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16 de setembro de 2018

As equipas uma a uma na Vuelta de Yates e da Mitchelton-Scott

Primeira vitória numa grande volta da Mitchelton-Scott
que se vestiu a rigor (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Chegou ao fim a última grande volta do ano. Para não variar, a Vuelta foi rica em emoção e espectáculo, principalmente na derradeira semana. Contudo, durante as três houve reviravoltas, surpresas, o inesperado fez parte da sua génese e é por isso que continua a ser aquela que acaba por ganhar no apreço dos adeptos. Simon Yates fez história ao ganhar a sua primeira corrida de três semanas, fechando um ciclo brilhante da Grã-Bretanha, pois nunca tinha acontecido um país ganhar as três grandes no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Como sempre, houve vencedores e derrotados. Houve quem cumprisse as expectativas, quem superasse, quem tem muito mudar. Três dos quatro portugueses chegaram ao fim e Madrid voltou a ser palco de uma despedida de um ciclista espanhol. Aqui fica uma análise equipa a equipa, com a ordem a ser definida pela classificação colectiva.

Movistar: Ganhou novamente por equipas, mas perdeu individualmente. Não deixa de ser irónico que estando em primeiro seja a maior derrotada da Vuelta. Assumiu que a corrida era para ganhar, depois de em 2017 não ter levado nenhum dos seus líderes e ter passado ao lado da prova caseira, algo estranho tendo em conta o patrocinador. Falhou no Tour e quis levar o tridente a Espanha, mas Mikel Landa lesionou-se. Ainda assim, era a equipa mais forte da Vuelta. Apostar novamente em mais do que um ciclista para a liderança correu mal. Nairo Quintana é uma sombra de si mesmo e Alejandro Valverde acabou por fraquejar nas duas etapas de montanha decisivas. Sonhou com a vitória e nem o pódio conseguiu segurar. A Movistar ganhou duas etapas e a classificação dos pontos por intermédio de Valverde e venceu colectivamente, o que para qualquer outra equipa (menos a Sky) seria excelente, mas para a formação espanhola é muito pouco. Há toda uma estratégia a repensar para 2019. Assim, com tantos galos para um poleiro, esta equipa não funciona. Uma palavra por Nelson Oliveira (71º, a 2:30:07). O ciclista português esteve bem. É um corredor com quem se pode contar estar sempre ao nível que os seus líderes precisam. Não foi por ele que a Movistar falhou. Nos contra-relógios foi quarto e sétimo, o que deixa as expectativas altas para os Mundiais.

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali confirmou desde cedo que não conseguiria lutar pela geral, depois da grave queda no Tour. No entanto, não foi à Vuelta apenas para ganhar ritmo ficando perdido no pelotão. Com o passar dos dias, o italiano começou a aparecer na frente do pelotão a trabalhar, foi para as fugas e quis mesmo ganhar uma etapa. Excelente atitude deste ciclista, ao contrário do que aconteceu com Richie Porte (BMC) que esteve em Espanha só a pensar nos Mundiais. A postura de Nibali foi o ponto positivo da Bahrain-Merida que viu Ion Izagirre ficar longe de disputar a geral, apesar da oportunidade para o fazer. O nono lugar a 11:09 é pouco para este ciclista e para a equipa.

Bora-Hansgrohe: Como equipa funcionou bem, mas não conseguiu selar um resultado de nota. Rafal Majka não veio à Vuelta para a vencer, mas foi activo na procura por uma etapa, deixando para Emanuel Buchmann a responsabilidade da geral. Com 25 anos, o alemão demonstrou que pode vir a ser uma aposta, mas terá de ser mais regular. Foi perdendo fôlego com o aproximar do fim e falhou o top dez, onde esteve bastante tempo. E depois há Peter Sagan. O que dizer de um ciclista que faz quatro segundos lugares e dois terceiros? Às vezes simplesmente não dá e a desejada última vitória com a camisola do arco-íris não foi alcançada. Aquela queda no Tour, ainda não o deixou recuperar por completo a forma e talvez já nem seja preciso fazê-lo este ano, já que os Mundiais não são para ele. Foi uma Vuelta dos "quase" para a equipa. Merecia um pouco mais.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Astana: Atacante, agressiva, sempre a acreditar que só se tentar é que se poderá alcançar o sucesso. É esta a mentalidade e, por isso, Miguel Ángel López encaixa na perfeição nesta estrutura. Dois terceiros lugares este ano em grandes voltas, ainda que Alexander Vinokourov não esconda que faltou a etapa na Vuelta. Mas foi uma boa corrida da equipa cazaque e do seu líder, que tem de melhorar no contra-relógio se quiser de facto ganhar uma grande volta. O director pode ter ficado furioso por Fabio Aru ter deixado a equipa no final de 2017 e não ter um substituto para o italiano. O que fica de 2018, do Giro e da Vuelta, é que a Astana tem o seu novo líder. Contratou os irmãos Izagirre para a próxima temporada, mas o futuro é López. Está aí um grande ciclista, de quem muito se espera. Estes pódios são só o início.

EF Education First-Drapac p/b Cannondale: Esperava-se um pouco mais de Rigoberto Urán, um dos muitos que chegou a Espanha depois do Tour ter corrido mal (abandonou após a etapa de Roubaix, devido a uma queda). Foi sétimo, a 6:07 minutos, o que é sempre positivo, mas o que a equipa americana mais agradece são as vitórias de Simon Clarke e Michael Woods. São agora seis os triunfos em 2018. Muito pouco, mas duas vitórias numa grande volta têm sempre peso e a formação bem precisava delas. Por isso, sai de Espanha com razões para celebrar, ainda que não muito dado o ano muito aquém do desejado.


(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Mitchelton-Scott: Venceu a Vuelta, foi inteligente na forma como controlou a corrida e como forçou a Movistar a desgastar-se em controlar algumas etapas. Não foi só Simon Yates que aprendeu a lição do Giro, foi toda a equipa. Jack Haig é um gregário que está entre os melhores da actualidade e pela primeira vez, a dupla Yates funcionou numa grande volta, com Adam a estar desaparecido durante duas semanas, para aparecer na terceira em grande forma. Foi um longo caminho de uma equipa que ao ser criada começou por apostar em clássicas e sprints, mas que pegou nuns jovens gémeos e formou-os, indo aos poucos construindo uma estrutura para as grandes voltas. Aí está a primeira vitória, que o director Matt White considerou ser um alívio. A Mitchelton-Scott vai continuar a sua transformação para as três semanas, ainda mais agora que tem de facto um ciclista capaz de ganhar um corrida destas, Simon, e outro, Adam, que pode seguir o mesmo caminho. A fasquia fica agora mais alta.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dimension Data: Que alívio foi para a equipa sul-africana esta Vuelta. Duas etapas ganhas por Ben King ajudaram a dar algum alento a uma formação com apenas sete vitórias. E há mais de um ano que não ganhava no World Tour. King salvou a Dimension Data de mais uma grande volta para esquecer, pois Louis Meintjes falhou novamente, tal como no Giro. Este regresso às origens não correu bem para o sul-africano. No final, um momento emotivo. No sábado ao finício da noite, Igor Antón anunciou que iria terminar a carreira quando cortasse a meta em Madrid. O espanhol, de 35 anos, venceu quatro etapas na Vuelta e uma no Giro, no total de 14 vitórias como profissional (a última foi em 2015, na Volta às Astúrias). Tal como Alberto Contador há um ano, Antón teve direito a uma ovação pelas ruas da capital, no adeus a um ciclista que foi um dos principais da Euskaltel-Euskadi, passou depois pela Movistar, antes de assinar pela Dimension Data.

AG2R: As equipas francesas estiveram em grande em Espanha. A AG2R não conseguiu liderar a Vuelta como a Groupama-FDJ e a Cofidis, mas alcançou duas vitórias de etapa por intermédio de Tony Gallopin e Alexandre Geniez. No entanto, ver Gallopin cair para fora do top dez (11º) na última etapa de montanha não deixou de ser uma desilusão para a equipa e principalmente para o ciclista, que está a tentar fazer a passagem para ser um voltista que lute por lugares cimeiros da geral. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a AG2R.

Sky: Vuelta falhada para a equipa que venceu quatro grandes voltas consecutivas. David de la Cruz teve a sua oportunidade, mas desde cedo mostrou que não estava à altura de lutar por uma vitória na geral. O espanhol poderá não ter outra tão cedo. Fez o Giro, mas foi dos poucos que apontou o seu pico de forma para a Vuelta e nem a vitória de etapa conseguiu. Michal Kwiatkowski andou de vermelho e até se pensou que poderia ser ele quem tentaria fazer o pleno para a Sky em 2017, depois de Chris Froome ver o Giro e Geraint Thomas o Tour. Mas a época vai longa e desgastante para o polaco, pelo que não foi uma surpresa quando quebrou. Porém, este ciclista sim, irá ter uma nova oportunidade para liderar a equipa numa grande volta. De Sérgio Henao também se esperava mais. Dos dois jovens, Tao Geoghegan Hart esteve bem, dentro do possível, já Pavel Sivakov não foi feliz e abandonou. Mas o objectivo de dar experiência a ambos foi alcançado. Era o que se pretendia. Soube a pouco esta Sky, que nem uma vitória de etapa, nem um top dez conseguiu. Coisa rara.

Euskadi-Murias: Gerou alguma desconfiança, pois estava longe de ter o melhor dos plantéis, tal como a Burgos-BH, mas a equipa basca foi, depois da Cofidis, a melhor entre as do segundo escalão. Pedia-se que se mostrasse, que lutasse, que estivesse em fugas, que fosse activa. Assim foi. Os seus corredores mostraram agressividade e não estavam a passar despercebidos até que Óscar Rodríguez conseguiu o impensável. Conquistou La Camperona, uma das subidas mais difíceis. A equipa teve uma cobertura mediática imensa devido à vitória e o País Basco volta a sonhar com uma estrutura de referência, com a Euskaltel-Euskadi ainda na memória de todos. Com uma etapa ganha, a Vuelta estava mais do que feita para uma equipa como esta, mas a Euskadi-Murias nunca baixou os braços até ao fim. Boa atitude de quem vai continuar neste escalão e já começa a pensar mais alto.

Lotto-Jumbo: Steven Kruikswijk poderia ter ficado numa situação delicada na equipa. Com Primoz Roglic a afirmar-se e com George Bennett a ameaçar fazer o mesmo, o holandês bem precisava de uma boa temporada. Quinto no Tour e quarto na Vuelta. Excelente. Porém, sai de Espanha desiludido, pois sente que deixou escapar o pódio, outra vez, tal como em 2016 no Giro, onde até esteve perto de ganhar. Faltou-lhe consistência na montanha, já que no contra-relógio esteve muito bem. Mas é um bom resultado para o holandês. Já Bennett desiludiu e se no Giro esteve menos mal, na Vuelta esperava bem mais. A equipa, no seu todo, deu mais uma demonstração como está a tornar-se numa de respeito, com destaque para um Sep Kuss, que aos 24 anos deixou uma excelente imagem de como trabalhar para o líder, na sua estreia numa grande volta.

Groupama-FDJ: Com tantos ciclistas a tentarem redimir-se na Vuelta de uma temporada menos conseguida, por terem ficado aquém no Giro ou no Tour, Thibaut Pinot foi dos que alcançou essa redenção. Duas vitórias de etapa - e entrou assim para a lista dos que venceram nas três grandes voltas - e depois de ter perdido tempo ao ficar cortado num abanico, acabou por conseguir reentrar no top dez e até foi subindo, com o sexto lugar a 5:57, a ser mais do que a certa altura pensou-se ser possível. Mas antes de Pinot ser a estrela, foi Rudy Molard o grande destaque. Quatro dias de camisola vermelha, alcançando algo que não tem sido comum nesta equipa: a liderança numa prova de três semanas. Vuelta para recordar de uma estrutura que para o ano irá apostar novamente tudo (ou quase) no Tour. Em casa, portanto.

Sunweb: A equipa foi cuidadosa com as expectativas criadas em redor de Wilco Kelderman. Há um ano esteve na luta pelo pódio, mas desta feita, uma queda pouco antes do Tour, tirou-o dessa corrida e o holandês não conseguiu recuperar até a uma forma ideal para repetir ou fazer melhor em Espanha. Ainda assim, num último fôlego nas derradeiras montanhas, Kelderman conseguiu fechar o top dez, a 11:11 de Yates. Perante a equipa presente e com o seu líder a não estar a 100%, não se poderia pedir muito mais a uma Sunweb que jogou forte no Giro e Tour e ainda não tem estrutura para estar em grande nas três grandes voltas. Mas para lá caminha.

Caja Rural: Apostou nas fugas, Lluís Mas foi um ciclista muito activo, mas a Caja Rural já teve Vueltas bem mais conseguidas. Os seus corredores costumam ser mais agressivos na procura por vitórias, que podem não conseguir, mas são normalmente mais ameaçadores. Esperava-se um pouco mais, pelo menos sendo um pouco mais competitiva. Foi uma pena Joaquim Silva ter ficado de fora das escolhas, depois de na Volta a Portugal ter sofrido com o calor, abandonando logo na primeira etapa em linha. Rafael Reis não foi escolhido para repetir a presença de 2017. Com mais duas equipas espanholas agora como Profissionais Continentais, a Caja Rural já tem termos de comparação e perdeu claramente para a Euskadi-Murias.


BMC: Foi um adeus positivo deste patrocinador às grandes voltas no que diz respeito às vitórias de etapas. Rohan Dennis venceu os dois contra-relógios - cuidado com o australiano para os Mundiais - e vestiu a camisola vermelha por um dia. Alessandro de Marchi conquistou também ele uma etapa. Porém, fica uma desilusão: Richie Porte. O ciclista bem avisou que não estava em condições físicas de lutar pela Vuelta depois da queda no Tour e não ajudou ter começado a corrida a recuperar de uma gastroenterite. Ainda assim, Porte poderia ter tentado um pouco mais do que uma fuga numa etapa plana! Ainda se viu uma ou outra vez, mas nada de nota. A equipa virou-se para Nicholas Roche, mas este é um ciclista que se vê o seu melhor quando faz de gregário e é por isso que irá apoiar Tom Dumoulin na Sunweb em 2019. Quanto a Richie Porte, pensar apenas nos Mundiais ficou-lhe mal, tendo em conta que caso vença, nem é pela equipa que agora representa - que terá um novo patrocinador, a CCC - que irá vestir a camisola do arco-íris. Tentar seriamente uma etapa ter-lhe-ia ficado bem, a exemplo do que fez Vincenzo Nibali.

Trek-Segafredo: Valeu Bauke Mollema. Numa altura em que já se vai falando da chegada de Richie Porte em 2019, o holandês pode não ter conseguido estar na luta pela geral, mas talvez tenha encontrado a melhor função para o futuro próximo, se não quiser ficar como gregário. Foi um dos melhores animadores desta Vuelta e por isso ganhou a distinção de mais combativo (bateu os espanhóis, o que não foi fácil, tendo em conta as votações durante as etapas). Foi duas vezes segundo em tiradas e foi segundo na classificação da montanha. Não ganhou, mas foi muito bom vê-lo ao ataque, à procura de um resultado. Porém, no geral, ficou novamente bem claro que esta Trek-Segafredo precisa de uma renovação, que já está a ser preparada para o próximo ano.

Quick-Step Floors: Quatro vitórias de etapas, três por Elia Viviani e uma por Enric Mas, segundo lugar na geral com o jovem ciclista espanhol. Mais uma excelente grande volta para a equipa belga, que não só saiu com os triunfos que sempre aposta, como teve o enorme bónus de ver Mas afirmar-se a este nível e logo com um pódio. Cinco triunfos no Giro, mais quatro no Tour, são 67 no total, com uma ajuda de Julian Alaphilippe que venceu a Volta à Grã-Bretanha e hoje à Eslováquia, enquanto decorreu a Vuelta. Que temporada impressionante!

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Lotto Soudal: Cumpriu quase todas as expectativas. Ganhou uma etapa por Jelle Wallays, teve Thomas de Gendt como um dos animadores da Vuelta, tornando-se no primeiro belga a vencer a classificação da montanha na grande volta espanhola. Só Tiesj Benoot acabou por ser uma pequena desilusão. O belga não escondeu que não estava completamente recuperado da queda no Tour, mas queria pelo menos lutar por uma etapa. Quase que deu para esquecer que estava na corrida. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a Lotto Soudal.

UAE Team Emirates: Fabio Aru falhou outra vez. Um ano para esquecer do italiano no primeiro em que representa esta equipa. Esteve mal no Giro, não esteve muito melhor na Vuelta, que pelo menos acabou. A frustração foi tal que ao sofrer uma queda devido a um problema na corrente, teve uma reacção tão agressiva que, mais tarde, acabou a pedir desculpa. Aru foi 23º, a 1:03:07 horas. Daniel Martin abandonou após o primeiro dia de descanso para juntar-se à mulher que estava em final de gravidez e fez falta a uma equipa que teve Sven Erik Bystrom a ficar perto de um triunfo que teria ajudado a amenizar mais uma desilusão com o líder Aru. Rui Costa ficou de fora das opções, o que não deixou de se estranho ao saber-se que Martin afinal poderia ir embora a qualquer momento.

Cofidis: A época foi conturbada com a relação fria entre Nacer Bouhanni e o novo director, Cédric Vasseur. O sprinter ficou de fora do Tour, mas na Vuelta picou o ponto com uma vitória de etapa, quebrando um jejum de quatro anos em corridas de três semanas. Luis Ángel Maté andou com a camisola da montanha boa parte da corrida - da segunda à 16ª etapa -, mas a alta montanha não é para ele e acabou por perder a classificação para Thomas de Gendt. Jesús Herrada foi líder durante dois dias, no ponto alto da Cofidis em Espanha. Excelente corrida da equipa que tinha desiludido no Tour, mas que na Vuelta foi uma das formações em destaque.

Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin deve sentir que é perseguido por azares. Mais uma vez, uma queda arruinou a corrida do russo, que acabou por tentar lutar por etapas, mas, apesar de entrar em fugas, nunca esteve perto de conseguir uma vitória. Mais uma grande volta que ficou muito aquém do desejado pela equipa liderada por José Azevedo. A figura foi mesmo Tiago Machado (79º, a 2:48:38 horas). Com Zakarin fora da disputa pela geral, o português recebeu luz verde para procurar um triunfo. Bem tentou ao entrar em fugas e merecia ter recebido pelo menos um prémio de mais combativo, mas a votação foi quase sempre a favor dos espanhóis. Boa corrida de Machado, numa altura em que ainda não se conhece o futuro do ciclista português. José Gonçalves abandonou na 13ª etapa, ele que esteve longe da forma do Giro, onde foi também a figura da equipa.

Burgos-BH: Apostou nas fugas e na experiência de José Mendes e Jetse Bol, contratado em Agosto à Manzana Postobón para reforçar a Burgos-BH a pensar na Vuelta. O português esteve mais activo do que o holandês, mas em geral a equipa mostrou que precisa de crescer para ambicionar ser algo mais do que uma camisola a mostrar, mas que desaparece quando as decisões das etapas se aproximam. Mendes teve uma temporada complicada, devido a uma queda na Clássica da Arrábida que o deixou fora de competição durante algum tempo. A época acabou por se centrar muito na Vuelta, mas também não foi feliz, com alguns azares pelo caminho, mas foi o melhor da equipa na geral: 83º, a 2:57:10 horas de Simon Yates. A queda grave de Jordi Simón, continua internado no hospital, acabou por marcar a corrida de uma das equipas espanholas que este ano subiu a Profissional Continental.

»»A vitória da nova geração««

»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

22 de agosto de 2018

Rui Costa sem grandes voltas. Vuelta com quatro portugueses

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Desde que chegou ao World Tour em 2009 que Rui Costa participou sempre pelo menos numa grande volta por época. O Tour tornou-se na sua corrida de eleição de três semanas e só no ano passado se estreou no Giro e Vuelta. Esta época, o objectivo passava por estar de novo em França, mas a temporada tem sido muito complicada para o ciclista português, que está em final de contrato com a UAE Team Emirates. Uma lesão afastou-o do Tour e se a Vuelta seria uma possibilidade, a equipa "empurrou" Rui Costa para as clássicas, deixando-o de fora de uma grande volta pela primeira vez desde que está ao mais alto nível.

"A equipa decidiu que farei as clássicas. Tão boas memórias me trazem", limitou-se a referir no Twitter. E de facto esta altura do ano sempre foi uma em que apareceu forte, com especial foco nas clássicas do Canadá. Somou alguns bons resultados, vencendo o Grande Prémio de Montreal em 2011. Ainda assim, não ver Rui Costa na Vuelta não deixa de ser mais uma desilusão numa época muito abaixo do esperado do campeão do mundo de 2013.

Depois do top 10 na Volta a Omã e Abu Dhabi, a queda na segunda etapa no Paris-Nice foi o primeiro sinal que a época não ia ser fácil. As clássicas das Ardenas não correram como desejaria, mas apareceu em grande na Volta à Romandia (quinto lugar na geral). Porém, uma lesão no joelho afastou-o da "sua" Volta à Suíça - venceu três vezes -, mas o Tour estava nos planos. Não recuperou a tempo.

Desde a Romandia que só se viu Rui Costa na Prudential RideLondon-Surrey, Volta à Polónia e nos Europeus, tendo abandonado nesta última corrida. A UAE Team Emirates tem pretensões à geral na Vuelta, com a pressão a recair muito sobre Fabio Aru, depois de um Giro para esquecer. Daniel Martin também estará, mas depois de ter ganho uma tirada no Tour e terminado na oitava posição, não será de afastar que o irlandês vá mais à procura de conquistar etapas e com o pensamento mais na preparação para os Mundiais.

A equipa não leva o mais forte dos blocos, pois além de Rui Costa, também Diego Ulissi e John Darwin Atapuma - que esteve muito abaixo do esperado no Tour -, por exemplo, não entram no oito para a Vuelta. Porém, a UAE Team Emirates procura mais do que nomes de relevo, procura finalmente ter um conjunto que apoie o seu líder, não o deixando só demasiado cedo, um problema que persiste desde os tempos da Lampre-Merida. Fabio Aru e Dan Martin terão a companhia dos italianos Simone Consonni, Valerio Conti, Simone Petilli, Edward Ravasi e dos noruegueses Vegard Stake Laengen e Sven Erik Bystrom.

Quanto a Rui Costa, chegou o momento do tudo por tudo por bons resultados. Os Mundiais de Innsbruck saltam para o topo da lista de prioridades do ciclista português, de 31 anos. Mas antes, precisa-se de algo de nota nas clássicas, que começam já este domingo no GP de Plouay, em França.

Os quatro portugueses na Vuelta

Depois de no Tour não ter havido um representante de Portugal, na Vuelta serão quatro. Nelson Oliveira estará ao lado de Nairo Quintana e Alejandro Valverde na Movistar,  depois da desilusão de ter ficado de fora dos eleitos para o Tour. José Gonçalves será o único português no World Tour a fazer duas grandes voltas este ano. Depois do excelente 14º lugar no Giro, o gémeo de Barcelos estará ao lado de Ilnur Zakarin na Katusha-Alpecin, tal como Tiago Machado. José Mendes vestirá as cores as Burgos-BH. A época também não está a ser fácil para o campeão nacional de 2016, com uma queda logo no início da temporada, na Clássica da Arrábida, a estragar-lhe parte dos objectivos.

Ruben Guerreiro tinha no seu calendário a possibilidade de este ano se estrear numa grande volta, precisamente em Espanha, mas 2018 ficou novamente marcado por alguns azares. Entre problemas de saúde e algumas quedas, o jovem ciclista da Trek-Segafredo vê o seu sonho adiado.

O mesmo acontece com Joaquim Silva. Estava entre os pré-seleccionados para a Vuelta da Caja Rural depois de uma primeira temporada no nível Profissional Continental muito regular. Foi à Volta a Portugal com grandes aspirações, mas logo ao segundo dia abandonou devido ao intenso calor. A outra má notícia chegou depois: não ficou entre as escolhas finais da equipa espanhola, que também deixou de fora Rafael Reis, ciclista que teve um ano muito complicado, reaparecendo no seu melhor nos últimos dois meses, com vitórias de etapa no Troféu Joaquim Agostinho e na Volta a Portugal, tendo ainda liderado ambas as corridas. No entanto, já não foi a tempo de estar sequer entre os pré-seleccionados.

De referir ainda Nuno Bico, outro português que, ao estar na Movistar, seria elegível para a Vuelta. Contudo, ao pertencer a uma equipa tão forte, Bico ainda não é opção para estas corridas, continuando o seu caminho de afirmação.

24 de abril de 2018

"Custou-me um pouco sair da Bora-Hansgrohe"

(Fotografia: Burgos-BH)
Na estrutura da Bora-Hansgrohe José Mendes encontrou uma equipa na qual conseguiu consolidar a sua carreira no estrangeiro. Foram cinco anos, durante os quais participou nas grandes competições mundiais, com destaque para a presença nas três grandes voltas. Em 2017 subiu com a equipa ao World Tour, mas nem tudo correu como desejava e o ciclista português viu o contrato terminar. Na Burgos-BH abriram-lhe as portas para fazer parte de um projecto que esta época ascendeu a Profissional Continental e que já tem garantido o grande objectivo da temporada: estar na Vuelta. Mendes não esconde que lhe custou sair da equipa alemã, mas agora só pensa em mostrar-se na espanhola, ainda que o arranque forte de temporada que pensava fazer foi interrompido por uma queda na Clássica da Arrábida, a 11 de Março, ao serviço da Selecção Nacional.

"A lesão foi mais grave do que se esperava. Foi fractura na clavícula, mas foi a que já tinha partido. Partiu em várias partes e para não correr o risco de acontecer outra vez, o período recomendado foi de seis semanas sem sair à estrada. Nas primeiras três não pude fazer mesmo nada", explicou José Mendes, que na quinta-feira terá nova avaliação médica que espera que seja positiva, para assim deixar os rolos e iniciar a recuperação de forma na estrada. "Não sei quanto tempo vou precisar para estar com uma condição mínima para competir. Duas, três, quatro semanas..." O ciclista referiu que "todo o trabalho de pré-época foi por água a baixo" por causa da queda e que acabou por perder corridas em que queria muito estar na melhor forma, como foi o caso da Volta à Catalunha e ao País Basco, ambas do World Tour, a Volta a Castela e Leão e também não estará na Volta às Astúrias, que se realiza este fim-de-semana.

"Agora vou ter de me concentrar num único objectivo. A Volta a Espanha. É uma corrida que eu gosto e se tudo correr bem posso chegar lá e fazer uma boa prova, como já fiz no passado", salientou José Mendes ao Volta ao Ciclismo, satisfeito por saber que o objectivo da equipa foi garantido. "Nós estávamos convencidos que teríamos o convite. A época estava a ser planeada nesse sentido, mas, como é óbvio, eu não ia só concentrar-me só num objectivo", afirmou. A queda mudou-lhe os planos, mas José Mendes está determinado em retribuir a confiança que lhe foi e é dada pelos responsáveis da Burgos-BH, primeiro com a contratação e agora com o apoio nesta fase em que teve de estar parado: "Acolheram-me de forma fantástica. Eles estão a apoiar-me [nesta fase]. Não me colocaram pressão nenhuma. O importante é recuperar." 

"Ao fim destes anos não tiveram tanta consideração como eu pensaria que iriam ter, mas compreendo perfeitamente que a este nível não podemos ter anos menos bons"

José Mendes disse estar a viver "um ano de transição" depois de cinco na Bora-Hansgrohe, antiga NetApp-Endura, mas considera que não deu um passo atrás. "Custou-me um pouco sair da Bora-Hansgrohe. Ao fim destes anos não tiveram tanta consideração como eu pensaria que iriam ter, mas compreendo perfeitamente que a este nível não podemos ter anos menos bons", realçou. "A verdade é que as coisas não me saíram como eu desejava e como a equipa desejava, tendo em conta o nível em que a Bora-Hansgrohe agora está", acrescentou. No entanto, como o próprio afirmou, "há que andar para a frente e continuar a trabalhar" e é isso que José Mendes quer fazer na Burgos-BH.

Depois de consolidar a estrutura no escalão Continental, a equipa espanhola subiu de categoria em 2018, com José Mendes e o russo Matvey Mamykin (ex-Katusha-Alpecin) a serem as contratações mais sonantes, mas também está um ciclista conhecido do pelotão português: Jesus Ezquerra, que esteve duas épocas no Sporting-Tavira. "Em termos de condições não está ao nível de uma Bora-Hansgrohe, ou de outra equipa do World Tour, mas é natural. Já estava à espera. Mas é verdade que tenho outras coisas na Burgos-BH que não tinha na Bora. É uma equipa mais simples, mais familiar. Tem pequenos detalhes que me fazem sentir um pouco mais relaxado", frisou.

E o ciclista, que esta terça-feira celebra o seu 33º aniversário, considera que a Burgos-BH tem todas as condições para continuar a evoluir, sendo que, para já, tem um projecto para quatro anos. "Nota-se que a equipa está a caminhar para melhorar agora que está na nova categoria: É natural que nestes primeiros tempos haja coisas a afinar. Na Bora foi igual, até quando passou a World Tour. Penso que a Burgos-BH tem condições para crescer e para se consolidar nesta categoria Profissional Continental."

"Eu dei prioridade em manter-me no escalão Profissional Continental porque assim poderia ter acesso à Volta à Espanha e a outras provas do World Tour, coisa que, infelizmente, nenhuma equipa portuguesa neste momento pode dar"

Uma das diferenças é a forma de estar nas corridas, com a equipa a querer mostrar-se, principalmente para garantir o convite para a Vuelta, que entretanto já recebeu: "A equipa prefere ter mais visibilidade do que esperar para ter um bom resultado, mas penso que com o decorrer da época vamos mudando a forma de correr. Neste início de temporada queremos mostrar que estamos presentes, somos agressivos, queremos estar nas fugas, atacar nas partes finais das etapas e os resultados às vezes não aparecem porque há esse desgaste extra, mas penso que as coisas estão a correr bem".

Sem espaço na Bora-Hansgrohe, Mendes queria garantir que continuava a carreira pelo menos no segundo escalão, o que excluía um regresso a Portugal, onde representou a LA Alumínios-Antarte, Liberty Seguros e o Benfica. "Eu dei prioridade em manter-me no escalão Profissional Continental porque assim poderia ter acesso à Volta à Espanha e a outras provas do World Tour, coisa que, infelizmente, nenhuma equipa portuguesa neste momento pode dar. Eu gostaria sinceramente que um dia pudesse regressar a Portugal e estar numa equipa que pudesse participar nesse calendário", explicou.

A Bora-Hansgrohe faz parte de um passado que não esquecerá, ainda mais porque foi com a equipa que esteve no World Tour e fez o Tour, Vuelta e no ano passado o Giro, um momento que considera ter sido o melhor de 2018, pois permitiu-lhe "fechar" a presença nas corridas de três semanas, como ambicionava. Porém, agora só está concentrado em recuperar da lesão e regressar o mais cedo possível à melhor forma e às corridas.

E claro, quando se fala de objectivos, os nacionais são sempre um para um ciclista que durante um ano vestiu orgulhosamente a camisola de campeão nacional, depois de a conquistar em 2016. "Todos os anos, em melhor ou pior condição física, estou presente. Só não fui quando nasceu o meu filho e foi muito perto da corrida. Eu faço sempre questão de estar presente", assegurou. Europeus, Mundiais também estão no seu horizonte e quer trabalhar para merecer a confiança do seleccionador José Poeira, não escondendo que gostaria de estar em Innsbruck, na Áustria, no próximo mês de Setembro.

»»Convites para a Vuelta sem surpresas e a abrir a porta a três ciclistas portugueses««

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10 de abril de 2018

Convites para a Vuelta sem surpresas e a abrir a porta a três ciclistas portugueses

A Euskadi-Murias recebeu um muito desejado convite para a Vuelta
A subida da Burgos BH e da Euskadi-Murias ao escalão Profissional Continental, onde só estava a Caja Rural, representa uma melhoria nas condições das equipas espanholas, pelo que era expectável que fossem premiadas com a presença na Vuelta. Afinal um, senão o, principal objectivo para os patrocinadores que investiram nestes projectos. O director da corrida, Javier Guillén, já tinha deixado indicações que os convites para a próxima edição da Volta a Espanha seriam entregues às equipas do país, sobrando um, que ficou para a francesa Cofidis. Mas também aqui não há surpresa, pois esta é uma marca que tem investido muito no ciclismo de Espanha, inclusivamente no apoio às selecções.

A alegria de uns é a grande desilusão de outros, principalmente da Aqua Blue Sport e da Manzana Postobón. A irlandesa recebeu um dos convites em 2017 e logo no seu ano de estreia no ciclismo. Depois das peripécias de ter visto o seu autocarro arder e de ter a portuguesa LA Alumínios-Metalusa-BlackJack a ceder o seu, a Aqua Blue Sport conseguiu vencer uma etapa, por intermédio do austríaco Stefan Denifl. O director, Rick Delaney, escreveu nas redes sociais estar "furioso" com a situação, questionando os critérios de escolha.

"No ano passado não tínhamos história e conseguimos alguns convites fantásticos, este ano temos alguma história positiva e temos poucos ou nenhuns convites. Investi milhões neste desporto [...]. Sem corridas significa que não há tráfego no site, que significa que não há vendas e, logo, não há financiamento para a nossa equipa", lê-se. Delaney critica ainda nem ter havido a cortesia de um telefonema a dizer que a Aqua Blue Sport tinha sido preterida.

Já a colombiana Manzana Postobón, de Ricardo Vilela, foi principalmente uma animadora nas fugas, com o holandês Jetse Bol a ser uma das figuras da primeira semana, quando chegou a figurar no top dez.

Desta feita ficarão de fora, assim como a CCC Sprandi Polkowice. A equipa polaca de Amaro Antunes sabia que as possibilidades eram quase nulas, mas depois de ficar de fora da Volta a Itália, restava sonhar com a Vuelta, mas nada feito. Porém, as escolhas feitas podem permitir ter três portugueses na corrida. Na Caja Rural, Rafael Reis poderá repetir a presença de 2017 (foi 132º), com Joaquim Silva a ter em perspectiva uma estreia em grandes voltas.

Já para José Mendes poderá ser o regresso, ele que conta com duas participações na Vuelta, em 2013 (22º) e 2016 (54º), num total de cinco grandes voltas: dois Tours e um Giro. O ciclista português foi um dos reforços da Burgos BH, depois de cinco temporadas na estrutura da actual Bora-Hansgrohe.

Na Euskadi-Murias a notícia foi recebida efusivamente. "É um momento importante para o ciclismo basco e para o desporto basco em geral", salientou Jon Odriozola, director da equipa. Desde que a popular Euskaltel-Euskadi terminou, que no País Basco há muito se aguarda pelo aparecimento de uma estrutura que dê de novo àquela região uma referência no ciclismo. Nas provas em que tem participado, a Euskadi-Murias tem assumido sempre uma postura atacante, procurando estar nas fugas. E poderemos comprovar isso já a partir de sexta-feira, pois a formação basca, juntamente com a Burgos BH, será uma das equipas estrangeiras a marcar presença no Grande Prémio Internacional Beiras e Serra da Estrela. Estas duas formações espanholas têm sido presença regular em Portugal nos últimos anos, tal como a Caja Rural.

A Cofidis irá gerar um interesse maior do que em anos anteriores, pois a equipa contratou os irmãos Herrada, José e Jesús, que durante grande parte das suas carreiras foram duas figuras da Movistar, a única equipa espanhola no World Tour. Os Herrada juntaram-se a Luis Ángel Maté e Daniel Navarro.

A Volta a Espanha começa a 25 de Agosto com um contra-relógio de oito quilómetros em Málaga. Madrid consagrará o campeão a 16 de Setembro.

5 de dezembro de 2017

Azares, erros tácticos, a polémica do ano e Sagan e Majka a precisar de melhor apoio

(Fotografia: VeloImages/Bora-Hansgrohe)
A Bora-Hansgrohe foi uma das boas notícias para o pelotão de 2017. Com o fechar de portas da Tinkoff e da IAM, a formação alemã veio preencher uma dessas vagas, permitindo que o World Tour não ficasse mais curto. Este foi um projecto que se foi consolidando nos últimos anos, começando como Continental, passando rapidamente para o segundo escalão e nesta temporada não só veio para o nível máximo, como o quis fazer com estrondo. Peter Sagan era garantia de que a equipa seria falada praticamente o ano inteiro, mas foi ainda feita a aposta em Rafal Majka para as grandes voltas. Para Portugal também foi uma equipa importante, afinal tinha o então campeão nacional José Mendes, ciclista já com quatro anos de permanência naquela estrutura.

Apesar de ter ciclistas de qualidade, como Jan Bárta, Maciej Bodnar, Leopold König, Emanuel Buchmann e Jay McCarthy, entre outros, rapidamente se percebeu que Sagan poderia enfrentar um problema que não era exactamente novo na sua carreira: falta de acompanhamento dos colegas em alturas cruciais das corridas. Com um bicampeão do mundo - que acabou o ano como tri - e especialista de clássicas, a Bora-Hansgrohe acabou por ter uma primeira fase da temporada abaixo das expectativas. Entre azares e erros tácticos, Peter Sagan apenas venceu a Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Perder o sprint para Michal Kwiatkowski na Milano-Sanremo foi certamente de difícil digestão, cair na Volta a Flandres e furar no Paris-Roubaix foram duas enormes frustrações. Há épocas assim...

Ainda assim há de realçar que Sagan demonstrou em certos momentos que está a começar a saber aguentar um pouco um ímpeto de tentar ser ele a fazer tudo - atacar, contra-atacar, perseguir -, principalmente quando percebe que apenas está a "arrastar" outros ciclistas com ele e no final, paga o esforço com uma derrota. O que aconteceu com Kwiatkowski foi um pouco isso, ainda que naquela corrida, se Sagan não tivesse arriscado, teria chegada à meta com mais concorrência. Há que saber quando arriscar e umas vezes vai resultar, outras não, mas Sagan percebeu que não pode ser sempre ele a trabalhar.

Rafal Majka padeceu do mesmo mal, a nível de azar e falta de um melhor apoio em momentos cruciais. Muito discreto grande parte da temporada, na preparação da Volta a França, uma queda deixou-o muito mal tratado. Abandonou, a recuperação foi longa e na Vuelta a geral não esteve em discussão, mas foi vencer uma etapa. E é neste aspecto que a Bora-Hansgrohe soube destacar-se: venceu nas três grandes voltas. No Giro foi um início perfeito e de loucos. Lukas Pöstlberger ganhou distância nos metros finais quando preparava o sprint e acabou por ganhar surpreendentemente. A Bora-Hansgrohe ficou ainda com todas as camisolas em disputa na sua posse. Por um dia, é certo, mas para quem fazia a estreia em grandes voltas como equipa do World Tour, a fase menos boas das clássicas começava a ficar para trás.


Ranking: 8º (6516 pontos)
Vitórias: 33 (incluindo uma no Giro, duas no Tour e uma na Vuelta)
Ciclista com mais triunfos: Peter Sagan (11 mais o título mundial)

No Tour, foram mais duas vitórias e muita (mas mesmo muita) polémica. Peter Sagan ia atrás de mais uma camisola dos pontos - igualaria Erik Zabel -, mas acabou expulso da corrida depois do incidente com Mark Cavendish. No sprint, o britânico tentou forçar passagem e o eslovaco levantou o cotovelo, provocando a queda aparatosa de Cavendish. Inicialmente o castigo foi a desclassificação na etapa e a retirada de pontos para a respectiva classificação. Parecia ter ficado por aí, mas a organização foi mais longe. Rude golpe que Sagan não esquecerá, mas que ultrapassou ao regressar mais tarde a fazer o que faz melhor: vencer. 

A equipa recorreu de imediato ao Tribunal Arbitral do Desporto para tentar que o eslovaco fosse reintegrado no Tour, mas sem sucesso. No entanto, o caso prosseguiu, mas no dia em que deveria ser avaliado novamente,esta terça-feira, foi anunciado que a Bora-Hansgrohe e a UCI que não se iriam prosseguir legalmente com o caso. "Ambos os lados concordaram que 'a queda foi um incidente infeliz e sem intenção e os comissários da UCI formularam a sua decisão baseada no melhor julgamento dadas as circunstâncias'", lê-se no comunicado.

Entretanto, o presidente da UCI, David Lappartient, anunciou que haverá um comissário extra nas grandes corridas, naquele que é considerado um dos passos que o organismo deve dar, pois o caso de Sagan está a ser visto como um exemplo que é preciso evoluir também neste tipo de avaliações e decisões.

Regressando à temporada da Bora-Hansgrohe, Maciej Bodnar foi ainda vencer o contra-relógio no Tour, mas a equipa acabaria o ano a vangloriar-se pela confirmação de um sprinter. O irlandês Sam Bennett está inevitavelmente na sombra de Sagan - poucos são os que não estão -, mas soube aproveitar as oportunidades que lhe foram dadas. O eslovaco soma 11 vitórias, mais o título mundial em Bergen. Bennett venceu por dez vezes, com o primeiro triunfo a ser de destaque, pois aconteceu no Paris-Nice. Cinco das vitórias aconteceram na Volta à Turquia, onde foi completamente dominador nos sprints. Perante o rendimento, em 2018 poderemos ver mais deste irlandês de 27 anos e perceber como será no frente-a-frente regular com os grandes nomes do sprint... Se Sagan deixar!

Quanto a José Mendes, o português manteve a regularidade habitual, sendo sempre um ciclista de confiança. No Giro teve espaço para se mostrar, pois a Bora-Hansgrohe perdeu König pouco antes da corrida por lesão e não tinha um líder assumido. O então campeão nacional (quarto na corrida de Gondomar, no seu melhor resultado do ano) foi 48º a mais de duas horas do vencedor, Tom Dumoulin. Ainda assim, objectivo cumprido, pois era o sonho de José Mendes estar em Itália e pode agora dizer que fez as três grandes voltas. E terminou-as sempre. Infelizmente a passagem pelo World Tour acabou por ser curta para o ciclista português, que irá agora representar a Burgos-BH, formação que irá subir a Profissional Continental.

A Bora-Hansgrohe está claramente a querer tornar-se numa das equipas mais fortes do pelotão e aposta em nomes como Peter Kennaugh (Sky), Davide Formolo (Cannondale-Drapac) e Daniel Oss (BMC) para a próxima temporada. Ter ciclistas de elevado nível em redor dos líderes e que também sejam opção para lutar por vitórias é um claro objectivo. A Bora-Hansgrohe será uma equipa a seguir com atenção em 2018 e não só por ter Peter Sagan, pois se aprender com os erros que cometeu e os seus ciclistas não serem perseguidos por quedas e outros azares poderá alcançar mais do que as 33 vitórias deste ano ou, pelo menos, ter algumas ainda mais relevantes.

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29 de julho de 2017

As renovações mais do que merecidas

Ainda antes da abertura do mercado de transferências três dos ciclistas portugueses no World Tour viram a sua situação contratual resolvida, dando-lhes assim tranquilidade para o que resta da temporada. Foi precisamente essa a palavra utilizada por José Gonçalves quando chegou a acordo com a Katusha-Alpecin, sendo expectável que Tiago Machado e agora Nelson Oliveira sintam o mesmo. A Movistar anunciou esta sexta-feira a renovação de contrato, depois de um ano menos feliz para ciclista de Anadia. Tem apenas 28 anos, mas já está há sete no principal escalão e a equipa espanhola sabe que tem um excelente valor que ainda pode render muito, principalmente no contra-relógio e na ajuda preciosa aos líderes da equipa.

"Oliveira teve um rendimento notável, tanto na sua faceta de especialista de contra-relógio individual - campeão nacional, sétimo nos Jogos Olímpicos no Rio, quarto no último Europeu -, como no trabalho de equipa." As palavras escritas no site da Movistar não são apenas de circunstância. 2017 ficou marcado pela queda no Paris-Roubaix que o tirou da competição durante dois meses e muito provavelmente lhe custou a Volta a França. Porém, Nelson Oliveira tem demonstrado ao longo dos dois anos em que está na Movistar como é um homem importante na estrutura. No Tour do ano passado cumpriu os objectivos que lhe foram delineados, ainda que os resultados da equipa acabassem por não serem os desejados. Mas não foi por culpa de Nelson Oliveira. Este ano espera-se que esteja de regresso à Vuelta, está nos pré-convocados, e sem Quintana e Valverde, a ver vamos o que será pedido do ciclista português.

Em Junho teve um incidente nos Nacionais, quando não partiu para o contra-relógio por desconhecimento da mudança da hora de partida. Ou seja, Nelson Oliveira bem está a precisar de uma injecção de moral para a restante temporada e a renovação de contrato pode muito bem ser o impulso que o português precisava para aparecer mais motivado. A tranquilidade só joga a favor de quem sabe que irá continuar ao mais alto nível em 2018.

No próximo ano, Portugal terá também no World Tour Nuno Bico (Movistar), Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) e Rui Costa (UAE Team Emirates), todos com contrato até 2018. Já as grandes dúvidas chamam-se André Cardoso e José Mendes. No primeiro caso, ainda se espera por saber o resultado da contra-análise, depois de dias antes do Tour André Cardoso ter sido notificado que tinha acusado EPO. Já José Mendes alimenta o desejo de se manter na Bora-Hansgrohe, estrutura que tem sido a sua casa há cinco anos. Recentemente, o ciclista afirmou ao Volta ao Ciclismo que a renovação é um assunto que não consegue deixar de pensar.

Com a subida ao World Tour e com a expectativa de crescimento da equipa, para José Mendes seria excelente se continuasse a ter espaço na equipa alemã. Ninguém questiona a sua lealdade para com os líderes e como cumpre à risca o que lhe é pedido. Foi ao Giro e mantém-se a expectativa para ir à Vuelta. Se não houver novidades até lá, é muito possível que José Mendes jogue a sua permanência na equipa em Espanha, numa missão que não se adivinha nada fácil, mas o português nunca foi de virar a cara a um desafio.

Alguém se junta ao grupo português no World Tour?

O contingente luso no principal escalão do ciclismo tem vindo a crescer nos últimos anos. Em 2017 perdeu-se Sérgio Paulinho (regressou a Portugal para a Efapel), mas entraram José Gonçalves, José Mendes e os jovens Nuno Bico e Ruben Guerreiro. Quem se segue?

Potencial há, mas daí a conseguir um contrato com uma das equipas do World Tour vai uma grande distância. Nuno Bico, por exemplo, foi uma das surpresas de final do ano quando anunciou que iria para a Movistar, provando como há certas negociações que ficam em segredo e demoram a ser concluídas. Não é possível prever com exactidão, mas também não restam dúvidas que actualmente quatro nomes geram alguma curiosidade e interesse. Os gémeos Oliveira encabeçam esta curta lista. Com o talento que lhes é cada vez mais reconhecido e com a ajuda de Axel Merckx numa Axeon Hagens Berman que tantos jovens tem levado para o World Tour, tanto Rui como Ivo podem ter um futuro muito (mas mesmo muito) risonho. Porém, não deverá acontecer já em 2018. Estando na equipa que é considerada a melhor de formação, o mais provável é ficarem por lá pelo menos mais um ano, enquanto vão despertando ainda mais o interesse de grandes equipas. Assim também podem aprimorar a passagem que estão a fazer da pista para a estrada, ainda que sem esquecer a vertente que os levou à ribalta. Ruben Guerreiro fez esse percurso e agora está na Trek-Segafredo.

Em Portugal há um ciclista que entrou definitivamente na retina dos olheiros. Amaro Antunes teve um início de temporada fenomenal. Mostrou-se em Espanha e até frente a Nairo Quintana. Venceu no alto do Malhão, numa Volta ao Algarve que agora pertence à segunda categoria mundial. Na W52-FC Porto conseguiu projectar internacionalmente uma qualidade que há muito lhe era reconhecida em Portugal. Aos 26 anos parece estar no ponto para "dar o salto", sendo certo que ainda tem margem para progredir. Quem bem que o algarvio ficaria ao lado de qualquer grande líder do ciclismo mundial.

Em Espanha está Rafael Reis. Tem tido uma carreira marcada por altos e baixos e este ano começou bem, mas uma queda estragou-lhe algumas semanas na Caja Rural. Apareceu bem nos Nacionais, ainda que tenha perdido o contra-relógio para Domingos Gonçalves. Contudo, tem dado indicações que está novamente a subir de forma, provavelmente a pensar em cumprir um dos seus objectivos de temporada: ser chamado para a Vuelta. Se conseguir um lugar no nove da Caja Rural, será a montra perfeita para se mostrar. No entanto, não seria surpresa se fizesse mais um ano na formação espanhola (Profissional Continental), que serviu recentemente de rampa de lançamento para José Gonçalves e também para André Cardoso. A qualidade e o talento estão lá, mas falta um "clique" para que Rafael Reis demonstre como pode estar a um nível muito mais elevado. Lá está, pode ser que esse "clique" aconteça na Vuelta.



25 de julho de 2017

Misto de juventude e experiência para atacar os Europeus

Rafael Reis e Ruben Guerreiro, amigos que vão lutar pelo título europeu
Será o segundo ano em que os profissionais poderão competir nos Europeus, com Herning, na Dinamarca, a ser o palco da corridas entre 2 e 6 de Agosto. Há um ano Peter Sagan coleccionou mais uma camisola, que acabou por nunca ser vista na estrada, pois era campeão do mundo quando ganhou e renovou o título em Outubro. Jonathan Castroviejo venceu no contra-relógio e essa camisola até a vimos na Volta ao Algarve. Quem serão os próximos campeões europeus? Portugal aposta num misto de juventude e experiência para enfrentar as habituais potências do ciclismo: Ruben Guerreiro, Rafael Reis, José Mendes e Tiago Machado.

Este ano serão apenas quatro os que formarão a equipa na competição de elite, como José Mendes (Bora-Hansgrohe) e Tiago Machado (Katusha-Alpecin) a repetirem a chamada, ainda que o primeiro tenha acabo por não competir devido a problemas físicos. Em 2016, a táctica assumida foi de apoio a Rui Costa, que terminou na sexta posição. Este ano e dado ser uma equipa mais curta, as características dos ciclistas beneficiam a procura de uma fuga ou de ataques nos quilómetros finais, por exemplo. Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) sagrou-se recentemente campeão nacional de fundo, enquanto Rafael Reis (Caja Rural) foi vice-campeão de contra-relógio, perdendo para Domingos Gonçalves, que no dia 4 começa a Volta a Portugal com a Rádio Popular-Boavista.

Sem surpresa, Rafael Reis irá estar tanto no esforço individual como na prova de fundo, tal como Tiago Machado. Rafael Reis é um especialista nesta vertente e na Volta a Portugal de 2016 venceu o prólogo e vestiu a camisola amarela. O percurso do contra-relógio é essencialmente plano (46 quilómetros), tal como o escolhido para a prova de fundo (241,2). Será percorrido em circuito para assim potenciar a visibilidade de quem quiser assistir in loco à corrida.

Bikey, a mascote dos Europeus
Perante estas características e o número reduzido de ciclistas da equipa portuguesa, percebe-se ainda melhor a escolha de José Poeira. Tiago Machado (31 anos) é exímio neste tipo de ataques. Na Katusha-Alpecin as suas funções mudaram, sendo agora um excelente gregário, mas as qualidades do homem de ataque que é não se perderam. Certamente que o ciclista estará desejoso de as mostrar, depois de um Tour muito positivo, ainda que no trabalho para Alexander Kristoff. José Mendes (32) gosta mais de percursos com algumas inclinações, ainda assim a sua experiência poderá ser importante, pois também sabe integrar bem potenciais fugas.

Rafael Reis (25) e Ruben Guerreiro (23) são ciclistas que se adaptam facilmente a este tipo de corridas. Ambos começaram bem a temporada nas novas equipas, mas o primeiro fracturou o pulso e o segundo teve um problema dentário. As paragens forçadas quebraram a subida de forma dos dois, contudo, estão novamente a atingir bons picos de intensidade física.

O percurso dos Europeus não assentaria a Rui Costa, por exemplo, mas Nelson Oliveira falhará a presença no contra-relógio porque nesse dia (3) estará na Volta à Polónia com a Movistar, a preparar a Volta a Espanha, corrida para a qual espera ser convocado. Em 2016, Nelson Oliveira falhou o pódio por 17 segundos.

A comitiva portuguesa não se fica por estes quatro ciclistas. Serão 16 ao todo que irão competir também nos sub-23, juniores e no sector feminino.

Sub-23: André Carvalho (Cipollini Iseo Serrature Rime), César Martingil (Liberty Seguros/Carglass), Francisco Campos (Miranda/Mortágua), Gaspar Gonçalves (LIberty Seguros/Carglass) e João Almeida (Unieuro Trevigiani-Hemus 1896). Só Gaspar Gonçalves participará também no contra-relógio.

Juniores: João Dinis (RP-Boavista), Pedro Miguel Lopes (Seissa/KTM Bikeseven/Matias & Araújo/Frulact) Pedro José Lopes (Alcobaça CC/Crédito Agrícola) e Pedro Teixeira (Maia). Os últimos dois estão inscritos para a corrida de fundo e contra-relógio.

Gabriel Mendes é o responsável no sector feminino, que só irá competir nas provas de fundo. As eleitas são a elite Daniela Reis (Lares-Waowdeals), a sub-23 Soraia Silva (Bairrada) e a júnior Maria Martins (Bairrada),que na semana passada foi vice-campeã da Europa do seu escalão na prova de eliminação dos Europeus de pista que se realizariam em Anadia.

Em baixo fica o calendário das corridas em que irão participar os ciclistas portugueses (fuso horário de Portugal Continental):
  • 2 de Agosto, 11:45 Contra-relógio Juniores Masculinos, 31,5 km 
  • 3 de Agosto, 11:15 Contra-relógio Sub-23 Masculinos, 31,5 km 
  • 3 de Agosto, 14:00 Contra-relógio Elite Masculina, 46 km 
  • 4 de Agosto, 8:00 Prova de Fundo Juniores Femininas, 60,3 km 
  • 4 de Agosto, 11:00 Prova de Fundo Sub-23 Femininas, 100,5 km 
  • 4 de Agosto, 15:00 Prova de Fundo Juniores Masculinos, 120,6 km 
  • 5 de Agosto, 8:00 Prova de Fundo Sub-23 Masculinos, 160,8 km 
  • 5 de Agosto, 13:00 Prova de Fundo Elite Feminina, 120,6 km 
  • 6 de Agosto, 10:00 Prova de Fundo Elite Masculina, 241,2 km


24 de junho de 2017

"O Giro faz-me lembrar muito a Volta a Portugal"

A confiança não é muita, mas a motivação está lá. José Mendes prepara-se para defender o título nacional. Durante um ano vestiu orgulhosamente a camisola e naturalmente que deseja mantê-la. Porém, confessa que não sabe como estará a sua forma e a sua exibição no contra-relógio desapontou-o (foi quarto a 28 segundos de Domingos Gonçalves). Ainda assim, por aquela camisola José Mendes vai dar tudo o que tem e mais um pouco: "O melhor deste último ano foi envergar esta camisola. Todos os lugares onde ia era reconhecido. Já sentia esse carinho dos portugueses nas provas internacionais antes de ser campeão, mas com esta camisola o apoio foi mais efusivo, pois reconheciam-me ao longe."

Em 2017 José Mendes cumpriu já dois sonhos: representou uma equipa do World Tour e foi à Volta a Itália. No entanto, confessa: "Estava à espera de mais." O ciclista refere-se aos resultados e falou também de como apesar de conhecer a estrutura onde está há cinco temporadas, a subida de escalão trouxe algumas alterações. "A equipa sofreu uma alteração muito grande. Não é uma formação completamente nova, mas mudou muita coisa e de certa forma houve uma necessidade de adaptação ao novo método de trabalho. Mudei de preparador, de bicicleta e outras coisas... Tudo junto, penso que o início de época não foi o melhor que poderia ter", desabafou José Mendes ao Volta ao Ciclismo.

O sonho do Giro existia para assim ter na carreira as três grandes voltas. "Quando disse isso nem imaginava que ia mesmo lá estar." O plano inicial da Bora-Hansgrohe era que José Mendes se preparasse para a Volta a Espanha. Lesões de última hora forçaram uma alteração da planificação e o campeão português foi a Itália. "Gostei imenso de fazer o Giro. Talvez das três grandes voltas tenha sido a que mais gostei. É diferente... O espírito italiano, o ambiente... Não sei explicar..."

O ciclista salientou que o facto de ter apanhado sempre bom tempo, algo raro no Giro, provavelmente ajudou a ter esta opinião. "Colegas que fizeram o Giro falam horrores daquilo. Eu tive sorte, apanhei tempo de Verão. Se calhar se voltar um dia e apanhar mau tempo já digo mal", brincou José Mendes. Nos elogios à competição italiana, o corredor vai mais longe: "Faz-me lembrar muito a Volta a Portugal. Das provas que fiz é das que tem mais carisma. Em certos momentos parecia que estava na nossa Volta."

Depois dos Nacionais chegará o momento de recuperar de uma intensa primeira fase da época, a pensar numa possível chamada para a Vuelta. E nada melhor do que partir para a segunda metade do ano como campeão nacional. "Gostava muito de conseguir revalidar o título, mas sei que não é fácil. É uma corrida muita aberta e no ano passado cheguei num momento de forma diferente", recordou. José Mendes não esconde alguma falta de confiança para a prova deste domingo e o resultado no contra-relógio não foi a melhor motivação, como o próprio admitiu. "Se no domingo não der para fazer melhor que no contra-relógio... então haverá outros anos!"

José Mendes realçou o facto de não ter companheiros a ajudá-lo, ao contrário do que irá acontecer com os ciclistas que estão nas equipas nacionais. Fazer uma união de ocasião com outro corredor na mesma condição é uma hipótese, ou então, irá ficar na expectativa a ver o que os blocos das formações lusas vão fazer.

Os Nacionais de estrada de elite realizam-se em Gondomar, com partida (11:30) e chegada na Avenida Mário Soares. Serão 177 quilómetros percorridos em circuito.

A incerteza do futuro

José Mendes vive a eterna indefinição da maioria dos ciclistas. Está em final de contrato e ainda desconhece o seu futuro. E por esta altura do ano já não consegue ter a tranquilidade que teria se tivesse mais tempo de contrato: "Eu tento não me sentir pressionado, mas, no fundo, se tivesse contrato para o próximo ano talvez estivesse mais descansado." O ciclista referiu que o seu representante deverá abordar os responsáveis da Bora-Hansgrohe durante a Volta a França.


Contudo, mais do que continuar numa equipa World Tour, é manter-se numa equipa em que se sente em casa que mais deseja. "Já conheço as pessoas, elas conhecem-me e sabem que não arranjo problemas, sou trabalhador. É óbvio que não sou daqueles corredores constantes, tenho altos e baixos. Porém, já mostrei que consigo estar com os melhores e alcançar resultados para a equipa", salientou. Numa última confissão, José Mendes disse que gostaria de feito melhor e conquistado uma vitória com a camisola nacional: "Se no domingo consigo revalidar o título tenho mais um ano para tentar!"

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