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24 de maio de 2018

Calma, isto ainda não acabou!

(Fotografia: Giro d'Italia)
Se há algo de bom na época de clássicas é que a cada corrida temos um vencedor, uma história, uma intensidade diferente já que em causa está sempre a vitória final. É certo que algumas servem de preparação para outras, mas há sempre quem as queira vencer. As grandes voltas oferecem outro tipo de emoção. Requer mais paciência, pois afinal é preciso esperar três semanas para conhecer o vencedor. Temos as vitórias de etapas, mas que no fundo nos levam apenas um dia mais próximo para saber quem de facto será mais lembrado, aquele que leva a camisola amarela, rosa ou vermelha no fim. Por isso mesmo, não há nada pior do que se ter um vencedor anunciado, como tem acontecido no Tour. São dias como os de hoje que fazem valer a pena passar 21 dias em frente à televisão, a tentar perceber quem irá inscrever o seu nome numa lista que pode ser longa dada a extensa história das grandes voltas, mas não deixa de estar apenas ao alcance dos grandes ciclistas, com uma ou outra excepção...

Simon Yates não era um vencedor anunciado. Muito pelo contrário. Porém, as suas convincentes exibições durante duas semanas colocaram-no no patamar daqueles que se pode dizer que tem o Giro na mão. O problema é que falta a terceira semana e colocar a outra mão no troféu e assim garanti-lo é uma missão bem complicada. O britânico ainda não tinha tido um dia mau. Surgiu esta quinta-feira. De repente, uma diferença de 56 segundos para Tom Dumoulin, que parecia ser mais do que suficiente para controlar as três etapas de montanha que faltavam, foi reduzida para metade. Pior é mostrar debilidade numa fase em que já ninguém tem muito a perder se quiser ainda tentar atacar a liderança. Nos próximos dois dias a motivação dos adversários, com destaque, além de Dumoulin, para Domenico Pozzovivo (terceiro a 2:43 minutos), mas principalmente para Chris Froome (quarto a 3:22), estará em alta.

Em poucos quilómetros a Volta a Itália foi relançada e se ainda não estava fechada, ficou agora completamente aberta. Se já havia a intenção de explorar uma eventual fraqueza do camisola rosa, agora que a mostrou logo no primeiro dos três dias decisivos, não haverá descanso nem para Yates, nem para a sua equipa, Mitchelton-Scott. O próprio admitiu que não teve "boas pernas", mas é também nestes momentos que se vê quem tem calibre de campeão. Yates recusa entrar em pânico.

Dumoulin tem sido o exemplo de como é importante saber manter a calma nos momentos em que parece que tudo se pode perder. Já sofreu ataques que o poderiam ter deixado fora da luta, mas resistiu e aí está ele com apenas 28 segundos a separá-lo do primeiro lugar, no qual terminou em 2017. Agora é a vez de Yates de demonstrar frieza. Não será fácil, mas se o britânico admitiu que não iria andar tanto ao ataque, o que seria algo mau para os fãs, pois essa postura significa menos espectáculo, agora teremos outros a dá-lo. Assim sim, vale a pena ver tantos dias de corrida para conhecer o grande vencedor. Se não é possível ter dias memoráveis de ciclismo em todas as etapas, pelo menos que haja emoção até final.

"Calma" é uma palavra-chave nesta altura. Yates tem de a manter e Dumoulin já disse que é melhor não a deixar ser apanhada por excesso de confiança. Se nesta quinta-feira tudo lhe correu de feição, o holandês avisa que as duas etapas mais difíceis serão as de sexta e sábado. Para um ciclista que prefere fazer as subidas num ritmo certo, quando ataca tem de o fazer valer. A sua movimentação não deixou Yates para trás, mas foi o primeiro "safanão" à resistência do camisola rosa. Quando Froome fez a sua jogada, Dumoulin conseguiu aguentar, Yates não. O problema para o líder da Sunweb é terá de o fazer num terreno que não lhe sendo desfavorável (a maioria das subidas são complicadas, mas com uma pendente constante), é mais favorável ao seu adversário directo.

Foi apenas uma subida, já na parte final da longa etapa de 196 quilómetros entre Abbiategrasso e Prato Nevoso. Amanhã serão 184 que incluem uma segunda categoria, a Cima Coppi (ponto mais alto, que será a 2178 metros no Colle delle Finestre), uma terceira e para acabar mais uma primeira. Yates só poderá desejar que tenha tido um mau dia e nada mais. Os adversários pedirão para não terem eles mais nenhum dia menos bom e que consigam "abanar" um líder que, nas palavras de Thibaut Pinot (Groupama-FDJ) aquando do contra-relógio, estava "imbatível". Tudo muda num instante...



De referir que Miguel Ángel López (Astana) deixou bons sinais que está bem para ainda se mostrar nesta terceira semana. Consolidou a classificação da juventude, deixando Richard Carapaz (Movistar) a 1:05 minutos, ultrapassou Rohan Dennis (BMC) na geral e tem o quinto posto de Pinot a 30 segundos. Falta a vitória de etapa que a Astana continua a procurar. Dois ciclistas no top dez - Pello Bilbao é oitavo - e a camisola branca é bom. Uma etapa será muito melhor e mais próximo da senda ganhadora que a equipa estava a viver quando arrancou o Giro.

O português José Gonçalves teve mais um bom dia. Até se mostrou na subida final, mas com a etapa já resolvida para os homens da fuga, o ciclista da Katusha-Alpecin concentrou-se em tentar melhorar a sua classificação na geral. Subiu dois lugares e é 18º, a 16:30 de Yates. Melhorar mais será muito difícil. David Formolo é quem está à sua frente, mas tem mais de seis minutos de vantagem.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Num dia em que a fuga triunfou, a Quick-Step Floors continua imparável. Desta feita foi o alemão Max Schachmann a triunfar e com as vitórias de Elia Viviani, já são cinco para a equipa belga no Giro, o mesmo número alcançado em 2017, mas com diferentes protagonistas (há um ano foram Fernando Gaviria e Bob Jungels). Schachmann tem 24 anos, um grande potencial e na sua primeira grande volta da carreira soma logo um triunfo numa etapa, além de ter vestido a camisola branca da juventude no início deste Giro.

Pode ver aqui as classificações após 18 etapas da 101ª edição da Volta a Itália.



22 de maio de 2018

Yates avisa que vai mudar de táctica, infelizmente para os fãs

(Fotografia: Giro d'Italia)
Os 2:11 minutos de vantagem não só chegaram como ainda sobraram 56 segundos para gerir nos próximos quatro dias. Isto tendo em conta o segundo classificado e o especialista de contra-relógio, Tom Dumoulin, por sinal, o campeão do mundo da especialidade. Como o holandês preocupa um pouco menos na montanha, foi para Domenico Pozzovivo e Thibaut Pinot que o britânico fez contas mal terminou a sua etapa. Ganhou tempo a ambos. O italiano da Bahrain-Merida até se defendeu bem e manteve a terceira posição, mas está agora a 3:11 (estava a 2:28). Já o francês da Groupama-FDJ fez um contra-relógio a roçar o miserável e de 2:37 passou para uma diferença de 4:19. Perdeu o quarto lugar para Chris Froome (Sky), que apesar de ter recuperado 1:02 minutos, os 3:50 que o separam de Yates tornam a sua missão de conquistar o Giro praticamente impossível.

Ainda se diz "praticamente" porque se Yates tem controlado e atacado quase a seu gosto a Volta a Itália, o próprio sabe que tudo pode mudar num instante - que o diga Steven Kruijswijk que não esquecerá quando o Giro lhe escapou na antepenúltima etapa em 2016 - e, por isso, está na altura de mudar a táctica. Desde que vestiu a camisola rosa na etapa do Etna (a sexta) que Yates falava da necessidade de ter de ganhar tempo por causa do contra-relógio. Passou no teste do esforço individudal e com distinção. Agora há que controlar de outra forma a corrida e o próprio admite que como o irá fazer não será tão bonito de se ver.

"[Manter a camisola rosa] muda a minha táctica para os próximos dias. Infelizmente para os fãs serei muito mais defensivo. Vamos ver. O Tom está a um minuto, mas os rapazes atrás dele estão bem mais longe. É uma boa vantagem. Vamos ver o que conseguimos fazer", afirmou Simon Yates. O ciclista manteve sempre um discurso pessimista até ao contra-relógio, dizendo que acreditava que perderia a liderança para Dumoulin. Bluff? Uma forma de se auto-motivar? Ou simplesmente uma perspectiva realista de alguém que sabia que se tinha de superar num dos seus pontos menos fortes? No final, o que interessa é o resultado e esse deixa o ciclista da Mitchelton-Scott numa excelente posição para conquistar a sua primeira grande volta aos 25 anos.

Enquanto Yates confessou que se sentiu bem durante a primeira fase do contra-relógio de 34,2 quilómetros, mas que nos últimos 10 quilómetros morreu "dez mil mortes", expressão que o próprio usou, Dumoulin esteve a bom nível, mas não naquele que precisava para se tornar numa maior ameaça para Yates nas etapas de montanha que aí vêm. O holandês da Sunweb melhorou muito neste terreno, é um bom trepador - senão não teria ganho o Giro há um ano - mas não tem aquela mudança de velocidade que lhe vai fazer muita falta.

Será de facto uma pequena desilusão não ver Yates a continuar a jogar ao ataque. Mas é absolutamente compreensível. Está no comando e na montanha tem estado imbatível. É altura de quem ainda acreditar que pode bater o britânico de se mostrar. De ter a iniciativa. Porém, em causa poderão estar as batalhas pelas posições inferiores. Yates terá de estar atento para ter a certeza que nestas lutas não surge algum ataque que o possa acabar por prejudicar.

Vejamos: Froome está a 39 segundos do pódio, logo estará numa batalha muito particular com Pozzovivo. No entanto, e se numa primeira fase os dois podem aliar-se para tentar tirar Dumoulin do segundo lugar, antes de disputarem entre eles uma posição no pódio? Têm três etapas com chegadas em alto para melhorar as suas posições e principalmente Froome não quer desistir por completo do sonho de chegar à camisola rosa, nalgum golpe de sorte que possa aparecer. Em condições normais, sem incidentes, é o pódio que está na sua mira. Afastado que está o espectro do abandono, o britânico espera não ter mais nenhum dia mau. Se assim for, pode tornar-se num animador deste final de Giro.

O mesmo terá de acontecer com Thibaut Pinot. Foi dos que começou melhor a corrida, mas tem vindo a quebrar. O contra-relógio tornou a luta pela vitória quase impossível, mas o francês não pode, nem deve abandonar o objectivo de pelo menos chegar ao pódio. Há um ano foi quarto e já sabe que em 2019 não irá ao Giro, apesar de ser uma grande volta que lhe parece assentar melhor. O director da Groupama-FDJ, Marc Madiot, já confirmou que a partir de 2019 Pinot estará novamente concentrado a 100% no Tour.

Depois há a disputa pela camisola branca da juventude. Miguel Ángel López (Astana) ganhou mais dez segundos e tem agora 30 de vantagem sobre Richard Carapaz (Movistar). Possíveis movimentações destes dois ciclistas, podem motivar outros a segui-los.

Yates não terá uma missão fácil pela frente. Não basta controlar, pois terá de saber analisar a perigosidade dos ataques que irá sofrer directamente contra ele e aqueles que serão outras batalhas, mas que podem afectar a sua. A Mitchelton-Scott terá um enorme teste pela frente. Até agora tem sido uma equipa perfeita na protecção e ajuda ao seu líder. Mikel Nieve, Roman Kreuziger, Christopher Juul-Jensen e Jack Haig terão um papel importante na montanha no controlo dos adversários. Daria bastante jeito que Johan Esteban Chaves ainda conseguisse dar algo a esta corrida, mas o colombiano não é o ciclista em que neste momento recaiam as maiores das confianças.

Porquê tanto cuidado em não entrar em euforias por Yates? Na memória está ainda o que aconteceu a Steven Kruijswijk em 2016. O holandês da Lotto-Jumbo entrou na 19ª etapa com três minutos de vantagem sobre Chaves, 3:23 sobre Alejandro Valverde e 4:43 sobre Vincenzo Nibali. Uma queda numa descida, um mortal para a neve e foi o adeus à vitória e no dia seguinte perderia também o pódio. Foi Nibali quem fez a notável recuperação para ganhar o Giro nesse ano.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Regressando a 2018. Rohan Dennis frustou o objectivo de Tony Martin e da Katusha-Alpecin de sair do Giro com uma vitória no contra-relógio. O australiano da BMC não desiludiu e foi o mais forte, numa vitória que já tinha procurado na primeira etapa, mas que Dumoulin lhe tirou por dois segundos. Além do triunfo, Dennis reentrou no top dez, saltando de 11º para sexto, a 5:04 de Yates. O ciclista não escondeu a sua satisfação, mas para o que falta do Giro, admitiu que a sua estratégia passará por aguentar o melhor que puder nas três etapas de montanha que faltam. Uma etapa e um top dez seria um excelente resultado para Dennis.

E Fabio Aru? Que surpresa. Depois de se afundar na classificação no domingo, a expectativa seria que o italiano fizesse um contra-relógio tranquilo a pensar em poupar força para tentar ganhar uma etapa e salvar algo deste Giro. Mas não. Aru fez um dos seus melhores contra-relógio, perdendo apenas 37 segundos para Rohan Dennis. Contudo, no melhor pano cai a nódoa. Aru recebeu uma penalização de 20 segundos por ter beneficiado do cone de vento de uma moto. Ainda assim, se tivesse estado melhor na montanha, o líder da UAE Team Emirates teria uma palavra a dizer na discussão pelo menos do pódio. Mas são 24:34 de desvantagem. Nem o top dez é um objectivo. Este foi um Aru a mostrar o carácter bem conhecido de lutar, mesmo que já nada tenha a ganhar com isso. Se estiver a sentir-se bem, o campeão italiano ainda irá mostrar-se na procura por uma etapa.

Houve mais sanções e que afectaram a UAE Team Emirates. Diego Ulissi desapareceu do top dez do contra-relógio, pois ele e o colega Valerio Conti levaram dois minutos de sanção. Ulissi partiu um minuto depois de Conti e terá beneficiado também do cone de vento. Ben Hermans (Israel Cycling Academy), Mads Pedersen (Trek-Segafredo) e Remi Cavagna (Quick-Step Floors) foram penalizados em 30 segundos. De recordar que este ano está a ser feita a estreia do vídeo-árbitro nas principais competições de ciclismo, entre elas a Volta a Itália.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) manteve o seu 20º lugar na geral, estando a 14:51 de Yates. Depois do quarto lugar no contra-relógio inaugural, o português foi 12º, com mais 1:08 que Dennis. Mais um bom resultado do ciclista que é, de longe, o melhor da sua equipa. Maurits Lammertink é o senhor que se segue e já tem mais de uma hora de atraso.

A etapa desta terça-feira fará a passagem para as três de alta montanha onde tudo se irá decidir, antes da consagração de domingo, em Roma. Porém, é melhor não facilitar. O dia começa logo a subir. Serão cerca de 11 quilómetros e nem sequer a dificuldade está categorizada. Só mais à frente aparecerá uma de terceira categoria. Na semana passada, quando apareceu uma subida logo nos primeiros quilómetros, ainda que não logo a abrir como irá acontecer amanhã, foi o descalabro para Johan Esteban Chaves, mas também era uma subida bem mais complicada. No entanto, não haverá margem para erros nos 155 quilómetros entre Riva del Garda e Iseo.



Pode conferir aqui as classificações após a 16ª etapa.



26 de maio de 2017

Batalha na estrada, rumor que lançou a confusão, pazes feitas, vitória de Landa, Quintana de rosa. Que grande dia no Giro!

(Fotografia: Giro d'Italia)
Custou, mas a animação chegou em força ao Giro100 e agora será até final (esperemos bem que sim e que ninguém tenha mais dores de barriga...). Depois das palavras de Tom Dumoulin - desejou que Nairo Quintana e Vincenzo Nibali perdessem os lugares no pódio - era de esperar que a etapa desta sexta-feira fosse mais complicada para o holandês. E assim foi, ainda que tenha sido novamente o ciclista da Sunweb a ser o principal responsável por ter perdido tempo e desta vez não segurou a maglia rosa. Primeiro distraiu-se e deixou escapar os rivais na primeira descida do dia - não, a Movistar e a Bahrain-Merida não atacaram quando Dumoulin estava a urinar, seria demasiado mau perder o Giro pelas questões fisiológicas (!) -, depois de tanto sofrer, finalmente o holandês cedeu numa subida. De 31 segundos de vantagem, tem agora 38 para recuperar para Nairo Quintana. Preocupado? Não pareceu nem um bocadinho e admitiu que cedo sentiu que não tinha pernas para acompanhar os rivais. E sim, Dumoulin está mais calmo nas palavras. Até pediu desculpa a Nibali!

Foi um dia de emoções fortes, com Rui Costa a ser pela terceira vez segundo na etapa. Mas já voltaremos ao ciclista português. A duas etapas do fim do Giro, as atenções estão, inevitavelmente, centradas na luta pela geral, com 1:30 minutos a separar o primeiro do sexto, Domenico Pozzovivo. O dia ficou marcado pela notícia, que não se confirmou, que a Movistar e a Bahrain-Merida teriam atacado quando Dumoulin estava a urinar. Durante alguns minutos foi a confusão total, com um reboliço nas redes sociais que deve ter deixado os ciclistas das duas equipas com as orelhas bem quentes... Era verdade, não era verdade... No final Tom Dumoulin esclareceu que perdeu o contacto quando tomou a decisão táctica de se deixar ficar um pouco para trás na descida, acabando por não estar bem colocado quando os rivais atacaram. "A minha equipa salvou-me o cu", disse e sim, parece que percebeu que tem de ter tento nas palavras, mas ainda não aprendeu a escolher algumas expressões.

Dumoulin acabou por ter alguma sorte, pois para trás ficaram também Adam Yates (e muito trabalhou o britânico), Bauke Mollema e Steven Kruijswijk. Lá conseguiram apanhar Quintana, Nibali e companhia, mas muita energia foi desperdiçada por um erro táctico. Logo no início da derradeira subida, o holandês começou a fraquejar. Muito pode agradecer a Simon Geschke, que fez uma das melhores etapas de montanha da sua carreira. Certamente que a Sunweb nunca mais se vai esquecer dele no hotel, como aconteceu neste Giro. Piancavallo era uma subida muito dura, com a pendente máxima a chegar aos 14%. O melhor do top dez foi mesmo Thibaut Pinot (FDJ) que está claramente muito melhor nesta terceira semana e tem o pódio a dez segundos. Mas será que o francês não vai tentar ser mais ambicioso? Tem 53 segundos de desvantagem e é melhor contra-relogista que Nairo Quintana e pode muito bem bater Nibali. Claro que neste aspecto Dumoulin é melhor, mas ainda falta uma etapa de montanha para ganhar mais tempo.

Nairo Quintana assumiu novamente a liderança, que foi dele durante o dia do contra-relógio em que foi banalizado por um super Dumoulin. Porém, o colombiano continua a ser uma desilusão. Onde está aquele Quintana que ataca nas subidas deixando todos em dificuldades? Não está no Giro certamente. É um Quintana a gerir esforço, falta saber se é porque não está bem ou porque o Tour está mais no pensamento do ciclista do que o colombiano tem admitido. Ou então as duas razões. É líder, mas está longe de ter o Giro garantido. Tem um dia para tentar ganhar mais um minuto, pelo menos, pois ainda assim 1:38 poderá não chegar para defender a maglia rosa no contra-relógio.

Nibali convence ainda menos, ainda que tenha sido ele a acelerar e a levar com ele Quintana, que depois até o ultrapassou. São 43 segundos que o separam da liderança, mas ou está a guardar o melhor para o fim, ou é mais candidato a perder o pódio do que a ganhar o Giro.

Dizer que Ilnur Zakarin pode ganhar a Volta a Itália (1:21) é capaz de ser algo demasiado optimista, mas ainda não vimos aquele russo voador (se há uma camisola vermelha aberta, tipo capa, é muito provável que seja Zakarin), com capacidade para bater os melhores, mas atenção à última etapa de montanha este sábado. Já Domenico Pozzovivo (AG2R), provavelmente nunca pensou estar nesta posição a duas tiradas do fim. Mas tendo em conta que é um péssimo contra-relogista, até o pódio será difícil. Contudo, lutar pela etapa e ainda tentar melhorar a classificação poderão passar pela cabeça do pequeno italiano.

Se Dumoulin não tivesse tido aquela dor de barriga, a conversa agora seria diferente. Mesmo com as dificuldades demonstradas nesta 19ª etapa, o holandês ainda seria líder e com o contra-relógio final a beneficiá-lo, o discurso se calhar seria mais do género "é preciso uma catástrofe para perder o Giro". Quanto a isso basta falar com Steven Kruijswijk que sabe bem que os azares acontecem quando a glória parece estar tão perto.

Com o panorama actual e já que houve a tal dor de barriga para mexer com a classificação geral - um adepto ofereceu hoje papel higiénico a Dumoulin -, nesta altura o holandês continua a ser o favorito para ganhar o Giro. Mas a quebra de hoje levanta mais uma questão (bom, duas) a Dumoulin, que muito tem respondido a uma série de dúvidas sobre ele nesta corrida: "Como vão estar as pernas? Vai recuperar e pelo menos não perder muito mais tempo?

Faltam 190 quilómetros, entre Pordenone e Asiago, e duas subidas de primeira categoria para Dumoulin aguentar e Quintana, Nibali, Pinot e Zakarin atacarem. Depois, no domingo, será o dia de um contra-relógio que se fala há meses.


Antes de muita luta na estrada, pazes feitas na televisão

Ciclistas fizeram as pazes (Fotografia: Giro d'Italia)
Talvez seja dos 26 anos, talvez seja simplesmente a sua personalidade, mas Dumoulin por mais do que uma vez não se coibiu de dizer o que lhe ia na mente, tendo claramente ido longe de mais ao desejar que Quintana e Nibali ficassem fora do pódio. Nibali respondeu, dizendo que o holandês era "pretensioso" e Dumoulin mandou uma espécie de "olha quem fala". Rivalidade criada, não há dúvida, mas o ciclista da Sunweb mostrou-se hoje mais calmo e principalmente mais sensato.

"Precisamos de falar com as pernas e não com a boca. Eu disse algo tomado pelas emoções. Não foi correcto e peço desculpa por não ter tido mais respeito. Desculpa", disse Dumoulin a Nibali, quando o italiano estava a ser entrevistado para um canal de televisão antes do início da 19ª etapa. Nibali sorriu e respondeu com boa disposição: "Pelo menos houve algo para se falar e para os media escreverem!"

Gesto muito correcto de Dumoulin, mas não significa que o que disse seja esquecido. Porém, que a rivalidade seja apenas notória na estrada com ataques pela vitória e não ataques verbais.

Landa finalmente venceu, Rui Costa volta a ser segundo

(Fotografia: Giro d'Italia)
O ciclista português já tem o "prémio" do ciclista com mais segundos lugares no Giro (prémio Sagan?!) Desta vez não há nada a apontar. Mikel Landa foi simplesmente mais forte. Landa é simplesmente um dos melhores trepadores e veste com justiça a camisola da liderança da classificação da montanha. Rui Costa entrou na fuga inicial e foi ele quem lançou o ataque quando foi preciso voltar a fugir ao grupo dos candidatos. Foi ele quem foi buscar um Luis Leon Sanchez que tanto procura aquela vitória para dedicar a Michele Scarponi, mas que começa a parecer que não vai acontecer. Rui Costa bem tentou, mas quando Landa decidiu impor um ritmo elevado, o poveiro não conseguiu acompanhá-lo. Há que saber aceitar a derrota: o espanhol mereceu a vitória.

Rui Costa também já merece o seu grande momento na Volta a Itália. Tem mais uma oportunidade. É certo que o cansaço deve ser grande, mas agora já não há mesmo nada a perder. Este sábado é o tudo ou nada para o campeão do mundo de 2013 cumprir um dos seus principais objectivos do ano. "É claro que eu preferia ganhar, mas não sendo a vitória para mim, nem para a minha equipa, fico feliz por ele ter ganho. Landa foi dos corredores que mais lutou, neste Giro, por uma vitória de etapa", escreveu Rui Costa no seu blogue. Acrescentou que acredita que se Dumoulin não perder mais tempo que será o provável vencedor do Giro: "Desejo apenas que vença o mais forte e de forma honesta."

Quanto a Mikel Landa, o espanhol confessou que aprendeu uma importante lição neste Giro: "É preciso insistir." E realmente Landa insistiu, insistiu, recuperou da desilusão da queda que o retirou da luta pela vitória na Volta a Itália, recuperou de dois segundos lugares ao perder ao sprint... É uma pena que não se tenha tido a oportunidade de ver se o ciclista da Sky poderia mesmo ter condições para estar na discussão com Dumoulin, Quintana, Nibali, Pinot e Zakarin. E Landa está de novo na ribalta, numa altura em que Espanha surgiram notícias que já terá acordo para regressar à Astana em 2018, agora como um dos líderes da equipa cazaque.

Uma última nota. O ciclista da Trek-Segafredo, Eugenio Alafaci, atirou um bidão contra Rory Sutherland  (Movistar), depois deste se ter desviado repentinamente, tapando o caminho ao italiano. Um gesto que poderia ter resultado em consequências graves, já que o bidão caiu para o meio da estrada, com o pelotão a estar naquele momento bem composto e o incidente ocorreu na frente. Depois de Javier Moreno (Bahrain-Merida) ter sido expulso por ter empurrado Diego Rosa (Sky), esperava-se medida idêntica, mas Alafaci terá apenas de pagar 200 francos suíços de multa (cerca de 184 euros) e foi ainda sancionado com um minuto de penalização, algo que não é preocupante tendo em conta as mais de quatro horas de atraso que tem para o actual líder, Nairo Quintana.

Veja aqui as classificações do Giro100 quando faltam duas etapas para terminar.


Giro d'Italia 2017 - Stage 19 - Highlights por giroditalia


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30 de abril de 2017

Giro. Candidatos (e não só): Pozzovivo, Van Garderen e Rolland

Domenico Pozzovivo (34 anos, Itália, AG2R La Mondiale)

Esperava-se mais da carreira de Pozzovivo. Ao serviço da estrutura agora com o nome Bardiani CSF, o italiano sempre foi um ciclista emocionante de ver. Era atacante, dava espectáculo e em 2012 alcançou o sucesso que garantidamente o iria colocar no World Tour. Venceu o Giro del Trentino e foi depois vencer uma etapa na Volta a Itália. A AG2R contratou Pozzovivo, que teve ainda a curiosidade de durante alguns anos ter dividido o ciclismo com os estudos, pois quis tirar uma licenciatura.

No entanto, o pequeno Pozzovivo não conseguiu manter o nível e ano após ano vemo-lo aparecer em algumas corridas, atacar ao estilo que apresentou no passado, mas os resultados não são os esperados. A AG2R manteve sempre a confiança no ciclista, mas com 34 anos, Pozzovivo poderá ter no Giro100 a última oportunidade de estar numa equipa World Tour como líder numa grande volta.

Não é ciclista para se sentir pressionado. É um corredor que compete muito com o coração, com as sensações, um pouco ao estilo de Contador. É por isso mesmo que quando está em forma é sempre entusiasmante vê-lo, como aconteceu recentemente na Volta aos Alpes. E essa boa forma lança algumas expectativas sobre o pequeno italiano. Será que é desta que estará na luta por uma grande vitória? Será difícil, mas é muito possível que Pozzovivo tenha o pódio em mente.

Tejay van Garderen (28 anos, Estados Unidos, BMC)

Quando se olha a idade de Van Garderen parece estranho dizer que o crédito do americano pode estar a terminar na BMC. Apareceu muito cedo e muito cedo começou a demonstrar ser um caso sério de talento. A equipa foi buscá-lo logo em 2012 e rapidamente começou a prepará-lo para ser o sucessor de Cadel Evans como líder para a Volta a França. Porém, quando chegou o momento, Tejay van Garderen teve dificuldades em retribuir com resultados a confiança nele depositada.

Por uma razão ou por outra, a verdade é que Van Garderen não consegue estar ao seu melhor nas grandes voltas. E quando o conseguiu, no Tour, uma doença obrigou-o a abandonar em lágrimas, numa imagem marcante. Mas, no geral, tem sido uma desilusão. De líder no Tour, passou a co-líder com Richie Porte em 2016. Este ano foi "empurrado" para o Giro. Como é a 100ª edição quase passa despercebido que é uma despromoção para o americano. Van Garderen aposta muito neste Giro. Se falhar, o seu futuro na BMC poderá estar em causa.

Com 28 anos, ainda tem uma grande parte da carreira pela frente. Contudo, ter de enfrentar corridas com um passado recheado de desilusões poderá ser difícil de gerir psicologicamente, principalmente quando um dos handicaps do ciclista é precisamente a força (ou falta dela) mental.

É o momento da verdade para Tejay van Garderen, que ainda por cima tem Rohan Dennis a aparecer e a ameaçar tira-lhe o protagonismo.

Pierre Rolland (30 anos, França, Cannondale-Drapac)

Esta é uma relação que não está a resultar nem de perto nem de longe como equipa e ciclista esperavam. Depois de muitos anos na Europcar (actual Direct Energie), um pouco na sombra de Thomas Voeckler, mas com resultados que também o destacaram no ciclismo francês - duas etapas no Tour e três top dez foram um excelente cartão de visita -, Rolland procurou a sua oportunidade no World Tour e encontrou uma Cannondale-Drapac à procura de mais um líder, além de Rigoberto Uran.

Porém, não tem sido uma união proveitosa. Rolland teve um 2016 muito discreto, mas parece querer mudar este ano. Trocou com Uran e enquanto o colombiano vai como líder ao Tour, o francês vai tentar a sua sorte no Giro. O sexto lugar na Volta aos Alpes é um resultado positivo. É difícil olhar para Rolland e considerar que é um candidato a lutar pela vitória na Volta a Itália, mas se o ciclista voltar à forma que apresentou na Europcar, então este Giro poderá ser o regresso aos grandes resultados.

Um top dez seria excelente, mas tendo em conta que a Cannondale-Drapac é uma equipa desesperada por vitórias - só tem uma em 2017 - falta saber qual será a prioridade: etapas ou classificação geral. Se forem as duas, naturalmente que será perfeito, mas Rolland sabe que está pressionado a conseguir algo de muito positivo neste Giro se não quiser ser considerado uma aposta falhada da equipa americana.

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