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5 de novembro de 2018

Burgos-BH pode ser suspensa após dois casos de doping. Há ainda um terceiro processo a decorrer

(Fotografia: Facebook Burgos-BH)
A Burgos-BH poderá não escapar a uma suspensão depois de dois ciclistas da equipa terem sido suspensos por doping, num período de 12 meses. O regulamento determina que esta situação pode resultar numa suspensão entre 15 a 45 dias. O caso está agora na Comissão Disciplinar da UCI, que irá decidir o tempo da suspensão.

Ibai Salas (27 anos) foi suspenso por quatro anos devido a irregularidades no seu passaporte biológico pela Organização Nacional de Anti-Doping espanhola, que informou a UCI do castigo. Em Dezembro, David Belda (35) tinha recebido igual sanção, mas por ter dado positivo por EPO. "Estes dois casos num período de 12 meses desencadeou a aplicação do artigo 7.12.1 do regulamento anti-doping da UCI que prevê a suspensão da equipa entre 15 a 45 dias", anunciou a UCI, em comunicado.

Porém, a equipa espanhola poderá ter ainda mais problemas, pois tem mais um ciclista suspenso provisoriamente. Igor Merino (28) aguarda pela resolução do caso, que se iniciou após uma análise positiva por uma hormona de crescimento. Se houver uma confirmação da suspensão, a Burgos-BH irá incorrer em nova sanção, com uma agravante. A equipa pertence ao Movimente por um Ciclismo Credível, que prevê uma suspensão em caso de um terceiro caso de doping.

O arranque de temporada poderá ficar em causa devido aos positivos de Belda e Salas, dois ciclistas que representavam a equipa há seis e cinco temporadas, respectivamente. Belda foi despedido após ser conhecida a suspensão. Merino também cumpriu este ano a sua quinta época na equipa.

A Burgos-BH subiu ao escalão Profissional Continental em 2018, o que lhe abria as portas a um convite para a Vuelta, que se confirmou. O caso de Salas chegou a ameaçar essa presença, mas a intervenção do Tribunal Arbitral do Desporto deixou então a equipa a respirar de alívio.

Nos casos recentes que resultaram em suspensões, o destaque vai para a equipa brasileira Funvic, que recebeu duas sanções devido aos vários casos de doping detectados. A segunda foi de 35 dias, depois de um castigo de 55. A italiana Bardiani-CSF cumpriu 30 dias longe das corridas, depois de dois ciclistas terem sido suspensos no dia antes do arranque da Volta a Itália, no ano passado, com as contra-análises a confirmarem o primeiro resultado de Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni. Ambos foram acusados de recorrer a uma substância hormonal que permitia uma melhor recuperação física.

Não foi uma temporada feliz para a Burgos-BH que contou com o português José Mendes nas suas fileiras. A única vitória foi na Volta ao Lago Qinghai, na China, por intermédio do espanhol Daniel López. Na Vuelta, alguns ciclistas entraram em fugas, mas foi uma exibição pálida da formação na grande volta.

No início de Outubro, quando a UCI divulgou a lista das equipas que tinham pedido licença para o escalão Profissional Continental para 2019, o nome da Burgos-BH não apareceu, o que não significa que não a venha a obter.

A suspensão da UCI poderá fazer com que a equipa falhe as corridas de um dia que marcam o arranque de temporada em Espanha. O futuro de José Mendes ainda não é conhecido (poderá regressar a Portugal), mas haverá outro português na equipa, com Ricardo Vilela a ser dado como reforço. Irá assim reencontrar Jetse Bol, holandês de quem foi companheiro na Manzana Postobón, mas que em Agosto deixou a equipa colombiana para rumar à Burgos-BH.

O sprinter britânico Matthew Gibson (22 anos, ex-JLT Condor), o espanhol Manuel Peñalver (19, Trevigiani Phonix-Hemus 1896) e o compatriota Ángel Madrazo (30, Delko Marseille Provence KTM, com passagem pela Movistar entre 2009 e 2013) foram contratados para o próximo ano.

A equipa vai continuar com dois ciclistas bem conhecidos no pelotão português: Diego Rubio (ex-Efapel) e Jesús Ezquerra, que representou o Sporting-Tavira e venceu uma etapa da Volta a Portugal em 2016.


7 de setembro de 2018

Suspenso por suspeita de doping, Siutsou diz que não percebe o que está a acontecer

(Fotografia: © Bahrain-Merida)
Kanstantsin Siutsou mostra-se surpreendido com o resultado positivo de EPO, que resultou numa suspensão provisória por parte da UCI. O ciclista da Bahrain-Merida diz que não compreende o que se está a acontecer, tendo divulgado os resultados do seu passaporte biológico. Todos mostram que são válidos até ao teste feito a 31 de Julho, fora de competição. Aos 36 anos, Siutsou está em final de contrato com a actual equipa, que também já o suspendeu e afirmou que tinha revelado em Junho ao bielorrusso que o vínculo não seria renovado.

A UCI revelou na quarta-feira que Siutsou tinha um resultado anómalo de EPO ou eritropoietina. Esta substância dá direito a uma suspensão provisória imediata, com o ciclista a ter agora o direito de pedir a contra-análise. Siutsou reagiu no Instagram numa mensagem num inglês quase incompreensível. "Não percebo", começa por escrever, terminando a dizer que poderá processar. Aos 36 anos o ciclista parecia estar a viver uma nova fase muito boa da carreira, tendo ganho a Volta à Croácia, o que elevou as expectativas para o Giro, onde estaria ao lado de Domenico Pozzovivo. No entanto, o bielorrusso caiu no reconhecimento do contra-relógio inaugural em Jerusalém e nem partiu para a corrida. A sua última competição foi a Clássica de San Sebastian, prova que não terminou.

Antes de assinar pela Bahrain-Merida por duas temporadas, Siutsou representou a Dimension Data (uma época), a Sky (quatro) e a HTC (quatro) no World Tour, tendo estado alguns anos no escalão Profissional Continental. O director da sua actual equipa, Brent Copeland, afirmou em comunicado: "Esta notícia é terrível, decepcionante. Nós somos muito severos com qualquer desrespeito pelo nosso código de saúde interno. Este comportamento não é aceitável na nossa equipa e mais procedimentos serão tomados contra o ciclista."

Siutsou vê agora a sua carreira em risco, com a própria equipa a não demonstrar qualquer tipo de apoio ao ciclista.


»»Xuban Errazkin com resultado anómalo de substância para a asma««

»»Froome e as (poucas) explicações sobre a conclusão do processo««

15 de agosto de 2018

Xuban Errazkin com resultado anómalo de substância para a asma

Errazkin foi o vencedor da classificação da juventude da Volta a Portugal
(Fotografia: PODIUM/Paulo Maria)
Uma das figuras da Volta a Portugal deu positivo duas vezes por uma substância para a asma. Os resultados são de amostras recolhidas a Xuban Errazkin durante o Grande Prémio Abimota, segundo o jornal Record, com os testes a detectarem a presença de terbutalina, algo idêntico ao salbutamol, do caso Chris Froome. O ciclista afirmou que enviou toda a documentação necessária para provar que nada fez contra os regulamentos, salientando ainda que há muito tempo que está a receber tratamento para a asma e que nunca teve qualquer problema.

As análises feitas pela Agência de Antidopagem de Portugal (ADoP) foram a amostras recolhidas na competição que decorreu entre 13 e 17 de Junho, muito antes da Volta a Portugal. Errazkin venceu a quarta etapa do Grande Prémio Abimota, além da classificação da juventude. A terbutalina é uma substância utilizada para o tratamento da asma e, tal como o salbutamol, não acarreta suspensão imediata, pelo que o espanhol da Vito-Feirense-BlackJack poderá continuar a competir até que seja anunciada a resolução do caso. Errazkin ficou de fora da equipa espanhola que estará no Tour de l'Avenir, corrida também conhecida por Volta a França do Futuro, mas o seleccionador nega que a decisão esteja relacionada com este caso.

Pascual Momparler explicou ao site Ciclo21 que queria que os pré-seleccionados fizessem uma preparação tranquila, para chegarem a França a 100%. "[Errazkin] correu em várias provas que me disse que não ia competir e disputou a Volta a Portugal a top", salientou.

A exclusão de Errazkin tinha provocado algum espanto em Espanha e a notícia deste resultado anómalo está a ter grande repercussão, pois o ciclista é visto como um dos jovens talentos a despontar no ciclismo daquele país. "Tanto eu como a minha equipa decidimos enviar toda a documentação necessária antes de inclusivamente ter sido notificado pessoalmente do positivo. Além disso, há vários anos que estou a ser receber tratamento para a asma e nunca tive nenhum problema similar", afirmou Errazkin, citado pelo site Sprint Final.

Errazkin completa 22 anos no próximo dia 25 e tem estado a realizar uma época muito positiva. Além dos resultados no Abimota, já tinha vencido também a classificação da juventude na Volta à Comunidade de Madrid, ganha pelo companheiro da Vito-Feirense-BlackJack, Edgar Pinto. O jovem espanhol esteve na época passada na Rádio Popular-Boavista, depois de estagiar na então Wilier-Southeast, equipa italiana Profissional Continental. Foi uma das surpresas da Volta a Portugal ao aparecer ao lado do seu líder, precisamente Edgar Pinto, nas etapas de montanha, tendo acabado por entrar na disputa pela camisola branca, que vestiu nas Penhas da Saúde, para não mais a tirar.

O site Ciclo21 escreve que o processo irá agora ser analisado pela agência antidopagem espanhola, para ser decidida a sanção ao ciclista, ou então ilibar Errazkin.


4 de julho de 2018

Froome e as (poucas) explicações sobre a conclusão do processo

(Fotografia: Team Sky)
Antes de partir para França, onde irá poder competir sem ter o fantasma de um processo de possível doping por concluir, Chris Froome deu uma única entrevista sobre o pesadelo que viveu nos últimos meses. O jornal The Times revelou como o britânico e a equipa Sky conseguiram convencer a UCI a ilibar Froome. "Estas eram alegações graves. Para um atleta é difícil serem piores. É um pesadelo para um ciclista limpo. Foi um desafio a um nível que nunca tinha experimentando", afirmou o ciclista.

Num artigo citado no Cycling Weekly, a defesa baseou-se na tentativa de comprovar a probabilidade de um falso positivo no que diz respeito a alguém que toma regularmente medicamentos para a asma. Froome rodeou-se uma uma equipa legal e também de uma científica, que analisou os níveis de excreção do salbutamol - a substância que o ciclista acusou o dobro do permitido na Vuelta - nas outras amostras de urina de Froome , recolhidas durante a corrida espanhola. Foi então construído um modelo estatístico para mostrar as probabilidades de um falso positivo.

A UCI terá estudado este modelo e realizou as suas próprias experiências. Segundo o The Times, a conclusão foi que as probabilidades de um falso positivo eram "alarmantemente alta". Na defesa de Froome foram ainda incluídos argumentos do cientista responsável pelo limite estabelecido de salbutamol pela Agência Mundial de Antidopagem (AMA).

As explicações sobre a conclusão do processo de Chris Froome são ainda muito poucas, numa altura em que apesar do encerramento do caso, este foi recebida por alguns especialistas que têm falado aos meios de comunicação social com alguma desconfiança, nomeadamente sobre as repercussões que poderá ter no futuro. Apesar de Froome ter inicialmente afirmado que o processo iria ser divulgado, a Sky já esclareceu que a acontecer, terá de ser da parte da UCI ou da AMA e não da equipa ou ciclista.

Não há indicações quando ou se tal irá acontecer. Porém, para Froome, não só foi o fim de um pesadelo de mais de nove meses, como foi o restabelecer da sua imagem como um ciclista limpo. Na entrevista ao The Times confessou que nem queria acreditar quando recebeu o telefonema a confirmar que estava ilibado. O britânico sempre defendeu que nunca tinha feito nada de errado e como o salbutamol não acarreta uma suspensão provisória imediata, Froome continuou a competir, apesar das muitas críticas de que foi alvo, inclusivamente de outros corredores.

Um dia depois da ASO, organizadora do Tour, ter informado que iria proibir Chris Froome de competir na Volta a França, para assim salvaguardar a imagem da corrida, a UCI anunciou o fim do processo. Froome irá estar à partida no sábado da competição que quer conquistar pela quinta vez, depois de ter ganho a Vuelta e o Giro, resultados que estiveram em risco de ser anulados, mas fazem agora garantidamente parte do currículo do britânico.


2 de julho de 2018

E de repente há uma decisão: Froome foi ilibado

Esta imagem conta mesmo! Froome fica com a vitória na Vuelta
(Fotografia: La Vuelta)
Ainda se estava a tentar perceber as repercussões da ASO ter avançado para a tentativa de barrar Chris Froome da Volta a França e sai uma decisão algo inesperada. Até o presidente da UCI, David Lappartient, tinha repetido que dificilmente o processo do britânico estaria concluído antes do Tour, o que ajudou a provocar a acção da ASO. Porém, no dia seguinte, fica tudo bem... Talvez não, mas fica resolvido, o que era o que mais se desejava. Chris Froome foi ilibado, fica com a Vuelta, com a medalha de bronze no contra-relógios nos Mundiais e com o Giro. Agora vai tentar fazer um pouco mais de história, ou seja, ganhar um quinto Tour, o que significará ainda conquistar quatro grandes voltas de forma consecutiva.

Era sobre isto que mais se queria falar. Sobre a parte desportiva. Contudo, o arrastamento do processo, que se iniciou em Setembro, tornava impossível. Só que não vai ser tudo tão simples. No dia seguinte à ASO ter tomado medidas drásticas para que se parasse de viver na ilusão que estava tudo bem, a UCI coloca um ponto final no processo. Coincidência? No comunicado do organismo é explicado que a decisão de concluir o caso foi feita depois da recomendação da Agência Mundial Antidoping (AMA), pois dadas as provas analisadas pelos especialistas tanto da UCI, como da AMA, não se estava perante um resultado analítico adverso.

"A 28 de Junho de 2018, a Agência Mundial Antidoping informou a UCI que aceitaria, baseado nos factor do caso, que as amostras do senhor Froome não constituem um resultado analítico adverso. Dada o acesso sem paralelo da AMA à informação e autoria do regime do salbutamol, a UCI decidiu, baseada na posição da AMA, fechar os procedimentos contra o senhor Froome", lê-se no comunicado (pode ver neste link na íntegra, em inglês). O organismo afirmou ainda que gostaria de ter encerrado o processo mais cedo, mas quis dar a oportunidade de uma defesa justa por parte do ciclista, algo que diz que teria feito fosse quem fosse o corredor em causa.

De recordar que Froome acusou o dobro do permitido de salbutamol, ou seja, 2000 nanogramas por mililitro na amostra recolhida na 18ª etapa do Tour, a 7 de Setembro. O ciclista e a equipa foram informados do resultado a 20 de Setembro e em Dezembro este é conhecido publicamente através da divulgação feita pelo The Guardian e o Le Monde. Desde então que tem sido uma troca de palavras, com Froome e a Sky a defender o direito de competir - a substância utilizada por asmáticos não acarreta suspensão provisória imediata - e ciclistas, directores desportivos e organizadores a pedir uma resolução rápida do processo, com alguns a preferirem que o britânico tivesse optado por uma auto-suspensão. Em dois casos recentes, Alessandro Petacchi e Diego Ulissi acabaram suspensos apesar de ter sido detectado um valor menor ao de Froome.

Pelo meio de tantas críticas foi divulgado que a defesa de Froome estaria concentrada na possibilidade de mau funcionamento dos rins. Foi também publicado um estudo, em nada relacionado com a defesa do ciclistas, mas que veio mesmo a calhar, que revelava que a forma de analisar a substância em causa, poderia provocar falsos positivos.

A razão, ou razões específicas que levaram a UCI a encerrar o processo não são explicadas no comunicado, mas poderão ser conhecidas nos próximos dias. Se este ponto final é bem-vindo na perspectiva desportiva, não significa que se possa enterrar e esquecer este caso. É necessário rever os regulamentos para evitar situações idênticas, que só servem para levantar suspeitas sobre uma modalidade que já vive rodeada delas. Froome tem razão quando diz que a decisão "é um momento importante para o ciclismo", mas porque pode e deve funcionar como um ponto de viragem e não porque mantém o seu currículo incólume.

Depois do que poderá ter sido uma noite muito mal dormida por parte de Froome perante a decisão da ASO, agora fica tudo sem efeito e o britânico mantém as suas seis grandes voltas e pode ir atrás de mais algumas. Nomeadamente tentar a dobradinha Giro/Tour, que significará então a conquista da quarta grande volta de forma consecutiva. E irá certamente tentar depois uma inédita sexta vitória no Tour. As sete vitórias de Lance Armstrong foram anuladas, pelo que o feito, de pelo menos seis, espera por um autor. Só é pena que da suspeita, Froome já não se livrará. 

Foi ilibado e é isso que fica. O jornal As adianta que a decisão foi tomada pelo juiz Ulrich Haas, que suspendeu no passado Alberto Contador e Alejandro Valverde. Porém, a vida não será fácil para o britânico, que já passou por momentos difíceis junto do público em França. Pelo menos o processo acabou. E agora que se tente falar um pouco mais de ciclismo, da luta de Nairo Quintana, Romain Bardet, Vincenzo Nibali, Tom Dumoulin... Chris Froome... Que comece o Tour, sem salbutamol e sem asteriscos nas vitórias na Vuelta e no Giro.


1 de julho de 2018

A paciência tem limites. ASO tenta afastar Froome do Tour

(Fotografia: filip bossuyt/Wikimedia Commons)
A uma semana do início da Volta a França esgotou-se a paciência da Amaury Sport Organisation (ASO). A organizadora da corrida avançou mesmo para a tentativa de barrar a presença de Chris Froome no Tour. Não é ainda garantida, mas tendo em conta que os recursos da Sky poderão não obter resposta a tempo do ciclista estar em Noirmoutier-en-l'Île no próximo sábado, poderemos estar perante uma situação que marcará o ciclismo.

A ASO recorreu ao artigo 28 dos seus regulamentos que dita que a empresa "reserva o direito para impedir ou desqualificar do evento as equipas ou membros cuja presença poderá ser um dano para a reputação da organização ou da competição". Este artigo é o resultado de uma lição aprendida pela ASO há 20 anos, quando rebentou o caso Festina. Já lá vão duas décadas e se muito mudou desde então no combate ao doping, casos como o de Froome demonstram como muito mais há ainda a fazer. A começar pela demora na resolução dos processos.

A amostra que acabou por demonstrar o dobro do permitido da substância salbutamol (utilizada por asmáticos) foi recolhida a 7 de Setembro, na 18ª etapa  da Vuelta, corrida que Froome ganhou. O ciclista foi informado do resultado analítico adverso no dia 20, tendo ainda assim competido nos Mundiais. Conquistou a medalha de bronze no contra-relógio. Nada o impedia de o fazer, nem o impede. Esta é uma substância que não acarreta uma imediata suspensão provisória. Só em Dezembro o caso foi divulgado publicamente, com a Sky sempre demonstrar o seu descontentamento, já que o processo era suposto ser sigiloso.

Por mais que a equipa bata nesta tecla, a fuga de informação existiu. Por mais que Froome bata na tecla que o regulamento o permite competir, também poderia optado por auto-suspender-se. Mas o ciclista tem toda a razão. Não é ele quem está errado, são as regras. Se a demora na resolução do processo implica muitas questões, que assentam numa defesa minuciosa por parte do britânico, o facto de estar a competir é da inteira responsabilidade das regras estabelecidas. Poderia o processo demorar menos? Deveria para o bem da credibilidade do ciclismo. O porquê da demora talvez se venha a perceber mais tarde.

Sem luz ao fundo do túnel quanto ao final deste longo e polémico processo do salbutamol, a atitude da ASO não surpreende. Se na Volta a Itália ninguém quer ver a repetição do caso Contador e ter de entregar a vitória na corrida a outro ciclista, se na Vuelta desespera-se por perceber quem é o vencedor de 2017 antes da edição de 2018, no Tour tem uma história recente que manchou a corrida que continua a ser mais importante e mediática do calendário. O caso Festina foi grave. Lance Armstrong foi uma bomba atómica. Há sete edições sem vencedor... E depois temos ainda um Floyd Landis desclassificado (2006) e também um Alberto Contador (2010).

Desde que foi descoberto o que se passava na equipa Festina que a organização do Tour intensificou a protecção à imagem da corrida. Na sequência desse escândalo, Richard Virenque chegou também ele a ser barrado. Porém, como nunca foi provado que também ele tinha recorrido ao doping e essa batalha foi perdida. Houve nova tentativa em 2009 contra Tom Boonen, quando o ciclista deu positivo por cocaína. O belga acabou a competir. No ano antes foi a Astana que não foi autorizada a estar presente devido aos vários casos de doping que estavam a afectar os seus corredores. Foi precisamente a questão da imagem da corrida que foi salientada. A formação cazaque ficou mesmo de fora.

Existe uma diferença entre o que aconteceu com Virenque e Boonen e agora Froome. O britânico não tem a sua situação resolvida. A Sky vai recorrer e tem já uma audiência no Comité Olímpico e Desportivo francês. O problema é se houver recurso ao Tribunal Arbitral do Desporto, pois não está garantida de forma alguma uma decisão antes de sábado.

Durante todos estes meses, ciclistas, directores desportivos e, principalmente os responsáveis pelas organizações das grandes voltas, apelaram para que este processo ficasse resolvido rapidamente. O presidente da UCI, David Lappartient, sempre foi adiantando que dificilmente haveria a celeridade desejada por todos, a começar por Chris Froome. Este processo é analisado pelo Tribunal Anti-doping da UCI, que é, no entanto, completamente independente. Ou seja, Lappartient não pode intervir. O francês tem estado muito activo desde que assumiu a liderança do organismo no ano passado. O doping e a fraude mecânica têm estado na sua mira. Ficar-se-á à espera de ver se fará algo para evitar que um caso destes volte a acontecer no futuro. Pelo menos, que se aprenda essa lição.

A paciência tem limites. Christian Prudhomme - director do Tour e homem forte da empresa organizadora - e a ASO mostraram isso mesmo, segundo a notícia avançada pelo jornal Le Monde. Para o bem ou para o mal, agiram, ainda que não consigam evitar que seja o assunto que muito se falará durante a competição. Se Froome estiver no Tour, haverá sempre suspeição. Se não estiver, irá sempre continuar-se a falar dele e de toda esta confusão. Os restantes ciclistas que vão estar na corrida merecem mais. Merecem que se fale da corrida, da luta pela vitória...Mas vai ser tão difícil... Impossível, mesmo. O tema Froome estará sempre presente. Será o elefante no meio da sala.

»»Froome não é uma lenda e recorreu ao doping, diz... uma lenda do ciclismo««

»»Geraint Thomas garante que será um dos líderes da Sky no Tour««

28 de junho de 2018

Rosón suspenso por irregularidades no passaporte biológico quando estava na Caja Rural

Rosón venceu a Volta a Aragão e a classificação da montanha
na Volta à Comunidade de Madrid (na fotografia)
Jaime Rosón está suspenso provisoriamente depois da UCI ter anunciado que foi encontrado um resultado adverso analítico no seu passaporte biológico. O caso remonta a Janeiro de 2017, quando o ciclista espanhol representava a Caja Rural. Este ano mudou-se para a Movistar, que garantiu que o comportamento de Rosón tem sido irrepreensível e que, por isso, irá ajudá-lo no processo que agora se inicia, na tentativa de provar a sua inocência, para que possa regressar à competição.

Aos 25 anos Rosón é uma das estrelas em ascensão do ciclismo espanhol. Esteve a evoluir na Caja Rural, mas principalmente na última temporada tornou-se claro que iria "dar o salto" para o World Tour. A exibição na Volta à Croácia - que acabou por perder para Vincenzo Nibali - foi uma das que confirmou a sua qualidade. A Movistar já estava a seguir o ciclista e contratou-o em 2018, estando prevista a participação de Rosón na Vuelta.

"Desde que se juntou à equipa, o comportamento do ciclista e os valores do passaporte biológico têm sido intocáveis. Por isso, a nossa equipa irá cooperar com o ciclista e tentar encontrar uma explicação para o caso, cuja resolução nós respeitamos e entendemos, em virtude dos regulamentos da UCI", lê-se no comunicado divulgado pela Abarca Sports, detentora da equipa. Apesar do apoio, foi realçado que, em defesa da credibilidade, Rosón foi suspenso até à conclusão do processo.

O espanhol já reagiu, inicialmente também através de um comunicado. "Declaro que estou alheio ao uso de qualquer substância e/ou método de dopagem e irei defender-me", escreveu. Já em declarações ao jornal Marca, não quis adiantar mais pormenores, mas deixou uma garantia: "Prefiro não dar mais detalhes porque podem jogar contra mim. Irei até ao fim para demonstrar a minha inocência"."

A Agência Mundial Antidopagem define que um resultado analítico adverso "indica a presença de substâncias proibidas ou métodos numa amostra particular". No entanto, não tem em conta alguns parâmetros, como é o caso da excepção para o uso terapêutico, pelo que o processo irá agora decorrer de forma a compreender porque o ciclista apresentou determinados valores.

Sendo uma situação que decorreu quando Rosón estava na Caja Rural, a equipa espanhola do escalão Profissional Continental volta a ver o seu nome envolvido num possível caso de doping. Em 2016, Alberto Gallego acusou estanozol, um esteróide anabolizante mais frequentemente utilizado por culturistas. Tinham passado apenas três dias desde tinha começado a representar a formação da Caja Rural. Foi sancionado com quase quatro anos de suspensão, só podendo regressar em 2019.

Em Outubro do ano passado, Manuel Sola preparava-se para deixar a Caja Rural para assinar pela Rádio Popular-Boavista, para 2018. No entanto, o ciclista foi suspenso pela federação espanhola ao dar positivo por testosterona. A transferência para a equipa portuguesa ficou imediatamente sem efeito.

»»Astana ameaça pedir indemnização a Westra após admissão de ter fingido lesões para tomar cortisona««

»»Sexto ciclista da Funvic com controlo positivo««

9 de junho de 2018

Aumenta a pressão sobre Chris Froome

(Fotografia: Facebook Team Sky)
Se se falava sobre a decisão de Chris Froome em competir enquanto espera pela conclusão do processo salbutamol antes da Volta a Itália, se se falou depois do Giro, agora quase não se irá falar de outra coisa com a aproximação da Volta a França. A pressão que o britânico sofreu pode quase não ser comparável ao que vai viver nas próximas semanas e, principalmente, no Tour, se participar.

Do lado da UCI, o presidente, David Lappartient, tem afirmado várias vezes que dificilmente haverá uma decisão antes da corrida ou mesmo durante. Do lado da ASO, organizadora da prova, pede-se (já é mais um exige-se) que se resolva rapidamente uma situação que se arrasta desde Setembro. E depois há Romain Bardet, um dos ciclistas que tem dado voz à escolha de Froome em não auto-suspender-se. O francês da AG2R tem sido dos que não se tem coibido de publicamente criticar Froome e desta vez disse mesmo que teria vergonha se estivesse envolvido em caso idêntico.

Christian Prudhomme, director da Volta a França, não esconde o seu descontentamento por, a um mês do arranque da grande volta, não haja qualquer sinal sobre o fim do processo de Chris Froome. "Como é possível no ciclismo que algo que tenha acontecido em Setembro, nove meses depois, antes da maior corrida do mundo, não tenhamos uma resposta? Precisamos de um avanço neste assunto", desabafou Prudhomme ao canal australiano SBS, em declarações citadas pelo Cycling News.

O responsável da ASO não tem dúvidas que o arrastamento do processo está a prejudicar todos. No entanto, quando questionado sobre a possibilidade de não permitir a presença do britânico no Tour, Prudhomme não confirmou que poderá ser a organização a barrar a inscrição de Froome: "Como o David Lappartient tem dito muitas vezes, a decisão terá de ser da UCI. É evidente que é o que precisamos. O que as pessoas estão a ter problemas em compreender, é que o mundo do ciclismo funciona como tudo o resto. Não se imaginaria um Mundial que não fosse feito pela FIFA. É a FIFA que faz as regras e garante que as regras são respeitadas. Nós não fazemos as regras."

Em Março, a Press Association Sport avançou que a ASO poderia impedir a inscrição de Froome recorrendo a um ponto do regulamento do Tour, que prevê que poderá ser recusada a participação ou então desqualificar uma equipa ou um dos seus elementos, se em causa estiver danos à imagem ou reputação da ASO, ou de quem pertença ao evento.

Quanto a Romain Bardet, o líder da AG2R foi claro numa entrevista ao jornal belga Het Nieuwsblad: "Se estivesse na posição dele, não reconsideraria estar no Tour e teria vergonha por estar ligado a um caso como este." Acrescenta que, contudo, as regras permitem e que todos, a começar por Froome, querem que a situação seja resolvida rapidamente.

Chris Froome saiu de cena após a vitória no Giro, que poderá perder caso seja sancionado e se o castigo abranger a corrida. Não cedeu à pressão quando as vozes se elevaram para se auto-suspender antes da prova italiana e não dá mostras que o vá fazer agora, numa altura em que persegue a quinta vitória na Volta a França, o máximo alguma vez atingido

Se de facto participar na corrida, Froome terá também de lidar com um público que já foi muito hostil no passado, pelo que o ambiente que o espera em França será bem diferente daquele em Itália. Como lidar com a pressão que vem de todos os lados, também irá definir como este ciclista se apresentará no Tour.

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30 de abril de 2018

Astana ameaça pedir indemnização a Westra após admissão de ter fingido lesões para tomar cortisona

(Fotografia: Astana)
Retirado há mais de um ano, Lieuwe Westra dedicou-se à sua autobiografia e as primeiras declarações que vieram a público, ainda antes da publicação do livro, já chamaram muita atenção. Em causa volta a estar a utilização da Autorização de Utilização Terapêutica, a famosa TUE, na sigla em inglês, que tem estado muito em voga nas suspeitas que rodeiam a Sky e Bradley Wiggins. Westra terá admitido que recorreu a este sistema, alegando uma lesão no joelho, para tomar cortisona antes de competições importantes.

"Tive problemas no joelho durante anos. Permitia-me tomar cortisona quando nos aproximávamos de momentos importantes da temporada. A declaração médica que recebi do médico era falsa. Aos nossos líderes, não lhes interessava, a não ser que fossemos apanhados pelas autoridades. A ignorância traz felicidade", terá dito o ciclista, em declarações publicadas no jornal holandês Leeuwarder Courant e traduzidas pelo L'Equipe.

Entretanto, mais partes do livro foram divulgadas. No Cycling Weekly lê-se: "Eu tomei [substâncias] para pedalar mais rápido, para agarrar prémios, para receber elogios. No meu primeiro ano como profissional, tornou-se claro que não se atingiria vitórias apenas treinando duro. Se querias juntar-te às grandes figuras, tinhas de ir aos limites do que era permitido."

Westra terá então recorrido às TUE quando representou a Vacansoleil e a Astana. A primeira equipa terminou em 2013, com o holandês a prosseguir a carreira na estrutura cazaque, que reagiu de imediato às confissões de Westra. "Estamos chocados com as notícias e queremos que fique claro que na Astana nunca são e nunca serão dadas substâncias proibidas aos ciclistas", afirmou em comunicado. A equipa ameaça mesmo agir judicialmente contra Westra: "Se o uso de substâncias proibidas se confirmar, a Astana reserva o direito para pedir uma indemnização ao ciclista, já que o recurso ao doping é estritamente proibido pelos regulamentos internos da equipa, que são assinados por todos os ciclistas."

O livro estará à venda a partir da próxima semana. Lieuwe Westra terminou a carreira aos 34 anos, no final de 2016. Tinha acordado representar a Wanty-Groupe Gobert quando anunciou que sofria de uma depressão e que iria deixar o ciclismo. Participou em sete grandes voltas, incluindo no Tour que Vincenzo Nibali venceu em 2014. Esteve ainda em 11 clássicas e somou 13 vitórias como profissional, destacando-se as etapas no Critérium du Dauphiné, Paris-Nice e Volta à Catalunha.

As declarações surgem numa altura em que a Astana vive um grande momento, com 14 vitórias em 2018, metade em Abril. O historial da equipa faz com que declarações como estas relancem suspeitas, pois na Astana já houve ciclistas suspensos por doping, a começar pelo agora director Alexander Vinokourov. Já nestas funções, o cazaque teve um 2014 complicado quando em poucos meses, entre a equipa do World Tour e a de desenvolvimento (Continental) houve cinco testes positivos.

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6 de abril de 2018

Sexto ciclista da Funvic com controlo positivo

A equipa que chegou a ser do escalão Profissional Continental, com planos de se transformar numa referência do ciclismo brasileiro e assim abrir portas aos seus corredores ao mais alto nível, continua a debater-se com grandes problemas de credibilidade. A Funvic regressou ao estatuto de amador, mas voltou a ser notícia pelas piores razões, com mais um dos seus ciclistas a ser apanhado nas malhas do doping. A lista continua a crescer e já são seis em menos de dois anos.

O mais recente é Roberto Silva, brasileiro de 35 anos e que recentemente participou na Volta ao Uruguai, ganha pelo companheiro Magno Nazaret. Segundo o site Ciclo 21, Silva foi suspenso pela UCI devido ao uso de substâncias dopantes, ainda que não tenham sido especificadas. Também não foi referido quando foi realizado o teste que deu positivo. O nome de Silva junta-se assim a Alex Diniz, Otavio Bulgarelli, Kleber Ramos, João Gaspar e Ramiro Rincón Díaz.

Estes dois últimos casos remontam à Volta a Portugal de 2016. O brasileiro abandonou à quinta etapa, enquanto o colombiano viria a ser o rei da montanha. Este processo ainda decorre e caso venha a ser confirmado o positivo, Rincón pode perder a camisola azul, com Joni Brandão, então na Efapel, a ter terminado em segundo naquela classificação. De recordar que a equipa brasileira chegou mesmo a cumprir uma suspensão de 55 dias  no ano passado, devido à reincidência de casos positivos em menos de um ano.

No que diz respeito a ciclistas portugueses, André Cardoso continua suspenso provisoriamente à espera da conclusão do processo. O ciclista de Gondomar deu positivo por EPO, num resultado anunciado a poucos dias da Volta a França de 2017 (27 de Junho), corrida que se preparar para competir pela primeira vez na carreira, ao lado de Alberto Contador. O contrato com a Trek-Segafredo era de apenas um ano, tendo terminado em Dezembro. Cardoso tem 33 anos e há cinco que estava no World Tour, quatro na estrutura da Cannondale. Antes esteve três temporadas na Caja Rural, enquanto em Portugal destacou-se ao serviço da equipa de Tavira. 

O jovem Rui Carvalho (22) está a cumprir uma suspensão de quatro anos pelo uso de esteróides anabolizantes durante a Volta a Portugal do Futuro, em 2015. O castigo termina a 17 de Julho do próximo ano. Mais cedo poderá ser o regresso de Daniel Silva (32 anos). Suspenso pela ADoP (Autoridade Antidopagem de Portugal) por 24 meses, por um acto considerado negligente, o antigo ciclista da Rádio Popular-Boavista - que assinou pela Funvic em 2017, mas nunca chegou a correr pela equipa brasileira -, poderá voltar à competição no próximo 1 de Maio.

Além de André Cardoso, há outro caso mediático que aguarda por uma solução final. Samuel Sánchez acusou uma hormona de crescimento pouco antes do arranque da Volta a Espanha. Porém, numa altura em que o espanhol ponderava terminar a carreira precisamente na Vuelta, a suspensão provisória acabou por precipitar essa decisão. Sánchez tem 40 anos.

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22 de março de 2018

Froome poderá ser impedido de estar na Volta a França

(Fotografia: filip bossuyt/Wikimedia Commons)
A situação de Chris Froome está a irritar cada vez mais os organizadores das grandes corridas. De nada valem os apelos para uma rápida resolução, com o processo a ameaçar prolongar-se por vários meses, sendo que já passou meio ano desde que o excesso de salbutamol foi detectado durante a Volta a Espanha. Também de nada valem os apelos para que a Sky suspenda o seu ciclista, o próprio Froome opte por ficar de fora das provas até que o caso esteja terminado. Porém, enquanto de Itália se vai lamentando o ter as mãos atadas para impedir que o britânico esteja no Giro, já em França poder-se-á recorrer a uma alínea nos regulamentos da ASO, empresa responsável pela organização do Tour, para bloquear a presença de Froome na corrida.

A notícia foi avançada pela Press Association Sport e, sem surpresa, está a ter uma enorme repercussão. A ASO acredita que poderá impedir a inscrição de Chris Froome, pois mesmo que a Sky tente responder legalmente, não conseguirá evitar que o britânico fique sem a possibilidade de tentar alcançar uma quinta vitória na Volta a França em 2018. Segundo é explicado, em causa estará uma maior liberdade da ASO - comparativamente com a RCS Sport, organizadora do Giro - em controlar certos aspectos, como por exemplo, a salvaguarda da imagem da corrida. É precisamente a este ponto que a ASO estará a pensar recorrer.

No regulamento da Volta a França está então previsto que poderá ser recusada a participação ou então desqualificar uma equipa ou um dos seus elementos, se em causa estiver danos à imagem ou reputação da ASO, ou de quem pertença ao evento. A Sky poderá recorrer da decisão, mas não ao Tribunal Arbitral do Desporto, pois, segundo o Cycling News, na situação do Tour, o caso irá para um organismo idêntico, mas em França. Mesmo que a equipa tente recorrer aos tribunais civis, é escrito que a ASO acredita que pode vencer a disputa.

O site recorda que a empresa tentou fazer o mesmo com Tom Boonen em 2009, quando o belga deu positivo por cocaína, mas foi obrigada a recuar nas suas intenções. Dois anos depois não colocou qualquer problema à participação de Alberto Contador, quando o espanhol esperava pela resolução do caso de clembuterol. O ciclista acabaria por ser suspenso por dois anos, ou seja, os seus resultados desde o Tour 2010, nas corridas em que entretanto esteve presente, foram anulados.

Mauro Vegni, director do Giro, recorda-se bem desse caso de Contador, pois o espanhol ganhou a prova italiana em 2011 e, mais tarde, Michele Scarponi acabou por ficar com a honra. O responsável já admitiu que não quer ver repetir-se essa situação, mas poderá correr mesmo esse risco. Froome vai ao Giro, nada o impede e o presidente da UCI, David Lappartient, admitiu há poucos dias que será muito difícil que o caso do britânico esteja resolvido antes de 4 de Maio. Salientou ainda que se Froome estiver no Tour, em Julho, sem o processo estar concluído, tal seria "um desastre para a imagem do ciclismo".

As regras prevêem que positivos de salbutamol que excedam o limite legal, não resultem numa imediata suspensão. Froome acusou o dobro do permitido e incorre numa sanção que pode ir até aos dois anos fora do ciclismo. A substância é utilizada por asmáticos. Organizadores, David Lappartient, alguns ciclistas, Movimento por um Ciclismo Credível, todos têm apelado a Froome para não competir até estar concluído o caso. Porém, depois de participar na Ruta del Sol e no Tirreno-Adriatico, foi anunciado que o britânico estará na Volta aos Alpes (de 16 a 20 de Abril), continuando a pensar na sua preparação para o Giro.

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9 de março de 2018

Aperta-se o cerco à Sky e Froome está a tornar-se no indesejável

Presença de Froome no Tirreno-Adriatico não agrada a todos
(Fotografia: Facebook Tirreno-Adriatico)
A paciência está no limite para os organizadores, ciclistas, directores de equipas... Ver Chris Froome a competir está a provocar um mal-estar que começa a não ser possível esconder. Pede-se celeridade na resolução do processo do uso da substância salbutamol - o único pormenor em que todos, inclusivamente Froome e Sky, estão de acordo -, mas é pouco provável que venha a acontecer. Para agravar a situação da equipa britânica, o relatório divulgado no Reino Unido que levantou suspeitas sobre Bradley Wiggins e possivelmente outros ciclistas no Tour de 2012, faz com que a Sky esteja a ser atacada praticamente por todos os lados. Independentemente do que venha a acontecer, estes casos que envolvem a Sky podem levar a uma mudança nos regulamentos.

O presidente da UCI, David Lappartient está a ser pressionado para passar das palavras à acção. Na sequência do relatório divulgado pelo comité do departamento digital, cultural, media e desporto no Reino Unido (ver link no final do texto), o dirigente quer que o organismo inicie uma investigação à Sky, pois considera que se foram utilizadas substâncias para melhorar a performance e não para problemas de saúde, como foi defendido pela equipa que recorreu ao uso de excepção terapêutico, então "é batota", nas palavras de Lappartient, em entrevista à BBC.

O responsável considera que chegou o momento de se terminar com as "zonas cinzentas", levantando também dúvidas sobre as declarações de um antigo director da Sky, Shane Sutton, "Penso que temos de saber mais sobre estas histórias, ainda existem zonas cinzentas, mesmo no relatório. E vi que o Shane Sutton pediu ao Wiggins para dizer a verdade. O que é que isso significa?" Para Lappartient, o relatório deixa transparecer que o que terá acontecido foi "organizado" e não um "deslize". "Pode afectar e credibilidade do desporto e é por isso que estou preocupado com isto", afirmou o presidente da UCI.

Sobre Chris Froome, Lappartient já tinha expressado a opinião que o ciclista não deveria estar a competir. Porém, as regras permitem que o faça. O dirigente deseja que o caso esteja fechado antes do Tour, dizendo mesmo que seria catastrófico para a modalidade que a Froome competisse e eventualmente visse depois os resultados serem anulados, se a sua defesa não resultar. Mauro Vegni, responsável pelo Giro, não queria ver acontecer com Froome o que se passou com Alberto Contador em 2011. O espanhol ganhou, mas ao perder o processo sobre o uso de uma substância proibida, acabou por ficar sem a vitória. Porém, o discurso de Lappartient deixa antever que será impossível o processo de Froome estar concluído antes de 4 de Maio, dia em que arranca a Volta a Itália.

E também não parece convencido que estará fechado a 7 de Julho, no início do Tour. Se assim for, o presidente da UCI espera que Froome aceite a proposta de não competir na Volta a França. "Para ele estar mais concentrado em defender o seu caso, do meu ponto de vista, seria melhor ele não correr", afirmou. Aqui também começa a ficar em causa o ambiente hostil, por parte dos adeptos, que poderá estar à espera do ciclista e da Sky, como já aconteceu há uns anos.

Froome, o indesejável

O ciclista britânico respondeu às declarações de Lappartient, dizendo que faria melhor em dizê-lo pessoalmente e não através dos meios de comunicação social. Froome refugia-se nas regras que lhe permitem competir e reitera: "Obviamente que estou a fazer o que posso para resolver isto o mais rapidamente possível." Também repete que o caso não era suposto ser público.

Chris Froome está actualmente a competir no Tirreno-Adriatico, tendo em vista a preparação para a Volta a Itália, depois de ter sido 10º na Ruta del Sol. Em Itália está também um Romain Bardet (AG2R) que foi dos primeiros a apelar a Froome que se auto-suspendesse e agora foi Tom Dumoulin (Sunweb) que afirmou que se fosse ele, não estaria a competir e não apenas pelo facto da sua equipa pertencer ao Movimento Por um Ciclismo Credível (MPCC) - a Sky não faz parte. "[Froome] não quebrou nenhuma regra. Pode estar aqui? Pode. É bom para o ciclismo? Não. Traz algum benefício? Não", afirmou o holandês.

Froome está mesmo a tornar-se num indesejável. Vegni considerou uma grande vitória ter o britânico no Giro, agora já só quer evitar passar novamente pela situação de ter de retirar uma possível vitória a um ciclista, como aconteceu a Contador, tendo Michele Scarponi sido declarado o vencedor. Christian Prudhomme, director do Tour, considera grotesco que ainda não se tenha chegado a uma conclusão. "Queremos uma resposta. Precisamos de uma resposta, não apenas para nós na Volta a França, mas para todos os organizadores, para que não haja um ciclista que mais tarde se diga que não deveria ter estado na partida. É de loucos. É completamente grotesco! Precisamos de uma resposta", salientou à RMC Sport.

Quanto ao MPCC, é feita nova insistência para que Froome não esteja em competição e o movimento deseja que os organizadores possam excluir ciclistas que estejam na situação do britânico. O único problema é que tal iria contra os actuais regulamentos, que o MPCC quer ver mudados. "O MPCC pede à UCI que altere a suas regras no World Tour para que os organizadores possam excluir das suas corridas quem tenha uma investigação pendente após um controlo positivo num resultado adverso", lê-se num comunicado.

De recordar que Froome acusou o dobro do permitido de salbutamol durante a Vuelta, uma substância utilizada por asmáticos. O caso não era suposto ser revelado publicamente, mas foi publicado em dois jornais.

O calendário do ciclista vai sendo anunciado à medida que as corridas se vão aproximando, estando apenas confirmado o que já se conhecia antes da polémica rebentar: Froome quer atacar Giro e Tour.

Todos querem o lugar de Froome

O seu caso e a sua presença nas corridas acaba por desviar as atenções desportivas para as suspeitas crescentes sobre a Sky. Questiona-se o futuro da equipa, mas a curto prazo as dúvidas são também sobre o ambiente dentro da equipa. Geraint Thomas, por exemplo, nem quer ouvir falar de corticóides e do uso de excepção terapêutico. Certo é que há quem queira ficar com o lugar de líder de Froome, se o posto vier a ficar livre. Thomas foi o primeiro a avisar que iria ao Tour a pensar na sua corrida e não apenas para ajudar o colega. O galês não ficou nada satisfeito por ver Froome ir ao Giro e ao Tour, quando Thomas pensava que teria pelo menos a oportunidade de ser novamente líder em Itália. E a Vuelta, não o deixa satisfeito. Está em final de contrato e não seria surpreendente vê-lo seguir as pisadas de Richie Porte e procurar uma equipa que lhe desse estatuto de número um.

Michal Kwiatkowski também já chegou a dizer que gostaria de ter mais destaque numa grande volta. Sendo quatro anos mais novo que Thomas - tem 27 -, ainda vai muito a tempo de ter a sua oportunidade e talvez por isso tenha mudado o discurso para: "Quero ganhar todas as clássicas." E a julgar pela exibição na Volta ao Algarve, uma corridas de uma semana também serão objectivo.

Wout Poels (30) - que sofreu esta sexta-feira uma grave queda no Paris-Nice - é outro que já pediu papel de líder numa grande volta, mas não estava na equação, ainda mais quando Mikel Landa pertencia à Sky. O espanhol saiu, mas holandês poderia aspirar no máximo a corridas por etapas mais curtas. Agora já disse publicamente que quer assumir a responsabilidade de Froome, caso este seja sancionado. David de la Cruz acabou de chegar à Sky e estará no Giro como gregário, mas foi peremptório em dizer que lhe foi prometido que na Vuelta teria a sua oportunidade.

Até que ponto é que as suspeitas sobre Bradley Wiggins e o comportamento na equipa no ano em que ganharam o primeiro Tour, mais o caso do "pacote suspeito" que envolve também Wiggins e agora a situação de Chris Froome, estão a destruir um alicerce essencial da equipa: a união em torno de um líder, aconteça ou que acontecer? Evitar o desmoronar interior da Sky é desde logo uma missão que estará a decorrer.

Mais do que palavras a falar de mudanças, todo este mal-estar é a prova que é preciso agir e rápido, mesmo que já não se vá a tempo de ser rápido na resolução de pelo menos do caso de Chris Froome.

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