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4 de setembro de 2018

Queda grave de Petilli marcou etapa. Italiano ficou inconsciente mas já recebeu alta hospitalar

Italiano estava a fazer a sua estreia na Vuelta
(Fotografia: © PhotoFizza/UAE Team Emirates)
Dia de susto na Vuelta com Simone Petilli a sofrer uma queda aparatosa que o deixou inconsciente. O ciclista da UAE Team Emirates foi de imediato assistido pelos médicos, sendo transportado para o hospital. A equipa já confirmou que o italiano sofreu uma concussão cerebral, mas os exames revelaram não existir qualquer problema neurológico. Se a nível de saúde do corredor é uma boa notícia, dentro do possível, já desportivamente, a formação de Fabio Aru fica sem o seu segundo homem, pois Daniel Martin não partiu para a 10ª etapa. São apenas três as desistências na Volta a Espanha, duas na mesma equipa.

Petilli é uma das jovens apostas da UAE Team Emirates e que transitou do tempo da Lampre-Merida. Tem 25 anos e estava a realizar a sua terceira grande volta, a estreia na Vuelta, depois de dois Giros. A queda aconteceu ao quilómetro 41 dos 177 entre Salamanca e Fermoselle, Bermillo de Sayago e envolveu ainda Jelle Wallays (Lotto Soudal). O italiano ficou imóvel, sendo depois confirmando que perdeu a consciência, mas ao recuperá-la, rapidamente reconheceu o médico da corrida, que foi o primeiro a socorrê-lo.

"Ele também sofreu um corte profundo no sobrolho esquerdo, que precisou de pontos e alguns dentes ficaram partidos. Ele está agora no Hospital Zamora numa condição boa e estável. Ele é capaz de interagir com o médico da equipa Michele de Grandi", lê-se num primeiro comunicado da equipa, no qual é assegurado que os exames excluíram problemas neurológicos. Já ao início da noite, a UAE Team Emirates anunciou que o ciclista recebeu alta hospitalar e ia passar a noite no hotel da equipa.

É a segunda queda grave de Petilli em menos de um ano. Em Outubro, na Lombardia, o italiano sofreu uma comoção cerebral e fracturou uma vértebra, a clavícula e a omplata.

Com algumas quedas já a marcarem a Vuelta, nenhuma tinha sido tão grave. E desportivamente é então um rude golpe para uma equipa que viu Dan Martin regressar a casa no dia de descanso (segunda-feira). O irlandês prepara-se para ser pai de gémeas e com uma inesperada possível antecipação do parto, o ciclista pediu aos responsáveis da UAE Team Emirates para abandonar a corrida e assim acompanhar a mulher neste momento especial da sua vida. A autorização chegou sem qualquer surpresa, ainda que isso significasse a perda de um corredor que poderia estar na luta por alguma etapa e na ajuda a Fabio Aru na geral, já que Martin estava sem qualquer aspiração nesse sentido.

Com a perda de Petilli, são apenas seis os ciclistas que continuam em prova pela equipa dos Emirados. Só outra formação já perdeu um corredor. Maurits Lammertink, da Katusha-Alpecin, foi o primeiro abandono da Vuelta, ao não partir para a etapa oito, devido a persistentes dores abdominais.

Segunda vitória para Viviani

Quanto à etapa, foi um dia em que se cumpriram as expectativas. Na perspectiva portuguesa, o destaque vai para mais uma fuga de Tiago Machado (Katusha-Alpecin), mas ainda não foi esta a que vingou. As equipas dos sprinters conseguiram concretizar a pretensão de dar aos seus ciclistas a possibilidade de discutir a vitória. A Quick-Step Floors foi perfeita e Viviani não teve concorrência à altura. Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) foi novamente segundo. Foi a terceira vez que ficou nesta posição na Vuelta, somando ainda um terceiro e um nono lugar, o que o ajudou a tirar a camisola verde a Alejandro Valverde (Movistar), liderando com mais dois pontos.

Viviani junta-se a Valverde e Ben King (Dimension Data) como vencedor de duas etapas na 73ª Volta a Espanha.

Os últimos quilómetros acabaram por ser de grande nervosismo para alguns dos candidatos, incluindo o dono da camisola vermelha, Simon Yates. O ciclista da Mitchelton-Scott sofreu dois furos, um mal que atingiu vários corredores, como Nairo Quintana, Nelson Oliveira (Movistar) e Wilco Kelderman (Sunweb), entre outros. O holandês ainda teve um problema mecânico que o fez perder mais de um minuto para o pelotão. Porém, estava dentro dos três quilómetros finais, pelo que lhe foi registado o tempo do vencedor da 10ª tirada.

Esta foi uma etapa de transição que contrariou o que muito acontece nas grandes voltas. Ou seja, o dia a seguir ao descanso tem alguma dureza ou é um contra-relógio (como vai acontecer na próxima semana). É nesta quarta-feira que regressa o sobe e desce da Vuelta, com três terceiras categorias - uma perto do fim - e uma segunda. Será a etapa mais longa da corrida, com 207,8 quilómetros entre Mombuey-Ribeira Sacra, Luintra. A alta montanha regressa na sexta-feira, com muita acção (assim se espera) até domingo.


Pode ver aqui as classificações completas. A única mudança de camisola foi a verde. Simon Yates continua líder da geral, com um segundo de vantagem sobre Valverde, que vai voltar a vestir a camisola do prémio combinado, que estava "emprestada" a King enquanto tinha a verde. Luis Ángel Maté (Cofidis) lidera na montanha e a Lotto-Jumbo por equipas.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) e José Mendes (Burgos-BH) terminaram a etapa no pelotão, enquanto Tiago Machado e Nelson Oliveira perderam 22 segundos.



27 de agosto de 2018

Viviani o melhor sprinter? De 2018, certamente

(Fotografia: La Vuelta)
Missão cumprida. Uma oportunidade, uma vitória. Elia Viviani não desperdiçou uma das poucas etapas que os sprinters podem tentar aparecer numa Vuelta maioritariamente montanhosa. Aliás, o italiano e restantes adversários, ainda tiveram de enfrentar dificuldades, incluindo uma primeira categoria logo nos primeiros quilómetros. Foi saber sofrer e recuperar o máximo de forças possível para gastar num sprint em que Viviani foi simplesmente forte de mais para qualquer concorrência. Peter Sagan até pode não estar no seu melhor, mas o que Viviani fez hoje em Alhaurín de la Torre, o domínio que demonstrou, não é novo nesta época. Tem sido um ano fantástico de um sprinter que tinha mesmo muito mais para dar do que a Sky estava a permitir.

Quando a Quick-Step Floors anunciou a contratação do ciclista de 29 anos, o que significou a quebra de contrato com a equipa britânica - só terminava em Dezembro de 2018 -, logo se pensou que o seu papel seria para ser o sprinter nas corridas em que Fernando Gaviria não estaria. Marcel Kittel teve receio de ficar em segundo plano para o argentino e preferiu sair depois de uma época de sucesso (14 vitórias, cinco no Tour), Viviani não se preocupou com estatuto. Segundo plano? Quem não gostaria de estar na posição do italiano nesta fase da temporada: 16 vitórias, 17 se se contar com um contra-relógio por equipas. Fernando Gaviria soma nove!

Na Sky viu-se constantemente relegado a uma luta pelos sprints sem ajuda de companheiros, ou com muito pouca. É um ciclista que até sabe explorar o trabalho de outros para se colocar bem no pelotão, mas ter uma Quick-Step Floors dedicada a ele, fez toda a diferença. A sua melhor temporada tinha sido a de 2017, com 10 vitórias. Mas mais do que os números, este ano ganha muito e em grandes corridas, com destaque para Giro e agora a Vuelta (o Tour ficou para Gaviria - duas etapas). Com o triunfo em Alhaurín de la Torre são cinco etapas em grandes voltas (mais a camisola dos pontos em Itália), com Viviani a fazer a sua estreia a vencer na corrida espanhola, naquela que é a sua segunda participação (a primeira foi em 2012, ao serviço da Liquigas-Cannondale). E há que não esquecer que é o campeão italiano.

"Não sei se sou o melhor sprinter. Não posso ser eu a avaliar isso, mas sou o que mais ganha este ano", afirmou Viviani após a vitória na terceira etapa da Vuelta, 178,2 quilómetros que começaram em Mijas. O italiano não entra em discussões se é ou não um dos melhores do mundo. É certamente um sprinter de enorme qualidade e que este ano está claramente entre os melhores. As vitórias colocam-no mesmo como o melhor. Um sprinter de "segundo plano" de luxo numa equipa na qual os ciclistas têm tendência a mostrar a sua melhor versão e quando saem, muito se debatem para a recuperar (que o diga Kittel).

Fez-se a comparação com o companheiro Gaviria, mas o segundo sprinter que mais ganha este ano é Dylan Groenewegen. O holandês da Lotto-Jumbo soma 12 triunfos (dois no Tour e dois na Volta ao Algarve, por exemplo). Os outros principais sprinters do pelotão têm metade ou menos das vitórias de Viviani: Arnaud Démare (Groupama-FDJ) nove, André Greipel (Lotto-Soudal) seis, Christophe Laporte (Cofidis) seis, Nacer Bouhanni (Cofidis) cinco, Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) cinco, Caleb Ewan (Mitchelton-Scott) três, Marcel Kittel (Katusha-Alpecin) duas, Mark Cavendish (Dimension Data) apenas uma. Peter Sagan pode não ser o chamado sprinter puro, mas não deixa de ser dos melhores da actualidade. Tem oito triunfos, que inclui um monumento, o Paris-Roubaix, e três etapas no Tour.

A contagem de Viviani continua, tal como a da Quick-Step Floors: 58 vitórias e ganhou novamente nas três grandes voltas. Aconteça o que acontecer a Viviani no futuro, mantenha ou não este ritmo impressionante de triunfos, esta sensacional temporada ninguém lhe tira, no ano em que comprovou que podia ser muito mais ao que estava reduzido.

A luta pela geral começa agora

Se uma subida de terceira categoria em Caminito del Rey conseguiu fazer alguns estragos, principalmente eliminando Richie Porte (BMC) e deixando também Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) longe da discussão muito cedo na corrida, então o que poderá fazer uma chegada em alto de primeira categoria na quarta etapa?

Com uma Vuelta com potencial para ser muito aberta, sem um Chris Froome como favorito crónico e com muitos e bons candidatos, então, mesmo sendo tão cedo na corrida, há que aproveitar oportunidades para, pelo menos, começar a testar adversários e potencialmente criar-lhes desde já problemas se não estiverem bem nestes primeiros dias.

Serão 161,4 quilómetros entre Vélez-Málaga e Alfacar, Sierra de la Alfaguara. A primeira dificuldade, também uma primeira categoria, começa aos 51 quilómetros e vai até aos 67, mas a maior acção deverá ficar guardada para os 12 finais. É uma daquelas etapas na qual ninguém ganha uma grande volta. É apenas a quarta. Mas alguém poderá perdê-la. Michal Kwiatkowski (Sky) prometeu que irá defender a sua camisola vermelha de líder, ultrapassada que está a desilusão de dois segundos lugares nas duas primeiras tiradas. Tem 14 segundos de vantagem sobre Alejandro Valverde (Movistar) e 25 sobre Wilco Kelderman (Sunweb). O polaco lidera também nos pontos, com Luis Ángel Maté, espanhol da Cofidis, a vestir a camisola da montanha. A Sky é primeira na classificação por equipas. De recordar que na Vuelta não há uma camisola para o melhor jovem.

Os quatro portugueses em prova, Nelson Oliveira (Movistar), José Mendes (Burgos-BH), Tiago Machado e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) terminaram a terceira etapa integrados no pelotão. Pode ver aqui as classificações completas.



23 de maio de 2018

O que falta enfrentar no Giro

(Fotografia: Giro d'Italia)
Chegámos às etapas decisivas do Giro101. O Zoncolan e o contra-relógio fazem parte do passado e agora é altura de enfrentar os três dias que ditarão se Simon Yates se tornará no primeiro britânico a vencer a Volta a Itália, ou se ainda há a possibilidade para se assistir a uma surpresa. Três chegadas em alto, todas de primeira categoria, num total de seis, três no sábado. Há ciclistas que apontam estar no seu melhor na terceira semana. Yates está bem desde o primeiro dia. Não há margem para fraquezas em corridas como as grandes voltas, muito menos na fase final, mesmo que a vantagem temporal sobre os adversários seja bem simpática: 56 segundos para Tom Dumoulin (Sunweb) e mais de três minutos para a restante concorrência. Três etapas, três dias de teste para Simon Yates e a sua Mitchelton-Scott, assim como para aqueles que lutam por outros objectivos (top dez, pódio, classificação da juventude...). Mais do que tentar adivinhar o que poderá acontecer, o melhor é ver o que espera aos ciclistas antes da consagração em Roma, no domingo.

Além da muita montanha, serão também muitos quilómetros pela frente. Tudo começa então com 196 entre Abbiategrasso e Prato Nevoso. A etapa é praticamente toda plana, mas isso não irá significar descanso até à ascensão final. O pelotão passará por várias localidades o que obrigará a muita atenção aos obstáculos como rotundas, ilhas de tráfego e claro, o público que se espera que sairá à rua para ver passar o Giro. A menos de 60 quilómetros para o final haverá uma quarta categoria, mas são os 15 mil metros finais os mais aguardados. É uma subida relativamente constante, a rondar os 7%, mas com algumas zonas mais íngremes.



Sexta-feira terá a passagem pela Cima Coppi (ponto mais alto), a 2178 metros, no Colle delle Finestre. Além das subidas, atenção às descidas, técnicas, que podem contribuir para que sejam feitas diferenças. O dia começa com uma segunda categoria até ao Colle des Lys. Serão pouco mais de 28 quilómetros, mas com uma pendente muito constante. A meio e durante cerca de cinco quilómetros, estará a fase mais complicada com a pendente a chegar aos 12%. Aos 91,8 quilómetros está o início da subida ao Colle delle Finestre.



A pendente média ronda os 9%, sendo que a máxima surge logo na primeira fase (14%), sendo depois muito constante. Serão 18,5 quilómetros até à Cima Coppi. Metade será feita em alcatrão a outra parte em sterrato.



Após a descida haverá uma terceira categoria, nova descida e a última dificuldade do dia terá 7250 metros, com a fase final a ter uma pendente entre os 11 e 12%. A etapa terá 184 quilómetros entre Venaria Reale e Bardonechhia.



A recuperação será essencial neste dias, mas tendo em conta que já estamos a falar de 19 dias de competição, com uma viagem de Israel para Itália e para alguns foi ainda uma aventura sair da Sicília para dirigir-se ao continente. É um último esforço de 214 quilómetros! A organização considera esta a etapa rainha, ainda que a que inclui a Cima Coppi seja vista por muitos como tal. A acção estará guardada toda para os 80 quilómetros finais, quando aparecem três subidas de primeira categoria seguidas. Sobe, desce, sobe, desce e a derradeira subida deste Giro acabará em Cervinia, com 4000 mil metros de ascensão ao todo nesta travessia pelos Alpes.



Primeiro estará a subida ao Col Tsecore, 16 quilómetros, com a parte final a ser a mais difícil com pendentes acima dos 12%, num máximo de 15%. O Col de St.Pantaléon terá sensivelmente a mesma distância com uma média 7,2%, máxima de 12%. Para terminar, a mais longa das três subidas, com 19 quilómetros e uma média de 5%. Chega a ter uma fase a 12%, mas sempre que se torna mais complicada, também acaba por ter zonas de descanso. A fase final será em plano, para assim consagrar o vencedor do Giro101 (carregue na imagem para ver ao pormenor as três subidas).



Viviani somou a quarta vitória

A Bora-Hansgrohe trabalhou muito para que a etapa desta quarta-feira fosse discutida ao sprint e assim não se ter de esperar por domingo para voltar a ver os homens rápidos em acção. A Quick-Step Floors protegeu Elia Viviani, a Lotto-Jumbo acreditou que era desta que Danny van Poppel chegaria à vitória. No final, Sam Bennett teve dificuldades para esconder as lágrimas por não ter conseguido fechar o trabalho dos seus colegas com mais um triunfo. Acabou por estar mal colocado no momento que o sprint começou. Van Poppel deu o mote, mas foi cedo de mais. Viviani foi novamente gigante. É o ciclista com mais vitórias neste Giro e igualou os quatro triunfos que Fernando Gaviria conseguiu em 2017, tendo quase garantida a maglia ciclamino, que o colombiano venceu no ano passado.

Numa etapa muito movimentada, sem tempo para descansar na perseguição aos vários ataques, José Gonçalves terminou na 10ª posição e mantém a 20ª na geral, a 14:51. Está a ser uma excelente Volta a Itália para o português, mas a sua Katusha-Alpecin continua à procura da vitória de etapa.

Quem hoje não partiu para a 17ª tirada foi Louis Meintjes. O ciclista sul-africano disse que "o corpo não quer cooperar", acrescentando que apesar de sentir que estava a melhorar, "não é possível" continuar a competir nesta corrida. Meintjes fez a sua estreia no Giro, mas logo na Volta aos Alpes não deixou boas indicações e confirmou o seu mau momento durante a grande volta. Estava afundado na classificação geral a mais de uma hora de Simon Yates. O ciclista que começou a corrida como líder da Dimension Data, deixou o elogio ao companheiro Ben O'Connor, que está na 12ª posição, a 7:33 de Yates, mas com 32 segundos a separá-lo do top dez.

O campeão da Europa de contra-relógio, Victor Campenaerts também não esteve na etapa de hoje, com a Lotto Fix ALL a perder durante o dia Tosh Van der Sande.

Pode ver aqui as classificações.




»»Yates avisa que vai mudar de táctica, infelizmente para os fãs««

»»O efeito Zoncolan a que Yates esteve imune««

18 de maio de 2018

Zoncolan: "É como uma execução lenta", diz quem lá venceu duas vezes

(Fotografia: Giro d'Italia)
Tão rapidamente se fala que o Giro estava praticamente sem dias aborrecidos, como temos um daqueles mais tradicionais. Fuga, perseguição, preparação de sprint e vitória de um dos homens rápidos. A etapa desta sexta-feira valeu pela parte final, que poderá ser utilizada para ensinar a muitos como uma equipa deve actuar para colocar o seu sprinter. A Quick-Step Floors mostrou porque é das melhores - senão mesmo a melhor - neste trabalho e Elia Viviani corrigiu a falha de ontem, somando a terceira vitória no Giro, a primeira em território italiano, já que as outras duas foram ainda em Israel. Na classificação dos pontos, Viviani deixou Sam Bennett (Bora-Hansgrohe e segundo no dia) a 40 pontos. Mas o que esteve mesmo no pensamento de todos durante a etapa? O Zoncolan.

É disso que mais se tem falado desde que arrancou a segunda semana do Giro. O Monte Zoncolan, um "monstro" de subida que tanto assusta o mais talentoso dos trepadores. A boa forma não é garantia de sucesso naquela que é vista por muitos como a mais brutal das subidas nas grandes voltas, batendo mesmo o mítico Angliru, em Espanha. Porque é visto assim? Desmontando o Zoncolan...

A subida tem 10 quilómetros, começando em Ovaro. A pendente média é de 11,5%, mas isso é porque os primeiros quilómetros chegam a ter pendentes relativamente baixas, comparando com o que espera aos ciclistas nos oito quilómetros finais até ao alto. Só esses têm uma pendente média de 15%, há uma curta zona de "descanso", de 5,2%, já não muito longe da meta, mas pouco alívio trará tendo em conta o que se subiu até ali e o que ainda falta. Há rampas que atingem os 20 e os 22%! No topo, os ciclistas estarão a 1700 metros de altitude.

O Zoncolan tem o potencial para arruinar por completo uma corrida a alguém. Um ataque mal calculado, uma alimentação mal feita, ou simplesmente um dia menos bom que pode acontecer a todos e o Zoncolan é garantia de se somar muito tempo perdido. Apesar de ser um local muito apreciado pelos fãs de ciclismo, a dureza do Zoncolan faz com que não seja das subidas mais vistas no Giro. Tem todas as características para entrar na lista de subidas míticas, mas foram só cinco as vezes que o pelotão por lá passou na grande volta italiana. A primeira apenas em 2003.

Gilberto Simoni foi quem conquistou o Zoncolan nesse ano, com a ascensão a começar em Sutrio. Acabaria por vencer também o Giro. A subida foi incluída no percurso pela segunda vez em 2007, já com o início em Ovaro, e Simoni repetiu o triunfo (Danilo di Luca ganhou esse Giro). A descrição do italiano do Zoncolan, citado pelo Velonews, é bastante elucidativa: "É como uma execução lenta. A parte mais fácil do Zoncolan é mais dura do que as mais difíceis no Tour."

Em 2010 venceu Ivan Basso, que também ganhou o Giro. A última vez que o pelotão por ali passou, em 2014, foi Michael Rogers quem ganhou. Para o fim deixou-se aquele que é o único vencedor ainda em actividade: Igor Antón. O espanhol conquistou o Zoncolan em 2011, então vestindo o equipamento laranja da Euskaltel-Euskadi. Aos 35 anos representa a Dimension Data e não se importa nada de recordar aquele 21 de Maio. "Fiquei emocionado por conquistar um dos topos míticos do ciclismo. Também gosto que as pessoas e os meios de comunicação social venham ter comigo para falar e recordar aquele sucesso. Será a terceira vez que o vou subir e tenho sempre um gosto especial", admitiu, Antón, citado pelo As. Apesar da missão de ajudar uma das surpresas da competição, o jovem australiano Ben O'Connor - 13º a 3:25 do camisola rosa Simon Yates (Mitchelton-Scott) -, Antón não descarta tentar novamente conquistar o Zoncolan.

Há que ter em conta que os ciclistas não vão chegar nada fresquinhos a um dos que se espera ser dos principais momentos do Giro. Além das 13 etapas já realizadas e a maioria sempre com bastante acção por parte dos homens da geral, este sábado haverá antes do Zoncolan duas terceiras categorias, uma segunda e mais uma terceira, seguida de uma descida até que chegarão a Ovaro. Serão 186 quilómetros, que começam em San Vito al Tagliamento, que poderão ser muito importantes. E há mais um pormenor, é que no domingo a etapa voltará a ser de muita montanha, pelo que não basta ter de enfrentar o "monstro" do Zoncolan, como no dia seguinte há que estar novamente apto a lutar pelos objectivos, naquele que é o fim-de-semana que dá o mote para as decisões finais do Giro. Segunda-feira é dia de descanso, mas na terça-feira há o contra-relógio de 34,2 quilómetros que está no pensamento de todos, quase tanto como o Zoncolan.



Um último pormenor. Esta subida tem aparecido normalmente nesta fase da Volta a Itália. A colocação mais tardia foi em 2014, na 20ª etapa. Nairo Quintana foi para a tirada com 3:07 minutos de vantagem sobre Rigoberto Uran. Nada que o Zoncolan não pudesse colocar em causa, mesmo sendo um Quintana que já então se percebia que era um talentoso ciclista. Cortou a meta 4:45 minutos depois de Michael Rogers, mas os seus mais directos adversários não conseguiram batê-lo e o colombiano venceu a sua primeira grande volta.

Simon Yates parte para a 14ª etapa com 47 segundos de vantagem sobre Tom Dumoulin (Sunweb). Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) está a 1:04 minutos, Domenico Pozzovivo (Bahrain-Merida) a 1:18, Richard Carapaz (Movistar) a 1:56, George Bennett (Lotto-Jumbo) a 2:06, Rohan Dennis (BMC) a 2:36, Pello Bilbao (Astana) a 2:54, Patrick Konrad (Bora-Hansgrohe) a 2:55, Fabio Aru (UAE Team Emirates) a 3:10, Miguel Ángel López (Astana) a 3:17, Christopher Froome (Sky) a 3:20 e depois de Ben O'Connor (a 3:25) vem Carlos Betancur (Movistar) a 3:29 (pode ver aqui as classificações).

As diferenças entre alguns dos ciclistas não são grandes, pelo que além da luta pela maglia rosa, a presença no top dez também estará em jogo. De referir que José Gonçalves é 20º a 5:21 minutos de Yates. O português da Katusha-Alpecin tem estado em grande nível nesta Volta a Itália, mostrando um lado menos visto na sua carreira na alta montanha. O Zoncolan será um teste muito complicado para Gonçalves e para todo o pelotão. Dos líderes aos que apenas querem chegar ao fim. Na parte de trás, haverá aquela missão que não se vê nas transmissões televisivas: terminar dentro do tempo limite.




»»Não há descanso nesta Volta a Itália««

»»A resposta perfeita de Yates num dia com uma má notícia para o camisola rosa««

11 de maio de 2018

Fim-de-semana com muitos quilómetros e alta montanha à espera do pelotão

(Fotografia: Giro d'Italia)
A subida ao Etna e as duas etapas anteriores bem intensas, deixaram as suas marcas nos ciclistas. A sétima tirada serviu principalmente para recuperar forças para o fim-de-semana e até o vento deu tréguas, permitindo que não houvesse o habitual stress quando o pelotão anda mais perto do mar. Foi mesmo dia para os sprinters, apesar de uma subida perto do final, que acabou por não provocar qualquer surpresa. Sam Bennett descobriu como bater Elia Viviani. Primeira vitória numa grande volta para o sprinter irlandês, que apesar de estar na Bora-Hansgrohe, tem conseguido não ficar na sombra de Peter Sagan. Tem a oportunidade de ir a outras corridas e no ano passado começou a dar garantias que a equipa também podia contar com ele para os grandes momentos que lhe proporcionassem.

(Fotografia: Giro d'Italia)
"Sinto-me aliviado. Já tinha ficado perto tantas vezes no Giro. Ter o timing certo foi a chave para muitos dos sprints aqui. Não é fácil bater o Viviani. Ele sabe mesmo que o está a fazer. A minha hora chegou e houve uma altura que pensei que nunca chegaria", admitiu Bennett após ter descoberto como bater um Viviani que tinha sido avassalador nos dois sprints, ainda em Israel. Para o irlandâes, de 27 anos, o segredo está em ter paciência, saber aguentar e resistir à tentação de arrancar cedo de mais. E não entrar em pânico quando parece que não está a correr bem, o que chegou a acontecer quando Bennett teve de deixar de pedalar para evitar toques e uma possível queda. Ainda assim, manteve-se na roda de Viviani e depois de dois terceiros lugar, venceu.

Os sprinters ficarão a partir de agora em segundo plano. Só a última etapa é completamente plana, com a 12ª e 13ª a serem as mais simpáticas, mas terão subidas de quarta categoria que podem proporcionar outro tipo de finais.

Subida final deste sábado, na segunda chegada em alto deste Giro
Voltamos a atenção para geral. Será um fim-de-semana com muitos quilómetros pela frente. No sábado serão 209 (entre Praia a Mare, onde acabou hoje a etapa, e Montevergine di Mercoglian) e no domingo 225. E de plano têm muito pouco. A primeira parte do dia de amanhã será um sobe e desce constante, com direito a uma acalmia antes da única subida categorizada (uma segunda). Será uma ascensão muito constante ao longo de cerca de 18 quilómetros. A pendente média é de 6%, com uma máxima de dez (ver imagem ao lado).

Simon Yates é o primeiro a dizer que precisa de ganhar tempo aos rivais, a pensar já no contra-relógio da derradeira semana, onde estará sempre em desvantagem para ciclistas como Tom Dumoulin e Chris Froome, apesar de ter estado bem no que abriu o Giro. Porém, eram apenas 9,7 quilómetros, contra os 34,5 que o espera na 16ª etapa.

Ainda assim, tendo em conta o panorama que espera os homens da geral no domingo, é possível que exista alguma tendência a guardar alguma energia. No domingo, entre Pesco Sannita e Gran Sasso d'Italia (Campo Imperatore), estarão uma segunda categoria e duas primeiras nos últimos 50 quilómetros. Praticamente nem há tempo para respirar entre uma e a que levará até à meta. Olhando ainda para a quilometragem, domingo promete ser um dia muito duro, mas segunda-feira haverá tempo para descansar, no segundo dia de pausa do Giro.

Como terminar esta primeira fase do Giro irá determinar a restante corrida para alguns ciclistas. Caso de Miguel Ángel López, com 2:12 de atraso. Ou o colombiano consegue tirar algum tempo, ou a Astana tem definitivamente de mudar os seus planos. À equipa cazaque resta ainda Pello Bilbao, no top dez, a 1:03. Mas mesmo Carlos Betancur (Movistar) que hoje ficou cortado e perdeu mais 23 segundos (está a 1:44) e Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale, a 1:39) também quererão tentar diminuir a diferença. E porque não pensar que Froome possa finalmente aparecer, sem ser a tentar recuperar distâncias para os favoritos. O britânico mantém uma aparente calma após uma semana difícil, que começou logo com uma queda ainda no reconhecimento do contra-relógio inaugural. E nas primeiras dificuldades, não esteve particularmente convincente. Já tem 1:10 para recuperar, o que não é muito habitual.

O Etna, na quinta-feira, deixou perceber que o Giro tem tudo para ser uma corrida muito aberta e atacada. E ainda bem! As etapas do próximo fim-de-semana (19 e 20 de Maio) têm tudo para ser memoráveis, mas não haverá tempo para poupanças neste que aí vem. Não com tantos pretendentes a mostrarem estar em bom nível em Itália.



Pode ver aqui as classificações. José Gonçalves terminou no grupo da frente, mantendo a 20ª posição, a 2:06 minutos. O ciclista português está a ser muito protegido pela Katusha-Alpecin e pela forma que tem demonstrado, é possível que se mostre este sábado.




»»Haja coragem, união e qualidade! A Mitchelton-Scott tem a dobrar««

»»Aí está o Etna para os favoritos se mostrarem e para Dennis responder a uma questão««

»»E o Giro animou««

6 de maio de 2018

Viviani rendido à Quick-Step Floors: "É a oportunidade da minha vida e da minha carreira"

(Fotografia: Giro d'Italia)
Nem com Sam Bennett a encostar Elia Viviani às barreiras durante o sprint na terceira etapa do Giro, foi evitada uma nova vitória do italiano. As expectativas estão a ser confirmadas: a Quick-Step Floors trouxe para a grande volta a forma que apresentou na fase das clássicas e também noutras corridas por etapas da fase inicial da temporada. Esperava-se um Viviani dominador e nem a jogar de forma pouco correcta foi possível pará-lo. Dois sprints, duas vitórias. Mas não falemos de possíveis polémicas. Nem Viviani o quis fazer. Para ele o importante foi vencer e assim tirar partido de umas condições que estão a permitir libertar todas as qualidades do ciclista que na Sky tinha um papel secundário, estando normalmente entregue ao seu destino, quase sem ajudas.

Depois do triunfo que lhe permite consolidar a liderança na classificação por pontos, além de colocar a equipa a um de chegar aos 30 em 2018, Elia Viviani salientou como se sente um "líder a sério", considerando que esse estatuto faz toda a diferença. "Estou muito feliz por estar na Quick-Step Floors porque é a oportunidade da minha vida e da minha carreira. Estou aqui com o meu grupo, com o meu comboio e a equipa acredita mesmo em mim", referiu.

Rohan Dennis vai para Itália com a maglia rosa (Fotografia: Giro d'Italia)
Não se arrepende dos três anos que esteve na Sky, mas não esconde a sua recente paixão: "Adoro esta equipa, adoro a forma como programam e lidam com tudo." Passar de um sprinter que é excluído das três grandes voltas porque a Sky aposta tudo na geral, para um que tem os sete companheiros a conduzi-lo até à meta, é um luxo que Viviani sabe dar valor. Aos 29 anos, o italiano chegou ao seu quinto Giro com apenas uma etapa ganha, em 2015, no seu primeiro ano na Sky. Agora já são duas em três dias de corrida e é bem provável que não fique por aqui.

Esta segunda-feira o pelotão regressa a Itália, deixando para trás a partida histórica em Israel, uma estreia das grandes voltas fora da Europa. Sexta-feira haverá nova etapa claramente para os sprinters, enquanto na terça e quarta-feira serão um "aquecimento" para a sexta tirada: a do Etna. Apesar de estarem "apenas" categorizadas subidas de quarta categoria, haverão rampas de respeito, inclusivamente perto da meta, que não entram nas classificações para a montanha. Estes são dois dias que podem ser interessantes para o desejado assalto à maglia rosa da Katusha-Alpecin, ou com José Gonçalves (a 13 segundos da liderança) ou com Alex Dowsett (a 17). Façamos figas pelo ciclista português que até já é terceiro, pois Victor Campenaerts (Lotto Fix ALL) perdeu 31 segundos, estando agora a 34 de Rohan Dennis (BMC).

(Fotografia: Giro d'Italia)
Na despedida de Israel, os 229 quilómetros marcados pela paisagem desértica entre Berseba e Eilat não foram nada tranquilos, com o vento a obrigar todos - os que queriam lutar pela etapa e os que apontam à geral - a estarem muito atentos. Ninguém dos candidatos perdeu tempo, mas houve alguns cortes, com ciclistas a chegarem a chegarem com quatro ou cinco minutos de atraso.

De destacar Guillaume Boivin. O canadiano voltou a colocar a camisola da Israel Cycling Academy em realce durante a fuga, com Enrico Barbin a também o acompanhar pelo segundo dia consecutivo, mas com o objectivo de garantir que mantinha a camisola da montanha.


A 101ª edição da Volta a Itália estará em casa a partir de terça-feira, com Catania, na Sicília, a receber a partida para os 191 quilómetros até Caltagirone (gráfico da tirada em cima).



Pode ver aqui os resultados da terceira etapa e as classificações do Giro.



5 de maio de 2018

Viviani colossal no dia em que Rohan Dennis vestiu a camisola que lhe faltava

(Fotografia: Giro d'Italia)
"Que barbaridade", lia-se no Twitter logo após a vitória de Elia Viviani na segunda etapa da Volta a Itália. Talvez seja a melhor palavra para definir o sprint do italiano. Poder-se-ia dizer impressionante, fantástico... mas nada parece encaixar no que Viviani fez. Aos sprinters da Quick-Step Floors ganhar não chega. Têm tendência a dizer aos adversários: "Olhem para as minhas costas!" Fernando Gaviria já está habituado a fazê-lo e Marcel Kittel também era a potência em pessoa (agora ainda a procura reencontrar na Katusha-Alpecin). Viviani era um sprinter de qualidade, mas esta mudança para a equipa belga tornou-o num sprinter temível. De candidato, a favorito no espaço de meses e já com uma vitória que há um ano não teve possibilidade de sequer lutar por ela, com a Sky a deixá-lo de fora de todas as grandes voltas.

Foi só o primeiro sprint do Giro101, mas tendo em conta o passado recente, aqui fica uma história da Quick-Step Floors: dominou no Giro passado com Fernando Gaviria, no Tour com Kittel e depois com Trentin na Vuelta. Será a vez de Viviani? E já são 28 triunfos em 2018. Sete para Viviani, que não escondeu que se sentia sob pressão por ser o líder da equipa, que não apostará na geral e estará mais ao seu serviço. Agora sentir-se-á mais livre. Vamos ver o que isso significará...

Por momentos, uns momentos fugazes, Jakub Mareczko acreditou que finalmente iria ganhar na Volta a Itália. Mas foi uma "barbaridade" de sprint de Viviani, que a certa altura até nem estava com o seu comboio e colou-se a Sam Bennett, da Bora-Hansgrohe (fez terceiro). Mareczko ganhou uma ligeira vantagem, até que Viviani arrancou e passou por todos como se estivesse no mais potente dos carros desportivos, contra o mais normal veículo citadino! Ainda assim, este jovem Mareczko (24 anos), da Wilier Triestina-Selle Italia, demonstra cada vez mais um tremendo potencial. No ano passado fez dois segundos lugares no Giro, agora soma mais um. Vai rondando as vitórias, mas frente a este Viviani, era impossível fazer melhor.


Muito público em Israel para apoiar o pelotão do Giro
(Fotografia: Giro d'Italia)
A história da etapa foi quase totalmente a esperada. Só Rohan Dennis destoou um pouco. Houve uma fuga, a luta pela primeira camisola da montanha - ficou para Enrico Barbin (Bardiani-CSF) -, Guillaume Boivin mostrou a camisola da equipa da casa, com a Israel Cycling Academy a começar a tentar procurar aparecer na corrida. Pelo meio, Rohan Dennis foi buscar uma camisola que na sexta-feira lhe tinha escapado por dois segundos. "Atirou-se" às bonificações durante a etapa que ligou Haifa a Telavive (167 quilómetros) e ficou com a maglia rosa por um segundo. Nada que incomode Tom Dumoulin (Sunweb), que tem intenções de lutar por ela quando chegar a montanha. O próprio admitiu que seria um desnecessário despender de forças nesta fase da prova. Já para a BMC é um pormenor importante, numa altura em que perdeu o seu dono e mentor, Andy Rihs - morreu recentemente - e quando o futuro da estrutura não está garantido para 2019.

Para Dennis é um "pormenor" ainda mais relevante, pois aos 27 anos tornou-se num ciclista que já vestiu as camisolas de líder das três grandes voltas. A maglia rosa junta-se à amarela do Tour de 2015 e à vermelha da Vuelta de 2017. Em ambas as situações só as envergou durante um dia, depois de as conquistar nos contra-relógios inaugurais.

Porém, mesmo de rosa, é difícil ver Dennis como o candidato que não há muito tempo afirmou querer ser, quando iniciou o plano para se tornar num voltista ao nível dos melhores. Esta subida à liderança do australiano significou que não foi desta que o plano de José Azevedo resultou. O director da Katusha-Alpecin quer tentar colocar ou o português José Gonçalves ou o britânico Alex Dowsett no primeiro lugar. Depois do excelente contra-relógio de ambos, são agora 13 e 17 segundos, respectivamente, que os separam de Dennis. Ainda houve tentativas de tentar surpreender o pelotão já perto do final, mas este ano estavam todos atentos (em 2017, Lukas Pöstlberger, da Bora-Hansgrohe, ficou de rosa depois de escapar aos sprinters, quando tentava deixar bem colocado o seu). O objectivo de Gonçalves e Dowsett, ou eventualmente de Tony Martin (a 28 segundos) mantém-se para os próximos dias, com a alta montanha a chegar apenas na sexta etapa, com a subida ao Etna.

Quanto às restantes camisolas, a Quick-Step Floors juntou a dos pontos à da juventude. Elia Viviani está agora com a maglia ciclamino, com a branca a continuar com Max Schachmann.  A Katusha-Alpecin lidera por equipas (pode ver aqui as classificações completas).

Siutsou poderá ficar afastado das corridas durante três meses

(Imagem: print screen)
"Agora vou ver o Giro na televisão!" Kanstantsin Siutsou foi o mais azarado dos ciclistas que sofreram quedas no percurso do contra-relógio inaugural da Volta a Itália. Tal como Chris Froome e Miguel Ángel López, o bielorrusso caiu ainda no reconhecimento. A fractura na vértebra poderá afastar o ciclista da competição durante três meses, mas Siutsou garantiu que tudo fará para tentar regressar o mais rapidamente possível.

A aventura por Israel neste arranque da grande volta correu mal para Siutsou, que regressará a Itália para fazer mais exames médicos. "É uma enorme desilusão para mim e para a equipa. Eu estava em boa forma e estava pronto para apoiar a minha equipa e para dar o meu melhor. Infelizmente o Giro acabou para mim", desabafou num vídeo publicado pela Bahrain-Merida. E é de facto uma baixa de peso para Domenico Pozzovivo, o líder da formação neste Giro. Aos 35 anos, Siutsou vinha de uma vitória na Volta à Croácia e é na Volta a Itália que tem as melhores recordações em provas de três semanas. Venceu uma etapa em 2009 e foi top dez em 2011 (9º) e 2016 (10º).

Etapa 3: Berseba-Eilat, 229 quilómetros


Etapa mais "acidentada" do que a de sábado o que levará os homens que gostam de andar em fugas a arriscar a sorte. No entanto, as equipas dos sprinters estarão atentas, para garantir que seja mais um dia para os homens mais rápidos do pelotão. Segunda-feira será dia de descanso para que seja feita a viagem para Catania, na Sicília, para o arranque do Giro "em casa", no dia seguinte.

Aqui ficam alguns pormenores da segunda etapa e o sprint de Viviani é para ver e rever.

 


»»José Gonçalves de camisola rosa? Porque não?««

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»»Um Giro com muitas distracções mas a prometer espectáculo««

10 de fevereiro de 2018

Elia Viviani e um antídoto chamado Quick-Step Floors

(Fotografia: Twitter Volta ao Dubai)
Questionou-se a escolha da Quick-Step Floors, mas Patrick Levefere recuperou mais um vencedor. Recuperou e parece que o está a elevar a outro nível. Quando Elia Viviani anunciou que iria quebrar contrato com a Sky para se mudar para a equipa belga, a notícia causou alguma surpresa tendo em conta que era a vaga de Marcel Kittel que iria preencher. O italiano - depois de uma telenovela de sai, não sai e afinal sai - estava desesperado por encontrar uma local onde pudesse ser mais do que um sprinter para as corridas que não contariam com Chris Froome, Geraint Thomas ou qualquer outro líder para as grandes voltas e não só da Sky. Ficar de fora do Giro100 será uma mágoa que permanecerá com o ciclista. Porém, em 2017 não houve também nem Tour, nem Vuelta.

Viviani respondeu a este estatuto secundário como pôde. Das oito vitórias individuais, sete foram na segunda metade da temporada, com destaque para a Clássica de Hamburgo e a Bretagne Classic-Ouest-France. O italiano nunca se virou contra a Sky. Nem sempre escondeu a desilusão por não ser uma opção para competições mais importantes, mas chegou mesmo a dizer que pensava que quando chegou à estrutura britânica em 2015, seria uma equipa para a vida. Nesse ano foi o sprinter perfeito para a Sky. Não precisava de comboios, sabia perfeitamente encontrar os caminhos das vitórias ao sprint sozinho. Para uma equipa concentrada nas grandes voltas e aos poucos a apostar nas clássicas, Viviani era o ciclista com o perfil desejado. No entanto, ficar de fora das três grandes foi o ponto final de uma relação que sempre pareceu algo distante. Viviani acreditava na Sky, a Sky acreditava que ali estava alguém para quando precisasse. Não é exactamente a condição mais confortável para quem tem capacidade para alcançar bons resultados.

Lefevere não teve problemas em convencer Viviani. Marcel Kittel saiu para não ter de disputar um lugar na Volta a França com Fernando Gaviria, que já não é a estrela em ascensão, é a estrela que ameaça roubar a ribalta às actuais referências no sprint.  Em 2016 foi o alemão que quebrou contrato com a então Giant-Alpecin, para reencontrar-se com o seu melhor na equipa belga. Agora é Viviani quem encontrou um antídoto para recuperar a carreira numa estrutura que tem como palavras de ordem vencer, vencer, vencer. Lefevere dará o Giro a Viviani e ainda mais corridas onde será o italiano o líder. Se não havia espaço para Gaviria e Kittel coexistirem, sobra bastante para Viviani e Gaviria. Sim, numa herarquia de sprinters é o segundo, mas, ao contrário do que acontecia na Sky,  Viviani está inserido numa hierarquia.

Talvez tenha sido agora, aos 29 anos, que Viviani tenha encontrado a equipa de uma vida. E que grande resposta deu à confiança que lhe foi dada por Patrick Lefevere. Ganhou uma etapa no Tour Down Under, foi segundo na Cadel Evans Great Ocean´s Race e depois viajou até ao Dubai. Na volta dos sprinters, ganhou duas etapas, a geral e a classificação por pontos. Talvez nunca venha a conseguir ser colocado ao nível de um Kittel, Cavendish ou Greipel, mas não é isso que se lhe pede. O que se lhe pediu foi para agarrar as oportunidades que lhe fossem dadas. Três corridas e não pára de subir ao pódio.

Além da confiança que lhe foi transmitida pelo director da Quick-Step Floors, Viviani conta com ciclistas para o apoiarem. Mesmo quando for para o Giro, em que deverá haver um homem para a geral, Viviani não estará sozinho. O italiano sentir-se-á novamente parte de uma equipa. Ou mais correcto, parte importante de uma equipa. Será agora interessante perceber como irá estar ao lado de Fernando Gaviria na Milano-Sanremo. O colombiano quer começar a escrever a sua história em monumentos, mas Viviani poderá muito bem ser mais do que uma simples ajuda. Poderá ser um plano B se mantiver este nível de forma até 17 de Março. E com Gaviria certamente a ser alvo de marcação cerrada, Viviani tornou-se, de repente, num ciclista em que se conta de facto com ele para ganhar qualquer corrida em que participe. Lá está, os dois podem coexistir até em algumas corridas.

Início de época brutal da Quick-Step Floors... outra vez

Ainda nem se chegou a meio de Fevereiro e a equipa belga já soma 10 vitórias! Um registo exactamente igual ao do ano passado, ainda que com protagonistas diferentes. Viviani substituiu Marcel Kittel, que por esta altura em 2017 estava a celebrar a conquista da Volta ao Dubai, tal como em 2016. Patrick Lefevere bem pode sorrir. Aposta mais do que ganha em Viviani e o ano está só a começar. Pelo menos, o italiano promete que está à altura para cumprir o que é esperado dele, enquanto o sprinter alemão ainda está a tentar encontrar o melhor entendimento com os novos companheiros na Katusha-Alpecin. 

Kittel arrancou a temporada no Dubai e ficou a zero, situação um pouco frustrante tendo em conta que na volta dos sprinters, Mark Cavendish (Dimension Data) ganhou, Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo) ganhou e até Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida) mostrou que não o devem menosprezar. Marcel Kittel não está sozinho no campo dos que falharam a desejada etapa nesta corrida. Nacer Bouhanni (Cofidis) e Alexander Kristoff (UAE Team Emirates) também ficaram sem vitórias. John Degenkolb descansou um pouco a Trek-Segafredo ao ganhar no Trofeo Campos, Porreres, Felanitx, Ses Salines e no Trofeo Palma, provas do Challenge de Maiorca (estava há praticamente um ano sem ganhar). Porém, quando teve de enfrentar uma concorrência bem mais forte, revelou que ainda há trabalho a fazer.

A época está só nas primeiras semanas. Contudo, se um Kittel ou Bouhanni não estarão demasiados preocupados por não terem ainda ganho, já para Viviani era muito importante  vencer rapidamente para recuperar a sensação que pode ser um sprinter de classe A. Alexander Kristoff, por exemplo, bem precisa de um arranque de temporada mais forte do que apenas estar na discussão nos sprints.


12 de dezembro de 2017

Início discreto, mas o ano foi mesmo de Chris Froome... e também de Kwiatkowski

(Fotografia: Unipublic/Photogomez Sport)
Apesar das vitórias logo a abrir o ano na Austrália, na Herald Sun Tour, o arranque de temporada foi bastante atribulado para a equipa Sky, mais pelo que se passava fora da estrada. As suspeitas que recaiam sobre Bradley Wiggins e o homem forte da Sky, Dave Brailsford chegaram a parecer estar a perturbar o normal funcionamento de uma equipa que demorava a mostrar ao melhor nível. Pelo meio coisas estranhas aconteciam, como o desfazer da roda da bicicleta de Gianni Moscon no contra-relógio colectivo do Tirreno-Adriatico! Insólitos à parte, foram surgindo notícias que haveria alguns descontentamento para com Brailsford, mas Chris Froome deu a voz para reiterar que a confiança nos responsáveis da Sky permanecia intocável. O britânico acabou por ser um dos responsáveis de um início mais discreto da equipa.

Froome mudou a sua habitual preparação para a Volta a França, optando por uns meses com menos competição e nas corridas em que participou evitou ritmos muito elevados. Parecia uma sombra de si mesmo e, sem surpresa, foram levantando-se algumas questões sobre a real condição física do ciclista, que procurava a quarta vitória no Tour. Entretanto, a Sky conseguiu regressar ao normal, por assim dizer. Michal Kwiatkowski finalmente reapareceu em grande e conquistou a Strade Bianche - apelidada por muitos de sexto monumento - e a Milano-Sanremo, essa sim, um monumento. Bateu ao sprint Peter Sagan e a Sky respirava de alívio por ver que o polaco estava de volta depois de um aparente apagão nos últimos dois anos.

Depois de Wout Poels ter ganho a Liège-Bastogne-Liège em 2016, Kwiatkowski confirmou a Sky como equipa a ter em conta para a época das clássicas. Mas claro, o objectivo continua a ser o Tour e, cada vez mais, as outras grandes voltas. O Giro está enguiçado. Quando Bradley Wiggins o tentou ganhar, passou o tempo a tentar manter-se na bicicleta num ano em que a chuva não deu tréguas, em 2015 tudo correu mal a Richie Porte, em 2016 Mikel Landa sofreu uma gastroenterite. Solução: em 2017 a Sky lançou duas armas, Landa e Geraint Thomas. Este última reclamava uma oportunidade e finalmente recebeu-a. Ambos caíram no dia em que um polícia parou a moto num local em que os vários ciclistas não conseguiram desviar-se. Thomas - que muito andou com Froome em estágio antes da Volta a Itália - acabou por abandonar, Landa disse adeus à geral, mas recuperou fisicamente a tempo de ganhar uma etapa e a classificação da montanha. O Giro está a fazer-se difícil para a equipa britânica, que em 2018 vai atacá-lo com a principal figura: Chris Froome.

Ranking: 1º (12.806 pontos)
Vitórias: 34 (incluindo a Milano-Sanremo, uma etapa no Giro, uma no Tour e a geral, duas na Vuelta e a geral)
Ciclista com mais triunfos: Elia Viviani (7)

Já o Tour, foi um pouco mais complicado do que em anos anteriores, nas no final venceu Froome. E lá vão quatro triunfos, faltando um para igualar o recorde de Eddy Merckx. Jacques Anquetil, Miguel Indurain e Bernard Hinault. Foi um Tour atribulado. Chris Froome e a Sky já não dominam como antes e Mikel Landa desafiou a filosofia de todos por um líder. O espanhol percebeu que poderia lutar também ele por um bom resultado. Chegou a deixar Froome sozinho na parte final de uma etapa, mas depois não mais se atreveu a repetir o atrevimento. Começou a ficar claro que Landa iria querer mais em 2018 e que para o ter, a solução passaria por mudança de equipa. Vai para a Movistar disputar a liderança com Nairo Quintana.

Ficou a um segundo do pódio, num momento de enorme frustração para o espanhol, traído pelas bonificações na meta que ajudaram Romain Bardet (AG2R). Nos momentos decisivos, Froome esteve ao nível pedido. Não ganhou etapas, mas aquela amarela estava no seu corpo nos Campos Elísios. E pode-se dizer que o melhor ainda estava para vir. A mudança de preparação no início de temporada foi feita a pensar também na Vuelta. Froome sabia que no ciclismo actual precisava de algo mais do que apenas conquistar Voltas a França. Não foram favas contadas, mas na Vuelta, a cada dia que passava, a dúvida diminuía que o britânico ia fazer história. Conquistou duas etapas e a geral, numa corrida que lhe teimava em fugir noutros anos. É o primeiro ciclista a fazer a dobradinha Tour/Vuelta desde que as competições se encontram dispostas no actual calendário.

A desconfiança do Tour dissipou-se. Froome continua em grande e quer mais. A seu lado deverá ter mais vezes Gianni Moscon. O italiano é uma das confirmações da época. Estreou-se numa grande volta em Espanha e que corrida fenomenal fez. Froome rendeu-se ao colega. Porém, eram desnecessárias as atitudes que mancham a reputação. Primeiro foi acusado de palavras racistas contra um ciclista da FDJ tendo sido suspenso pela própria equipa. Depois, nos Mundiais - mesmo estando ao serviço da selecção, não deixa de estar vinculado à Sky -, agarrou-se ao carro de apoio para recuperar tempo perdido. Foi desclassificado. Pouco depois foi acusado de empurrar um ciclista da FDJ numa corrida em Itália, provocando-lhe a queda. O alegado acto até valeu uma queixa na polícia. Pormenores de personalidade a melhorar, pois o talento desportivo promete.

Elia Viviani proporcionou uma das novelas do ano. Desiludido por ter ficado de fora do Giro100, pois a Sky queria apostar tudo na geral e nada nos sprints, cedo surgiram rumores que o italiano poderia quebrar contrato e sair logo em Agosto. Também ficou de fora do Tour e da Vuelta pelas mesmas razões. Quando o mercado abriu, Viviani garantiu que estava bem na Sky e que iria ficar até ao final de 2018... Assinou pela Quick-Step Floors, tendo terminado a temporada na equipa britânica. Passou ao lado das grandes corridas, mas somou sete vitórias, o melhor registo individual na Sky, a nível de números.

Sprints não são objectivos para esta formação que reforçou-se a pensar novamente nas grandes voltas e nas clássicas. Em 2018 terá um dos ciclistas que mais cobiça gerou: Egan Bernal. 20 anos, mais um valor que vem da Colômbia e dá indicações de se estar perante um ciclista de enorme qualidade para um futuro muito próximo (e brilhante). Venceu o Tour de l'Avenir (Volta a França do Futuro) e ao serviço da Androni-Sidermec-Bottecchia fez nono na Volta aos Alpes, 16ª na clássica Milano-Torino, repetindo a posição do Tirreno-Adriático e foi 13º no monumento Il Lombardia. E os resultados não dizem tudo sobre este promissor ciclista a seguir com atenção em 2018... É vê-lo para perceber o talento.

O russo Pavel Sivakov é outro jovem a seguir, com a Sky a reforçar-se ainda com Jonathan Castroviejo (Movistar), David de la Cruz (Quick-Step Floors), Kristoffer Halvorsen (Joker Icopal e campeão do mundo de sub-23), Christopher Lawless (Axeon Hagens Berman) e Dylan van Baarle (Cannondale-Drapac).

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