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16 de setembro de 2018

As equipas uma a uma na Vuelta de Yates e da Mitchelton-Scott

Primeira vitória numa grande volta da Mitchelton-Scott
que se vestiu a rigor (Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Chegou ao fim a última grande volta do ano. Para não variar, a Vuelta foi rica em emoção e espectáculo, principalmente na derradeira semana. Contudo, durante as três houve reviravoltas, surpresas, o inesperado fez parte da sua génese e é por isso que continua a ser aquela que acaba por ganhar no apreço dos adeptos. Simon Yates fez história ao ganhar a sua primeira corrida de três semanas, fechando um ciclo brilhante da Grã-Bretanha, pois nunca tinha acontecido um país ganhar as três grandes no mesmo ano com três ciclistas diferentes. Como sempre, houve vencedores e derrotados. Houve quem cumprisse as expectativas, quem superasse, quem tem muito mudar. Três dos quatro portugueses chegaram ao fim e Madrid voltou a ser palco de uma despedida de um ciclista espanhol. Aqui fica uma análise equipa a equipa, com a ordem a ser definida pela classificação colectiva.

Movistar: Ganhou novamente por equipas, mas perdeu individualmente. Não deixa de ser irónico que estando em primeiro seja a maior derrotada da Vuelta. Assumiu que a corrida era para ganhar, depois de em 2017 não ter levado nenhum dos seus líderes e ter passado ao lado da prova caseira, algo estranho tendo em conta o patrocinador. Falhou no Tour e quis levar o tridente a Espanha, mas Mikel Landa lesionou-se. Ainda assim, era a equipa mais forte da Vuelta. Apostar novamente em mais do que um ciclista para a liderança correu mal. Nairo Quintana é uma sombra de si mesmo e Alejandro Valverde acabou por fraquejar nas duas etapas de montanha decisivas. Sonhou com a vitória e nem o pódio conseguiu segurar. A Movistar ganhou duas etapas e a classificação dos pontos por intermédio de Valverde e venceu colectivamente, o que para qualquer outra equipa (menos a Sky) seria excelente, mas para a formação espanhola é muito pouco. Há toda uma estratégia a repensar para 2019. Assim, com tantos galos para um poleiro, esta equipa não funciona. Uma palavra por Nelson Oliveira (71º, a 2:30:07). O ciclista português esteve bem. É um corredor com quem se pode contar estar sempre ao nível que os seus líderes precisam. Não foi por ele que a Movistar falhou. Nos contra-relógios foi quarto e sétimo, o que deixa as expectativas altas para os Mundiais.

Bahrain-Merida: Vincenzo Nibali confirmou desde cedo que não conseguiria lutar pela geral, depois da grave queda no Tour. No entanto, não foi à Vuelta apenas para ganhar ritmo ficando perdido no pelotão. Com o passar dos dias, o italiano começou a aparecer na frente do pelotão a trabalhar, foi para as fugas e quis mesmo ganhar uma etapa. Excelente atitude deste ciclista, ao contrário do que aconteceu com Richie Porte (BMC) que esteve em Espanha só a pensar nos Mundiais. A postura de Nibali foi o ponto positivo da Bahrain-Merida que viu Ion Izagirre ficar longe de disputar a geral, apesar da oportunidade para o fazer. O nono lugar a 11:09 é pouco para este ciclista e para a equipa.

Bora-Hansgrohe: Como equipa funcionou bem, mas não conseguiu selar um resultado de nota. Rafal Majka não veio à Vuelta para a vencer, mas foi activo na procura por uma etapa, deixando para Emanuel Buchmann a responsabilidade da geral. Com 25 anos, o alemão demonstrou que pode vir a ser uma aposta, mas terá de ser mais regular. Foi perdendo fôlego com o aproximar do fim e falhou o top dez, onde esteve bastante tempo. E depois há Peter Sagan. O que dizer de um ciclista que faz quatro segundos lugares e dois terceiros? Às vezes simplesmente não dá e a desejada última vitória com a camisola do arco-íris não foi alcançada. Aquela queda no Tour, ainda não o deixou recuperar por completo a forma e talvez já nem seja preciso fazê-lo este ano, já que os Mundiais não são para ele. Foi uma Vuelta dos "quase" para a equipa. Merecia um pouco mais.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Astana: Atacante, agressiva, sempre a acreditar que só se tentar é que se poderá alcançar o sucesso. É esta a mentalidade e, por isso, Miguel Ángel López encaixa na perfeição nesta estrutura. Dois terceiros lugares este ano em grandes voltas, ainda que Alexander Vinokourov não esconda que faltou a etapa na Vuelta. Mas foi uma boa corrida da equipa cazaque e do seu líder, que tem de melhorar no contra-relógio se quiser de facto ganhar uma grande volta. O director pode ter ficado furioso por Fabio Aru ter deixado a equipa no final de 2017 e não ter um substituto para o italiano. O que fica de 2018, do Giro e da Vuelta, é que a Astana tem o seu novo líder. Contratou os irmãos Izagirre para a próxima temporada, mas o futuro é López. Está aí um grande ciclista, de quem muito se espera. Estes pódios são só o início.

EF Education First-Drapac p/b Cannondale: Esperava-se um pouco mais de Rigoberto Urán, um dos muitos que chegou a Espanha depois do Tour ter corrido mal (abandonou após a etapa de Roubaix, devido a uma queda). Foi sétimo, a 6:07 minutos, o que é sempre positivo, mas o que a equipa americana mais agradece são as vitórias de Simon Clarke e Michael Woods. São agora seis os triunfos em 2018. Muito pouco, mas duas vitórias numa grande volta têm sempre peso e a formação bem precisava delas. Por isso, sai de Espanha com razões para celebrar, ainda que não muito dado o ano muito aquém do desejado.


(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Mitchelton-Scott: Venceu a Vuelta, foi inteligente na forma como controlou a corrida e como forçou a Movistar a desgastar-se em controlar algumas etapas. Não foi só Simon Yates que aprendeu a lição do Giro, foi toda a equipa. Jack Haig é um gregário que está entre os melhores da actualidade e pela primeira vez, a dupla Yates funcionou numa grande volta, com Adam a estar desaparecido durante duas semanas, para aparecer na terceira em grande forma. Foi um longo caminho de uma equipa que ao ser criada começou por apostar em clássicas e sprints, mas que pegou nuns jovens gémeos e formou-os, indo aos poucos construindo uma estrutura para as grandes voltas. Aí está a primeira vitória, que o director Matt White considerou ser um alívio. A Mitchelton-Scott vai continuar a sua transformação para as três semanas, ainda mais agora que tem de facto um ciclista capaz de ganhar um corrida destas, Simon, e outro, Adam, que pode seguir o mesmo caminho. A fasquia fica agora mais alta.

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Dimension Data: Que alívio foi para a equipa sul-africana esta Vuelta. Duas etapas ganhas por Ben King ajudaram a dar algum alento a uma formação com apenas sete vitórias. E há mais de um ano que não ganhava no World Tour. King salvou a Dimension Data de mais uma grande volta para esquecer, pois Louis Meintjes falhou novamente, tal como no Giro. Este regresso às origens não correu bem para o sul-africano. No final, um momento emotivo. No sábado ao finício da noite, Igor Antón anunciou que iria terminar a carreira quando cortasse a meta em Madrid. O espanhol, de 35 anos, venceu quatro etapas na Vuelta e uma no Giro, no total de 14 vitórias como profissional (a última foi em 2015, na Volta às Astúrias). Tal como Alberto Contador há um ano, Antón teve direito a uma ovação pelas ruas da capital, no adeus a um ciclista que foi um dos principais da Euskaltel-Euskadi, passou depois pela Movistar, antes de assinar pela Dimension Data.

AG2R: As equipas francesas estiveram em grande em Espanha. A AG2R não conseguiu liderar a Vuelta como a Groupama-FDJ e a Cofidis, mas alcançou duas vitórias de etapa por intermédio de Tony Gallopin e Alexandre Geniez. No entanto, ver Gallopin cair para fora do top dez (11º) na última etapa de montanha não deixou de ser uma desilusão para a equipa e principalmente para o ciclista, que está a tentar fazer a passagem para ser um voltista que lute por lugares cimeiros da geral. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a AG2R.

Sky: Vuelta falhada para a equipa que venceu quatro grandes voltas consecutivas. David de la Cruz teve a sua oportunidade, mas desde cedo mostrou que não estava à altura de lutar por uma vitória na geral. O espanhol poderá não ter outra tão cedo. Fez o Giro, mas foi dos poucos que apontou o seu pico de forma para a Vuelta e nem a vitória de etapa conseguiu. Michal Kwiatkowski andou de vermelho e até se pensou que poderia ser ele quem tentaria fazer o pleno para a Sky em 2017, depois de Chris Froome ver o Giro e Geraint Thomas o Tour. Mas a época vai longa e desgastante para o polaco, pelo que não foi uma surpresa quando quebrou. Porém, este ciclista sim, irá ter uma nova oportunidade para liderar a equipa numa grande volta. De Sérgio Henao também se esperava mais. Dos dois jovens, Tao Geoghegan Hart esteve bem, dentro do possível, já Pavel Sivakov não foi feliz e abandonou. Mas o objectivo de dar experiência a ambos foi alcançado. Era o que se pretendia. Soube a pouco esta Sky, que nem uma vitória de etapa, nem um top dez conseguiu. Coisa rara.

Euskadi-Murias: Gerou alguma desconfiança, pois estava longe de ter o melhor dos plantéis, tal como a Burgos-BH, mas a equipa basca foi, depois da Cofidis, a melhor entre as do segundo escalão. Pedia-se que se mostrasse, que lutasse, que estivesse em fugas, que fosse activa. Assim foi. Os seus corredores mostraram agressividade e não estavam a passar despercebidos até que Óscar Rodríguez conseguiu o impensável. Conquistou La Camperona, uma das subidas mais difíceis. A equipa teve uma cobertura mediática imensa devido à vitória e o País Basco volta a sonhar com uma estrutura de referência, com a Euskaltel-Euskadi ainda na memória de todos. Com uma etapa ganha, a Vuelta estava mais do que feita para uma equipa como esta, mas a Euskadi-Murias nunca baixou os braços até ao fim. Boa atitude de quem vai continuar neste escalão e já começa a pensar mais alto.

Lotto-Jumbo: Steven Kruikswijk poderia ter ficado numa situação delicada na equipa. Com Primoz Roglic a afirmar-se e com George Bennett a ameaçar fazer o mesmo, o holandês bem precisava de uma boa temporada. Quinto no Tour e quarto na Vuelta. Excelente. Porém, sai de Espanha desiludido, pois sente que deixou escapar o pódio, outra vez, tal como em 2016 no Giro, onde até esteve perto de ganhar. Faltou-lhe consistência na montanha, já que no contra-relógio esteve muito bem. Mas é um bom resultado para o holandês. Já Bennett desiludiu e se no Giro esteve menos mal, na Vuelta esperava bem mais. A equipa, no seu todo, deu mais uma demonstração como está a tornar-se numa de respeito, com destaque para um Sep Kuss, que aos 24 anos deixou uma excelente imagem de como trabalhar para o líder, na sua estreia numa grande volta.

Groupama-FDJ: Com tantos ciclistas a tentarem redimir-se na Vuelta de uma temporada menos conseguida, por terem ficado aquém no Giro ou no Tour, Thibaut Pinot foi dos que alcançou essa redenção. Duas vitórias de etapa - e entrou assim para a lista dos que venceram nas três grandes voltas - e depois de ter perdido tempo ao ficar cortado num abanico, acabou por conseguir reentrar no top dez e até foi subindo, com o sexto lugar a 5:57, a ser mais do que a certa altura pensou-se ser possível. Mas antes de Pinot ser a estrela, foi Rudy Molard o grande destaque. Quatro dias de camisola vermelha, alcançando algo que não tem sido comum nesta equipa: a liderança numa prova de três semanas. Vuelta para recordar de uma estrutura que para o ano irá apostar novamente tudo (ou quase) no Tour. Em casa, portanto.

Sunweb: A equipa foi cuidadosa com as expectativas criadas em redor de Wilco Kelderman. Há um ano esteve na luta pelo pódio, mas desta feita, uma queda pouco antes do Tour, tirou-o dessa corrida e o holandês não conseguiu recuperar até a uma forma ideal para repetir ou fazer melhor em Espanha. Ainda assim, num último fôlego nas derradeiras montanhas, Kelderman conseguiu fechar o top dez, a 11:11 de Yates. Perante a equipa presente e com o seu líder a não estar a 100%, não se poderia pedir muito mais a uma Sunweb que jogou forte no Giro e Tour e ainda não tem estrutura para estar em grande nas três grandes voltas. Mas para lá caminha.

Caja Rural: Apostou nas fugas, Lluís Mas foi um ciclista muito activo, mas a Caja Rural já teve Vueltas bem mais conseguidas. Os seus corredores costumam ser mais agressivos na procura por vitórias, que podem não conseguir, mas são normalmente mais ameaçadores. Esperava-se um pouco mais, pelo menos sendo um pouco mais competitiva. Foi uma pena Joaquim Silva ter ficado de fora das escolhas, depois de na Volta a Portugal ter sofrido com o calor, abandonando logo na primeira etapa em linha. Rafael Reis não foi escolhido para repetir a presença de 2017. Com mais duas equipas espanholas agora como Profissionais Continentais, a Caja Rural já tem termos de comparação e perdeu claramente para a Euskadi-Murias.


BMC: Foi um adeus positivo deste patrocinador às grandes voltas no que diz respeito às vitórias de etapas. Rohan Dennis venceu os dois contra-relógios - cuidado com o australiano para os Mundiais - e vestiu a camisola vermelha por um dia. Alessandro de Marchi conquistou também ele uma etapa. Porém, fica uma desilusão: Richie Porte. O ciclista bem avisou que não estava em condições físicas de lutar pela Vuelta depois da queda no Tour e não ajudou ter começado a corrida a recuperar de uma gastroenterite. Ainda assim, Porte poderia ter tentado um pouco mais do que uma fuga numa etapa plana! Ainda se viu uma ou outra vez, mas nada de nota. A equipa virou-se para Nicholas Roche, mas este é um ciclista que se vê o seu melhor quando faz de gregário e é por isso que irá apoiar Tom Dumoulin na Sunweb em 2019. Quanto a Richie Porte, pensar apenas nos Mundiais ficou-lhe mal, tendo em conta que caso vença, nem é pela equipa que agora representa - que terá um novo patrocinador, a CCC - que irá vestir a camisola do arco-íris. Tentar seriamente uma etapa ter-lhe-ia ficado bem, a exemplo do que fez Vincenzo Nibali.

Trek-Segafredo: Valeu Bauke Mollema. Numa altura em que já se vai falando da chegada de Richie Porte em 2019, o holandês pode não ter conseguido estar na luta pela geral, mas talvez tenha encontrado a melhor função para o futuro próximo, se não quiser ficar como gregário. Foi um dos melhores animadores desta Vuelta e por isso ganhou a distinção de mais combativo (bateu os espanhóis, o que não foi fácil, tendo em conta as votações durante as etapas). Foi duas vezes segundo em tiradas e foi segundo na classificação da montanha. Não ganhou, mas foi muito bom vê-lo ao ataque, à procura de um resultado. Porém, no geral, ficou novamente bem claro que esta Trek-Segafredo precisa de uma renovação, que já está a ser preparada para o próximo ano.

Quick-Step Floors: Quatro vitórias de etapas, três por Elia Viviani e uma por Enric Mas, segundo lugar na geral com o jovem ciclista espanhol. Mais uma excelente grande volta para a equipa belga, que não só saiu com os triunfos que sempre aposta, como teve o enorme bónus de ver Mas afirmar-se a este nível e logo com um pódio. Cinco triunfos no Giro, mais quatro no Tour, são 67 no total, com uma ajuda de Julian Alaphilippe que venceu a Volta à Grã-Bretanha e hoje à Eslováquia, enquanto decorreu a Vuelta. Que temporada impressionante!

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Lotto Soudal: Cumpriu quase todas as expectativas. Ganhou uma etapa por Jelle Wallays, teve Thomas de Gendt como um dos animadores da Vuelta, tornando-se no primeiro belga a vencer a classificação da montanha na grande volta espanhola. Só Tiesj Benoot acabou por ser uma pequena desilusão. O belga não escondeu que não estava completamente recuperado da queda no Tour, mas queria pelo menos lutar por uma etapa. Quase que deu para esquecer que estava na corrida. Ainda assim, foi uma Vuelta positiva para a Lotto Soudal.

UAE Team Emirates: Fabio Aru falhou outra vez. Um ano para esquecer do italiano no primeiro em que representa esta equipa. Esteve mal no Giro, não esteve muito melhor na Vuelta, que pelo menos acabou. A frustração foi tal que ao sofrer uma queda devido a um problema na corrente, teve uma reacção tão agressiva que, mais tarde, acabou a pedir desculpa. Aru foi 23º, a 1:03:07 horas. Daniel Martin abandonou após o primeiro dia de descanso para juntar-se à mulher que estava em final de gravidez e fez falta a uma equipa que teve Sven Erik Bystrom a ficar perto de um triunfo que teria ajudado a amenizar mais uma desilusão com o líder Aru. Rui Costa ficou de fora das opções, o que não deixou de se estranho ao saber-se que Martin afinal poderia ir embora a qualquer momento.

Cofidis: A época foi conturbada com a relação fria entre Nacer Bouhanni e o novo director, Cédric Vasseur. O sprinter ficou de fora do Tour, mas na Vuelta picou o ponto com uma vitória de etapa, quebrando um jejum de quatro anos em corridas de três semanas. Luis Ángel Maté andou com a camisola da montanha boa parte da corrida - da segunda à 16ª etapa -, mas a alta montanha não é para ele e acabou por perder a classificação para Thomas de Gendt. Jesús Herrada foi líder durante dois dias, no ponto alto da Cofidis em Espanha. Excelente corrida da equipa que tinha desiludido no Tour, mas que na Vuelta foi uma das formações em destaque.

Katusha-Alpecin: Ilnur Zakarin deve sentir que é perseguido por azares. Mais uma vez, uma queda arruinou a corrida do russo, que acabou por tentar lutar por etapas, mas, apesar de entrar em fugas, nunca esteve perto de conseguir uma vitória. Mais uma grande volta que ficou muito aquém do desejado pela equipa liderada por José Azevedo. A figura foi mesmo Tiago Machado (79º, a 2:48:38 horas). Com Zakarin fora da disputa pela geral, o português recebeu luz verde para procurar um triunfo. Bem tentou ao entrar em fugas e merecia ter recebido pelo menos um prémio de mais combativo, mas a votação foi quase sempre a favor dos espanhóis. Boa corrida de Machado, numa altura em que ainda não se conhece o futuro do ciclista português. José Gonçalves abandonou na 13ª etapa, ele que esteve longe da forma do Giro, onde foi também a figura da equipa.

Burgos-BH: Apostou nas fugas e na experiência de José Mendes e Jetse Bol, contratado em Agosto à Manzana Postobón para reforçar a Burgos-BH a pensar na Vuelta. O português esteve mais activo do que o holandês, mas em geral a equipa mostrou que precisa de crescer para ambicionar ser algo mais do que uma camisola a mostrar, mas que desaparece quando as decisões das etapas se aproximam. Mendes teve uma temporada complicada, devido a uma queda na Clássica da Arrábida que o deixou fora de competição durante algum tempo. A época acabou por se centrar muito na Vuelta, mas também não foi feliz, com alguns azares pelo caminho, mas foi o melhor da equipa na geral: 83º, a 2:57:10 horas de Simon Yates. A queda grave de Jordi Simón, continua internado no hospital, acabou por marcar a corrida de uma das equipas espanholas que este ano subiu a Profissional Continental.

»»A vitória da nova geração««

»»Um senhor ciclista que tomou as rédeas do seu destino««

22 de agosto de 2018

Rui Costa sem grandes voltas. Vuelta com quatro portugueses

(Fotografia: © BettiniPhoto/UAE Team Emirates)
Desde que chegou ao World Tour em 2009 que Rui Costa participou sempre pelo menos numa grande volta por época. O Tour tornou-se na sua corrida de eleição de três semanas e só no ano passado se estreou no Giro e Vuelta. Esta época, o objectivo passava por estar de novo em França, mas a temporada tem sido muito complicada para o ciclista português, que está em final de contrato com a UAE Team Emirates. Uma lesão afastou-o do Tour e se a Vuelta seria uma possibilidade, a equipa "empurrou" Rui Costa para as clássicas, deixando-o de fora de uma grande volta pela primeira vez desde que está ao mais alto nível.

"A equipa decidiu que farei as clássicas. Tão boas memórias me trazem", limitou-se a referir no Twitter. E de facto esta altura do ano sempre foi uma em que apareceu forte, com especial foco nas clássicas do Canadá. Somou alguns bons resultados, vencendo o Grande Prémio de Montreal em 2011. Ainda assim, não ver Rui Costa na Vuelta não deixa de ser mais uma desilusão numa época muito abaixo do esperado do campeão do mundo de 2013.

Depois do top 10 na Volta a Omã e Abu Dhabi, a queda na segunda etapa no Paris-Nice foi o primeiro sinal que a época não ia ser fácil. As clássicas das Ardenas não correram como desejaria, mas apareceu em grande na Volta à Romandia (quinto lugar na geral). Porém, uma lesão no joelho afastou-o da "sua" Volta à Suíça - venceu três vezes -, mas o Tour estava nos planos. Não recuperou a tempo.

Desde a Romandia que só se viu Rui Costa na Prudential RideLondon-Surrey, Volta à Polónia e nos Europeus, tendo abandonado nesta última corrida. A UAE Team Emirates tem pretensões à geral na Vuelta, com a pressão a recair muito sobre Fabio Aru, depois de um Giro para esquecer. Daniel Martin também estará, mas depois de ter ganho uma tirada no Tour e terminado na oitava posição, não será de afastar que o irlandês vá mais à procura de conquistar etapas e com o pensamento mais na preparação para os Mundiais.

A equipa não leva o mais forte dos blocos, pois além de Rui Costa, também Diego Ulissi e John Darwin Atapuma - que esteve muito abaixo do esperado no Tour -, por exemplo, não entram no oito para a Vuelta. Porém, a UAE Team Emirates procura mais do que nomes de relevo, procura finalmente ter um conjunto que apoie o seu líder, não o deixando só demasiado cedo, um problema que persiste desde os tempos da Lampre-Merida. Fabio Aru e Dan Martin terão a companhia dos italianos Simone Consonni, Valerio Conti, Simone Petilli, Edward Ravasi e dos noruegueses Vegard Stake Laengen e Sven Erik Bystrom.

Quanto a Rui Costa, chegou o momento do tudo por tudo por bons resultados. Os Mundiais de Innsbruck saltam para o topo da lista de prioridades do ciclista português, de 31 anos. Mas antes, precisa-se de algo de nota nas clássicas, que começam já este domingo no GP de Plouay, em França.

Os quatro portugueses na Vuelta

Depois de no Tour não ter havido um representante de Portugal, na Vuelta serão quatro. Nelson Oliveira estará ao lado de Nairo Quintana e Alejandro Valverde na Movistar,  depois da desilusão de ter ficado de fora dos eleitos para o Tour. José Gonçalves será o único português no World Tour a fazer duas grandes voltas este ano. Depois do excelente 14º lugar no Giro, o gémeo de Barcelos estará ao lado de Ilnur Zakarin na Katusha-Alpecin, tal como Tiago Machado. José Mendes vestirá as cores as Burgos-BH. A época também não está a ser fácil para o campeão nacional de 2016, com uma queda logo no início da temporada, na Clássica da Arrábida, a estragar-lhe parte dos objectivos.

Ruben Guerreiro tinha no seu calendário a possibilidade de este ano se estrear numa grande volta, precisamente em Espanha, mas 2018 ficou novamente marcado por alguns azares. Entre problemas de saúde e algumas quedas, o jovem ciclista da Trek-Segafredo vê o seu sonho adiado.

O mesmo acontece com Joaquim Silva. Estava entre os pré-seleccionados para a Vuelta da Caja Rural depois de uma primeira temporada no nível Profissional Continental muito regular. Foi à Volta a Portugal com grandes aspirações, mas logo ao segundo dia abandonou devido ao intenso calor. A outra má notícia chegou depois: não ficou entre as escolhas finais da equipa espanhola, que também deixou de fora Rafael Reis, ciclista que teve um ano muito complicado, reaparecendo no seu melhor nos últimos dois meses, com vitórias de etapa no Troféu Joaquim Agostinho e na Volta a Portugal, tendo ainda liderado ambas as corridas. No entanto, já não foi a tempo de estar sequer entre os pré-seleccionados.

De referir ainda Nuno Bico, outro português que, ao estar na Movistar, seria elegível para a Vuelta. Contudo, ao pertencer a uma equipa tão forte, Bico ainda não é opção para estas corridas, continuando o seu caminho de afirmação.

11 de agosto de 2018

Quatro portugueses à procura de surpreender os sprinters

Tiago Machado e Ricardo Vilela são dois dos seleccionados por José Poeira
Fotografia: Federação Portuguesa de Ciclismo)
Rui Costa, José Gonçalves, Tiago Machado e Ricardo Vilela estão em Glasgow para tentar surpreender uns sprinters favoritos à conquista do título europeu. Inevitavelmente, Peter Sagan lidera a lista de candidatos, ele que foi o primeiro campeão da Europa, quando os campeonatos foram abertos aos profissionais em 2016. Alexander Kristoff é o detentor do título e pretende continuar o bom momento com que terminou o Tour, ao vencer a etapa dos Campos Elísios.

Num percurso que já viu Mark Cavendish sagrar-se campeão nacional em 2013 e no ano seguinte foi Geraint Thomas o vencedor da corrida nos Jogos da Commonwealth, este último resultado demonstra que é possível bater os sprinters. Nenhum destes britânicos estará presente nos Europeus de Glasgow, na Escócia, pelo que Adam Blythe e Ben Swift poderão ser a maior esperança britânica, ou então Ian Stannard, se optar por um ataque.

Mas no topo da lista de candidatos, além de Sagan (Eslováquia) e Kristoff (Noruega) estão os italianos Elia Viviani e Sonny Colbrelli, John Degenkolb (Alemanha) e Christophe Laporte (França). Greg van Avermaet e Jasper Stuyven (Bélgica) vão tentar intrometer-se nesta luta, ainda que Stuyven terá de mexer antes com a corrida, se de facto quiser ter possibilidade de vencer. E depois aparecem ciclistas como Matej Mohoric (Eslovénia), Mads Pedersen (Dinamarca) e Zdenek Stybar (República Checa) que não se podem excluir de estar na luta, também eles com possíveis ataques.

O quarteto português gostaria que o circuito urbano de 14,400 quilómetros (serão 16 voltas, para totalizar os 230) saísse de Glasgow para que as dificuldades pudessem ser mais selectivas. "O circuito é, por assim dizer, demasiado urbano. Para nós seria mais favorável se a corrida saísse da cidade e pudesse passar por zonas de maior inclinação, mas não é isso que temos pela frente e devemos adaptar-nos ao percurso existente. A corrida vai passar por zonas de peões e até pelo interior de um parque. A luta pela colocação vai ser permanente e muito desgastante. Com a chuva que se prevê, há troços muito traiçoeiros", explicou o seleccionador José Poeira, citado pela Federação Portuguesa de Ciclismo.

De recordar que no contra-relógio o belga Victor Campanaerts sagrou-se bicampeão europeu, na quarta-feira. Tiago Machado foi 18º, a 2:34 minutos, e José Gonçalves 22º, a 3:51.

Pode ver aqui a lista completa de inscritos.

A corrida de fundo tem início marcado para as 10:30 (fuso horário é o mesmo de Glasgow).


22 de junho de 2018

"Já digo há algum tempo que o Domingos é o melhor contra-relogista nacional"

Foi uma luta de irmãos. José Gonçalves já não está no pico de forma que o levou ao 14º lugar na Volta a Itália, mas nem por isso andou mais devagar em Belmonte. Tirou o melhor tempo ao colega da Katusha-Alpecin, Tiago Machado. Contudo, a liderança não durou muito tempo, pois apareceu um Domingos Gonçalves, determinado em manter uma camisola que vestiu no último ano. Foram 12 os segundos a separar os gémeos, num pódio que ficou em família.

Há um ano, Domingos tinha ganho um contra-relógio marcado pela não partida de Nelson Oliveira. O tetracampeão nacional não soube da mudança da hora em que deveria começar a sua prova. Domingos ganhou em Santa Maria da Feira e agora em Belmonte comprovou todas as suas qualidades nesta vertente. "Já digo há algum tempo que o Domingos é o melhor contra-relogista nacional. É a confirmação. Só é pena que não tenha estado aqui o Nelson. Teria sido mais contundente e afirmativo para nós", afirmou José Santos, ao Volta ao Ciclismo, que se referiu ao facto do ciclista da Movistar não ter competido na prova desta sexta-feira.

O director da Rádio Popular-Boavista está muito satisfeito por ver o seu ciclista corresponder ao apelo feito para esta temporada, para assumir mais as corridas: "Ele está a responder e os novos da equipa também, como o David Rodrigues e o Óscar Pelegrí. Agora o nosso objectivo é a Volta a Portugal." Rodrigues venceu a última etapa do Grande Prémio Abimota e o espanhol Pelegrí a geral. Domingos tem estado constantemente entre os primeiros e ganhou a Clássica da Primavera, em Março.

Um pódio de irmãos e amigos
Antes de se concentrar na Volta há ainda outro título para disputar no domingo. Domingos Gonçalves esteve perto da dobradinha em Gondomar, mas uma queda tirou-o da luta na prova de fundo. Já revalidou o título de contra-relógio. Será que vai tentar ficar com as duas camisolas de campeão nacional? "Não há anos iguais, mas sim, vai tentar novamente", disse José Santos.

Domingos sentou-se no trono, enquanto ao seu lado estava o irmão que poderá muito bem ter de lhe pagar um jantar! Mas nenhum deles quis entrar no discurso de uma luta de irmãos. "É meu irmão, mas em cima da bicicleta é um rival como os outros. Fora da bicicleta é mais um amigo, como outros que tenho no pelotão", afirmou. Sobre a prova explicou: "Dei o meu máximo, tentando gerir o esforço. Deu-me algum ânimo começar a ver o Rafael Reis na segunda subida do percurso, pois vi que estava a andar bem. Depois comecei a ver o Sérgio Paulinho ao longe. Na parte final, em paralelo, a roda da frente prendeu mais um bocadinho, quebrei aqui, mas os outros também. Consegui completar o meu objectivo: vencer o nacional."

José Santos está satisfeito com os resultados de Domingos Gonçalves
Domingos Gonçalves cumpriu os 33,7 quilómetros em 43:06 minutos, com uma média de 46,914 quilómetros/hora. José ficou então a 12 segundos, com Tiago Machado a fechar o pódio a 20 do agora bicampeão nacional. José Neves, que tem dois títulos na categoria de sub-23, estreou-se na elite com um quarto lugar, a 1:28. Outro ciclista da nova geração e campeão de sub-23 em 2016, Gaspar Gonçalves, foi sexto, a 3:11.

A desilusão acabou por ser Rafael Reis. O ciclista da Caja Rural está a realizar uma época abaixo das expectativas e da sua qualidade. Ele que é um especialista do contra-relógio, também com títulos em sub-23 e sabendo já o que é ficar em segundo na elite, desta feita ficou a uns longínquos 2:55 minutos.

Atribuídos os primeiros títulos em Belmonte - Daniela Reis foi campeã na elite feminina e Ivo Oliveira nos sub-23 masculinos - é tempo de partir para as provas de fundo.

Sábado é dia de corrida de fundo. Mais uma vez, as senhoras abrem as hostilidades às 11:00. Sendo em formato de circuito (21,4 quilómetros), que tem nos 1500 metros finais, em subida, o ponto nevrálgico, vai favorecer quem assistir ao vivo, pois assim poderá ver várias vezes as e os ciclistas. A elite fará cinco voltas, ou seja, 107 quilómetros, as juniores farão menos uma (85,6) e as cadetes ficarão pelas três (64,2).

Às 15:00 será dado o tiro de partida para a corrida dos sub-23 masculinos. Inicialmente o pelotão sairá de Belmonte e fará 76 quilómetros até entrar no circuito. Serão quatro passagens na meta, numa distância total de 160,4 quilómetros.

A elite masculina, inevitavelmente a corrida mais esperada, irá para a estada no domingo às 11:00. O esquema é o mesmo dos sub-23, mas o campeão só será definido na quinta passagem na meta, após 181,8 quilómetros.


Resultados:
1º Domingos Gonçalves (Rádio Popular-Boavista), 43:06 minutos
2º José Gonçalves (Katusha-Alpecin), a 12 segundos
3º Tiago Machado (Katusha-Alpecin), a 20
4º José Neves (W52-FC Porto), a 1:28 minutos
5º Rafael Reis (Caja Rural), a 2:55
6º Gaspar Gonçalves (Liberty Seguros-Carglass), a 3:11
7º João Rodrigues (W52-FC Porto), a 3:14
8º Daniel Silva (Rádio Popular-Boavista), a 3:16
9º Edgar Pinto (Vito-Feirense-BlackJack), a 3:25
10º João Benta (Rádio Popular-Boavista), a 3:29
11º António Barbio (Miranda-Mortágua), a 4:29
12º Sérgio Paulinho (Efapel), a 4:53
13º Pedro Paulinho (Efapel), a 9:31

Outros campeões:
Maciej Bodnar (Bora-Hansgrohe) - Polónia
Edvald Boasson Hagen (Dimension Data) - Noruega
Victor Campanaerts (Lotto Soudal) - Bélgica
Joey Rosskopf (BMC) - Estados Unidos
Svein Tuft (Mitchelton-Scott) - Canadá
Jonathan Castroviejo (Sky) - Espanha

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28 de maio de 2018

A transformação de José Gonçalves

(Fotografia: Katusha-Alpecin)
Quando José Gonçalves fez o tempo mais rápido no ponto intermédio do contra-relógio individual, anunciou que estava na Volta a Itália para se mostrar. O que não se percebeu de imediato é que estava para mostrar um lado pouco conhecido dele: o de voltista a lutar por um lugar na geral. Nesse primeiro dia só ficaram à frente do português o campeão do mundo (Tom Dumoulin), um que tem tudo para o ser mais cedo ou mais tarde (Rohan Dennis, que é o campeão australiano) e o campeão europeu (Victor Campenaerts).  E foram apenas 12 os segundos que o separaram de Dumoulin. Este foi o início de uma corrida que poderá ter definido uma nova fase na carreira do gémeo de Barcelos.

Não se vai entrar em precipitações e dizer que José Gonçalves está feito num voltista. Porém, comprovou que pode ser mais do que um excelente homem de trabalho - e isso foi notório no ano passado no Giro, quando esteve ao lado de Ilnur Zakarin -, ou um caça-etapas, como aconteceu quando representou a Caja Rural na Vuelta. A exibição de Gonçalves não foi uma que se proporcionou, como às vezes se acontece. Sem um líder definido para a Volta a Itália, o português demonstrou estar bem e José Azevedo deu-lhe mais do que a esperada liberdade para lutar por vitórias de etapas. O director da Katusha-Alpecin não hesitou em dizer que queria tentar ver ou Gonçalves ou Alex Dowsett - que também esteve bem no contra-relógio - com a camisola rosa naqueles primeiros dias. Não demorou muito a perceber-se que a primeira aposta seria sempre o ciclista português, com a equipa a protegê-lo e a colocá-lo bem no pelotão.

Não houve rosa, nem vitória de etapa (ainda foi terceiro na quinta), mas a resposta de Gonçalves ao repto que lhe foi lançado foi fabulosa. Chegou a alta montanha e o ciclista manteve-se com os primeiros. Chegaram as etapas mais difíceis e manteve uma regularidade que o permitiu terminar num inesperado 14º lugar, a 34:29 de Chris Froome. Inesperado, quando começou o Giro, porque com o passar dos dias, ficou claro que o top 20 era um objectivo. Com o passar dos dias também ficou claro que era bem possível.

A postura do português quando estava entre os líderes das equipas que procuravam ganhar o Giro, passava a ideia de quem estava bastante confortável com a responsabilidade de alcançar uma boa classificação. Não entrou em loucuras de tentar seguir ritmos que lhe poderiam custar caro mais tarde. Fez a sua corrida e a regularidade por premiada. Para a Katusha-Alpecin foi também a salvação de uma prova em que Tony Martin esteve perto, mas ainda não foi desta que regressou às vitórias nos contra-relógios e russos Viacheslav Kuznetsov e Maxim Belkov estiveram muito abaixo das expectativas.

Nesta transformação que a equipa tem estado a trabalhar nos últimos dois anos, quebrando muito com as origens russas, só há por agora um homem para a geral: Ilnur Zakarin, um russo que José Azevedo não abre mão e vai apostar forte no Tour. Ver José Gonçalves, de 29 anos, mostrar esta capacidade para a geral numa grande volta não significa que se esteja a querer transformá-lo noutro líder. É intrigante pensar no que poderá vir a seguir. Mas certo é que se for novamente chamado para estar ao lado de Zakarin, a Katusha-Alpecin terá um homem com potencial para se tornar num braço direito do líder. Ou seja, José Gonçalves poderá ser um ciclista que ficará até o mais tarde possível com Zakarin, dando um apoio mais prolongado do que aquele que o ciclista tem recebido. No Tour poderá fazer uma enorme diferença ter um corredor assim ao lado do russo.

No entanto, também se abrem outras portas a Gonçalves, principalmente no que diz respeito a Giro e Vuelta, além de o tornar ainda mais competitivo em corridas que já conta com vitórias importantes, como são as competições de uma semana. Já venceu a Volta à Turquia (pela Caja Rural) e no ano passado a Ster ZLM. Na sua segunda temporada na Katusha-Alpecin, a performance de Gonçalves na Volta a Itália ajudou-o a elevar o seu estatuto na equipa. José Azevedo está a explorar todo o potencial deste ciclista, revelando um lado que não se pode dizer que surpreenda dada qualidade que Gonçalves tem, mas que nesta fase da carreira talvez já não se esperaria ver.

Este resultado no Giro e a forma física em que se apresentou - aparentava estar mais magro - talvez ajude a explicar porque na fase das clássicas do pavé Gonçalves não tenha nenhuma. A sua preparação estava a ser pensada para outros voos. Depois de um curto descanso, o ciclista português tem no seu calendário uma viagem até à Suíça, primeiro no GP du canton d'Argovie e depois à Volta daquele país, uma das principais de preparação para o Tour. No entanto, ainda não se sabe qual será a próxima grande volta para o português. Se for a França, será uma estreia, contando com duas presenças no Giro e três na Vuelta.

Esta mudança de José Gonçalves também tem tudo para ser benéfica para a Selecção Nacional. Com uns Mundiais de Innsbruck, na Áustria, à espera de trepadores, ter este ciclista com esta capacidade e em boa forma, será algo que agradará e muito a José Poeira quando chegar o momento de escolher os ciclistas.

José Gonçalves pode ter chegado tarde ao World Tour, mas chegou muito a tempo de deixar a sua marca e até para se transformar num ciclista diferente daquele homem de ataque que estávamos habituados a ver e que não ficará preso a um papel de gregário.


26 de maio de 2018

A vitória mais bonita e brutal

(Fotografia: Giro d'Italia)
Chris Froome era um ciclista que funcionava como uma máquina programada para realizar o programa perfeito, com a ajuda de peças infalíveis, ou seja, alguns dos melhores gregários do mundo, alguns dos quais até têm tudo para serem também eles bons líderes. No Giro, o ciclista da Sky foi humano. Já o tinha demonstrado no último Tour. Ganhar a Vuelta não foi uma questão de controlar como tem acontecido em França. Em Itália, as diferenças foram ainda maiores para o tradicional Froome. Fraquejou, deu sinais que não deviam dá-lo como carta fora do baralho, voltou a ceder e num dia elevou-se a uma condição de super-herói. Um momento inesquecível de ciclismo aquela etapa 19! Talvez por se ver um Froome menos mecânico e mais humano, se tenha a tentação de considerar esta a mais bonita vitória das seis que agora tem em grandes voltas.

Muito se passou neste Giro que quase se pode dizer que teve duas histórias: a de Simon Yates, que quase se tornou num conto de fadas com final feliz para o jovem britânico da Mtichelton-Scott, e a de Chris Froome, que inevitavelmente fica muito centrada no dia em que esteve 80 quilómetros numa fuga. Sozinho!

Acabou mesmo por ser um britânico a ganhar este Giro. O primeiro, um ano depois de Tom Dumoulin ter feito a estreia para a Holanda. A etapa deste sábado, com três subidas de primeira categoria nos últimos 80 quilómetros, acabou por ser uma mais típica de quando Froome está com a camisola de líder. A Sky não foi a toda poderosa, mas apareceu nestas últimas duas etapas para garantir que Froome se juntasse a uma lista restrita, pois apenas Eddy Merckx e Bernard Hinault também ganharam as três grandes voltas de forma consecutiva.


(Fotografia: Giro d'Italia)
Dumoulin fez o que lhe competia. Atacou, contra-atacou e atacou mais umas vezes. Nem é a sua forma de correr, mas com 40 segundos a separá-lo da rosa, tinha de tentar. Caiu de pé e as grandes voltas ganharam definitivamente mais um ciclista que as pode discutir. A vitória de 2017 no Giro não foi um acaso, foi o início.

Mikel Nieve ganhou a etapa no dia em que celebrou 34 anos e atenuou um pouco a dor da Mitchelton-Scott por ter visto o Giro escapar-lhe 24 horas antes. E para terminar, mais uma quebra daquelas que marcaram esta corrida. Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) foi o autor do "trambolhão" do dia, perdeu o pódio (e não é que Miguel Ángel López, da Astana, finalizou uma brilhante remontada até ao terceiro lugar!), o top dez e por pouco não ficou de fora dos 20 primeiros. Sairá de Itália com um amargo 16º lugar, a 43:46... Ou com um abandono. A equipa alertou entretanto que Pinot sofreu de desidratação e febre, estando no hospital a receber acompanhamento médico. Só de manhã haverá mais novidades.

Com Rohan Dennis a cair mais uns lugares, até ao 17º, José Gonçalves foi premiado pela sua regularidade e subiu mais duas posições: é 14º a 34:29 de Froome. Foi o melhor da Katusha-Alpecin e se ganhar uma etapa teria sido tão bonito de se ver, esta exibição ajudará à afirmação do português na equipa, num papel que vá além de gregário ou caça-etapas.

A preparação da Sky para a loucura de Froome

Mas o dia é de Chris Froome. 33 anos e seis grandes voltas conquistadas. À condição. Infelizmente não há nada que tire aquela sombra chamada salbutamol - substância para a asma - e que poderá custar ao britânico a Vuelta e este Giro. Talvez por isso seja tão complicado escrever ou falar sobre uma vitória que foi talvez a mais bonita de Froome. A mais épica certamente que foi. Mas será que ficará registada?

Até que caso fique resolvido - e arrasta-se desde Setembro -, o que se assistiu na sexta-feira, foi o que decidiu este Giro. E não será possível recordar esta edição sem falar daquela etapa, que foi preparada ao pormenor. Pode ter sido uma loucura, como descreveu Froome, mas foi uma planeada pela Sky. Há que saber preparar loucuras de 80 quilómetros!

Recuperando as declarações de Dave Brailsford, director da equipa, ao Eurosport, o responsável explicou que ao ver Simon Yates ceder no início do Colle delle Finestre, a equipa ganhou um moral extra. "A segunda fase era livrarmo-nos do Tom [Dumoulin]", referiu Brailsford. A subida que levaria ao ponto mais alto deste Giro, a 2178 metros, era metade feita em sterrato. Froome até disse que o fez lembrar dos tempos em que vivia em África (nasceu no Quénia). A decisão foi que seria nessa terreno que o ciclista tentaria um golpe que tanto poderia ser de génio, como um falhanço total. Mas na altura já pouco havia a perder.

No ciclismo não se ganha sozinho. E se os companheiros prepararam o terreno, foram os massagistas, os mecânicos, o próprio Brailsford e nem o assessor de imprensa escapou, a ajudarem Froome. "Todos os membros do staff, eu incluído, estávamos na berma da estrada para colocar em prática a estratégia de reabastecimento, para garantir que ele não seria batido. Foi o que mudou o jogo", realçou. "Tentámos segmentar. Sabemos quanto alguém vai queimar e quanto vai precisar para repor, então sabemos onde será preciso comer. Depois é preciso fazer com que aconteça e colocar em prática [o plano]", acrescentou.

Nas imagens televisivas era bem visível que Froome estava constantemente a alimentar-se, algo que não acontecia com quem o perseguia. Há que ter em conta que em causa não estava só a etapa, mas é preciso pensar que o Giro ainda tinha mais um dia de montanha. Para Brailsford, o trabalho feito por todos na berma da estrada foi decisivo. O resto fez Froome, que nunca deixou de olhar para o seu potenciómetro, tendo no final dito que nunca excedeu os seus limites. Como curiosidade, a bicicleta de Froome foi uma das oito que ontem foi ao raio-X para garantir que não tinha nenhum motor.

"Este Giro foi brutal", descreveu Froome depois de cortar a meta neste sábado, ao lado de Wout Poels. Aquele mini sprint foi justificado para garantir a classificação da montanha, que até já estava assegurada, pois o último esforço de Giulio Ciccone (Bardiani-CSF) não foi recompensado.

Há Tour ou não?


Froome e Poels, uma dupla que apareceu em grande no momento exacto
(Fotografia: Giro d'Italia)
Neste domingo Froome terá direito ao seu champanhe e à sua consagração em Roma, mas não demorará muito a ter de pensar no futuro próximo. O objectivo número um da temporada está alcançado. Bom, talvez seja o número dois, já que resolver o caso do salbutamol sem sofrer uma sanção, deverá ser uma prioridade. Mas na estrada, a ambição passa por se juntar ao exclusivo grupo de ciclistas que venceram cinco Voltas a França e quebrar o enguiço que dura desde 1998, quando Marco Pantani se tornou no último a vencer Giro e Tour no mesmo ano.

Porém, esta missão poderá ser barrada. A resolução do seu processo não tem fim à vista e até o presidente da UCI, David Lappartient, avisa que não acredita que haja uma conclusão antes do Tour, que arranca a 7 de Julho.

O principal problema de Chris Froome é a ASO. A empresa que organiza a corrida francesa, estará disposta a tentar impedir a presença do ciclista no Tour. A táctica poderá passar pela defesa da imagem da competição, que a presença do ciclista poderá colocar em causa dada a indefinição quanto ao uso do salbutamol, substância que acusou o dobro do permitido na Vuelta (pode ler aqui pormenores sobre esta questão).

A presença no Tour é assim uma incógnita e talvez por isso não se tão estranho quanto isso ver Egan Bernal ser chamado pela Sky para fazer uma estreia logo naquela que continua a ser vista como a principal das corridas de três semanas. Não se está à espera de ver o jovem colombiano (tem apenas 21 anos) ser um líder e lutar pela vitória, mas ter Geraint Thomas como possível número um, não parece chegar para uma equipa que se recusará passar despercebida na competição que tem dominado nos últimos anos. E claro, que a postura da Movistar em colocar todas as suas armas em jogo no Tour, também poderá ter a sua influência nesta decisão. O natural sucessor de Froome no papel de líder na Sky estará só à espera de saber se o terá de assumir de imediato, ou se poderá ganhar experiência, livre de uma pressão bem maior.

Mas Froome ganhou o direito de celebrar por Roma uma vitória memorável. Talvez a mais bonita. Talvez a mais brutal. Daqui a uns meses lá se saberá se ficará mesmo registada, ou se Tom Dumoulin se verá na sempre desconfortável posição de receber um troféu que não ganhou na estrada. Foi o que aconteceu com Andy Schleck e Michele Scarponi, que tiveram dificuldades em sentir que era deles as vitórias no Tour de 2010 e Giro de 2011, respectivamente, quando Alberto Contador foi desclassificado. O espanhol também fez a Volta a Itália à condição.



Aqui ficam as classificações da 20ª etapa da 101ª edição da Volta a Itália. Froome vence a classificação geral e a da montanha, Elia Viviani veste a camisola ciclamino dos pontos, Miguel Ángel López aguentou Richard Carapaz e ficou como o melhor na juventude, a Sky fechará como vencedora por equipas.

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24 de maio de 2018

Calma, isto ainda não acabou!

(Fotografia: Giro d'Italia)
Se há algo de bom na época de clássicas é que a cada corrida temos um vencedor, uma história, uma intensidade diferente já que em causa está sempre a vitória final. É certo que algumas servem de preparação para outras, mas há sempre quem as queira vencer. As grandes voltas oferecem outro tipo de emoção. Requer mais paciência, pois afinal é preciso esperar três semanas para conhecer o vencedor. Temos as vitórias de etapas, mas que no fundo nos levam apenas um dia mais próximo para saber quem de facto será mais lembrado, aquele que leva a camisola amarela, rosa ou vermelha no fim. Por isso mesmo, não há nada pior do que se ter um vencedor anunciado, como tem acontecido no Tour. São dias como os de hoje que fazem valer a pena passar 21 dias em frente à televisão, a tentar perceber quem irá inscrever o seu nome numa lista que pode ser longa dada a extensa história das grandes voltas, mas não deixa de estar apenas ao alcance dos grandes ciclistas, com uma ou outra excepção...

Simon Yates não era um vencedor anunciado. Muito pelo contrário. Porém, as suas convincentes exibições durante duas semanas colocaram-no no patamar daqueles que se pode dizer que tem o Giro na mão. O problema é que falta a terceira semana e colocar a outra mão no troféu e assim garanti-lo é uma missão bem complicada. O britânico ainda não tinha tido um dia mau. Surgiu esta quinta-feira. De repente, uma diferença de 56 segundos para Tom Dumoulin, que parecia ser mais do que suficiente para controlar as três etapas de montanha que faltavam, foi reduzida para metade. Pior é mostrar debilidade numa fase em que já ninguém tem muito a perder se quiser ainda tentar atacar a liderança. Nos próximos dois dias a motivação dos adversários, com destaque, além de Dumoulin, para Domenico Pozzovivo (terceiro a 2:43 minutos), mas principalmente para Chris Froome (quarto a 3:22), estará em alta.

Em poucos quilómetros a Volta a Itália foi relançada e se ainda não estava fechada, ficou agora completamente aberta. Se já havia a intenção de explorar uma eventual fraqueza do camisola rosa, agora que a mostrou logo no primeiro dos três dias decisivos, não haverá descanso nem para Yates, nem para a sua equipa, Mitchelton-Scott. O próprio admitiu que não teve "boas pernas", mas é também nestes momentos que se vê quem tem calibre de campeão. Yates recusa entrar em pânico.

Dumoulin tem sido o exemplo de como é importante saber manter a calma nos momentos em que parece que tudo se pode perder. Já sofreu ataques que o poderiam ter deixado fora da luta, mas resistiu e aí está ele com apenas 28 segundos a separá-lo do primeiro lugar, no qual terminou em 2017. Agora é a vez de Yates de demonstrar frieza. Não será fácil, mas se o britânico admitiu que não iria andar tanto ao ataque, o que seria algo mau para os fãs, pois essa postura significa menos espectáculo, agora teremos outros a dá-lo. Assim sim, vale a pena ver tantos dias de corrida para conhecer o grande vencedor. Se não é possível ter dias memoráveis de ciclismo em todas as etapas, pelo menos que haja emoção até final.

"Calma" é uma palavra-chave nesta altura. Yates tem de a manter e Dumoulin já disse que é melhor não a deixar ser apanhada por excesso de confiança. Se nesta quinta-feira tudo lhe correu de feição, o holandês avisa que as duas etapas mais difíceis serão as de sexta e sábado. Para um ciclista que prefere fazer as subidas num ritmo certo, quando ataca tem de o fazer valer. A sua movimentação não deixou Yates para trás, mas foi o primeiro "safanão" à resistência do camisola rosa. Quando Froome fez a sua jogada, Dumoulin conseguiu aguentar, Yates não. O problema para o líder da Sunweb é terá de o fazer num terreno que não lhe sendo desfavorável (a maioria das subidas são complicadas, mas com uma pendente constante), é mais favorável ao seu adversário directo.

Foi apenas uma subida, já na parte final da longa etapa de 196 quilómetros entre Abbiategrasso e Prato Nevoso. Amanhã serão 184 que incluem uma segunda categoria, a Cima Coppi (ponto mais alto, que será a 2178 metros no Colle delle Finestre), uma terceira e para acabar mais uma primeira. Yates só poderá desejar que tenha tido um mau dia e nada mais. Os adversários pedirão para não terem eles mais nenhum dia menos bom e que consigam "abanar" um líder que, nas palavras de Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) aquando do contra-relógio, estava "imbatível". Tudo muda num instante...



De referir que Miguel Ángel López (Astana) deixou bons sinais que está bem para ainda se mostrar nesta terceira semana. Consolidou a classificação da juventude, deixando Richard Carapaz (Movistar) a 1:05 minutos, ultrapassou Rohan Dennis (BMC) na geral e tem o quinto posto de Pinot a 30 segundos. Falta a vitória de etapa que a Astana continua a procurar. Dois ciclistas no top dez - Pello Bilbao é oitavo - e a camisola branca é bom. Uma etapa será muito melhor e mais próximo da senda ganhadora que a equipa estava a viver quando arrancou o Giro.

O português José Gonçalves teve mais um bom dia. Até se mostrou na subida final, mas com a etapa já resolvida para os homens da fuga, o ciclista da Katusha-Alpecin concentrou-se em tentar melhorar a sua classificação na geral. Subiu dois lugares e é 18º, a 16:30 de Yates. Melhorar mais será muito difícil. David Formolo é quem está à sua frente, mas tem mais de seis minutos de vantagem.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Num dia em que a fuga triunfou, a Quick-Step Floors continua imparável. Desta feita foi o alemão Max Schachmann a triunfar e com as vitórias de Elia Viviani, já são cinco para a equipa belga no Giro, o mesmo número alcançado em 2017, mas com diferentes protagonistas (há um ano foram Fernando Gaviria e Bob Jungels). Schachmann tem 24 anos, um grande potencial e na sua primeira grande volta da carreira soma logo um triunfo numa etapa, além de ter vestido a camisola branca da juventude no início deste Giro.

Pode ver aqui as classificações após 18 etapas da 101ª edição da Volta a Itália.



9 de maio de 2018

Aí está o Etna para os favoritos se mostrarem e para Dennis responder a uma questão

(Fotografia: Giro d'Italia)
A etapa do Etna é das mais faladas desde que o percurso do Giro foi apresentado. Com apenas cinco dias de competição completos, os candidatos vão enfrentar a primeira chegada em alto, ainda que não se possa dizer que seja o primeiro teste, pois as últimas duas tiradas fez muita gente suar bastante e já provocou desilusões. Que o diga Miguel Ángel López! Se é certo que se estará a olhar para Tom Dumoulin, Chris Froome, Thibaut Pinot, Simon Yates e não só, será também o dia para Rohan Dennis responder à questão: é desta que mostra capacidade para estar na luta com os melhores na alta montanha?

O australiano alcançou um feito sempre importante ao conseguir vestir as três camisolas de líder das grandes voltas. Em Itália não conseguiu no contra-relógio, como no Tour e na Vuelta, mas vestiu a maglia rosa no segundo dia após ter perseguido os segundos de bonificação nos sprints intermédios. E não mais a largou. Nas duas etapas pela Sicília, os finais não foram nada fáceis. Mas Dennis aguentou. Até aqui não há surpresas. É um ciclista que passa bem a pequena e média montanha. Porém, para quem afirmou querer ser o próximo grande voltista australiano, o tempo passa e nada demonstra que o venha a ser. A alta montanha tem sido um obstáculo que não consegue evoluir fisicamente para o conseguir ultrapassar.

Dennis (27 anos) afirmou que defenderia a camisola rosa com tudo o que tem e pode dar, ainda que admitisse que eventualmente alguém a tiraria do seu corpo. Mas quer estar na luta até Roma. Será que consegue? Aí está o Etna, com toda a sua imponência, condições atmosféricas que não facilitam em nada (o vento pode ser um enorme inimigo, como aconteceu há um ano) e os adversários do australiano são alguns dos melhores do mundo neste tipo de corridas. Se Dennis quer ser um campeão, então tem de bater os melhores. Chegou a sua oportunidade de mostrar que pode fazer mais do que apenas demonstrar vontade de fazer algo especial através de palavras.

Há ainda um outro factor a ter em conta. Os ciclistas da BMC estão cada vez mais em xeque relativamente ao futuro. Com a equipa a poder fechar portas, Dennis não poderá estar a pensar num plano para se tornar voltista que montou com esta estrutura. É altura de apresentar resultados, pois se é o caminho que quer seguir na sua carreira, então terá de mostrar que tem capacidade para ser um voltista, senão terá de negociar outro tipo de papel caso seja obrigado a mudar de equipa.

Dennis pode estar de rosa, mas os actores principais são, na antevisão da subida ao vulcão, Dumoulin e Froome, a dupla que mais se quer ver. O muito esperado embate na alta montanha entre os dois vencedores das grandes voltas de 2017 irá começar o Etna. Só que poderá haver quem roube as atenções. É um cliché, mas é irresistível dizer: o pequeno Domenico Pozzovivo está enorme! Quem bem esteve no contra-relógio (10º) e nestas duas últimas etapas tão movimentadas nos quilómetros finais, esteve onde devia estar. Nesta quarta-feira até apanhou um susto ao ficar para trás após uma queda que cortou o pelotão. Teve de recuperar, mas não demorou até estar na frente a acelerar a corrida. Aos 35 anos, o ciclista da Bahrain-Merida está numa forma fantástica.


José Gonçalves recuperou muitos lugares no sprint final
para fechar em terceiro (Fotografia: Giro d'Italia)
Quanto à quinta etapa, os 153 quilómetros foram animados na parte final, como aconteceu na tirada anterior. Desta vez Chris Froome e a Sky mantiveram-se unidos e só Miguel Ángel López perdeu tempo, entre aqueles com aspirações a um top dez ou mais. Desta vez o colombiano teve uma saída de estrada, tendo inclusivamente caído. Já não conseguiu reentrar no grupo principal e perdeu 43 segundos. E já são 1:57 minutos de desvantagem. O Etna poderá muito bem decidir se o ciclista da Astana irá continuar a apostar na geral, ou se terá de mudar os seus planos. Se perder mais tempo será o fim das aspirações, mas se conseguir recuperar alguns segundos (bastantes, de preferência), então ainda haverá muitas etapas para López reentrar na luta.

Enrico Battaglin foi o vencedor em Santa Ninfa. A Lotto-Jumbo retira desde já essa pressão de cima dos seus ciclistas, o que poderá ajudar George Bennett a ser ainda mais aposta para o top dez. Grande temporada para a equipa holandesa, já com 12 vitórias, metade em provas do World Tour.

E José Gonçalves deu mais uma boa razão para se falar dele. Foi terceiro. Excelente início de Giro para o português da Katusha-Alpecin. Desta feita sem problemas mecânicos, Gonçalves foi ao sprint final. A colocação nas duas últimas curvas não terá sido a melhor e quando arrancou já estava em desvantagem para Battaglin e Giovanni Visconti (Bahrain-Merida). Ainda assim, depois de uma quarta etapa com tanto azar, Gonçalves fez mais um bom resultado e reentrou no top dez: é oitavo, a 32 segundos de Rohan Dennis.

Sexta etapa: Caltanissetta-Etna, 164 quilómetros


Quando se fala do Monte Etna, o ciclismo português tem o seu destaque. Recuamos a 1989 e aí vemos Acácio da Silva a vencer a etapa no Giro e a vestir a maglia rosa. Um feito que continua a ser único na história da modalidade em Portugal.

Numa entrevista ao Observador, publicada no ano passado o ciclista, agora com 57 anos, recordou o momento decisivo daquela que foi a segunda etapa da Volta a Itália: "Saquei a rosa em Etna. Lembro-me perfeitamente. Foi uma chegada em pelotão, todos juntos, muito juntos. Nos últimos 10 quilómetros, havia uma subida de 6% de inclinação. Depois, a 400 metros da meta, havia uma curva. Quando faço a curva, já fui com o propósito de arrancar decidido. E lá fui. Acabei com duas bicicletas de avanço, à frente do [Luis] Herrera, [Tony] Rominger, [Ivan] Ivanov e [Marino] Lejarreta. Estava forte, no máximo das minhas capacidades."

O francês Laurent Fignon viria a vencer aquele Giro, com Acácio da Silva a terminar na 48ª posição, a mais de uma hora. Mas é a este ciclista que pertence uma das páginas mais bonitas do ciclismo nacional, não esquecendo que na sua carreira venceu cinco etapas na grande volta italiana e três no Tour, tendo também vestido a camisola da liderança na corrida francesa.

Regressamos a 2018. A subida ao Etna será então a primeira chegada em alto da 101ª edição e o que mais se espera é que não seja a desilusão de há um ano. Com o vento de frente, ninguém dos favoritos se mexeu. Beneficiou Jan Polanc (UAE Team Emirates), que alcançou uma bonita vitória na sua carreira. E o esloveno está novamente no Giro, no entanto, a história poderá ser diferente. O percurso tem algumas alterações, pelo que é possível que o vento possa até chegar a "bater" pelas costas.

A pendente média ronda os 6,5%, mas há zonas a oito e nove, com a máxima a atingir os 15%. Se o vento não estragar novamente a "festa", será possível que se tente fazer algumas diferenças, ou pelo menos para testar alguns ciclistas.



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