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24 de junho de 2017

"O Giro faz-me lembrar muito a Volta a Portugal"

A confiança não é muita, mas a motivação está lá. José Mendes prepara-se para defender o título nacional. Durante um ano vestiu orgulhosamente a camisola e naturalmente que deseja mantê-la. Porém, confessa que não sabe como estará a sua forma e a sua exibição no contra-relógio desapontou-o (foi quarto a 28 segundos de Domingos Gonçalves). Ainda assim, por aquela camisola José Mendes vai dar tudo o que tem e mais um pouco: "O melhor deste último ano foi envergar esta camisola. Todos os lugares onde ia era reconhecido. Já sentia esse carinho dos portugueses nas provas internacionais antes de ser campeão, mas com esta camisola o apoio foi mais efusivo, pois reconheciam-me ao longe."

Em 2017 José Mendes cumpriu já dois sonhos: representou uma equipa do World Tour e foi à Volta a Itália. No entanto, confessa: "Estava à espera de mais." O ciclista refere-se aos resultados e falou também de como apesar de conhecer a estrutura onde está há cinco temporadas, a subida de escalão trouxe algumas alterações. "A equipa sofreu uma alteração muito grande. Não é uma formação completamente nova, mas mudou muita coisa e de certa forma houve uma necessidade de adaptação ao novo método de trabalho. Mudei de preparador, de bicicleta e outras coisas... Tudo junto, penso que o início de época não foi o melhor que poderia ter", desabafou José Mendes ao Volta ao Ciclismo.

O sonho do Giro existia para assim ter na carreira as três grandes voltas. "Quando disse isso nem imaginava que ia mesmo lá estar." O plano inicial da Bora-Hansgrohe era que José Mendes se preparasse para a Volta a Espanha. Lesões de última hora forçaram uma alteração da planificação e o campeão português foi a Itália. "Gostei imenso de fazer o Giro. Talvez das três grandes voltas tenha sido a que mais gostei. É diferente... O espírito italiano, o ambiente... Não sei explicar..."

O ciclista salientou que o facto de ter apanhado sempre bom tempo, algo raro no Giro, provavelmente ajudou a ter esta opinião. "Colegas que fizeram o Giro falam horrores daquilo. Eu tive sorte, apanhei tempo de Verão. Se calhar se voltar um dia e apanhar mau tempo já digo mal", brincou José Mendes. Nos elogios à competição italiana, o corredor vai mais longe: "Faz-me lembrar muito a Volta a Portugal. Das provas que fiz é das que tem mais carisma. Em certos momentos parecia que estava na nossa Volta."

Depois dos Nacionais chegará o momento de recuperar de uma intensa primeira fase da época, a pensar numa possível chamada para a Vuelta. E nada melhor do que partir para a segunda metade do ano como campeão nacional. "Gostava muito de conseguir revalidar o título, mas sei que não é fácil. É uma corrida muita aberta e no ano passado cheguei num momento de forma diferente", recordou. José Mendes não esconde alguma falta de confiança para a prova deste domingo e o resultado no contra-relógio não foi a melhor motivação, como o próprio admitiu. "Se no domingo não der para fazer melhor que no contra-relógio... então haverá outros anos!"

José Mendes realçou o facto de não ter companheiros a ajudá-lo, ao contrário do que irá acontecer com os ciclistas que estão nas equipas nacionais. Fazer uma união de ocasião com outro corredor na mesma condição é uma hipótese, ou então, irá ficar na expectativa a ver o que os blocos das formações lusas vão fazer.

Os Nacionais de estrada de elite realizam-se em Gondomar, com partida (11:30) e chegada na Avenida Mário Soares. Serão 177 quilómetros percorridos em circuito.

A incerteza do futuro

José Mendes vive a eterna indefinição da maioria dos ciclistas. Está em final de contrato e ainda desconhece o seu futuro. E por esta altura do ano já não consegue ter a tranquilidade que teria se tivesse mais tempo de contrato: "Eu tento não me sentir pressionado, mas, no fundo, se tivesse contrato para o próximo ano talvez estivesse mais descansado." O ciclista referiu que o seu representante deverá abordar os responsáveis da Bora-Hansgrohe durante a Volta a França.


Contudo, mais do que continuar numa equipa World Tour, é manter-se numa equipa em que se sente em casa que mais deseja. "Já conheço as pessoas, elas conhecem-me e sabem que não arranjo problemas, sou trabalhador. É óbvio que não sou daqueles corredores constantes, tenho altos e baixos. Porém, já mostrei que consigo estar com os melhores e alcançar resultados para a equipa", salientou. Numa última confissão, José Mendes disse que gostaria de feito melhor e conquistado uma vitória com a camisola nacional: "Se no domingo consigo revalidar o título tenho mais um ano para tentar!"

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19 de junho de 2017

Ou vão aos Nacionais ou ficam de fora dos Europeus e Mundiais

José Mendes é o actual campeão nacional de estrada
(Fotografia: Stiehl Photography/Bora-Hansgrohe)
O aviso muito sério foi feito pela Federação Italiana de Ciclismo. A regra é clara e o organismo resolveu há uns dias relembrar as principais estrelas da modalidade transalpina que os Nacionais são importantes e que devem marcar presença, sob pena de ficar de fora das convocatórias para os Europeus e para os Mundiais. Esta mesma norma aplica-se também na Bélgica e em França e em Espanha a federação pondera adoptá-la em 2018. E em Portugal, é uma regra a implementar?

Com os Nacionais a realizarem-se a uma semana do arranque da Volta a França, alguns ciclistas preferem resguardar-se e não arriscar algum incidente que os possa prejudicar. Aconteceu o ano passado com Rui Costa. Campeão em título, optou por não ir a Braga e concentrar-se no Tour. "Poderemos no futuro vir a ponderar essa regra, mas até agora não sentimos essa necessidade porque a maior parte dos nossos grandes ciclistas vêm ao campeonato", salientou Delmino Pereira ao Volta ao Ciclismo. O presidente da Federação Portuguesa de Ciclismo (FPC) reforça a importância dos corredores com estatuto internacional de darem também eles "o seu contributo a um título nacional transversal a todas as categorias e vertentes" da modalidade.

O aumento de ciclistas a competir no estrangeiro, inclusivamente há cada vez mais portugueses em formações do World Tour, faz com que a federação esteja atenta ao que possa acontecer nos Nacionais. "Se essa situação se acentuar, nós poderemos vir a ponderar colocar uma regra como essa", afirmou o dirigente. "O título de campeão nacional também é importante para os atletas. Dá pontuação internacional, para o ranking da UCI e é um título de prestígio", referiu.

Porém, Delmino Pereira realça um pormenor nem sempre fácil de controlar: "Algumas equipas internacionais não estimulam muito os seus ciclistas a irem às provas por causa da mudança de camisola, por causa da questão da imagem." O presidente da FPC deu o exemplo do que acontece com a Movistar, pois o campeão espanhol, que nos últimos anos tem sido muitas vezes um ciclista desta formação, acaba por ter uma camisola na qual pouco se vê as cores da bandeira, mantendo-se o destaque para o patrocinador. O mesmo já não acontece com a Bélgica ou a França, cujos ciclistas vestem-se com as cores da bandeira, sendo equipamentos personalizados em detrimento das cores das equipas que o ciclista representa.

Há ainda o caso da Bora-Hansgrohe. A equipa alemã que este ano subiu para o principal escalão, contratou dois campeões nacionais - Rafal Majka (Polónia) e Juraj Sagan (Eslováquia) - e o campeão do Mundo e da Europa, Peter Sagan. No seu plantel manteve José Mendes, o campeão português. A formação tenta tirar partido deste factor a nível de marketing, além de ter camisolas que destacam o título nacional, mas em que se vê bem os nomes dos patrocinadores.

"Esta forma de interpretar não é igual em todas as equipas", frisou Delmino Pereira, que acrescentou que as equipas portuguesas não têm qualquer problema em ter um campeão nacional. "Nós até facilitámos o regulamento da camisola, que foi aprovado há um mês. Tornámos a camisola mais simples, ou seja, as faixas diminuíram de dez para oito centímetros, deixou de ter qualquer aplicação a nível de golas ou mangas. Fizemos essa diminuição da faixa de forma a libertar espaço para a aplicação dos interesses dos patrocinadores", explicou o dirigente. Além disto, já não há o calção associado à camisola, tudo, segundo o dirigente, para que o equipamento de um campeão nacional "não seja um problema para as marcas". "Interessa-nos que as marcas digam 'ok, vai lá disputar o campeonato e espero que ganhes'", frisou.

Delmino Pereira não esquece que quem paga os salários são as marcas pelo que afirmou ter a noção da necessidade de perceber o interesse publicitário que existe nos equipamentos. No entanto, realçou o prestígio que é ver a camisola de campeão português no Tour - como aconteceu com Rui Costa -, no Giro e na Vuelta (nestas duas corridas por intermédio de José Mendes). E claro, há que não deixar de parte Nelson Oliveira, também já conta com um título de estrada, mas tem sido dominador no contra-relógio, com quatro conquistas.

A proximidade com o Tour é um dos problemas, como já foi referido, mas mudar a calendarização dos Nacionais não está nos planos. "É uma regra do calendário europeu. Já sabemos que no último fim-de-semana de Junho, uma semana antes da Volta a França temos os Campeonatos Nacionais. Não vejo necessidade de mudar", disse. Na Austrália e também em alguns países do continente americano, estas corridas acontecem no início do ano, mas tal também se prende com o factor meteorológico.

Os Nacionais em Portugal vão realizar-se de 23 a 25 de Junho (de sexta a domingo), com as provas de contra-relógio a estarem agendadas para Santa Maria da Feira, enquanto as corridas em linha vão disputar-se em Gondomar, Cidade Europeia do Desporto. Para se assistir terá de se o fazer no local. "Falta a transmissão televisiva, mas temos essa ambição. É a oportunidade para se ter uma corrida com os grandes nomes nacionais", disse Delmino Pereira que recordou as diferentes realidades de outros países. "Há campeonatos que são autênticos acontecimentos nacionais. Na Bélgica é transmitido em directo e há uma luta para os transmitir. Em França é igual. Essa regra [de obrigar os ciclistas a estarem presentes se quiserem ir aos Europeus e Mundiais] acabou por valorizar os campeonatos. Tem que haver um respeito pelo trabalho das federações. Os principais ciclistas de hoje também precisaram no passado do dinamismo das federações", referiu.

Ainda a propósito das transmissões, se para já não haverá para os Nacionais de estrada, já nos Europeus de pista de sub-23 e juniores, que se vão realizar em Anadia entre 18 e 23 de Julho, a federação irá proporcionar o live streaming: "Vamos fazer uma aposta. Serão mais de 30 países presentes, com algumas potências de ciclismo que têm redes de distribuição de informação. Libertando esse sinal, estou convencido que vamos chegar a muitas pessoas lá fora." Além desta forma de transmissão, decorrem também negociações com um canal de cabo.

O ambiente fechado do ciclismo de pista facilita o live streaming, pois a logística de uma prova de estrada é diferente e mais dispendiosa. Porém, o ciclismo em Portugal tem vindo a aumentar o interesse a nível televisivo. Ainda este ano a Volta ao Algarve voltou a ser transmitida, com uma aposta da TVI24 e com o Eurosport a integrar a prova portuguesa na sua extensa programação da modalidade. A RTP também tem alargado a sua cobertura, ainda que com provas estrangeiras.

Os ciclistas portugueses estão cada vez mais a competir entre os melhores do mundo. Além do World Tour, temos também corredores em equipas do segundo escalão e também em Continentais estrangeiras, ainda que esta seja também a categoria das formações portuguesas. Muitos dos corredores não têm apenas passagens, são ciclistas com papéis importantes nas formações. Talvez por isso se possa esperar que mais cedo ou mais tarde os Nacionais sejam transmitidos em directo, pois será a oportunidade de os ver todos juntos a disputar um título. Com ou sem transmissão televisiva, pode sempre ir para a estrada apoiar os ciclistas. Veja aqui o percurso da prova de contra-relógio e neste link os das corridas de estrada.


31 de maio de 2017

José Mendes fora da lista da Bora-Hansgrohe para o Tour

(Fotografia: Stiehl Photography/Bora-Hansgrohe)
A Bora-Hansgrohe quer apostar muito forte na Volta a França. Os objectivos estão bem definidos: a luta será pela camisola verde dos pontos com Peter Sagan e um top cinco com Rafal Majka, além de vitórias em etapas. Para tal a equipa precisa de garantir um bom apoio aos dois ciclistas, ainda que Sagan esteja habituado a fazer boa parte do trabalho sozinho, pois já assim era quando esteva na Tinkoff. O director da equipa, Ralph Denk, divulgou hoje a lista de 14 ciclistas que estão a ser analisados para ir ao Tour. Com dois lugares garantidos, significa que 12 corredores vão lutar por sete lugares. Metade dos escolhidos são alemães, tal como a equipa e tal como a cidade onde irá arrancar o Tour: Dusseldorf. De fora ficou o campeão nacional português José Mendes, que recentemente terminou a Volta a Itália, pelo que não é surpresa que seja mais provável a sua integração na equipa para a Vuelta.

"É sempre uma decisão difícil. Todos querem estar na Volta a França. Especialmente este ano com a partida em Dusseldorf. Será algo memorável para todos os ciclistas alemães e um passo importante para o ciclismo germânico", salientou Ralph Denk, através de um comunicado. O director da Bora-Hansgrohe salientou que sete ciclistas alemães estão na lista. "Temos ambições com o Peter e com o Rafal, a camisola verde, um top cinco na classificação geral e a primeira vitória numa etapa na Volta a França para a nossa equipa. Acho que temos um plantel forte para alcançar esses objectivos", referiu Denk.

Não se pode dizer que a época da Bora-Hansgrohe esteja a ser má, mas está a ficar aquém das expectativas para quem conta com Peter Sagan. O eslovaco não teve a época de clássicas que ambicionava, somando quatro vitórias, mas apenas uma numa corrida de um dia (Kuurne-Bruxelles-Kuurne), as outras foram duas etapas no Tirreno-Adriatico e a restante na Volta à Califórnia. Rafal Majka também venceu na corrida americana, tendo perdido a geral no contra-relógio. Sam Bennett ganhou uma tirada no Paris-Nice, mas o grande momento acabou por chegar inesperadamente no primeiro dia do Giro100. Lukas Pöstelberger era suposto preparar o sprint para Bennett, mas acabou por afastar-se do pelotão, o suficiente para vencer a etapa, vestir a camisola rosa, branca e ciclamino, com Cesare Benedetti a ser líder da montanha nesse dia.

Depois de anos na sombra de Alberto Contador, Rafal Majka terá a oportunidade de ser o líder indiscutível para a geral, ainda que saberá que alguns companheiros estarão na ajuda a Peter Sagan. A pressão será maior sobre o bicampeão do mundo, pois era dele que se esperavam mais resultados. Sagan tem dominado a classificação por pontos no Tour nos últimos cinco anos e mesmo não estando a apresentar o currículo de vitórias de outras temporadas, é o claro favorito para garantir mais uma camisola verde.

Além de Sagan e Majka, há ciclistas que em condições normais serão escolhas quase certas, casos de Maciej Bodnar, Leopold König (que falhou o Giro, onde teria sido o líder, devido a lesão), Emanuel Buchmann e Juraj Sagan que se tornou num fiel homem de trabalho do seu irmão. Da lista de 14 ciclistas, só dois estiveram na Volta a Itália, demonstrando como Ralph Denk está a gerir a equipa de forma a evitar cansaço acumulado, assegurando que Sagan e Majka têm os seus companheiros a 100%. O austríaco Patrick Konrad e o alemão Rüdiger Selig poderão ser os únicos repetentes.

Aqui fica a lista dos pré-convocados da Bora-Hansgrohe para o Tour: Peter Sagan, Rafal Majka, Leopold König, Maciej Bodnar, Emanuel Buchmann, Marcus Burghardt, Patrick Konrad, Jay McCarthy, Christoph Pfingsten, Juraj Sagan, Pawel Poljanski, Andreas Schilinger, Michael Schwarzmann e Rüdiger Selig.

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28 de maio de 2017

O Giro100 é dele e merecidamente. E agora Dumoulin?

(Fotografia: Giro d'Italia)

Quando na 20ª etapa da Volta a Espanha de 2015, num dia 12 de Setembro que agora parece tão longínquo, Tom Dumoulin entrou num tremendo sofrimento ao perceber que as últimas montanhas lhe iam tirar uma vitória que seria a todos os níveis surpreendentes na Vuelta, questionou-se se o ciclista alguma vez viria a ter capacidade para defrontar os melhores trepadores. Eram apenas seis segundos os que o separavam de Fabio Aru. Aquelas imagens de um ciclista de pedalada pesada, desesperado por salvar algo de uma corrida que até então estava a ser a todos os níveis brilhante, ficaram na memória. Nesse dia Dumoulin perdeu 3:52 para Aru, a Vuelta e até o pódio. O sexto lugar seria sempre um bom resultado para o então jovem de 24 anos, não fosse ter sentido que estava perto de uma grande conquista. Na altura perguntou-se: e agora Dumoulin? Já se sabia que era bom contra-relogista, mas era óbvio que tinha de evoluir muito na montanha. Em 2016 não comprovou as expectativas e nem esteve na discussão no Giro e no Tour. Venceu etapas, inclusivamente na montanha - uma à custa de Rui Costa no Tour -, mas não terminou as corridas. Hoje pode dizer-se que 2016 foi o ano de evolução de Dumoulin. Longe da pressão mediática, este holandês fez-se num ciclista completo e aos 26 anos conquista a sua primeira grande volta, inscrevendo o seu nome numa edição sempre histórica, a 100ª. O Giro é dele e merecidamente. Porém... E agora Dumoulin?

O holandês confirmou o favoritismo que tinha no esforço individual e nem um Nairo Quintana a fazer provavelmente dos melhores contra-relógios da carreira conseguiu garantir o triunfo. Era o dia de Dumoulin. É o Giro de Dumoulin! O único momento que pareceu que o líder da Sunweb podia perder a corrida foi quando o relógio deu três segundos de diferença, mas foi mais um dos vários erros de cronometragem deste final de Volta a Itália. Depois do susto, a correcção e no fim 1:24 minutos separaram os ciclistas. Estavam recuperados os 53 com que tinha começado a última etapa. Faltaram-lhe as palavras na hora de festejar. Mas palavras para quê? Foi o mais forte, o mais consistente e a vitória assenta-lhe bem.

Dumoulin passou o Giro a responder a questões. Se estava a subir melhor, se tinha perdido alguma força no contra-relógio ao perder peso, se era capaz de aguentar dias consecutivos de várias montanhas das mais difíceis, se era capaz de ganhar sem o apoio de uma equipa forte... As respostas foram claras: sobe muito melhor, continua um contra-relogista fortíssimo, aguenta mas ainda há algum trabalho a fazer e consegue ganhar sem grande ajuda dos companheiros. Contudo, este último ponto é uma situação a repensar pela Sunweb se quer fazer frente a Chris Froome e à super Sky da Volta a França. Não há dúvidas que Dumoulin irá ter num futuro próximo o objectivo de atacar o Tour. Uma das questões que agora se coloca é se este Dumoulin é mesmo mais um ciclista para lutar pelas grandes voltas, ou foi isto um daqueles momentos que alguns vivem uma vez na vida?

Pela forma como o holandês evoluiu no último ano e tendo em conta que aos 26 anos há ainda margem de progressão, será difícil de imaginar não ver Dumoulin juntar mais alguma grande volta ao Giro100. Está feito num ciclista completo, um pouco à imagem de Froome, mas ainda longe da categoria e supremacia do britânico, mais forte no contra-relógio, mais fraco na montanha (falta-lhe explosão, sendo um daqueles ciclistas que sobe a ritmo, enquanto Froome sabe bem atacar). Os próximos passos na carreira de Dumoulin têm de ser dados com calma e muito bem pensados. A pressão vai aumentar substancialmente sobre o holandês. Não se sabe se vai à Vuelta, corrida que faria mais sentido participar e tentar lutar pela vitória, deixando o Tour para o próximo o ano. 

Dumoulin estará a partir de agora numa primeira linha de candidatos, sofrerá outra atenção. Mais do que saber ganhar, terá também de saber lidar com as dificuldades que lhe vão surgir. Dizem que é o novo Miguel Indurain, mas até o espanhol teve de sofrer muito antes de se tornar uma lenda do ciclismo. Dumoulin pode estar no início de ele próprio se transformar numa referência, mas agora terá de saber gerir esta nova fase da carreira. A primeira grande volta já tem, chegou o momento de confirmar que não foi uma vitória única e de saber lidar com desilusões sem desbaratar nas palavras no final das etapas.

A Sunweb já deu o primeiro passo para ajudar Dumoulin a tornar-se no voltista de luxo que pode muito bem ser. Ofereceu-lhe contrato até 2021 (tinha até 2018) e estará disposta a ceder aos pedidos do seu campeão. O holandês quer Wilco Kelderman e Laurens ten Dam ao seu lado. Não deverá ser problema e Ten Dam nem se importa de adiar a anunciada reforma. Com a vitória no Giro, não deveria ser problema para Dumoulin conseguir dar o salto para uma equipa com uma estrutura já mais forte. No entanto, a confirmar-se que o ciclista aceitou a proposta da Sunweb, tal é também um voto de confiança do holandês, que deverá sentir-se muito bem na equipa que sempre que lhe prometeu algo, cumpriu. Prometeram-lhe ser líder numa grande volta numa fase em que muito se falava e apostava em Warren Barguil e cumpriram. Prometeram-lhe contratar ciclistas a pensar nele e nas grandes voltas e cumpriram, como ficou provado não terem procurado um homem para substituir John Degenkolb nas clássicas e nos sprints. Agora comprometem-se a dar-lhe estabilidade e em ceder aos seus pedidos. E são necessários gregários de luxo, urgentemente. É absolutamente normal que Dumoulin acredite que este virão, ainda mais porque a sua vitória poderá ajudar a convencer outros ciclistas e também será importante para a chegada ou reforço dos patrocinadores.

E agora Dumoulin? Agora é tempo de celebrar uma vitória que quando começou o Giro100 era vista como improvável - um pódio talvez -, mas depois daquele contra-relógio na 10ª etapa começou a ser vista como muito provável. Nem aquela paragem para satisfazer as necessidades fisiológicas lhe estragou a corrida (mas lá que assustou, assustou). Esta será uma daquelas vitórias 100% lembrada pelo mérito do vencedor. Não haverá "ah, mas aquele caiu, furou, ou seja lá o que for". Mesmo com a Sky fora da luta por um acidente com uma moto da polícia, que também tirou a Dumoulin o seu braço direito, Kelderman, mesmo com um Quintana a dizer que estava com febre na última etapa de montanha do Giro, este foi um triunfo construído de luta, de sofrimento e a prova que o trabalho intenso de meses e meses pode acabar com a maior das recompensas.

E agora Dumoulin? É continuar a trabalhar, pois o que mais se deseja nesta altura é ver um confronto Dumoulin/Froome. São seis anos os que os separam, mas haverá tempo para termos um Dumoulin no seu melhor contra aquele Froome que tem feito do Tour a sua casa.

O último dia


Quick-Step Floors venceu cinco etapas e duas classificações
(Fotografia: Giro d'Italia)
Jos van Emden (Lotto-Jumbo) foi mais um holandês a subir ao pódio, mas como vencedor do contra-relógio. Até ficou mais emocionado que Dumoulin que tinha acabado de ganhar o Giro! Mikel Landa (Sky) ficou com a camisola da montanha, Fernando Gaviria (Quick-Step Floors) com a dos pontos, levando para a casa a famosa maglia ciclamino que regressou à Volta a Itália este ano e o colombiano é também o ciclista com mais vitórias: quatro. Bob Jungels (Quick-Step Floors) tirou a camisola branca da juventude a Adam Yates (Orica-Scott). O britânico foi mais um dos ciclistas prejudicado pelo incidente com a moto da polícia e nem esta classificação conseguiu segurar para salvar a sua corrida. A Movistar "limpou" a classificação por equipas, com quase uma hora de vantagem sobre a AG2R.

Ficam ainda aqui uns dados históricos sobre Dumoulin: foi o primeiro holandês a ganhar a Volta a Itália. A última vez que um ciclista venceu uma grande volta foi Joop Zoetemelk, no Tour de 1980, sendo também dele o derradeiro triunfo na Vuelta de um corredor da Holanda, em 1979.

Os portugueses

Os três representantes lusos terminaram a Volta a Itália. O destaque vai, naturalmente, para Rui Costa. O ciclista da UAE Team Emirates bem tentou a desejada etapa. Foi segundo em três etapas, com a maior frustração a ser a que perdeu ao sprint para Omar Fraile (Dimension Data). Ainda assim é uma corrida positiva para o poveiro, que pela primeira vez na carreira, aos 30 anos, competiu no Giro. Rui Costa terminou na 27ª posição, a 1:33:17 horas de Dumoulin.

José Mendes teve a oportunidade de se destacar na Bora-Hansgrohe dada a ausência de Leopold König por lesão. Porém, a equipa basicamente cumpriu todos os objectivos (e mais alguns) logo na primeira etapa, quando venceu a tirada e ficou com as camisolas todas. Depois a aposta foi na capacidade de sprint de Sam Bennett. Até Jan Bárta, outro possível líder, acabou a trabalhar para Bennett. José Mendes ainda apareceu bem em algumas etapas de montanha, mas faltou-lhe a consistência que certamente desejaria para alcançar uma classificação bem melhor que o 48º lugar, a mais de duas horas de Dumoulin. Porém, fez o que pôde numa equipa que sem König deixou de ter pretensões à geral. E, claro, sonho cumprido para o campeão nacional: participou nas três grandes voltas na carreira.

Também José Gonçalves se estreou no Giro. Foi uma pena que não tenha tido mais liberdade para entrar numa fuga e discutir uma etapa. O ciclista da Katusha-Alpecin teve o papel de acompanhar o líder Ilnur Zakarin e que bem o cumpriu. Foram várias as vezes que se o viu a trabalhar na frente da corrida, fosse para posicionar melhor o russo, fosse para perseguir, fosse para abrir caminho a algum ataque. Foi 60º, com mais de duas horas de atraso, mas certamente que a equipa estará muito satisfeita com o português. É o seu primeiro ano no World Tour, tem apenas contrato para 2017, mas vai dando demonstrações que está onde merece estar e que merece continuar por lá.

Veja aqui o resultado do contra-relógio final e as classificações finais do Giro100.


Giro d'Italia - Stage 21 - Highlights por giroditalia


»»53 segundos para resolver um Giro virado ao contrário««

»»Batalha na estrada, rumor que lançou a confusão, pazes feitas, vitória de Landa, Quintana de rosa. Que grande dia no Giro!««

4 de maio de 2017

José Gonçalves completa o trio de estreantes portugueses no Giro100

Rui Costa vai à caça de etapas, José Mendes ficou com a responsabilidade de liderar a Bora-Hansgrohe. Para completar o trio de estreantes portugueses, José Gonçalves também estará pela primeira vez na Volta a Itália. Dos três, o campeão nacional deverá ter um papel mais de procurar uma boa classificação na geral, enquanto Rui Costa e o gémeo Gonçalves estarão mais ao ataque.

Ver um português ganhar uma etapa no Giro100 seria simplesmente fenomenal. Vamos tentar resfriar as emoções, mas a verdade é que Rui Costa e José Gonçalves são dois ciclistas com características que podem muito bem fazer-nos sonhar. Começando pelo campeão do mundo de 2013. Rui Costa esteve nos últimos anos dedicado a tentar conquistar um top dez na Volta a França. A ambição foi grande, mas não foi acompanhada pela equipa, então Lampre-Merida, que nunca deu o apoio necessário para cumprir esse objectivo. Há um ano optou por regressar luta pela vitórias em etapas e esteve perto de conseguir.

Ano novo, equipa nova (com patrocinador novo para ser mais correcto) e objectivos novos. Aos 30 anos Rui Costa quis experimentar o Giro e depois ter deixado todos na expectativa se pretendia a geral ou etapas, admitiu há poucos dias que será pelas vitórias nas tiradas que irá estar concentrado. Depois do que já vimos o ciclista fazer em 2017, na luta vai estar, mas já se sabe, pode haver pernas, a táctica ser perfeita, mas sem aquela pontinha de sorte nada feito. A esperança é grande e Rui Costa tem a qualidade para tornar realidade os seus objectivos.

José Gonçalves é o ciclista de ataque por excelência. Na Vuelta de 2015 deixou todos "doidos" com sua performance. Leia-se "doidos" como algo positivo, pois os seus ataques, a forma como esteve tão perto de vencer etapas, fez com que no final fosse alvo de um rol de elogios por parte de meios de comunicação social, adeptos e outros ciclistas. Terminou a Volta a Espanha sendo um dos homens que foi considerado que mais merecia ter vencido uma etapas.

Mas merecer não faz um currículo. Este ano José Gonçalves deu o passo para o World Tour e na Katusha-Alpecin tem feito a sua aprendizagem com calma, mas sempre com a mira em aproveitar as oportunidades que lhe surjam. Uma equipa que tem Ilnur Zakarin, Tony Martin e Alexander Kristoff não dá muito espaço de manobra a outros ciclistas, mas na Stade Bianche, o homem de Barcelos aproveitou a liberdade que lhe foi concedida e foi 11º. Por momentos ainda se acreditou que poderia ir mais longe, mas o próprio admitiu que a corrida foi brutal e que foi difícil acompanhar o ritmo no final.

Com Zakarin no Giro, o objectivo é levar o russo à vitória e a Katusha-Alpecin está a precisar de um triunfo relevante. O ano não está a correr de feição, depois de Kristoff ter falhado novamente na época das clássicas. Zakarin terá os seus gregários e José Gonçalves será um deles. Mas perante as características dos ciclistas que farão parte da formação, o português é aquele que pode em algumas etapas receber luz verde para atacar. E se estiver em boa forma, cuidado com o José Gonçalves.

José Mendes é um ciclista mais calculista. Menos explosivo, gosta de fazer as coisas a seu ritmo. Um pouco como Rui Costa, ainda que o poveiro tenha nas suas características qualidades mais atacantes que José Mendes. O campeão nacional é um ciclista muito regular e, por isso mesmo, a Bora-Hansgrohe tem confiança no campeão nacional, ao ponto de lhe dar a liderança - ainda que partilhada com Jan Bárta - na ausência de Leopold König.

José Mendes deverá ser um ciclista mais à procura de uma boa classificação na geral, ainda que não é de afastar a possibilidade de o ver tentar integrar fugas. Tudo dependerá do plano da equipa e de como quererá gerir Mendes e Bárta. O português tinha o sonho de estar no Giro para assim ter no currículo a presença nas três grandes voltas. Será excelente ter a possibilidade de dizer que foi líder num Giro e numa Vuelta (2016). No ano passado um problema no joelho limitou-o em Espanha, agora é esperar para ver a forma em que se apresenta. Um top 15/20 seria um excelente resultado, qualquer coisa acima disso seria brilhante.

26 de abril de 2017

José Mendes líder da Bora-Hansgrohe na Volta a Itália

(Fotografia: Stiehl Photography)
Será um grande momento na carreira de José Mendes. A camisola de campeão nacional estará não só na 100ª edição do Giro, como estará no corpo do líder de uma equipa do World Tour. José Mendes tinha como ambição para este ano estar na Volta a Itália, a grande volta que lhe faltava. Tudo indicava que seria o braço direito de Leopold König, mas uma lesão no joelho obrigou o checo a mudar os planos e a Bora-Hansgrohe recorreu ao ciclista português, que assim tem uma nova excelente oportunidade, depois de ter sido o líder da então Bora-Argon18 na Volta a Espanha.

Os nove ciclistas que a Bora-Hansgrohe vai apostar no Giro100 foram hoje confirmados. Quando José Mendes foi o escolhido na Vuelta foi um prémio mais do que merecido para um ciclista que desde 2013 tem sido fundamental na evolução da equipa. Com os planos para subir de categoria, a estrutura manteve o contrato com o português que voltaria a ter um papel mais de apoio, depois do destaque na Vuelta. Nessa corrida ainda se chegou a ver o campeão nacional mostrar-se, mas infelizmente um problema no joelho perturbou a sua condição física.

Esta escolha da Bora-Hansgrohe denota a confiança que os directores desportivos mantêm em José Mendes. É certo que König foi contratado - um regresso à equipa depois de uma passagem apagada na Sky - para o Giro e provavelmente para a Vuelta, com Rafal Majka a ser aposta para o Tour e Vuelta. Sem König a confiança recai num homem da casa e é a oportunidade de uma carreira para José Mendes. A Bora-Hansgrohe faz o primeiro ano como formação do World Tour e na primeira grande volta, é o campeão nacional que irá liderar no ataque à geral.

José Mendes aspirava estar no Giro para dizer que esteve nas três grandes voltas. O sonho concretizou-se com um grande bónus. Pode agora dizer que esteve nas três grandes voltas, duas delas como líder.

O que podemos esperar de José Mendes?

O campeão nacional é um bom trepador. Na Volta a Espanha de 2016 não se deixou intimidar por aquelas rampas que se tornaram imagem de marca da corrida e chegou a ver-se que tinha capacidade para ir ao ritmo dos melhores em certas etapas. Porém, a lesão no joelho limitou-o e foi difícil manter a regularidade obrigatória para conseguir um resultado de relevo, como um top 20, por exemplo. Terminou na 54ª posição, a mais de duas horas de Nairo Quintana, mas não houve nada a apontar. Não desistiu, lutou com as armas que teve e como o joelho deixou.

Aos 32 anos está numa edição sempre especial de uma corrida de tanta importância como é o Giro. Resta-nos esperar que José Mendes possa estar a um grande nível e retribuir a confiança que a Bora-Hansgrohe depositou nele.

(Imagem: Bora-Hansgrohe)

A seu lado estará Jan Bárta, ciclista checo da mesma idade, que está na estrutura desde 2010 e que poderá ser também uma possibilidade para lutar por um bom lugar na geral. Com Mendes e Bárta, um dos planos da equipa poderá mesmo por tentar que um deles possa lutar por uma etapa, podendo ficar outro mais resguardado para a geral. Há que não esquecer que os pontos na classificação geral de uma grande volta são importantes para o ranking UCI.

Sam Bennett e um Matteo Pelucchi estarão com o objectivo de conquistar etapas aos sprint. Cesare Benedetti, Patrick Konrad, Gregor Muhlberger, Lukas Postlberger e Rudi Selig serão os homens de trabalho.

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21 de abril de 2017

Ciclistas abandonam Volta aos Alpes para descansar para a Liège. É legal, mas será correcto?

(Fotografia: Facebook Volta aos Alpes)
Seis ciclistas não partiram hoje para a última etapa da Volta aos Alpes. Tendo em conta que dois estavam no top dez e um era 18º (e é português), a ausência chamou a atenção e rapidamente se percebeu a razão: todos estão escalados para competir na Liège-Bastogne-Liège no domingo. A probabilidade dos abandonos estarem relacionados com o plano de dar mais um dia de descanso foi levantada, regressando também a discussão se este tipo de decisões são as mais correctas eticamente.

A Cannondale-Drapac e a BMC admitiram, através de mensagens no Twitter, que Davide Formolo (era quinto, a 31 segundos da liderança), Davide Villella (28º) e Damiano Caruso (oitavo, a 42 segundos) não competiram para descansarem a pensar no monumento de domingo. José Mendes (ciclista português - campeão nacional - da Bora-Hansgrohe, que estava no 16º lugar), Larry Warbasse (Aqua Blue Sport, 28º) e o colega Stefan Denifl (82º) foram os outros corredores que optaram por não participar na última etapa. A Volta aos Alpes, antigo Giro del Trentino, foi uma corrida marcada por muita montanha e mau tempo, que inclusivamente levou ao encurtamento de uma das etapas.

Esta situação não é inédita. Longe disso. No ano passado, a Volta a Itália viveu uma situação semelhante. É uma das competições mais importantes do ano, mas viu os principais sprinters abandonarem a corrida precocemente, apesar de estarem na luta pela classificação por pontos. Dada a dureza do Giro, Marcel Kittel e André Greipel, por exemplo, não quiseram desgastar-se, para estar em boa forma na Volta a França. A decisão não caiu bem na organização e o mesmo terá acontecido na Volta aos Alpes.

Porém, não houve uma reacção pública à saída dos seis ciclistas, tendo a organização preferido focar o facto de Domenico Pozzovivo (AG2R), Luis León Sánchez (Astana) e Pete Kennaugh (Sky) terem competido apesar de no domingo terem presença marcada na clássica belga.

As regras da UCI determinam que um ciclista que abandone uma corrida não pode participar noutra até que a que estava a participar termine. A medida não se aplica neste caso, já que a Volta aos Alpes acabou esta sexta-feira e a Liège-Bastogne-Liège é só no domingo. Até há um dia de intervalo. No entanto, perante mais uns casos de abandonos por se estar a pensar noutra corrida, voltou-se a levantar a questão se essa é a atitude mais correcta perante a organização e os próprios adeptos. É uma questão ética que acaba por estar em discussão, não estando em causa o profissionalismo dos ciclistas. Mesmo que fosse proibido este tipo de abandonos, também seria fácil contornar, alegando, por exemplo, problemas físicos. Não sendo bonito de se ver, é ainda assim preferível que exista honestidade, pelo que talvez apenas se possa esperar que sejam decisões que sejam pouco tomadas, em nome do respeito por quem tanto trabalho tem a organizar as corridas e por quem tanto gosta de as ver.

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6 de abril de 2017

"Sérgio Paulinho é um verdadeiro campeão. José Mendes será muito importante para o Rafal Majka"

(Fotografia: © Bora-Hansgrohe/Stiehl Photography)
Juraj Sagan. Também muito referido como o irmão de Peter Sagan. O ciclista eslovaco não sente pressão por ser irmão de quem é e não considera ter nada a provar. Há muito anos que acompanha o bicampeão do mundo, mas nunca esteve tanto ao seu lado como agora que ambos estão na Bora-Hansgrohe. 13 meses mais velho que Peter, Juraj (28 anos) não esconde o orgulho de actualmente vestir a camisola de campeão eslovaco e apesar de estar concentrado no seu trabalho de gregário, tem uma ambição: estar na Volta a França, claro está, ao lado do irmão. Nunca fez nenhuma grande volta, pelo que luta por uma oportunidade até porque sendo um homem que se sacrifica em prol dos líderes, não significa que não aspire a uma vitória e Juraj vê as competições por etapas a possibilidade de tentar conquistar um triunfo para juntar ao título de campeão nacional.

"O meu sonho é fazer a Volta a França com o Peter. Adoraria fazer isso. E em três semanas é possível ter a possibilidade de tentar algo", explicou Juraj Sagan ao Volta ao Ciclismo. Este objectivo parece mesmo sobrepor-se à ambição de manter a camisola de campeão eslovaco, ainda que não esconda que agora o olham de forma diferente: "O mais importante é manter a camisola na equipa. Temos quatro ciclistas [Juraj e Peter Sagan, Michael Kolar e Erik Baska] para os Nacionais e vamos ver no que vão resultar as tácticas. Mas este ano tem sido mesmo especial para mim com esta camisola. Todos no pelotão olham para mim de forma diferente. É uma grande honra."

Apesar de ser irmão de um dos melhores ciclistas da actualidade e de ser referido muitas vezes por esse laço familiar, Juraj garantiu não que não sente pressão para mostrar que também ele tem qualidade. "Eu sei o que tenho de fazer e se a equipa está feliz com o meu esforço, então eu também estou feliz. Em causa não está em provar algo, mas sim em fazer o meu trabalho", salientou. Apesar de este ano parecer estar a ter um papel mais relevante como homem de confiança de Peter Sagan, Juraj não considera que está a ter mais oportunidades do que na Tinkoff, nem que tenha um papel mais relevante dentro da Bora-Hansgrohe. "O meu trabalho não mudou", realçou.

"Este ano tem sido mesmo especial para mim com esta camisola [de campeão eslovaco]. Todos no pelotão olham para mim de forma diferente. É uma grande honra"

Este domingo os Sagan vão enfrentar o Inferno do Norte do Paris-Roubaix. A Bora-Hansgrohe apostou muito forte na contratação do bicampeão do mundo, com o objectivo de conquistar grandes vitórias nas clássicas do pavé e depois na Volta a França, corrida na qual Peter já soma cinco camisolas verdes (dos pontos). No entanto, até agora a grande estrela só conta com a Kuurne-Bruxells-Kuurne, ao que se acrescenta duas etapas do Tirreno-Adriatico. A equipa viu ainda Sam Bennett vencer uma tirada no Paris-Nice. Naturalmente que as expectativas para a Volta a Flandres e para o Paris-Roubaix estavam em alta, mas a queda de Peter Sagan no domingo colocou algumas dúvidas sobre a sua condição física: "Vamos ver. Mas penso que ele estará bem e eu terei novamente de fazer o meu trabalho para ele e para a equipa. Porém, como se pôde ver na Volta a Flandres, mesmo que tudo esteja a decorrer como planeado, é preciso ter sorte."

Na Tinkoff Peter Sagan não tinha muita ajuda da equipa nos momentos mais importantes. Na Bora-Hansgrohe, aqui e ali vai-se vendo uma tentativa dos colegas em tentar estar ao lado do seu líder, mas ainda há muito trabalho a fazer. "É como em todas as relações. Precisas de conhecer as pessoas como deve ser. Agora, depois de algumas semanas de corridas duras, já percebemos melhor quem é capaz de ajudar e em que situações pode fazer esse esforço. Por isso, poderemos utilizar todo o nosso potencial de forma mais eficiente. Automaticamente, o apoio ao Peter melhora", explicou Juraj Sagan.

Terminando o Paris-Roubaix, o campeão eslovaco vai começar a pensar nas corridas por etapas na esperança de estar em boa forma e ser chamado para o Tour, em Julho. "Vou estar na Volta à Romandia, na Califórnia e na Suíça. Depois vamos ver como estou fisicamente, mas é possível que faça a Volta a França", referiu.

"Temos uma equipa muito forte para as corridas mais importantes e o nosso objectivo é desafiá-las [Movistar, BMC e Sky] nessas provas"

Juraj Sagan falou ainda sobre o investimento que a equipa fez, além de Peter Sagan. Rafal Majka é o grande nome, mas para as provas de três semanas e foram ainda contratados gregários com provas dadas no pelotão. A ambição da Bora-Hansgrohe, que este ano subiu ao escalão do World Tour, é muita, mas Juraj disse que "ao comparar com equipas como a Movistar, BMC ou Sky", pensa que ainda não é possível fazer frente ao poderio dessas formações em todas as competições. "Mas temos uma equipa muito forte para as corridas mais importantes e o nosso objectivo é desafiá-las [às formações referidas] nessas provas", frisou.

Na Tinkoff, Juraj Sagan competiu ao lado de Sérgio Paulinho e na Bora-Hansgrohe tem como colega José Mendes. Ainda não teve muita interacção com o campeão nacional, mas pela experiência que teve a seu lado no Paris-Nice, disse que José Mendes "é uma boa pessoa e progrediu de dia para dia": "Dá para ver que é um ciclista para corridas por etapas. É também muito bom trepador e, por isso, será um homem muito importante para o Rafal Majka em algumas corridas."

Já sobre Sérgio Paulinho, Juraj referiu que apesar de só ter feito algumas corridas com o português, ficou amigo do ciclista que actualmente representa a Efapel: "Ele é um verdadeiro campeão quando se olha para o que alcançou na carreira. Era também muito simpático e descontraído. Penso que essa forma descontraída de estar posso aprender com ele."

Juraj sabe que será inevitável continuar na sombra do irmão. Mas não se incomoda com isso, sendo claro que se sente realizado com a carreira que está a construir. Porém, não esconde que tem também a sua ambição pessoal, sabendo que terá de ter paciência, mas que a sua oportunidade poderá chegar. E quando isso acontecer, quer estar preparado para a agarrar.



31 de janeiro de 2017

Sprinters, contra-relogistas, trepadores. Mais uns grandes nomes confirmados para a Volta ao Algarve

Nacer Bouhanni, o bad boy do ciclismo, irá discutir os sprints na Volta ao Algarve
(Fotografia: Team Cofidis)
John Degenkolb e Arnaud Démare eram os dois ciclistas confirmados para animar os sprints na Volta ao Algarve, mas a concorrência vai ser intensa com mais uns nomes confirmados para a corrida portuguesa. Nacer Bouhanni (Cofidis) - o rival francês de Démare e o bad boy do ciclismo - o alemão André Greipel (Lotto Soudal), Dylan Groenewgen (campeão holandês da Lotto-Jumbo), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) e Fernando Gaviria (a jovem promessa colombiana da Quick-Step Floors, que recentemente venceu duas etapas na Volta a San Juan) vão marcar presença na Algarvia. Portanto, Lagos e Tavira têm tudo para ser palco de disputa entre alguns dos melhores sprinters mundiais. Mas há mais nomes a dar forma a mais um pelotão de luxo na Volta ao Algarve.

Para as etapas de montanha e para o ataque à geral, Michal Kwiatkowski (Sky) regressa para tentar repetir o triunfo de 2014, mas terá de enfrentar Rafal Majka - que este ano é um dos líderes da Bora-Hansgrohe -, Andrey Amador (Movistar), Tony Gallopin (Lotto Soudal), Primož Roglič - quinto classificado em 2016 -  e Lars Boom (ambos da Lotto-Jumbo). Para completar este fantástico grupo de ciclistas, estará ainda Daniel Martin, o irlandês da Quick-Step Floors.

Ainda falta confirmar vários corredores que irão completar as equipas, mas já dá para perceber que as formações World Tour vão apresentar-se no Algarve com candidatos a vencer qualquer das cinco etapas. No contra-relógio, o campeão da Europa Jonathan Castroviejo (Movistar) irá juntar-se ao campeão do Mundo Tony Martin (Katusha-Alpecin). Os dois terão certamente a forte concorrência do quatro vezes campeão nacional da especialidade, Nelson Oliveira.

A Movistar terá os dois portugueses entre os eleitos. Além de Nelson Oliveira, a equipa espanhola contratou este ano Nuno Bico, que aos 22 anos começa a sua experiência ao mais alto nível do ciclismo. O outro campeão nacional, mas de fundo, José Mendes (Bora-Hansgrohe), também estará nas estradas algavias. Estes ciclistas juntam-se aos já confirmados Tiago Machado e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) e Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo). Do escalão Profissional Continental, a Caja Rural terá Rafael Reis na equipa e a Manzana Postobón contará com Ricardo Vilela.


No dia da apresentação da corrida, que este ano tem a categoria 2.HC (a segunda mais alta), foram também apresentados os patrocinadores das quatro camisolas:

  • Geral individual: camisola amarela/Turismo do Algarve;
  • Montanha: camisola azul/Liberty Seguros;
  • Pontos: camisola vermelha/Cofidis;
  • Juventude: camisola branca/Sicasal.

A Volta ao Algarve realiza-se entre 15 e 19 de Fevereiro, contando com duas etapas planas, uma de contra-relógio e duas de montanha, com a decisão final marcada novamente para o Alto do Malhão. Uma das grandes novidades será o regresso da transmissão televisiva, com o Eurosport e a TVI24 a transmitirem a última hora das etapas.


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25 de janeiro de 2017

Tom Boonen é o primeiro a ganhar uma corrida numa bicicleta com travões de disco. O que pensam os ciclistas portugueses deste sistema?

Tom Boonen diz ser fã dos travões de disco (Fotografia: Instagram do ciclista belga)
A poucos meses de se retirar da competição, Tom Boonen fez um pouco mais de história. Ao vencer a segunda etapa da Volta a San Juan, na Argentina, o belga tornou-se no primeiro ciclista a conquistar uma vitória utilizando uma bicicleta com travões de disco. Depois de no ano passado a fase de testes ter sido cancelada pela UCI após o incidente com Francisco Ventoso no Paris-Roubaix, os travões de disco voltaram a ser permitidos e Boonen optou por terminar a sua carreira a utilizar o sistema que considera ser "um grande melhoramento". "Não só dá mais segurança, como permite um melhor controlo da bicicleta ao travar para as curvas", escreveu o belga na sua conta de Instagram.

A utilização dos travões de disco no ciclismo de estrada tem sido alvo de muita discórdia no pelotão internacional. Muitos são contras, mas também há aqueles que defendem que é um sistema bem-vindo. Em causa tem estado principalmente as questões de segurança. Numa queda colectiva, por exemplo, os travões de discos podem provocar cortes e como aquecem com a utilização também aumentam o perigo de ferimentos. Após o Paris-Roubaix, Ventoso classificou os travões de disco como facas, depois de dizer que foi cortado por um numa queda que lhe deixou a perna num estado impressionante.

A UCI suspendeu a experiência, mas este ano os travões voltaram a ser permitidos depois de, alegadamente, ter sido melhorada a sua protecção. Ninguém dúvida que a travagem é melhor, mas questiona-se se é realmente necessário. Pesando na balança as vantagens e as desvantagens, com a segurança a ser o principal elemento desequilibrador, para já tem pendido para a não utilização de grande parte dos ciclistas. E depois ainda há uma dúvida constantemente levantada: o objectivo é mesmo melhorar as condições dos ciclistas ou é uma questão de marketing por parte das marcas?

Outro problema que entretanto foi levantado por quem faz o apoio neutro nas corridas, é o facto de os travões de disco poderem ter tamanhos diferentes e as rodas serem presas também de formas distintas de equipa para equipa, ou seja, de marca para marca. Ou seja, o apoio neutro arrisca-se a não ter o material indicado para ajudar determinado ciclista. Para tal, será necessário que todos utilizem sistemas idênticos.

Em Portugal ainda não se fala na integração dos travões de disco, pois tem sido uma discussão, para já, mais a nível do World Tour. O Volta ao Ciclismo foi saber o que pensam alguns ciclistas portugueses deste sistema de travagem.

Edgar Pinto (LA Alumínios-Metalusa-BlackJack): "Sinceramente já discuti isso com alguns atletas, mas ainda não tive a oportunidade de experimentar. Tudo o que seja para melhorar a modalidade, ok, mas dentro da segurança. O problema é quando há quedas. Os discos se não estiverem devidamente protegidos podem ferir gravemente um atleta, uma pessoa do público... Não estou contra os discos, desde que estejam devidamente protegidos para que não se verifiquem acidentes."

Filipe Cardoso (Rádio Popular-Boavista): "Acho que pode ser visto de muitos pontos de vista. Se gosto de travões de disco? Gosto. Acho que são agradável, acho que funcionam, são engraçados. Se vou ser mais rápido em corrida por causa do travão de disco? Não, não vou ser mais rápido, não vou ganhar tempo nenhum. E agora tinha de entrar em mil aspectos técnicos para explicar porquê! Há mais poder de travagem, mas o contacto do pneu com o alcatrão - a largura do pneu tem no máximo 25 mm, é pouco, é um pneu estreito - dar muito poder de travagem, mas a superfície ser a mesma, ela vai derrapar, porque o chamado grip do pneu não suporta uma travagem muito potente. E o travão, no nosso caso para competir, ninguém quer chegar a uma curva e travar a fundo. Quando se trava a fundo numa corrida é para cair, é porque houve uma queda e se trava a fundo para cair o mais devagar possível. Não é travar muito, é fazê-las travar pouco, fazê-las rápido. 

Talvez seja ligeiramente mais confortável no toque. Na travagem em si é mais potente, é mais confortável à mão, mas o pneu não aguenta uma travagem muito forte. Para lhe dar um exemplo: pega nuns travões de um Ferrari e coloca-os num carro citadino. O Ferrari tem uma largura de pneu muito maior do que um citadino. Se puser o travão potente numa roda de um carro citadino, vai travar e ele simplesmente vai derrapar. A superfície que toca no alcatrão é muito estreita, não faz sentido. A mesma lógica aplica-se nas bicicletas.

Em dias de chuva trava muito melhor, a água não interfere tanto no poder de travagem no travão de disco. E depois tem o problema das quedas. Isso não tenho dúvidas nenhumas que é um risco acrescido para os ciclistas. Há um teste que é simples de fazer: pegar numa bicicleta que está parada, com travões de disco, fazer uma descida de 300/400 ou 500 metros, travar a fundo, fazer duas ou três travagens e no fim tocar com a mão no disco. Ele vai estar a ferver. Uma queda onde caiam 10 ou 20 ciclistas e discos a ferver a tocar uns nos outros, vai ser certamente... Isso já aconteceu, foi por isso que foram proibidos.

O que vai acontecer é a coisa natural das marcas estarem a pressionar muitíssimo toda a gente para que os travões de disco sejam norma e a partir desse momento, milhões e milhões de pessoas em todo o mundo vão ter de trocar as bicicletas e os assessórios e os componentes. E é isto que está a acontecer. Eu gosto dos travões de disco. Eu se neste momento comprasse uma bicicleta para mim, para ter em casa, comprava com travões de disco. Acho realmente engraçado. Para competir analiso os prós e os contras. A nível de travagem não me faz falta neste momento ter uns travões mais potentes. O travão tradicional com as pastilhas certas é um travão que trava muito bem. Pesando as coisas, tudo o que seja colocar mais um risco para o ciclista, na minha maneira de ver, não faz sentido."

Hélder Ferreira (Louletano-Hospital de Loulé): "Eu até agora não experimentei os travões de disco nas bicicletas de estrada. Acho que ainda está a haver uma polémica internacionalmente. Portugal anda sempre um passito atrás, por isso, até chegar cá vai demorar e depois posso opiniar sobre a questão. Quanto à segurança, das opiniões que tenho ouvido, há certos problemas. Mas só vendo."

Joni Brandão (Sporting-Tavira): "Eu acho que para os travões de discos serem homologados era necessário que competíssemos todos com travões de disco e não uns com travões de disco e outros com normais, porque acho que é uma desigualdade muito grande. Quem vai de travão de disco tem uma capacidade de travagem muito superior aos normais e na minha maneira de ver, esta é uma decisão que não está a ser bem tomada porque se todos fossem obrigados a correr de discos era uma coisa, agora uns com discos e outros sem discos... Acho que é uma desigualdade grande. E depois é a questão da segurança que não sei se foi rectificada, mas acho que sim. Falta saber como e só depois é que podemos dar uma opinião mais concreta em relação a isso."

José Mendes (Bora-Hansgrohe): "Eu nunca usei travões de disco em bicicletas de estrada. Há quem diga que a travagem é melhor, mas aquilo que me preocupa é a segurança e foi o que fez com que fosse suspensa a integração dos discos. Na minha opinião, penso que não se deveria usar discos. Sou contra. É óbvio que se deve evoluir, mas acho que é dos costumes que infelizmente há no nosso desporto e quando há um pelotão, com muitos ciclistas juntos, penso que aquele disco pode ser muito perigoso. 

Infelizmente não sei quem tem mais interesse que os travões de disco sejam integrados. Penso que não é da parte dos ciclistas. Eu ainda não vi nenhum ciclista a reivindicar a reintegração dos discos para a sua segurança. Por isso, falar em termos de segurança, não é correcto. Possivelmente as marcas têm interesse nessa integração. Estou um pouco apreensivo com a integração dos discos pelo problema da segurança. Penso que vai criar insegurança e medo. Com o tempo aquilo aquece. É mais um elemento que pode provocar sérias lesões. Já temos as pedaleiras, mas isso não podemos tirar. Mesmo uma bicicleta de estrada ter uma capacidade superior de travagem, à velocidade que nós atingimos, penso que até isso pode ser perigoso.

Nunca experimentei, por isso, não posso dizer se é melhor ou pior. Aquilo que me deixa apreensivo é mesmo essa parte da segurança."

Rui Vinhas (W52-FC Porto): "Em Portugal não podemos muito falar nisso. Eu pessoalmente nunca usei travões de disco. Se é uma mais valia? Penso que sim. Para incutir isso na alta competição tem de ter benefícios. Agora eu não sou a melhor pessoa para responder porque nunca trabalhei com travão de disco na estrada. Acho que tem um bom poder de travagem, uma boa segurança e penso que na bicicleta de estrada será um bocado parecido. É uma questão de experimentar para ver como seria. Há polémicas, mas isso é como em tudo. Nós tendo quedas com bicicletas normais ficamos sempre com mazelas, mas com uma bicicleta a cortar como foi o caso do Ventoso, um travão de disco que era novidade, as pessoas metem logo problemas nisso. Mas acho que é uma questão de experimentar e andar um ano ou dois para ver se realmente aquilo serve para a alta competição ou não."

Sérgio Paulinho (Efapel): "Eu tenho uma bicicleta de travão de disco e para ser sincero quando chove e com a estrada molhada, é muito melhor. A travagem é muito melhor, o tempo de reacção é muito melhor, a bicicleta trava muito melhor. Em seco não vejo diferença. Quase que digo que prefiro o travão tradicional que o travão de disco. Para mim, o grande problema que está aqui é o disco em si. Se houver um protecção do disco por causa das quedas, acho que o disco pode ser bem-vindo ao ciclismo.

Na minha opinião, se a decisão fosse minha, a decisão é não ao disco. Acho que não traz nada de novo ao ciclismo. Traz de novo às marcas porque é uma inovação, mais vendas. Que me desculpem as marcas, mas é assim mesmo. Inovação no ciclismo? Eu não a vejo. Não é por aí. Acaba por tornar a bicicleta mais pesada. Se houver uma protecção, vamos supor - e todos sabem que no Tour há sempre aquelas quedas enormes - que acontece alguma fatalidade por causa de um travão de disco... Elas às vezes já acontecem sem travão de disco, com um travão de disco há uma probabilidade maior. Acho que temos de ponderar todas as situações, por isso, na minha opinião, se fosse eu a decidir, não vale a pena."

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