semanas, fechando um ciclo brilhante da Grã-Bretanha, pois nunca tinha acontecido um país ganhar as três grandes no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Como sempre, houve vencedores e derrotados. Houve quem cumprisse as expectativas, quem superasse, quem tem muito mudar. Três dos quatro portugueses chegaram ao fim e Madrid voltou a ser palco de uma despedida de um ciclista espanhol. Aqui fica uma análise equipa a equipa, com a ordem a ser definida pela classificação colectiva.

Movistar: Ganhou novamente por equipas, mas perdeu individualmente. Não deixa de ser irónico que estando em primeiro seja a maior derrotada da Vuelta. Assumiu que a corrida era para ganhar, depois de em 2017 não ter levado nenhum dos seus líderes e ter passado ao lado da prova caseira, algo estranho tendo em conta o patrocinador. Falhou no Tour e quis levar o tridente a Espanha, mas Mikel Landa lesionou-se. Ainda assim, era a equipa mais forte da Vuelta. Apostar novamente em mais do que um ciclista para a liderança correu mal. Nairo Quintana é uma sombra de si mesmo e Alejandro Valverde acabou por fraquejar nas duas etapas de montanha decisivas. Sonhou com a vitória e nem o pódio conseguiu segurar. A Movistar ganhou duas etapas e a classificação dos pontos por intermédio de Valverde e venceu colectivamente, o que para qualquer outra equipa (menos a Sky) seria excelente, mas para a formação espanhola é muito pouco. Há toda uma estratégia a repensar para 2019. Assim, com tantos galos para um poleiro, esta equipa não funciona. Uma palavra por Nelson Oliveira (71º, a 2:30:07). O ciclista português esteve bem. É um corredor com quem se pode contar estar sempre ao nível que os seus líderes precisam. Não foi por ele que a Movistar falhou. Nos contra-relógios foi quarto e sétimo, o que deixa as expectativas altas para os Mundiais.

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali confirmou desde cedo que não conseguiria lutar pela geral, depois da grave queda no Tour. No entanto, não foi à Vuelta apenas para ganhar ritmo ficando perdido no pelotão. Com o passar dos dias, o italiano começou a aparecer na frente do pelotão a trabalhar, foi para as fugas e quis mesmo ganhar uma etapa. Excelente atitude deste ciclista, ao contrário do que aconteceu com Richie Porte (BMC) que esteve em Espanha só a pensar nos Mundiais. A postura de Nibali foi o ponto positivo da Bahrain-Merida que viu Ion Izagirre ficar longe de disputar a geral, apesar da oportunidade para o fazer. O nono lugar a 11:09 é pouco para este ciclista e para a equipa.

Bora-Hansgrohe: Como equipa funcionou bem, mas não conseguiu selar um resultado de nota. Rafal Majka não veio à Vuelta para a vencer, mas foi activo na procura por uma etapa, deixando para Emanuel Buchmann a responsabilidade da geral. Com 25 anos, o alemão demonstrou que pode vir a ser uma aposta, mas terá de ser mais regular. Foi perdendo fôlego com o aproximar do fim e falhou o top dez, onde esteve bastante tempo. E depois há Peter Sagan. O que dizer de um ciclista que faz quatro segundos lugares e dois terceiros? Às vezes simplesmente não dá e a desejada última vitória com a camisola do arco-íris não foi alcançada. Aquela queda no Tour, ainda não o deixou recuperar por completo a forma e talvez já nem seja preciso fazê-lo este ano, já que os Mundiais não são para ele. Foi uma Vuelta dos "quase" para a equipa. Merecia um pouco mais.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Astana: Atacante, agressiva, sempre a acreditar que só se tentar é que se poderá alcançar o sucesso. É esta a mentalidade e, por isso, Miguel Ángel López encaixa na perfeição nesta estrutura. Dois terceiros lugares este ano em grandes voltas, ainda que Alexander Vinokourov não esconda que faltou a etapa na Vuelta. Mas foi uma boa corrida da equipa cazaque e do seu líder, que tem de melhorar no contra-relógio se quiser de facto ganhar uma grande volta. O director pode ter ficado furioso por Fabio Aru ter deixado a equipa no final de 2017 e não ter um substituto para o italiano. O que fica de 2018, do Giro e da Vuelta, é que a Astana tem o seu novo líder. Contratou os irmãos Izagirre para a próxima temporada, mas o futuro é López. Está aí um grande ciclista, de quem muito se espera. Estes pódios são só o início.

EF Education First-Drapac p/b Cannondale: Esperava-se um pouco mais de Rigoberto Urán, um dos muitos que chegou a Espanha depois do Tour ter corrido mal (abandonou após a etapa de Roubaix, devido a uma queda). Foi sétimo, a 6:07 minutos, o que é sempre positivo, mas o que a equipa americana mais agradece são as vitórias de Simon Clarke e Michael Woods. São agora seis os triunfos em 2018. Muito pouco, mas duas vitórias numa grande volta têm sempre peso e a formação bem precisava delas. Por isso, sai de Espanha com razões para celebrar, ainda que não muito dado o ano muito aquém do desejado.


(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Mitchelton-Scott: Venceu a Vuelta, foi inteligente na forma como controlou a corrida e como forçou a Movistar a desgastar-se em controlar algumas etapas. Não foi só Simon Yates que aprendeu a lição do Giro, foi toda a equipa. Jack Haig é um gregário que está entre os melhores da actualidade e pela primeira vez, a dupla Yates funcionou numa grande volta, com Adam a estar desaparecido durante duas semanas, para aparecer na terceira em grande forma. Foi um longo caminho de uma equipa que ao ser criada começou por apostar em clássicas e sprints, mas que pegou nuns jovens gémeos e formou-os, indo aos poucos construindo uma estrutura para as grandes voltas. Aí está a primeira vitória, que o director Matt White considerou ser um alívio. A Mitchelton-Scott vai continuar a sua transformação para as três semanas, ainda mais agora que tem de facto um ciclista capaz de ganhar um corrida destas, Simon, e outro, Adam, que pode seguir o mesmo caminho. A fasquia fica agora mais alta.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dimension Data: Que alívio foi para a equipa sul-africana esta Vuelta. Duas etapas ganhas por Ben King ajudaram a dar algum alento a uma formação com apenas sete vitórias. E há mais de um ano que não ganhava no World Tour. King salvou a Dimension Data de mais uma grande volta para esquecer, pois Louis Meintjes falhou novamente, tal como no Giro. Este regresso às origens não correu bem para o sul-africano. No final, um momento emotivo. No sábado ao finício da noite, Igor Antón anunciou que iria terminar a carreira quando cortasse a meta em Madrid. O espanhol, de 35 anos, venceu quatro etapas na Vuelta e uma no Giro, no total de 14 vitórias como profissional (a última foi em 2015, na Volta às Astúrias). Tal como Alberto Contador há um ano, Antón teve direito a uma ovação pelas ruas da capital, no adeus a um ciclista que foi um dos principais da Euskaltel-Euskadi, passou depois pela Movistar, antes de assinar pela Dimension Data.

AG2R: As equipas francesas estiveram em grande em Espanha. A AG2R não conseguiu liderar a Vuelta como a Groupama-FDJ e a Cofidis, mas alcançou duas vitórias de etapa por intermédio de Tony Gallopin e Alexandre Geniez. No entanto, ver Gallopin cair para fora do top dez (11º) na última etapa de montanha não deixou de ser uma desilusão para a equipa e principalmente para o ciclista, que está a tentar fazer a passagem para ser um voltista que lute por lugares cimeiros da geral. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a AG2R.

Sky: Vuelta falhada para a equipa que venceu quatro grandes voltas consecutivas. David de la Cruz teve a sua oportunidade, mas desde cedo mostrou que não estava à altura de lutar por uma vitória na geral. O espanhol poderá não ter outra tão cedo. Fez o Giro, mas foi dos poucos que apontou o seu pico de forma para a Vuelta e nem a vitória de etapa conseguiu. Michal Kwiatkowski andou de vermelho e até se pensou que poderia ser ele quem tentaria fazer o pleno para a Sky em 2017, depois de Chris Froome ver o Giro e Geraint Thomas o Tour. Mas a época vai longa e desgastante para o polaco, pelo que não foi uma surpresa quando quebrou. Porém, este ciclista sim, irá ter uma nova oportunidade para liderar a equipa numa grande volta. De Sérgio Henao também se esperava mais. Dos dois jovens, Tao Geoghegan Hart esteve bem, dentro do possível, já Pavel Sivakov não foi feliz e abandonou. Mas o objectivo de dar experiência a ambos foi alcançado. Era o que se pretendia. Soube a pouco esta Sky, que nem uma vitória de etapa, nem um top dez conseguiu. Coisa rara.

Euskadi-Murias: Gerou alguma desconfiança, pois estava longe de ter o melhor dos plantéis, tal como a Burgos-BH, mas a equipa basca foi, depois da Cofidis, a melhor entre as do segundo escalão. Pedia-se que se mostrasse, que lutasse, que estivesse em fugas, que fosse activa. Assim foi. Os seus corredores mostraram agressividade e não estavam a passar despercebidos até que Óscar Rodríguez conseguiu o impensável. Conquistou La Camperona, uma das subidas mais difíceis. A equipa teve uma cobertura mediática imensa devido à vitória e o País Basco volta a sonhar com uma estrutura de referência, com a Euskaltel-Euskadi ainda na memória de todos. Com uma etapa ganha, a Vuelta estava mais do que feita para uma equipa como esta, mas a Euskadi-Murias nunca baixou os braços até ao fim. Boa atitude de quem vai continuar neste escalão e já começa a pensar mais alto.

Lotto-Jumbo: Steven Kruikswijk poderia ter ficado numa situação delicada na equipa. Com Primoz Roglic a afirmar-se e com George Bennett a ameaçar fazer o mesmo, o holandês bem precisava de uma boa temporada. Quinto no Tour e quarto na Vuelta. Excelente. Porém, sai de Espanha desiludido, pois sente que deixou escapar o pódio, outra vez, tal como em 2016 no Giro, onde até esteve perto de ganhar. Faltou-lhe consistência na montanha, já que no contra-relógio esteve muito bem. Mas é um bom resultado para o holandês. Já Bennett desiludiu e se no Giro esteve menos mal, na Vuelta esperava bem mais. A equipa, no seu todo, deu mais uma demonstração como está a tornar-se numa de respeito, com destaque para um Sep Kuss, que aos 24 anos deixou uma excelente imagem de como trabalhar para o líder, na sua estreia numa grande volta.

Groupama-FDJ: Com tantos ciclistas a tentarem redimir-se na Vuelta de uma temporada menos conseguida, por terem ficado aquém no Giro ou no Tour, Thibaut Pinot foi dos que alcançou essa redenção. Duas vitórias de etapa - e entrou assim para a lista dos que venceram nas três grandes voltas - e depois de ter perdido tempo ao ficar cortado num abanico, acabou por conseguir reentrar no top dez e até foi subindo, com o sexto lugar a 5:57, a ser mais do que a certa altura pensou-se ser possível. Mas antes de Pinot ser a estrela, foi Rudy Molard o grande destaque. Quatro dias de camisola vermelha, alcançando algo que não tem sido comum nesta equipa: a liderança numa prova de três semanas. Vuelta para recordar de uma estrutura que para o ano irá apostar novamente tudo (ou quase) no Tour. Em casa, portanto.

Sunweb: A equipa foi cuidadosa com as expectativas criadas em redor de Wilco Kelderman. Há um ano esteve na luta pelo pódio, mas desta feita, uma queda pouco antes do Tour, tirou-o dessa corrida e o holandês não conseguiu recuperar até a uma forma ideal para repetir ou fazer melhor em Espanha. Ainda assim, num último fôlego nas derradeiras montanhas, Kelderman conseguiu fechar o top dez, a 11:11 de Yates. Perante a equipa presente e com o seu líder a não estar a 100%, não se poderia pedir muito mais a uma Sunweb que jogou forte no Giro e Tour e ainda não tem estrutura para estar em grande nas três grandes voltas. Mas para lá caminha.

Caja Rural: Apostou nas fugas, Lluís Mas foi um ciclista muito activo, mas a Caja Rural já teve Vueltas bem mais conseguidas. Os seus corredores costumam ser mais agressivos na procura por vitórias, que podem não conseguir, mas são normalmente mais ameaçadores. Esperava-se um pouco mais, pelo menos sendo um pouco mais competitiva. Foi uma pena Joaquim Silva ter ficado de fora das escolhas, depois de na Volta a Portugal ter sofrido com o calor, abandonando logo na primeira etapa em linha. Rafael Reis não foi escolhido para repetir a presença de 2017. Com mais duas equipas espanholas agora como Profissionais Continentais, a Caja Rural já tem termos de comparação e perdeu claramente para a Euskadi-Murias.


BMC: Foi um adeus positivo deste patrocinador às grandes voltas no que diz respeito às vitórias de etapas. Rohan Dennis venceu os dois contra-relógios - cuidado com o australiano para os Mundiais - e vestiu a camisola vermelha por um dia. Alessandro de Marchi conquistou também ele uma etapa. Porém, fica uma desilusão: Richie Porte. O ciclista bem avisou que não estava em condições físicas de lutar pela Vuelta depois da queda no Tour e não ajudou ter começado a corrida a recuperar de uma gastroenterite. Ainda assim, Porte poderia ter tentado um pouco mais do que uma fuga numa etapa plana! Ainda se viu uma ou outra vez, mas nada de nota. A equipa virou-se para Nicholas Roche, mas este é um ciclista que se vê o seu melhor quando faz de gregário e é por isso que irá apoiar Tom Dumoulin na Sunweb em 2019. Quanto a Richie Porte, pensar apenas nos Mundiais ficou-lhe mal, tendo em conta que caso vença, nem é pela equipa que agora representa - que terá um novo patrocinador, a CCC - que irá vestir a camisola do arco-íris. Tentar seriamente uma etapa ter-lhe-ia ficado bem, a exemplo do que fez Vincenzo Nibali.

Trek-Segafredo: Valeu Bauke Mollema. Numa altura em que já se vai falando da chegada de Richie Porte em 2019, o holandês pode não ter conseguido estar na luta pela geral, mas talvez tenha encontrado a melhor função para o futuro próximo, se não quiser ficar como gregário. Foi um dos melhores animadores desta Vuelta e por isso ganhou a distinção de mais combativo (bateu os espanhóis, o que não foi fácil, tendo em conta as votações durante as etapas). Foi duas vezes segundo em tiradas e foi segundo na classificação da montanha. Não ganhou, mas foi muito bom vê-lo ao ataque, à procura de um resultado. Porém, no geral, ficou novamente bem claro que esta Trek-Segafredo precisa de uma renovação, que já está a ser preparada para o próximo ano.

Quick-Step Floors: Quatro vitórias de etapas, três por Elia Viviani e uma por Enric Mas, segundo lugar na geral com o jovem ciclista espanhol. Mais uma excelente grande volta para a equipa belga, que não só saiu com os triunfos que sempre aposta, como teve o enorme bónus de ver Mas afirmar-se a este nível e logo com um pódio. Cinco triunfos no Giro, mais quatro no Tour, são 67 no total, com uma ajuda de Julian Alaphilippe que venceu a Volta à Grã-Bretanha e hoje à Eslováquia, enquanto decorreu a Vuelta. Que temporada impressionante!

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Lotto Soudal: Cumpriu quase todas as expectativas. Ganhou uma etapa por Jelle Wallays, teve Thomas de Gendt como um dos animadores da Vuelta, tornando-se no primeiro belga a vencer a classificação da montanha na grande volta espanhola. Só Tiesj Benoot acabou por ser uma pequena desilusão. O belga não escondeu que não estava completamente recuperado da queda no Tour, mas queria pelo menos lutar por uma etapa. Quase que deu para esquecer que estava na corrida. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a Lotto Soudal.

UAE Team Emirates: Fabio Aru falhou outra vez. Um ano para esquecer do italiano no primeiro em que representa esta equipa. Esteve mal no Giro, não esteve muito melhor na Vuelta, que pelo menos acabou. A frustração foi tal que ao sofrer uma queda devido a um problema na corrente, teve uma reacção tão agressiva que, mais tarde, acabou a pedir desculpa. Aru foi 23º, a 1:03:07 horas. Daniel Martin abandonou após o primeiro dia de descanso para juntar-se à mulher que estava em final de gravidez e fez falta a uma equipa que teve Sven Erik Bystrom a ficar perto de um triunfo que teria ajudado a amenizar mais uma desilusão com o líder Aru. Rui Costa ficou de fora das opções, o que não deixou de se estranho ao saber-se que Martin afinal poderia ir embora a qualquer momento.

Cofidis: A época foi conturbada com a relação fria entre Nacer Bouhanni e o novo director, Cédric Vasseur. O sprinter ficou de fora do Tour, mas na Vuelta picou o ponto com uma vitória de etapa, quebrando um jejum de quatro anos em corridas de três semanas. Luis Ángel Maté andou com a camisola da montanha boa parte da corrida - da segunda à 16ª etapa -, mas a alta montanha não é para ele e acabou por perder a classificação para Thomas de Gendt. Jesús Herrada foi líder durante dois dias, no ponto alto da Cofidis em Espanha. Excelente corrida da equipa que tinha desiludido no Tour, mas que na Vuelta foi uma das formações em destaque.

Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin deve sentir que é perseguido por azares. Mais uma vez, uma queda arruinou a corrida do russo, que acabou por tentar lutar por etapas, mas, apesar de entrar em fugas, nunca esteve perto de conseguir uma vitória. Mais uma grande volta que ficou muito aquém do desejado pela equipa liderada por José Azevedo. A figura foi mesmo Tiago Machado (79º, a 2:48:38 horas). Com Zakarin fora da disputa pela geral, o português recebeu luz verde para procurar um triunfo. Bem tentou ao entrar em fugas e merecia ter recebido pelo menos um prémio de mais combativo, mas a votação foi quase sempre a favor dos espanhóis. Boa corrida de Machado, numa altura em que ainda não se conhece o futuro do ciclista português. José Gonçalves abandonou na 13ª etapa, ele que esteve longe da forma do Giro, onde foi também a figura da equipa.

Burgos-BH: Apostou nas fugas e na experiência de José Mendes e Jetse Bol, contratado em Agosto à Manzana Postobón para reforçar a Burgos-BH a pensar na Vuelta. O português esteve mais activo do que o holandês, mas em geral a equipa mostrou que precisa de crescer para ambicionar ser algo mais do que uma camisola a mostrar, mas que desaparece quando as decisões das etapas se aproximam. Mendes teve uma temporada complicada, devido a uma queda na Clássica da Arrábida que o deixou fora de competição durante algum tempo. A época acabou por se centrar muito na Vuelta, mas também não foi feliz, com alguns azares pelo caminho, mas foi o melhor da equipa na geral: 83º, a 2:57:10 horas de Simon Yates. A queda grave de Jordi Simón, continua internado no hospital, acabou por marcar a corrida de uma das equipas espanholas que este ano subiu a Profissional Continental.

»»A vitória da nova geração««

»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

14 de setembro de 2018

Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Um senhor ciclista. Simon Yates olhou para o Giro e inverteu a sua táctica. Em três semanas é sempre importante não começar mal, não ter nenhuma grande quebra a meio, mas o essencial é mesmo acabar bem. Yates está a acabar muito, muito bem. Que ciclista emocionante de ver foi o britânico numa subida longa, em que até se esperava que pudessem ser feitas diferenças, mas poder ser a que decide a Vuelta, não estava nas expectativas... Mais um pormenor inesperado nesta corrida tão recheada deles. Não está ganha, mas o maior de inimigo de Yates é ele próprio quando faltam os 97,3 quilómetros mais esperados.

Não houve planos, nem pretensões de conseguir colocar a vantagem de 25 segundos em 1:38 minutos! Yates seguiu os instintos, pois este britânico não segue o exemplo calculista de um popular compatriota da Sky que tanto gosta de olhar para o potenciómetro, ele que pode suceder precisamente a Chris Froome no historial de vencedores da Vuelta. Yates está a afirmar o seu estilo, a sua forma de estar, a sua forma de não ficar à espera de ninguém e de tomar as rédeas do seu destino. Se se sente bem, ataca. Foi o que fez. Admitiu que foi o momento que lhe pareceu ideal para o tentar fazer. Ainda faltavam mais de nove quilómetros. Mas foi a altura mais do que certa.

Jack Haig tinha sido fenomenal quando Nairo Quintana atacou para preparar caminho para Alejandro Valverde, ou talvez ele próprio reentrar na luta pelo menos pelo pódio. Porém, foi o gregário de Yates quem preparou o melhor caminho para o seu líder e nem foi preciso Adam Yates entrar ao trabalho. Mais força fica para sábado. A Movistar saiu derrotada em todas as frentes. Tentou o abanico, Yates assustou-se, mas fechou o espaço.Na subida final, Quintana não só não conseguiu que o seu ataque abanasse Yates, como ainda viu o britânico apanhá-lo e quando foi ajudar Valverde, foi nessa altura que a diferença começou a aumentar para a frente da corrida. Nada correu bem a Quintana nesta Vuelta e nesta 19ª etapa até furou na última subida, só para completar a lista do que não correu bem ao colombiano.

Yates foi aquele ciclista que nas duas primeiras semanas de Giro não deu hipóteses. Na Vuelta deixou o melhor para o fim e se não falhar, se não tiver nenhuma quebra, nenhum azar, talvez desta vez o que parece ser pode mesmo realizar-se na Volta a Espanha: Yates vencer a sua primeira grande volta.

Não se pode dar mérito apenas ao britânico da Mitchelton-Scott. Os companheiros de ocasião foram essenciais para que a vantagem crescesse tanto. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) ajudou a pensar na vitória de etapa - a segunda ficou garantida para o francês - e para aproveitar subir na classificação. Passou de nono para sétimo. Mas foi Steven Kruijswijk o outro grande vencedor do dia.

Tinha-se aqui dito que o holandês precisava de se mostrar na alta montanha ao nível que tinha apresentado no contra-relógio. O holandês da Lotto-Jumbo fez isso mesmo e está novamente no pódio. Não foi quem mais ajudou Yates e até quebrou, mas o trio pegou nos seus interesses individuais e trabalhou em conjunto para os concretizar. Todos ficaram felizes no fim. Kruijswijk está a 1:58 de Yates e Valverde ficou à distância de 20 segundos.

Mau dia para os ciclistas espanhóis com Enric Mas (Quick-Step Floors) a não conseguir estar tão forte como em dias anteriores. Escapou-lhe o terceiro posto e a ambição de surpreender ainda mais fica agora para trás. Sábado irá à procura de um pódio que ficou a 17 segundos.

Se na 20ª e penúltima etapa já se esperavam ataques, perante as diferenças e sabendo que não haverá mais oportunidades, não há tempo para se ser conservador. Atacar é a solução, esperando Valverde sentir-se melhor, ele que mais uma vez não se deu com altitudes acima dos 1500 metros.

O pleno britânico nas grandes voltas está perto de se concretizar. Chris Froome, Geraint Thomas e agora Simon Yates poderá estrear-se, tal como Thomas, nestas vitórias. Tem apenas 26 anos e todo o trabalho da Mitchelton-Scott em criar um vencedor deste nível poderá finalmente concretizar-se.

No entanto, é necessária uma última demonstração de classe de um ciclista que este ano demonstrou tê-la em abundância e que depois de lhe ter faltado maior inteligência táctica e de gestão de esforço, em seis meses assimilou as lições do Giro para não repetir o desgosto. Talvez seja um dia em que possa tentar controlar um pouco mais os adversários, ser um pouco mais calculistas, ainda que para Yates a melhor defesa seja mesmo o ataque.

Faltam 97,3 quilómetros com uma segunda, três primeiras e uma terceira categoria antes da última rampa da Vuelta. Uma categoria especial para terminar, como só poderia ser numa corrida como esta Volta a Espanha. O pelotão arrancará de Andorra e o Coll de la Gallina definirá se Yates aguentará a última investida dos adversários - Valverde prometeu não atirar a toalha ao chão - ou se esta Vuelta tem uma derradeira surpresa para revelar.

Coll de la Gallina tem uma contagem de montanha de 3,5 quilómetros, mas a subida começa antes. Na fase final, serão rampas de 11%, 7% e 9%. Sendo uma etapa tão curta, será uma espécie de sprint para os trepadores. A etapa poderá ser vista na íntegra no Eurosport e a TVI24 também irá começar a sua transmissão mais cedo do que o habitual para que não se perca nada da muito aguardada etapa da Vuelta.


9 de setembro de 2018

Yates, López e Valverde atacam. Quintana mantém conservadorismo que só lhe custa segundos

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Na Volta a Itália, Simon Yates mostrou-se sempre muito preocupado em ganhar tempo para melhor se defender no contra-relógio que estava agendado, tal como na Vuelta, para o primeiro dia da última semana da corrida. Claro que ter um especialista com Tom Dumoulin e também Chris Froome contribuiu para essa obsessão. Pagou caro esse esforço dias depois. Na Vuelta, Yates preocupou-se em controlar os adversários, que já não restam dúvidas serem principalmente três: a dupla da Movistar, Nairo Quintana e Alejandro Valverde, e Miguel Ángel López (Astana). Sem abusar no desgaste físico tentou ganhar uns segundos. Esta Vuelta não está a ser de minutos, é mesmo ao segundo que se fazem as contas e só uma quebra ou um contra-relógio muito mau de alguém mudará esse factor. Yates está forte e mais inteligente no aspecto táctico (aprendeu a lição do Giro), mas a declaração de intenções da Astana mete respeito, que Quintana vai perdendo com a sua frustrante atitude conservadora.

Os Lagos de Covadonga definiram o quarteto que, não havendo surpresas de maior - o que é sempre bem possível na Vuelta -, irá então discutir a geral. Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo) está a 1:29 minutos e Enric Mas (Quick-Step Floors) - que grande corrida está o jovem espanhol a realizar - a 1:55, mas o quarteto está forte e um pouco acima no nível de forma destes dois ciclistas. Pelo menos, no encerrar desta segunda semana.

A declaração de intenções da Astana foi muito interessante. Não se meteu em discussões entre Mitchelton-Scott e Movistar. Quando quis assumir a corrida, foi para a frente do pelotão. A afirmação era clara: estão ali para lutar pela Vuelta e queriam ganhar a etapa com López. Thibaut Pinot estragou esta parte dos planos, mas o colombiano animou e bem a mítica subida espanhola de 11 quilómetros, com muitos metros acima dos 10% e com uns  metros a 20% à espera dos ciclistas já perto do final. López atacou, foi apanhado, controlou, voltou a atacar... Este colombiano entusiasma e este ano está mesmo na disputa pela Vuelta, depois de duas vitórias de etapa em 2017, que aconteceram quando a geral estava fora de questão.

López foi quem acabou o dia melhor. Conseguiu ganhar uma pequena vantagem para ser segundo, o que lhe deu automaticamente seis segundos de bonificação. Na estada ganhou mais quatro a Valverde e seis a Quintana. Só Yates minimizou as perdas, pois também bonificou (quatro segundos), ganhando vantagem sobre a dupla da Movistar. López está a 43 segundos do britânico, Quintana a 33 e Valverde a 26.

Miguel Ángel López e Simon Yates, dois ciclistas que dão espectáculo e que para ganhar a Vuelta, agem, não ficam à espera. Aqui entra Nairo Quintana. No sábado ainda tentou mexer um pouco na etapa, mas nos Lagos de Covadonga foi o ciclista que se tornou habitual em tempos recentes. Sempre conservador, sempre à espera de um momento ideal que parece nunca chegar. É quase irritante ver um ciclista com a qualidade de Quintana ficar a olhar tanto para os adversários, quando demonstra que pode fazer mais. Não foi um Quintana conservador que ganhou o Giro e a Vuelta. Nesta última, foi precisamente uma vitória nos Lagos de Covadonga que o lançou para o triunfo na geral em 2016.

Não deixou de ser curioso como Yates protestou com Quintana por não ajudar na perseguição a López, isto vindo de um ciclista, cuja equipa não quis nem assumir, nem ajudar a Movistar no controlo do pelotão há uns dias. E não deixa de ser ainda mais curioso como Quintana não tenta fazer mais, mesmo indo perdendo valiosos segundos quase todos os dias.

O colombiano pediu ajuda a Valverde. Este quase deitou muito a perder ao atacar e depois ao não conseguir aguentar o contra-ataque de Yates. Lá recuperou, mas admitiu que precisou de respirar quando o colega lhe pediu ajuda. Valverde acabou à frente de Quintana e não esconde que também estava preocupado em não perder tempo. Com o aproximar das decisões finais e com um Valverde em condições normais a ganhar tempo a Quintana no contra-relógio, haverá mais uma rivalidade do que propriamente jogo de equipa. Será ainda mais difícil para o colombiano se Valverde vestir a camisola vermelha no contra-relógio. Do quarteto é o mais forte nesta especialidade e 26 segundos estão absolutamente ao seu alcance, apesar de Yates ter melhorado bastante no esforço individual.

Foi um dia de espectáculo e a emoção está finalmente a aumentar nesta Vuelta, que tem ainda mais três etapas de montanha, sendo no sábado a de apenas 97,5 quilómetros. Mais uma vez, o tempo e a montanha escasseiam para um Quintana que terá de deixar o conservadorismo se quiser ganhar a Vuelta. Se quiser ganhar mais uma grande volta, seja ela qual for.

Pinot fez o pleno

Era uma vitória que o francês bem estava a precisar. Depois de quebrar no final do Giro e devido a uma pneumonia nem terminar a corrida, ficou ainda afastado do Tour, pois a recuperação foi longa. A vitória na Volta aos Alpes criou boas expectativas, não confirmadas, mas Pinot reagiu nesta Vuelta. Chegou a Espanha a falar em ganhar etapas, mas só não está mais próximo na luta pela geral porque foi apanhado num "abanico". Mas aqui está a vitória desejada, aquela que lhe permite fazer o pleno: venceu nas três grandes voltas.

Pinot disse que triunfou no Alpe d'Huez espanhol, numa referência à sua última conquista no Tour, em 2015. Foi um ataque perfeito que soube explorar a fase em que o quarteto da geral estava preocupado consigo próprio, não esquecendo que por ali estava um Steven Kruijswijk que nunca se sabe quando pode tirar um coelho da cartola e um Enric Mas que vai finalmente conquistar o apreço dos espanhóis que tanto medo têm de não terem sucessores à altura de Alberto Contador, 'Purito' Rodríguez e Valverde, este último o único ainda em actividade. Aqui está mais um mais que provável sucessor, com uma grande margem de progressão, tal como Marc Soler (Movistar), por exemplo, que não está na Vuelta.

Quanto a Pinot, só ganhou 28 segundos aos candidatos, mas com a restante concorrência a entrar a mais de minuto meio - com excepção de Rigoberto Uran (EF Education First-Cannondale-Drapac) - o francês saltou quatro lugares, sendo agora sétimo, a 2:10 de Yates. Se mantiver a forma, não só segura o top dez, como ainda poderá subir um pouco mais.

A saga francesa na Vuelta continua, a Groupama-FDJ já tinha tido Rudy Molard como líder e agora tem a sua etapa, à imagem da Cofidis. A AG2R vai com duas tiradas ganhas.

Pode ver aqui as classificações completas.

16ª etapa: Santillana del Mar - Torrelavega (contra-relógio), 32 quilómetros



Numa corrida com segundos a separar os candidatos, estes 32 quilómetros podem mesmo ter um grande peso na decisão final. É Valverde quem, em teoria, parte em vantagem. Yates, López e Quintana estão longe de ser especialistas, mas é o britânico quem demonstrou que mais evoluiu nos últimos meses para melhor se defender. Segunda-feira é dia de descanso.

»»Yates o mesmo ciclista de Itália... mas numa versão melhorada««

»»Nem Majka sabia quem era. Chama-se Óscar Rodríguez e é mais um espanhol em destaque na Vuelta««

8 de setembro de 2018

Yates o mesmo ciclista de Itália... mas numa versão melhorada

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dois dias antes de ceder a camisola vermelha a Jesús Herrada, Simon Yates tinha dito que tinha um plano para esta Vuelta. Qual? Não o quis desvendar, obviamente, mas não foi difícil perceber os primeiros pontos que faziam parte desse plano. Primeiro foi tentar passar a responsabilidade de controlo da corrida no pelotão à Movistar, o que gerou algum descontentamento de Alejandro Valverde e Nairo Quintana, os chefes-de-fila da equipa espanhola. Segundo foi deixar a liderança, de preferência para alguém que não fosse um grande risco no futuro. Herrada foi perfeito. Aos poucos Yates e a Mitchelton-Scott vão revelando como estão a querer ganhar a Volta a Espanha. Depois de deixar escapar o Giro em apenas uma etapa, depois de 18 de trabalho, 13 vestindo de rosa. Yates avisa que é o mesmo homem que se apresentou em Itália... mas numa versão melhorada.

Ganhou a etapa, recuperou a camisola vermelha e como que banalizou um Nairo Quintana de ataque, que acabou a lutar pela sobrevivência. Quando parecia que o colombiano preparava-se para assumir a Vuelta, como há muito não o faz numa grande volta, os seus ataques resultaram em nada. Chegou a ter cerca de 15 segundos de avanço, com apenas Miguel Ángel López (Astana) na sua roda. Yates limitou-se a esperar pelo momento certo, controlando também um Valverde que o britânico já percebeu pode ser o seu maior adversário (mas cuidado com López). Yates foi buscar a dupla da frente e quem o tentou seguir não conseguiu seguir na sua roda. As diferenças não foram muitas, é certo, mas aqueles sete segundos (mais os dez de bonificação) que o separaram de Quintana, por exemplo, são um golpe na confiança de um colombiano que esperava começar nestes três dias de montanha, antes do descanso, assumir-se como o grande líder. Se ainda não da Vuelta, pelo menos da Movistar.

Foi Valverde quem esteve melhor e ultrapassou o companheiro. Com o desaparecimento de Herrada da frente da geral, os homens da Movistar estão novamente em segundo e terceiro, com 20 e 25 segundos de diferença para Yates.

O britânico venceu com a autoridade que se viu no Giro. Porém, tem sido claro como está a dosear muito bem o seu esforço para evitar uma nova quebra, como aconteceu na 19ª etapa da Volta a Itália. "Sou o mesmo ciclista [do Giro], a mesma pessoa, tenho o mesmo nome, só mudei a minha preparação e melhorei. Cresci e evolui na minha forma", disse. Não quer ouvir falar de dominar a Vuelta, considerando que as curtas diferenças desmentem que isso possa estar a acontecer.

E tem razão. Apesar da etapa de hoje as diferenças terem começado a aumentar, muito por culpa daquela brutal última subida de quatro quilómetros, com pendentes a aproximarem-se (talvez mesmo a passarem) os 20%. Mas nada que não possa ser recuperado. Entre Yates e López (quarto) estão apenas 47 segundos. No top dez, só Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) está a mais de dois minutos (2:08). E há muita montanha pela frente nesta Vuelta.

Simon Yates afirmou que agora quer estar de vermelho e vai já assumir-se como líder nos Lagos de Covadonga, uma subida que tem tido influência no resultado final da corrida em edições passadas. Quintana venceu lá em 2016, recuperando a liderança que tinha perdido no dia antes para David de la Cruz e nunca mais a perdeu. Estávamos na 10ª etapa, um pouco mais cedo do que na edição de 2018, que vai para a 15ª tirada.

Quintana tinha dito que uma nova Vuelta começava nestes três dias e aí está ela. Yates já avisou que a sua equipa está forte e que o irmão gémeo, Adam, vai aparecer na ajuda depois de duas semanas praticamente desaparecido no pelotão. A Mitchelton-Scott terá de controlar mais as etapas, ainda que a Movistar não está livre de ser obrigada a dar uma ajuda.

A emoção e o espectáculo da luta pela geral chegaram finalmente à Volta a Espanha. Não haverá muito tempo para respirar. Terça-feira é dia de contra-relógio e só na quinta o dia não tem montanha antes da chegada a Madrid. Começaram as decisões.

De salientar que normalmente fala-se de serem os sprinters que mais vencem nas grandes voltas e Elia Viviani é um bom exemplo disso. Soma seis etapas, quatro no Giro e duas na Vuelta. Porém, há um trepador também em destaque este ano. Yates vai em quatro, três em Itália e agora uma em Espanha, onde já tinha vencido em 2016.

O fim do conto de fadas de Herrada

Não houve qualquer surpresa, mas esperava-se um pouco mais de um ciclista que se quer assumir como líder de uma equipa numa grande volta. Jesús Herrada perdeu 9:16 minutos, pelo que o objectivo que tinha de ficar no top dez fica praticamente fora de questão, pois a partir de agora já ninguém vai deixar um ciclista galgar tantos lugares na geral rumo aos dez primeiros. O espanhol da Cofidis caiu para a 17ª posição, a 7:44 de Yates.

Aos 28 anos teve a oportunidade de se afirmar, mas mostrou que ainda há trabalho a fazer para que seja um ciclista que possa estar na luta por um lugar entre os melhores. Qualidade tem e talvez esta aventura de dois dias de vermelho lhe possa servir de motivação. Agora é altura da equipa concentrar-se totalmente em Luis Ángel Maté que está a ver a concorrência a aproximar-se. Thomas de Gendt (Lotto Soudal) já só está a dez pontos - curiosamente o belga até já ajudou o espanhol a pontuar numa etapa - e é muito melhor na alta montanha que Maté, tal como acontece como Ben King (Dimension Data, a 24 pontos) e Bauke Mollema (Trek-Segafredo, a 30)

Pode ver aqui as classificações completas, com Valverde a consolidar a camisola verde e a Bahrain-Merida a segurar-se no primeiro lugar por equipas.

Van Baarle não resistiu às dores num dia mau para a Sky

Foi um dos ciclistas envolvido na queda provocada por um membro da organização após a meta na 12ª etapa. O holandês disputou a vitória nesse dia com Alexandre Geniez, com o francês da AG2R a levar a melhor. Pouco depois de terminarem a tirada, com a estrada estreita e com parte do espaço ocupado, como habitualmente, pelos repórteres fotográficos, os ciclistas não conseguiram evitar o choque com o homem que corria de costas para os atletas, numa tentativa de recuperar a sua posição, mas sem se aperceber que os corredores estavam mesmo ali.

Dylan van Baarle foi quem ficou mais mal tratado. Não sofreu fracturas, mas as dores não diminuíram, apesar de ontem ainda ter completado a etapa. "Dói só de andar e não faz sentido continuar nestas condições. É uma desilusão, mas tento não pensar muito nisso. Só quero concentrar-me na minha recuperação. Por sorte estou em boas mãos nesta equipa, que vão ajudar-me a recuperar rapidamente", afirmou o ciclista da Sky, que não partiu para a tirada deste sábado.

Apesar de ter Michal Kwiatkowski ao ataque, integrando a fuga do dia, foi uma etapa infeliz para a equipa britânica. Além de Van Baarle, perdeu ainda Pavel Sivakov. O russo abandonou, não tendo recuperado de uma queda há uns dias. Perdeu ainda qualquer possibilidade de disputar a vitória na Vuelta. David de la Cruz perdeu 4:55 minutos para Yates, estando agora a 6:57. Kwiatkwoski tentou recuperar tempo, mas acabou por juntar mais seis minutos a uma diferença que vai agora em 9:27.

15ª etapa: Ribera de Arriba - Lagos de Covadonga. Centenarios 2018, 178,2 quilómetros



Lagos de Covadonga é mais uma categoria especial a aparecer na Vuelta. É uma subida que agrada à maioria dos que estão a discutir a Vuelta, pois não é tão explosiva. É mais longa e constante. Tem 11,7 quilómetros, pendente média 7,2%, mas não seria Espanha se não tivesse um rampa brutal pelo caminho, com alguns metros a 20%. O último 1,5 quilómetro até tem uma zona de descida, mas até lá a pendente está muitos metros acima dos 10%, com apenas uma pequena zona de descanso.

Mas antes haverá uma terceira categoria logo a abrir o dia e duas primeiras categorias numa dupla passagem pelo Mirador del Fito.



»»Nem Majka sabia quem era. Chama-se Óscar Rodríguez e é mais um espanhol em destaque na Vuelta««

»»Espanhóis já têm o seu líder. Inesperado e que não acreditam que dure««

5 de setembro de 2018

Yates e Mitchelton-Scott mostraram frieza, irritando Valverde e Quintana

(Fotgrafia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Depois de um Giro no qual Simon Yates foi rei e senhor durante 18 etapas, com a Mitchelton-Scott a demonstrar uma força nunca antes vista no controlo de uma grande volta, mas que depois viu todo o trabalho desmoronar-se na 19º etapa, tanto o ciclista como a equipa mostraram agora na Vuelta que aprenderam algumas lições. Uma delas: se puderes poupar força no controlo da etapa, poupa e passa a responsabilidade ao próximo. O próximo, ou neste caso, a próxima, foi a Movistar, que se viu obrigada a perseguir uma fuga que incluiu um Thibaut Pinot que chegou a ser líder virtual. No final, tudo ficou na mesma no topo da classificação geral, contudo, as hostilidades entre as duas equipas estão abertas.

Apesar de ter na sua posse a camisola vermelha da liderança, a Mitchelton-Scott optou por deixar a frente do pelotão quando ainda faltava quase metade da etapa por concluir. Foi a mais longa da Vuelta, com 207,8 quilómetros entre Mombuey e Ribeira Sacra, Luintra e foi muito, muito atacada. Não houve paz para ninguém no constante sobe e desce. A equipa australiana e o seu líder, Simon Yates, optaram por mostrar uma tremenda frieza, arriscando mesmo a camisola vermelha. Ao não trabalhar, obrigaram a Movistar a assumir um papel que na maioria das vezes pertence a quem tem o ciclista no primeiro lugar. Porém, a Mitchelton-Scott fez-se valer do estatuto da Movistar, que está na Volta a Espanha com uma equipa fortíssima e com dois ciclistas na luta pelo triunfo, que actualmente estão em segundo e terceiro lugar.

A Movistar cumpriu a missão de terminar com uma aventura de Thibaut Pinot, que andou cerca de cem quilómetros em fuga. Tinha 2:33 de diferença no início do dia. Fugiu à procura de uma vitória de etapa e tentar subir um pouco na geral. A liderança virtual não assustou ninguém, mas a Movistar é que não quis ver o francês reentrar na luta e Pinot só acabou por recuperar 13 segundos. Ainda assim, o ciclista da Groupama-FDJ - que já teve um ciclista seu com a camisola vermelha, Rudy Molard - ficou contente com o que fez na etapa.

Esse não era o espírito de Alejandro Valverde e Nairo Quintana. Estavam bastante insatisfeitos. Ambos criticaram a Mitchelton-Scott de se aproveitar o trabalho da equipa espanhola. Valverde ataca a equipa australiana dizendo que gostam de "ir à borla", mas também se "atirou" às restantes formações: "Parece que as outras equipas não sabem correr." Já Quintana disse: "A sua [da Mitchelton-Scott] forma de correr é essa, sempre na roda e aproveitando o trabalho dos outros."

O colombiano salientou que a Movistar assumiu a responsabilidade de perseguição por querer preservar as posições dos seus dois principais ciclistas. Quintana é terceiro, a 14 segundos e Valverde segundo, a um. E é precisamente com essa intenção da equipa espanhola que jogou e provavelmente voltará a jogar a Mitchelton-Scott.

A resposta de Simon Yates não deixa dúvidas da táctica escolhida: "Estamos confiantes. A equipa fez um bom trabalho nos primeiros cem quilómetros. Foi um início difícil e caótico, que já estávamos à espera. Depois, a Movistar perseguiu, porque tem de o fazer. Não temos homens suficientes para controlar a etapa por mais de cem quilómetros. Eles têm os melhores homens aqui [na corrida]." Yates reforçou que naturalmente que Pinot é considerado um ciclista perigoso. "Não podemos controlar o dia todo e tivemos de correr alguns riscos e esse foi o risco que tomámos", salientou.

Mas é caso para dizer que é um risco controlado e uma jogada que só mais à frente na Vuelta se irá perceber se funciona. A Movistar está numa excelente posição para conquistar a Vuelta e, como equipa da casa e depois de um Tour que foi uma desilusão, a pressão é grande para obter um bom resultado que passa pela vitória na geral. As duas vitórias de etapa de Valverde são boas, mas não chegam, ainda mais quando há um ano a Movistar passou praticamente ao lado da corrida, ao não levar nenhum dos seus líderes.

Desta feita, só não levou os três porque Mikel Landa lesionou-se com gravidade na Clássica de San Sebastian. Se a Lotto-Jumbo, por exemplo, já tem assumido algumas despesas na frente do pelotão, todas as equipas irão sempre tentar usar a Movistar como um "escudo", obrigando a formação espanhola a desgastar-se e talvez assim, quando a alta montanha regressar, as restantes equipas estejam mais frescas. A Mitchelton-Scott está agora no centro das críticas da Movistar, mas já quando a Sky ou a Groupama-FDJ lideraram a Vuelta, a Movistar acabou sempre na frente do pelotão, ao ver que nenhuma tinha capacidade - ou no caso da Sky por não querer - de realizar o trabalho necessário, no ritmo necessário para controlar a corrida.

Etapa de nervos

Com esta animosidade entre as duas equipas, a etapa de quinta-feira ganha ainda mais interesse. A alta montanha regressa sexta-feira, mas com um percurso perto da costa, o vento poderá ter um papel importante nesta Vuelta na 12ª tirada. Os "abanicos", utilizando a expressão espanhola, serão um perigo constante se as previsões de vento se confirmarem, ao longo dos 181,1 quilómetros entre Mondoñedo e Faro de Estaca de Bares, na região da Galiza. A Movistar tem um passado de más memórias com este tipo de etapas.

Espera-se uma etapa de nervos, sendo que a desta quarta-feira foi tudo menos calma. Com ataques e contra-ataques, foi Alessandro de Marchi que finalmente regressou às grandes vitórias. Tantas são as vezes que se vê este italiano em fugas e, pode não ganhar muito, mas quando o faz, é sempre de nota: foi a terceira etapa na Vuelta, ao que se junta uma no Critérium du Dauphiné. Desde 2015 que De Marchi procurava este triunfo, abrilhantando ainda mais o adeus da BMC, que está a realizar a sua última grande volta com este nome. Foi a segunda vitória de etapa da equipa em Espanha, depois de Rohan Dennis ter ganho o contra-relógio e vestido a camisola vermelha. Richie Porte não conseguiu recuperar a forma para lutar pela geral depois da queda no Tour, mas a equipa já tem razões para sair de cabeça erguida da Vuelta.

Nas classificações, Valverde recuperou a camisola verde, deixando agora Peter Sagan a dois pontos. Luis Ángel Maté (Cofidis) não larga a camisola da montanha ainda que a concorrência vai começando a preparar-se para as etapas de alta montanha (cuidado com Bauke Mollema, da Trek-Segafredo). A Lotto-Jumbo está em primeiro na tabela por equipas, com Valverde a manter-se senhor do prémio combinado, mas Ben King (Dimension Data) vestirá novamente a camisola por empréstimo.

José Mendes (Burgos-BH) cortou a meta a 4:23 de De Marchi e é o melhor português na geral, na 73ª posição, a 48:05 minutos de Yates. Tiago Machado (Katusha-Alpecin) terminou a etapa a 5:04 do vencedor, Nelson Oliveira (Movistar) a 8:16 e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) a 31:40.

Pode ver aqui as classificações após a 11ª etapa.




4 de setembro de 2018

Queda grave de Petilli marcou etapa. Italiano ficou inconsciente mas já recebeu alta hospitalar

Italiano estava a fazer a sua estreia na Vuelta
(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Dia de susto na Vuelta com Simone Petilli a sofrer uma queda aparatosa que o deixou inconsciente. O ciclista da UAE Team Emirates foi de imediato assistido pelos médicos, sendo transportado para o hospital. A equipa já confirmou que o italiano sofreu uma concussão cerebral, mas os exames revelaram não existir qualquer problema neurológico. Se a nível de saúde do corredor é uma boa notícia, dentro do possível, já desportivamente, a formação de Fabio Aru fica sem o seu segundo homem, pois Daniel Martin não partiu para a 10ª etapa. São apenas três as desistências na Volta a Espanha, duas na mesma equipa.

Petilli é uma das jovens apostas da UAE Team Emirates e que transitou do tempo da Lampre-Merida. Tem 25 anos e estava a realizar a sua terceira grande volta, a estreia na Vuelta, depois de dois Giros. A queda aconteceu ao quilómetro 41 dos 177 entre Salamanca e Fermoselle, Bermillo de Sayago e envolveu ainda Jelle Wallays (Lotto Soudal). O italiano ficou imóvel, sendo depois confirmando que perdeu a consciência, mas ao recuperá-la, rapidamente reconheceu o médico da corrida, que foi o primeiro a socorrê-lo.

"Ele também sofreu um corte profundo no sobrolho esquerdo, que precisou de pontos e alguns dentes ficaram partidos. Ele está agora no Hospital Zamora numa condição boa e estável. Ele é capaz de interagir com o médico da equipa Michele de Grandi", lê-se num primeiro comunicado da equipa, no qual é assegurado que os exames excluíram problemas neurológicos. Já ao início da noite, a UAE Team Emirates anunciou que o ciclista recebeu alta hospitalar e ia passar a noite no hotel da equipa.

É a segunda queda grave de Petilli em menos de um ano. Em Outubro, na Lombardia, o italiano sofreu uma comoção cerebral e fracturou uma vértebra, a clavícula e a omplata.

Com algumas quedas já a marcarem a Vuelta, nenhuma tinha sido tão grave. E desportivamente é então um rude golpe para uma equipa que viu Dan Martin regressar a casa no dia de descanso (segunda-feira). O irlandês prepara-se para ser pai de gémeas e com uma inesperada possível antecipação do parto, o ciclista pediu aos responsáveis da UAE Team Emirates para abandonar a corrida e assim acompanhar a mulher neste momento especial da sua vida. A autorização chegou sem qualquer surpresa, ainda que isso significasse a perda de um corredor que poderia estar na luta por alguma etapa e na ajuda a Fabio Aru na geral, já que Martin estava sem qualquer aspiração nesse sentido.

Com a perda de Petilli, são apenas seis os ciclistas que continuam em prova pela equipa dos Emirados. Só outra formação já perdeu um corredor. Maurits Lammertink, da Katusha-Alpecin, foi o primeiro abandono da Vuelta, ao não partir para a etapa oito, devido a persistentes dores abdominais.

Segunda vitória para Viviani

Quanto à etapa, foi um dia em que se cumpriram as expectativas. Na perspectiva portuguesa, o destaque vai para mais uma fuga de Tiago Machado (Katusha-Alpecin), mas ainda não foi esta a que vingou. As equipas dos sprinters conseguiram concretizar a pretensão de dar aos seus ciclistas a possibilidade de discutir a vitória. A Quick-Step Floors foi perfeita e Viviani não teve concorrência à altura. Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) foi novamente segundo. Foi a terceira vez que ficou nesta posição na Vuelta, somando ainda um terceiro e um nono lugar, o que o ajudou a tirar a camisola verde a Alejandro Valverde (Movistar), liderando com mais dois pontos.

Viviani junta-se a Valverde e Ben King (Dimension Data) como vencedor de duas etapas na 73ª Volta a Espanha.

Os últimos quilómetros acabaram por ser de grande nervosismo para alguns dos candidatos, incluindo o dono da camisola vermelha, Simon Yates. O ciclista da Mitchelton-Scott sofreu dois furos, um mal que atingiu vários corredores, como Nairo Quintana, Nelson Oliveira (Movistar) e Wilco Kelderman (Sunweb), entre outros. O holandês ainda teve um problema mecânico que o fez perder mais de um minuto para o pelotão. Porém, estava dentro dos três quilómetros finais, pelo que lhe foi registado o tempo do vencedor da 10ª tirada.

Esta foi uma etapa de transição que contrariou o que muito acontece nas grandes voltas. Ou seja, o dia a seguir ao descanso tem alguma dureza ou é um contra-relógio (como vai acontecer na próxima semana). É nesta quarta-feira que regressa o sobe e desce da Vuelta, com três terceiras categorias - uma perto do fim - e uma segunda. Será a etapa mais longa da corrida, com 207,8 quilómetros entre Mombuey-Ribeira Sacra, Luintra. A alta montanha regressa na sexta-feira, com muita acção (assim se espera) até domingo.


Pode ver aqui as classificações completas. A única mudança de camisola foi a verde. Simon Yates continua líder da geral, com um segundo de vantagem sobre Valverde, que vai voltar a vestir a camisola do prémio combinado, que estava "emprestada" a King enquanto tinha a verde. Luis Ángel Maté (Cofidis) lidera na montanha e a Lotto-Jumbo por equipas.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) e José Mendes (Burgos-BH) terminaram a etapa no pelotão, enquanto Tiago Machado e Nelson Oliveira perderam 22 segundos.



10 de agosto de 2018

Chaves regressou aos treinos dez semanas depois do Giro. Vuelta está fora de questão

Chaves em acção no Giro, naquela que foi a sua última corrida
este ano (Fotografia: Giro d'Italia)
A Mitchelton-Scott revelou o que aconteceu com Johan Esteban Chaves num Giro em que surgiu com tanta ambição e acabou por sofrer um autêntico martírio apenas para chegar ao fim. Desde então que o ciclista tem estado fora da bicicleta e em recuperação do que a equipa divulgou agora ser uma mononucleose. Foi uma longa paragem e a Volta a Espanha está completamente fora de questão. Aliás, nem está definido quando se verá novamente Chaves na estrada este ano.

"Tem sido um período difícil. Desde 2012 que não estava há tanto tempo longe da bicicleta. Neste desporto estamos habituados às respostas e aos resultados aparecerem rapidamente e este processo tem sido lento. E o tempo pode deixar-te doido", afirmou Chaves, citado no comunicado para equipa. O colombiano disse que foi mesmo operado e que tem agora de reencontrar a confiança para "ultrapassar este estranho caso". Está, naturalmente, feliz por poder pedalar outra vez, ainda que tenha admitido que lhe custe um pouco após uma paragem tão longa.

Manuel Rodriguez, o médico da Mtichelton-Scott, explicou que acredita que os tratamentos foram eficazes, mas Chaves vai ser acompanhado de perto, pelo que não é possível estabelecer ainda um regresso à competição até se ter os dados dos treinos do ciclista de 28 anos.

Tem sido mais uma época para esquecer de Chaves. Depois do pódio no Giro e Vuelta e a conquista do monumento Il Lombardia em 2016, o colombiano partiu com grandes aspirações para 2017. Uma lesão no joelho acabaria por o limitar durante grande parte da temporada. Não se mostrou no Tour, nem na Vuelta. Esta temporada apareceu bem no Giro, ganhou a etapa do Monte Etna, mas poucos dias depois, após o descanso, Chaves teve uma quebra brutal e passou grande parte da corrida na parte de trás do pelotão. Há uns anos, quando tentava afirmar-se, Chaves sofreu uma queda que quase acabou com a sua carreira.

Recentemente, Mark Cavendish e Beñat Intxausti foram outros dois ciclistas que também sofreram de mononucleose. O britânico da Dimension Data voltou a competir algumas semanas depois, mas o espanhol, em três temporadas na Sky, pouco tem conseguido participar em corridas.

5 de agosto de 2018

Há um novo Chaves na Mitchelton-Scott

(Imagem: Print Screen)
Com Johan Esteban Chaves a viver mais uma fase difícil na sua carreira, eis que a Mitchelton-Scott abriu as portas a outro Chaves. O Brayan. Tem 21 anos e está a tentar seguir as pisadas do irmão mais velho. Depois de seis meses na equipa desenvolvimento, recebeu a oportunidade para estagiar até ao final do ano na principal e o primeiro teste é já na Volta a Utah.

São sete os anos que o separam, mas também as características. Brayan é descrito pelo pai como um ciclista que se adapta a todo o tipo de terreno, ou seja, ainda está na fase de evolução, para se perceber no que poderá tornar-se. Certo é que tem uma qualidade que o irmão bem gostaria: tem um bom contra-relógio. Quando Brayan foi contratado pela equipa australiana, a de sub-23, Jairo, o pai, não escondeu o orgulho. Numa entrevista ao jornal colombiano El Espectador, contou como ele próprio quis ser ciclista, mas não encontrou nos pais o apoio necessário para seguir a carreira. Quando Johan Esteban Chaves nasceu, Jairo não perdeu tempo em influenciá-lo para a modalidade e ainda bem que o fez. Apesar de uma queda quase ter acabado com a carreira do ciclista, este tornou-se num dos mais populares do pelotão, mas as lesões e os problemas de saúde não lhe têm permitido estar constantemente ao mais alto nível.

Recentemente, teve uma quebra física atroz na Volta a Itália, tendo chegado a terminar, mas completamente afundado na classificação geral, a mais de três horas do vencedor, Chris Froome (Sky). No entanto, não mais competiu e a equipa já anunciou que Chaves estará afastado da competição até estar completamente recuperado, ainda que se continue sem saber ao certo o que se passa com o colombiano.

Brayan cresceu assim num ambiente em que se respirava ciclismo. Sem surpresa, apaixonou-se também ele pelas bicicletas. Irá ter um maior protagonismo neste iníco de carreira devido ao apelido que tem e demonstra um enorme entusiasmo por estar mais perto de chegar ao mais alto nível. "Agora vou competir com ciclistas do World Tour. É um nível diferente para mim. Não tenho palavras para descrever o que sinto. Quero aprender o máximo possível e ver-me a competir com a camisola da Mitchelton-Scott é simplesmente fenomenal", disse o ciclista ao ser chamado à equipa principal.

Para o director desportivo, Matt White, começar no Utah é uma "boa oportunidade para ganhar experiência valiosa", realçando que sendo uma corrida feita em altitude, será uma vantagem para Chaves. A temporada para o jovem Chaves até tem sido de altos e baixos. A adaptação ao ciclismo europeu está marcada por algumas desistências, como no Giro e no Paris-Roubaix para sub-23. Ainda assim, o que fez de bom convenceu os responsáveis da formação australiana a chamarem-no como estagiário.

Apesar de ser difícil não pensar que poderá ter havido uma recomendação de Chaves "sénior" para a contratação do irmão, o pai não confirma, querendo antes que se veja a aposta da Mitchelton-Scott como uma valorização do que Brayan estava a fazer no seu país. Na entrevista ao El Espectador deixou um conselho ao filho mais novo: "Ensinámos ao Brayan que não se deve comparar com o Esteban, que leva sete anos de vantagem. Tem de fazer o seu caminho. É compreensível que não quer ser o irmão de Esteban, mas construir o seu próprio nome no ciclismo mundial. Como pais, temos que trabalhar muito porque quando não está bem, chega a duvidar que não vai ser tão bom como o irmão."

Brayan não irá escapar às comparações e de ser referido como o irmão de Johan Esteban Chaves. Agora é ver se consegue afirmar-se e certo é que recebe o apoio de uma equipa que tem formado bons ciclistas. O seu irmão é exemplo disso, tal como os irmãos Yates, Caleb Ewan...

A Volta a Utah começa esta segunda-feira e conta com corredores como Tejay van Garderen (BMC), Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale), com a Trek-Segafredo e a Lotto-Jumbo a serem as outras equipas do World Tour presentes.

Aqui fica o vídeo, no qual o irmão mais velho apresenta Brayan, quando este foi anunciado para a equipa de desenvolvimento, no final do ano passado.