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4 de novembro de 2019

Uma época em que tudo falhou

(Fotografia: Facebook Team Dimension Data for Qhubeka)
A temporada da Dimension Data é medida por todos os objectivos que não foram alcançados. E tirando a vitória no Critérium du Dauphiné, nenhum foi concretizado. Poucas vitórias (sete) e apenas uma no World Tour. Falhou em todas as frentes: clássicas, sprints, gerais. Não conseguiu recuperar ciclistas como Louis Meintjes e Ben O'Connor, já para não falar de Mark Cavendish. Os ciclistas mais experientes não foram desta feita garantia de algum sucesso e os mais novos não conseguiram singrar. A única ideia que fica de 2019 é que é urgente reformular uma equipa que até está habituada a terminar mal colocada no ranking, mas ainda assim costuma ter alguma história positiva para contar. Este ano apenas ficou confirmado a necessidade de reformulação, que já em 2018 tinha ficado claro ser urgente arrancar.

Também não ajudou que reforços como Michael Valgren ou Giacomo Nizzolo não tenham rendido o esperado. O italiano ainda deu três vitórias à equipa (uma etapa na Eslovénia, Burgos e outra em Omã), mas é um sprinter que há algum tempo demonstra não ter capacidade para disputar triunfos com os principais nomes da especialidade. Ainda assim surgiu na luta em certas corridas e o mesmo não se pode dizer de Valgren. O dinamarquês eclipsou-se nesta mudança para a Dimension Data, depois de uma temporada fenomenal na Astana. Em 2018 conquistou a Omloop Het Nieuwsblad e Amstel Gold Race. Em 2019, quase deu para esquecer que estava a competir.

Há um ano, Ben King salvou um pouco a honra da equipa sul-africana ao conquistar duas etapas na Vuelta, mas nem o americano, nem Steve Cummings, muito menos Mark Cavendish conseguiram uma grande vitória, ainda que Edvald Boasson Hagen tenha o mérito de ter ganho no Critérium du Dauphiné, a única conquista World Tour de 2019 para a Dimension Data. E ainda andou um dia de camisola amarela.
Ranking: 22º (4357,35 pontos)
Vitórias: 7 (incluindo uma etapa no Critérium du Dauphiné - houve ainda mais duas conquistas de Ryan Gibbons no contra-relógio dos Jogos Africanos e de Stefan de Bod no contra-relógio dos Campeonatos Continentais Africanos, ao serviço da selecção sul-africana)
Ciclistas com mais triunfos: Edvald Boasson Hagen e Giacomo Nizzolo (3)
Depois houve Louis Meintjes. Ou melhor, não houve. Nesta sua segunda temporada após o regresso "a casa", depois de ter representado a Lampre-Merida/UAE Team Emirates, o sul-africano foi novamente uma sombra do senhor regularidade de outras temporadas, em que terminar no top dez em grandes voltas ou noutras corridas importantes era algo normal. Para quem quer ganhar a Volta a França, Meintjes tem um longo caminho a percorrer, começando por recuperar a forma de outros anos. Porém, as fracas prestações, tendo em conta a aposta feita no ciclista, pesam muito numa equipa que tanto precisa deste corredor. Tem apenas 27 anos, pelo que ainda vai muito a tempo de mostrar o seu melhor. E a Dimension Data bem precisa.

Quanto a Mark Cavendish, os problemas de saúde marcaram novamente a temporada do britânico que, ainda assim, ambicionou estar no Tour, preparou-se para tal, mas ficou de fora das opções por decisão de um dos directores. Não terá sido consensual, contudo, desde logo ficou a impressão que a relação que começou tão bem entre Cavendish e Dimension Data em 2016, estava a chegar ao fim. Há um ano, o sprinter viu o seu contrato ser renovado, muito devido precisamente ao respeito e agradecimento por Cavendish ser o autor de alguns dos maiores sucessos desta equipa, desde que chegou ao World Tour. Agora é altura de seguirem caminhos diferentes. Cavendish vai para a Bahrain-Merida. A Dimension Data ainda está à procura de um rumo que a leve a melhores dias.

Para 2019 houve uma mudança na aposta de ciclistas, diminuindo a presença de sul-africanos para dar mais espaço a corredores com outra experiência e que pudessem dar resultados mais no imediato à equipa. As contratações não resultaram. Para 2020, a equipa mudará de nome para NTT e a saída de Cavendish acaba por libertar mais orçamento, dado o elevado salário do ciclista (que ainda assim terá sido reduzido para 2019). Contratou um sprinter que esta temporada mostrou mais o seu potencial: o alemão Max Walscheid (Sunweb). O maior investimento foi em Victor Campenaerts. Chegou a ser dado quase como certo na Ineos, mas o belga deixou a Lotto Soudal para ter um papel de maior destaque na NTT, que ganha um dos especialistas no contra-relógio e o recordista da hora.

Carlos Barbero (Movistar) e Michael Gogl (Trek-Segafredo) vão trazer experiência, para contrastar com as chegadas dos jovens Samuele Battistella (Dimension Data for Qhubeka), Samuele Battistella (Riwal Readynez), Matteo Sobrero (Dimension Data for Qhubeka) e Dylan Sunderland (Team BridgeLane).

Apesar do sonho de levar um sul-africano ao pódio da Volta a França, ou de outra grande volta, a Dimension Data/NTT não tem planos como outras equipas de se transformar numa potência do ciclismo. Quer manter alguma ligação às origens, ainda que perceba que para triunfar no World Tour tem de ir mais além nos ciclistas que escolhe. Falta acertar nas contratações. Desportivamente, 2020 será um ano importante. Mais e melhores resultados são necessários.

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19 de fevereiro de 2019

Senhores sprinters cheguem-se à frente

Démare vs Gronewegen, um luta que se vai repetir este ano
(Fotografia: © João Fonseca/Federação Portuguesa de Ciclismo)
Marcel Kittel, André Greipel, Fernando Gaviria, Dylan Groenewegen, as actuais referências do sprint têm vindo ao Algarve em anos recentes juntar umas vitórias aos seus excelentes currículos. Deste poderoso quarteto ganhador é Groenewegen quem repetirá a presença este ano, depois de ter ganho as duas etapas aos sprint de 2018 da Algarvia. No entanto, como tem sido habitual nesta corrida portuguesa, alguns dos melhores do mundo escolhem o sul do país para competir neste início de temporada e nesta quarta-feira teremos a oportunidade de ver grandes nomes em acção e de bem perto.

A Volta ao Algarve arranca esta quarta-feira em Portimão, com Lagos à espera de conhecer o primeiro camisola amarela. A expectativa é que termine ao sprint e teremos então, além do ciclista da Jumbo-Visma, John Degenkolb (Trek-Segafredo), Arnaud Démare (Groupama-FDJ), Pascal Ackermann (Bora-Hansgrohe), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), Fabio Jakobsen (Deceuninck-QuickStep) e Christophe Laporte (Cofidis). A estes junta-se uma jovem promessa que está a começar bem a carreira no World Tour, Jasper Philipsen (UAE Team Emirates) e há que não menosprezar o italiano da Caja Rural Matteo Malucelli e o experiente belga da Wanty-Groupe Gobert Timothy Dupont.

Um misto de sprinters consagrados, com vitórias na Volta a França e em monumentos do ciclismo, e de jovens a procurar a afirmação, destacando-se Ackermann, 25 anos, o campeão alemão, acabinho de ganhar a Clássica de Almeria e que no ano passado até venceu mais do que Peter Sagan e alguns dos triunfos foram em provas do World Tour: no Critérium du Dauphiné, Volta à Romandia e Prudential RideLondon-Surrey, por exemplo. Há ainda Jakobsen, o holandês de 22 anos, que no seu primeiro ano na equipa belga somou logo sete vitórias.

Além de Ackermann, também John Degenkolb - que já venceu na Algarvia e precisamente em Lagos, em 2011 - somou uma vitória este fim-de-semana, na última etapa do Tour de la Provence. Será que é desta que o alemão recupera a sua melhor versão? Groenewegen venceu a derradeira tirada da Volta à Comunidade Valenciana, Boasson Hagen ganhou a primeira (um contra-relógio) dessa corrida espanhola e Laporte conquistou duas tiradas na Etoile de Bessèges, ficando também com a geral e classificação por pontos. Démare vai começar a temporada na Volta ao Algarve, tal como Jakobsen.

A primeira etapa da Algarvia é a mais longa, com 199,1 quilómetros. Mas, como tem sido habitual, os sprinters terão ainda outra oportunidade, no sábado. Mais um dia longo, com 198,3 quilómetros, com início em Albufeira e meta em Tavira.



Os portugueses

Não sendo um país de sprinters puros, aqueles ciclistas que têm características para discutir estas etapas não vão desperdiçar a oportunidade para medir forças com os melhores do mundo. Luís Mendonça, agora na Rádio Popular-Boavista, fica ainda mais motivado por ter a possibilidade de se testar frente aos grandes nomes do ciclismo. O experiente Samuel Caldeira e Daniel Mestre (W52-FC Porto), João Matias (Vito-Feirense-BlackJack), Daniel Freitas (Miranda-Mortágua), Pedro Paulinho ou Rafael Silva da Efapel são corredores que vão tentar intrometer-se nesta luta de titãs no sprint. No caso de Rafael faltará perceber como estará fisicamente depois de ter terminado no domingo a exigente Volta à Colômbia.

A Volta ao Algarve realiza-se entre quarta-feira e domingo, mantendo um percurso tradicional de duas etapas para sprinters, duas para trepadores e um contra-relógio individual. Contará com 12 equipas do World Tour, quatro Profissionais Continentais - o novo escalão da W52-FC Porto - e a oito formações portuguesas Continentais.

Terá novamente um pelotão com alguns dos principais nomes internacionais, mas nenhum dos recentes vencedores estará presente - Geraint Thomas, Michal Kwiatkowski, Primoz Roglic, Tony Martin e Richie Porte -, pelo que certo é que haverá um novo campeão da Algarvia. Dos portugueses que representam equipas estrangeiras, estarão na corrida José Gonçalves e Ruben Guerreiro da Katusha-Alpecin, o campeão nacional de estrada e contra-relógio Domingos Gonçalves (Caja Rural) e Amaro Antunes, no regresso do filho pródigo à "sua" corrida, dois anos depois de ter ganho no Malhão, agora como ciclista do World Tour, na polaca CCC.

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30 de novembro de 2018

Impossível ignorar que é preciso mudar

(Fotografia: © Scott Mitchell/Team Dimension Data)
Se não fosse Ben King na Vuelta, a época da Dimension Data teria sido muito negativa. As duas vitórias de etapa do americano em Espanha não apagam as prestações abaixo do esperado de muitos dos ciclistas da equipa, mas ganhar numa grande volta sempre deu um alento. Poucas vitórias, poucas exibições de nível, a Dimension Data volta a terminar no último lugar do ranking, algo já não tão preocupante numa perspectiva de que o sistema de descidas e subidas de escalão foi uma ideia abandonada pela UCI. Porém, continua a ser preocupante num desporto que vive de assegurar que os patrocinadores têm uma devida exposição, dado o muito dinheiro investido.

Mark Cavendish está numa espiral descendente. Além de uma sucessão de acidentes no início de temporada, a mononucleose voltou a afectá-lo. Apenas uma vitória em 2018, no Dubai, em Fevereiro. Depois foi uma época para esquecer do sprinter britânico, de quem muito se duvidou que renovasse. Ficará mais um ano, mas é cada vez menos a estrela em que a equipa mais aposta.

Quem terá mais responsabilidade de apresentar resultados é Louis Meintjes. O regresso do filho pródigo resumiu-se a exibições apagadas, um abandono no Giro e uma Vuelta que nem se deu pelo sul-africano. Voltou à equipa para iniciar um processo de evolução para discutir o Tour, para o ganhar nos próximos dois/três anos. Tem primado pela sua regularidade nas grandes voltas, com um top dez a ser algo normal. Mas este ano foi tudo menos normal. Aos 26 anos, Meintjes é um dos melhores voltistas que, no entanto, esteve longe do seu potencial.

E o que dizer de Steve Cummings... O próprio britânico quer virar a página no próximo ano depois de um 2018 em que nada lhe saiu bem. Nada. Aos 37 anos estará a entrar na recta final da carreira, ainda que queira, num último fôlego, demonstrar que pode repetir uma daquelas exibições que lhe valeram vitórias no Tour e na Vuelta.

Também Edvald Boasson Hagen demorou a atingir uma boa forma, não ajudando começar o ano com uma operação à vesícula. Ainda assim foi a tempo de amealhar duas vitórias, uma na Volta à Noruega (segunda etapa) e o título nacional daquele país. Na segunda metade da temporada foi mesmo dos mais regulares da equipa, mesmo que não tenha alcançado um triunfo numa corrida World Tour.


Ranking: 18º (1953 pontos)
Vitórias: 7 (incluindo duas etapas na Vuelta)
Ciclistas com mais triunfos: Ben King e Edvald Boasson Hagen (2)


Mas quando a época parecia estar a ir de mal a pior, eis que aparece um Ben King, que acabou por ser uma das duas estrelas de 2018. A outra foi o jovem Ben O'Connor, um australiano que foi uma pena a queda no Giro estragar-lhe o boa fase. Mas aos 23 anos, é um daqueles ciclistas que se tem de assinalar como a seguir com muita (mesmo muita) atenção em 2019.

Com Meintjes apagado. O'Connor foi o autor de uns dos momentos mais espectaculares do ano, na vitória que alcançou na terceira etapa da Volta aos Alpes. Um esforço solitário que confirmou o talento deste jovem no ciclismo mundial. Estava a prosseguir com as boas exibições no Giro, à porta do top dez e na luta pela camisola da juventude, quando uma queda, a três dias do fim, não só o tirou da corrida, como a clavícula partida o afastou da estrada durante uns tempos. Não repetiu mais o nível, mas a renovação por duas temporadas é a prova de como a Dimension Data o irá colocar entre uma das figuras a partir de Janeiro.


King foi mais feliz na Vuelta. Ganhou duas etapas e com enorme categoria, nos dois resultados que salvaram a época da Dimension Data e que poderá relançar a carreira do americano de 29 anos. Não lhe é estranho vencer em corridas importantes, ainda que nada como uma grande volta. Contudo, estes triunfos deram outra confiança ao próprio corredor, que poderá também ter um papel mais importante em 2019, tanto na procura por mais vitórias, como na ajuda aos líderes.

Num ano abaixo das expectativas, a Dimension Data ainda teve de lidar com a perda de Bernhard Eisel por muitos meses, depois do austríaco ter caído no Tirreno-Adriatico e, mais tarde, ter sido descoberto um hematoma subdural, que obrigou o ciclista a ser operado. Lachlan Morton, por seu lado, foi atropelado e partiu um braço. De referir ainda que o espanhol Igor Antón saiu de cena no final da Vuelta, aos 35 anos, mas sem conseguir uma última grande vitória como desejava.

Mudança de filosofia

Para 2019, a Dimension Data irá alterar a sua filosofia de ser uma equipa que dá oportunidade a vários ciclistas africanos. A estrutura vai manter a sua ligação ao país de origem, África do Sul, mas foi assumido que é necessário fazer uma mudança e ter outros ciclistas.

Michael Valgren (Astana), Lars Bak (Lotto Soudal) - dois dinamarqueses -, o checo Roman Kreuziger (Mitchelton-Scott) e o italiano Giacomo Nizzolo (Trek-Segafredo) são algumas das contratações. O número de africanos foi reduzido. Fica claro que esta Dimension Data que precisa de resultados, mais vitórias e mais corredores que lutem por triunfos, contratou corredores com capacidade para fortalecer a equipa nesse aspecto, alargando o leque de opções tanto com qualidade como com experiência.

Permanências: Edvald Boasson Hagen, Mark Cavendish, Steve Cummings, Scott Davies, Nicholas Dlamini, Bernhard Eisel, Amanuel Ghebreigzabhier, Ryan Gibbons, Jacques Janse van Rensburg, Reinardt Janse van Rensburg, Ben King, Louis Meintjes, Ben O'Connor, Mark Renshaw, Tom-Jelte Slagter, Jay Thomson, Jaco Venter e Julien Vermote

Contratações: Lars Bak (Lotto Soudal), Enrico Gasparotto (Bahrain-Merida), Roman Kreuziger (Mitchelton-Scott), Giacomo Nizzolo (Trek-Segafredo), Michael Valgren (Astana), Danilo Wyss (BMC), Stefan de Bod (Dimension Data for Qhubeka), Gino Mäder (IAM Excelsior - fará a sua estreia como profissional) e Rasmus Tiller (Joker Icopal).

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25 de novembro de 2017

Uma Dimension Data a precisar de mudanças

(Fotografia: Stiehl Photography/Dimension Data)
Tão rapidamente a Dimension Data pensou que tiraria todo o partido de um espectacular regresso de Mark Cavendish às muitas e grandes vitórias, como um ano depois tudo se tornou num pesadelo. Menos mal que a vontade da UCI de criar um sistema de subidas e descidas de escalão não está em vigor, pois a formação sul-africana teria tido uma enorme desilusão. Fiel às origens de uma equipa que quer ser a montra do ciclismo africano, ao subir para o World Tour precisou de algo mais para dar nas vistas. Esse "algo" foi Cavendish. Porém, em 2017 ficou claro como é um risco apostar em demasia num ciclista. A época da Dimension Data ficou marcada pela mononucleose do sprinter britânico e da queda que sofreu no Tour, no incidente com Peter Sagan.

Cavendish venceu uma etapa a abrir o ano em Abu Dhabi. Em 2016 foram nove, mais a geral Qatar, destacando-se, naturalmente, as quatro etapas na Volta a França. Perante os fracos resultados e exibições desta temporada - a doença não só limitou o ciclista, como obrigou-o a uma paragem -, Cavendish só teve uma forma de descrever o seu 2017: "Foi uma merda!" Não há muito a dizer depois disto.

A responsabilidade de uma temporada abaixo do desejado não pode ser só de Cavendish. A Dimension Data tem um plantel de qualidade, a começar precisamente pelo contingente africano. No entanto, se no escalão Profissional Continental o dar nas vistas era suficiente, ao que se juntava aqui e ali uma conquista mais relevante, como equipa do World Tour o nível de exigência é outro e falta maior e melhor consistência nos resultados pode tornar-se num problema a curto/médio prazo. Por mais que o projecto esteja ligado à ajuda em entregar bicicletas a crianças e jovens do continente africano, estamos a falar de ciclismo profissional e os patrocinadores querem ser falados e não ser apenas notas de rodapé nas corridas.


Ranking: 18º (2575 pontos)
Vitórias: 25 (incluindo uma etapa no Tour e no Giro)
Ciclista com mais triunfos: Edvald Boasson Hagen (10)


Foram 25 vitórias em 2017, mas somente três em corridas do World Tour. Ainda assim, quando se ganha no Giro e no Tour, pelo menos cumpre-se o objectivo de mostrar a equipa nas grandes voltas. Perante a temporada mais fraca, estes triunfos valem ouro. E nada como recorrer a dois ciclistas que tendem a dar sempre alguma alegria: Omar Fraile e Edvald Boasson Hagen para assegurar as duas importantes vitórias. Dias antes o noruguês tinha tido o dissabor de perder para Marcel Kittel (Quick-Step Floors) por apenas seis milímetros! Boasson Hagen foi o ciclista mais ganhador da equipa: 10 triunfos, a maioria pelas suas terras. Desta feita Stephen Cummings não picou o ponto nas grandes voltas, mas sagrou-se campeão britânico de estrada e contra-relógio. No entanto, a equipa sentiu a falta daquele britânico que numa fuga lança o pânico no pelotão. Ainda tentou, só que este ano não conseguiu.

Voltando aos africanos, Daniel Teklehaimanot e Natnael Berhane são ciclistas de reconhecida qualidade, mas, e como por vezes se diz, falta o clique. Porém, falta principalmente uma voz de comando para as grandes voltas e a Dimension Data vai colmatar essa vaga com o regresso de Louis Meintjes. Com um objectivo de colocar o sul-africano a lutar por pódios e em três anos estar mesmo na luta para ganhar o Tour, fica claro que a formação prepara-se para uma mudança de paradigma e que permitirá tirar mais partido dos bons trepadores que tem.

Merhawi Kudus, por exemplo, tem apenas 23 anos e um potencial tremendo. É provável que comece a ser aposta mais forte. Foi segundo na quinta etapa da Vuelta, mas infelizmente abandonou dois dias depois devido a uma queda. Aliás, a Dimension Data teve uma Vuelta para esquecer, com apenas três ciclistas a chegarem ao fim. Kudus e Meintjes podem liderar uma nova era na Dimension Data pós-Cavendish. Mas o britânico ainda terá o seu espaço para perseguir o recorde de Eddy Merckx no Tour, pelo menos durante mais um ano: "só" faltam quatro vitórias de etapas para igualar o belga.

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21 de julho de 2017

O contra-relógio de relativa emoção

Faltam duas metas para cortar neste Tour (Fotografia: ASO/Bruno Bade)
"Tenho de correr para não perder a corrida e não para ganhar a etapa." A frase de Chris Froome demonstra bem como será encarado o contra-relógio deste sábado, a última oportunidade dos rivais em tirar ao britânico uma vitória praticamente anunciada. "Praticamente" porque há uma certa imprevisibilidade neste tipo de etapas. Por isso mesmo Froome irá jogar à defesa: "Vou correr igual ao contra-relógio de Düsseldorf, sem correr demasiados riscos, acelerando tudo quando posso e levantando o pé nas curvas." São 23 segundos para gerir para Romain Bardet e 29 para Rigoberto Uran. Sendo o britânico o mais forte no esforço individual deste trio e estando em vantagem, é natural que seja mais defensivo. Como é o último a partir, irá conseguir controlar o que os rivais vão fazendo, com a ajuda de quem estiver no carro, claro.

Pode parecer estranho que com diferenças tão curtas se tenha a sensação que a quarta vitória na Volta a França de Chris Froome seja uma inevitabilidade. Porém, mesmo com Rigoberto Uran a ser uma potencial ameaça, nestes momentos Froome não costuma falhar e tendo em conta que apareceu muito forte na terceira semana, será preciso acontecer a tal imprevisibilidade para que este contra-relógio ganhe de facto uma emoção que não seja relativa.

Resta-nos esperar para ver o que um muito motivado Romain Bardet possa fazer, ele que não está conformado em repetir um segundo lugar no Tour e prefere dar tudo por mais, mesmo que arrisque a ficar com menos. "Quero voar como um avião. Fiz um grande Tour e espero acabá-lo da melhor forma possível. Espero um combate leal, de homem a homem e que não tenha nada a lamentar", disse o francês da AG2R.

Já Rigoberto Uran estará satisfeito com o pódio e tem na mira mais o segundo lugar do que bater Chris Froome. Contudo, há uns dias deixou o aviso que o britânico tem muita razão em temê-lo. Se o colombiano da Cannondale-Drapac estiver em dia sim... Nunca se sabe o que poderá acontecer...

A emoção pode ser para já relativa, mas há sempre aquele nervoso miudinho, há sempre aquela ansiedade que tudo vai terminar. Com as diferenças tão curtas a serem tão raras nos últimos anos, pelo menos isso dá-nos de facto alguma emoção naquela que será a última etapa "a valer" do Tour, isto acreditando que será respeitada a tradição da derradeira ser de consagração para o camisola amarela.

O percurso e o fato "maravilha"

Com partida e chegada no estádio do Olympique de Marseille, serão 22,5 quilómetros para decidir um Tour marcado por maratonas de 200 em muitas etapas. A última vez que uma tirada da Volta a França terminou neste estádio foi há 50 anos, um dia antes da trágica morte de Tom Simpson no Mont Ventoux. A etapa terá uma dificuldade já perto do final, algo que assenta bem a Froome e Uran. Bardet tem o contra-relógio como ponto fraco. Mas é o tudo ou nada. Senão, terá de esperar um ano para voltar a tentar tornar-se o primeiro francês a ganhar o Tour desde 1985.


Uma outra expectativa para este contra-relógio era se a Sky iria utilizar os fatos que alegadamente valem segundos. É a tecnologia ao serviço do vestuário e que deixou algumas equipas descontentes, chegando mesmo a serem feitos protestos depois da primeira etapa em Düsseldorf. Os ciclistas da equipa britânica vão voltar a usar os ditos fatos que têm uns reforços na zona dos ombros e braços e que se diz ajudarem na aerodinâmica. Todos o terão menos Chris Froome. O líder do Tour afirmou que não tem qualquer problema em vestir o fato amarelo que for dado pela organização. Pelo menos quanto a Froome, não haverá polémicas.

A vitória mais que merecida

(Fotografia: ASO/Thomas Maheux)
Se havia ciclista que merecia uma vitória na Volta a França, esse era Edvald Boasson Hagen. Depois de ter perdido por seis milímetros para Marcel Kittel, tendo mais tarde repetido um segundo lugar, o norueguês da Dimension Data como que ganhou a compaixão de muitos. Boasson Hagen não quis esperar pela mítica chegada nos Campos Elísios na última etapa, nem sequer quis esperar por um sprint no dia de hoje. Entrou na fuga que a Sky não se incomodou em perseguir. Era o favorito do grupo, mas preferiu atacar antes. Numa rotunda escolheu o lado certo, juntamente com Nikias Arndt (Sunweb), mas o alemão rapidamente cedeu.

Tinha perdido por milímetros, mas ganhou por muitos metros desta feita, dando um triunfo muito desejado por uma Dimension Data que há um ano brilhou a grande nível com Mark Cavendish e Stephen Cummings e que em 2017 viu o seu sprinter ir para casa cedo. A formação sul-africana estava a passar um pouco ao lado da corrida, contudo, Edvald Boasson Hagen respondeu muito bem à chamada de ter a responsabilidade de alcançar sucesso.

Foi a terceira vitória numa etapa no Tour. As outras duas aconteceram em 2011, então ao serviço da Sky.

19 de outubro de 2016

A guerra inesperada que ficou dos Mundiais

André Greipel/Marcel Kittel, Arnaud Démare/Nacer Bouhanni, Giacomo Nizzolo/Elia Viviani, Michael Mathews/Caleb Ewan. Era de qualquer uma desta duplas que se esperaria que independentemente do resultado dos Mundiais do Qatar, pudesse, eventualmente, verificar-se alguma "guerra", principalmente de palavras, após a corrida. São ciclistas de talento e ambição que tiveram de competir dentro da própria selecção pela liderança que estão habituados a ter nas equipas. Com a excepção da Itália, não há história a contar, pois a maioria nem chegou ao fim, ou nem esteve na discussão do sprint final. E quanto aos italianos, lá houve um entendimento e Viviani lançou Nizzolo. A guerra inesperada veio da Noruega, com Alexander Kristoff a acusar Edvald Boasson Hagen de em vez de o ajudar, fez o seu próprio sprint.

Talvez tenha sido toda a frustração de uma época muito aquém do esperado de Kristoff a vir ao de cima, ou então, Boasson Hagen viu mesmo uma oportunidade - se calhar única - e tentou agarrá-la. "Estava bastante chateado quando cortei a meta porque ele podia ter feito o lançamento perfeito, mas acabámos por terminar em sexto e sétimo. Isso não é nada para trazer para casa", desabafou Kristoff ao Cycling News.

Boasson Hagen terminou mesmo à frente do colega que era o líder da equipa. "Era para o Alex. Eu nunca ataquei, mas tentei seguir o Van Avermaet e o Terpstra quando eles tentaram [atacar]. Depois chegou o sprint. Tentei fazê-lo e tinha esperança de o fazer para o Alex, mas não funcionou assim", explicou o norueguês.

Kristoff viu as coisas de maneira diferente: "Eu estava na roda do Edvald a 500 metros [da meta] e estava a pensar que ele devia sair, mas infelizmente para mim ele estava à espera e à espera e depois fez o seu sprint. Eu estava quase a passá-lo, mas ele também foi [ao sprint] e eu perdi um pouco de ritmo e a partir daí nunca fiquei numa posição para ganhar." O ciclista da Katusha disse ainda que tem a certeza que Boasson Hagen o viu: "Ele olhou para trás e viu-me na roda dele e não reagiu."

Ambos os ciclistas têm 29 anos, ambos têm 56 vitórias como profissionais. Porém, em 2014 e 2015 Alexander Kristoff consagrou-se como um dos melhores sprinters e também um homem de clássicas, tendo já vencido a Milano-Sanremo e a Volta a Flandres. 2016 foi um ano fraco, comparativamente com os dois anteriores. Somou dez vitórias, mas passou ao lado das principais competições. Boasson Hagen renasceu na Dimension Data, depois de ter sido um gregário importante na Sky. Tem nove vitórias em 2016, incluindo os títulos nacionais de contra-relógio e da prova de fundo.

O sexto lugar de Boasson Hagen até pode ser visto como um bom resultado, já Kristoff voltou a desiludir. Tendo em conta que a Noruega até tinha dois bons homens no grupo que decidiu o título mundial (algo que a Alemanha e França, por exemplo, não conseguiram fazer), certamente que este desentendimento não foi bem visto pelos responsáveis e vai deixar marcas na relação entre os dois noruegueses.