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18 de dezembro de 2018

Van Aert junta-se à Jumbo-Visma em Março

(Fotografia: Lotto-Jumbo)
O próprio director da Jumbo-Visma admite que tudo aconteceu mais cedo do que esperava. Afinal a equipa só contava com a estrela do ciclocrosse em 2020. Apesar da incerteza se seria possível contar Wout van Aert já em 2019 após o ciclista ter rescindo com a Vérandas Willems-Crelan, a formação holandesa avançou mesmo para a contratação imediata. Ou quase. Van Aert vai fazer a temporada de ciclocrosse e juntar-se-á à sua nova equipa a 1 de Março, mais do que a tempo de fazer as clássicas da Primavera.

"Estávamos interessados no Wout para 2020. As coisas aconteceram mais rapidamente do que o planeado, mas podemos dar-lhe as boas-vindas mais cedo. Isso são boas notícias para a equipa porque estamos a ficar mais fortes. Ele é um grande talento e esperamos que possamos desenvolvê-lo num ciclista de clássicas que todos vemos nele", salientou Richard Plugge. O director geral da Jumbo-Visma tem agora um plantel que demonstrou este ano poder começar a tentar discutir pódios em grandes voltas, seja qual ela for e, com Van Aert, vai aspirar ao mesmo nas clássicas do pavé.

A única questão com a antecipação da assinatura do contrato é o que o tribunal irá decidir quanto à rescisão do ciclista. A Sniper Cycling, detentora da Vérandas Willems-Crelan, não concordou com as justificações de Wout van Aert e poderá ter direito a uma indemnização se a decisão lhe for favorável. O advogado do ciclista levou o caso à UCI, que permitiu que pudesse competir por outra equipa, mas ressalvou que ficará atenta à decisão judicial, não se sobrepondo o organismo ao que for definido em tribunal.

Além da parte legal, também se colocava a parte financeira. A Jumbo-Visma, novo nome da Lotto-Jumbo, começou a preparar a temporada de 2019 a pensar que Van Aert só entraria nas contas na época seguinte. Contratou Tony Martin (Katusha-Alpecin), Laurens de Plus (Quick-Step Floors), foi buscar à Sunweb Mike Teunissen e Lennard Hofstede, juntando-se ainda Taco van der Hoorn, da Roompot-Nederlandse Loterij. Aos novos rostos acresce-se as habituais renovações.

Até há poucos dias era a Jumbo quem se tinha comprometido em ser o patrocinador principal, eventualmente até único a nível de nome. Porém, apareceu a Visma e nesta mesma terça-feira em que foi confirmado Wout van Aert, foram anunciadas sete novas parcerias com marcas tão diferentes como das massas Grand'Italia, ou a 4iii, que irá medir a frequência cardíaca dos atletas da formação holandesa.

A Jumbo-Visma tem estado crescer e as exibições de Groenwegen, Roglic e Kruijswijk, sem esquecer George Bennett ou o jovem Antwan Tolhoek, fazem com que sonhe cada vez mais alto. Wout van Aert vai ser o senhor das clássicas depois de ter conquistado de rompante o respeito e o estrelato em 2018, alcançado mesmo um pódio na enlameada edição da Strade Bianche. Foi nono na Volta a Flandres e 13º no outro monumento, o Paris-Roubaix.

"Penso que alcancei excelentes resultados e é por isso que tive a oportunidade de falar com diferentes equipas. A certa altura, a Jumbo-Visma bateu-me à porta, uma equipa que me atraiu muito. Sabe bem subir ao World Tour porque penso que posso evoluir muito a esse nível", salientou Van Aert. 

Fica assim afastado o fantasma do ciclista de 24 anos ser obrigado a ficar uma temporada parado. Wout van Aert começou a demonstrar o seu descontentamento com a Vérandas Willems-Crelan aquando do processo de fusão com a Roompot-Nederlandse Loterij, depois de ter sido avançada que a união seria com a Aqua Blue Sport, que não se confirmou. Avançou para a rescisão em Setembro.

Apaixonado pelo ciclocrosse, este campeão do mundo tem estado a competir nesta vertente, mas longe do sucesso de épocas anteriores. Agora talvez tenha a estabilidade emocional que lhe faltava e o ciclismo de estrada irá ter outro assunto para se falar em 2019: os dois senhores do ciclocrosse, os dois grandes rivais, vão medir forças em algumas clássicas de estrada, pois o rival Mathieu van der Poel (esse sim, praticamente imbatível nas recentes corridas) viu a sua equipa, a Corendon-Circus, receber uma licença Profissional Continental para a próxima temporada. A Gent-Wevelgem e a Volta a Flandres são duas das principais clássicas em que está confirmado. A diferença entre ambos é que a Corendon-Circus estará sempre dependente de receber um convite, enquanto a Jumbo-Visma tem entrada directa nas corridas.

Uma rivalidade belga que pode sair do ciclocrosse e animar as históricas clássicas nos próximos anos.


13 de dezembro de 2018

Lotto-Jumbo atingiu a maturidade

(Fotografia: Facebook Lotto-Jumbo)
Seis anos depois de uma crise que ameaçou o futuro da equipa, a Lotto-Jumbo atingiu a maturidade. As jovens apostas evoluíram e confirmaram o seu potencial. Houve muitas vitórias em corridas importantes, luta por pódios nas grandes voltas, com o Tour a passar a ser um objectivo realista. A formação holandesa está a ver o seu trabalho de anos ser recompensado. Está a ver a sua paciência em esperar que os seus ciclistas chegassem ao ponto em que agora se apresentam para começarem a render ao mais alto nível em várias corridas, das mais importantes e não apenas esporadicamente.

Em 2018, a Lotto-Jumbo deixou de ser uma equipa de segunda linha, com um ou outro ciclista capaz de se mostrar em alguns grandes momentos. Passa a estar na linha da frente para bons resultados e para intrometer-se entre os tubarões. Em 2019, a Jumbo-Visma, como se passará a chamar, será uma equipa adulta e que terá os seus corredores entre os favoritos a algo de muito especial, quer Wout van Aert chegue já, ou só em 2020.

Antes de se falar da novela do mercado de transferências, o destaque tem de ir para um Primoz Roglic que provou ser mesmo um ciclista de três semanas, para um Steven Kruijswijk que comprovou que, afinal, ainda pode repetir exibições como a do Giro que lhe escapou em 2016, um Dylan Groenewegen que está feito num senhor sprinter, dois jovens já deixaram garantias que são o futuro - Sepp Kuss e Antwan Tolhoek -, ficando só um ligeiro dissabor com George Bennett. A época não foi má para o neozelandês, mas esperavam-se exibições mais fortes, principalmente no Giro, mas também na Vuelta.

Esta tem sido uma estrutura que com a saída da Rabobank, aguentou-se uma temporada sem patrocinador principal, muito devido à persistência do director Richard Plugge. A reconstrução foi feita mediante o crescimento sustentável económico da equipa. Sem estrelas, mas a criá-las. Com Dylan Groenewgen a ganhar no Tour (duas vezes) e noutras corridas por etapas (venceu os dois sprints na Volta ao Algarve, por exemplo), a conquistar clássicas (Kuurne-Bruxelles-Kuurne foi a de maior destaque), o holandês de 25 anos está a tornar-se num caso sério de sucesso. Já só se espera mais e cada vez melhor de um Groenewegen, que é um dos lados de uma rivalidade que promete ser intensa com Fernando Gaviria. Só Elia Viviani (Quick-Step Floors) ganhou mais este ano do que o holandês: 14 vitórias.

Com Primoz Roglic a prosseguir a sua capacidade para ganhar corridas de uma semana (mais uma vez a história da Lotto-Jumbo cruza-se com a Algarvia, já que o esloveno conquistou-a em 2017), o que o ciclista de 29 anos mais queria era comprovar que podia mesmo ser aposta também para as três semanas. Antes do Tour, venceu De forma consecutiva a Volta ao País Basco, à Romandia e a do seu país, Eslovénia. Chegou a França, onde começou de forma mais discreta, com Steven Kruijswijk a assumir maior protagonismo. Mas quando Roglic "abriu o livro"... Venceu uma etapa e pregou um enorme susto a Chris Froome, que além de ver Geraint Thomas a vencer o Tour, quase ficou fora do pódio. Porém, Roglic fraquejou numa sua especialidade, no contra-relógio, acusando o esforço do dia anterior.

Ainda assim, o quarto lugar de Roglic foi, a todos os níveis brilhante, ainda mais para quem começou a carreira apenas em 2013, tendo chegado à Lotto-Jumbo em 2016. Antes era um saltador de esqui. E dos bons, até que se lesionou com gravidade. Em 2019, Roglic vai ao Tour para alcançar mais e com a camisola amarela na mira.

Steven Kruijswijk reapareceu ao seu melhor e tem de estar orgulhoso de ter feito um quinto lugar no Tour e um quarto na Vuelta. Uma vitória de etapa não lhe teria ficado nada mal, mas foi importante ver como, aos 31 anos, recuperou a confiança que pode disputar uma grande volta, ainda que agora tenha de partilhar esse protagonismo com Roglic. Se os egos não chocarem, esta poderá tornar-se numa dupla interessante.


Ranking: 10º (7059 pontos)
Vitórias: 33 (incluindo três etapas no Tour, duas na Volta ao Algarve e a Kuurne-Bruxelles-Kuurne)
Ciclista com mais triunfos: Dylan Groenewegen (14)

Onde fica George Bennett? Para quem embateu violentamente contra um carro antes da Volta aos Alpes começar, tendo feito quinto nessa corrida e depois oitavo no Giro, não se pode fazer grandes críticas. Apesar de outros bons resultados, exibições sólidas, um 10º lugar na Lombardia, antes, na Vuelta as expectativas saíram goradas. Não se viu o melhor do neozelandês, contudo, Bennett poderá ser novamente aposta para Giro e Vuelta, mas no Tour, terá de esperar. Claro que se a Lotto-Jumbo quiser surgir forte em França, para discutir com uma Sky - o inevitável termo de comparação - Bennett poderá ser um gregário de luxo naquela corrida, em prol de um bem maior: uma possível luta pela camisola amarela, mesmo que não seja ele o líder.

Será preciso perceber como quererá a Lotto-Jumbo jogar as suas cartas, agora que tem garantias de estar a um nível superior. E quem agarrou um lugar entre os gregários de luxo foi Antwan Tolhoek. Tem apenas 24 anos e na sua estreia no Tour... Que nível que apresentou! Impressionou tudo e todos, percebendo-se bem porque no início da temporada recebeu uma segunda oportunidade depois de ter estado envolvido no caso dos comprimidos para dormir. Tolhoek foi um dos ciclistas que tomou medicação sem o conhecimento do médico da equipa, numa situação que levou ao despedimento de Juan José Lobato, com Tolhoek e Pascal Eenkhoorn a serem perdoados, mas a ficarem sob apertada vigilância. Ambos aproveitaram bem o perdão.

Outro jovem que se vai afirmado é Sepp Kuss (24 anos). Foi em casa que se apresentou ao seu melhor, ao conquistar a The Larry H.Miller Tour of Utah. Foi uma das contratações de 2018, pelo que foi um ano de adaptação e para evoluir. O início não foi fácil, com alguns abandonos, mas foi estabilizando e foi chamado para a Vuelta. Tem características que fazem dele um ciclista que a equipa iniciou o trabalho já feito com outros corredores, que agora estão na ribalta. Mais discreto que Tolhoek, mas ambos têm muito potencial a ser explorado.

A juventude de uns é contraposta pela experiência essencial para o equilíbrio que a Lotto-Jumbo encontrou. Jos van Emden, Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink, tal como Kruijswijk, estão juntos desde o tempo da Rabobank. Boom até está de saída para a Roompot-Charles, do escalão Profissional Continental, mas a que passará a ser Jumbo-Visma (este último patrocinador foi anunciado há poucos dias), procura apostar na continuidade, mantendo a maioria do plantel e reforçando com nomes bem interessantes.

Claro que à cabeça está Tony Martin, afinal é um pentacampeão do mundo de contra-relógio, ganhou etapas no Tour, conquistou corridas como o Paris-Nice, o Eneco Tour e a Volta ao Algarve. No entanto, também é verdade que nos últimos dois anos andou desaparecido na Katusha-Alpecin. Está naquela lista de ciclistas que sai da Quick-Step Floors e não consegue manter o nível exibicional. A Jumbo-Visma espera ver um pouco do melhor do alemão que, aos 33 anos, vai tentar reavivar a sua carreira.

Porém, é Laurens de Plus quem acaba por ser a contratação de maior destaque, dada a expectativa que poderá reforçar o bloco das grandes voltas. O belga, de 23 anos, estava em fase de evolução na Quick-Step Floors, mas a indefinição da equipa, obrigou o seu director, Patrick Lefevere, a ter de abrir mão de alguns ciclistas, pois o novo patrocinador chegou já tarde na temporada..

Lennard Hofstede é outro jovem talento, da mesma idade que também está a desenvolver-se num bom ciclista para provas por etapas e para algumas clássicas. É de certa forma um regresso a casa do holandês, que esteve na equipa de desenvolvimento da Rabobank, antes de assinar por duas temporadas pela Sunweb. Também desta equipa chega Mike Teunissen. O holandês, de 26 anos, é homem para estar ao lado de Groenewegen nas clássicas e sprints. Taco van der Hoorn (25 anos, da Roompot-Nederlandse Loterij) é ciclista para as clássicas, tal como Wout van Aert.

O belga mais pretendido do momento está envolvido numa questão judicial depois de ter rescindido contrato com a Vérandas Willems-Crelan. A equipa levou a questão a tribunal, enquanto o ciclista recorreu à UCI para lhe permitir assinar já pela Jumbo-Visma, com quem iniciariá uma ligação em 2020 se não o puder fazer já, num acordo que partia do princípio que Van Aert terminaria contrato no final de 2019. A UCI deu luz verde, mas à condição, pois se o tribunal der razão à Vérandas Willems-Crelan, então quem contratar Van Aert poderá ser obrigado a pagar uma indemnização.

A Jumbo-Visma bem gostaria de assinar já a estrela do ciclocrosse e que este ano demonstrou que entre a lama da Strade Bianche e o pavé de Flandres e Roubaix, tem tudo para ser um ciclista de sucesso também na vertente de estrada. Ainda se espera pelo próximo episódio desta novela sem fim à vista e que poderá afastar Van Aert da competição em 2019 (pode ler mais pormenores neste link).

Permanências: Dylan Groenewegen, Primoz Roglic, Steven Kruijswijk, George Bennett, Antwan Tolhoek, Koen Bouwman, Floris de Tier, Pascal Eenkhoorn, Robert Gesink, Amund Grondahl Jansen, Sepp Kuss, Tom Leezer, Bert-Jan Lindeman, Paul Martens, Daan Olivier, Neilson Powless, Timo Roosen,  Jos van Emden, Danny Van Poppel e Maarten Wynants.


Contratações: Tony Martin (Katusha-Alpecin), Laurens de Plus (Quick-Step Floors), Mike Teunissen (Sunweb), Lennard Hofstede (Sunweb), Taco van der Hoorn (Roompot-Nederlandse Loterij) e Jonas Vingegaard (ColoQuick).

»»Época com muitos quase, mas com uma certeza chamada Latour««

»»Mais investimento, novas figuras, mas o mesmo velho problema e um Aru irreconhecível««

9 de dezembro de 2018

Campeonato da Europa de Praia com um ilustre vencedor

(Fotografia: Twitter União Europeia de Ciclismo)
Há corridas para todos os gostos. Até na praia. Alguns ciclistas bem conhecidos aproveitaram a pré-época para realizar uma corrida diferente e, com um título em disputa, houve quem não brincasse em serviço. No Campeonato da Europa de Praia de BTT o vencedor foi Lars Boom, um holandês que tem "apenas" no currículo vitórias de etapas na Volta a França e Espanha, Critérium du Dauphiné, ganhou o Eneco Tour e a Volta à Bélgica, por exemplo. No pódio esteve ainda Mike Teunissen, ciclista da Sunweb, que vai para a equipa de Boom, que, por seu lado, está de saída.

Estamos a falar de uma prova organizada pela União Europeia de Ciclismo, com direito a Boom vestir a respectiva camisola de campeão europeu. O evento realizou-se na Holanda, em Scheveningen. Houve duas distâncias, 27,45 e 54 quilómetros, o que basicamente significou uma ou duas voltas ao circuito - dependendo do escalão do participante -, que incluiu uma subida numa zona de duna.

Lars Boom completou o percurso em 1:41.43 horas, com Teunissen a cortar a meta 40 segundos depois, tendo de sprintar com Bram Imming, num pódio 100% holandês. Outra das caras conhecidas foi Timothy Dupont, belga da Wanty-Groupe Gobert, que foi nono, a quase três minutos do vencedor. O campeão holandês de 2017, Ramon Sinkeldam (Groupama-FDJ), também participou, mas não terminou a corrida.

Nas senhoras repetiu-se o pódio holandês com Pauliena Roooijakkers (WaowDeals Pro Cycling) a vencer com 21 segundos de vantagem sobre a companheira de equipa Rejanne Markus e 48 sobre Rozanne Slik (FDJ).

Aos 32 anos, Lars Boom prepara-se para uma nova fase da carreira, na Roompot-Charles, equipa Profissional Continental, depois de muitos anos na estrutura Lotto-Jumbo, desde os tempos em que era a Rabobank, mas com uma passagem pela Astana, em 2015 e 2016. Já Mike Teunissen vai regressar à casa onde se formou e se estreou como profissional, depois de duas épocas na Sunweb.


16 de novembro de 2018

A novela Van Aert continua...

(Fotografia: © Kristof Ramon/Red Bull Content Pool)
Num dia o advogado de Wout van Aert lança os foguetes com a decisão da UCI em deixar o ciclista assinar por uma equipa em 2019, apesar da rescisão com a Vérandas Willems-Crelan estar neste momento em tribunal. No dia seguinte, afinal é melhor guardar os foguetes porque a luz não foi tão verde como Walter Van Steenbrugge deixou entender.

Van Aert está em risco de perder a próxima temporada de estrada porque a Sniper Cycling, detentora da Vérandas Willems-Crelan, não aceita a rescisão e levou o caso a tribunal. A equipa exige uma indemnização caso o ciclista assine por outra formação, além de eventualmente o próprio corredor ter de pagar se a decisão jurídica não o favorecer. De recordar, que o belga tinha contrato até ao final de 2019. Para contornar esta questão, Van Aert recorreu à UCI. Era a esperança que o seu advogado anunciou ter na semana passada para desbloquear a situação.

No que se está a tornar numa novela com vários capítulos, o mais recente inclui a resposta da UCI. Sim, Van Aert pode assinar por outra equipa. Mas, há um mas. Van Steenbrugge disse na quinta-feira, citado pela agência de notícias Belga, que a UCI tinha dado luz verde, com a condição que o ciclista assinasse por uma nova equipa até 31 de Dezembro. No entanto, há mais umas condições, segundo o site Cycling News, que cita o resto da carta da UCI.

O organismo explica que não sendo a questão o término do contrato, que "não se pode opor ao ciclista assinar por outra equipa Profissional Continental", referindo então que terá de o fazer até ao final da janela de transferência, no último dia do ano.

Agora o outro parágrafo: "Por favor note que a UCI irá acompanhar de perto o caso e reserva a possibilidade de aplicar procedimentos disciplinares, como estabelecidos nos regulamentos da UCI, contra todas as partes envolvidas, caso os tribunais belgas julguem que o ciclista violou o seu contrato."

Ou seja, se a decisão for a favor da Sniper Cycling, não dando razão à rescisão apresentada por Wout van Aert, o ciclista e a equipa por quem eventualmente tenha assinado, poderão ser multados. Os regulamentos prevêem que se houver uma abordagem a um ciclista sem a autorização da equipa que representa então as multas podem ir - e fazendo o câmbio do franco suíço que é a moeda utilizada pela UCI - de 26 mil euros a cerca de 438 mil para formações do World Tour. Se for Profissional Continental o valor máximo baixa para cerca de 263 mil euros.

Se o ciclista for considerado que desrespeitou as regras, a multa irá de 2600 a 44 mil euros se assinar por equipa do World Tour, ou no máximo de 26 mil se for do segundo escalão.

Outra questão é a carta a UCI referir que o ciclista pode assinar por outra equipa Profissional Continental, escalão a que pertencia a Vérandas Willems-Crelan. O advogado defende que também significa que pode negociar com uma equipa do World Tour.

Aqui entra a Lotto-Jumbo, que em 2019 será apenas Jumbo. A equipa holandesa já tem acordo com Van Aert a partir de 2020. Será a principal interessada em poder contar com o ciclista um ano mais cedo, dado o potencial do belga de 24 anos, principalmente nas clássicas do pavé. Porém, estará à espera de ver a situação ficar concluída, já que em 2020 irá mesmo contar com o ciclista.

A equipa tem-se mantido em silêncio, longe da novela que, ao contrário do que o advogado de Van Aert deu a entender, ainda estará longe de ter um final feliz para o ciclista. A declaração do advogado da Sniper Cycling explica bem que está em causa muito mais do que a rescisão com a Vérandas Willems-Crelan. "De uma perspectiva ética, se uma equipa quiser contratar um ciclista que violou o seu contrato, estão a dizer aos seus próprios corredores: 'Se não estás feliz, inventa uma razão para quebrar o teu contrato e podes ir embora'. Seria devastador para a confiança dos patrocinadores em aceitarem compromissos longos [com as equipas]", disse Rudi Desmet, ao Cycling News.

Van Aert e o seu advogado garantem que há razões para a rescisão, mas não as adiantaram publicamente. O ciclista quebrou contrato depois de se mostrar descontente com a forma como a Sniper Cycling negociou uma fusão com outra equipa, chegando a criticar como nunca foi informado do que estava a acontecer. Também ficou insatisfeito por ver como alguns membros do staff e companheiros de equipa iriam ficar sem emprego devido à fusão das duas estruturas.

Anunciado o acordo com a Roompot-Nederlandse Loterij, depois de não se ter confirmado a união com a Aqua Blue Sport, Van Aert acabou por rescindir contrato, dando início a um processo, do qual se fica a aguardar o próximo capítulo.

Entretanto, o belga vai cumprindo a sua temporada de ciclocrosse, mas não tem sido o Van Aert de outros anos.


10 de novembro de 2018

Van Aert arrisca perder época de 2019

(Fotografia: © Kristof Ramon/Red Bull Content Pool)
A decisão de quebrar contrato com a Veranda’s Willems-Crelan poderá ter um custo elevado. Wout van Aert arrisca falhar a temporada de 2019, pois a Sniper Cycling (detentora da equipa) não abdica de receber uma indemnização, caso o ciclista assine por outra formação. A Lotto-Jumbo fechou por três anos com o ciclista a partir de 2020, já que Van Aert ainda tinha uma época de contrato com a equipa que representava. O desejo do ciclista é juntar-se já à formação do World Tour e certamente que os responsáveis da Lotto-Jumbo também não se importariam nada que tal se concretizasse. Contudo, com o caso da rescisão em tribunal e com a previsão de poder demorar meses até ficar resolvido, o futuro próximo de um dos ciclistas revelação de 2018 poderá passar por assistir de fora às corridas, se não houver um acordo ou uma intervenção da UCI.

O caminho que o seu advogado está a explorar é precisamente o da UCI. Walter van Steenbrugge espera que o organismo considere que Van Aert não tenha de cumprir o contrato com a Veranda’s Willems-Crelan, ficando assim livre de assinar pela Lotto-Jumbo. "Se o acordo com a UCI chegar, não haverá nada que evite que Wout van Aert assine pela Jumbo [nome da equipa em 2019]. Espero novidades durante o mês de Novembro", afirmou o advogado ao jornal belga Het Laatse Nieuws.

Um acordo com a Sniper Cycling parece estar fora de questão, segundo Van Steenbrugge, o que coloca então um ponto de interrogação sobre a próxima temporada para Van Aert. 

Os problemas começaram em Agosto quando foi avançada a hipótese de fusão da Veranda’s Willems-Crelan com a irlandesa Aqua Blue Sport. Tal não aconteceu. No entanto, houve mesmo fusão, mas com a Roompot-Nederlanse Loterij.

Van Aert rapidamente demonstrou o seu desagrado como as negociações decorreram, sem que ele, ou os restantes ciclistas, fossem informados do que estava a acontecer. O corredor belga, de 24 anos, nunca gostou de não ter conhecimento de nada, ainda mais quando era constantemente questionado sobre o assunto, já que, sendo o rosto da equipa, acabava por estar completamente exposto a nível mediático sempre que ia competir. 


É uma das estrelas em ascensão no ciclismo. Nasceu para as clássicas do pavé, ainda que separar-se do ciclocrosse não é algo que esteja para já nos seus planos. É tricampeão do mundo e também foi campeão mundial de sub-23 da especialidade. Aos poucos tem feito a passagem para a estrada e este ano foi uma das sensações de início de época. O terceiro lugar na Strade Bianche foi o mote para uma época de clássicas que deixou as equipas do World Tour loucas pelo belga. No pavé foi sempre muito regular. Nos monumentos foi nono na Volta a Flandres e 13º no Paris-Roubaix. E representava uma equipa Profissional Continental.

É senhor do seu destino, deixando claro como gosta de gerir a sua carreira, a sua época e como quer conciliar o ciclocrosse com a estrada, pelo menos por agora. Ser um ciclista muito desejado no World Tour, reforçou o estatuto dentro da que era a sua equipa. Quando em Setembro anunciou a rescisão, disse apenas que dias antes tinham acontecido factos que tornavam impossíveis uma cooperação. A Sniper Cycling reagiu, explicando que chegou a oferecer um contrato melhorado para 2019, mas que Van Aert recusou. O pedido de rescisão foi para tribunal e poderá demorar até um ano a ficar resolvido.

A época de ciclocrosse está a decorrer, mas se a UCI não decidir a favor de Van Aert, em 2019 não se verá um dos ciclistas que mais se quer voltar a ver em acção nas corridas do pavé.

»»O cowboy solitário tinha ameaçado e quebrou mesmo contrato««

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18 de setembro de 2018

O cowboy solitário tinha ameaçado e quebrou mesmo contrato

(Fotografia: Facebook Vérandas Willems-Crelan)
A ameaça tinha sido bem clara no final de Agosto e Wout van Aert quebrou mesmo contrato com a  Vérandas Willems-Crelan, ou, mais concretamente, com a Sniper Cycling, detentora da equipa. Insatisfeito com todo o processo de fusão com outra estrutura, o belga nunca hesitou em criticar publicamente os responsáveis, principalmente por manterem a ele e aos restantes membros da formação no escuro enquanto decorreram as negociações. Depois, ficou furioso por ver como a junção das duas equipas significaria a perda de trabalho para algumas pessoas. Este fim-de-semana, Van Aert decidiu que não queria representar mais a Vérandas Willems-Crelan e vai partir para a época de ciclocrosse como um "cowboy solitário", mas que não deverá ficar muito tempo sozinho.

Wout van Aert é uma das estrelas em ascensão no ciclismo. Nasceu para as clássicas do pavé, ainda que separar-se do ciclocrosse não é algo que esteja para já nos seus planos. É tricampeão do mundo e está nos Estados Unidos à procura de mais uma camisola do arco-íris. Também foi campeão mundial de sub-23 da especialidade. Aos poucos tem feito a passagem para a estrada e este ano foi uma das sensações de início de época. O terceiro lugar na Strade Bianche deu o mote para uma época de clássicas que deixou as equipas do World Tour loucas pelo belga. No pavé foi sempre muito regular. Nos monumentos foi nono na Volta a Flandres e 13º no Paris-Roubaix. E representava uma equipa Profissional Continental.

Com mais um ano de contrato e assediado por equipas do World Tour, Van Aert logo garantiu que ficaria na Vérandas Willems-Crelan em 2019, mas terá comprometido-se com a Lotto-Jumbo para 2020. Este belga é um ciclista confiante, com um currículo invejável no ciclocrosse e com resultados na estrada que lhe permitem ter uma palavra muito forte em como quer gerir a sua época e a sua carreira. A confirmar-se a mudança para a Lotto-Jumbo, não foi só com dinheiro que seduziu Van Aert. Com apenas 24 anos, o belga é alguém que coloca em cima da mesa o que quer e como quer. É senhor do seu destino e que ninguém tente prendê-lo.

O ciclista cedo percebeu que tinha o poder de tomar as decisões que queria, pois a procura pelos seus serviços era (e é) intensa. Não se confunda esta confiança com arrogância. Van Aert sabe que tem muita qualidade e sabe que pode alcançar na estrada o que tem feito no ciclocrosse. A pressão, a responsabilidade, é algo que gosta e quer lidar ao mais alto nível, pois ambiciona alcançar o estatuto dos grandes nomes belgas, referências das clássicas, que serão o seu ponto forte. Porém, este ano ganhou a Volta à Dinamarca, pelo que é só o colocarem numa corrida por etapas que se adapte a Van Aert e poderá ser mais uma vitória que somará.

Livre do contrato com a Vérandas Willems-Crelan - a situação poderá agora ir para tribunal, caso a equipa não aceite as justificações para a quebra de contrato e, se perder, pagar uma indemnização -, Van Aert não deverá ficar muito tempo sem quem o queira. A Lotto-Jumbo é o passo óbvio, mas uma quebra de contrato é uma situação delicada, pelo que o próprio ciclista não quer falar mais sobre o assunto, sendo agora o advogado quem está a lidar com o caso.

Walter Van Steenbrugge confirmou ao Sporza que o ciclista é, por agora, um "cowboy solitário", sem equipa, o que acaba até por definir bem o ciclista, que quer fazer o seu caminho, mesmo que tenha de lutar sozinho contra o que considera ser errado. Para o advogado, Wout van Aert tem razões para terminar o contrato 15 meses mais cedo. "Algo aconteceu no último fim-de-semana que foi a gota de água", explicou, considerando que já existiam outras questões que levaram à decisão radical. No entanto, não explicou qual foi essa gota de água.

O corredor escreveu num blog que "houve factos nos últimos dias que qualquer cooperação com a equipa seria impossível". "Infelizmente, para você como leitor, não lhe posso dizer mais nada de momento, devido ao aspecto delicado do caso", referiu. Van Aert vai tentar encontrar alguma tranquilidade para que possa enfrentar os Mundiais e a restante temporada de ciclocrosse o mais concentrado possível, enquanto define o seu futuro para 2019.

A fusão e um contrato melhorado

Wout van Aert será a estrela de qualquer equipa que o "apanhe". A Aqua Blue Sports pensou que lhe tinha saído o jackpot, pois não só conseguiria salvar a equipa, como ficaria ainda com uma garantida estrela do futuro imediato da modalidade. No entanto, a Vérandas Willems-Crelan negou o comunicado da equipa irlandesa que dava o acordo como fechado e foi negociar com a Roompot-Nederlandse Loterij.

O ciclista belga nunca gostou de não ter conhecimento de nada, ainda mais quando era constantemente questionado sobre o assunto, já que, sendo o rosto da equipa, acabava por estar completamente exposto a nível mediático sempre que ia competir. A Aqua Blue Sports anunciou que ia fechar portas, enquanto a Vérandas Willems-Crelan e a Roompot-Nederlandse Loterij vão transformar-se na Roompot-Crelan, que permanecerá como Profissional Continental.

Ter Van Aert certamente que entusiasmaria os patrocinadores e, por isso mesmo, a equipa confirmou que ofereceu ao ciclista um contrato melhorado apenas para 2019, sabendo que não seria possível segurar mais o belga, que tem calibre de World Tour. "Van Aert não aceitou a proposta e optou por terminar o seu contrato unilateralmente com efeito imediato. A direcção da equipa lamenta essa decisão. O assunto está agora nas mãos dos nossos advogados", explicou a equipa, através de um comunicado.

Quem contratar este ciclista já percebeu que terá pela frente um ciclista que sabe o que quer e que não tem receio de perseguir e lutar pelos seus próprios termos. Mas se os resultados aparecerem, será um investimento que trará muita rentabilidade, mesmo que Van Aert não perca por completo o seu lado de cowboy solitário, apesar de no ciclismo ter de saber jogar em equipa.

»»O final de uma equipa que quis ser auto-sustentável««

»»Amaro Antunes vai para o World Tour««

14 de setembro de 2018

Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Um senhor ciclista. Simon Yates olhou para o Giro e inverteu a sua táctica. Em três semanas é sempre importante não começar mal, não ter nenhuma grande quebra a meio, mas o essencial é mesmo acabar bem. Yates está a acabar muito, muito bem. Que ciclista emocionante de ver foi o britânico numa subida longa, em que até se esperava que pudessem ser feitas diferenças, mas poder ser a que decide a Vuelta, não estava nas expectativas... Mais um pormenor inesperado nesta corrida tão recheada deles. Não está ganha, mas o maior de inimigo de Yates é ele próprio quando faltam os 97,3 quilómetros mais esperados.

Não houve planos, nem pretensões de conseguir colocar a vantagem de 25 segundos em 1:38 minutos! Yates seguiu os instintos, pois este britânico não segue o exemplo calculista de um popular compatriota da Sky que tanto gosta de olhar para o potenciómetro, ele que pode suceder precisamente a Chris Froome no historial de vencedores da Vuelta. Yates está a afirmar o seu estilo, a sua forma de estar, a sua forma de não ficar à espera de ninguém e de tomar as rédeas do seu destino. Se se sente bem, ataca. Foi o que fez. Admitiu que foi o momento que lhe pareceu ideal para o tentar fazer. Ainda faltavam mais de nove quilómetros. Mas foi a altura mais do que certa.

Jack Haig tinha sido fenomenal quando Nairo Quintana atacou para preparar caminho para Alejandro Valverde, ou talvez ele próprio reentrar na luta pelo menos pelo pódio. Porém, foi o gregário de Yates quem preparou o melhor caminho para o seu líder e nem foi preciso Adam Yates entrar ao trabalho. Mais força fica para sábado. A Movistar saiu derrotada em todas as frentes. Tentou o abanico, Yates assustou-se, mas fechou o espaço.Na subida final, Quintana não só não conseguiu que o seu ataque abanasse Yates, como ainda viu o britânico apanhá-lo e quando foi ajudar Valverde, foi nessa altura que a diferença começou a aumentar para a frente da corrida. Nada correu bem a Quintana nesta Vuelta e nesta 19ª etapa até furou na última subida, só para completar a lista do que não correu bem ao colombiano.

Yates foi aquele ciclista que nas duas primeiras semanas de Giro não deu hipóteses. Na Vuelta deixou o melhor para o fim e se não falhar, se não tiver nenhuma quebra, nenhum azar, talvez desta vez o que parece ser pode mesmo realizar-se na Volta a Espanha: Yates vencer a sua primeira grande volta.

Não se pode dar mérito apenas ao britânico da Mitchelton-Scott. Os companheiros de ocasião foram essenciais para que a vantagem crescesse tanto. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) ajudou a pensar na vitória de etapa - a segunda ficou garantida para o francês - e para aproveitar subir na classificação. Passou de nono para sétimo. Mas foi Steven Kruijswijk o outro grande vencedor do dia.

Tinha-se aqui dito que o holandês precisava de se mostrar na alta montanha ao nível que tinha apresentado no contra-relógio. O holandês da Lotto-Jumbo fez isso mesmo e está novamente no pódio. Não foi quem mais ajudou Yates e até quebrou, mas o trio pegou nos seus interesses individuais e trabalhou em conjunto para os concretizar. Todos ficaram felizes no fim. Kruijswijk está a 1:58 de Yates e Valverde ficou à distância de 20 segundos.

Mau dia para os ciclistas espanhóis com Enric Mas (Quick-Step Floors) a não conseguir estar tão forte como em dias anteriores. Escapou-lhe o terceiro posto e a ambição de surpreender ainda mais fica agora para trás. Sábado irá à procura de um pódio que ficou a 17 segundos.

Se na 20ª e penúltima etapa já se esperavam ataques, perante as diferenças e sabendo que não haverá mais oportunidades, não há tempo para se ser conservador. Atacar é a solução, esperando Valverde sentir-se melhor, ele que mais uma vez não se deu com altitudes acima dos 1500 metros.

O pleno britânico nas grandes voltas está perto de se concretizar. Chris Froome, Geraint Thomas e agora Simon Yates poderá estrear-se, tal como Thomas, nestas vitórias. Tem apenas 26 anos e todo o trabalho da Mitchelton-Scott em criar um vencedor deste nível poderá finalmente concretizar-se.

No entanto, é necessária uma última demonstração de classe de um ciclista que este ano demonstrou tê-la em abundância e que depois de lhe ter faltado maior inteligência táctica e de gestão de esforço, em seis meses assimilou as lições do Giro para não repetir o desgosto. Talvez seja um dia em que possa tentar controlar um pouco mais os adversários, ser um pouco mais calculistas, ainda que para Yates a melhor defesa seja mesmo o ataque.

Faltam 97,3 quilómetros com uma segunda, três primeiras e uma terceira categoria antes da última rampa da Vuelta. Uma categoria especial para terminar, como só poderia ser numa corrida como esta Volta a Espanha. O pelotão arrancará de Andorra e o Coll de la Gallina definirá se Yates aguentará a última investida dos adversários - Valverde prometeu não atirar a toalha ao chão - ou se esta Vuelta tem uma derradeira surpresa para revelar.

Coll de la Gallina tem uma contagem de montanha de 3,5 quilómetros, mas a subida começa antes. Na fase final, serão rampas de 11%, 7% e 9%. Sendo uma etapa tão curta, será uma espécie de sprint para os trepadores. A etapa poderá ser vista na íntegra no Eurosport e a TVI24 também irá começar a sua transmissão mais cedo do que o habitual para que não se perca nada da muito aguardada etapa da Vuelta.


27 de julho de 2018

O renascer de uma equipa

(Fotografia: © ASO/Bruno Bade)
Estabilidade. Uma palavra-chave para o renascer de uma equipa que nos finais dos anos 90 e na primeira década do século era das mais forte do pelotão. A então Rabobank estava na luta pelas grandes corridas, com planteis fortes e durante quase duas décadas, o banco holandês foi um patrocinador importante, inclusivamente para o ciclismo feminino e de formação. Foi a este último que se agarrou quando em 2012 bateu com a porta à elite devido às alegações de doping. Foi um rombo numa estrutura que teve em Richard Plugge um director que se recusou a deixar cair a equipa. A reconstrução foi difícil e a incerteza foi muita, mas 2018 está a tornar-se no ano em que há certezas que a agora denominada Lotto-Jumbo começa a mostrar potencial para regressar ao topo.

Em 2016, Steven Kruijswijk quase conseguiu dar uma inesperada vitória numa grande volta. Uma queda e Vincenzo Nibali tiraram-lhe o Giro. Escapou um triunfo na geral de uma grande volta que não acontece desde que Denis Menchov ganhou a Vuelta e o Giro, em 2007 e 2009, respectivamente. Kruijswijk não mais conseguiu aparecer àquele nível. Neste Tour tem estado muito bem, mas ofuscado por um brilhante Primoz Roglic. O saltador de esqui que deu em ciclista e que em três grandes voltas, ganhou sempre uma etapa. E na primeira vez em que lhe é concedido o estatuto de líder, está a 31 quilómetros de um contra-relógio - no qual é especialista - de conseguir o pódio, provavelmente tirando o lugar ao quatro vezes vencedor da Volta a França, Chris Froome.

Quando há dois anos venceu o contra-relógio no Giro, foi uma espécie de "Primoz quê?" Roglic é agora um nome bem conhecido - ainda mais em Portugal, onde venceu a Volta ao Algarve em 2017 - e nesta Volta a França conquistou um estatuto no pelotão que ele muito trabalhou, mas que ainda estava rodeado de alguma desconfiança. A sua qualidade como ciclista de provas de uma semana estava mais do que confirmada. Só este ano venceu a Volta à Romandia, ao País Basco e da "sua" Eslovénia. Agora confirma que é também um corredor de 21 etapas.

Esta sexta-feira, numa tirada espectacular nos Pirenéus, Roglic - que fará 29 anos em Outubro - foi irrepreensível. Saltou para o terceiro lugar e o segundo está a 19 segundos. Se Tom Dumoulin (Sunweb) tem razões para se preocupar, já Geraint Thomas (Sky) só terá de ser igual a ele próprio e evitar azares. 2:24 minutos será uma distância demasiado grande para perder em 31 quilómetros, mesmo que se esteja perante o vice-campeão do mundo. Ao contrário do campeão Dumoulin, Roglic não fez o Giro. Uma segunda vitória de etapa não é de afastar, tal como passar o holandês.

Depois há um Dylan Groenewegen (25 anos), vencedor de duas etapas neste Tour e que em 2017 ganhou nos Campos Elísios. Cada vez mais é um dos melhores sprinters da actualidade e está também a fazer o trabalho para se tornar num homem de clássicas. Kruijswijk merece o mérito de ter sido essencial nesta reconstrução da equipa, ele que ficou na estrutura desde os tempos da Rabobank, mas são Roglic e Groenewegen os rostos de uma Lotto-Jumbo que nas próximas grandes voltas não será mais uma simples outsider.

Mas estes são os nomes que se consagraram no maior palco de ciclismo do mundo. Contudo, há ainda um muito talentoso George Bennett, cujo oitavo lugar no Giro pode não ter sido bem o que esperava, mas este australiano ainda tem algo mais para dar e conquistar. Aos 24 anos, Antwan Tolhoek é uma esperança holandesa a receber a formação numa equipa que está a produzir bons ciclistas.

A par de Kruijswijk há ainda um Jos van Emden, um Lars Boom e a locomotiva Robert Gesink. Todos já com mais de 30 anos, todos do tempo da Rabobank e todos de confiança para o director Richard Plugge. Gesink não se tornou no voltista esperado, no entanto, o trabalho que hoje realizou para encurtar distâncias para o grupo de Mikel Landa (Movistar) e Romain Bardet (AG2R), explica porque o contrato foi renovado até 2021. Sozinho fez o trabalho de três ou quatro ciclistas da Sky! A vitória de Roglic na etapa também tem muito de Gesink.

Para o ano será apenas Jumbo, ainda  que não esteja excluída a entrada de outro patrocinador. A Lotto sai de cena, mas a cadeia de supermercados garantiu que a aposta será forte e até aumentada, comparativamente com este ano. É tempo de crescer. O passado está mesmo lá atrás. Longe vão os tempos em que a equipa foi apenas a Blanco, sem patrocinador. A Belkin apareceu para dar um primeiro empurrão rumo à reconstrução de uma estrutura que viu alguns dos seus principais ciclistas serem envolvidos em casos de doping, ou de não se livrarem de suspeitas.

Os actuais patrocinadores vincularam-se em 2015. Ano complicado, com apenas seis vitórias. Porém, aquela de Bert-Jan Lindeman na Vuelta serviu de mote para o recomeço de uma equipa que sabe vencer, mas que ainda lhe falta uma vitória na geral de um corrida de três semanas ou num momento, pois soma triunfos em praticamente todas as principais provas. Estará a aproximar-se?...

Etapa espectáculo

A subida ao mítico Tourmalet impulsionou o espectáculo a 100 quilómetros da meta, muito devido a Mikel Landa. Apenas com tudo a ganhar, o espanhol da Movistar cumpriu o prometido e atacou de longe, levando com ele Romain Bardet (AG2R), com Ilnur Zakarin a agarrar-se ao grupo depois da Katusha-Alpecin lhe ter preparado o terreno para tentar ganhar a etapa. Juntou-se ainda um Rafal Majka à procura dar mais uma vitória à Bora-Hansgrohe além das três de Peter Sagan, depois de ter desiludido na luta pela geral.

Primoz Roglic foi o mais espectacular de todos, num dia em que Chris Froome agarrou-se como pôde a Egan Bernal para tentar salvar um terceiro lugar, que, ainda assim, está agora a 13 segundos. Tom Dumoulin fez tudo para defender o seu segundo posto, mostrando que lutar pelo Tour é algo que estava além das suas capacidades. O preço do Giro está a ser pago, pelo que fez o que lhe competia, ainda que para isso tenha ajudado Geraint Thomas a ficar a 31 quilómetros de conquistar um Tour que ninguém, ou quase, acreditaria ser possível há três semanas. Se os três actuais ocupantes do pódio ali permanecerem, o Tour terá três estreantes nestas posições nesta corrida. Só Tom Dumoulin sabe o que é subir ao pódio de uma grande volta: ganhou o Giro em 2017.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




Landa subiu ao sexto lugar, enquanto o companheiro Nairo Quintana caiu de quarto para nono, depois de uma etapa dolorosa. O colombiano sofreu uma queda na quinta-feira e não escondeu o quanto o limitou fisicamente. Salva para a Movistar a vitória na etapa dos 65 quilómetros por parte de Quintana e a classificação de equipas. Zakarin é agora 10º à custa de um Jakob Fuglsang que deu certezas à Astana que tem de contratar um ciclista para as três semanas.

Faltam então 31 quilómetros entre Saint-Pée-sur-Nivelle e Espelette, num contra-relógio que de direito pouco tem. Geraint Thomas sabe o que é vencer estas etapas, começou por o fazer há um ano no Tour, por exemplo. 2:05 é uma margem que lhe dá alguma tranquilidade. Em condições normais, nem Dumoulin, nem Roglic e muito menos um Froome cansado, conseguirão tirar-lhe a amarela. Se nada de anormal acontecer, é ele que será a estrela no desfile de campeões em Paris. Mas festas só no fim, como reitera um Peter Sagan que está a sacrificar-se como nunca para acabar o Tour e confirmar a conquista da sexta camisola verde. Escapou à exclusão por chegar fora do tempo limite, mas as dores continuam depois da queda na quarta-feira.

Quem também estará no "desfile" será Julian Alaphilippe. Mais um francês a ganhar a camisola da montanha, sucedendo a Warren Barguil. O ciclista da Quick-Step Floors pode não ser um trepador puro, mas agora já se questiona se será esse o caminho que seguirá na sua evolução, podendo assim pensar em lutar pela geral no Tour. Ainda é cedo e Alaphilippe quer é saborear esta excelente conquista. Pierre Latour partirá para o contra-relógio com 5:47 minutos de vantagem sobre Egan Bernal, pelo que também só algo de muito mau irá tirar ao francês da AG2R a camisola branca da juventude.

Está quase a terminar um Tour dos mais interessantes dos últimos anos. O contra-relógio não deverá ser aquele dia tão decisivo como a organização poderia desejar, mas vamos esperar pelo fim dos 31 quilómetros, pois há uma longa lista de ciclistas que podem atestar que tudo pode acontecer nesta Volta a França, do primeiro ao último metro.

Pode ver aqui as classificações.


21 de julho de 2018

Thomas e Roglic começam a convencer

Roglic está na luta pelo pódio e talvez mais... (Fotografia: Twitter Lotto-Jumbo)
De Geraint Thomas já se sabe que é capaz de estar bem nas grandes voltas, mas como gregário. Como líder teve uma oportunidade e foi para casa mais cedo, ainda que não por culpa sua. Primoz Roglic chegou ao Tour para mostrar que está feito num voltista capaz mais do que um top dez. Ambos têm em comum serem dos melhores em provas por etapas de uma semana. Porém, partilham também a desconfiança se realmente têm capacidade para estar na luta por uma grande volta. Até ao momento, o Tour de 2018 está a ajudar a esclarecer estas dúvidas. A resposta é que temos ciclistas para a disputar a vitória. Pelo menos, para já.

A questão com corridas de três semanas é que é preciso estar bem durante os 21 dias. Há quase sempre um dia menos bom (um dia mau não é permitido a este nível) e como ainda faltam os Pirenéus, afirmar com toda certeza que Thomas e Roglic podem ganhar o Tour, pode ser cedo. Basta recordar o que aconteceu com Simon Yates no Giro. Parecia que estava mais do que encaminhado para uma vitória e depois lá veio aquele dia terrível de Bardonecchia (nem foi mau, foi mesmo um filme de terror, com quase 40 minutos perdidos). Se recuarmos a 2015 temos um Tom Dumoulin na Vuelta a também não aguentar quando as mais difíceis das subidas apareceram na última semana, no que foi um sinal que ainda havia muito a melhorar (e melhorou e bem!).

O que já ninguém lhes tira é que com a segunda semana a terminar, são duas das principais figuras da Volta a França. Geraint Thomas comprovou que não andou a falar de mais, quando se assumiu como co-líder e com condições de disputar o Tour. Não é só o estar de amarela que o demonstra (ainda que quase que seria suficiente), mas ganhou ainda as duas etapas com chegada em alta montanha e foi convincente nessas vitórias e também nas etapas seguintes, em que tem aproveitado para aumentar a vantagem, inclusivamente ao seu colega e líder número um da Sky, Chris Froome.

Thomas está a ser um senhor. Não mostra debilidades e se não fosse ter Froome como companheiro, estaria perto do topo nas apostas nesta fase. Com 1:39 minutos de vantagem - e se assim manter este domingo -, quando chegarem os Pirenéus, a Sky não irá pedir a Thomas para ajudar Froome se este tiver alguma dificuldade. Seria simplesmente mau de mais. O contrário também não acontecerá, certamente, não fosse Froome um vencedor de seis grandes voltas. Se Thomas mantiver o nível, então poderemos mesmo estar perante uma decisão que será feita no contra-relógio, no qual estará cada um por si.

Em final de contrato e com 32 anos, uma vitória seria brilhante, mas mesmo que se fique pelo pódio, ou na pior das hipóteses um top dez, pelo que fez até agora, Thomas ganhou poder de negociação. Se aguentar bem a última semana, o galês afastar qualquer desconfiança. É um voltista e se lhe deram condições, pode disputar uma grande volta. Mas vamos esperar pelos Pirenéus.

Quanto a Roglic (Lotto-Jumbo), este ano ganhou a Volta ao País Basco, Volta à Romandia e a "sua" corrida, Volta à Eslovénia. E não nos esquecemos como em 2017 foi primoroso na Volta ao Algarve. Para quem iniciou a carreira de ciclista apenas em 2013, a progressão é simplesmente fantástica. Este antigo saltador de esqui foi visto como talentoso e muito bom no contra-relógio. Chamou a atenção quando ganhou o contra-relógio no Giro, em 2016. Agora é um ciclista completo. Há imagem de um Tom Dumoulin, por exemplo, pode não ser exímio na montanha, como um Chris Froome ou um Alberto Contador (pode já se ter retirado, mas é inevitável ser um alvo de comparações), no entanto, Roglic faz-se valer das restantes características - como contra-relógista sabe também rolar bem -, para equilibrar as forças.

Quanto muito era visto como um outsider a um top dez neste Tour. Agora... tudo está diferente. O esloveno, de 28 anos, estava a fazer uma corrida até discreta, mas sempre bem colocado. Este sábado mostrou-se e ganhou uns segundos. Mais importante avisou que contem com ele para tentar surpreender e assim confirmar o que tem tentado convencer: está pronto para se tornar num voltista de respeito.

Tom Dumoulin (Sunweb) está a ser quem mais rivalidade impõe à Sky (1:50 de Thomas), mas a 2:38 da liderança, Roglic conquistou definitivamente a atenção dos adversários, até porque olhando para os quatro primeiros, uns são especialistas de contra-relógio - Dumoulin foi campeão do mundo, Roglic segundo, Froome terceiro - e Thomas também sabe o que é ganhar nesta especialidade. O esloveno está a tornar-se na outra dor de cabeça da Sky.

Que venham os Pirenéus para confirmar então Thomas e Roglic como voltistas para ganhar. Certo é que começaram a convencer, o que no caso de Thomas acontece um ano depois. Havemos sempre de ficar na dúvida o que teria acontecido se aquela moto da polícia não tivesse parado tão mal no Giro de 2017. Thomas foi forçado a abandonar. Faz parte do passado, agora é no Tour, no maior palco de todos que o galês se está a afirmar neste novo papel.

Omar Fraile dá vitória à Astana

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
A época está a ser de grande nível para a equipa cazaque. Já são 22 vitórias. Porém, não vencer no Giro foi um pouco frustrante e com um Jakob Fuglsang a não ser ciclista para ombrear com Froome, Thomas e Dumoulin, Fraile deu um triunfo muito desejado na Astana. Este é um espanhol que Rui Costa conhece bem, pois venceu no Giro, deixando o português em segundo, no ano passado.

É um ciclista (28 anos) de grande qualidade. A nível táctico é dos melhores que neste momento está no pelotão e demonstrou isso mesmo na etapa entre Saint-Paul-Trois-Châteaux e Mende (188 quilómetros). Numa daquelas tiradas em que houve duas corridas - a fuga para vencer a etapa e a do pelotão pela geral -, Fraile soube atacar no momento certo para apanhar Jasper Stuyven (Trek-Segafredo) e depois não deixou Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors) aproximar-se. E entretanto garantiu que Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) não recuperaria para discutir a vitória. Foi, portanto, um ataque no timing perfeito e o controlo do desgaste físico ideal para conquistar a sua primeira vitória no Tour.

É mais um daqueles ciclistas completo e que a Astana quererá aproveitar, pois tem potencial para render grandes triunfos.

Na luta particular pela geral, Roglic ganhou sete segundos ao trio Thomas/Froome/Dumoulin, enquanto Nairo Quintana continua a fraquejar e perdeu mais dez segundos para os três primeiros. Mikel Landa perdeu 19. A Movistar quis tanto, mas está a ver tudo escapar-lhe a cada dia que passa. Romain Bardet (AG2R) perdeu 14. Começa a ficar muito difícil para até aspirar ao pódio. Será preciso mexer com a corrida nos Pirenéus, até porque os três vão perder ainda mais tempo no contra-relógio.



15ª etapa: Millau - Carcassonne, 181,5 quilómetros

É o último dia antes do descanso e dada as diferenças que superam os três minutos a partir do quinto classificado, Romain Bardet, deixar tudo para os Pirenéus poderá significar entregar o pódio a quem está lá agora, com Roglic ainda na luta. Esta é uma etapa que tem o nome de Vincenzo Nibali, perante a descida até à recta da meta. Mas o italiano já não está no Tour. É mais um dia para que se possa ter uma fuga na luta pela vitória, enquanto no pelotão alguns ataques poderão verificar-se para recuperar, nem que sejam alguns segundos.