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10 de setembro de 2018

Dimension Data vai reduzir número de ciclistas africanos

(Fotografia: © Stiehl Photography/Dimension Data)
Depois de três anos no World Tour, a Dimension Data não quer perder a sua identidade africana, mas em nome da sustentabilidade, terá de reduzir a aposta nos ciclistas daquele continente. As mudanças previstas para 2020 e que podem incluir a redução de formações no World Tour de 18 para 15, levou os responsáveis a mudar um pouco a estratégia para garantir a continuidade ao mais alto nível e, assim, poder manter a sua aposta em alguns corredores africanos.

Actualmente, quase metade do plantel provém do continente africano, isto é, 13 dos 27 ciclistas que compõem a Dimension Data. Dos três estagiários que chegaram em Agosto, há mais um africano a contabilizar. "Haverá algumas decisões a tomar. Uma será reduzir a nossa pegada africana, para que tenhamos maior profundidade e qualidade", afirmou Doug Ryder, O director não fecha a porta para que no futuro próximo a aposta em ciclistas africanos volte a aumentar, mas agora é preciso de alterar a filosofia.

"A nossa sustentabilidade é o mais importante. Os ciclistas que estamos a trazer para a equipa são agora de todo o lado", salientou. Mas ficou a garantia: "Se o nosso foco mudou? Não. Se nos preocupamos com África e em mobilizar o continente através das bicicletas? Completamente." Porém, não esconde: "Se vamos andamos para trás e para a frente? Infelizmente, hoje sim."

Nos três anos em que está no World Tour, a formação sul-africana tem sido sempre última do ranking, lugar que ocupa neste momento. No entanto, Ryder salienta que 2018 está a ser a pior temporada de sempre. São apenas sete as vitórias, com as últimas duas a dar uma ajuda preciosa à equipa, com Ben King a conquistar duas etapas da Vuelta. Em 2016 foram 32 e em 2017, 25. Apesar da falta de rendimento de alguns ciclistas, a Dimension Data não tem estado imune aos azares. Mark Cavendish soma quedas e parou novamente devido ao regresso do vírus Epstein-Barr, que no ano passado provocou-lhe uma mononucleose. Edvald Boasson Hagen começou o ano na mesa de operações e Bernard Eisel também teve de parar depois de uma cirurgia ao cérebro.

A estrela em ascensão, Ben O'Connor parecia estar a caminho de um top 10 no Giro, mas caiu, partiu a clavícula e abandonou. "Pensava: 'Estão a brincar comigo?' É como se alguém tivesse feito uma boneca voodoo para a Dimension Data, espetou-lhe e bateu com ela na mesa", disse, citado pelo Cycling Weekly.

Doug Ryder não quer apenas que a equipa comece a ganhar mais. É preciso ganhar nas corridas do World Tour. Por isso, a aposta está a ser em ciclistas com mais experiência: Michael Valgren (26 anos, Astana), Roman Kreuziger (32, Mitchelton-Scott), Enrico Gasparotto (36, Bahrain-Merida), Danilo Wyss (33, BMC) e Lars Ytting Bak (38, Lotto Soudal). Rasmus Tiller (22, Joker Icopal) é, até ao momento, a aposta mais jovem para 2019, a nível de reforços.

"Nós queremos mobilizar o continente africano com o sucesso desta equipa. Queremos criar um herói africano. Não o podemos fazer se não existirmos", salientou. A Dimension Data continua a ser uma forma de angariar dinheiro para depois distribuir bicicletas por África. Mais de 80 mil já foram entregues e Ryder confessa como perfeito seria um dia, uma das crianças que começou a andar numa dessas bicicletas ganhar a Volta a França.

Num objectivo mais próximo, a equipa quer ver um africano no pódio de uma grande volta, principalmente na francesa. Louis Meintjes regressou à formação que o lançou, depois de uma passagem pela Lampre-Merida/UAE Team Emirates, para tentar ser esse herói, mas 2018 está a ser para esquecer, tanto no Giro, como agora na Vuelta. Daniel Teklehaimanot chegou a ter esse estatuto de herói quando vestiu a camisola da montanha no Tour em 2015. O ciclista acabou por não conseguir manter o sucesso e no final do ano passado o seu contrato não foi renovado. Está na Cofidis.

Ryder refere ainda como é complicado ter africanos numa equipa a nível financeiro, pois, disse, custam três vezes mais quando é preciso viajar: "Já falei com o Comité Olímpico Internacional para criar um passaporte do atleta, para que os nossos atletas possam viajar mais facilmente."

"Temos de nos focar. O nosso orçamento é limitado. Não podemos ser tudo para todos, senão vamos ser nada para ninguém", salientou Ryder, que tudo fará para manter o estatuto World Tour. E precisamente por o dinheiro não abundar, o futuro de Cavendish continua incerto. O britânico é dos ciclistas mais bem pagos do pelotão, mas o seu rendimento está longe do que era. Para permanecer na Dimension Data terá provavelmente de concordar um corte no salário e aceitar que já não será a principal aposta da equipa, que para sobreviver ao mais alto nível quer abrir o leque de possibilidades de ciclistas vencerem e não centrar tanto num.

Ben O'Connor é a estrela em ascensão, Valgren vai chegar à equipa para vencer clássicas e espera-se que Meintjes possa regressar à consistência de épocas anteriores (top dez em grandes voltas é com ele quando está bem). Apesar da então anunciada redução de ciclistas africanos, ainda assim, já estão confirmados nove para 2019, mas não significa que a redução não venha a ter efeitos nas próximas temporadas, até a equipa entrar no rumo desejado para que possa regressar à sua génese, de ser uma porta de entrada de ciclistas africanos para o mais alto nível do ciclismo mundial.

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2 de setembro de 2018

Pouca acção, muito estudo e uma Vuelta com poucas certezas

(Fotografia: © PhotoGomezSport/La Vuelta)
Não há como esconder. A subida à La Covatilla desiludiu. Fez lembrar como no Giro de 2017 muito se esperou da etapa do Etna e depois o vento fez com que todos os candidatos ficassem quietinhos. Na La Covatilla também houve vento, mas até se viram movimentações. Poucas. Houve mais uma tentativa de estudarem como estavam os adversários, sem quererem eles próprios abrir muito o livro, com uma ou outra excepção, Kelderman à cabeça. Nesta altura, talvez as forças estejam muito idênticas, ainda que, aí sim, como esperado, já se percebeu um pouco quem pode não ser tão candidato como inicialmente previsto. Mas ao fim de uma semana, nova dias, mais precisamente, as certezas são poucas nesta grande volta. E ainda bem!

Mesmo sem muita acção, ou então muito concentrada nos últimos dois quilómetros (e foram 200,8) percebeu-se que Michal Kwiatkwoski poderá ter a longa época, sempre a um nível elevado a passar-lhe a factura. Que bem ia o polaco da Sky nos primeiros quilómetros dos cerca de nove da subida. Porém, foi como se o combustível de repente terminasse. Com David de la Cruz também a sofrer, acabou por ser Kwiatkowski quem deixou fugir a disputa desta Vuelta. Perdeu 2:04 minutos para o primeiro grupo de candidatos a cortar a meta, liderado por Miguel Ángel López (Astana). Na geral são agora 2:10 para recuperar. Não se pode eliminá-lo por completo, mas as indicações não foram boas no primeiro grandes teste. De la Cruz minimizou perdas, mas também perdeu mais de meio minuto.

Fabio Aru. O que é feito daquele Aru que em 2015 fez Alberto Contador suar para ganhar o Giro de 2015 e que nesse mesmo ano ganhou a Vuelta? Do Aru lutador, que em 2017 fez algo nunca visto: tirou a camisola amarela do Tour a Chris Froome, ainda que o britânico a recuperasse pouco depois? O italiano está a 1:08 da liderança, o que não é grave, mas o pouco que se viu dele, lá estava em esforço para aguentar um ritmo que parecia ser demasiado para ele. Como acabou por ser uma exibição de "menos mal", Aru tem tempo para ir subindo de forma e ainda aparecer nesta Vuelta, algo essencial para quem está a realizar uma época tão fraca na UAE Team Emirates, com destaque para um Giro muito, muito mau.

Steven Kruijswijk e George Bennett (Lotto-Jumbo), Thibaut Pinot (Groupama-FDJ), Tony Gallopin (AG2R) e mesmo Emanuel Buchmann (Bora-Hansgrohe) - que caiu um lugar, para quarto - deixaram escapar o grupo da frente, mas perder pouco mais que 20 segundos deixa-os entre os que realizaram uma exibição expectável. Estão na luta e é o que queriam garantir na La Covatilla.

Entre os espanhóis, sinal positivo de Ion Izagirre (Bahrain-Merida), que terminou no grupo da frente de candidatos, sinal menos positivo de Alejandro Valverde. O ciclista da Movistar fraquejou um pouco, chegando com Pinot e os restantes ciclistas referidos em cima. Mas para quem tinha a camisola vermelha a 37 segundos, em Espanha queria-se mais. Mas por um segundo, a liderança escapou. O próprio assumiu as dificuldades que sentiu. É curiosa a crónica no jornal Marca que, mesmo tendo Valverde completamente na luta pela Vuelta, a sua fraqueza momentânea faz com que o jornalista lhe peça para ajudar Quintana e pensar em poupar força para o Mundial, uma das poucas grandes vitórias que lhe falta no seu invejável currículo. Afinal já ganhou duas etapas nesta Vuelta, o que para a maioria significaria ter a corrida mais do que feita. O Bala é que não parece querer desistir já da geral. Desistir não faz parte do seu vocabulário.

Quanto a Quintana, há um misto de sentimentos. Por um lado foi ele que com Miguel Ángel López (Astana) acabou por mexer num grupo que ia num ritmo elevado a ver quem cedia, mas sem sinais de alguém querer atacar. A dupla colombiana levou o compatriota Rigoberto Uran (EF Education First-Drapac p/b Cannondale), Wilco Kelderman (Sunweb) e Izagirre, com Simon Yates (Mitchelton-Scott) na perseguição. A questão com Quintana é vê-lo a mostrar-se bem, mas atacar a olhar para trás. Não quis arriscar em demasia. O lado conservador tomou conta do ciclista da Movistar, que ainda assim passou o teste que tinha dito que precisava de tirar boa nota. Em La Covatilla, Quintana assumiu-se de vez como um dos mais fortes candidatos, até mais do que Valverde, ainda que esteja atrás do companheiro, por agora. Está a 14 segundos da liderança. Mas seria muito bom deixar cair o conservadorismo que o está a prejudicar em momentos importantes.

Que pena Kelderman ter perdido tempo devido a um furo na sexta etapa. O holandês fez pela vida na La Covatilla. Contra-atacou Quintana e López - que não o largaram -, acelerou naquele último quilómetro e conseguiu começar a recuperar alguns segundos. Foram 60, com a diferença para a liderança a estar agora nos 1:50. Aproxima-se do top dez e pode ter parecido que o ataque foi tardio, mas há que não deitar forças fora. A pouco e pouco, Kelderman pode reentrar na luta pelo menos pelo pódio, caso consiga manter o nível que está a demonstrar.

Se Quintana assumiu-se com um dos mais fortes candidatos, tem a seu lado um Simon Yates que perdeu um Giro que parecia estar tão bem encaminhado para o britânico, numa etapa em que tudo se desmoronou já tão perto do fim da corrida. Mas aqui está o gémeo novamente a liderar uma grande volta. Neste aspecto até imita Rohan Dennis, que também liderou a Volta a Itália. A diferença é que Yates tem novamente a possibilidade de ganhar uma corrida de três semanas.

E este Yates pode muito bem ser um ciclista que aprendeu com os erros. Quando na Sierra de la Alfaguara, na quarta etapa, o britânico acelerou, ganhando alguma distância para adversários directos, no final, admitiu que se entusiasmou. No Giro fez tanto dessas acelerações. Ganhou três etapas e andou sempre na frente até que que a três dias do fim, quebrou com estrondo. Agora é ver se a Mitchelton-Scott estará à altura do que fez em Itália, ou se Yates estará um pouco mais por sua conta, com o seu irmão a estar muito apagado. No entanto, mesmo que fique algo só nos momentos decisivos, não é razão para enormes preocupações. Está a ser igual para quase todos.

Por apenas um segundo, Yates estragou a esperança dos espanhóis de verem Valverde de vermelho. A camisola que era de Rudy Molard. Foi bom enquanto durou para o francês, mas quando chegou o mais difícil dos primeiros testes, Molard não esteve à altura, nem a equipa. A Groupama-FDJ fez um controlo estranho da etapa, acelerando muito o ritmo numa fase inicial, com as equipas adversárias a deixarem a formação gaulesa desgastar-se, mesmo quando tentou passar a responsabilidade. Ninguém a quis até aos últimos 35 quilómetros. A fuga acabaria por triunfar e Molard não esteve sequer perto de segurar a liderança.

Segunda-feira é dia de descanso e até sexta-feira, os homens da geral deverão preocupar-se em tentar passar as etapas sem problemas. Serão depois três dias importantes. Daqui a uma semana teremos os Lagos de Covadonga, naquela que é uma das principais etapas da Vuelta. É sempre uma das principais etapas da Volta a Espanha, sempre que esta subida integra o percurso. Terça-feira serão 177 quilómetros entre Salamanca e Fermoselle, Bermillo de Sayago, bom dia para os sprinters, mas com uma terceira categoria perto do final que poderá baralhar um pouco essas pretensões, caso alguém aposte em ataques.


King faz jus ao nome e foi rei de La Covatilla

Numa longa etapa de 200,8 quilómetros, a segunda mais extensa desta Vuelta, com uma categoria especial a terminar o dia, não se pode deixar para segundo plano um Ben King simplesmente fantástico. De repente, a Dimension Data vê a sua temporada compor-se um pouco devido a este americano de 29 anos. Foi a segunda vitória nesta primeira semana de Volta a Espanha. Para uma equipa que não ganhava no World Tour desde a Volta a França do ano passado e que só tinha cinco vitórias antes da Vuelta em 2018, King está a salvar uma época pobre da formação sul-africana.

Mais uma vez integrou a fuga e resolveu depois ir sozinho, frustrando um Bauke Mollema que soma mais um segundo lugar. King pode agora também começar a pensar na classificação da montanha, que continua com Luis Ángel Maté. Somou mais pontos, mas o espanhol da Cofidis não é feito para as maiores dificuldades desta corrida, como demonstrou ao ficar para trás mal a aproximação à La Covatilla aconteceu. É uma camisola que ameaça começar a ser mais disputada, pois o próprio Mollema poderá ambicioná-la, já que a geral é para esquecer. Pierre Rolland (EF Education First-Drapa p/b Cannondale) andou muito nas fugas nos primeiros dias e se apostar novamente nessa táctica, é outro nome a ter em conta, se não ficar preso à ajuda a Uran.

King, vencedor da classificação da montanha na Volta ao Algarve, disse que nunca tinha sofrido tanto. Depois de uma exibição desta, ou a Dimension Data anuncia uma renovação, ou o americano está a apresentar-se como um bom reforço para outra equipa.

Quanto a classificações, as mudanças foram na geral, com Molard a ceder para Yates - o francês ficou a 2:43 do britânico - e por equipas, com a Lotto-Jumbo a subir ao primeiro lugar, antes ocupado pela Astana. Valverde (pontos) e Maté (montanha) continuam com as respectivas camisolas, com o espanhol a liderar ainda no prémio combinado.

Nelson Oliveira (Movistar) terminou a etapa a 18:13 minutos de King, José Mendes (Burgos-BH), Tiago Machado e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) fecharam num grupo grande a 21:56.

Pode ver aqui as classificações completas.

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»»Movistar prepara ataque à liderança. Mas com quem?««

29 de agosto de 2018

O futuro incerto de Mark Cavendish

(Fotografia: Stiehl Photgraphy/Dimension Data)
A notícia dificilmente poderia ter chegado na pior altura. O vírus Epstein-Barr tem estado novamente a limitar Mark Cavendish, que vai parar por tempo indeterminado até recuperar a 100%. Já no ano passado o britânico sofreu com este problema, que na altura provocou mesmo uma mononucleose infecciosa. Com os resultados a escassearem, em final de contrato e com 33 anos, o futuro daquele que já foi considerado o melhor sprinter do mundo está muito incerto.

A Dimension Data anunciou que todo o calendário do ciclista foi cancelado. "Os resultados médicos indicaram que Cavendish tem estado nos últimos meses, sem saber, a treinar e competir com o vírus Epstein-Barr", lê-se no comunicado, que realça como o conselho médico foi de descanso para recuperar completamente. Sem um tratamento específico, Cavendish está dependente de como o seu corpo vai reagir à paragem. Pela frente tem pelo menos duas semanas a um mês de descanso total, mas o tempo poderá ser mais.

Em 2017, o ciclista temeu que poderia ficar longe das corridas durante muito tempo, mas em três meses conseguiu estar novamente a competir e inclusivamente foi ao Tour. Com a actual temporada na recta final e já sem muitos objectivos, Cavendish terá ainda de se preocupar com a questão em qual equipa irá competir em 2019.

Depois de uma primeira época de muito sucesso na Dimension Data, com 10 vitórias, quatro no Tour, Cavendish apagou-se nas duas temporadas seguintes. Em 2017 e 2018 somou uma vitória apenas em cada temporada. Muito pouco para um dos ciclistas mais caros do pelotão. Nos primeiros meses deste ano, venceu uma etapa na Volta ao Dubai, mas depois sofreu uma série de quedas que também contribuíram para o seu fraco rendimento. Foi contra um carro que activou automaticamente os travões ao detectar ciclistas na Volta ao Dubai, caiu no contra-relógio colectivo que abriu o Tirreno-Adriatico, recuperou a tempo da Milano-Sanremo, onde foi contra uma divisória na estrada, fazendo um mortal antes de cair desamparado na estrada.

Porém, o problema do britânico ia, afinal, muito além de um arranque de época azarado. O ciclista explicou no comunicado que não se tem sentido como habitualmente a nível físico, apesar dos valores apresentados serem bons. "Senti que algo não estava bem", disse. Cavendish está satisfeito por agora conhecer o problema, comprometendo-se a regressar às corridas só quando estiver em perfeitas condições.

A Dimension Data tem uma decisão importante a tomar. A equipa tem sempre mantido o apoio ao seu ciclista, que em 2016 foi para a formação sul-africana como a grande estrela, no ano em que subiu ao World Tour. No entanto, com a baixa de rendimento de Cavendish, desceram também o número de vitórias. Este ano são apenas seis e na terça-feira Ben King quebrou o jejum de mais de um ano sem triunfos a nível do World Tour. Em 2017, por esta fase da temporada, a Dimension Data somava 23 dos 25 que viria a ter, mesmo com Cavendish já a perder influência. No primeiro ano no escalão máximo, somou 32 triunfos.

Uma renovação da equipa é algo essencial para recuperar o fulgor perdido. A culpa não é apenas de Cavendish, pois Louis Meintjes, por exemplo, regressou para ser a figura para as três semanas e noutras corridas por etapas, mas tem andado quase desaparecido. Steve Cummings está a ter um ano para esquecer. As contratações já estão a ser feitas, começando pelo dinarmarquês Michael Valgren (ciclista da Astana que este ano venceu a Omloop Het Nieuwsblad e a Amstel Gold Race), o compatriota Lars Ytting Bak (Lotto Soudal), o checo Roman Kreuziger (Mitchelton-Scott) e o suíço Danilo Wyss (BMC). Também está garantida uma jovem promessa norueguesa, Rasmus Tiller, da equipa Continental, Joker Icopal.

Se Cavendish perder o seu lugar na Dimension Data, permanecerá a dúvida se alguma equipa quererá fazer um investimento tão grande num ciclista que, infelizmente, já não oferece as garantias de outrora. E este problema de saúde será sempre mais um pormenor a ponderar, pois não tem cura e poderá voltar a afectar o ciclista. Mesmo que diminua as suas exigências salariais, o futuro de Cavendish é dos mais incertos no pelotão.

28 de agosto de 2018

Cada um por si nesta Vuelta

(Fotografia: © A.S.O.)
Ver uma fuga triunfar na quarta etapa não é habitual numa grande volta. E chegar a ter 10 minutos de vantagem é algo ainda mais inesperado. Mas mais do que ser mais uma prova de como a Vuelta é diferente do Giro e Tour, foi uma demonstração como os blocos das principais equipas estão desgastados, o que poderá muito bem significar que sempre que os momentos de decisão chegarem, será cada um por si entre os chefe-de-fila.

A Sky fez o que lhe competia, tendo em conta que tem a camisola vermelha da liderança. Mas a sua postura foi tão diferente do normal para a equipa britânica, que quase nem parecia a Sky. Esteve na dianteira do pelotão, contudo, não fez uma perseguição, nem sequer um controlo da fuga. A passividade foi tal que Benjamin King até foi líder virtual com mais cerca de quatro minutos de vantagem para Michal Kwiatkowski. No final, houve alguma normalidade, quando mais equipas assumiram a frente do pelotão, principalmente com a intervenção da Lotto-Jumbo, para preparar a subida final. A diferença caiu, mas não o suficiente para tirar a Benjamin King a vitória mais importante da sua carreira.

Houve um bloco de nota. O da Lotto-Jumbo. A equipa holandesa está cada vez mais a querer ter protagonismo nas grandes voltas, com Steven Kruijswijk e George Bennett a terminarem com os restantes favoritos, num claro assumir que estão na Vuelta para lutar por um bom resultado. Perante o que se está a ver, tanto os estes dois ciclistas, como outros, terão no pensamento a vitória. E porque não? Nem a Movistar está a assustar, sendo a equipa que, teoricamente, teria o bloco mais forte. O trabalho da Lotto-Jumbo permitiu a que pelo menos não houvessem surpresas na geral, como ter King de vermelho.

Na derradeira subida de primeira categoria (Sierra de la Alfaguara), a segunda do dia, os ataques só apareceram muito perto do fim dos 12 quilómetros (161,4 no total da tirada que começou em Vélez-Málaga). As boas notícias são que Simon Yates (Mitchelton-Scott) está novamente em boa forma e que a Bora-Hansgrohe tem o alemão Emanuel Buchmann preparado para assumir mais responsabilidade, ainda que Rafal Majka tenha ficado também na frente. Yates e Buchmann ganharam uma distância suficiente para se colocarem nos lugares de  pódio a dez e sete segundos de diferença de Kwiakwoski, respectivamente. Mesmo sem uma Sky forte e sem grande ajuda de um David de la Cruz, talvez a pensar mais em fazer a sua corrida, o polaco manteve a camisola vermelha.

Além de se perceber que os blocos não terão a mesma influência que num Giro e Tour, a quarta etapa serviu para juntar mais alguns ciclistas à lista dos que já estão fora da luta pela geral e dificilmente entrarão sequer no top 10. A Richie Porte (BMC) e Vincenzo (Nibali) acrescenta-se agora Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin) - caiu na terceira etapa e os problemas no ombro e joelho fizeram-no perder mais de cinco minutos para os restantes candidatos (mais de oito para King) -, Bauke Mollema (Trek-Segafredo) - cortou a meta quase 12 minutos depois de King, desperdiçando a última oportunidade para manter a confiança da equipa para as três semanas, se é que ainda havia alguma hipótese - e Michael Woods (EF Education First-Drapac p/b Cannondale) não vai repetir o sétimo lugar de 2017.

O início desta Vuelta está a ser uma prova de eliminação, mas a lista de candidatos continua extensa e interessante. Se nos próximos dias o percurso poderá ser um pouco mais simpático, o muito sobe e desce poderá continuar a fazer as suas vítimas, até que no domingo surja uma das etapas mais esperadas da corrida, com a chegada na La Covatilla, uma categoria especial para talvez fazer uma maior selecção de candidatos.

Se os blocos não melhorarem com o decorrer da Vuelta, será mesmo cada um por si entre os líderes. Mesmo dentro de algumas equipas poderão surgir rivalidades: Michal Kwiatkowski/David de la Cruz (Sky) e Alejandro Valverde/Nairo Quintana (Movistar). A convivência entre Kruijswijk/Bennett e Buchmann/Majka deverá ser mais pacífica, com a corrida a definir quem poderá ser o número um.

Um suspiro de alívio para a Dimension Data

Tem sido mais uma temporada muito complicada para a equipa sul-africana. As vitórias escasseiam, a sua maior estrela dá mostras de já não conseguir ter um novo regresso aos grandes momentos - Mark Cavendish só soma um triunfo em 2018 - e há mais de um ano que a Dimension Data não ganhava numa corrida do World Tour.

O último triunfo tinha sido a 21 de Julho de 2017, então com Edvald Boasson Hagen a conquistar a 19º etapa do Tour. Quando Benjamin King - que venceu a classificação da montanha na Volta ao Algarve - partiu para a fuga do dia, estava longe de pensar que terminaria com uma vitória. Claro que quando um ciclista arrisca ir para a frente da corrida, espera que seja desta que o pelotão não conclua com sucesso a perseguição. Mas nas grandes voltas são poucas as fugas que triunfam, ainda mais nos primeiros dias. Por isso, King admitiu que só no último quilómetro acreditou que poderia mesmo ganhar.

No sprint com o cazaque da Astana, Nikita Stalnov, o americano foi claramente o mais forte. É apenas a sexta vitória da equipa este ano e não salvando a temporada, serve para pelo menos a Dimension Data suspirar um pouco de alívio. É que na luta pela geral há que juntar mais um nome que não está a deixar boas indicações: Louis Meintjes já tem 3:10 minutos de atraso para Kwiatkowski.

Pode ver aqui as classificações completas. Luis Ángel Maté (Cofidis) integrou novamente a fuga e reforçou a liderança na montanha, com Kwiatkowski a ser ainda o líder dos pontos. Já por equipas, a Astana destronou a Sky.

Quanto aos portugueses, todos perderam tempo. José Mendes (Burgos-BH) cortou a meta 7:45 minutos depois de Benjamin King, Tiago Machado (Katusha-Alpecin) 13:12, Nelson Oliveira 17:05 e José Gonçalves (Katusha-Alpecin) 18:35.

Quinta etapa: Granada-Roquetas de Mar, 188,7 quilómetros

Quando se olha para o final pensa-se em Vincenzo Nibali. Com 12:33 de atraso, o italiano da Bahrain-Merida já terá liberdade para algum ataque. O único problema é que não tem estado nada bem quando o terreno inclina para cima e terá de passar uma segunda categoria antes da longa descida até à meta, que será antecedida por cerca de 10 quilómetros em plano.

Se não for Nibali, é dia para quem desce bem procurar a vitória de etapa e talvez fazer alguma diferença na classificação. Noutra perspectiva, Quintana, por exemplo, esperará ter a ajuda de Valverde para não perder tempo. Não há descanso nesta Vuelta.


14 de agosto de 2018

BMC alia-se à Dimension Data

(Fotografia: © Scott Mitchell/Dimension Data)
A nova vida da BMC irá passar pelo projecto sul-africano Dimension Data. A marca suíça de bicicletas não quis mais continuar a suportar uma equipa do World Tour, mas não vai abandonar o mais alto nível do ciclismo e um palco importante para a promover os seus produto. Em 2019, BMC substitui a Cervélo no fornecimento de bicicletas.

O fim da BMC como equipa ficou definido este ano, com Jim Ochowicz a ver-se obrigado a procurar um novo patrocinador principal para manter a estrutura. Custou, mas da Polónia apareceu a CCC, que queria subir de nível e agarrou a oportunidade, ainda que alguns ciclistas já tenham acertado contratos com outras formações. A Dimension Data está à procura de revitalizar um projecto, que a nível social é um exemplo mundial, mas cujos resultados competitivos estão muito abaixo do desejado.

A parceria com a BMC foi a primeira grande "contratação" para a próxima temporada, por assim dizer. A equipa está muito activa no mercado e já garantiu o dinarmarquês Michael Valgren (ciclista da Astana que este ano venceu a Omloop Het Nieuwsblad e a Amstel Gold Race), o checo Roman Kreuziger (Mitchelton-Scott) e o suíço Danilo Wyss, que está precisamente na BMC. Também está garantida uma jovem promessa norueguesa, Rasmus Tiller, da equipa Continental, Joker Icopal. Uma das grandes dúvidas que persiste é renovação ou não de Mark Cavendish. É dos ciclistas mais bem pagos e não tem rendido, nem de perto, nem de longe, o esperado nas duas últimas temporadas. Primeiros sofreu de uma mononucleose e depois tem sido vítima de várias quedas, normalmente com alguma gravidade. Da equipa há um discurso de alguma receptividade para a continuidade do sprinter de 33 anos, mas a incerteza persiste.

Este ano, a equipa só soma cinco vitórias, nenhuma do World Tour. Um dos principais momentos de 2018 foi a revelação do australiano Ben O'Connor, autor de um dos triunfos mais bonitos da temporada na terceira etapa do Tirreno-Adriatico. Estava a realizar um excelente Giro, até que uma queda o obrigou a abandonar, numa corrida em que o regressado Louis Meintjes foi uma desilusão.

O projecto tenta recuperar algum sucesso competitivo, enquanto mantém o seu lado social, no qual oferece bicicletas a crianças desfavorecidas em África.


18 de julho de 2018

Cavendish e Kittel estão fora da Volta a França

(Fotografia: © Stiehl Photography/Dimension Data)
Foi por menos de um minuto que se salvaram na primeira etapa nos Alpes, na terça-feira, mas à segunda foi de vez. Mark Cavendish e Marcel Kittel falharam o tempo limite para terminar a tirada e podem fazer as malas para regressar a casa. Dois dos sprinters que mais venceram nos últimos anos na Volta a França saíram pela porta mais pequena.

Cavendish está "apenas" a quatro triunfos de igualar Eddy Merckx... Mas todas as eras têm um fim e ver os dois serem afastados da competição na segunda semana desta forma, depois de passaram quase despercebidos nas etapas ao sprint, faz de facto pensar se estaremos no fim de uma era.

Os 108,5 quilómetros entre Albertville e La Rosière Espace San Bernardo incluíram duas categorias especiais, uma segunda e uma primeira para terminar... Não ajudou o ritmo ter sido elevado. Foi de mais para os dois sprinters que nem no grupetto se aguentaram.

Marcel Kittel tem 30 anos e poderá ser precoce pensar que ainda não tem algo mais para dar. Depois do que se viu com John Degenkolb, é melhor não dar este alemão como acabado. Ainda assim, a aposta da Katusha-Alpecin num ciclista caro, mas que parecia ser uma garantia de vitórias, está a ser completamente falhada. Kittel chegou ao Tour pressionado para ganhar. Só venceu por duas vezes em 2018, no Tirreno-Adriatico. Muito pouco.

Kittel disse adeus ao Tour sem razões para sorrir
(Fotografia: ©ASO/Pauline Ballet)
No ano passado ganhou cinco etapas na Volta a França e até estava de camisola verde até que uma queda o obrigou a abandonar, na 17ª etapa. Intimidado por um Fernando Gaviria a ganhar estatuto na Quick-Step Floors, Kittel preferiu sair a disputar o lugar com o colombiano. Sabia-se que a adaptação à Katusha-Alpecin de José Azevedo poderia demorar, até porque seria preciso construir e olear o seu comboio. Porém, o alemão tem estado mal e não pode apenas culpar o comboio, ou falta dele. Kittel não tem estado à altura dos acontecimentos. Neste Tour até se o viu baixar os braços depois de furar, não tentando reentrar no grupo da frente, quando ainda tinha tempo. Esta quarta-feira chegou fora do tempo limite. Fim da linha nesta Volta a França e muito a repensar na Katusha-Alpecin que vê ainda Ilnur Zakarin não estar à altura de disputar o Tour.

O sprinter sai da Volta a França derrotado e ainda mais pressionado, numa altura em que a nova geração de sprinters está a consagrar-se, casos precisamente de Gaviria e também de Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo). Cada um já conta duas vitórias no Tour e o colombiano ainda vestiu a camisola amarela por um dia.

Mas mais derrotado sai Mark Cavendish. É que Kittel ainda se viu nos sprints, ainda que sempre atrás de Gaviria, Groenewegen e Peter Sagan. Cavendish só se viu a ficar fora da discussão. Da Dimension Data veio a mensagem que não se deveria desvalorizar o britânico, pois este estava decidido a triunfar. No entanto, aquele Tour de 2016 terá sido o último renascer das cinzas do sprinter britânico.

Já não se esperava muito dele naquela altura, mas venceu quatro etapas e até vestiu a muito desejada camisola amarela. 2017 foi marcado pelo incidente com Peter Sagan (o eslovaco acabou expulso, acusado de ter empurrado Cavendish contra as barreiras), que levou ao abandono do britânico, e também por uma mononucleose. Uma última glória, era o que o ciclista queria nesta edição, era o que a equipa pedia. O próprio admitiu que chegar ao recorde de Merckx era o que lhe restava para alcançar na carreira. Mas este Cavendish já não dá qualquer garantias e será interessante perceber se de facto a Dimension Data vai renovar com um dos ciclistas mais bem pagos do pelotão. Se não houver um novo contrato, também não será fácil convencer outra equipa a abrir os cordões à bolsa.

Aos 33 anos, Cavendish entra numa fase em que terá de repensar a sua carreira. Há sempre espaço e tempo para mais uma grande vitória. Porém, talvez para Cavendish seja de facto o fim de uma era de um dos melhores sprinters da história.

Mark Renshaw, o eterno escudeiro de Cavendish, ficou ao lado do britânico e acabou também por ser excluído. Já Rick Zabel recebeu ordens para tentar salvar-se. Cortou a meta cinco segundos depois do tempo limite, mas a organização permitiu que o alemão se mantivesse na corrida.

Para a equipa sul-africana Dimension Data, o Dia Internacional de Nelson Mandela - se fosse vivo faria hoje 100 anos - parecia que poderia acabar muito bem, com Serge Pauwels a ser por momentos o camisola amarela virtual. No final, a sua principal estrela acabou excluída do Tour. Sem homem para geral, resta desejar que Edvald Boasson Hagen possa salvar algo para a equipa, ou que alguém aposte na fuga certa. O Giro correu mal com Louis Meintjes, o Tour não foi melhor com Cavendish. 2018 está a ser um ano muito complicado para a Dimension Data.

»»Mister Thomas, que grande etapa!«

»»Depois da típica etapa de montanha controlada pela Sky que venha uma ao estilo da Vuelta««

3 de julho de 2018

Cavendish não desiste do recorde, mas Gaviria quer começar a sua história frente aos melhores rivais do mundo

(Fotografia: Stiehl Photography/Dimension Data)
Fernando Gaviria quer roubar o foco das atenções nos sprints da Volta a França. Há um Mark Cavendish que tanto ambiciona chegar ao recorde de Eddy Merckx. Há um Marcel Kittel a precisar desesperadamente de um bom Tour. Há um Arnaud Démare a querer ser a estrela francesa neste tipo de etapas, com um Christophe Laporte desejoso de lhe tirar esse estatuto, agora que "encostou" Nacer Bouhanni. Há um André Greipel a querer provar que ainda tem algo para dar. Teremos um Dylan Groenewegen a querer afirmar-se definitivamente entre os melhores. E há um Peter Sagan com vontade de vingar a expulsão de há um ano e ir buscar mais uma camisola verde (dos pontos). Os melhores sprinters no palco mais importante do ciclismo.

Gaviria pode estar apenas a fazer a sua estreia no Tour, sendo a sua segunda grande volta depois de um Giro de sucesso em 2017 (quatro vitórias de etapas e classificação por pontos), mas o colombiano da Quick-Step Floors surge como favorito a dominar os sprints, até porque, apesar de uma temporada marcada por algumas quedas, ainda assim tem sido dos que mais tem vencido, só batido por Groenewegen. Porém, antes da corrida começar, Mark Cavendish tem a capacidade para conseguir desviar um pouco as atenções para si, mesmo que já vá perdendo algum protagonismo. Vai para o 12º Tour e faltam-lhe quatro vitórias de etapa para igualar Merckx.

Cavendish tem tido uma época terrível. Caiu na Volta a Abu Dhabi quando os sensores de segurança do carro do comissário dispararam ao detectar ciclistas. Activou os travões e Cavendish ia atrás do veículo. Caiu e foi para casa. Regressou à competição pouco depois no Tirreno-Adriatico. Caiu no contra-relógio colectivo inaugural, terminou a etapa muito mal tratado, mas foi excluído da corrida por chegar fora do tempo limite. Recuperou a tempo de estar na Milano-Sanremo... Foi contra uma divisória na estrada, fez um mortal, caiu desamparado e mais uma paragem forçada. Isto tudo depois de um 2017 marcado por uma mononucleose.

Aos 33 anos, Mark Cavendish está em final de contrato, ainda que a Dimension Data já tenha avançado que gostaria de manter o sprinter. Vamos a ver é se vai continuar a ser dos mais bem pagos. Mas com o aproximar do Tour, não é dinheiro que está no pensamento de Cavendish. São as vitórias. Pode dizer que não está obcecado pelo recorde, mas quando se está tão próximo de ser autor de um pedaço de história tão relevante como ser quem mais etapas ganhou na corrida mais importante no ciclismo...

No auge da sua carreira pareciam restar poucas dúvidas que Cavendish iria conseguir. No entanto, o britânico começou a "apagar-se", muito por culpa de um senhor chamado Marcel Kittel e de uma forte contribuição de Peter Sagan. Mas aquele Tour de 2016 foi de Cavendish, no que a sprints diz respeito. Quatro triunfos e, de repente, voltava-se a acreditar que era possível chegar à marca de Merckx. 2017 voltou a estragar os planos e não ajudou ter ido para casa mais cedo depois do "desentendimento" com Sagan.

Agora estamos novamente na fase que, apesar de estar tão perto, pensa-se que será muito complicado, principalmente se Gaviria roubar mesmo o foco das atenções àqueles que já praticamente todos sabem o que é ganhar no Tour. Mas em 2016 também se pensava assim e foi o que se viu. Cavendish tem a capacidade para se reinventar quando mais precisa. Chegou o momento de talvez uma última reinvenção para alcançar um lugar muito particular na história, ou pelo menos colocá-lo a uma distância que mais um ou dois Tour o permita alcançar as 34 vitórias e, quem sabe, ultrapassá-las.

O Laporte tirou o lugar a um Nacer Bouhanni em rota de colisão com o director da Cofidis, Cédric Vasseur. Contudo, Bouhanni não está sozinho na frustração de ver de fora o Tour. Caleb Ewan também parecia ser uma presença mais do que provável, mas o pequeno australiano foi preterido numa Mitchelton-Scott que quer tentar levar Adam Yates à luta por um pódio. Esta é uma crença fortalecida depois do que aconteceu no Giro com o irmão Simon. É certo que tudo se desmoronou perto do fim, mas a equipa demonstrou que tem capacidade para se debater por algo mais que um top dez. Por isso, não houve espaço para ter Ewan nos sprints.

Na lista no início do texto não se incluiu Michael Matthews, mas não por esquecimento. É mais um ciclista com uma temporada abaixo das expectativas, apesar de ter aparecido bem na Volta à Suíça. Matthews quer tentar repetir a conquista da camisola verde (vai estar muito activo nos sprints intermédios), mas no que a sprints finais diz respeito, irá procurar chegadas com algumas ligeiras inclinações. Aquelas que Sagan também tanto gosta, mas que Cavendish e Kittel, por exemplo, dispensam.

Dylan Groenewegen não se dá mal em praticamente nenhum tipo de terreno para o sprint, seja plano, ou com alguma pequena dificuldade. Este holandês, também ele um sprinter nova geração, poderá muito bem ser um ciclista a criar uma rivalidade com Gaviria. São dois ciclistas de estrutura física e características como ciclistas idênticas e este Tour poderá marcar uma início de uma bonita rivalidade. Há que não esquecer que Groenewegen até já ganhou no Tour e logo nos Campos Elísios.

Naquelas etapas longas, que se não forem os "abanicos" pouco ponto de interesse têm, pelo menos fica a garantia que no final estarão lá os melhores sprinters do mundo. Uns fizeram uma época melhor que outros até ao momento, mas no Tour tudo pode mudar e é esta corrida que pode marcar o ano. E vamos ter o desejado frente-a-frente entre Gaviria e Kittel, depois do alemão ter trocado a Quick-Step Floors pela Katusha-Alpecin por não querer arriscar ficar em segundo plano para o colombiano no Tour. Uma rivalidade particular, numa especialidade do ciclismo que pode ser de emoção curta, mas que se espera que seja espectacular perante os protagonistas presentes.

Vitórias dos sprinters em 2018

➠ Dylan Groenewegen (Lotto-Jumbo): 9

➠ Fernando Gaviria (Quick-Step Floors): 7 (+ 2 classificações por pontos)

➠ André Greipel (Lotto Soudal): 6 (+ 1 classificação por pontos)

➠ Christophe Laporte (Cofidis): 6 (+ 1 classificação por pontos)

➠ Peter Sagan (Bora-Hansgrohe): 5 (+ 2 classificações por pontos)

➠ Sonny Colbrelli (Bahrain-Merida): 3

➠ Marcel Kittel (Katusha-Alpecin): 2

➠ Arnaud Démare (Groupama-FDJ): 2

➠ Mark Cavendish (Dimension Data): 1

➠ Michael Matthews (Sunweb): 1

»»Bouhanni perdeu o sprint para o Tour contra Laporte««

»»Uma Volta a França sem ciclistas portugueses««

17 de maio de 2018

A dança de patrocinadores que poderá salvar a estrutura da BMC

Um dia depois de Jim Ochowicz, director da equipa BMC, ter dito que não havia limites para garantir o futuro da estrutura, surge a notícia que a situação poderá estar em vias de ficar resolvida. Talvez isso explique a aparente tranquilidade do responsável, que tem Richie Porte a ameaçar começar a procurar uma nova equipa, se não houver boas notícias até ao final do mês. A confirmar-se o que foi esta quinta-feira divulgado será uma autêntica dança de patrocinadores, que afectará outras duas equipas do World Tour.

As informações foram avançadas pelo jornal holandês De Telegraph e já com eco no Cycling Weekly. E a dança poderá ser assim: a BMC deixará a equipa do principal escalão, entrando a Giant e a Deloitte. A primeira, marca de bicicletas, deixará a Sunweb, enquanto a empresa de consultoria poderá não apoiar mais a Dimension Data. A Giant há cerca de dez anos que apoia a actual Sunweb - chegou a estar no nome oficial - que agora se tem tornado numa das mais importantes equipas do pelotão, principalmente desde que Tom Dumoulin ganhou o Giro, no ano passado, e também pela conquista dos títulos mundiais de contra-relógio (individual e colectivo). A Deloitte juntou-se à formação sul-africana quando esta subiu ao escalão do World Tour, ajudando a suportar o elevado custo que foi contratar Mark Cavendish.

Sai a Giant, entra a Cervélo. A marca holandesa também deverá deixar a Dimension Data e passará não só a fornecer as bicicletas para a Sunweb, como poderá mesmo ter o seu nome na equipa, ou seja, Sunweb-Cervélo. De recordar que recentemente a agência de viagens renovou contrato sem colocar um tempo limite na sua ligação ao ciclismo.

A Dimension Data fica assim um pouco mais desamparada. A equipa sul-africana não está a realizar uma temporada muito animadora (apenas três vitórias e nenhuma do World Tour) e já no ano passado a época não foi fácil: apesar das 25 vitórias, apenas três foram de corridas da principal categoria. A estreia no World Tour em 2016 foi muito prometedora, com 32 vitórias, cinco na Volta a França por intermédio de Cavendish, mas tem estado em quebra desde então.

A BMC volta aqui a ser falada, pois a marca poderá fornecer as bicicletas à equipa sul-africana, mas seria apenas a esse nível a sua colaboração. Há outra hipótese: a Bianchi estará à procura de mais uma equipa para colocar as suas bicicletas e assim ter uma maior presença no pelotão. Ou seja, além da Lotto-Jumbo - que para o ano será apenas Jumbo - a Bianchi forneceria a Dimension Data, em condições idênticas ao que faz na equipa holandesa.

Nenhuma destas informações foi confirmada por parte dos intervenientes, mas com o avançar da temporada e com a aproximação da fase em que os ciclistas e as próprias equipas gostam de começar a resolver a questão dos contratos para 2019, não deverá demorar muito a começar a perceber se esta dança de patrocinadores irá concretizar-se.

A boa notícia será principalmente que uma das melhores estruturas do ciclismo estará perto de garantir a sua continuidade. A chamar-se BMC ou com novo nome, o importante é que se mantenha na estrada.



1 de maio de 2018

Louis Meintjes espera ser candidato numa Dimension Data a precisar de vitórias

(Fotografia: © Stiehl Photography/Dimension Data)
Louis Meintjes candidato na Volta a Itália? No seu regresso à Dimension Data, a ambição tanto da equipa como do ciclista, passa por começar a habituar-se aos pódios nas grandes voltas, para em 2020 estar de amarelo quando cortar a meta nos Campos Elísios. É este o plano, vencer o Tour daqui a dois anos, mas para já a opção até foi fazer uma estreia no Giro e o sul-africano quer assumir-se como um voltista a ter em conta para mais do que top dez (tem dois em França). Porém, a sua forma lança muitas dúvidas sobre como se irá apresentar e até Meintjes não escondeu alguma frustração por não ter conseguido andar sequer na roda de Chris Froome, Thibaut Pinot e Miguel Ángel López, por exemplo, na recente Volta aos Alpes.

Pouco ou nada se tem visto de Meintjes, que começou a temporada na Volta ao Algarve. Quatro corridas e só ficou de fora do top 20 na Volta à Catalunha. Mas sabe a pouco tendo em conta o objectivo de se estrear na Volta a Itália com um bom resultado, com a pressão a ser ainda maior tendo em conta a falta de vitórias da Dimension Data. Por mais tranquilidade que a equipa tente passar, dois triunfos apenas é muito escasso. Por isso mesmo, esta Dimension Data dificilmente se focará somente em levar Meintjes ao lugar mais alto possível na geral. Etapas precisam-se. Se o sul-africano demonstrar novamente dificuldades em acompanhar os favoritos, é possível que seja o primeiro a perder tempo para depois lutar por uma tirada. No entanto, Igor Anton e o jovem Ben O'Connor - que grande etapa venceu na Volta aos Alpes - são ciclistas para serem lançados em fugas ou em tentar ataques fulminantes. Também o eritreu Natnael Berhane poderá tentar a sua sorte. Uma classificação como a da montanha não é de descurar.

Mas é em Meintjes que muitas das atenções se centraram. Foi nesta estrutura que se fez ciclista, tendo estado dois anos na Lampre-Merida/UAE Team Emirates. Ali demonstrou que praticamente sem ajuda de companheiros conseguia estar entre os melhores, mesmo na Volta a França. Neste "regresso a casa", Meintjes procura outro tipo de apoio, na estrada e mesmo entre os directores, que se concentram nele para as grandes voltas. O sul-africano tem o potencial para escrever uma bela história no ciclismo, ainda que seja difícil afastar a desconfiança para esta Volta a Itália.

Meintjes foi o primeiro dos principais nomes a chegar a Jerusalém, ontem, onde no sexta-feira arranca a 101ª edição do Giro, com a maioria a aterrar em Israel durante este 1 de Maio. Por esta altura começa a crescer a vontade que a corrida arranque, que se perceba as primeiras sensações. A Dimension Data e Meintjes podem ter um plano a médio prazo, mas a curto querem arrancar de vez para uma temporada mais tranquila, pois pontos precisam-se para um ranking no qual só a Katusha-Alpecin está pior.



26 de abril de 2018

Eisel operado ao cérebro devido a complicações após queda no Tirreno-Adriatico

(Fotografia: Stiehl Photgraphy/Dimension Data)
Bernhard Eisel estava já a treinar para tentar regressar o mais rapidamente possível à competição depois de uma grave queda na quinta etapa do Tirreno-Adriatico. O ciclista bateu com a cabeça e realizou de imediato um TAC que não revelou qualquer hemorragia no cérebro. No entanto, o ciclista não se estava a sentir-se bem e na segunda-feira realizou novos exames e foi detectado um hematoma subdural. Eisel já foi operado e a Dimension Data espera que possa voltar a contar com o ciclista em breve.

Inicialmente, Eisel pensava que "estava a sofrer de alergias e tinha dificuldades em treinar", segundo explicou a equipa. As dores de cabeça acabaram por ser um alerta que levaram o ciclista a realizar novos exames médicos. "A hemorragia ocorreu lentamente durante as últimas semanas e, eventualmente, a acumulação de sangue coagulado colocou pressão no cérebro, provocando os sintomas", explicou a Dimension Data, em comunicado. Eisel foi operado no seu país, Áustria, e a expectativa é que dentro de duas semanas possa começar a treinar nos rolos e talvez daqui a um mês regresse à estrada, caso os exames médicos demonstrem estar apto.

No entanto, o ciclista de 37 anos mostra-se cauteloso. "Não posso dizer quando irei regressar. Primeiro quero ficar saudável, demorar o tempo necessário e se os médicos me derem luz verde, eu irei pensar quando é a melhor altura para regressar. Continuo a gostar de andar de bicicleta, mas isto foi algo enorme o que aconteceu ao meu corpo. Se és operado ao cérebro, é certo que te faz pensar duas vezes nas coisas, mas, de momento, irei seguir as recomendações dos médicos da equipa. De momento sinto-me bem e estou desejoso de sair do hospital e passar algum tempo com a família", afirmou Bernhard Eisel.

Esta é mais uma má notícia para uma Dimension Data a viver uma época complicada. Já não bastava ter a sua estrela, Mark Cavendish, a somar quedas e a estar há algum tempo parado, agora que o britânico se prepara para regressar no Tour de Yorkshire, no início de Maio, a equipa sul-africana perde um homem importante para o lançamento dos sprints.

A Dimension Data soma apenas duas vitórias este ano, uma por Cavendish, na terceira etapa da Volta ao Dubai, e a outra por Ben O'Connor, também numa terceira tirada, mas da Volta aos Alpes. E este foi um grande triunfo de um jovem australiano de 22 anos, que já chamou (e bem) as atenções sobre si. Louis Meintjes não tem aparecido, mas a equipa espera que a aposta no Giro seja bem sucedida no regresso do filho pródigo a casa, depois da passagem pela Lampre-Merida/Bahrain-Merida.

De referir que há poucos dias, Eisel estava a treinar com o compatriota Marco Haller, quando um carro se atravessou à frente dos ciclistas - não respeitou o stop -, com o corredor da Katusha-Alpecin a não conseguir evitar um choque. As lesões na perna são graves, pelo que não há previsão para o seu regresso.


7 de março de 2018

Cavendish candidato a azarado do ano

(Imagem: print screen)
Desejoso de deixar bem enterrado no passado o incidente da Volta a França, Mark Cavendish está a ser perseguido pelo azar. Duas quedas nas primeiras etapas de duas corridas! Numa abandonou ainda nem o pelotão estava a preparar-se para o arranque oficial, na outra nem teve tempo de decidir se abandonaria ou não, pois chegou fora do tempo limite no contra-relógio colectivo, ganho pela BMC. "A minha mãe diz que as coisas más acontecem às três. Esta foi a terceira, portanto vamos esperar que tenham desaparecido e que possamos trabalhar e ter uma fase decente", desabafou o director desportivo da Dimension Data, Roger Hammond.

Na equipa sul-africana nem se tenta esconder o desalento por mais esta queda de Mark Cavendish. O ciclista cortou a meta em Lido di Camaiore com o rosto ferido, a inchar, mas as marcas estendiam-se a mais zonas do corpo. "Foi uma queda grave. Mesmo grave. As quedas nos contra-relógios colectivos nunca são boas. Por definição eles vão muito rápido. Foi uma rajada de vento que não se estava à espera. Foi uma daquelas quedas em que te levantas e não sabes o que aconteceu", explicou Hammond. Apesar de na transmissão televisiva não terem sido mostradas imagens, o responsável afirmou que a equipa gravou o que aconteceu e vai agora analisar.

Uma queda nunca vem numa boa altura, mas esta deixa a Dimension Data a fazer contas sobre o futuro próximo de Mark Cavendish. O britânico queria disputar etapas no Tirreno-Adriatico - principalmente a desta quinta-feira -, mas com o pensamento na Milano-Sanremo, agendada para 17 de Março. O ciclista foi transportado para o hospital e no momento em que este texto é escrito ainda não há relato das consequências do incidente.

"Definitivamente as coisas não estão a decorrer a nosso favor e é muito frustrante. Começou-se bem no Dubai, mas agora...", disse Rolf Aldag, outro director, citado pelo Cycling News. Cavendish venceu a terceira etapa na Volta ao Dubai, foi segundo no primeira em Omã, mas depois em Abu Dhabi foi vítima de um acidente no mínimo insólito. Ainda nos quilómetros neutralizados, Cavendish foi contra o carro da organização. A RCS Sport admitiu que os veículos estavam equipados com o sistema de segurança de travagem, ou seja, quando uns ciclistas colocaram-se ao lado do carro, este activou automaticamente o travão. Quem vinha atrás... Cavendish bateu com a cabeça no chão e o ombro também não ficou muito bem. Nem começou a Volta a Abu Dhabi. Cinco semanas depois, o britânico regressa à competição... e acaba de novo a bater com a cabeça no chão.



A caminho dos 33 anos, Cavendish começou a temporada optimista depois de um 2017 para esquecer. Somou apenas uma vitória, em Abu Dhabi, sofreu de mononucleose que o limitou grande parte da época, obrigando-o mesmo a parar. Conseguiu recuperar a tempo de ir ao Tour, mas na quarta etapa esteve envolvido no incidente que terminou com uma queda muito aparatosa do britânico e uma muito discutível expulsão de Peter Sagan da corrida. Dois meses depois Cavendish regressou, mas sempre a pensar mais no ano seguinte e nos quatro triunfos que lhe faltam para igualar Eddy Merckx em conquistas de etapas na Volta a França.

Com tanto azar depois de um 2016 de tanto sucesso e que trouxe de volta o míssil da Ilha de Man aos grandes momentos - destacam-se as quatro tiradas no Tour e o sonho cumprido de vestir a camisola amarela -, a força mental de Cavendish está a ser constantemente colocada à prova. Falta saber se o mau aspecto das lesões correspondem ou não a lesões graves, mas estará sempre em causa mais uma recuperação física.



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