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20 de outubro de 2017

Mais um ciclista da Bardiani-CSF com análise positiva de doping. A culpa foi do medicamento da mãe

(Fotografia: Bardiani-CSF)
A situação pode ser grave para a Bardiani-CSF, mas não deixa de ter contornos insólitos. Michael Bresciani teve uma grande oportunidade para lançar a sua carreira aos 22 anos ao ser convidado pela equipa italiana em Junho. A formação estava no rescaldo de um Giro muito complicado, principalmente emocionalmente, depois de no dia antes do arranque da competição ter perdido Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni devido ao doping. Bresciani ajudava assim a colmatar a ausência de dois importantes ciclistas, ainda que não fosse esperado tanto dele, para já, como era dos dois homens entretanto despedidos, após a contra-análise ter confirmado o primeiro teste. O problema é que logo na sua primeira corrida, Bresciani foi chamado ao anti-doping... e deu positivo.

Este é apenas o insólito número um. Há que explicar que a corrida em causa foi o campeonato nacional, competição na qual os ciclistas da Bardiani-CSF podiam competir, apesar da equipa estar a cumprir uma suspensão devido ao doping de Pirazzi e Ruffoni. O italiano acusou um diurético furosemida (utilizado em casos de acumulação de líquido do corpo), mas apresentou imediatamente uma razão para o resultado: a culpa foi de um medicamento que a mãe toma. Insólito número dois, portanto. Este produto é visto, em casos de doping, como forma de eventualmente ocultar a utilização de outras substâncias.

O jovem sprinter explicou o que pensa ter acontecido à Gazzetta dello Sport: "Sei que não fiz nada de errado. O problema é que a minha mãe toma o Lasix [um diurético] às horas das refeições. Enquanto ela dividia terá ido parar ao meu prato." Numa tentativa de sensibilizar a UCI, Bresciani enviou documentação e até um vídeo, no qual a mãe mostra como divide a medicação na tábua de cortar, o que poderá ter contribuído para a contaminação da comida do filho.

A Bardiani-CSF evitou fazer comentários, mas um dos responsáveis, Roberto Reverberi, adiantou que a quantidade detectada foi muito pequena. O insólito do caso não deverá estar a ser ignorado pela UCI, que, ao contrário do que normalmente acontece, não suspendeu provisoriamente o ciclista. No entanto, Bresciani não voltou a competir e acredita que não poderá ser castigado por nada mais do que um acto negligente.

É ainda assim uma situação difícil para quem tinha conseguido chegar a uma equipa Profissional Continental. Já para a formação italiana é mais um momento de tensão. Este ano já cumpriu um mês de suspensão devido aos casos de Pirazzi (que irá cumprir quatro anos de suspensão) e Ruffoni e agora arrisca a nova pena, que poderá ir dos 15 dias aos 12 meses. Perante a instabilidade quanto a patrocinadores no ciclismo em Itália - país que ficou sem equipas no World Tour com a saída da Lampre (agora UAE Team Emirates) -, chegou-se a temer o pior depois dos dois mediáticos casos. Porém, as empresas envolvidas no projecto garantiram a continuidade no apoio. Agora é mais publicidade negativa, ainda que o caso se esteja a apresentar como insólito. 

»»Pirazzi suspenso por quatro anos««

»»Contador e as voltas perdidas por doping: "Uma das maiores injustiças no desporto"««

»»Ciclista acusou sete substâncias ilegais num só controlo de doping««

15 de outubro de 2017

Samuel Sánchez, um adeus que mete raiva

(Fotografia: Jérémy-Günther-Heinz Jähnick/Wikimedia Commons)
Estamos naquela altura do ano em que muitos ciclistas se despedem das equipas antes de se mudarem para outras, enquanto outros vão dizendo adeus ao ciclismo. É o ciclo normal. 2017 marcou a despedida de dois dos grandes nomes dos últimos anos: Alberto Contador, nas grandes voltas, e Tom Boonen, um senhor das clássicas. Junta-se a esta lista de despedida Andrew Talansky, Adriano Malori, Tylar Farrar, Haimar Zubeldia, Thomas Voeckler... Por cá dissemos adeus a Rui Sousa e tão estranho será ver o pelotão nacional sem aquele que foi uma das maiores referências e, sem dúvida, uma voz de liderança durante tanto tempo. As razões das retiradas são diferentes, mas dentro do que é expectável. Umas porque simplesmente chegou o momento de sair, outras porque infelizmente a saúde não deixa o ciclista continuar (caso de Malori, por exemplo). Mais cedo ou mais tarde toca a todos os profissionais. Porém, há um motivo que mete raiva. Mete raiva a quem gosta de ciclismo e ainda mais quando até se aprecia o corredor: abandonar devido a um positivo de doping.

Samuel Sánchez pode não ter sido um daqueles ciclistas de grandes vitórias, mas foi um dos rostos de uma Euskaltel Euskadi que tanto se destacava nas corridas em que participava. Atacava, mexia com a corrida, os seus ciclistas não tinham ordens para estar quietos. Sánchez era um irreverente por excelência. Preferia falhar a tentar, do que nem sequer tentar. Desde 2008 que ostentou uma marca dourada no seu equipamento e capacete, símbolo possível para distinguir um campeão olímpico. Mas no seu currículo tem ainda uma Volta ao País Basco, uma Volta a Burgos, um Grande Prémio Miguel Indurain, um segundo lugar no Tour em 2010 - depois das desclassificações de Contador e Denis Menchov - e cinco etapas na Volta a Espanha. São algumas das 29 vitórias de um ciclista que muito prometeu, contudo, com o passar dos anos, se foi tornando num eterno animador e não tanto num candidato, no que diz respeito às grandes voltas.

Já se fala no passado. Sánchez foi um ciclista que entusiasmava ver quando estava em forma. Este ano, aos 39, ponderava abandonar depois da Volta a Espanha. Provavelmente não teria a despedida emocional de Alberto Contador, mas certamente que os seus muitos adeptos no país lhe prestariam a homenagem merecida. Não. Sánchez sai pela porta pequena, rodeado de uma suspeita que manchará a sua reputação.

O ciclista de Oviedo acabou por nem anunciar se iria ou não terminar a carreira na Volta a Espanha. O caso de doping foi revelado pouco antes da corrida começar. Foi suspenso, mostrou-se surpreendido e chegou a dizer porque haveria de aos 39 anos recorrer a substâncias ilegais. A contra-análise confirmou o primeiro teste. A BMC despediu de imediato Sánchez. Fim de carreira? A este nível será certamente. Mas será provável que seja o fim a qualquer nível.

Sánchez foi apanhado com a mesma substância hormonal - GHRP-2 - que "tramou" Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni, ambos ciclistas da Bardiani-CSF, entretanto despedidos, que foram afastados do Giro, no dia antes da corrida começar. O primeiro já tem o seu caso concluído: quatro anos de suspensão. Não se espera que a mão seja muito mais leve para Sánchez.

Ao espanhol resta tentar limpar como puder o seu nome. Ainda antes de se conhecer o resultado da contra-análise, surgiu a notícia que um problema de saúde poderia ter provocado o positivo. É com uma razão como esta que Ruffoni tenta lutar pela sua carreira, o que é compreensível, já que só tem 26 anos. Para Sánchez resta pouco mais do que tentar que seja recordado pelo que fez na estrada e não pela forma como foi afastado dela. Será talvez a sua última luta como ciclista: defender a sua longa carreira, mesmo que ela tenha agora terminado... por doping. Que desilusão...



3 de outubro de 2017

Pirazzi suspenso por quatro anos

(Fotografia: Bardiani-CSF)
Stefano Pirazzi terá de esperar por 4 de Maio de 2021 para regressar à competição. Tem 30 anos e perante uma suspensão de doping, aquele que era um dos ciclistas mais populares em Itália, ficará com a carreira em risco perante uma sanção tão pesada como esta. Apesar de fazer a carreira longe dos holofotes de uma equipa do World Tour, o seu estilo atacante, de alguém sempre pronto a mexer na corrida, valeu-lhe um estatuto relevante no pelotão. Porém, poucas horas depois da apresentação da equipa no Giro100, Pirazzi e Nicola Ruffoni foram afastados após ser conhecida uma análise positiva. O caso de Pirazzi fica agora concluído, segundo o site Cycling News.

Ruffoni continua à espera, ele que defendeu que o seu positivo de uma substância hormonal - o mesmo que Pirazzi - poderia estar relacionado com um problema na próstata que o obrigou a tomar antibióticos, dias antes de a amostra de urina ter sido recolhida. As amostras foram retiradas fora de competição no final de Abril e quando a contra-análise confirmou o resultado inicialmente determinado, a Bardiani-CSF foi suspensa por 30 dias, entretanto já cumpridos.

A equipa conseguiu manter-se na Volta a Itália, tendo competido com apenas sete ciclistas. O director, Stefano Zanatta, revelou estar muito desiludido (furioso, mesmo) com o sucedido, apelando sempre que não condenassem a equipa pelos actos de dois corredores, que eram duas das principais figuras. Foram despedidos mal se conheceu a contra-análise. Chegou-se a temer pelo futuro da formação, mas alguns dos patrocinadores garantiram que continuariam como tal.

Aguarda-se agora a conclusão da situação de Ruffoni e há que recordar que também se espera pelo desenvolvimentos no caso de André Cardoso. O português da Trek-Segafredo acusou EPO e a poucos dias de estrear-se na Volta a França foi suspenso. O ciclista pediu a contra-análise, mas já passaram mais de três meses sem que fosse revelado publicamente o resultado. Samuel Sánchez, caso conhecido antes da Vuelta, também aguarda pela contra-análise. O espanhol da BMC deu positivo de uma hormona de crescimento.



26 de setembro de 2017

Contador e as voltas perdidas por doping: "Uma das maiores injustiças no desporto"

(Fotografia: Facebook Alberto Contador)
A saga de entrevistas continua. Alberto Contador vai fazendo uma espécie de ronda pelos meios de comunicação sociais espanhóis e abordando vários aspectos da sua carreira. Desta vez falou sobre um dos temas que mais o melindra: a suspensão por doping. Ficou conhecido como o caso do "bife à Contador", já que o espanhol defendeu-se dizendo que teria comido um bife contaminado com a substância (clembuterol) que acabou por levar a uma suspensão e à perda do Tour de 2010 e do Giro de 2011.

Nessa Volta a Itália, Contador competiu enquanto esperava pela resolução do caso. Ganhou, mas como foi decidido que o espanhol deveria cumprir uma suspensão de dois anos, o ciclista ficou sem esse Giro, com Michele Scarponi a ser proclamado o vencedor. "É uma tremenda injustiça. O palmarés final são três coroas triplas. As pessoas que demonstraram interesse sabem que é uma das maiores injustiças que se fez no desporto", afirmou Contador no programa El Transistor, da rádio Onda CeroPara Alberto Contador o seu palmarés inclui nove grandes voltas (três Giro, Tour e Vuelta), ainda que oficialmente sejam sete. "Não dou importância ao que possa aparecer num papel", disse.

Na entrevista, o espanhol revelou ainda o dia em que percebeu que estava na altura de se retirar. Aconteceu durante a Volta a França: "Cheguei ao Tour e no quinto dia, em Planche des Belles Filles, não se senti bem, mas salvei-me. Porém, chegou a nona etapa de Chambery. Caí duas vezes e isso eliminou-me na geral. Aos 25 anos pensas que terás outra oportunidade para ganhar, mas com a minha idade [34, faz 35 em Dezembro], já és velho e isso vê-se no rendimento da etapa. Nesse dia tomei a decisão de retirar-me."

Voltou-se a falar do adeus na Vuelta e do que fará agora. Repetiu o quanto foi bonita a sua despedida e desvendou que não tem qualquer intenção de ser director desportivo. Contador irá estar mais concentrado na sua fundação, nas equipas de jovens e na que será criada e que quer colocar no escalão Profissional Continental. No entanto, garante que pretende assumir o papel de um presidente e não de um director desportivo: "Acho que me provocaria muita tensão."

De entrevista em entrevista, Contador vai abordando a sua carreira, a sua vida, o seu futuro. A carreira acabou, mas a atenção mediática deverá continuar em alta durante mais algum tempo, principalmente em Espanha.

»»Contador, as batatas fritas, os bolos e as pizzas. A vida pós-ciclismo««

»»Contador percebeu que afinal tinha quatro sonhos para concretizar enquanto ciclista««

»»Carta aberta a Alberto Contador««

3 de setembro de 2017

Ciclista acusou sete substâncias ilegais num só controlo de doping

(Fotografia: Frank Steele/Flickr)
É reincidente e não fez por menos. Primeiro foi a famosa EPO, agora resolveu aumentar a lista: foram detectadas sete substâncias ilegais de uma vez só. Kayle Leogrande deve estar a tentar estabelecer algum tipo de recorde... Para já, o que conseguiu foi ser suspenso por oito anos e estar a ser muito falado. Se queria notoriedade, conseguiu-a! Ainda mais, porque apenas uma das substâncias pode ser utilizada em seres humanos, nomeadamente no tratamento da osteoporose.

Leogrande tem 40 anos e neste momento era um ciclista amador. Mas há dez anos era profissional quando foi suspenso pelo uso de EPO. Foi um caso que então marcou a luta contra o doping por parte da USADA (agência americana de anti-doping). Perante a suspeita que o corredor estava a recorrer a substâncias ilegais, o organismo testou o ciclista após uma competição nos EUA. Deu negativo, mas a USADA quis recorrer à contra-análise para repetir o teste. Leogrande recorreu ao tribunal para evitar que tal acontecesse e conseguiu, alegando que ao dar negativo na primeira análise, não tinha de ser feita uma segunda. Porém, acabou "traído" por membros da sua equipa, a Rock Racing.

Estávamos em 2008 e Leogrande voltou a recorrer à justiça, agora para processar por difamação os elementos da formação que testemunharam que o ciclista tinha recorrido à EPO para melhorar as suas exibições. De salientar, que o corredor americano chegou a alcançar alguns pódios, ainda que em provas de menor importância. Desta feita, Leogrande perdeu na justiça e a USADA utilizou os testemunhos e as imagens fornecidas pelos membros da equipa, que mostrariam o ciclista com a referida substância, para assim condenar Leogrande a dois anos de suspensão.

As três pessoas que analisaram o caso chegaram mesmo a referir que Leogrande era um mentiroso, tendo por várias vezes caído em contradição no seu testemunho perante a USADA. O ciclista acabaria por admitir que tinha começado a dopar-se em 2006, mas foi quando chegou à Rock Racing, no ano seguinte, que o fez com maior regularidade. Este caso é ainda hoje reconhecido pela USADA como de extrema importância, pois influenciou a forma como depois realizou a investigação que acabaria por desmascarar o elaborado esquema de doping que tinha Lance Armstrong como figura central.

O que a USADA se calhar não esperaria era quase dez anos depois voltar a ter de lidar com Leogrande. Desta vez parece que tudo será mais pacífico. O ciclista foi suspenso provisoriamente a 25 de Maio e não contestou nem essa sanção e, para já, também não reagiu ao "castigo" de oito anos, agora revelado.

Quanto às sete substâncias, a única utilizada em humanos é o raloxifeno, que pode ser administrado no tratamento da osteoporose, como referido. A GW1516 já foi detectada em outros atletas e, explicando de forma simples, ajuda a queimar gordura, fornecendo mais energia. Não é utilizada em humanos, pois provocou casos de cancro em animais de laboratório, nos quais a substância foi testada. A RAD140 funciona como a testosterona, a LGD4033 ajuda no aumento de massa magra, a ibutamoren é uma hormona de crescimento, a ostarina contribui para aumento da massa muscular, tal como pode fazer a andarina. Estas últimas cinco substâncias estarão ainda em fase de testes.

Kayle Leogrande é mais famoso pelas suas tatuagens do que pela carreira de ciclista. Não foi irradiado, mas pode ser que pense na reforma depois desta sanção.


17 de agosto de 2017

Mais um caso de doping antes de uma grande volta: Samuel Sánchez testa positivo

(Fotografia: BMC)
É um pleno que não se deseja. Todas as grandes voltas em 2017 ficaram marcadas por casos de suspeita de doping pouco antes de começarem. A Volta a Espanha vai arrancar este sábado sem um dos ciclistas mais admirados no país: Samuel Sánchez. Foi um dos rostos de uma Euskaltel-Euskadi conhecida por ser uma equipa de ataque, campeão olímpico em Pequim2008 e desde 2014 na BMC a aproveitar os últimos anos de carreira. Estava em cima da mesa a possibilidade de Sánchez se despedir na Vuelta. Agora arrisca a despedir-se da pior maneira. O ciclista foi notificado de um teste positivo de doping, sendo imediatamente suspenso e afastado da BMC na Vuelta.

"Tenho 39 anos, 19 de profissional e estou quase a retirar-me. Porque iria meter-me nisto?" questionou Sánchez em declarações à agência EFE. E essa é certamente a pergunta que hoje mais se faz no mundo do ciclismo. O ciclista espanhol deu positivo de uma hormona de crescimento (GHRP-2). A UCI informou que a amostra foi recolhida a 9 de Agosto, numa altura em que Sánchez não estava a competir. O organismo fala numa descoberta anómala, podendo o ciclista pedir a contra-análise.

Sánchez salientou estar surpreendido com o resultado do teste, garantindo que está de "consciência tranquila". A BMC reagiu de imediato, confirmando a suspensão do ciclista, mas adiantando que ficará à espera da contra-análise antes de tomar mais medidas. Loïc Vliegen, belga de 23 anos, foi chamado para ocupar a vaga na equipa na Vuelta.

O director da Volta a Espanha, Javier Guillén, considerou a notícia "extremamente negativa para o ciclismo" e para a corrida. "O importante é que os positivos sejam detectados e os ciclistas afastados. Se queremos ter credibilidade, os 198 participantes devem começar limpos", referiu o responsável à agência EFE.

Sánchez torna-se assim o quarto caso de suspeita de doping a ser revelado este ano antes de uma grande volta. Na noite antes do Giro começar, Stefano Pirazzi (30 anos) e Nicola Ruffoni (26) foram suspensos e durante a competição a contra-análise confirmou o positivo de uma substância hormonal. Foram despedidos da Bardiani-CSF e aguardam pela decisão do tempo de suspensão. A equipa teve de cumprir 30 dias.

Dias antes da Volta a França começar foi André Cardoso a ser apanhado nas malhas do doping. O português preparava-se para se estrear na corrida e logo como homem de confiança de Alberto Contador, mas uma amostra recolhida fora de competição, uma semana depois do Critérium du Dauphiné (18 de Junho) acusou EPO. A substância que marcou os anos negros do ciclismo na década de 90 e início do século, levou a algumas reacções de corredores do pelotão internacional e Contador admitiu ter ficado surpreendido com o que estava a acontecer com Cardoso. O ciclista português (32 anos) continua suspenso provisoriamente, ainda não sendo conhecido o resultado da contra-análise.

»»André Cardoso acusa EPO. Foi suspenso e diz adeus à Volta a França««

»»Contra-análise positiva. Pirazzi e Ruffoni despedidos da Bardiani-CSF««

»»Bardiani-CSF suspensa 30 dias devido aos casos de doping««

3 de julho de 2017

Jan Ullrich, o ostracizado

Há 20 anos Ullrich conquistou o seu único Tour e recordou o feito
nas redes sociais (Fotografia: Facebook Jan Ullrich)
Ninguém o quer ver ligado à Volta a França. Muitos nem ao ciclismo. Por vezes até parece que ninguém se quer recordar que Jan Ullrich existe e que foi um vencedor do Tour. Com a corrida a começar este ano na Alemanha, bem tentaram ignorar Ullrich, mas muito se falou dele nestes dias. Não se querem lembrar dele, mas a verdade é que não esquecem que ele é um dos rostos do doping de uma era negra da modalidade. Provavelmente não ajuda ter Lance Armstrong a sair em sua defesa, criticando a ASO por não ter convidado o alemão para a partida. Dado o crédito do americano...

Jan Ullrich chegou a estar afastado da vida pública precisamente para não ter de lidar com o constante recordar de ser um dos ciclistas que confessou o recurso a doping, depois de tanto dizer que era mentira. O alemão foi uma das figuras do ciclismo nos anos 90 e no início do século. Venceu um Tour e uma Vuelta, foi campeão olímpico e era uma das principais figuras da modalidade no seu país. Os seus embates com Marco Pantani e depois com Lance Armstrong - com o americano acabou por somar mais derrotas do que vitórias - entraram para a história da modalidade. Agora são varridos para debaixo do tapete, com esperança que lá fiquem esquecidos.

Quando o escândalo rebentou, Ullrich passou de herói à razão pela qual a Alemanha virou as costas ao ciclismo, de tal forma que a televisão estatal chegou a deixar de transmitir o Tour. Não foi o único a admitir o recurso ao doping, mas parece estar algo isolado no que diz respeito em ser perdoado, ou pelo menos recordado por algumas das coisas bonitas que fez, como acontece por exemplo com Erik Zabel. A prática do doping foi demasiado grave. Em Maio, Ullrich parecia que iria seguir os passos de outros ciclistas que apesar de também terem caído em desgraça, lá foram conseguindo voltar à modalidade com outros papéis. Foi nomeado director desportivo da Volta à Colónia, mas quatro dias depois demitiu-se, não aguentando as constantes críticas vindas principalmente dos meios de comunicação social.

A ASO, organizador do Tour, ostracizou Ullrich. Não há evento algum que receba um convite e nem o Tour arrancar em Düsseldorf no ano em que se celebra o 20º aniversário da sua vitória na Volta a França fez os responsáveis da corrida mudar de ideias. O antigo ciclista resolveu experimentar algo que admitiu nunca ter feito antes: ir ver ciclismo como um simples adepto, na berma da estrada. Adorou a experiência e adorou ver como os alemães reagiram à passagem do pelotão. "Sempre disse 'tragam o Tour, será um grande boom'", afirmou ao Bild. Ullrich disse que até recebeu um convite para estar na partida - não disse de quem -, mas que recusou porque a filha celebrava o 14º aniversário e queria que o pai estivesse com ela.

Agora com 43 anos, Ullrich contou ao jornal que há pessoas na Alemanha que continuam o recordá-lo pelo bom que fez no ciclismo. "Elas têm memórias boas [das vitórias e exibições]. Adoram ciclismo, como eu", salientou.

Apesar de ser uma das figuras ligadas à época negra do ciclismo, Jan Ullrich não teve problemas em falar da análise positiva de André Cardoso, conhecida dias antes da Volta a França começar: "É pena, mas é apenas um em 200 profissionais no pelotão. Há sempre uma ovelha negra, alguém que não percebe. Acontece nas melhores famílias."

De recordar que o ciclista português da Trek-Segafredo deu positivo por EPO, a substância de eleição precisamente na era de Ullrich. No entanto, foi pedida a contra-análise para então se confirmar ou não o positivo de Cardoso. Até lá, o corredor está suspenso preventivamente e não pôde participar pela primeira vez na carreira no Tour.

»»Jan Ullrich e o regresso ao ciclismo por quatro dias««

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30 de junho de 2017

Alberto Contador surpreendido com análise positiva de André Cardoso

(Fotografia: Kramon/Trek-Segafredo)
A poucas horas de começar a Volta a França, a Trek-Segafredo tenta mostrar-se forte, unida e inabalável depois da notícia que afastou André Cardoso do nove eleito. A análise positiva por EPO tirou a Alberto Contador um dos que iria ser um homem de confiança para a alta montanha e o espanhol não escondeu a surpresa. Já o director da equipa, Luca Guercilena, garantiu que os seus ciclistas estão focados no Tour e que Haimar Zubeldia, chamado à última hora para substituir o português, está pronto para ajudar o líder.

"Foi uma grande surpresa. Nunca pensei que algo como isto pudesse acontecer na nossa equipa", afirmou Alberto Contador durante a conferência de imprensa desta sexta-feira. O ciclista espanhol acrescentou: "A equipa é muito clara sobre este tipo de coisas. Temos uma política de tolerância zero sobre o doping, mas temos de esperar até ao final do processo. Não podemos controlar tudo dentro da equipa."

O resultado foi anunciado pela UCI na terça-feira, o que levou à suspensão imediata de André Cardoso. O corredor de Gondomar já pediu a contra-análise. Se der positiva, o ciclista poderá ser suspenso até quatro anos. De recordar que Alberto Contador também já esteve envolvido num caso de doping. Ficou conhecido como o "bife à Contador", pois o ciclista defendeu-se do positivo dizendo que tinha consumido um bife contaminado. A decisão final demorou, mas o espanhol acabou suspenso, tendo sido retirada a vitória no Tour de 2010 e no Giro de 2011, este último competiu enquanto esperava pela sanção.

Como se pode calcular, na Trek-Segafredo não se quer falar muito sobre o assunto até que seja conhecido o resultado da contra-análise, que André Cardoso pediu para ser realizada rapidamente. "Não vamos perder tempo a discutir isso. Estamos focados na corrida e em alcançar um bom resultado", realçou Luca Guercilena.

Quanto à chamada do veterano de 40 anos, Haimar Zubeldia, o responsável afirmou que a equipa, tal como as outras, tem os pré-convocados e mesmo depois de anunciar os eleitos, os excluídos ficam em stand-by para colmatar qualquer problema que possa levar a uma chamada tardia. Ou seja, os 12 foram preparados para o Tour, o que significa que Zubeldia estará pronto para enfrentar a dura corrida.

Mas se os líderes não quiseram prolongar-se nas declarações sobre a situação de André Cardoso, já Koen de Kort não se poupou nas palavras e disse mesmo que a confirmar-se o positivo, nunca mais quer ver o corredor português. "Não consigo acreditar. Tenho esperança que a contra-análise seja negativa porque não consigo imaginar que se possa ser tão estúpido", disse ao Cycling News. O holandês mostra-se satisfeito pelos testes estarem a apanhar quem não respeita as regras, mas confessa os sentimentos mistos por se tratar de um colega de equipa que está em causa.

"Não podes ser tão estúpido e tomar EPO. Todos sabem que já não é possível porque os testes estão muito bons. Não é possível. Recorrer a qualquer doping é ridículo, mas à EPO é algo que me ultrapassa", disse.

Kort, que será um dos braços direitos de John Degenkolb nos sprints, recordou como em 2009 preferiu deixar o World Tour - estava na Astana - e ir para uma equipa de escalão inferior por não gostar do que estava a ver. Disse mesmo que chegou a estar desiludido com o ciclismo e que estar numa formação mais pequena acabou por ser decisivo para recuperar a confiança.

"Acredito que 99% do pelotão está limpo. Claro que ainda há alguns ciclistas por aí que não sabem, não se pode mudar... Esperemos que arranjem emprego fora do desporto. Se ele [André Cardoso] tomou realmente EPO, então espero nunca mais o ver." Palavras duras de Koen de Kort, mas para já, todos estão à espera do resultado da contra-análise.

Além das declarações de membros da Trek-Segafredo, Oleg Tinkov também não conseguiu ficar calado. Deixou insinuações através do Twitter que teria havido uma troca de sangue entre Cardoso e Contador... O russo não perde uma oportunidade para atacar o espanhol...

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27 de junho de 2017

André Cardoso acusa EPO. Foi suspenso e diz adeus à Volta a França

André Cardoso preparava-se para viver um sonho que há muito ambicionava realizar: estar na Volta a França. Seria a sua estreia, sendo que teria o papel de estar ao lado de Alberto Contador. Porém, a UCI divulgou hoje que o ciclista português testou positivo a substância Eritropoetina, mas conhecida por EPO. Foi suspenso, numa decisão já confirmada pela sua equipa, Trek-Segafredo.

Segundo o comunicado da União Ciclista Internacional (UCI), a amostra em causa foi recolhida fora da competição, a 18 de Junho, uma semana depois de André Cardoso ter terminado na 19ª posição o Critérium du Dauphiné. Nessa corrida, o gondomarense mostrou que poderia ser um ciclista importante na ajuda a Alberto Contador na Volta a França, que começa no sábado.

O ciclista já pediu a contra-análise, mas irá ficar suspenso até ser conhecido o resultado. Se se confirmar o positivo, André Cardoso arrisca uma pena pesada. Recentemente, a UCI suspendeu Giampaolo Caruso por dois anos. O italiano também testou positivo por EPO, num caso que acabou por se arrastar durante cinco anos.

"É com um profunda desilusão que acabámos de ser informados que o nosso ciclista, André Cardoso, testou positivo uma substância proibida. De acordo com a nossa política de tolerância zero, ele foi imediatamente suspenso", lê-se no comunicado da Trek-Segafredo. A equipa escreve ainda que irá agir de acordo com os detalhes que receber. Se a contra-análise for positiva, o mais provável é que André Cardoso veja o seu contrato ser terminado, como normalmente acontece nestas situações.

Depois de quatro anos na estrutura da actual Cannondale-Drapac, André Cardoso (32 anos) mudou-se para a outra formação americana. Na Trek-Segafredo, o português teve sempre a ambição de conseguir ser um dos homens de confiança de Alberto Contador no Tour. Na antiga equipa participou em sete grandes voltas, quatro Vueltas e três Giros. Apesar de ser sempre um ciclista de trabalho, o pior resultado de Cardoso na geral foi o 25º lugar na Vuelta de 2015. O melhor foi o 14º na Volta a Itália do ano passado. Em 2011, ao serviço do Tavira, André Cardoso venceu uma etapa na Volta a Portugal, na chegada à Torre. No domingo, o ciclista esteve na sua terra a competir nos Nacionais. Foi ele quem desenhou o percurso da prova de estrada em Gondomar. Acabou por abandonar, pois ao perder contacto com a frente da corrida começou a pensar em poupar forças para o Tour. O vencedor foi o seu colega de equipa, Ruben Guerreiro.

A Trek-Segafredo chamou o veterano espanhol Haimar Zubeldia (40 anos) para substituir o André Cardoso na equipa para o Tour.

Eritropoetina (EPO) ajuda a aumentar a produção de glóbulos vermelhos no sangue. Tal permite que mais oxigénio chegue aos músculos, o que contribui para uma melhor performance desportiva. Esta substância tem sido a mais falada em casos de doping no ciclismo nas décadas de 80 e 90 e também no início do século.

André Cardoso pede que não o julguem demasiado rápido

Entretanto, o ciclista português já reagiu à informação da UCI. Numa mensagem escrita em inglês na sua página de Facebook, André Cardoso nega ter recorrido à EPO e pediu que a contra-análise seja feita o mais rapidamente possível.

"Estava ansioso para dar o meu melhor pela equipa e por mim no Tour. Acredito num desporto limpo e sempre agi como um atleta limpo, mas tenho a noção que as notícias colocam uma nuvem negra não só sobre mim, mas também no desporto e na equipa, colegas e staff", lê-se no texto que publicou.

Cardoso afirma ainda estar consciente que será visto como culpado, realçando que está devastado pela notícia. "Nunca tomei substâncias ilegais", frisou. Acrescentou: "Espero que aqueles que me conhecem, que confiem em mim quando digo que estou inocente e que os meus colegas e fãs não me julguem demasiado rápido nesta altura tão difícil."

Leia em baixo a mensagem completa.


(Texto actualizado às 23:00 com a declaração de André Cardoso no Facebook.)

»»Equipa do português Daniel Silva suspensa pela segunda vez este ano««

»»Bardiani-CSF suspensa 30 dias devido aos casos de doping««

13 de junho de 2017

Bardiani-CSF suspensa 30 dias devido aos casos de doping

(Fotografia: Facebook Bardiani-CSF)
A questão era apenas saber quanto tempo seria. A Bardiani-CSF sabia que não iria escapar a uma suspensão depois de ter dois ciclistas seus a acusar positivo em testes de doping. A regra é clara e aponta que dois casos em 12 meses valerá uma suspensão que pode ir até 45 dias. A equipa italiana irá cumprir 30. A UCI anunciou que a sanção será cumprida entre 14 de Junho e 14 de Julho, o que afasta a formação da Volta à Áustria.

Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni foram afastados do Giro na noite antes da corrida começar. Os dois ciclistas italianos eram as duas principais figuras da equipa e ainda estiveram presentes na apresentação antes da notícia ser conhecida. O controlo anti-doping foi feito em Abril e ambos testaram positivo de uma substância hormonal que permitiria a uma melhor recuperação física. A contra-análise pedida pelos corredores confirmou o resultado. A Bardiani-CSF despediu imediatamente Pirazzi e Ruffoni. Este último explicou que acredita que em causa está num problema que teve na próstata que o obrigou a tomar antibióticos.

Este caso veio agravar a crise de confiança no ciclismo italiano em termos de equipas. O país ficou sem formações no World Tour com a saída do patrocinador Lampre - a estrutura foi vendida à actual UAE Team Emirates - ficando com as quatro no escalão Profissional Continental, além de outras no Continental. Só duas foram convidadas para o Giro, o que provocou uma grande polémica e a situação da Bardiani-CSF deixou o director da corrida, Mauro Vegni furioso com os casos, ainda que a equipa tivesse conquistado o seu convite depois de ter ganho a Taça de Itália em 2016.

Vegni ameaçou a Bardiani-CSF com um possível processo legal caso os contra-análises fossem positivas, mas para já o maior problema para a equipa italiana é a nível desportivo. Com os patrocinadores a escassearem no país, teme-se o pior, ainda que os responsáveis já tenham dado garantias que a equipa irá continuar.

Falta agora conhecer a sanção de Pirazzi (30 anos) e de Ruffoni (26), que neste momento estão suspensos preventivamente. O último foi o responsável por duas das três vitórias da equipa este ano.

A Bardiani-CSF já reagiu à suspensão anunciada pela UCI, revelando que não irá recorrer. Porém, considera a pena pesada, criticando uma "regra que penaliza aqueles que não têm responsabilidades, como a equipa e os outros ciclistas, perante as deploráveis acções de pessoas insensatas." No comunicado lê-se ainda que os responsáveis da Bardiani-CSF consideram que dado os danos que a formação sofreu tanto a nível de imagem como desportivamente durante o Giro - onde competiu com apenas sete ciclistas -, que a sanção deveria ter sido mais reduzida.


24 de maio de 2017

Equipa do português Daniel Silva suspensa pela segunda vez este ano

(Fotografia: Facebook Team Soul Brasil)
A Soul Brasil (antiga Funvic) vai cumprir 35 dias de suspensão, depois de mais dois casos de doping na equipa brasileira. Este ano, a formação que conta com o português Daniel Silva, já tinha estado afastada da competição durante 55 dias - uma parte ainda em 2016 - por três ciclistas terem dado positivo em testes anti-doping, dois deles durante a Volta a Portugal. A nova suspensão será cumprida entre 15 de Julho e 19 de Agosto, segundo anunciou a UCI.

Em causa estão irregularidades com o passaporte biológico de Alex Correia Diniz e com uma alegada manipulação após um teste anti-doping de Otavio Bulgarelli. Este último caso foi denunciado ao organismo internacional pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem. Nenhum dos ciclistas está actualmente com a Soul Brasil. Bulgarelli, de 32 anos, (campeão brasileiro em 2012) competiu pela última vez na Volta a Portugal, tendo abandonado na terceira etapa. Diniz, 31, não está em acção desde a Volta ao Lago Taihu, na China, em Novembro. Este ciclista tinha cumprido dois anos de suspensão, depois de ter testado positivo pelo uso de EPO em 2009.

Em Dezembro a equipa foi suspensa por 55 dias, depois de se conhecer que Wilson Ramiro Diaz e João Gaspar deram positivo em testes realizados na Volta a Portugal. O colombiano foi o vencedor da classificação da montanha. Estes testes positivos juntaram-se ao de Kleber Ramos, que realizou um antes dos Jogos Olímpicos, mas o resultado só foi conhecido depois.

A equipa contratou este ano o terceiro classificado da Volta a Portugal, Daniel Silva, que aos 31 anos escolheu ir para uma equipa estrangeira depois de seis anos na estrutura da actual Rádio Popular-Boavista. Todos estes casos estão a manchar a imagem de uma equipa que vai perdendo crédito, apesar de ter a licença Profissional Continental. Após a primeira suspensão conseguiu estar na Volta a Catalunha, muito devido ao facto de ter um catalão no seu plantel. Jordi Simón - terceiro classificado nos Nacionais em 2016 - foi o único ciclista da formação a terminar a corrida na Catalunha.

Esta segunda suspensão deve-se por serem dois casos e as regras da UCI determinam que quando há mais do que um caso de doping durante o ano, as equipas incorrem numa sanção que poderá afastá-las das competições de 15 dias a 12 meses.


20 de maio de 2017

Jan Ullrich e o regresso ao ciclismo por quatro dias

(Fotografia: Wikimedia Commons)
Jan Ullrich, director desportivo da Volta à Colónia. A notícia provocou uma tempestade no ciclismo. O regresso do ciclista que venceu a Volta a França em 1997, mas que acabaria mais tarde por admitir que tinha recorrido a substâncias dopantes durante a carreira, acabaria por ser curto. Não suportou as críticas de que foi alvo, vindas, disse, principalmente dos meios de comunicação social. Quatro dias depois, demitiu-se.

O alemão é uma daquelas figuras que gera sentimentos contraditórios na modalidade. Por um lado foi um dos ciclistas que muito espectáculo deu na segunda metade da década de 90 e no início do século. Os seus confrontos, primeiro com Marco Pantani e depois com Lance Armstrong, marcaram uma era. Infelizmente também o doping.

Depois de se retirar em 2007, Ullrich teve algumas participações esporádicas no ciclismo, como a função de aconselhamento numa equipa continental austríaca. O cargo de director desportivo da Volta à Colónia parecia ser o seu grande regresso, mas... "Muitos fãs, patrocinadores e media reagiram de forma muito positiva. No entanto, alguma imprensa não conseguiu lidar com isso. Por isso, depois de conversar com os organizadores da corrida, decidi deixar o cargo. Não quero provocar danos à corrida. O cargo de director desportivo irá ficar livre este ano", escreveu Ullrich no seu Facebook.

O passado ligado a uma época negra do doping no ciclismo é algo indissociável de Ullrich. Essa foi a grande questão levantada em vários meios de comunicação social. De recordar que em 2006 o nome do ciclista alemão surgiu no caso chamado Operação Puerto. Foi barrado do Tour nesse ano, juntamente com outros ciclistas também envolvidos no que viria a ser um dos maiores escândalos de doping que afectou a modalidade, apesar de atletas de outros desportos também terem recorrido ao médico Eufemiano Fuentes.

Ullrich sempre desmentiu ter recorrido a substâncias dopantes. Foi despedido da T-Mobile e em 2007 anunciou o fim da carreira. "Nunca fiz batota", disse no discurso de despedida. Porém, em 2012 acabou por admitir que tinha de facto recorrido aos serviços de Fuentes, mas defendeu-se dizendo que o fez para lutar de igual com os outros ciclistas, já que era uma prática recorrente no pelotão. A admissão surgiu depois de ter sido considerado culpado pelo Tribunal Arbitral do Desporto, tendo sido eliminados todos os seus resultados desde Maio de 2005.

No entanto, o doping fez parte da carreira de Ullrich. Chegou a confessar que quando venceu as medalhas de ouro e prata nos Jogos Olímpicos de Sydney (2000) - na prova de estrada e no contra-relógio - também tinha tomado substâncias dopantes. Ao contrário de Lance Armstrong, que devolveu a medalha de ouro do contra-relógio ao Comité Olímpico, Ullrich disse que nunca o faria, justificando novamente que o doping era generalizado. Nunca foi obrigado a devolver as medalhas, pois essas vitórias não lhe foram retiradas.

Desportivamente ficarão na história as batalhas com Pantani. Ganhou o Tour em 1997, com o italiano a ser terceiro, atrás de Richard Virenque. Perdeu no ano seguinte para o Pirata e iniciaria uma colecção de segundos lugares. Somaria mais três, sempre batido por Lance Armstrong. Seria ainda terceiro em 2005. Quando o americano ficou sem as sete vitórias no Tour, Ullrich não foi declarado o vencedor. Dada as suspeições sobre praticamente todo o pelotão daquela época, a decisão foi deixar aquelas anos, de 1999 a 2005, sem vencedor.

Ullrich foi ainda duas vezes campeão do mundo de contra-relógio e venceu a Volta a Espanha, em 1999. Foi considerado um herói na Alemanha, mas o doping não só lhe arruinou a reputação e a carreira, como ainda foi uma das razões que no país se voltou as costas ao ciclismo, chegando ao ponto da televisão estatal nem transmitir a Volta a França. Só recentemente a Alemanha começou a fazer as pazes com a modalidade, mas este regresso de Ullrich apenas serviu para recordar uma era que os alemães querem deixar enterrada no passado.


19 de maio de 2017

Contra-análise positiva. Pirazzi e Ruffoni despedidos da Bardiani-CSF que enfrenta suspensão e possível expulsão do Giro

"Eu sei que os organizadores estão sob pressão para nos mandar para casa, mas a culpa não é da equipa. Se alguém provar que eu aconselhei os meus ciclistas a doparem-se, então podem rasgar a minha licença." O director da Bardiani-CSF teme o pior. A confirmação do positivo das contra-análises de Pirazzi e Ruffoni chegou antes da etapa 13 da Volta a Itália. Bruno Reverberi deixou o apelo para que não castiguem a equipa por aquilo que diz ter sido um disparate de dois ciclistas, não acreditando na versão de ambos, que dizem não terem tomado nada proibido intencionalmente. "Já ouvi esse disparate demasiada vezes", desabafou Reverberi à Gazzetta dello Sport. Stefano Pirazzi (30 anos) e Nicola Ruffoni (26) foram afastados no dia antes do Giro começar, horas depois da cerimónia da apresentação, na qual ainda participaram. Hoje foram despedidos e ficam com a carreira em risco, pois arriscam uma pesada suspensão.

Ao conhecer os resultados da contra-análise, a Bardiani-CSF informou de imediato que tinha iniciado o processo de despedimento e que "reserva o direito de proceder legalmente contra Pirazzi e Ruffoni para proteger a imagem da equipa e dos patrocinadores". Porém, Reverberi questiona como é possível quantificar os danos provocados pelos dois casos de doping de dois dos principais ciclistas da formação italiana. O responsável pela formação não consegue esconder a tristeza: "Estou desfeito, apetece-me chorar. Só consigo pensar nos patrocinadores que nunca nos pressionarem para obter resultados. Quero desistir. O ciclismo é a minha paixão. Tenho 75 anos e esta está a ser a minha 36ª Volta a Itália. Que diferença me faz mais uma vitória?"

O pesadelo pode muito bem estar apenas a começar. Um efeito imediato poderá ser a expulsão do Giro, ainda que até ao momento não houve qualquer comentário por parte da organização da corrida sobre a contra-análise. O director da prova, Mauro Vegni, não o fez logo quando se teve conhecimento dos casos para evitar problemas legais caso as contra-análises fossem negativas. Porém, afirmou na altura que poderia processar a Bardiani-CSF por danos causados à imagem do Giro. E este poderá ser o segundo problema para a equipa do escalão Profissional Continental. A formação poderá enfrentar um processo no qual arrisca ter de pagar uma elevada compensação à organização do Giro.

O terceiro problema, e esse deverá ser rapidamente conhecido, é a mais que provável suspensão por parte da UCI que poderá ser até 45 dias, por ter tido dois casos positivos de doping. E este ano já três equipas foram suspensas: a brasileira Funvic, também do segundo escalão, e as continentais Elkov-Author (República Checa) e Pishgaman (Irão).

Quanto a Pirazzi e Ruffoni podem ter de enfrentar o final da carreira. Ambos testaram positivo por uma substância que estimula o crescimento hormonal dos ciclistas, permitindo uma melhor recuperação e ganho de massa muscular. Há um exemplo recente: a colombiana Maria Luisa Calle deu positivo em 2015 por uma substância idêntica e cumpre uma suspensão de quatro anos.

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6 de maio de 2017

Ruffoni defende-se: "Nunca tomei substâncias proibidas. Vou defender a minha credibilidade até ao fim"

(Fotografia: Facebook Nicola Ruffoni)
48 horas depois do choque que provocou a notícia de que dois ciclistas italianos estavam fora do Giro na noite antes da corrida arrancar devido a casos de doping, um dos corredores da Bardiani-CSF em causa quebrou o silêncio. Nicola Ruffoni, 26 anos, diiz que não compreende o que se passou, sugerindo que poderá estar relacionado com um problema na próstata que o obrigou a tomar antibióticos, dias antes de a amostra de urina ter sido recolhida. O ciclista, de 26 anos, admitiu que tem a carreira em risco e que, por isso mesmo, vai lutar com tudo o que tem para provar a sua inocência, ainda que nem a equipa pareça acreditar nela.

"Eu nunca, nunca, durante a minha carreira tomei substâncias proibidas. Estou a tentar encontrar explicações sobre o que poderá ter acontecido no último mês antes do teste", escreveu Ruffoni numa mensagem publicada no Facebook. O italiano salienta que não mudou a sua dieta, nem o estilo de vida e perante a sua desconfiança que em causa poderá estar os antibióticos que tomou quando teve o problema na próstata, entre 20 de Março e 20 de Abril, Ruffoni referiu que irá consultar um endocrinologista para tentar confirmar a sua tese.

No entanto, para já resta ao ciclista aguardar pelo resultado da contra-análise: "Vou esperar calmamente e tentar defender a minha credibilidade até ao fim." "Sei que a minha carreira está em risco, mas também sei que não tentei fazer batota", acrescentou o ciclista.

De momento Ruffoni está suspenso provisoriamente até ser conhecida a contra-análise. O mesmo acontece com Stefano Pirazzi, que também testou positivo a mesma substância hormonal. Este último ainda não falou sobre o caso. Ambos os ciclistas ainda estiveram na apresentação da Bardiani-CSF no dia antes do início do Giro100. Ao ser conhecida a suspensão, ambos não mais foram vistos, tendo saído da Sardenha sem ter falado sobre o assunto. Já o director desportivo da equipa, Stefano Zanatta, acusou os dois ciclistas de não compreenderam o trabalho que ali se realiza, confessando que ficou de tal forma zangado que até chorou.

A Bardiani-CSF garantiu o convite para o Giro ao vencer a Taça de Itália em 2016, mas correu o risco de ser expulsa devido aos dois casos de doping. Mauro Vegni, director da corrida, optou por manter a equipa na prova, já que caso as contra-análises sejam negativas, poderia enfrentar um processo judicial. Porém, Vegni ameaça fazer isso mesmo à Bardiani-CSF, se as contra-análises forem positivas. A equipa italiana tem ajudado a evoluir alguns ciclistas italianos, que conseguiram chegar ao World Tour, como Sonny Colbrelli, Sacha Modolo e Domenico Pozzovivo. Perante a suspensão de Pirazzi e Ruffoni, a Bardiani-CSF está a fazer o Giro apenas com sete ciclistas.


5 de maio de 2017

Doping. Director do Giro resistiu à tentação de expulsar a Bardiani-CSF. Responsável da equipa ficou tão furioso que até chorou

Alguns adeptos quiseram tirar fotografias com os ciclistas da Bardiani,
algo que os animou depois do choque da noite anterior
(Fotografia: Twitter Bardiani-CSF)
Vontade não faltou a Mauro Vegni. O director da Volta a Itália optou esperar e não expulsar a Bardiani-CSF da competição quando soube dos testes positivos de doping de Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni. Vegni vai aguardar para conhecer o resultados das contra-análises antes de agir. Esta decisão fez com que a equipa se mantivesse no Giro, ainda que tenha partido apenas com sete corredores. Porém, o responsável deixou o aviso que caso o resultado volte a ser positivo poderá processar a equipa. Do outro lado está um director desportivo furioso com o que aconteceu. Antes do arranque da primeira etapa admitiu que até chorou.

"Em teoria eu poderia tê-los mandado para casa. No entanto, decidi esperar pelos resultados da contra-análise porque se vier negativa eu poderia enfrentar um processo legal por queixa deles [Bardiani-CSF]", explicou Mauro Vegni. O responsável acrescentou que "o mal está feito" e que agora irá ver quais "serão as reais consequências quando se chegar ao final do processo". "Se chegarmos ao fim do Giro e os [testes] positivos forem confirmados, eu posso processá-los por danos", salientou.

Pirazzi e Ruffoni foram suspensos provisoriamente pela UCI até serem conhecidos os resultados da contra-análise. Porém, este poderá ser apenas o início de um pesadelo para a Bardiani-CSF. A equipa não se livra de no imediato estar a competir sob suspeita, ainda que no início da corrida esta sexta-feira, os ciclistas não foram alvos de comentários, assobios, nenhuma atitude mais ofensiva. Pelo contrário, alguns adeptos até pediram aos sete corredores para tirarem umas fotografias. No entanto, se provavelmente se livrou de uma expulsão do Giro, caso se confirme as duas análises de doping, a Bardiani-CSF pode ser suspensa entre 15 a 45 dias, já que são dois ciclistas da mesma equipa. Pode enfrentar um processo na justiça por parte da organização da Volta a Itália e perante os problemas que as equipas naquele país estão a ter para garantir patrocinadores, cresce o receio da Bardiani-CSF  correr o risco de fechar portas, apesar de no momento o discurso ser que há um apoio total de quem a patrocina.

Ainda é cedo para especular algo tão radical, pois para já a preocupação de Stefano Zanatta, director da equipa, é garantir que a imagem da Bardiani-CSF não fique demasiado manchada. Zanatta salientou que esta é uma equipa de formação, que tenta ajudar jovens italianos para que estes possam chegar a equipas do World Tour, como aconteceu este ano com Sonny Colbrelli.

Zanatta falou ainda sobre o choque que foi receber a notícia dos dois casos de doping. "Eles [Pirazzi e Ruffoni] não percebem o projecto que temos. Ontem à noite não falei muito com eles porque estava muito zangado. Trabalhámos tanto nesta equipa e tenho a certeza que as pessoas estão a dizer coisas más sobre nós", desabafou. Zanatta confessou mesmo que ficou muito emocionado com tudo o que estava a acontecer, de tal forma que até chorou.

O trabalho de Zanatta é reconhecido por Vegni que também refere a importância que a Bardiani-CSF tem no ciclismo italiano. O director do Giro considera que não é só a imagem da corrida que pode ficar manchada, mas também a do ciclismo italiano. 

Colbrelli foi o mais recente ciclista a "dar o salto" para o World Tour depois de ter evoluído na Bardiani-CSF. Assinou pela Bahrain-Merida e já começou a somar vitórias. Mas o historial desta equipa comprova como tem um grande peso no ciclismo transalpino. Por lá passaram Sacha Modolo (UAE Team Emirates), Domenico Pozzovivo (AG2R), Enrico Battaglin (Lotto-Jumbo) e Gianluca Brambilla (Quick-Step Floors).

Apesar de ser um ciclista que se mostra muito nas corridas em que participa, Stefano Pirazzi (30 anos). nunca passou para o World Tour, mas construiu uma carreira na equipa italiana, que faz dele um dos ciclistas mais populares no país. Já Ruffoni esteve em destaque em 2016 com três vitórias e já este ano conquistou duas etapas na Volta à Croácia. Esses dois triunfos não estão em causa, pois as amostras recolhidas aos ciclistas realizaram-se no dia 25 e 26 de Abril, respectivamente, ou seja, já depois do final da corrida.

4 de maio de 2017

Dois ciclistas da Bardiani-CSF suspensos a horas do arranque da Volta a Itália

Ciclistas felizes na apresentação da Bardiani-CSF. A má notícia chegaria
horas mais tarde. (Fotografia: Twitter Giro d'Italia)
A Bardiani-CSF ainda nem começou a Volta a Itália e já está com grandes problemas. Dois dos seus principais ciclistas foram suspensos depois da UCI anunciar que os resultados dos testes de doping feitos a 25 e 26 de Abril deram positivo de uma substância hormonal. Há poucas horas Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni estiveram no palco numa espectacular apresentação das equipas, na Sardenha, e agora não vão sequer partir para o Giro, a corrida que provavelmente mais queriam estar nas suas carreiras.

Num comunicado a UCI recorda que ambos os ciclistas podem pedir uma contra-análise, mas realça que dado que os casos de doping terem acontecido na mesma equipa, a Bardiani-CSF enfrenta agora uma suspensão que pode ir de 15 a 45 dias. O caso será remetido para a Comissão Disciplinar do organismo, que irá determinar a sanção à formação italiana, do escalão Profissional Continental.

Na altura em que este texto é publicado a Bardiani-CSF ainda não reagiu a esta situação. Para já terá de partir com apenas sete ciclistas, perdendo dois de quem esperaria alcançar bons resultados. Stefano Pirazzi (30 anos) é um dos ciclistas mais populares em Itália, tendo até um clube de fãs. Em 2013 venceu a classificação da montanha no Giro e no ano seguinte conquistou uma etapa. Entrar em fugas é uma especialidade sua. Nicola Ruffoni (26) venceu duas tiradas na recente Volta à Croácia e tinha o objectivo de discutir os sprints.

A Bardiani-CSF recebeu automaticamente um dos convites para estar no Giro100, pois foi a vencedora da Taça de Itália em 2016. De recordar, que das quatro equipas Profissionais Continentais italianas, duas (Androni Giocattoli e Nippo-Vini Fantini) não receberam o convite, o que causou muita polémica (ver link em baixo). Isto significa que além de Itália não ter neste momento qualquer equipa no World Tour, depois da Lampre-Merida ter sido vendida à UAE Team Emirates, uma do segundo escalão vai estar no Giro com menos ciclistas e inevitavelmente a ter de lidar com as suspeições que situações destas criam. Não era certamente assim que a organização desta edição tão especial queria começar a corrida. Nem a organização, nem qualquer pessoa que goste desta modalidade.