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29 de junho de 2018

"Esta Volta a Portugal promete"

Se lhe chamam de Grandíssima, então que assim seja. A Volta a Portugal de 2018 terá um percurso de maior dureza, comparativamente com edições recentes, tanto nas etapas de montanha, como naquelas mais planas. Tendo em conta que estas incluem uma viagem ao sul do país, o calor poderá deixar logo as suas marcas nos ciclistas nos primeiros quilómetros de uma corrida que celebrará os 40 anos desde que a Senhora da Graça recebeu pela primeira vez o final de uma etapa da Volta. Por isso, O Monte Farinha surgirá no penúltimo dia da corrida, ou seja, num sábado, num regresso ao fim-de-semana, depois de há um ano ter sido uma tirada durante a semana. "Usamos sempre a velha máxima que quem faz a dureza dos percursos são os corredores. No entanto, perante o que nos é apresentado, a Volta é realmente dura. Acho que é mais difícil do que as últimas edições", salientou Marco Chagas.

O arranque da contagem decrescente, por assim dizer, começou um pouco acidentado. A apresentação acabou por não se realizar devido a um problema eléctrico no Teatro Thalia, em Lisboa. Mas nem por isso se deixou de saber os pormenores que faltavam da Volta a Portugal, que irá disputar-se de 1 a 12 de Agosto.

Marco Chagas é uma figura incontornável do ciclismo nacional. Além de saber o que é ganhar a Volta, tornou-se numa das vozes da corrida através dos comentários na RTP. Ao Volta ao Ciclismo deixou alguns destaques sobre o percurso e também sobre as equipas.

Para o antigo ciclista, se o calor de Agosto aparecer em todo o seu esplendor, as primeiras etapas "vão deixar muita gente, principalmente os estrangeiros, 'amassados'". Quando o pelotão começar a rumar a norte, a dureza da montanha vai fazer-se sentir: "Este ano tem ainda a particularidade da dureza ir até ao fim porque na véspera do contra-relógio final, pelo que me é dado saber, há uma subida que nem conheço e são subidas muitas duras, todas concentradas naquele dia, com a Senhora da Graça a acabar. O contra-relógio final também não é nada fácil. Em Fafe, plano não será com certeza!"

Serão 155,2 quilómetros de grande dificuldade na nona etapa. Se as três contagens de montanha de primeira categoria "só" aparecem na segunda metade da tirada, os primeiros quilómetros serão logo marcados por muito sobe e desce antes da ascensão ao Alto da Barra. Um dos destaque vai para a referida nova subida, que ligará a aldeia de Ermelo à aldeia de Barreiro, antes da descida que irá levar até à sempre muito aguardada subida do Monte Farinha. Se a Senhora da Graça já é das etapas que mais pessoas leva à rua para apoiar o pelotão, sendo um dia que pode ser determinante para a geral, o ambiente deverá ser de arrepiar!



A Senhora da Graça e as dificuldades até lá chegar na véspera do contra-relógio de Fafe serão uma enorme contribuição para aumentar o espectáculo da corrida. Porém, Marco Chagas considera que o regresso das Penhas da Saúde também é para ter em conta, mesmo que se continue sem um final na Torre. "Durante muitos anos não houve chegada à Torre. Fiz 14 Voltas e nunca houve chegada à Torre. As Penhas da Saúde são um lugar que em termos de beleza é melhor do que a Torre, que não deixa de ser um mítica, até por ser o ponto mais alto. Subindo pela Covilhã... vai ser um final de etapa muito duro", garantiu.

Se poderá haver tentação de chamar etapa rainha à da Senhora da Graça, esse estatuto pertence à quarta tirada, precisamente aquela que terminará nas Penhas da Saúde, no domingo, 5 de Agosto. É fácil perceber porquê. Tanto a última ascensão, como a passagem pela Torre serão de categoria especial. E claro, estamos em Portugal. A aproximação à Torre poderá provocar muitos problemas, ainda mais se alguma equipa apostar num ritmo alto.



Já eram conhecidos os locais de partida inaugural e da chegada decisiva da Volta a Portugal, com Setúbal e Fafe a serem estreantes nesse estatuto. Também Sernancelhe irá ser uma estreia, mas neste caso como fazendo parte da corrida, na sexta etapa. Antes, na terceira, os 175,9 quilómetros que ligarão Sertã a Oliveira do Hospital serão uma forma de não deixar esquecer o que aconteceu naquela zona do país, tão afectada pelos trágicos incêndios de 2017. A "Etapa Vida" terá a presença do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, na caravana. Serão cinco contagens - duas de quatro, duas de terceira e uma de segunda - num dia em que uma desatenção ou alguma fraqueza poderá custar tempo a algum candidato. Nas duas primeiras etapas haverá então uma viagem para sul, com Alcácer do Sal e Albufeira (o regresso do Algarve à Volta dez anos depois) e Beja-Portalegre a receberem o pelotão.

O dia de descanso será a 7 de Agosto (terça-feira) e atenção que o regresso é na referida etapa de Sernancelhe. Nos 165,4 quilómetros até Boticas haverá três contagens de montanha de terceira categoria, antes de uma primeira em Torneiros. Pelo meio, haverá mais subidas que não estão categorizadas.

"Esta Volta a Portugal promete", considera Marco Chagas e analisando o perfil é difícil discordar. Agora falta saber se uma maior dureza do percurso, significará um maior equilíbrio na luta pela vitória.

"Sporting e Porto, bem à maneira do futebol serão os grandes adversários"


(Fotografia: João Fonseca)
A W52-FC Porto soma cinco vitórias consecutivas (nem sempre com este nome), com quatro ciclistas diferentes: Alejandro Marque, Gustavo Veloso (duas vezes), Rui Vinhas e Raúl Alarcón. Para Marco Chagas não parece haver grandes dúvidas que a discussão será entre as equipas portuguesas, apesar de estarem previstas cinco do escalão Profissional Continental, com uma forte presença espanhola, além de formações Continentais da Austrália, Albânia, Equador e até da Roménia, por exemplo.

"A discussão será novamente entre as nossas. Talvez haja mais equilíbrio. O Sporting-Tavira tendo o Joni Brandão é uma equipa mais consistente. A W52-FC Porto continua a ser muito boa, se calhar a principal favorita, com mais do que um candidato. A Aviludo-Louletano-Uli tem apresentado bons resultados. O Luís Mendonça evoluiu e ganhou a Volta ao Alentejo, mas não sei se resistirá à dureza [do percurso]. No entanto, Vicente Garcia de Mateos [terceiro classificado em 2017] já está num patamar que se pode considerar que é um favorito para ganhar a Volta", explicou Marco Chagas.

Elogiou ainda a qualidade da Rádio Popular-Boavista do professor José Santos, assim como a capacidade de Edgar Pinto (Vito-Feirense-BlackJack), desde que consiga escapar a mais azares. Quanto à Efapel, o antigo ciclista vê difícil uma possível vitória na Volta: "O David Arroyo poderá ser uma ajuda fundamental nas etapas de montanha, mas não sei até que ponto irá permitir [à equipa] ganhar a Volta a Portugal. A Efapel vai certamente discutir muitas etapas, fazer coisas bonitas, mas será complicado."

Não querendo excluir nenhuma possibilidade de alguém disputar a Volta, Marco Chagas acredita, ainda assim, que a principal luta poderá muito bem ser entre Sporting e Porto. "Bem à maneira do futebol serão os grandes adversários", afirmou.

A nova experiência de muitos jovens

A subida da Liberty-Seguros, Miranda-Mortágua e LA Alumínios ao escalão Continental (ainda que sendo sub-25) irá permitir que este ano estejam mais portugueses na luta pela classificação da juventude. Será certamente um dos objectivos. "Esse é uma aspecto a ter em conta. Uma nova fase do ciclismo. Mesmo que tenhamos gente a passar mal - acredito que haverá muitos abandonos -, a perder muito tempo, haverá ciclistas com qualidade superior que, mesmo com a dureza da Volta, vão estar lá", realçou Marco Chagas. E acrescentou: "Os mais novos, vão ter uma nova experiência. Para quem inicia a carreira, mesmo tendo muita qualidade, pode ser um choque [dada a dificuldade do percurso]. Normalmente os corredores que ali estão, têm já uma boa experiência, mas não na Volta a Portugal."

Agora é esperar pelo arranque da corrida que as equipas portuguesas mais ambicionam todo o ano e ver se Raúl Alarcón repete o triunfo ou se haverá um sucessor. A Volta a Portugal de fácil nunca tem nada, mas a 80ª edição tem desde logo ingredientes no percurso para proporcionar um bom espectáculo de ciclismo. Além das nove equipas portuguesas, estão previstas 12 estrangeiras. Do escalão Profissional Continental: WB Aqua Protec Veranclassic (Bélgica), Israel Cycling Academy (Israel), Euskadi Basque Country-Murias (Espanha), Caja Rural-Seguros RGA (Espanha) - conta com os portugueses Rafael Reis e Joaquim Silva - e Burgos-BH, com José Mendes. As Continentais são: St George (Austrália), Movistar Ecuador (Equador), COOP (Noruega), Tarteletto Isorex (Bélgica), Differdange-Losch (Luxemburgo), Amore & Vita-Prodir (Albânia) e MSTina Focus (Roménia).

Relativamente às do segundo escalão, será o regresso da Israel Cycling Academy, que no ano passado venceu a classificação da juventude com Krists Neilands e que este ano esteve na Volta a Itália. As espanholas são presença habitual, ainda que a Euskadi Basque Country-Murias e a Burgos-BH eram até ao ano passado do nível Continental. Já a belga WB Aqua Protec Veranclassic é uma equipa que se vê muito na primeira fase da temporada, durante as clássicas.

Aqui ficam as etapas da 80ª edição, que pode ver neste link ao pormenor.

➠ Prólogo (1 de Agosto): Setúbal-Setúbal (contra-relógio), 1,8 quilómetros
➠ Etapa 1 (2 de Agosto): Alcácer do Sal-Albufeira, 191,8 quilómetros
➠ Etapa 2 (3 de Agosto): Beja-Portalegre, 195,3 quilómetros
➠ Etapa 3 (4 de Agosto): Sertão-Oliveira do Hospital, 175,9 quilómetros
➠ Etapa 4 (5 de Agosto): Guarda- Covilhã (Penhas da Saúde), 171,4 quilómetros
➠ Etapa 5 (6 de Agosto): Sabugal-Viseu, 191,7 quilómetros
➠ Etapa 6 (8 de Agosto): Sernancelhe-Boticas, 165,4 quilómetros
➠ Etapa 7 (9 de Agosto): Montalegre-Viana do Castelo (Santa Luzia), 165,5 quilómetros
➠ Etapa 8 (10 de Agosto): Barcelos-Braga, 147,6 quilómetros
➠ Etapa 9 (11 de Agosto): Felgueiras-Mondim de Basto (Senhora da Graça), 155,2 quilómetros
➠ Etapa 10 (12 de Agosto): Fafe-Face (contra-relógio), 17,3 quilómetros

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4 de fevereiro de 2017

O pelotão nacional visto por Marco Chagas

(Fotografia: Volta a Portugal)
Feitas as apresentações, está tudo pronto para começar a temporada. Aveiro recebeu a cerimónia em que se ficou a conhecer as seis equipas Continentais portuguesas e as sete de clubes, ou seja, as formações dedicadas à formação de jovens talentos. A opinião partilhada por muitos é que 2017 vai ter um dos melhores pelotões nacionais, ao que muito ajuda o facto de ciclistas como Sérgio Paulinho, Edgar Pinto, Fábio Silvestre e Domingos Gonçalves terem regressado e, naturalmente, a permanência de ciclistas de grande valor como é o caso de Joni Brandão e Amaro Antunes (para nomear dois). O que podemos esperar deste pelotão? Marco Chagas tem uma vida ligada à modalidade. Já viu muitos pelotões e para o quatro vezes vencedor da Volta a Portugal e comentador da RTP não restam dúvidas: "Este pelotão é, principalmente, mais homogéneo em relação a anos anteriores. Olhando para os plantéis, fica a ideia que as forças vão ficar mais próximas umas das outras."

Marco Chagas considera que a W52-FC Porto continua a ser a grande potência, mas a diferença para as outras equipas é agora menor. Fala também de um Sporting-Tavira reforçado, sendo que considera estas as duas equipas mais fortes do pelotão. Enquanto a equipa azul e branca manteve a maior parte da sua estrutura - destaque para a saída de Rafael Reis para a Caja Rural e a entrada de Amaro Antunes (ex-LA Alumínios-Antarte) -, já o Sporting está bastante diferente. Depois de um 2016 em que começou tarde a formar uma equipa devido à demorada resolução da questão do patrocínio, para 2017 tudo se desenrolou de forma muito distinta.

"O Sporting-Tavira melhorou muito", realça Marco Chagas que não antevê problemas por a equipa ter três potenciais líderes. "O líder será sempre o Joni Brandão. O Alejandro Marque será em algumas corridas, com menos dureza e em que haja contra-relógio. O Rinaldo Nocentini fica em terceiro plano. Se olharmos para o currículo dele, não tem grandes resultados. Andou de amarelo na Volta a França porque lhe caiu nas mãos. Tem muita experiência, tem classe, mas também tem 39 anos e nessas coisas não há como lhe dar a volta", salientou. Marco Chagas destaca ainda o regresso de Fábio Silvestre, mais um reforço de peso para o Sporting-Tavira: "Se ele não falhar - e acho que não vai falhar -, será o melhor sprinter que teremos em Portugal."

Quanto à Efapel, Marco Chagas destacou ser uma grande incógnita. A presença do Sérgio Paulinho e o seu papel de líder depois de uma carreira como gregário, "será um dos maiores aliciantes da temporada", ou seja, "perceber o que o Sérgio vale enquanto líder de uma formação". Do sucesso, ou não, desta adaptação do ciclista português - que durante tantos anos pedalou ao lado de Alberto Contador -, poderá também passar parte do sucesso da temporada da Efapel. Há ainda curiosidade para perceber o que o jovem colombiano Mateo Garcia poderá fazer.

A Rádio Popular-Boavista está diferente ao que José Santos habituou o pelotão. "Continua a ser uma equipa jeitosa, mas o Rui Sousa já tem 40 anos. Não sei até que ponto o Rui ainda é capaz de estar na luta pela geral", referiu. Salientou ainda a presença de um Filipe Cardoso que gosta de entrar nas fugas e é ciclista com potencial para ganhar algumas corridas, enquanto João Benta será outra aposta para "a consistência". "Teve uma paragem forçada, mas regressou bem à alta competição. Agora tem de fazer a diferença e não sei se será ou não viável."

Regressando a sul, para Marco Chagas o Louletano-Hospital de Loulé estará muito dependente do que fizer Vicente García de Mateos. "Olhamos para a equipa e vemos que tem muita gente. E o De Mateos... é uma surpresa! Não sei até que ponto é que ele vai voltar a andar como em 2016. Ele estava fortíssimo na Volta a Portugal [terminou no oitavo lugar]. Ele está muito magro e, se calhar, vai deixar o papel de sprinter para ser mais do que isso e o Louletano vai depender muito dele", explicou. Falou ainda de Pedro Paulinho, considerando que o ciclista, irmão de Sérgio, "tem qualidade para ganhar muitas vezes ao sprint e para fazer outras coisas". Porém, "tarda em afirmar-se. Tem tanto o mais potencial que o irmão e às tantas descuida-se e pode passar ao lado de uma boa carreira".

Para terminar, a nova LA-Metalusa-BlackJack. Marco Chagas vê uma equipa um pouco à imagem do Louletano. Isto é, irá estar um pouco dependente do que fizer o seu líder, Edgar Pinto. "Vamos ver como é que ele vai andar. Mas eu acho que será uma aposta ganha", frisou. Além de Edgar Pinto, destaque ainda para César Fonte: "É sempre muito certinho, dá sempre bons resultados, é uma boa aposta."

Perante um pelotão tão atractivo, o antigo ciclista alerta para uma questão que pode criar problemas a algumas equipas: "Algumas só têm nove corredores. É muito curto. Basta haver um problema e as equipas ficam facilmente 'penduradas'. Mas compreende-se... É o factor monetário."

Agora é esperar para ver na estrada este aparente equilibrado pelotão. E Marco Chagas espera que a qualidade dos ciclistas se possa traduzir em muito espectáculo, que começa este domingo com a prova de abertura na região de Aveiro. Estarão presentes todas as equipas nacionais, com a W52-FC Porto em formato reduzido devido à participação da equipa na Volta à Comunidade Valenciana (Amaro Antunes foi terceiro na etapa de sábado, ganha por Nairo Quintana). A partida está marcada para as 12:10 na Praça do Município, em Anadia, e a chegada será em Ovar, na Avenida da Régua.

Equipas portuguesas Continentais: Efapel, LA-Metalusa-BlackJack, Louletano-Hospital de Loulé, Rádio Popular-Boavista, Sporting-Tavira e W52-FC Porto.