A decisão de quebrar contrato com a Veranda’s Willems-Crelan poderá ter um custo elevado. Wout van Aert arrisca falhar a temporada de 2019, pois a Sniper Cycling (detentora da equipa) não abdica de receber uma indemnização, caso o ciclista assine por outra formação. A Lotto-Jumbo fechou por três anos com o ciclista a partir de 2020, já que Van Aert ainda tinha uma época de contrato com a equipa que representava. O desejo do ciclista é juntar-se já à formação do World Tour e certamente que os responsáveis da Lotto-Jumbo também não se importariam nada que tal se concretizasse. Contudo, com o caso da rescisão em tribunal e com a previsão de poder demorar meses até ficar resolvido, o futuro próximo de um dos ciclistas revelação de 2018 poderá passar por assistir de fora às corridas, se não houver um acordo ou uma intervenção da UCI.
O caminho que o seu advogado está a explorar é precisamente o da UCI. Walter van Steenbrugge espera que o organismo considere que Van Aert não tenha de cumprir o contrato com a Veranda’s Willems-Crelan, ficando assim livre de assinar pela Lotto-Jumbo. "Se o acordo com a UCI chegar, não haverá nada que evite que Wout van Aert assine pela Jumbo [nome da equipa em 2019]. Espero novidades durante o mês de Novembro", afirmou o advogado ao jornal belga Het Laatse Nieuws.
Um acordo com a Sniper Cycling parece estar fora de questão, segundo Van Steenbrugge, o que coloca então um ponto de interrogação sobre a próxima temporada para Van Aert. Os problemas começaram em Agosto quando foi avançada a hipótese de fusão da Veranda’s Willems-Crelan com a irlandesa Aqua Blue Sport. Tal não aconteceu. No entanto, houve mesmo fusão, mas com a Roompot-Nederlanse Loterij.
Van Aert rapidamente demonstrou o seu desagrado como as negociações decorreram, sem que ele, ou os restantes ciclistas, fossem informados do que estava a acontecer. O corredor belga, de 24 anos, nunca gostou de não ter conhecimento de nada, ainda mais quando era constantemente questionado sobre o assunto, já que, sendo o rosto da equipa, acabava por estar completamente exposto a nível mediático sempre que ia competir. É uma das estrelas em ascensão no ciclismo. Nasceu para as clássicas do pavé, ainda que separar-se do ciclocrosse não é algo que esteja para já nos seus planos. É tricampeão do mundo e também foi campeão mundial de sub-23 da especialidade. Aos poucos tem feito a passagem para a estrada e este ano foi uma das sensações de início de época. O terceiro lugar na Strade Bianche foi o mote para uma época de clássicas que deixou as equipas do World Tour loucas pelo belga. No pavé foi sempre muito regular. Nos monumentos foi nono na Volta a Flandres e 13º no Paris-Roubaix. E representava uma equipa Profissional Continental. É senhor do seu destino, deixando claro como gosta de gerir a sua carreira, a sua época e como quer conciliar o ciclocrosse com a estrada, pelo menos por agora. Ser um ciclista muito desejado no World Tour, reforçou o estatuto dentro da que era a sua equipa. Quando em Setembro anunciou a rescisão, disse apenas que dias antes tinham acontecido factos que tornavam impossíveis uma cooperação. A Sniper Cycling reagiu, explicando que chegou a oferecer um contrato melhorado para 2019, mas que Van Aert recusou. O pedido de rescisão foi para tribunal e poderá demorar até um ano a ficar resolvido. A época de ciclocrosse está a decorrer, mas se a UCI não decidir a favor de Van Aert, em 2019 não se verá um dos ciclistas que mais se quer voltar a ver em acção nas corridas do pavé. »»O cowboy solitário tinha ameaçado e quebrou mesmo contrato«« »»Tafi encontrou equipa para estar no Paris-Roubaix aos 52 anos««
A ameaça tinha sido bem clara no final de Agosto e Wout van Aert quebrou mesmo contrato com a Vérandas Willems-Crelan, ou, mais concretamente, com a Sniper Cycling, detentora da equipa. Insatisfeito com todo o processo de fusão com outra estrutura, o belga nunca hesitou em criticar publicamente os responsáveis, principalmente por manterem a ele e aos restantes membros da formação no escuro enquanto decorreram as negociações. Depois, ficou furioso por ver como a junção das duas equipas significaria a perda de trabalho para algumas pessoas. Este fim-de-semana, Van Aert decidiu que não queria representar mais a Vérandas Willems-Crelan e vai partir para a época de ciclocrosse como um "cowboy solitário", mas que não deverá ficar muito tempo sozinho.
Wout van Aert é uma das estrelas em ascensão no ciclismo. Nasceu para as clássicas do pavé, ainda que separar-se do ciclocrosse não é algo que esteja para já nos seus planos. É tricampeão do mundo e está nos Estados Unidos à procura de mais uma camisola do arco-íris. Também foi campeão mundial de sub-23 da especialidade. Aos poucos tem feito a passagem para a estrada e este ano foi uma das sensações de início de época. O terceiro lugar na Strade Bianche deu o mote para uma época de clássicas que deixou as equipas do World Tour loucas pelo belga. No pavé foi sempre muito regular. Nos monumentos foi nono na Volta a Flandres e 13º no Paris-Roubaix. E representava uma equipa Profissional Continental.
Com mais um ano de contrato e assediado por equipas do World Tour, Van Aert logo garantiu que ficaria na Vérandas Willems-Crelan em 2019, mas terá comprometido-se com a Lotto-Jumbo para 2020. Este belga é um ciclista confiante, com um currículo invejável no ciclocrosse e com resultados na estrada que lhe permitem ter uma palavra muito forte em como quer gerir a sua época e a sua carreira. A confirmar-se a mudança para a Lotto-Jumbo, não foi só com dinheiro que seduziu Van Aert. Com apenas 24 anos, o belga é alguém que coloca em cima da mesa o que quer e como quer. É senhor do seu destino e que ninguém tente prendê-lo.
O ciclista cedo percebeu que tinha o poder de tomar as decisões que queria, pois a procura pelos seus serviços era (e é) intensa. Não se confunda esta confiança com arrogância. Van Aert sabe que tem muita qualidade e sabe que pode alcançar na estrada o que tem feito no ciclocrosse. A pressão, a responsabilidade, é algo que gosta e quer lidar ao mais alto nível, pois ambiciona alcançar o estatuto dos grandes nomes belgas, referências das clássicas, que serão o seu ponto forte. Porém, este ano ganhou a Volta à Dinamarca, pelo que é só o colocarem numa corrida por etapas que se adapte a Van Aert e poderá ser mais uma vitória que somará.
Livre do contrato com a Vérandas Willems-Crelan - a situação poderá agora ir para tribunal, caso a equipa não aceite as justificações para a quebra de contrato e, se perder, pagar uma indemnização -, Van Aert não deverá ficar muito tempo sem quem o queira. A Lotto-Jumbo é o passo óbvio, mas uma quebra de contrato é uma situação delicada, pelo que o próprio ciclista não quer falar mais sobre o assunto, sendo agora o advogado quem está a lidar com o caso.
Walter Van Steenbrugge confirmou ao Sporza que o ciclista é, por agora, um "cowboy solitário", sem equipa, o que acaba até por definir bem o ciclista, que quer fazer o seu caminho, mesmo que tenha de lutar sozinho contra o que considera ser errado. Para o advogado, Wout van Aert tem razões para terminar o contrato 15 meses mais cedo. "Algo aconteceu no último fim-de-semana que foi a gota de água", explicou, considerando que já existiam outras questões que levaram à decisão radical. No entanto, não explicou qual foi essa gota de água.
O corredor escreveu num blog que "houve factos nos últimos dias que qualquer cooperação com a equipa seria impossível". "Infelizmente, para você como leitor, não lhe posso dizer mais nada de momento, devido ao aspecto delicado do caso", referiu. Van Aert vai tentar encontrar alguma tranquilidade para que possa enfrentar os Mundiais e a restante temporada de ciclocrosse o mais concentrado possível, enquanto define o seu futuro para 2019.
A fusão e um contrato melhorado
Wout van Aert será a estrela de qualquer equipa que o "apanhe". A Aqua Blue Sports pensou que lhe tinha saído o jackpot, pois não só conseguiria salvar a equipa, como ficaria ainda com uma garantida estrela do futuro imediato da modalidade. No entanto, a Vérandas Willems-Crelan negou o comunicado da equipa irlandesa que dava o acordo como fechado e foi negociar com a Roompot-Nederlandse Loterij.
O ciclista belga nunca gostou de não ter conhecimento de nada, ainda mais quando era constantemente questionado sobre o assunto, já que, sendo o rosto da equipa, acabava por estar completamente exposto a nível mediático sempre que ia competir. A Aqua Blue Sports anunciou que ia fechar portas, enquanto a Vérandas Willems-Crelan e a Roompot-Nederlandse Loterij vão transformar-se na Roompot-Crelan, que permanecerá como Profissional Continental.
Ter Van Aert certamente que entusiasmaria os patrocinadores e, por isso mesmo, a equipa confirmou que ofereceu ao ciclista um contrato melhorado apenas para 2019, sabendo que não seria possível segurar mais o belga, que tem calibre de World Tour. "Van Aert não aceitou a proposta e optou por terminar o seu contrato unilateralmente com efeito imediato. A direcção da equipa lamenta essa decisão. O assunto está agora nas mãos dos nossos advogados", explicou a equipa, através de um comunicado.
Quem contratar este ciclista já percebeu que terá pela frente um ciclista que sabe o que quer e que não tem receio de perseguir e lutar pelos seus próprios termos. Mas se os resultados aparecerem, será um investimento que trará muita rentabilidade, mesmo que Van Aert não perca por completo o seu lado de cowboy solitário, apesar de no ciclismo ter de saber jogar em equipa. »»O final de uma equipa que quis ser auto-sustentável«« »»Amaro Antunes vai para o World Tour««
Um senhor ciclista. Simon Yates olhou para o Giro e inverteu a sua táctica. Em três semanas é sempre importante não começar mal, não ter nenhuma grande quebra a meio, mas o essencial é mesmo acabar bem. Yates está a acabar muito, muito bem. Que ciclista emocionante de ver foi o britânico numa subida longa, em que até se esperava que pudessem ser feitas diferenças, mas poder ser a que decide a Vuelta, não estava nas expectativas... Mais um pormenor inesperado nesta corrida tão recheada deles. Não está ganha, mas o maior de inimigo de Yates é ele próprio quando faltam os 97,3 quilómetros mais esperados.
Não houve planos, nem pretensões de conseguir colocar a vantagem de 25 segundos em 1:38 minutos! Yates seguiu os instintos, pois este britânico não segue o exemplo calculista de um popular compatriota da Sky que tanto gosta de olhar para o potenciómetro, ele que pode suceder precisamente a Chris Froome no historial de vencedores da Vuelta. Yates está a afirmar o seu estilo, a sua forma de estar, a sua forma de não ficar à espera de ninguém e de tomar as rédeas do seu destino. Se se sente bem, ataca. Foi o que fez. Admitiu que foi o momento que lhe pareceu ideal para o tentar fazer. Ainda faltavam mais de nove quilómetros. Mas foi a altura mais do que certa.
Jack Haig tinha sido fenomenal quando Nairo Quintana atacou para preparar caminho para Alejandro Valverde, ou talvez ele próprio reentrar na luta pelo menos pelo pódio. Porém, foi o gregário de Yates quem preparou o melhor caminho para o seu líder e nem foi preciso Adam Yates entrar ao trabalho. Mais força fica para sábado. A Movistar saiu derrotada em todas as frentes. Tentou o abanico, Yates assustou-se, mas fechou o espaço.Na subida final, Quintana não só não conseguiu que o seu ataque abanasse Yates, como ainda viu o britânico apanhá-lo e quando foi ajudar Valverde, foi nessa altura que a diferença começou a aumentar para a frente da corrida. Nada correu bem a Quintana nesta Vuelta e nesta 19ª etapa até furou na última subida, só para completar a lista do que não correu bem ao colombiano.
Yates foi aquele ciclista que nas duas primeiras semanas de Giro não deu hipóteses. Na Vuelta deixou o melhor para o fim e se não falhar, se não tiver nenhuma quebra, nenhum azar, talvez desta vez o que parece ser pode mesmo realizar-se na Volta a Espanha: Yates vencer a sua primeira grande volta.
Não se pode dar mérito apenas ao britânico da Mitchelton-Scott. Os companheiros de ocasião foram essenciais para que a vantagem crescesse tanto. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) ajudou a pensar na vitória de etapa - a segunda ficou garantida para o francês - e para aproveitar subir na classificação. Passou de nono para sétimo. Mas foi Steven Kruijswijk o outro grande vencedor do dia.
Tinha-se aqui dito que o holandês precisava de se mostrar na alta montanha ao nível que tinha apresentado no contra-relógio. O holandês da Lotto-Jumbo fez isso mesmo e está novamente no pódio. Não foi quem mais ajudou Yates e até quebrou, mas o trio pegou nos seus interesses individuais e trabalhou em conjunto para os concretizar. Todos ficaram felizes no fim. Kruijswijk está a 1:58 de Yates e Valverde ficou à distância de 20 segundos.
Mau dia para os ciclistas espanhóis com Enric Mas (Quick-Step Floors) a não conseguir estar tão forte como em dias anteriores. Escapou-lhe o terceiro posto e a ambição de surpreender ainda mais fica agora para trás. Sábado irá à procura de um pódio que ficou a 17 segundos.
Se na 20ª e penúltima etapa já se esperavam ataques, perante as diferenças e sabendo que não haverá mais oportunidades, não há tempo para se ser conservador. Atacar é a solução, esperando Valverde sentir-se melhor, ele que mais uma vez não se deu com altitudes acima dos 1500 metros.
O pleno britânico nas grandes voltas está perto de se concretizar. Chris Froome, Geraint Thomas e agora Simon Yates poderá estrear-se, tal como Thomas, nestas vitórias. Tem apenas 26 anos e todo o trabalho da Mitchelton-Scott em criar um vencedor deste nível poderá finalmente concretizar-se.
No entanto, é necessária uma última demonstração de classe de um ciclista que este ano demonstrou tê-la em abundância e que depois de lhe ter faltado maior inteligência táctica e de gestão de esforço, em seis meses assimilou as lições do Giro para não repetir o desgosto. Talvez seja um dia em que possa tentar controlar um pouco mais os adversários, ser um pouco mais calculistas, ainda que para Yates a melhor defesa seja mesmo o ataque.
Faltam 97,3 quilómetros com uma segunda, três primeiras e uma terceira categoria antes da última rampa da Vuelta. Uma categoria especial para terminar, como só poderia ser numa corrida como esta Volta a Espanha. O pelotão arrancará de Andorra e o Coll de la Gallina definirá se Yates aguentará a última investida dos adversários - Valverde prometeu não atirar a toalha ao chão - ou se esta Vuelta tem uma derradeira surpresa para revelar.
O Coll de la Gallina tem uma contagem de montanha de 3,5 quilómetros, mas a subida começa antes. Na fase final, serão rampas de 11%, 7% e 9%. Sendo uma etapa tão curta, será uma espécie de sprint para os trepadores. A etapa poderá ser vista na íntegra no Eurosport e a TVI24 também irá começar a sua transmissão mais cedo do que o habitual para que não se perca nada da muito aguardada etapa da Vuelta.
Estabilidade. Uma palavra-chave para o renascer de uma equipa que nos finais dos anos 90 e na primeira década do século era das mais forte do pelotão. A então Rabobank estava na luta pelas grandes corridas, com planteis fortes e durante quase duas décadas, o banco holandês foi um patrocinador importante, inclusivamente para o ciclismo feminino e de formação. Foi a este último que se agarrou quando em 2012 bateu com a porta à elite devido às alegações de doping. Foi um rombo numa estrutura que teve em Richard Plugge um director que se recusou a deixar cair a equipa. A reconstrução foi difícil e a incerteza foi muita, mas 2018 está a tornar-se no ano em que há certezas que a agora denominada Lotto-Jumbo começa a mostrar potencial para regressar ao topo. Em 2016, Steven Kruijswijk quase conseguiu dar uma inesperada vitória numa grande volta. Uma queda e Vincenzo Nibali tiraram-lhe o Giro. Escapou um triunfo na geral de uma grande volta que não acontece desde que Denis Menchov ganhou a Vuelta e o Giro, em 2007 e 2009, respectivamente. Kruijswijk não mais conseguiu aparecer àquele nível. Neste Tour tem estado muito bem, mas ofuscado por um brilhante Primoz Roglic. O saltador de esqui que deu em ciclista e que em três grandes voltas, ganhou sempre uma etapa. E na primeira vez em que lhe é concedido o estatuto de líder, está a 31 quilómetros de um contra-relógio - no qual é especialista - de conseguir o pódio, provavelmente tirando o lugar ao quatro vezes vencedor da Volta a França, Chris Froome. Quando há dois anos venceu o contra-relógio no Giro, foi uma espécie de "Primoz quê?" Roglic é agora um nome bem conhecido - ainda mais em Portugal, onde venceu a Volta ao Algarve em 2017 - e nesta Volta a França conquistou um estatuto no pelotão que ele muito trabalhou, mas que ainda estava rodeado de alguma desconfiança. A sua qualidade como ciclista de provas de uma semana estava mais do que confirmada. Só este ano venceu a Volta à Romandia, ao País Basco e da "sua" Eslovénia. Agora confirma que é também um corredor de 21 etapas. Esta sexta-feira, numa tirada espectacular nos Pirenéus, Roglic - que fará 29 anos em Outubro - foi irrepreensível. Saltou para o terceiro lugar e o segundo está a 19 segundos. Se Tom Dumoulin (Sunweb) tem razões para se preocupar, já Geraint Thomas (Sky) só terá de ser igual a ele próprio e evitar azares. 2:24 minutos será uma distância demasiado grande para perder em 31 quilómetros, mesmo que se esteja perante o vice-campeão do mundo. Ao contrário do campeão Dumoulin, Roglic não fez o Giro. Uma segunda vitória de etapa não é de afastar, tal como passar o holandês. Depois há um Dylan Groenewegen (25 anos), vencedor de duas etapas neste Tour e que em 2017 ganhou nos Campos Elísios. Cada vez mais é um dos melhores sprinters da actualidade e está também a fazer o trabalho para se tornar num homem de clássicas. Kruijswijk merece o mérito de ter sido essencial nesta reconstrução da equipa, ele que ficou na estrutura desde os tempos da Rabobank, mas são Roglic e Groenewegen os rostos de uma Lotto-Jumbo que nas próximas grandes voltas não será mais uma simples outsider. Mas estes são os nomes que se consagraram no maior palco de ciclismo do mundo. Contudo, há ainda um muito talentoso George Bennett, cujo oitavo lugar no Giro pode não ter sido bem o que esperava, mas este australiano ainda tem algo mais para dar e conquistar. Aos 24 anos, Antwan Tolhoek é uma esperança holandesa a receber a formação numa equipa que está a produzir bons ciclistas. A par de Kruijswijk há ainda um Jos van Emden, um Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink. Todos já com mais de 30 anos, todos do tempo da Rabobank e todos de confiança para o director Richard Plugge. Gesink não se tornou no voltista esperado, no entanto, o trabalho que hoje realizou para encurtar distâncias para o grupo de Mikel Landa (Movistar) e Romain Bardet (AG2R), explica porque o contrato foi renovado até 2021. Sozinho fez o trabalho de três ou quatro ciclistas da Sky! A vitória de Roglic na etapa também tem muito de Gesink. Para o ano será apenas Jumbo, ainda que não esteja excluída a entrada de outro patrocinador. A Lotto sai de cena, mas a cadeia de supermercados garantiu que a aposta será forte e até aumentada, comparativamente com este ano. É tempo de crescer. O passado está mesmo lá atrás. Longe vão os tempos em que a equipa foi apenas a Blanco, sem patrocinador. A Belkin apareceu para dar um primeiro empurrão rumo à reconstrução de uma estrutura que viu alguns dos seus principais ciclistas serem envolvidos em casos de doping, ou de não se livrarem de suspeitas. Os actuais patrocinadores vincularam-se em 2015. Ano complicado, com apenas seis vitórias. Porém, aquela de Bert-Jan Lindeman na Vuelta serviu de mote para o recomeço de uma equipa que sabe vencer, mas que ainda lhe falta uma vitória na geral de um corrida de três semanas ou num momento, pois soma triunfos em praticamente todas as principais provas. Estará a aproximar-se?... Etapa espectáculo A subida ao mítico Tourmalet impulsionou o espectáculo a 100 quilómetros da meta, muito devido a Mikel Landa. Apenas com tudo a ganhar, o espanhol da Movistar cumpriu o prometido e atacou de longe, levando com ele Romain Bardet (AG2R), com Ilnur Zakarin a agarrar-se ao grupo depois da Katusha-Alpecin lhe ter preparado o terreno para tentar ganhar a etapa. Juntou-se ainda um Rafal Majka à procura dar mais uma vitória à Bora-Hansgrohe além das três de Peter Sagan, depois de ter desiludido na luta pela geral. Primoz Roglic foi o mais espectacular de todos, num dia em que Chris Froome agarrou-se como pôde a Egan Bernal para tentar salvar um terceiro lugar, que, ainda assim, está agora a 13 segundos. Tom Dumoulin fez tudo para defender o seu segundo posto, mostrando que lutar pelo Tour é algo que estava além das suas capacidades. O preço do Giro está a ser pago, pelo que fez o que lhe competia, ainda que para isso tenha ajudado Geraint Thomas a ficar a 31 quilómetros de conquistar um Tour que ninguém, ou quase, acreditaria ser possível há três semanas. Se os três actuais ocupantes do pódio ali permanecerem, o Tour terá três estreantes nestas posições nesta corrida. Só Tom Dumoulin sabe o que é subir ao pódio de uma grande volta: ganhou o Giro em 2017. (O texto continua por baixo do vídeo.)
Landa subiu ao sexto lugar, enquanto o companheiro Nairo Quintana caiu de quarto para nono, depois de uma etapa dolorosa. O colombiano sofreu uma queda na quinta-feira e não escondeu o quanto o limitou fisicamente. Salva para a Movistar a vitória na etapa dos 65 quilómetros por parte de Quintana e a classificação de equipas. Zakarin é agora 10º à custa de um Jakob Fuglsang que deu certezas à Astana que tem de contratar um ciclista para as três semanas. Faltam então 31 quilómetros entre Saint-Pée-sur-Nivelle e Espelette, num contra-relógio que de direito pouco tem. Geraint Thomas sabe o que é vencer estas etapas, começou por o fazer há um ano no Tour, por exemplo. 2:05 é uma margem que lhe dá alguma tranquilidade. Em condições normais, nem Dumoulin, nem Roglic e muito menos um Froome cansado, conseguirão tirar-lhe a amarela. Se nada de anormal acontecer, é ele que será a estrela no desfile de campeões em Paris. Mas festas só no fim, como reitera um Peter Sagan que está a sacrificar-se como nunca para acabar o Tour e confirmar a conquista da sexta camisola verde. Escapou à exclusão por chegar fora do tempo limite, mas as dores continuam depois da queda na quarta-feira. Quem também estará no "desfile" será Julian Alaphilippe. Mais um francês a ganhar a camisola da montanha, sucedendo a Warren Barguil. O ciclista da Quick-Step Floors pode não ser um trepador puro, mas agora já se questiona se será esse o caminho que seguirá na sua evolução, podendo assim pensar em lutar pela geral no Tour. Ainda é cedo e Alaphilippe quer é saborear esta excelente conquista. Pierre Latour partirá para o contra-relógio com 5:47 minutos de vantagem sobre Egan Bernal, pelo que também só algo de muito mau irá tirar ao francês da AG2R a camisola branca da juventude. Está quase a terminar um Tour dos mais interessantes dos últimos anos. O contra-relógio não deverá ser aquele dia tão decisivo como a organização poderia desejar, mas vamos esperar pelo fim dos 31 quilómetros, pois há uma longa lista de ciclistas que podem atestar que tudo pode acontecer nesta Volta a França, do primeiro ao último metro. Pode ver aqui as classificações.
Roglic está na luta pelo pódio e talvez mais... (Fotografia: Twitter Lotto-Jumbo)
De Geraint Thomas já se sabe que é capaz de estar bem nas grandes voltas, mas como gregário. Como líder teve uma oportunidade e foi para casa mais cedo, ainda que não por culpa sua. Primoz Roglic chegou ao Tour para mostrar que está feito num voltista capaz mais do que um top dez. Ambos têm em comum serem dos melhores em provas por etapas de uma semana. Porém, partilham também a desconfiança se realmente têm capacidade para estar na luta por uma grande volta. Até ao momento, o Tour de 2018 está a ajudar a esclarecer estas dúvidas. A resposta é que temos ciclistas para a disputar a vitória. Pelo menos, para já.
A questão com corridas de três semanas é que é preciso estar bem durante os 21 dias. Há quase sempre um dia menos bom (um dia mau não é permitido a este nível) e como ainda faltam os Pirenéus, afirmar com toda certeza que Thomas e Roglic podem ganhar o Tour, pode ser cedo. Basta recordar o que aconteceu com Simon Yates no Giro. Parecia que estava mais do que encaminhado para uma vitória e depois lá veio aquele dia terrível de Bardonecchia (nem foi mau, foi mesmo um filme de terror, com quase 40 minutos perdidos). Se recuarmos a 2015 temos um Tom Dumoulin na Vuelta a também não aguentar quando as mais difíceis das subidas apareceram na última semana, no que foi um sinal que ainda havia muito a melhorar (e melhorou e bem!).
O que já ninguém lhes tira é que com a segunda semana a terminar, são duas das principais figuras da Volta a França. Geraint Thomas comprovou que não andou a falar de mais, quando se assumiu como co-líder e com condições de disputar o Tour. Não é só o estar de amarela que o demonstra (ainda que quase que seria suficiente), mas ganhou ainda as duas etapas com chegada em alta montanha e foi convincente nessas vitórias e também nas etapas seguintes, em que tem aproveitado para aumentar a vantagem, inclusivamente ao seu colega e líder número um da Sky, Chris Froome.
Thomas está a ser um senhor. Não mostra debilidades e se não fosse ter Froome como companheiro, estaria perto do topo nas apostas nesta fase. Com 1:39 minutos de vantagem - e se assim manter este domingo -, quando chegarem os Pirenéus, a Sky não irá pedir a Thomas para ajudar Froome se este tiver alguma dificuldade. Seria simplesmente mau de mais. O contrário também não acontecerá, certamente, não fosse Froome um vencedor de seis grandes voltas. Se Thomas mantiver o nível, então poderemos mesmo estar perante uma decisão que será feita no contra-relógio, no qual estará cada um por si.
Em final de contrato e com 32 anos, uma vitória seria brilhante, mas mesmo que se fique pelo pódio, ou na pior das hipóteses um top dez, pelo que fez até agora, Thomas ganhou poder de negociação. Se aguentar bem a última semana, o galês afastar qualquer desconfiança. É um voltista e se lhe deram condições, pode disputar uma grande volta. Mas vamos esperar pelos Pirenéus.
Quanto a Roglic (Lotto-Jumbo), este ano ganhou a Volta ao País Basco, Volta à Romandia e a "sua" corrida, Volta à Eslovénia. E não nos esquecemos como em 2017 foi primoroso na Volta ao Algarve. Para quem iniciou a carreira de ciclista apenas em 2013, a progressão é simplesmente fantástica. Este antigo saltador de esqui foi visto como talentoso e muito bom no contra-relógio. Chamou a atenção quando ganhou o contra-relógio no Giro, em 2016. Agora é um ciclista completo. Há imagem de um Tom Dumoulin, por exemplo, pode não ser exímio na montanha, como um Chris Froome ou um Alberto Contador (pode já se ter retirado, mas é inevitável ser um alvo de comparações), no entanto, Roglic faz-se valer das restantes características - como contra-relógista sabe também rolar bem -, para equilibrar as forças. Quanto muito era visto como um outsider a um top dez neste Tour. Agora... tudo está diferente. O esloveno, de 28 anos, estava a fazer uma corrida até discreta, mas sempre bem colocado. Este sábado mostrou-se e ganhou uns segundos. Mais importante avisou que contem com ele para tentar surpreender e assim confirmar o que tem tentado convencer: está pronto para se tornar num voltista de respeito.
Tom Dumoulin (Sunweb) está a ser quem mais rivalidade impõe à Sky (1:50 de Thomas), mas a 2:38 da liderança, Roglic conquistou definitivamente a atenção dos adversários, até porque olhando para os quatro primeiros, uns são especialistas de contra-relógio - Dumoulin foi campeão do mundo, Roglic segundo, Froome terceiro - e Thomas também sabe o que é ganhar nesta especialidade. O esloveno está a tornar-se na outra dor de cabeça da Sky.
Que venham os Pirenéus para confirmar então Thomas e Roglic como voltistas para ganhar. Certo é que começaram a convencer, o que no caso de Thomas acontece um ano depois. Havemos sempre de ficar na dúvida o que teria acontecido se aquela moto da polícia não tivesse parado tão mal no Giro de 2017. Thomas foi forçado a abandonar. Faz parte do passado, agora é no Tour, no maior palco de todos que o galês se está a afirmar neste novo papel.
A época está a ser de grande nível para a equipa cazaque. Já são 22 vitórias. Porém, não vencer no Giro foi um pouco frustrante e com um Jakob Fuglsang a não ser ciclista para ombrear com Froome, Thomas e Dumoulin, Fraile deu um triunfo muito desejado na Astana. Este é um espanhol que Rui Costa conhece bem, pois venceu no Giro, deixando o português em segundo, no ano passado.
É um ciclista (28 anos) de grande qualidade. A nível táctico é dos melhores que neste momento está no pelotão e demonstrou isso mesmo na etapa entre Saint-Paul-Trois-Châteaux e Mende (188 quilómetros). Numa daquelas tiradas em que houve duas corridas - a fuga para vencer a etapa e a do pelotão pela geral -, Fraile soube atacar no momento certo para apanhar Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) e depois não deixou Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) aproximar-se. E entretanto garantiu que Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não recuperaria para discutir a vitória. Foi, portanto, um ataque no timing perfeito e o controlo do desgaste físico ideal para conquistar a sua primeira vitória no Tour.
É mais um daqueles ciclistas completo e que a Astana quererá aproveitar, pois tem potencial para render grandes triunfos.
Na luta particular pela geral, Roglic ganhou sete segundos ao trio Thomas/Froome/Dumoulin, enquanto Nairo Quintana continua a fraquejar e perdeu mais dez segundos para os três primeiros. Mikel Landa perdeu 19. A Movistar quis tanto, mas está a ver tudo escapar-lhe a cada dia que passa. Romain Bardet (AG2R) perdeu 14. Começa a ficar muito difícil para até aspirar ao pódio. Será preciso mexer com a corrida nos Pirenéus, até porque os três vão perder ainda mais tempo no contra-relógio.
É o último dia antes do descanso e dada as diferenças que superam os três minutos a partir do quinto classificado, Romain Bardet, deixar tudo para os Pirenéus poderá significar entregar o pódio a quem está lá agora, com Roglic ainda na luta. Esta é uma etapa que tem o nome de Vincenzo Nibali, perante a descida até à recta da meta. Mas o italiano já não está no Tour. É mais um dia para que se possa ter uma fuga na luta pela vitória, enquanto no pelotão alguns ataques poderão verificar-se para recuperar, nem que sejam alguns segundos.
Hoje foi um daqueles dias... Um daqueles dias em que se tenta combater o sono mesmo adorando-se esta modalidade. Mais de 200 quilómetros, a etapa mais longa desta edição do Tour, com a acção a resumir-se a um sprint... Pelo menos esse momento valeu a pena, mas foram cinco horas e meia em que nem os homens que tentaram as fugas acreditavam que valia a pena. Contudo, é uma forma de mostrar o patrocinador, sempre importante, é certo, mesmo sem vitória no final. Houve um pequeno susto quando o pelotão ficou partido devido ao vento e à tentativa da AG2R em apanhar alguém desprevenido. Abriu-se um pouco os olhos. Mas tudo voltou a normal e lá regressou o tédio. Dylan Groenewegen ganhou. E que vitória. Senhor deste sprint frente de um Fernando Gaviria (Quick-Step Floors) que desta feita foi batido como normalmente bate a concorrência. São dois grandes sprinters de uma nova geração que começa a ocupar o lugar de Mark Cavendish, Marcel Kittel e André Greipel. Esta é uma rivalidade que está apenas nos primeiros episódios e que promete tornar-se numa de muito espectáculo e história. É principalmente isso que se pode retirar dos 231 quilómetros entre Fougères e Chartres, o início de uma rivalidade, pois o que fica deste dia é o segundo triunfo do holandês da Lotto-Jumbo no Tour, depois de em 2017 ter ganho nos Campos Elísios. Fisicamente são dois ciclistas idênticos e com características para os tornar em duas referências desta especialidade. Groenewegen, 25 anos, está na sua terceira grande volta, sempre no Tour, somando então duas vitórias de etapa. Gaviria, 23, está na sua segunda e além dos dois triunfos já mencionados tem outros quatro no Giro de 2017, tendo também vencido a classificação por pontos. O colombiano pode parecer destinado a uma carreira brilhante, mas também é preciso ter um bom rival para tornar as vitórias ainda mais históricas. Groenewegen tem tudo para ser esse rival. Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) - que tal como Gaviria perseguia a terceira vitória neste Tour - ficou na terceira posição e não hesitou em dizer que a etapa desta sexta-feira "foi mesmo aborrecida". "Andámos com muita calma e depois competimos nos últimos 10 quilómetros", disse o tricampeão do mundo e líder da classificação por pontos. Greg van Avermaet (BMC), que manteve a camisola amarela, questionou se "etapas destas são mesmo necessárias nas grandes voltas". Este ano até houve uma melhoria, pois serão "apenas" cinco com 200 ou mais quilómetros, quando em 2017 foram sete. (O texto continua por baixo do vídeo.)
Talvez tenha sido um dia para acalmar um pelotão que mesmo nas etapas planas tem enfrentado problemas, que fizeram alguns dos candidatos perderem tempo. As quedas têm sido um elemento central. Hoje tudo foi mais calmo. Dia aborrecido, sim, mas há que pensar que no domingo há uns sectores de pavé que vão animar e bem a corrida. Antes haverá mais uma etapa com potencial para não diferir muito da desta sexta-feira. Tendo em conta o que já aconteceu neste Tour, nunca se sabe se uma queda, um furo ou uma avaria voltará a atacar um candidato, mas já se quer é que chegue a nona etapa, pois hoje não vale a pena prolongar muito a escrita, pois a tirada já foi longa de mais. Pode ver aqui as classificações completas.
A etapa do Etna é das mais faladas desde que o percurso do Giro foi apresentado. Com apenas cinco dias de competição completos, os candidatos vão enfrentar a primeira chegada em alto, ainda que não se possa dizer que seja o primeiro teste, pois as últimas duas tiradas fez muita gente suar bastante e já provocou desilusões. Que o diga Miguel Ángel López! Se é certo que se estará a olhar para Tom Dumoulin, Chris Froome, Thibaut Pinot, Simon Yates e não só, será também o dia para Rohan Dennis responder à questão: é desta que mostra capacidade para estar na luta com os melhores na alta montanha? O australiano alcançou um feito sempre importante ao conseguir vestir as três camisolas de líder das grandes voltas. Em Itália não conseguiu no contra-relógio, como no Tour e na Vuelta, mas vestiu a maglia rosa no segundo dia após ter perseguido os segundos de bonificação nos sprints intermédios. E não mais a largou. Nas duas etapas pela Sicília, os finais não foram nada fáceis. Mas Dennis aguentou. Até aqui não há surpresas. É um ciclista que passa bem a pequena e média montanha. Porém, para quem afirmou querer ser o próximo grande voltista australiano, o tempo passa e nada demonstra que o venha a ser. A alta montanha tem sido um obstáculo que não consegue evoluir fisicamente para o conseguir ultrapassar. Dennis (27 anos) afirmou que defenderia a camisola rosa com tudo o que tem e pode dar, ainda que admitisse que eventualmente alguém a tiraria do seu corpo. Mas quer estar na luta até Roma. Será que consegue? Aí está o Etna, com toda a sua imponência, condições atmosféricas que não facilitam em nada (o vento pode ser um enorme inimigo, como aconteceu há um ano) e os adversários do australiano são alguns dos melhores do mundo neste tipo de corridas. Se Dennis quer ser um campeão, então tem de bater os melhores. Chegou a sua oportunidade de mostrar que pode fazer mais do que apenas demonstrar vontade de fazer algo especial através de palavras. Há ainda um outro factor a ter em conta. Os ciclistas da BMC estão cada vez mais em xeque relativamente ao futuro. Com a equipa a poder fechar portas, Dennis não poderá estar a pensar num plano para se tornar voltista que montou com esta estrutura. É altura de apresentar resultados, pois se é o caminho que quer seguir na sua carreira, então terá de mostrar que tem capacidade para ser um voltista, senão terá de negociar outro tipo de papel caso seja obrigado a mudar de equipa. Dennis pode estar de rosa, mas os actores principais são, na antevisão da subida ao vulcão, Dumoulin e Froome, a dupla que mais se quer ver. O muito esperado embate na alta montanha entre os dois vencedores das grandes voltas de 2017 irá começar o Etna. Só que poderá haver quem roube as atenções. É um cliché, mas é irresistível dizer: o pequeno Domenico Pozzovivo está enorme! Quem bem esteve no contra-relógio (10º) e nestas duas últimas etapas tão movimentadas nos quilómetros finais, esteve onde devia estar. Nesta quarta-feira até apanhou um susto ao ficar para trás após uma queda que cortou o pelotão. Teve de recuperar, mas não demorou até estar na frente a acelerar a corrida. Aos 35 anos, o ciclista da Bahrain-Merida está numa forma fantástica.
José Gonçalves recuperou muitos lugares no sprint final para fechar em terceiro (Fotografia: Giro d'Italia)
Quanto à quinta etapa, os 153 quilómetros foram animados na parte final, como aconteceu na tirada anterior. Desta vez Chris Froome e a Sky mantiveram-se unidos e só Miguel Ángel López perdeu tempo, entre aqueles com aspirações a um top dez ou mais. Desta vez o colombiano teve uma saída de estrada, tendo inclusivamente caído. Já não conseguiu reentrar no grupo principal e perdeu 43 segundos. E já são 1:57 minutos de desvantagem. O Etna poderá muito bem decidir se o ciclista da Astana irá continuar a apostar na geral, ou se terá de mudar os seus planos. Se perder mais tempo será o fim das aspirações, mas se conseguir recuperar alguns segundos (bastantes, de preferência), então ainda haverá muitas etapas para López reentrar na luta. Enrico Battaglin foi o vencedor em Santa Ninfa. A Lotto-Jumbo retira desde já essa pressão de cima dos seus ciclistas, o que poderá ajudar George Bennett a ser ainda mais aposta para o top dez. Grande temporada para a equipa holandesa, já com 12 vitórias, metade em provas do World Tour. E José Gonçalves deu mais uma boa razão para se falar dele. Foi terceiro. Excelente início de Giro para o português da Katusha-Alpecin. Desta feita sem problemas mecânicos, Gonçalves foi ao sprint final. A colocação nas duas últimas curvas não terá sido a melhor e quando arrancou já estava em desvantagem para Battaglin e Giovanni Visconti (Bahrain-Merida). Ainda assim, depois de uma quarta etapa com tanto azar, Gonçalves fez mais um bom resultado e reentrou no top dez: é oitavo, a 32 segundos de Rohan Dennis.
Sexta etapa: Caltanissetta-Etna, 164 quilómetros
Quando se fala do Monte Etna, o ciclismo português tem o seu destaque. Recuamos a 1989 e aí vemos Acácio da Silva a vencer a etapa no Giro e a vestir a maglia rosa. Um feito que continua a ser único na história da modalidade em Portugal.
Numa entrevista ao Observador, publicada no ano passado o ciclista, agora com 57 anos, recordou o momento decisivo daquela que foi a segunda etapa da Volta a Itália: "Saquei a rosa em Etna. Lembro-me perfeitamente. Foi uma chegada em pelotão, todos juntos, muito juntos. Nos últimos 10 quilómetros, havia uma subida de 6% de inclinação. Depois, a 400 metros da meta, havia uma curva. Quando faço a curva, já fui com o propósito de arrancar decidido. E lá fui. Acabei com duas bicicletas de avanço, à frente do [Luis] Herrera, [Tony] Rominger, [Ivan] Ivanov e [Marino] Lejarreta. Estava forte, no máximo das minhas capacidades."
O francês Laurent Fignon viria a vencer aquele Giro, com Acácio da Silva a terminar na 48ª posição, a mais de uma hora. Mas é a este ciclista que pertence uma das páginas mais bonitas do ciclismo nacional, não esquecendo que na sua carreira venceu cinco etapas na grande volta italiana e três no Tour, tendo também vestido a camisola da liderança na corrida francesa.
Regressamos a 2018. A subida ao Etna será então a primeira chegada em alto da 101ª edição e o que mais se espera é que não seja a desilusão de há um ano. Com o vento de frente, ninguém dos favoritos se mexeu. Beneficiou Jan Polanc (UAE Team Emirates), que alcançou uma bonita vitória na sua carreira. E o esloveno está novamente no Giro, no entanto, a história poderá ser diferente. O percurso tem algumas alterações, pelo que é possível que o vento possa até chegar a "bater" pelas costas. A pendente média ronda os 6,5%, mas há zonas a oito e nove, com a máxima a atingir os 15%. Se o vento não estragar novamente a "festa", será possível que se tente fazer algumas diferenças, ou pelo menos para testar alguns ciclistas.
Para George Bennett chegou o momento de se afirmar. Já chega de erros de treino, de doenças ou de outras "desculpas". E depois de ter saído praticamente incólume de um choque com um carro antes do arranque da Volta aos Alpes, o neozelandês apresenta uma candidatura ao Giro que o coloca entre os ciclistas a ficarem no top dez. Porém, tendo em conta o que demonstrou na semana passada, Bennett deixou indicações que poderá estar bem preparado para se intrometer numa luta ainda mais ambiciosa.
Após o 10º lugar na Vuelta em 2016, Bennett foi ganhar a Volta à Califórnia, demonstrando que poderia ser uma agradável surpresa para o Tour que se aproximava. Não estava a desiludir e o top dez era uma forte possibilidade. No entanto, um problema de saúde obrigou-o a abandonar. Apostou novamente na Vuelta, mas não estava recuperado e a equipa decidiu tirá-lo da corrida após a 11ª etapa. "Houve semanas em que não conseguia sair da cama. Estava completamente esgotado", contou recentemente ao Cycling News. Referiu como há um ano sofreu de mononucleose e que conhecendo o caso de Beñat Intxausti - espanhol da Sky que praticamente não tem competido nas últimas três temporadas -, chegou a ficar bastante preocupado. Agora garante que está tudo bem e que está pronto para atacar um Giro de más memórias.
Foi em Itália que se estreou nas grandes voltas, em 2013. Um jovem Bennett, então na RadioShack-Leopard, estava ansioso por se mostrar e aprendeu uma valiosa lição: "Foram as priores três semanas da minha vida. Consegui treinar de mais na Serra Nevada. Comecei o estágio como herói e acabei como o pior ciclista. Fui à Romandia e fui último todos os dias e depois fui ao Giro e fui uma merda. Vivi os piores momentos. Aprendemos muito sobre o que não devemos fazer."
Quando ia regressar ao Giro em 2015, já na Lotto-Jumbo, acabou por ser excluído pela equipa na véspera quando teve conhecimento de um teste que tinha detectado níveis baixos de cortisol. A formação holandesa fazia então parte do Movimento por um Ciclismo Credível e como o resultado poderia ser significado do uso de cortisona ou de algum problema de saúde, as regras determinavam que não deveria correr. Bennett enfrentou a missão de comprovar que não tinha recorrido ao doping, nem tinha qualquer outro problema e conseguiu. A Lotto-Jumbo deixou o movimento depois deste caso.
2018 e nova tentativa de regressar ao Giro. Tudo parecia estar a correr bem até que durante o reconhecimento antes do início da Volta aos Alpes, um carro atravessou-se à sua frente. O ciclista ia a grande velocidade e ao chocar passou por cima do veículo antes de cair. Apesar do susto e de por momentos não conseguir mexer o joelho, Bennett competiu e foi quinto, a um minuto do vencedor, Thibaut Pinot (Groupama-FDJ). Porém, não esconde com o acidente o afectou a nível psicológico, admitindo que nas descidas teve algum receio. Fisicamente diz estar bem, ainda que não consiga mexer bem o ombro. "Não me dói. Não estamos preocupados", afirmou.
Se Bennett (28 anos) apresentar a forma que demonstrou na Volta aos Alpes e conseguir ir melhorando durante as três semanas, o neozelandês poderá ter capacidade para estar com os principais favoritos e tornar-se ele próprio num. O seu problema era o contra-relógio, mas tem trabalhado muito neste aspecto e se recuámos à Volta à Califórnia do ano passado, surpreendeu tudo e todos ao segurar a liderança, defendendo-se muito bem. No Tirreno-Adriatico, em Março, perdeu 35 segundos para Chris Froome.
Esta sua evolução na especialidade e a sua inegável qualidade na montanha, levou a Loto-Jumbo a apostar no neozelandês em Itália, deixando Steven Kruijswijk - o homem que viu escapar-lhe a vitória no Giro em 2016 - concentrar-se no Tour. Apesar da presença de Chris Froome e de Tom Dumoulin surgir com um estatuto reforçado depois da vitória no Giro100, esta é uma corrida que terá tendência a ser um pouco mais aberta do que uma Volta a França. Bennett poderá encontrar uma competição à sua medida.
A equipa poderá não ser das mais fortes, mas conta com muita experiência que terá um papel importante em, pelo menos, deixar bem colocado Bennett. Na alta montanha é de Robert Gesink (31 anos) de quem mais se espera, até porque o holandês é um ciclista com top dez no Tour e Vuelta. Estando em forma, Gesink não deverá ficar limitado a ser um homem de trabalho, com a Lotto-Jumbo a ter outra opção viável para um bom resultado.
(Fotografia: João Calado/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Está confirmada a saída de um dos principais patrocinadores dos últimos quatro anos no ciclismo. A Lotto, lotaria holandesa, deixará de patrocinar a equipa do World Tour, mas não há qualquer motivos de preocupação para a equipa. A Jumbo irá não só manter-se ligada à estrutura, como assumirá o papel de patrocinador principal. O contrato com a Lotto termina a 31 de Dezembro e não será renovado. A partir de 2019 só haverá uma Lotto na estrada, a belga: Lotto Soudal. A formação holandesa será a Team Jumbo.
A Lotto-Jumbo é a descendente da popular Rabobank, que se destacou a partir dos finais dos anos 90. No entanto, a estrutura existe desde 1990, então com o nome de Buckler-Colnago-Decca. Quando a instituição bancária anunciou que iria deixar o ciclismo, em 2012, deixou incerto o futuro da equipa. Mesmo sem um patrocínio forte, a estrutura sobreviveu. Em 2013 era apenas a Blanco, mas no ano seguinte apareceu a Belkin para dar nome e dinheiro. Dois anos depois entrou a Lotto e a Jumbo. A marca de supermercados assume agora a responsabilidade em solitário e fá-lo-á até 2023.
"A equipa de ciclismo teve uma boa época em 2017. As duas etapas ganhas na Volta a França são o destaque. Esta senda parece estar a continuar este ano, com a equipa a já ter garantido cinco triunfos", destacou o representante da Jumbo, Coosterman-Van Eerd. E tem mesmo sido um grande arranque de temporada para a equipa, principalmente devido a Dylan Groenewegen. O holandês é o responsável por quatro dos triunfos - o primeiro foi de Danny van Poppel -, dois deles na Volta ao Algarve e o mais recente na clássica Kuurne-Bruxelles-Kuurne.
Foi também o sprinter o autor de uma das vitórias de etapas no Tour em 2017 e logo nos Campos Elísios, com Primoz Roglic a dar a primeira alegria à equipa. Em Fevereiro, o esloveno tinha conquistado a geral da Volta ao Algarve. O ano terminou com 26 vitórias. Como curiosidade, a época mais ganhadora da equipa foi precisamente aquela em que procurava um patrocinador. Como Blanco venceu 38 vezes.
De recordar que em 2016, a Volta a Itália parecia estar quase garantida, mas Steven Kruijswijk caiu durante uma descida e acabou por deixar escapar a vitória e depois nem conseguiu segurar o pódio devido às mazelas físicas. O holandês, de 30 anos, foi também notícia hoje, pois além da mudança de nome na próxima temporada, a equipa anunciou que renovou contrato até 2021 com um dos seus líderes para as grandes voltas.
É ainda de realçar que a Lotto-Jumbo tem apostado na evolução de jovens ciclistas que muito prometem. Dylan Groenewegen está já a confirmar as expectativas, com as expectativas a serem grandes para com George Bennett, neozelandês que venceu a Volta à Califórna no ano passado e que este ano irá atacar o Giro.
A época está a começar a aquecer. Arrancaram as clássicas, mas vão continuando as provas por etapas e hoje foi um daqueles dias de muito bom ciclismo com a velha e a nova geração a mostrarem-se. E de que maneira! Alejandro Valverde retomou definitivamente a forma de 2017. Não parecem restar sequelas da grave queda no Tour, depois de se ter temido que a carreira poderia chegar ao fim. Duas corridas por etapas, duas vitórias. Por outro lado tivemos Dylan Groenewegen. Ganhou recentemente os sprints de Lagos e Tavira na Volta ao Algarve, antes venceu na primeira tirada da Volta a Omã e agora foi até à Kuurne-Bruxelles-Kuurne bater novamente Arnaud Démare. Não foi apenas melhor, foi de uma superioridade que já só se pede (quase se implora) vê-lo na discussão com mais concorrência, em luta com os principais sprinters, além de um Démare que já deve estar a ficar algo frustrado com o holandês.
Mas há que respeitar quem já tem um enorme currículo - que continua a aumentar - e começar por Alejandro Valverde. Iniciou a temporada a dizer que estava à procura de perceber como estava fisicamente nas corridas. Essa questão ficou resolvida com um 40º lugar na primeira das clássicas espanholas e depois foi terceiro e quarto lugar. Na Volta à Comunidade Valenciana ganhou duas etapas e a geral, fez segundo em Múrcia (prova de um dia) e agora venceu a etapa rainha em Abu Dhabi e a geral. "Começar desta maneira o ano dá muita motivação e anima-te para continuar a trabalhar", salientou o espanhol. E a motivação está mesmo em alta. O "Bala" já fala até em ir à Strade Bianche no próximo sábado, ainda que a próxima corrida no seu calendário fosse a Volta à Catalunha, que começa a 19 de Março.
Caminha para os 38 anos e simplesmente quer mais, mais e mais. Numa equipa que tenta mostrar união numa clara divisão entre Nairo Quintana e o reforço Mikel Landa, Valverde mantém o seu lugar intocável na Movistar. Onde vai, é para ganhar e se ninguém duvida que estará mais do que disponível para ajudar os outros dois líderes quando chegar a altura, ainda são menos as dúvidas que este Valverde, que pareceu estar tão perto de terminar a carreira devido à queda no contra-relógio no Tour, ainda tem tanto para dar. Abram alas, Valverde tem mais umas vitórias para amealhar e o olhar começa a ficar muito fixo nos Mundiais, a grande conquista que lhe falta na carreira.
Groenewegen deixou Démare bem distante (Imagem: print screen)
Quem também tem muitas vitórias pela frente é certamente Dylan Groenewegen. Está feito num sprinter fortíssimo e vai confirmando credenciais nas clássicas. 24 anos, 27 vitórias e vencer nos Campos Elísios em 2017 foi provavelmente apenas o início de uma senda grandes triunfos. O na Kuurne-Bruxelles-Kuurne confirma também a sua apetência para este tipo de clássicas. É certo que esta é das provas de pavé mais "simpática" para os sprinters, mas Groenewegen teve a oportunidade para ganhar experiência nestas corridas nos últimos anos e tem agora a liberdade e a responsabilidade de começar a recolher os frutos dessa fase de aprendizagem. E bem pode dar umas dicas a Fernando Gaviria (Quick-Step Floors), outro sprinter a tentar vingar nas clássicas do pavé, mas com um início desanimador: caiu na Omloop Het Nieuwsblad e abandonou na Kuurne-Bruxelles-Kuurne.
O trabalho da Lotto-Jumbo - descendente da Rabobank - com ciclistas jovens, a paciência que teve em esperar que se fizessem ciclistas, poderá a curto prazo colocar esta equipa noutro nível. Groenewegen está a fazer a sua parte, segue-se George Bennett (27 anos), que se irá tornar na grande aposta para as grandes voltas, sem que se tenha perdido totalmente a esperança em Steven Kruijswijk (30).
Em baixo ficam as classificações, via ProCyclingStats, da Volta a Abu Dhabi, com Rui Costa (UAE Team Emirates), vencedor em 2017, a terminar na oitavo posição, a 1:28 de Valverde (por defeito está a aparecer a classificação por equipas, basta carregar na "general" para ver a individual)...
... e da Kuurne-Bruxelles-Kuurne, que não contou com ciclistas portugueses.