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29 de agosto de 2018

O futuro incerto de Mark Cavendish

(Fotografia: Stiehl Photgraphy/Dimension Data)
A notícia dificilmente poderia ter chegado na pior altura. O vírus Epstein-Barr tem estado novamente a limitar Mark Cavendish, que vai parar por tempo indeterminado até recuperar a 100%. Já no ano passado o britânico sofreu com este problema, que na altura provocou mesmo uma mononucleose infecciosa. Com os resultados a escassearem, em final de contrato e com 33 anos, o futuro daquele que já foi considerado o melhor sprinter do mundo está muito incerto.

A Dimension Data anunciou que todo o calendário do ciclista foi cancelado. "Os resultados médicos indicaram que Cavendish tem estado nos últimos meses, sem saber, a treinar e competir com o vírus Epstein-Barr", lê-se no comunicado, que realça como o conselho médico foi de descanso para recuperar completamente. Sem um tratamento específico, Cavendish está dependente de como o seu corpo vai reagir à paragem. Pela frente tem pelo menos duas semanas a um mês de descanso total, mas o tempo poderá ser mais.

Em 2017, o ciclista temeu que poderia ficar longe das corridas durante muito tempo, mas em três meses conseguiu estar novamente a competir e inclusivamente foi ao Tour. Com a actual temporada na recta final e já sem muitos objectivos, Cavendish terá ainda de se preocupar com a questão em qual equipa irá competir em 2019.

Depois de uma primeira época de muito sucesso na Dimension Data, com 10 vitórias, quatro no Tour, Cavendish apagou-se nas duas temporadas seguintes. Em 2017 e 2018 somou uma vitória apenas em cada temporada. Muito pouco para um dos ciclistas mais caros do pelotão. Nos primeiros meses deste ano, venceu uma etapa na Volta ao Dubai, mas depois sofreu uma série de quedas que também contribuíram para o seu fraco rendimento. Foi contra um carro que activou automaticamente os travões ao detectar ciclistas na Volta ao Dubai, caiu no contra-relógio colectivo que abriu o Tirreno-Adriatico, recuperou a tempo da Milano-Sanremo, onde foi contra uma divisória na estrada, fazendo um mortal antes de cair desamparado na estrada.

Porém, o problema do britânico ia, afinal, muito além de um arranque de época azarado. O ciclista explicou no comunicado que não se tem sentido como habitualmente a nível físico, apesar dos valores apresentados serem bons. "Senti que algo não estava bem", disse. Cavendish está satisfeito por agora conhecer o problema, comprometendo-se a regressar às corridas só quando estiver em perfeitas condições.

A Dimension Data tem uma decisão importante a tomar. A equipa tem sempre mantido o apoio ao seu ciclista, que em 2016 foi para a formação sul-africana como a grande estrela, no ano em que subiu ao World Tour. No entanto, com a baixa de rendimento de Cavendish, desceram também o número de vitórias. Este ano são apenas seis e na terça-feira Ben King quebrou o jejum de mais de um ano sem triunfos a nível do World Tour. Em 2017, por esta fase da temporada, a Dimension Data somava 23 dos 25 que viria a ter, mesmo com Cavendish já a perder influência. No primeiro ano no escalão máximo, somou 32 triunfos.

Uma renovação da equipa é algo essencial para recuperar o fulgor perdido. A culpa não é apenas de Cavendish, pois Louis Meintjes, por exemplo, regressou para ser a figura para as três semanas e noutras corridas por etapas, mas tem andado quase desaparecido. Steve Cummings está a ter um ano para esquecer. As contratações já estão a ser feitas, começando pelo dinarmarquês Michael Valgren (ciclista da Astana que este ano venceu a Omloop Het Nieuwsblad e a Amstel Gold Race), o compatriota Lars Ytting Bak (Lotto Soudal), o checo Roman Kreuziger (Mitchelton-Scott) e o suíço Danilo Wyss (BMC). Também está garantida uma jovem promessa norueguesa, Rasmus Tiller, da equipa Continental, Joker Icopal.

Se Cavendish perder o seu lugar na Dimension Data, permanecerá a dúvida se alguma equipa quererá fazer um investimento tão grande num ciclista que, infelizmente, já não oferece as garantias de outrora. E este problema de saúde será sempre mais um pormenor a ponderar, pois não tem cura e poderá voltar a afectar o ciclista. Mesmo que diminua as suas exigências salariais, o futuro de Cavendish é dos mais incertos no pelotão.

18 de julho de 2018

Cavendish e Kittel estão fora da Volta a França

(Fotografia: © Stiehl Photography/Dimension Data)
Foi por menos de um minuto que se salvaram na primeira etapa nos Alpes, na terça-feira, mas à segunda foi de vez. Mark Cavendish e Marcel Kittel falharam o tempo limite para terminar a tirada e podem fazer as malas para regressar a casa. Dois dos sprinters que mais venceram nos últimos anos na Volta a França saíram pela porta mais pequena.

Cavendish está "apenas" a quatro triunfos de igualar Eddy Merckx... Mas todas as eras têm um fim e ver os dois serem afastados da competição na segunda semana desta forma, depois de passaram quase despercebidos nas etapas ao sprint, faz de facto pensar se estaremos no fim de uma era.

Os 108,5 quilómetros entre Albertville e La Rosière Espace San Bernardo incluíram duas categorias especiais, uma segunda e uma primeira para terminar... Não ajudou o ritmo ter sido elevado. Foi de mais para os dois sprinters que nem no grupetto se aguentaram.

Marcel Kittel tem 30 anos e poderá ser precoce pensar que ainda não tem algo mais para dar. Depois do que se viu com John Degenkolb, é melhor não dar este alemão como acabado. Ainda assim, a aposta da Katusha-Alpecin num ciclista caro, mas que parecia ser uma garantia de vitórias, está a ser completamente falhada. Kittel chegou ao Tour pressionado para ganhar. Só venceu por duas vezes em 2018, no Tirreno-Adriatico. Muito pouco.

Kittel disse adeus ao Tour sem razões para sorrir
(Fotografia: ©ASO/Pauline Ballet)
No ano passado ganhou cinco etapas na Volta a França e até estava de camisola verde até que uma queda o obrigou a abandonar, na 17ª etapa. Intimidado por um Fernando Gaviria a ganhar estatuto na Quick-Step Floors, Kittel preferiu sair a disputar o lugar com o colombiano. Sabia-se que a adaptação à Katusha-Alpecin de José Azevedo poderia demorar, até porque seria preciso construir e olear o seu comboio. Porém, o alemão tem estado mal e não pode apenas culpar o comboio, ou falta dele. Kittel não tem estado à altura dos acontecimentos. Neste Tour até se o viu baixar os braços depois de furar, não tentando reentrar no grupo da frente, quando ainda tinha tempo. Esta quarta-feira chegou fora do tempo limite. Fim da linha nesta Volta a França e muito a repensar na Katusha-Alpecin que vê ainda Ilnur Zakarin não estar à altura de disputar o Tour.

O sprinter sai da Volta a França derrotado e ainda mais pressionado, numa altura em que a nova geração de sprinters está a consagrar-se, casos precisamente de Gaviria e também de Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo). Cada um já conta duas vitórias no Tour e o colombiano ainda vestiu a camisola amarela por um dia.

Mas mais derrotado sai Mark Cavendish. É que Kittel ainda se viu nos sprints, ainda que sempre atrás de Gaviria, Groenewegen e Peter Sagan. Cavendish só se viu a ficar fora da discussão. Da Dimension Data veio a mensagem que não se deveria desvalorizar o britânico, pois este estava decidido a triunfar. No entanto, aquele Tour de 2016 terá sido o último renascer das cinzas do sprinter britânico.

Já não se esperava muito dele naquela altura, mas venceu quatro etapas e até vestiu a muito desejada camisola amarela. 2017 foi marcado pelo incidente com Peter Sagan (o eslovaco acabou expulso, acusado de ter empurrado Cavendish contra as barreiras), que levou ao abandono do britânico, e também por uma mononucleose. Uma última glória, era o que o ciclista queria nesta edição, era o que a equipa pedia. O próprio admitiu que chegar ao recorde de Merckx era o que lhe restava para alcançar na carreira. Mas este Cavendish já não dá qualquer garantias e será interessante perceber se de facto a Dimension Data vai renovar com um dos ciclistas mais bem pagos do pelotão. Se não houver um novo contrato, também não será fácil convencer outra equipa a abrir os cordões à bolsa.

Aos 33 anos, Cavendish entra numa fase em que terá de repensar a sua carreira. Há sempre espaço e tempo para mais uma grande vitória. Porém, talvez para Cavendish seja de facto o fim de uma era de um dos melhores sprinters da história.

Mark Renshaw, o eterno escudeiro de Cavendish, ficou ao lado do britânico e acabou também por ser excluído. Já Rick Zabel recebeu ordens para tentar salvar-se. Cortou a meta cinco segundos depois do tempo limite, mas a organização permitiu que o alemão se mantivesse na corrida.

Para a equipa sul-africana Dimension Data, o Dia Internacional de Nelson Mandela - se fosse vivo faria hoje 100 anos - parecia que poderia acabar muito bem, com Serge Pauwels a ser por momentos o camisola amarela virtual. No final, a sua principal estrela acabou excluída do Tour. Sem homem para geral, resta desejar que Edvald Boasson Hagen possa salvar algo para a equipa, ou que alguém aposte na fuga certa. O Giro correu mal com Louis Meintjes, o Tour não foi melhor com Cavendish. 2018 está a ser um ano muito complicado para a Dimension Data.

»»Mister Thomas, que grande etapa!«

»»Depois da típica etapa de montanha controlada pela Sky que venha uma ao estilo da Vuelta««

3 de julho de 2018

Cavendish não desiste do recorde, mas Gaviria quer começar a sua história frente aos melhores rivais do mundo

(Fotografia: Stiehl Photography/Dimension Data)
Fernando Gaviria quer roubar o foco das atenções nos sprints da Volta a França. Há um Mark Cavendish que tanto ambiciona chegar ao recorde de Eddy Merckx. Há um Marcel Kittel a precisar desesperadamente de um bom Tour. Há um Arnaud Démare a querer ser a estrela francesa neste tipo de etapas, com um Christophe Laporte desejoso de lhe tirar esse estatuto, agora que "encostou" Nacer Bouhanni. Há um André Greipel a querer provar que ainda tem algo para dar. Teremos um Dylan Groenewegen a querer afirmar-se definitivamente entre os melhores. E há um Peter Sagan com vontade de vingar a expulsão de há um ano e ir buscar mais uma camisola verde (dos pontos). Os melhores sprinters no palco mais importante do ciclismo.

Gaviria pode estar apenas a fazer a sua estreia no Tour, sendo a sua segunda grande volta depois de um Giro de sucesso em 2017 (quatro vitórias de etapas e classificação por pontos), mas o colombiano da Quick-Step Floors surge como favorito a dominar os sprints, até porque, apesar de uma temporada marcada por algumas quedas, ainda assim tem sido dos que mais tem vencido, só batido por Groenewegen. Porém, antes da corrida começar, Mark Cavendish tem a capacidade para conseguir desviar um pouco as atenções para si, mesmo que já vá perdendo algum protagonismo. Vai para o 12º Tour e faltam-lhe quatro vitórias de etapa para igualar Merckx.

Cavendish tem tido uma época terrível. Caiu na Volta a Abu Dhabi quando os sensores de segurança do carro do comissário dispararam ao detectar ciclistas. Activou os travões e Cavendish ia atrás do veículo. Caiu e foi para casa. Regressou à competição pouco depois no Tirreno-Adriatico. Caiu no contra-relógio colectivo inaugural, terminou a etapa muito mal tratado, mas foi excluído da corrida por chegar fora do tempo limite. Recuperou a tempo de estar na Milano-Sanremo... Foi contra uma divisória na estrada, fez um mortal, caiu desamparado e mais uma paragem forçada. Isto tudo depois de um 2017 marcado por uma mononucleose.

Aos 33 anos, Mark Cavendish está em final de contrato, ainda que a Dimension Data já tenha avançado que gostaria de manter o sprinter. Vamos a ver é se vai continuar a ser dos mais bem pagos. Mas com o aproximar do Tour, não é dinheiro que está no pensamento de Cavendish. São as vitórias. Pode dizer que não está obcecado pelo recorde, mas quando se está tão próximo de ser autor de um pedaço de história tão relevante como ser quem mais etapas ganhou na corrida mais importante no ciclismo...

No auge da sua carreira pareciam restar poucas dúvidas que Cavendish iria conseguir. No entanto, o britânico começou a "apagar-se", muito por culpa de um senhor chamado Marcel Kittel e de uma forte contribuição de Peter Sagan. Mas aquele Tour de 2016 foi de Cavendish, no que a sprints diz respeito. Quatro triunfos e, de repente, voltava-se a acreditar que era possível chegar à marca de Merckx. 2017 voltou a estragar os planos e não ajudou ter ido para casa mais cedo depois do "desentendimento" com Sagan.

Agora estamos novamente na fase que, apesar de estar tão perto, pensa-se que será muito complicado, principalmente se Gaviria roubar mesmo o foco das atenções àqueles que já praticamente todos sabem o que é ganhar no Tour. Mas em 2016 também se pensava assim e foi o que se viu. Cavendish tem a capacidade para se reinventar quando mais precisa. Chegou o momento de talvez uma última reinvenção para alcançar um lugar muito particular na história, ou pelo menos colocá-lo a uma distância que mais um ou dois Tour o permita alcançar as 34 vitórias e, quem sabe, ultrapassá-las.

O Laporte tirou o lugar a um Nacer Bouhanni em rota de colisão com o director da Cofidis, Cédric Vasseur. Contudo, Bouhanni não está sozinho na frustração de ver de fora o Tour. Caleb Ewan também parecia ser uma presença mais do que provável, mas o pequeno australiano foi preterido numa Mitchelton-Scott que quer tentar levar Adam Yates à luta por um pódio. Esta é uma crença fortalecida depois do que aconteceu no Giro com o irmão Simon. É certo que tudo se desmoronou perto do fim, mas a equipa demonstrou que tem capacidade para se debater por algo mais que um top dez. Por isso, não houve espaço para ter Ewan nos sprints.

Na lista no início do texto não se incluiu Michael Matthews, mas não por esquecimento. É mais um ciclista com uma temporada abaixo das expectativas, apesar de ter aparecido bem na Volta à Suíça. Matthews quer tentar repetir a conquista da camisola verde (vai estar muito activo nos sprints intermédios), mas no que a sprints finais diz respeito, irá procurar chegadas com algumas ligeiras inclinações. Aquelas que Sagan também tanto gosta, mas que Cavendish e Kittel, por exemplo, dispensam.

Dylan Groenewegen não se dá mal em praticamente nenhum tipo de terreno para o sprint, seja plano, ou com alguma pequena dificuldade. Este holandês, também ele um sprinter nova geração, poderá muito bem ser um ciclista a criar uma rivalidade com Gaviria. São dois ciclistas de estrutura física e características como ciclistas idênticas e este Tour poderá marcar uma início de uma bonita rivalidade. Há que não esquecer que Groenewegen até já ganhou no Tour e logo nos Campos Elísios.

Naquelas etapas longas, que se não forem os "abanicos" pouco ponto de interesse têm, pelo menos fica a garantia que no final estarão lá os melhores sprinters do mundo. Uns fizeram uma época melhor que outros até ao momento, mas no Tour tudo pode mudar e é esta corrida que pode marcar o ano. E vamos ter o desejado frente-a-frente entre Gaviria e Kittel, depois do alemão ter trocado a Quick-Step Floors pela Katusha-Alpecin por não querer arriscar ficar em segundo plano para o colombiano no Tour. Uma rivalidade particular, numa especialidade do ciclismo que pode ser de emoção curta, mas que se espera que seja espectacular perante os protagonistas presentes.

Vitórias dos sprinters em 2018

➠ Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo): 9

➠ Fernando Gaviria (Quick-Step Floors): 7 (+ 2 classificações por pontos)

➠ André Greipel (Lotto Soudal): 6 (+ 1 classificação por pontos)

➠ Christophe Laporte (Cofidis): 6 (+ 1 classificação por pontos)

➠ Peter Sagan (Bora-Hansgrohe): 5 (+ 2 classificações por pontos)

➠ Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida): 3

➠ Marcel Kittel (Katusha-Alpecin): 2

➠ Arnaud Démare (Groupama-FDJ): 2

➠ Mark Cavendish (Dimension Data): 1

➠ Michael Matthews (Sunweb): 1

»»Bouhanni perdeu o sprint para o Tour contra Laporte««

»»Uma Volta a França sem ciclistas portugueses««

7 de março de 2018

Cavendish candidato a azarado do ano

(Imagem: print screen)
Desejoso de deixar bem enterrado no passado o incidente da Volta a França, Mark Cavendish está a ser perseguido pelo azar. Duas quedas nas primeiras etapas de duas corridas! Numa abandonou ainda nem o pelotão estava a preparar-se para o arranque oficial, na outra nem teve tempo de decidir se abandonaria ou não, pois chegou fora do tempo limite no contra-relógio colectivo, ganho pela BMC. "A minha mãe diz que as coisas más acontecem às três. Esta foi a terceira, portanto vamos esperar que tenham desaparecido e que possamos trabalhar e ter uma fase decente", desabafou o director desportivo da Dimension Data, Roger Hammond.

Na equipa sul-africana nem se tenta esconder o desalento por mais esta queda de Mark Cavendish. O ciclista cortou a meta em Lido di Camaiore com o rosto ferido, a inchar, mas as marcas estendiam-se a mais zonas do corpo. "Foi uma queda grave. Mesmo grave. As quedas nos contra-relógios colectivos nunca são boas. Por definição eles vão muito rápido. Foi uma rajada de vento que não se estava à espera. Foi uma daquelas quedas em que te levantas e não sabes o que aconteceu", explicou Hammond. Apesar de na transmissão televisiva não terem sido mostradas imagens, o responsável afirmou que a equipa gravou o que aconteceu e vai agora analisar.

Uma queda nunca vem numa boa altura, mas esta deixa a Dimension Data a fazer contas sobre o futuro próximo de Mark Cavendish. O britânico queria disputar etapas no Tirreno-Adriatico - principalmente a desta quinta-feira -, mas com o pensamento na Milano-Sanremo, agendada para 17 de Março. O ciclista foi transportado para o hospital e no momento em que este texto é escrito ainda não há relato das consequências do incidente.

"Definitivamente as coisas não estão a decorrer a nosso favor e é muito frustrante. Começou-se bem no Dubai, mas agora...", disse Rolf Aldag, outro director, citado pelo Cycling News. Cavendish venceu a terceira etapa na Volta ao Dubai, foi segundo no primeira em Omã, mas depois em Abu Dhabi foi vítima de um acidente no mínimo insólito. Ainda nos quilómetros neutralizados, Cavendish foi contra o carro da organização. A RCS Sport admitiu que os veículos estavam equipados com o sistema de segurança de travagem, ou seja, quando uns ciclistas colocaram-se ao lado do carro, este activou automaticamente o travão. Quem vinha atrás... Cavendish bateu com a cabeça no chão e o ombro também não ficou muito bem. Nem começou a Volta a Abu Dhabi. Cinco semanas depois, o britânico regressa à competição... e acaba de novo a bater com a cabeça no chão.



A caminho dos 33 anos, Cavendish começou a temporada optimista depois de um 2017 para esquecer. Somou apenas uma vitória, em Abu Dhabi, sofreu de mononucleose que o limitou grande parte da época, obrigando-o mesmo a parar. Conseguiu recuperar a tempo de ir ao Tour, mas na quarta etapa esteve envolvido no incidente que terminou com uma queda muito aparatosa do britânico e uma muito discutível expulsão de Peter Sagan da corrida. Dois meses depois Cavendish regressou, mas sempre a pensar mais no ano seguinte e nos quatro triunfos que lhe faltam para igualar Eddy Merckx em conquistas de etapas na Volta a França.

Com tanto azar depois de um 2016 de tanto sucesso e que trouxe de volta o míssil da Ilha de Man aos grandes momentos - destacam-se as quatro tiradas no Tour e o sonho cumprido de vestir a camisola amarela -, a força mental de Cavendish está a ser constantemente colocada à prova. Falta saber se o mau aspecto das lesões correspondem ou não a lesões graves, mas estará sempre em causa mais uma recuperação física.



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29 de janeiro de 2018

Cavendish já sabe o que poderá fazer depois do ciclismo. E continua a ser sobre rodas

(Fotografia: Scott Mitchell/Dimension Data)
Trinta etapas na Volta a França. Faltam quatro para igualar o recorde de Eddy Merckx e aos 32 anos, Mark Cavendish está concentrado em recuperar a melhor forma e deixar para trás um 2017 marcado por uma mononucleose e a violenta queda na Volta a França. Porém, ao ser questionado sobre o seu futuro pós-ciclismo, o britânico não esconde que tem outra paixão e que não se importaria de a seguir a desportivamente.

Mark Cavendish foi entrevistado pela Esquire, na versão para o Médio Oriente, e admitiu o quanto gosta daquela zona do globo, principalmente Abu Dhabi, onde quando terminar a carreira de ciclista não se importará de ir viver. Começando por recordar que está há umas semanas no local e que até esteve no Grande Prémio de Fórmula 1, em Novembro, essa revelação acabou por servir de mote para a conversa sobre o seu futuro quando deixar as bicicletas.

"Acho que não seria suficientemente bom", realçou quando questionado se poderia tornar-se num piloto de automóveis. "Todos pensam que é como conduzir um carro em passeio, mas não é bem a mesma coisa. Para ser honesto, prefiro mais as motos. Gostaria antes de competir nelas", afirmou. De imediato o jornalista perguntou: "Então é isso que se segue? Depois do ciclismo?" Resposta: "Muito seriamente, penso que sim." E para que não se tenha dúvidas desta sua paixão das duas rodas, mas com motor, Mark Cavendish tem várias motos... Talvez 20, pois nem tem bem a certeza quantas estão na sua garagem.

Mas que descansem os fãs de Cavendish, o britânico não tem planos para se retirar do ciclismo para já. No entanto, confessou que fazer 30 anos foi algo que o deixou algo perturbado, por uns momentos. "Pensei que me ia 'passar', pensei que ia comprar um carro desportivo", disse, bem humorado. Porém, a família acabou por ser uma enorme inspiração para enfrentar a nova década na sua vida. "A um mês de fazer 30 anos, recordo-me que era o aniversário da minha filha e que a minha mulher estava grávida. Sentei-me e vi-a a andar de um lado para o outro, a garantir que estavam todos bem e a Delilah estava com o seu vestidinho, só me lembro de pensar: 'Que mais posso querer quando fizer 30?' Não poderia desejar alcançar mais e não poderia desejar ter uma melhor família", salientou.

Convidado a deixar um conselho a si próprio se tivesse 21 anos, Cavendish diria: "Pára de lutar contra o mundo. O mundo não está contra ti. Só parece que sim, às vezes. Livra-te daquele chip no teu ombro. Quando agora olho para trás, eu era apenas um homem zangado, a lutar contra toda a gente."

E numa altura em que a segurança dos ciclistas na estrada voltou a ser muito falada após o atropelamento de Laurens de Plus e Petr Vakoc (Quick-Step Floors) quando treinavam na África do Sul, Cavendish deixou a sua mensagem. "Na bicicleta és uma pessoa só. As pessoas nos carros deveriam ter atenção, mesmo que alguém esteja zangado, você está protegido na sua concha e a segurança deles [ciclistas] está nas suas mãos. Por isso, tenha cuidado ao zangar-se e nas suas reacções para com eles", apelou.

Mark Cavendish vai arrancar a sua temporada, a terceira na Dimension Data (está em final de contrato), precisamente no Médio Oriente, primeiro no Dubai, de 6 a 10 de Fevereiro e depois na Volta a Abu Dhabi, de 21 a 25 do mesmo mês. O seu grande objectivo de temporada (e de carreira) é chegar ao número 34 em etapas no Tour e de preferência chegar ao 35 e passar assim a ser ele o recordista.


27 de dezembro de 2017

Vídeo-árbitro chega ao ciclismo e logo nas principais corridas

O caso Sagan no Tour acabou por levar à aplicação do VAR em 2018
(Imagem: print screen)
A UCI não perdeu tempo. Em três semanas passou das palavras à prática e 2018 irá marcar a estreia do vídeo-árbitro. A opção de implementar este sistema foi anunciada quando foi enterrado o machado de guerra com a Bora-Hansgrohe. A expulsão de Peter Sagan do último Tour, após ter estado envolvido na violenta queda de Mark Cavendish durante um sprint, esteve no centro de uma das grandes polémicas do ano. Apesar de não ter sido assumido publicamente que a sanção terá sido demasiado severa, foi então decidido aplicar o sistema conhecido por VAR (sigla em inglês para video assistant referee, isto é, árbitro assistente de vídeo).

Ao contrário do que tem acontecido no futebol, por exemplo, os testes vão ser feitos logo nas principais corridas, ou seja, nas três grandes voltas (Giro, Tour e Vuelta), em quatro dos cinco monumentos (Milano-Sanremo, Volta a Flandres, Paris-Roubaix e Liège-Bastogne-Liège, ficando a Il Lombardia de fora) e nos Mundiais de Innsbruck, na Áustria. E como vai funcionar? Para começar foram eleitos quatro árbitros: um belga, um espanhol, um francês e um italiano. Um deles será sempre escolhido para completar a equipa de quatro juízes. Ficará responsável por verificar através das imagens captadas pelas câmaras da transmissão televisiva se há irregularidades.

Porém, haverá uma grande diferença comparativamente com o que acontece no futebol. Nesta modalidade a decisão final pertence sempre ao árbitro principal, mas no ciclismo, o juiz que tiver a função de ver as imagens terá poder de decisão. Por exemplo, Gianni Moscon recuperou tempo perdido quando ficou "agarrado" à garrafa que lhe era dada do carro de apoio. Esta "boleia" foi mostrada pouco depois em várias repetições, mas Moscon só foi desclassificado mais tarde. Com o vídeo-árbitro, o comissário que estiver na estrada é avisado e pode de imediato retirar o ciclista da prova. Desrespeitar a cancela de uma passagem de nível, ou uma outra atitude que viole as regras pode agora ser sancionada de imediato. O comissário que analisará as imagens terá o seu "estúdio" montado junto à meta.

Com esta medida espera-se uma maior defesa da verdade desportiva, mas a UCI quer ir mais longe, estando a negociar com as cadeias de televisão que fazem as transmissão a colocação de mais câmaras na zona da meta. É sempre uma fase delicada da corrida, ainda mais quando se decide ao sprint. Afinal, foi uma destas situações que acabou por contribuir para se tornar realidade um projecto já anteriormente falado, mas que não tinha saído da gaveta.

Peter Sagan ficará ligado assim ao VAR no ciclismo. O seu sprint irregular causou uma revolta dividida entre o cotovelo que Sagan levantou, com Cavendish a cair - de referir que o ciclista da Dimension Data tentou forçar a passagem junto às barreiras, o que provocou alguma discussão - e a sanção que acabou por ser considerada por muitos como demasiado pesada. Inicialmente o eslovaco da Bora-Hansgrohe foi desclassificado na etapa e perdeu pontos na classificação da camisola verde. O que parecia ser a decisão natural, acabou por ser transformada numa expulsão definitiva do Tour. E esta sanção mais pesada foi justificada precisamente pelas imagens televisivas, com os comissários a considerarem que Sagan colocou em causa a integridade física de Cavendish e de outros ciclistas (mais dois caíram ao não conseguirem desviar-se do britânico da Dimension Data). Em situações idênticas com outros corredores como protagonistas, a pena é normalmente a desclassificação na etapa e não a expulsão.

As imagens da meta são normalmente sempre de frente (além da câmara no risco para o photofinish) e do helicóptero. A UCI quer agora mais, para assim ter uma visão mais ampla de tudo o que se passa e analisar ao pormenor o que acontece numa altura sempre potencialmente caótica dada a velocidade que se atinge e ao número de ciclistas que procura a melhor colocação.

Se os testes forem positivos, então a UCI pondera integrar o VAR em todas as corridas que tenham transmissão televisiva. No futebol, o vídeo-árbitro não sido o elemento apaziguador de polémicas como se esperava, até tem criado novas - na Alemanha um juiz foi afastado acusado de beneficiar a sua equipa -, pelo que se aguarda com expectativa para ver o que de melhor poderá trazer ao ciclismo.

»»Lobato despedido. Tolhoek e Eenkhoorn recebem segunda oportunidade««

»»UCI receia que rádios possam ajudar apostas ilegais. Novo presidente quer proibi-los em algumas corridas««

25 de novembro de 2017

Uma Dimension Data a precisar de mudanças

(Fotografia: Stiehl Photography/Dimension Data)
Tão rapidamente a Dimension Data pensou que tiraria todo o partido de um espectacular regresso de Mark Cavendish às muitas e grandes vitórias, como um ano depois tudo se tornou num pesadelo. Menos mal que a vontade da UCI de criar um sistema de subidas e descidas de escalão não está em vigor, pois a formação sul-africana teria tido uma enorme desilusão. Fiel às origens de uma equipa que quer ser a montra do ciclismo africano, ao subir para o World Tour precisou de algo mais para dar nas vistas. Esse "algo" foi Cavendish. Porém, em 2017 ficou claro como é um risco apostar em demasia num ciclista. A época da Dimension Data ficou marcada pela mononucleose do sprinter britânico e da queda que sofreu no Tour, no incidente com Peter Sagan.

Cavendish venceu uma etapa a abrir o ano em Abu Dhabi. Em 2016 foram nove, mais a geral Qatar, destacando-se, naturalmente, as quatro etapas na Volta a França. Perante os fracos resultados e exibições desta temporada - a doença não só limitou o ciclista, como obrigou-o a uma paragem -, Cavendish só teve uma forma de descrever o seu 2017: "Foi uma merda!" Não há muito a dizer depois disto.

A responsabilidade de uma temporada abaixo do desejado não pode ser só de Cavendish. A Dimension Data tem um plantel de qualidade, a começar precisamente pelo contingente africano. No entanto, se no escalão Profissional Continental o dar nas vistas era suficiente, ao que se juntava aqui e ali uma conquista mais relevante, como equipa do World Tour o nível de exigência é outro e falta maior e melhor consistência nos resultados pode tornar-se num problema a curto/médio prazo. Por mais que o projecto esteja ligado à ajuda em entregar bicicletas a crianças e jovens do continente africano, estamos a falar de ciclismo profissional e os patrocinadores querem ser falados e não ser apenas notas de rodapé nas corridas.


Ranking: 18º (2575 pontos)
Vitórias: 25 (incluindo uma etapa no Tour e no Giro)
Ciclista com mais triunfos: Edvald Boasson Hagen (10)


Foram 25 vitórias em 2017, mas somente três em corridas do World Tour. Ainda assim, quando se ganha no Giro e no Tour, pelo menos cumpre-se o objectivo de mostrar a equipa nas grandes voltas. Perante a temporada mais fraca, estes triunfos valem ouro. E nada como recorrer a dois ciclistas que tendem a dar sempre alguma alegria: Omar Fraile e Edvald Boasson Hagen para assegurar as duas importantes vitórias. Dias antes o noruguês tinha tido o dissabor de perder para Marcel Kittel (Quick-Step Floors) por apenas seis milímetros! Boasson Hagen foi o ciclista mais ganhador da equipa: 10 triunfos, a maioria pelas suas terras. Desta feita Stephen Cummings não picou o ponto nas grandes voltas, mas sagrou-se campeão britânico de estrada e contra-relógio. No entanto, a equipa sentiu a falta daquele britânico que numa fuga lança o pânico no pelotão. Ainda tentou, só que este ano não conseguiu.

Voltando aos africanos, Daniel Teklehaimanot e Natnael Berhane são ciclistas de reconhecida qualidade, mas, e como por vezes se diz, falta o clique. Porém, falta principalmente uma voz de comando para as grandes voltas e a Dimension Data vai colmatar essa vaga com o regresso de Louis Meintjes. Com um objectivo de colocar o sul-africano a lutar por pódios e em três anos estar mesmo na luta para ganhar o Tour, fica claro que a formação prepara-se para uma mudança de paradigma e que permitirá tirar mais partido dos bons trepadores que tem.

Merhawi Kudus, por exemplo, tem apenas 23 anos e um potencial tremendo. É provável que comece a ser aposta mais forte. Foi segundo na quinta etapa da Vuelta, mas infelizmente abandonou dois dias depois devido a uma queda. Aliás, a Dimension Data teve uma Vuelta para esquecer, com apenas três ciclistas a chegarem ao fim. Kudus e Meintjes podem liderar uma nova era na Dimension Data pós-Cavendish. Mas o britânico ainda terá o seu espaço para perseguir o recorde de Eddy Merckx no Tour, pelo menos durante mais um ano: "só" faltam quatro vitórias de etapas para igualar o belga.

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11 de julho de 2017

A equipa de luxo que já não está na Volta a França

(Fotografia: ASO/Pauline Ballet)
Perante uma etapa em que nada aconteceu - sem desprimor para mais um triunfo avassalador de Marcel Kittel - e perante a perspectiva de mais um dia exactamente igual na quarta-feira, resta esperar que chegue a 12ª tirada, quando se irá voltar à montanha. Até lá podemos olhar para a lista de desistências e ver que poderíamos formar uma equipa de sonho. A Volta a França não está a ser marcadas por aquelas quedas colectivas impressionantes, mas as quedas solitárias estão a afastar ciclistas importantes de uma corrida que apesar das etapas planas bem aborrecidas, tem na luta pela geral um interesse que não tem sido comum em anos recentes. Os que já abandonaram dariam para formar uma super equipa. Alguns teriam de aceitar funções diferentes, mas vamos entrar no campo das suposições. Portanto, suponhamos que todos aceitariam o que aqui se escreveu.

Antes de mais, apenas um nota prévia: com dez etapas concluídas o Tour já viu sair 17 ciclistas, por abandono, exclusão ou chegada fora do tempo limite. Comparando com o Giro, na mesma etapa o número era oito, sendo que dois (Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni) nem sequer começaram a corrida devido a uma suspensão por doping, conhecida no dia antes do início da competição.

Apresentada esta curiosidade, vamos então ao nove que daria uma fantástica formação que muitos directores desportivos não se importariam de ter. De forma a criar uma equipa coesa, serão então atribuídas funções a alguns que não correspondem às que tinham de facto neste Tour, ou seja, será aqui construída uma possível táctica.

O líder para geral seria Richie Porte (32 anos). O ciclista da BMC estava numa forma invejável, provavelmente a melhor da sua carreira. Era um sério candidato a fazer frente a Chris Froome. Surgiu em França com uma equipa construída para si, algo que não tinha acontecido em 2016, quando Tejay van Garderen foi co-líder. Porte estava a corresponder às expectativas até àquela etapa nove. Teve uma queda aparatosa numa descida e partiu a clavícula e a pélvis.

Como gregários de luxo, Richie Porte teria ao seu lado na alta montanha Geraint Thomas e Rafal Majka. O britânico da Sky (31 anos) é um dos infelizes do ano. Caiu no Giro e no Tour e acabou por abandonar as duas corridas. Com Porte em tão boa forma, Thomas teria de ser o seu braço direito (de recordar que ambos já foram companheiros na Sky). Não se conseguiu perceber bem como estava Thomas fisicamente, mas seria provavelmente um homem importante. Quanto a Majka, o homem da Bora-Hansgrohe (27 anos) foi mais uma vítima da nona etapa. Acabou no domingo, mas hoje não partiu, devido aos ferimentos que até lhe dificultavam a respiração. Nesta equipa imaginária, seria um apoio decisivo para Porte, mas não é de afastar a hipótese de lhe dar uma oportunidade de integrar uma fuga e deixá-lo lutar por uma etapa, até porque há mais homens ajudar Porte.

Ion Izagirre seria mais um ciclista para a montanha. O espanhol (28), líder da Bahrain-Merida para este Tour, seria um corredor de trabalho. Talvez o primeiro a ser chamado quando o terreno inclinasse. Como caiu logo no contra-relógio é impossível dizer que estava numa grande forma. Caso estivesse melhor do que Thomas, então poderia ser ele a assumir a função de braço-direito de Porte, com o britânico a entrar mais cedo ao trabalho nas etapas de montanhas.

E claro, Alejandro Valverde. Colocá-lo apenas como gregário quase que parece desperdiçar um dos ciclistas que está em melhor forma em 2017. Um crime, mesmo! Com 14 primeiros lugares este ano, o espanhol da Movistar seria um plano B. Mesmo não sendo um voltista por excelência, com uma forma destas seria inteligente mantê-lo como candidato, ainda que também tivesse um papel de ajuda ao líder, Richie Porte. E que importância poderia ter quando chegassem as perigosas descidas dos Alpes e Pirenéus... Valverde também poderia ser aposta para ganhar determinadas etapas.

Quanto aos sprints, quando se fala em gestão de egos... Isto seria uma missão quase impossível, mas vamos tentar imaginar alguma harmonia entre estes homens. Apesar da mononucleose que afectou a sua preparação, como está tão perto do recorde de Eddy Merckx (quatro para igualar), Mark Cavendish teria a primazia, mas com um Arnaud Démare a ser a segunda hipótese, caso o britânico desse mostras que não estava em condições. O francês da FDJ (25) ganhou uma etapa, é certo, mas o currículo de Cavendish (32 anos) tem o seu peso: é uma vitória no Tour contra 30! Démare como lançador de Cavendish? Que luxo! Seria necessário mais um lançador. Após alguma indecisão entre Matteo Trentin (27 anos, Quick-Step Floors) e Mark Renshaw (34, Dimension Data), a escolha recaiu no australiano. É que em nome da tal difícil harmonia, seria um risco não ter o homem de confiança de quase toda uma carreira de Cavendish.

Para terminar, Peter Sagan. Como não é de todo boa ideia ter dois sprinters na mesma equipa a lutar pela vitória e como o eslovaco não é o chamado sprinter puro, então poder-se-ia colocar o bi-campeão do mundo a disputar etapas cujas chegadas são marcadas por rampas, ou então precedidas quilómetros antes por subidas onde Sagan consegue fazer diferenças. Ou seja, não iria aos sprints e tentar-se-ia tirar partido da explosão que este ciclista tem e da capacidade em resistir nas fugas, em solitário ou em pequenos grupos. De todos estes exemplos, dizer a Sagan que não poderia lutar nos sprints seria impensável no mundo real e mesmo no campo das suposições, a vontade é colocá-lo como o líder para as etapas, ao lado de Richie Porte que lutaria pela geral.

Caso se quisesse ter um ciclista para o contra-relógio, a escolha poderia ser para Jos van Emden (Lotto-Jumbo), mas tendo em conta a exibição de Geraint Thomas na primeira etapa do Tour, a equipa estaria bem servida, mesmo sem o vencedor do esforço individual final da Volta a Itália.

Isto tudo é no campo da imaginação. Mas se todos estivessem em forma (e se se entendessem) seria uma equipa de sonho... e certamente só nos sonhos é que existiria!

Em suma, a equipa de luxo que já não está no Tour é constituída por: Richie Porte, Geraint Thomas, Rafal Majka, Ion Izagirre, Alejandro Valverde, Mark Cavendish, Arnaud Démare, Mark Renshaw e Peter Sagan.

Em baixo fica o perfil para a etapa desta quarta-feira. Marcel Kittel vai tentar a quinta vitória e começar assim a ficar cada vez mais próximo de segurar a camisola verde que nunca pensou ser possível ganhar com Peter Sagan em prova. Sem o eslovaco, o alemão tem outra motivação, ainda que diga que o objectivo é ganhar etapas. Mas uma coisa pode muito bem resultar na outra.



Veja aqui o resultado da 10ª etapa e as classificações do Tour.

A tirada desta terça-feira não teve pontos de interesse até àquele final demolidor de Marcel Kittel. O sprinter da Quick-Step Floors recuperou a sua melhor versão e só isso faz valer a pena esperar mais de 200 quilómetros para ver uns metros de emoção.

De destacar ainda que Nacer Bouhanni foi penalizado em um minuto depois de imagens terem captado o sprinter da Cofidis a empurrar um ciclista da Quick-Step Floors. O incidente não resultou em queda, ainda que a atitude tenha sido perigosa. Ainda assim, valeu uma sanção bem mais simpática do que a aplicada a Peter Sagan.


Résumé - Étape 10 - Tour de France 2017 por tourdefrance


»»Majka é mais uma vítima de uma etapa que teve tanto de espectacular como de dramática««

»»Descidas fizeram diferenças demasiado duras e tristes««

5 de julho de 2017

Ficou sem o Tour, mas Sagan saiu de cabeça erguida

(Fotografia: VeloImages/Bora-Hansgrohe)
Foi o assunto do dia mais falado, mas com o pelotão a tentar não o fazer. A expulsão de Peter Sagan apanhou a maioria desprevenido. Foi estranho não ver a camisola de campeão do mundo lutar pelo sprint intermédio, no momento em que se tornou bem real o facto do episódio do sprint da quarta etapa ter tirado da corrida dois grandes ciclistas. Sagan manteve-se em silêncio quando foi conhecida a pesada sanção dos comissários da Volta a França, só o quebrando durante a manhã. Com uma voz calma, muito cordial, o eslovaco optou por sair de cabeça erguida, como o campeão que é. Aceitou a decisão, ainda que não concorde.

São momentos como este que muitas vezes se percebe mais do que o ciclista, como é o homem. Sagan mostrou ser um senhor. Estar zangado, desiludido, furioso, seriam sentimentos compreensíveis e fáceis de demonstrar perante o que lhe aconteceu, mas esses ficam para o plano foram das câmaras. Era preciso demonstrar toda a categoria que tem. Assim o fez. "O que posso fazer? Resta-me aceitar a decisão do júri, mas claro que não concordo porque penso que não fiz nada de errado no sprint", afirmou num conferência de imprensa improvisada perto do hotel onde a equipa, Bora-Hansgrohe, estava instalada. Sagan salientou que o pior de tudo tinha sido a queda de Mark Cavendish, desejando que o britânico possa recuperar bem da lesão (fracturou a omoplata). "Peço desculpa por isso. Como podem ver na internet foi um sprint doido. Não foi o primeiro e não será o último. Desejo que o Mark recupere bem", disse.


A reacção foi curta, mas demonstrou como Sagan controlou as suas emoções, ele que tem como imagem de marca a sua espontaneidade e em dizer o que pensa. O momento pediu "outro Sagan", um Sagan que demonstrasse que tiraram-lhe o Tour, mas não o abateram. Agora será altura de repensar a temporada. Sair tão cedo da corrida francesa foi inesperado. Os principais objectivos passariam a ser depois do Tour os Mundiais e antes provavelmente os Europeus, com mais as clássicas no Canadá também na agenda. Agora é capaz de acrescentar algo mais, quem sabe um regresso à Vuelta.

Cavendish congratula comissários

O britânico disse que se dava bem com Sagan, mas que queria saber a razão do uso cotovelo. Os ciclistas já terão conversado depois de conhecida a gravidade da lesão de Cavendish, que ficou satisfeito com a decisão de expulsar o eslovaco do Tour: "Para ser honesto, é preciso coragem para eliminar o campeão do Mundo da Volta a França e eu congratulo a decisão do júri, que não foi tomada baseada nas influência das redes sociais ou de outro lado." Cavendish realçou que "não há ressentimentos" pelo que aconteceu.

O sprinter tem muitas vitórias, mas também já esteve envolvido em várias polémicas. Foi autor de alguns sprints bem perigosos e o próprio recorda como já tinha sido castigado no Tour, ainda que nunca foi mandado para casa. A sanção pesada a Sagan levantou a questão de como o britânico tentou "furar" junto às barreiras, querendo passar assim por Sagan. Cavendish nem querer ouvir falar de ter feito algo mal: "Sou um sprinter com experiência. Se olharem para a minha carreira não me verão tentar passar junto às barreiras desde, talvez, 2008. Tenho crianças em casa. Sei em que tipo de espaço consigo passar. É por isso que ganhei 30 etapas na Volta a França."

Kittel, Matthews e uma regra aberta a interpretações

Enquanto John Degenkolb, um dos ciclistas que também caiu no sprint, preferiu não falar muito sobre o assunto, Marcel Kittel espera que a decisão de mandar para casa Sagan possa servir de aviso que nos sprints nem tudo é permitido. No entanto, também ele não comentou se concordou ou não. Já Michael Matthews pediu uma clarificação das regras, nas declarações que deu ao Eurosport.

Ambos referem-se ao caótico sprint que antes o incidente entre Sagan e Cavendish, ficou marcado por mudanças de direcções dos ciclistas já com o sprint lançado, incluindo o eventual vencedor Arnaud Démare (Nacer Bouhanni acusou o rival de lhe ter cortado o caminho e de o obrigar a travar para não cair). Aquele sprint será sempre um exemplo de como não se deve fazer, caso se aplique a regra que determina que o ciclista não deve mudar de direcção depois de arrancar.

A primeira decisão dos comissários foi uma sanção de 30 segundos e a retirada de pontos para a classificação da camisola verde. Há outros exemplos de "levantar o cotovelo" que resultaram precisamente em perda de tempo, mas os visados continuaram na corrida. Porém, a justificação para a exclusão foi que Sagan colocou em perigo outros ciclistas. Matthews abordou o tema certo: a clarificação das regras, tornando-as mais objectivas e não sujeitas à interpretação, evitaria algumas polémicas.

O que está feito, está feito e Peter Sagan foi para casa. No Tour deseja-se que se possa regressar à normalidade, mas sem o camisola arco-íris não será o mesmo. Repetindo o início do texto, o episódio do sprint da quarta etapa tirou da corrida dois grandes ciclistas.

»»Para quê o cotovelo? Sagan foi expulso da Volta a França««

4 de julho de 2017

Para quê o cotovelo? Sagan foi expulso da Volta a França

(Imagem: Print screen)
Mark Cavendish não é nenhum santo. Entre cabeçadas e empurrões, o britânico já foi responsável por alguns sprints perigosos e que colocaram em risco a integridade física de outros ciclistas. Desta vez, Cavendish esteve do outro lado destes incidentes. Quando tentava ultrapassar Peter Sagan pela direita, junto às barreiras, o eslovaco deu-lhe um "chega para lá" com o cotovelo, provocando a queda do corredor da Dimension Data. E que queda feia! Cavendish foi desamparado contra as barreiras e ao cair ainda teve John Degenkolb a passar-lhe por cima da cabeça (alguém ainda dúvida que o capacete só traz benefícios?) e Ben Swift também não conseguiu evitar o choque, tendo também caído.

As explicações não fazem jus ao que aconteceu. As imagens mostram claramente o acto irresponsável do bi-campeão do mundo. Foi um sprint no qual quase todos fizeram algo irregular, no que diz respeito às mudanças de direcção. Cavendish tentou passar pelo buraco da agulha. Se Sagan não tem levantado o cotovelo, ambos ter-se-iam provavelmente tocado e fosse qual fosse o resultado desse contacto, tal seria considerado quase de certeza um incidente de corrida. Mas Sagan levantou o cotovelo e se lhe só lhe ficou bem ter ido directamente para junto do autocarro da Dimension Data para saber como estava Cavendish, o eslovaco sabia bem que dificilmente escaparia a uma sanção. A personalidade de Sagan é bem conhecida e a preocupação terá sido genuína, mas este será um acto que deixará uma mancha numa grande carreira que certamente irá ainda contar com actos bem mais louváveis.

Pode ver o que aconteceu no vídeo em baixo que começa segundos antes do incidente (texto continua em baixo).


Flamme rouge - Étape 4 / Stage 4 - Tour de... por tourdefrance

Inicialmente o ciclista da Bora-Hansgrohe foi penalizado com 30 segundos e 95 pontos na classificação pela camisola verde. A Dimension Data não concordou e protestou. Pouco depois, Philippe Marien, presidente do colégio de comissários, anunciou a decisão mais radical: "Decidimos desqualificar o Peter Sagan da Volta a França 2017 depois do sprint tumultuoso, aqui em Vittel. Ele colocou em perigo vários ciclistas. O Mark Cavendish e outros ficaram implicados na queda nos metros finais do sprint."

Apesar de ter ficado no chão após a queda e ter sido necessário a equipa médica ajudar no local o ciclista, Cavendish acabou por cortar a meta e antes de ir para a ambulância ainda falou com os jornalistas. "Eu dou-me bem com o Peter e uma queda é uma queda, mas gostava de saber sobre aquele cotovelo", afirmou o britânico. Logo após o final da etapa, Sagan referiu que não viu Cavendish a tentar passá-lo pela direita, considerando que tinha sido um incidente de corrida. A Bora-Hansgrohe contestou a decisão dos comissários.

As regras prevêem que um ciclista seja expulso apenas à terceira ofensa a não ser que seja considerado que tenha tido um comportamento perigoso. Foi o que os comissários acharam ter acontecido. Sagan foi ainda multado em 200 francos suíços (cerca de 183 euros).

Por volta da meia-noite a Dimension Data confirmou a pior das expectativas: Cavendish está fora do Tour devido a uma fractura na omoplata. Não terá de ser operado, mas está fora de questão continuar na corrida. O britânico esteve muito tempo afastado das corridas devido a uma mononucleose. Optou por ir à Volta a França apesar de não estar na melhor forma. O sprinter disse que se estivesse em casa então não teria mesmo hipótese de tentar ganhar uma etapa. Não se aproximou ainda mais do recorde de Eddy Merckx (está a quatro triunfos de igualar o belga) e está mesmo a ser uma temporada para esquecer.

De recordar que também na Volta a Itália um ciclista foi expulso. Javier Moreno (Bahrain-Merida) foi mandado para casa depois de ter empurrado Diego Rosa (Sky), curiosamente também durante a quarta etapa. Mas na Volta à França também já não é novidade. Em 2010, por exemplo, o lançador de Cavendish, Mark Renshaw, foi mandado embora depois de cabeceado outro ciclista durante a preparação de um sprint. Mais insólito foi o caso de Jeroen Blijlevens. Chegou mesmo a acabar a corrida nos Campos Elísios, mas os seus resultados foram eliminados depois de uma "troca de mimos" com Bobby Julich, que teve de ser interrompida pelos comissários.

E tudo muda...

Ainda há um dia aqui se escreveu como Peter Sagan parecia ter maior concorrência na luta pela camisola verde. Um cotovelo depois e o eslovaco perde a oportunidade de igualar o recorde de Erik Zabel, conquistando pela sexta vez consecutiva a classificação dos pontos. Sagan venceu a terceira etapa do Tour e até foi segundo na quarta, antes de ser desqualificado, o que faz com que o último resultado já não conte para o currículo.

O incidente com Cavendish acabou por passar para segundo plano uma vitória marcante para Arnaud Démare e para a França. O campeão nacional conquistou finalmente um triunfo no Tour e vestiu também a camisola verde. Desde 2006 que um francês não ganhava uma etapa ao sprint. A última tinha sido por intermédio de Jimmy Casper. 

"É uma vitória extraordinária, maravilhosa. Sonhava em ganhar uma etapa na Volta a França desde que me tornei profissional", afirmou Arnaud Démare. Aos 25 anos, o sprinter da FDJ soma a segunda grande vitória na carreira, depois de em 2016 ter conquistado a Milano-Sanremo.

Antes da queda que gerou toda a confusão em redor de Sagan e Cavendish, uma outra, metros antes voltou a assustar a Sky. Na segunda etapa foi Chris Froome um dos afectados, desta vez foi Geraint Thomas. O líder do Tour terminou a tirada e garantiu que está tudo bem com ele, estando pronto para enfrentar a primeira chegada em alto da corrida.

Veja aqui a classificação da quarta etapa.

O primeiro teste


Etapa curta e a pedir ataques. Depois das maratonas de 200 quilómetros dos dias anteriores, serão "apenas" 160,5 entre Vittel e La Planche des Belles Filles. Grande parte da etapa será plana, mas a cerca de 60 quilómetros do fim irá começar a verdadeira acção. Haverá uma terceira categoria para aquecer um pouco o pelotão, que terá nos últimos 5,9 quilómetros uma subida que poderá ser aproveitada para alguns homens da geral tentar recuperar o tempo perdido no contra-relógio.


De recordar que Chris Froome tem mais de 30 segundos sobre os principais adversários e é precisamente nele que se centrarão parte das atenções. O britânico da Sky teve uma época tão estranhamente discreta que há um enorme desejo em perceber como está o ciclista. Não deverá haver grandes decisões na quinta etapa, mas espera-se alguns testes.

A derradeira subida tem uma pendente média de 8,5%, mas maioria está a acima dos 10%, com a zona da meta a ser a mais difícil com 20%.

(Texto actualizado às 01:20 com a confirmação que Cavendish está fora da Volta a França e com o protesto da Bora-Hansgrohe.)


Résumé - Étape 4 - Tour de France 2017 por tourdefrance