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16 de julho de 2018

CCC salva BMC e Greg van Avermaet será o líder

(Fotografia: Chris Auld Photography/BMC
Problema resolvido. Demorou, mas Jim Ochowicz conseguiu encontrar um salvador para uma das principais equipas do World Tour. E vem da Polónia. Chama-se Dariusz Milek e é o presidente da CCC, marca de calçado e malas, que actualmente detém uma equipa no escalão Profissional Continental. Uma das principais figuras dessa formação é o português Amaro Antunes. Com a indefinição a prolongar-se na BMC, ciclistas como Richie Porte, Rohan Dennis e Tejay van Garderen procuraram garantir o seu futuro, o que fará de Greg van Avermaet o líder da equipa, que terá como objectivo as clássicas da Primavera.

Esta não é uma fusão entre as duas estruturas, como é salientado no comunicado. A CCC assinou uma parceria com a Continuum Sports, dona da estrutura. Porém, não está claro o que acontecerá à CCC Sprandi Polkowice de Amaro Antunes. Certo é que no próximo ano os equipamentos vermelhos da BMC irão desaparecer, com o laranja a poder ser a nova cor, ainda que não tenha sido revelado o nome oficial da equipa. Apesar de estar encontrado o patrocinador para substituir a marca de bicicletas, ainda se procura outros secundários.

A TAG Heuer irá continuar, estando a decorrer negociações com a empresa de segurança cibernética Sophos para renovar o contrato. O orçamento anual da equipa americana aproxima-se dos 30 milhões de euros. Dariusz Milek é considerado o quarto homem mais rico da Polónia, mas, ainda assim, não é certo que esteja disposto a avançar com grande parte desse valor.

Pelo menos para já, a equipa não terá objectivos de geral nas grandes voltas e as contratações irão ser feitas para apoiar Avermaet e que neste momento até está de amarelo na Volta a França. O dia de folga da corrida foi aproveitado para fazer este anúncio, mas não foram adiantados mais nomes para a equipa, pois qualquer nova contratação só pode ser revelada a partir de 1 de Agosto.

Sendo uma empresa polaca, é de esperar que alguns corredores deste país façam parte do plantel que terá 23 a 25 ciclistas. Outra questão a resolver será o fornecedor de bicicletas. A BMC deverá cortar por completo uma ligação que dura há 12 anos e rumores apontam para a possibilidade de se juntar à Dimension Data.

Milek não escondeu a satisfação de concretizar um sonho antigo de chegar ao World Tour. Há quase duas décadas que apoia a equipa do segundo escalão de ciclismo, que chegou inclusivamente a participar na Volta a Itália. Esta aposta ao mais alto nível na modalidade tem a sua perspectiva empresarial, pois a marca - que valerá um mil milhão de euros - quer continuar a sua expansão. Já estabelecida na Europa de leste e central, o objectivo é agora chegar ao lado oeste.

A licença World Tour é neste momento americana, mas poderá eventualmente passar a ter a nacionalidade polaca, sendo este mais um ponto a esclarecer mais tarde.

Apesar da aposta imediata ser em Avermaet e nas clássicas da Primavera, principalmente as do pavé, onde o belga é um especialista, a equipa irá querer depois começar a construir um plantel que volte a estar também na luta por etapas e grandes voltas. Muitos dos ciclistas em final de contrato já gostam de ter a sua vida resolvida por esta altura da temporada, mesmo que as mudanças só possam ser oficializadas em Agosto. No entanto, ao demorar tanto tempo em conseguir assegurar um financiamento, Ochowicz vê as suas opções de reforçar a equipa mais reduzidas, além de perder algumas das suas figuras.

Ao ficar, Avermaet é a escolha óbvia para liderar a nova vida do projecto, mas aos 33 anos não é uma escolha duradoura. Em 2019, esta estrutura estará certamente mais activa no mercado a pensar na temporada de 2020. Curiosamente, até há um dos polacos mais importantes em final de contrato este ano: Rafal Majka. Mas há um português que preencheria muito bem um dos lugares de voltistas... Sem se perceber o que irá acontecer à equipa Profissional Continental, porque não levar Amaro Antunes?

Quanto às saídas, ainda não oficializadas, Richie Porte estará a caminho da Trek-Segrafredo, Rohan Dennis da Bahrain-Merida e Tejay van Garderen da EF Education First-Drapac p/b Cannondale. Porte sofreu uma queda na etapa de domingo do Tour, ainda antes de começarem os temidos sectores do pavé. Fez uma luxação no ombro e abandonou pelo segundo ano consecutivo na nona tirada. A Vuelta será a sua última oportunidade de ganhar uma grande volta com a equipa que lhe deu a oportunidade de ser um líder, depois de ter sido um gregário de luxo e braço direito de Chris Froome na Sky.

A boa notícia é que a BMC irá continuar, ainda que com outro nome. As novidades no plantel ficam para mais tarde. O ano atribulado chega assim ao fim, mas o legado de Andy Rihs continuará. Foi ele o mentor desta equipa que venceu uma Volta a França com Cadel Evans, em 2014, e um Paris-Roubaix com Avermaet, em 2017. Ao todo são 230 vitórias, a mais recente no contra-relógio por equipas no Tour. Rihs morreu em Abril, numa altura em que já era conhecida a decisão da BMC deixar de ser o patrocinadora da equipa.

Nas últimas semanas foram vários os rumores sobre o futuro da estrutura, com a Deloitte e a Giant a serem apontadas como as empresas que poderiam salvar a BMC, numa autêntica dança de patrocinadores, que afectaria outras equipas. Afinal, a solução foi encontrada na Polónia.


15 de julho de 2018

O espectáculo do caos

(Fotografia: ©ASO/Alex Broadway)
Há um sentimento ambíguo ao considerar espectáculo momentos de tanto sofrimento. Não é que se goste da desgraça alheia, mas num dia em que quedas, furos, avarias, são algo que fazem parte de uma modalidade que, afinal, tem na capacidade de sofrimento dos atletas uma grande influência para se tornar num vencedor, então o caos torna-se num autêntico espectáculo.

Para quem gosta de clássicas do pavé (admitindo que é o caso), um dia como este numa grande volta como o Tour é quase como se fosse feriado. É para ver e rever, pois ao contrário do que acontece com algumas etapas de montanha que acabam por desiludir, no pavé o espectáculo é quase garantindo. Foi uma boa etapa, com muita emoção e com o bónus de se saber que, mesmo que pareça uma clássica, o que está mesmo em causa é uma vitória numa corrida que só acaba daqui a duas semanas. Um mau dia e tudo poderia acabar. Que o diga Richie Porte!

O australiano da BMC foi igual a si próprio, imitando o que fez há um ano na Volta a França. Por duas vezes, na etapa nove, cai e abandona. Talvez reste a pequena consolação que, pelo menos desta feita, a lesão não é tão grave, pelo que pode pensar na Vuelta. Fez uma luxação no ombro, enquanto em 2017 a sua época acabou naquele dia. Porte também resolveu imitar Chris Froome. Em 2014 o britânico, então colega de Porte na Sky, caiu na etapa do pavé... antes de começarem os sectores. Foi o que aconteceu com australiano. É mau de mais. É azar a mais. 33 anos e nem um pódio numa grande volta. Poderá estar a caminho da Trek-Segafredo, numa nova fase da carreira, mas também será a última fase. O tempo começa a esgotar-se para Porte.

Agora interessa quem no Tour continua. E que dia infernal foi para praticamente todos os candidatos à geral. Romain Bardet (AG2R) experimentou uma parte do arsenal de bicicletas da equipa. Depois de tantos problemas, perder sete segundos para a concorrência directa é algo que até se pode classificar um dia bom!

Chris Froome (Sky) caiu. Mikel Landa foi tocado enquanto estava a hidratar-se e foi impossível evitar uma queda que o próprio disse esperar que "seja só chapa e pintura". Com Alejandro Valverde e Nairo Quintana na frente e com José Joaquín Rojas já fora devido a uma das muitas quedas do dia, a Movistar esteve unida e foi buscar Landa para o grupo dos líderes. Quintana andou o tempo todo a tentar simplesmente manter a bicicleta com as rodas no pavé. Ser tão levezinho no terreno destes é simplesmente um inferno. Mas sobreviveu.

Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Adam Yates (Mtichelton-Scott), Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), Primoz Roglic (Lotto-Jumbo) e Jakob Fuglsang (Astana), todos sofreram em algum momento dos 156,5 quilómetros entre Arras e Roubaix. Acabaram todos juntos.

Só dois ciclistas fizeram diferenças. Um pela negativa. Se os sete segundos perdidos por Bardet e Landa não são graves, já 1:28 minutos deixa Rigoberto Uran a ter mais trabalho para fazer na montanha se quiser repetir o pódio de 2017. Mau dia para o líder da EF Education-First-Drapac p/b Cannondale. Já Bob Jungels (Quick-Step Floors) arrancou na fase final para ganhar alguns segundos aos favoritos e, na geral, tem agora 52 segundos de vantagem sobre, por exemplo, Chris Froome.

Com o abandono de Porte, pensou-se: chegou a vez de Tejay van Garderen! Mas nem se pode colocar o americano entre aqueles que ficaram um pouco mais longe do top dez, como aconteceu com Uran. Van Garderen tinha de agarrar esta oportunidade de liderar a BMC quando a equipa mais precisava, mas não. Tudo correu mal e perdeu quase seis minutos. Também o tempo começa a esgotar-se para este ciclista que está quase a chegar aos 30 anos. Mas num dia em que Degenkolb demonstrou que é melhor não dar um ciclista como acabado, não se o dirá de Van Garderen, mas que cada vez transmite menos confiança. Isso é inevitável considerar.

(O texto continua por baixo do vídeo.)



A clássica dentro da etapa no Tour

Foi preciso esperar pelos últimos sectores dos 15 do dia para ver a disputa pela vitória no dia começar a aquecer. As primeiras movimentações começaram por volta dos 50 quilómetros para o fim, mas só um pouco depois é que os homens que tanto brilham na fase das clássicas apareceram definitivamente. Um ataque aqui, outro ali, mas foi a movimentação entre Greg van Avermaet (vencedor do Paris-Roubaix em 2017), John Degenkolb (ganhou o monumento do pavé em 2015) e Yves Lampaert (que não será uma surpresa que um dia o venha a ganhar) que foi decisiva. O trio uniu-se para deixar para trás um Peter Sagan que não estava bem colocado naquele momento e não encontrou ajuda para a perseguição.

Lampaert cometeu o erro táctico de não tentar um ataque nos metros finais, já que ao sprint era de adivinhar que não teria capacidade para se debater com os companheiros de ocasião. Avermaet tentou, mas pareceu um pouco sem força frente a um Degenkolb a precisar e muito de uma grande vitória. Aí está ela! O alemão da Trek-Segafredo nunca mais havia sido o mesmo depois do atropelamento em 2015, enquanto treinava. Acabou em lágrimas ao vencer. Foi em Roubaix onde viveu um dos melhores momentos da carreira e espera-se agora que possa ser o local que marque o seu renascer.

A Avermaet e à BMC restou conseguir manter a camisola amarela e até aumentar um pouco a diferença para Geraint Thomas (Sky), agora de 43 segundos. Irá vesti-la pelo menos mais um dia.

Philippe Gilbert ainda foi tirar o quarto lugar a Peter Sagan, mas o eslovaco consolidou um pouco mais a liderança na classificação dos pontos, um dos objectivos do ciclista da Bora-Hansgrohe, que procurava um triunfo que teria um toque especial já que venceu o Paris-Roubaix este ano.

Mesmo com tantos ciclistas pouco habituados ao pavé, a corrida teve momentos em que pareceu o mítico monumento. Além de todos os incidentes, a etapa foi resolvida por um processo de eliminação a cada passagem nos sectores. Quando os candidatos à geral ficaram praticamente todos para trás, passou a ver-se duas provas: uma pela sobrevivência de quem chegou a um ponto que só queria chegar ao fim, a outra pela vitória entre os homens que adoram o pavé.

Pode ver aqui as classificações.

E se há dia que vale a pena ver as imagens da perspectiva de dentro do pelotão, este é certamente um deles!

(O texto continua por baixo do vídeo.)



10ª etapa: Annecy - Le Grand-Bornand, 158,5 quilómetros

Segunda-feira é dia de recuperar o fôlego e das eventuais mazelas porque na terça chega a montanha. Será a fase dos Alpes. Esperam ao pelotão três etapas duras, com a de quinta-feira a ter três categorias especiais, no dia que marca o regresso do Alpe d'Huez ao percurso do Tour.




12 de julho de 2018

Uma vitória no Tour e a época já não está a ser tão má

(Fotografia: ©ASO/Alex Broadway)
É o efeito da influência que a Volta a França tem. Ganhar uma etapa no Tour é algo que pode fazer uma temporada para algumas equipas, principalmente se forem uma das quatro convidadas do escalão Profissional Continental. Para as do World Tour não se pode ir tão longe. Porém, quando a temporada está muito abaixo das expectativas, vencer no Tour é algo que, pelo menos, ameniza um pouco a falta de resultados. É o que acontece com a UAE Team Emirates. Daniel Martin conquistou o Mûr de Bretagne (muro da Bretanha) e tirou uma enorme pressão sobre a equipa.

Era uma etapa que tinha o nome do irlandês. O problema é que tinha também o de Julian Alaphilippe (Quick-Step Floors), Alejandro Valverde (Movistar) e nem se podia afastar a hipótese de Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) intrometer-se. Martin já nada tem haver com aquele ciclista em esforço, mas sem força para lutar por umas corridas que tanto gosta: a semana das Ardenas. A melhor versão de Martin começou a aparecer no Critérium du Dauphiné. Ganhou uma etapa ao seu estilo e fez uma excelente recuperação na geral para ficar à porta do pódio. Esta quinta-feira foi mais uma vez aquele Martin de ataque, que sabe quando deve sair e já não deixa ninguém se aproximar. Na segunda passagem pelo "muro", Martin atacou a pouco mais de um quilómetro da meta. Até pareceu ser cedo de mais, mas não. Quem sabe, sabe. Martin venceu e deixou um Pierre Latour (AG2R) frustrado, com Valverde e Alaphilippe a cortar a meta logo a seguir.

São só nove vitórias em 2018, muito pouco para uma equipa que se reforçou com Martin, Fabio Aru - que falhou por completo na Volta a Itália - e ainda um Alexander Kristoff que até começou o ano a dar indicações que estava de regresso às vitórias, mas aos poucos tornou-se de novo naquele ciclista que sprinta, mas nunca está verdadeiramente na discussão. Contudo, não desiste, pois o norueguês tem sido dos que mais aparece atrás de Fernando Gaviria e Peter Sagan.

Com esta vitória no Tour e perante o tal efeito de ganhar na Volta a França, a UAE Team Emirates já pode mesmo fazer-se valer de outro pormenor. É que cinco dos triunfos este ano foram em corridas do World Tour.

Com Aru a evitar a Volta a França para se apresentar na Vuelta com o objectivo (e a pressão) de apagar a má imagem deixada no Giro, com Rui Costa a falhar o Tour devido a uma lesão no joelho, a UAE Team Emirates estará muito dependente do que fará Daniel Martin. John Darwin Atapuma é sempre um ciclista a ter em conta, mas se Martin estiver mesmo com intenções de tentar pelo menos o top dez, o colombiano poderá ficar preso à função de ajudar o líder. Kristoff não está a demonstrar ter capacidade para bater Gaviria e Sagan, mas se Martin mantiver o nível que está a demonstrar e que começou no Critérium du Dauphiné, talvez a equipa ainda tenha mais razões para sorrir até Paris.

E para o irlandês reaparecer novamente como um ciclista temível, longe daquele que se apresentou nas Ardenas, bastou lembrar-se por que razão compete: para se divertir. Foi o próprio que o admitiu após o Dauphiné. Ao retirar a pressão que ele próprio colocou sobre os seus ombros, conseguiu alcançar os resultados que a UAE Team Emirates queria.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




Avermaet sobreviveu, Dumoulin e Bardet nem por isso

Com Richie Porte a chegar a aparecer na frente na subida final, o companheiro da BMC e líder da geral, Greg van Avermaet, agarrou-se como pôde ao grupo para não deixar escapar a camisola amarela que Geraint Thomas está desejoso de vestir. O ciclista da Sky foi buscar dois segundos de bonificação antes da meta, mas no final não conseguiu nem ficar nos três primeiros, nem que houvesse um corte para Avermaet. A amarela continua na BMC e se não houver surpresas, deverá mantê-la até ao início da segunda semana, já que a etapa de domingo, no pavé até Roubaix, certamente que não assusta o ciclista da BMC. Afinal é um vencedor do monumento Paris-Roubaix (2017).

A etapa entre Brest e Mûr de Bretagne Guerlédan (181 quilómetros) ficou marcada pela acção da Quick-Step Floors a pouco mais de 100 quilómetros do fim, quando provocou vários cortes no pelotão devido ao vento. Nairo Quintana (Movistar) apanhou um valente susto! Já Tom Dumoulin (Sunweb) e Romain Bardet (AG2R) é que foram, desta feita, o alvo dos azares que têm andado a "apanhar" quase todas as principais figuras na luta pela geral. O holandês furou, perdeu 53 segundos e ainda foi penalizado com em 20 por ter ficado demasiado tempo atrás do carro da equipa na tentativa de reentrar no grupo da frente. Bardet teve problemas mecânicos que lhe custaram 31.

De referir que Chris Froome também deixou escapar cinco segundos para Thomas, Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), Quintana e o companheiro da Movistar Mikel Landa, Porte, Adam Yates (Mitchelton-Scott) e Rafal Majka (Bora-Hansgrohe).

Agora é esperar por domingo, pela tal etapa de Roubaix. Até lá, serão dois dias para os sprinters tentarem bater Fernando Gaviria e Peter Sagan que somam duas vitórias cada um no Tour, com o eslovaco a liderar a classificação dos pontos. O colombiano venceu o sprint intermédio, mas ficou depois para trás mal o terreno começou a inclinar. Sagan foi oitavo na etapa e somou mais pontos. São agora 43 os que os separam.

Pode ver aqui as classificações.

Sétima etapa: Fougères - Chartres, 231 quilómetros



9 de julho de 2018

As duas formas de ver o contra-relógio na Movistar

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Para Nairo Quintana o contra-relógio colectivo não foi, dentro do mau, o pior dos cenários. Para Mikel Landa foi melhor do que o esperado, pois manteve-se à frente de Chris Froome, Romain Bardet, Vincenzo Nibali e Adam Yates. Na Movistar o sentimento dividi-se entre alguma desilusão e o alívio de uma primeira dificuldade ter sido ultrapassada sem causar grandes estragos. A terceira etapa não fez as diferenças que se esperava no início do Tour, pois tudo o que aconteceu na primeira está a ter uma forte influência nas actuais distâncias entre os candidatos. O contra-relógio por equipas serviu mais para reequilibrar forças do que para separar os líderes, com a excepção de Nairo Quintana.

A Movistar deixou um especialista nesta vertente em casa: o português Nelson Oliveira. E já não conta com Jonathan Castroviejo que agora está a ajudar Chris Froome na Sky. Se os candidatos estivessem todos em pé de igualdade, 54 segundos perdidos para a BMC, a vencedora, não seria mau de todo. Porém, aquela primeira etapa baralhou as contas. Froome, Richie Porte e Yates perderam 51 segundos devido a quedas, enquanto Quintana ficou a 1:15 ao partir as duas rodas. Ou seja, já são 2:08 minutos para Greg van Avermaet, o novo camisola amarela, menos três segundos se fizermos as contas àqueles que aspiram lutar pela vitória na geral, com Geraint Thomas a ser o melhor nessa lista particular.

"É sempre desagradável perder tempo. Mas dentro do mau, não foi demasiado [mau]", desabafou Quintana no final da etapa. Já Landa não hesitou em considerar que "foi melhor do que o esperado". Mais do que o tempo que separa os dois líderes da Movistar (1:15 minuto), o facto do espanhol estar à frente de ciclistas como Froome e muito perto de Richie Porte, por exemplo, deixa Landa numa posição mais confortável na luta interna.

Mas quem saiu do contra-relógio com muitas razões para sorrir foi precisamente Richie Porte. Começar o Tour a cair, depois de há um ano a corrida ter terminado mais cedo precisamente devido a uma queda, não é algo que ajude a confiança de ninguém. Porém, a BMC confirmou as expectativas e Porte recuperou alguns segundos e principalmente o moral. A Sky ficou a quatro segundos.

Para a equipa foi uma vitória especial. Com o futuro por definir, a BMC irá ter a camisola amarela, depois de no Giro ter andado de rosa através de Rohan Dennis. Claro que desta vez quererá mais do que estar uns dias na liderança. Greg van Avermaet volta a estar de amarelo, depois dos três dias no primeiro lugar do Tour em 2016. Agora falta saber se Porte conseguirá levá-la vestida em Paris, numa altura em que se fala que estará concluído o acordo com a Trek-Segafredo para 2019.

Também Romain Bardet ficou satisfeito por "só" ter perdido 1:15 minuto. Para o francês da AG2R o tempo do contra-relógio foi o esperado, depois da equipa ter preparado muito este momento, precisamente para tentar manter o ciclista na luta pela geral e também assim talvez o ter ajudado a melhor um pouco numa vertente que Bardet tem menosprezado. É que ainda falta um contra-relógio individual, na penúltima etapa (31 quilómetros).

(O texto continua depois do vídeo.)




Quem esteve bastante bem foi a EF Education First-Drapac p/b Cannondale, o que deixa Rigoberto Uran muito bem colocado. Foi sexta, a 35 segundos da BMC. O colombiano foi segundo no ano passado e já avisou se a forma for idêntica, que podem contar novamente com ele. No entanto, há outro aspecto a ter em conta. A presença de Lawson Craddock tem sido uma fonte de motivação. Está a competir com a omoplata partida e com alguns pontos no sobrolho, mas recusa desistir. Neste contra-relógio, fez o seu trabalho e só a cerca de três quilómetros dos 35,5 em Cholet, é que "descolou".

Greg van Avermaet é então o novo líder, depois de Peter Sagan e Fernando Gaviria terem vestido a amarela um dia cada um. O belga poderá conseguir mantê-la mais tempo, em circunstâncias normais. Porém, e como curiosidade, aqui fica um top 20 depois do contra-relógio colectivo, daqueles que estão no Tour com pretensões à vitória, pódio ou top dez (excluiu-se, por exemplo, Warren Barguil, que admitiu estar concentrado em ganhar etapas).

1º Geraint Thomas (Sky)
2º Bob Jungels (Quick-Step Floors), a 4 segundos
3º Tom Dumoulin (Sunweb), a 8
4º Rigoberto Urán (EF Education First-Drapac), a 32
5º Rafal Majka (Bora-Hansgrohe), a 47
6º Jakob Fuglsang (Astana), a 48
7º Richie Porte (BMC), a 48
8º Ilnur Zakarin (Katusha-Alpecin), a 49
9º Alejandro Valverde (Movistar), a 50
10º Mikel Landa (Movistar), a 50
11º Chris Froome (Sky), a 52
12º Adam Yates (Mitchelton-Scott), a 57
13º Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida), a 1:03 minuto
14º Romain Bardet (AG2R), a 1:12
15º Steven Kruijswijk (Lotto-Jumbo), a 1:12
16º Primoz Roglic (Lotto-Jumbo), a 1:12
17º Bauke Mollema (Trek-Segafredo), a 1:13
18º Dan Martin (UAE Team Emirates), a 1:35
19º Tiesj Benoot (Lotto Soudal), a 1:49
20º Nairo Quintana (Movistar), a 2:05

Quinta etapa: Le Baule - Sarzeau, 195 quilómetros


7 de julho de 2018

Líderes aos trambolhões logo no primeiro dia

Chris Froome sofreu uma queda e perdeu tempo
(Imagem: print screen, ver vídeo em baixo)
Se Fernando Gaviria teve um início perfeito de Volta a França - estreia mais auspiciosa é impossível -, já alguns dos principais líderes das equipas para a geral começam a fazer contas logo após o primeiro dia. Uma queda cortou o pelotão e prejudicou ciclistas como Richie Porte e Adam Yates, Nairo Quintana partiu as duas rodas antes dos três quilómetros finais e Chris Froome deu um trambolhão ao ficar sem espaço numa estrada estreita. Ninguém tem razões para entrar em pânico, mas têm de pensar desde já onde poderão recuperar o tempo que não esperariam perder numa etapa plana.

Os 201 quilómetros entre Noirmoutier-en-l'Île e Fontenay-le-Comte eram relativamente planos, com uma quarta categoria para atribuir a camisola da classificação da montanha. O vento era a maior preocupação, assim como a colocação nuns quilómetros finais com uma estrada estreita e alguns obstáculos habituais de uma via urbana. Os percalços podem acontecer a qualquer um, mas não se esperava tanto e logo no primeiro dia do Tour.

Durante a etapa houve alguns incidentes e Lawson Craddock tornou-se o herói da jornada, ao fazer mais de 100 quilómetros a sangrar do sobrolho e com uma fractura na omoplata. E não, não quer ir para casa. "Vou ver como me sinto esta noite, como durmo, como me sentirei de manhã, andarei de bicicleta e vou ver se conseguido aguentar", lê-se numa mensagem no Twitter, partilhada pela equipa, EF Education First-Drapac p/b Cannondale.

Mas foram os últimos dez quilómetros que foram algo caóticos. Enquanto se preparava já o sprint, uma queda na frente envolveu, entre outros, ciclistas da Groupama-FDJ. O pelotão ficou cortado. Na luta particular pela etapa, Arnaud Démare foi um dos afectados, mas aos poucos começou a ver-se que Adam Yates tinha ficado para trás, depois viu-se Richie Porte, para referir dois daqueles que estão na lista de favoritos na geral. A acção continuou. Ao tentar colocar-se no pelotão, Chris Froome foi vítima da estrada estreita. Ficou sem espaço e deu um valente trambolhão, mas sem consequências físicas. As imagens foram captadas pela câmara instalada na bicicleta de Jasper de Buyst (Lotto Soudal).

(Texto continua depois do vídeo)




Ainda se está a tentar perceber onde estão exactamente Froome, Porte e Yates e eis que aparece a imagem de Nairo Quintana parado na berma. Ao passar por uma lomba, o colombiano da Movistar partiu as rodas. O apoio neutro teve dificuldades em ajudar e o ciclista acabou mesmo por esperar pelo carro da equipa para receber outra bicicleta. Resultado? 1:15 minutos perdidos para a frente da corrida, onde estavam Romain Bardet (AG2R), Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) e Tom Dumoulin (Sunweb) e mais alguns daqueles que estão no Tour com pretensões elevadas.

Mas Quintana viu o aspecto positivo. No final destacou como Mikel Landa e Alejandro Valverde não tiveram problemas e como para Froome não perdeu muito tempo. O britânico da Sky cortou a meta 51 segundos depois de Gaviria, no mesmo grupo de Porte e Yates. Porém, há duas questões que acabam por ser colocadas logo após o primeiro dia. Nem foi preciso esperar pela montanha ou pela etapa do pavé. 1:15 é uma distância já algo preocupante, pelo que Landa poderá ganhar alguma vantagem na luta interna pela liderança, caso se apresente de facto bem quando chegar os momentos de decisão.

Também na Sky se viu algo que em anos anteriores seria impensável. Com o líder a precisar de recuperar, Geraint Thomas ficou na frente da corrida e cortou a meta sem problemas. O galês sempre disse que iria ao Tour como co-líder e logo a abrir a competição demonstrou como não vai estar dependente do que Froome irá fazer. Pelo menos para já. Ainda assim, são 51 segundos que o poderá colocar uma posição para de facto vir a ter um papel mais livre na equipa. Sabendo como a Sky sempre actuou em prol de um ciclista, até parece estranho. Falta muita corrida, mas as vitórias alcançam-se muitas vezes nos pequenos pormenores. E 51 pequenos pormenores podem vir a ter efeito mais tarde.

(Texto continua depois do vídeo)




O início da história de Gaviria

Antes do Tour começar, Fernando Gaviria mostrou uma tremenda modéstia. Afirmou que esperava ganhar pelo menos uma etapa. Tendo em conta que a expectativa era que conquistasse o Tour como fez no Giro há um ano (quatro etapas na sua primeira grande volta), Gaviria pelo menos tentou não entrar na euforia que o rodeia. Contudo, no seu primeiro Tour, na sua segunda grande volta, venceu logo ao primeiro dia. Em 2012, Peter Sagan também venceu na primeira etapa na estreia em França, mas antes houve um prólogo, ganho por Fabian Cancellara, que em 2004 venceu logo a abrir na sua primeira Volta a França.

Gaviria é também o segundo colombiano a vestir a camisola amarela, 15 anos depois de Victor Hugo Peña. Além disso tem também a verde (dos pontos), que revelou poder ter pretensões, já que lutou logo no sprint intermédio. A pouco mais de um mês de cumprir 24 anos, Gaviria tem ainda a camisola branca da juventude. A da montanha ficou para um dos homens da fuga, o francês Kevin Ledanois, da Fortuneo-Samsic.

A vitória de Gaviria acabou um pouco ofuscada por todos os acontecimentos nos últimos dez quilómetros, mas foi um triunfo claro do colombiano, num sprint bem preparado pela Quick-Step Floors, como já era de esperar. Se havia alguma ansiedade nesta sua estreia, então nada como um triunfo a abrir para libertar o ciclista desse tipo de sentimentos. Só Peter Sagan ainda tentou ameaçar Gaviria. "Agarrou" a roda do colombiano, mas não conseguiu contrariar a potência final do rival. Todos os outros sprintaram, mas estiveram sempre a ver as costas do ciclista da Quick-Step Floors, como o antigo companheiro Marcel Kittel, que foi terceiro, mas sem se poder dizer que esteve na disputa.

Sagan está no Tour para ir buscar mais uma camisola verde, mas já percebeu que vai ter um adversário à altura. Porém, no final, não hesitou em dizer que o mais forte tinha ganho em Fontenay-le-Comte.

Este domingo será uma etapa de características idênticas, com o contra-relógio colectivo à espera das equipas na segunda-feira. Se era aqui que se esperaria que começassem a ser feitas algumas diferenças, agora será preciso pensar em recuperar algumas diferenças!

Pode ver aqui as classificações após a primeira etapa.

Segunda etapa: Mouilleron-Saint-Germain - La Roche-sur-Yon, 182,5 quilómetros



»»Um Tour em que Froome é menos favorito««

»»Os principais candidatos num Tour em que poucos faltaram à chamada««

»»Uma segunda linha de muita ambição na Volta a França««

12 de junho de 2018

Bahrain-Merida abre a porta a dois ciclistas de uma BMC sem dinheiro para 2019

A expectativa aumenta quanto a um mercado de transferências que poderá ser muito animado se os responsáveis da BMC continuarem sem conseguir garantir o futuro da estrutura. Sendo uma das equipas mais fortes do pelotão, muitos dos corredores não terão falta de interessados, com as restantes formações a aguardarem por novidades, podendo mesmo até estar a adiar algumas contratações, não vá um dos ciclistas da BMC que lhes interesse ficar mesmo livre.

Recentemente surgiu uma notícia que dava conta de uma autêntica dança de patrocinadores que poderia salvar a estrutura da equipa americana. A Giant deixaria a Sunweb e a Deloitte não apoiaria mais a Dimension Data e seria assim formada uma nova parceria. No entanto, o cenário não foi confirmado e a única certeza continua a ser que a BMC vai deixar de patrocinar a equipa World Tour.

"Não tenho fumo branco sobre o futuro. De momento não posso formar uma equipa porque não tenho dinheiro", desabafou ao Het Niewsblad um ainda assim esperançoso Jim Ochowicz. O director da BMC mantém a crença que irá encontrar uma solução, mesmo que apareça mais para o fim da época. Ciente que isso significará ficar sem muitos, se não todas, as suas principais estrelas e não só, Ochowicz só pensa em, pelo menos, manter viva esta estrutura, que teve um dos seus melhores momentos quando Cadel Evans venceu a Volta a França em 2011.

E com a aproximação do Tour, Richie Porte aparece como um dos principais candidatos. Ochowicz garante que a concentração será total na corrida e nos objectivos traçados. Porém, será difícil afastar potenciais interessados, pois se já no Giro houve algumas conversas sobre eventuais transferências, no Tour essas ganham intensidade. Muitos gostam de resolver o futuro antes da Volta a França, mas a incerteza da BMC está a mudar um pouco essa paradigma.

Porte tem sido dos ciclistas que mais tem falado sobre o assunto. Se ficar é a opção número um, também não hesitará em mudar de ares. O australiano deu um prazo que já terminou. Contudo, não está sozinho na lista dos ciclistas muito procurados. É aqui que poderá a entrar a Bahrain-Merida. A equipa quer continuar a crescer, não se centrado apenas em Vincenzo Nibali. As clássicas são um dos focos e, por isso, Greg van Avermaet estará no topo das preferências. O belga não esconde que quer ficar na BMC, mas se chegar ao ponto de ter de pensar noutras possibilidades, a Bahrain-Merida tem em aberto um lugar de líder para as corridas que Avermaet tanto gosta.

Mas há mais. Pode continuar sem convencer como um ciclista capaz de lutar por uma grande volta, contudo, o bom Giro valorizou novamente Rohan Dennis. O australiano, de 28 anos, estará também a interessar à Bahrain-Merida. Com mais a equipas a ter capacidade para dar o que estes ciclistas querem a nível de estatuto, se a questão acabar em dinheiro, eis uma estrutura que tem que sobra para colocar na mesa das negociações.

Entre potenciais líderes, como Dylan Teuns e eventualmente Tejay van Garderen (eis alguém também a precisar urgentemente de um bom, ou melhor, excelente resultado), e ciclistas para trabalhar e/ou para lutar por algumas vitórias - Alessandro de Marchi e Stefan Küng, por exemplo -, há muito por onde escolher nesta BMC como reforços para 2019.

Quando em 2016 a IAM, mas principalmente a Tinkoff fecharam portas, o mercado foi muito movimentado. No entanto, como o final das equipas foi anunciado cedo, tal permitiu que as negociações decorressem em janelas temporais normais. Se a BMC arrastar a sua incerteza e os seus ciclistas tentarem aguardar um pouco na expectativa de perceber se haverá hipótese de permanecer, poder-se-á estar perante um mercado um pouco estagnado. Pelo menos até alguém não esperar mais. A partir de então poderá verificar-se um efeito bola de neve e Jim Ochowicz arrisca ver os seus ciclistas a assinaram por outras equipas e a ficar com poucas opções para garantir um conjunto tão forte como actualmente. Isto pensando que, apesar das dificuldades, acabe por aparecer o patrocinador ou patrocinadores que salvem a BMC.

Para já continua a incerteza sobre se o World Tour poderá perder uma das suas melhores equipas.

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22 de maio de 2018

Yates avisa que vai mudar de táctica, infelizmente para os fãs

(Fotografia: Giro d'Italia)
Os 2:11 minutos de vantagem não só chegaram como ainda sobraram 56 segundos para gerir nos próximos quatro dias. Isto tendo em conta o segundo classificado e o especialista de contra-relógio, Tom Dumoulin, por sinal, o campeão do mundo da especialidade. Como o holandês preocupa um pouco menos na montanha, foi para Domenico Pozzovivo e Thibaut Pinot que o britânico fez contas mal terminou a sua etapa. Ganhou tempo a ambos. O italiano da Bahrain-Merida até se defendeu bem e manteve a terceira posição, mas está agora a 3:11 (estava a 2:28). Já o francês da Groupama-FDJ fez um contra-relógio a roçar o miserável e de 2:37 passou para uma diferença de 4:19. Perdeu o quarto lugar para Chris Froome (Sky), que apesar de ter recuperado 1:02 minutos, os 3:50 que o separam de Yates tornam a sua missão de conquistar o Giro praticamente impossível.

Ainda se diz "praticamente" porque se Yates tem controlado e atacado quase a seu gosto a Volta a Itália, o próprio sabe que tudo pode mudar num instante - que o diga Steven Kruijswijk que não esquecerá quando o Giro lhe escapou na antepenúltima etapa em 2016 - e, por isso, está na altura de mudar a táctica. Desde que vestiu a camisola rosa na etapa do Etna (a sexta) que Yates falava da necessidade de ter de ganhar tempo por causa do contra-relógio. Passou no teste do esforço individudal e com distinção. Agora há que controlar de outra forma a corrida e o próprio admite que como o irá fazer não será tão bonito de se ver.

"[Manter a camisola rosa] muda a minha táctica para os próximos dias. Infelizmente para os fãs serei muito mais defensivo. Vamos ver. O Tom está a um minuto, mas os rapazes atrás dele estão bem mais longe. É uma boa vantagem. Vamos ver o que conseguimos fazer", afirmou Simon Yates. O ciclista manteve sempre um discurso pessimista até ao contra-relógio, dizendo que acreditava que perderia a liderança para Dumoulin. Bluff? Uma forma de se auto-motivar? Ou simplesmente uma perspectiva realista de alguém que sabia que se tinha de superar num dos seus pontos menos fortes? No final, o que interessa é o resultado e esse deixa o ciclista da Mitchelton-Scott numa excelente posição para conquistar a sua primeira grande volta aos 25 anos.

Enquanto Yates confessou que se sentiu bem durante a primeira fase do contra-relógio de 34,2 quilómetros, mas que nos últimos 10 quilómetros morreu "dez mil mortes", expressão que o próprio usou, Dumoulin esteve a bom nível, mas não naquele que precisava para se tornar numa maior ameaça para Yates nas etapas de montanha que aí vêm. O holandês da Sunweb melhorou muito neste terreno, é um bom trepador - senão não teria ganho o Giro há um ano - mas não tem aquela mudança de velocidade que lhe vai fazer muita falta.

Será de facto uma pequena desilusão não ver Yates a continuar a jogar ao ataque. Mas é absolutamente compreensível. Está no comando e na montanha tem estado imbatível. É altura de quem ainda acreditar que pode bater o britânico de se mostrar. De ter a iniciativa. Porém, em causa poderão estar as batalhas pelas posições inferiores. Yates terá de estar atento para ter a certeza que nestas lutas não surge algum ataque que o possa acabar por prejudicar.

Vejamos: Froome está a 39 segundos do pódio, logo estará numa batalha muito particular com Pozzovivo. No entanto, e se numa primeira fase os dois podem aliar-se para tentar tirar Dumoulin do segundo lugar, antes de disputarem entre eles uma posição no pódio? Têm três etapas com chegadas em alto para melhorar as suas posições e principalmente Froome não quer desistir por completo do sonho de chegar à camisola rosa, nalgum golpe de sorte que possa aparecer. Em condições normais, sem incidentes, é o pódio que está na sua mira. Afastado que está o espectro do abandono, o britânico espera não ter mais nenhum dia mau. Se assim for, pode tornar-se num animador deste final de Giro.

O mesmo terá de acontecer com Thibaut Pinot. Foi dos que começou melhor a corrida, mas tem vindo a quebrar. O contra-relógio tornou a luta pela vitória quase impossível, mas o francês não pode, nem deve abandonar o objectivo de pelo menos chegar ao pódio. Há um ano foi quarto e já sabe que em 2019 não irá ao Giro, apesar de ser uma grande volta que lhe parece assentar melhor. O director da Groupama-FDJ, Marc Madiot, já confirmou que a partir de 2019 Pinot estará novamente concentrado a 100% no Tour.

Depois há a disputa pela camisola branca da juventude. Miguel Ángel López (Astana) ganhou mais dez segundos e tem agora 30 de vantagem sobre Richard Carapaz (Movistar). Possíveis movimentações destes dois ciclistas, podem motivar outros a segui-los.

Yates não terá uma missão fácil pela frente. Não basta controlar, pois terá de saber analisar a perigosidade dos ataques que irá sofrer directamente contra ele e aqueles que serão outras batalhas, mas que podem afectar a sua. A Mitchelton-Scott terá um enorme teste pela frente. Até agora tem sido uma equipa perfeita na protecção e ajuda ao seu líder. Mikel Nieve, Roman Kreuziger, Christopher Juul-Jensen e Jack Haig terão um papel importante na montanha no controlo dos adversários. Daria bastante jeito que Johan Esteban Chaves ainda conseguisse dar algo a esta corrida, mas o colombiano não é o ciclista em que neste momento recaiam as maiores das confianças.

Porquê tanto cuidado em não entrar em euforias por Yates? Na memória está ainda o que aconteceu a Steven Kruijswijk em 2016. O holandês da Lotto-Jumbo entrou na 19ª etapa com três minutos de vantagem sobre Chaves, 3:23 sobre Alejandro Valverde e 4:43 sobre Vincenzo Nibali. Uma queda numa descida, um mortal para a neve e foi o adeus à vitória e no dia seguinte perderia também o pódio. Foi Nibali quem fez a notável recuperação para ganhar o Giro nesse ano.

(Fotografia: Giro d'Italia)
Regressando a 2018. Rohan Dennis frustou o objectivo de Tony Martin e da Katusha-Alpecin de sair do Giro com uma vitória no contra-relógio. O australiano da BMC não desiludiu e foi o mais forte, numa vitória que já tinha procurado na primeira etapa, mas que Dumoulin lhe tirou por dois segundos. Além do triunfo, Dennis reentrou no top dez, saltando de 11º para sexto, a 5:04 de Yates. O ciclista não escondeu a sua satisfação, mas para o que falta do Giro, admitiu que a sua estratégia passará por aguentar o melhor que puder nas três etapas de montanha que faltam. Uma etapa e um top dez seria um excelente resultado para Dennis.

E Fabio Aru? Que surpresa. Depois de se afundar na classificação no domingo, a expectativa seria que o italiano fizesse um contra-relógio tranquilo a pensar em poupar força para tentar ganhar uma etapa e salvar algo deste Giro. Mas não. Aru fez um dos seus melhores contra-relógio, perdendo apenas 37 segundos para Rohan Dennis. Contudo, no melhor pano cai a nódoa. Aru recebeu uma penalização de 20 segundos por ter beneficiado do cone de vento de uma moto. Ainda assim, se tivesse estado melhor na montanha, o líder da UAE Team Emirates teria uma palavra a dizer na discussão pelo menos do pódio. Mas são 24:34 de desvantagem. Nem o top dez é um objectivo. Este foi um Aru a mostrar o carácter bem conhecido de lutar, mesmo que já nada tenha a ganhar com isso. Se estiver a sentir-se bem, o campeão italiano ainda irá mostrar-se na procura por uma etapa.

Houve mais sanções e que afectaram a UAE Team Emirates. Diego Ulissi desapareceu do top dez do contra-relógio, pois ele e o colega Valerio Conti levaram dois minutos de sanção. Ulissi partiu um minuto depois de Conti e terá beneficiado também do cone de vento. Ben Hermans (Israel Cycling Academy), Mads Pedersen (Trek-Segafredo) e Remi Cavagna (Quick-Step Floors) foram penalizados em 30 segundos. De recordar que este ano está a ser feita a estreia do vídeo-árbitro nas principais competições de ciclismo, entre elas a Volta a Itália.

José Gonçalves (Katusha-Alpecin) manteve o seu 20º lugar na geral, estando a 14:51 de Yates. Depois do quarto lugar no contra-relógio inaugural, o português foi 12º, com mais 1:08 que Dennis. Mais um bom resultado do ciclista que é, de longe, o melhor da sua equipa. Maurits Lammertink é o senhor que se segue e já tem mais de uma hora de atraso.

A etapa desta terça-feira fará a passagem para as três de alta montanha onde tudo se irá decidir, antes da consagração de domingo, em Roma. Porém, é melhor não facilitar. O dia começa logo a subir. Serão cerca de 11 quilómetros e nem sequer a dificuldade está categorizada. Só mais à frente aparecerá uma de terceira categoria. Na semana passada, quando apareceu uma subida logo nos primeiros quilómetros, ainda que não logo a abrir como irá acontecer amanhã, foi o descalabro para Johan Esteban Chaves, mas também era uma subida bem mais complicada. No entanto, não haverá margem para erros nos 155 quilómetros entre Riva del Garda e Iseo.



Pode conferir aqui as classificações após a 16ª etapa.



21 de maio de 2018

UCI acaba com contra-relógio por equipas nos Mundiais

A Sunweb quebrou em 2017 a hegemonia partilhada
entre a Quick-Steo Floors e a BMC (Fotografia: Team Sunweb)
Era um fim anunciado e vai acontecer já em 2018. A possibilidade do contra-relógio por equipas nos Mundiais se realizar ainda no próximo ano, em Yorkshire estava em cima da mesa, mas o programa dos campeonatos está a ser revisto e certo é que depois de sete edições, as equipas não irão mais lutar por este título. David Lappartient, presidente da UCI, tinha avisado pouco depois de ter sido eleito, que esta era uma prova que queria eliminar. No entanto, poderá ser substituída.

Innsbruck, na Áustria, irá assim receber a última edição desta prova que foi dominada pela Quick-Step Floors (três títulos) e a BMC (dois), até que a Sunweb quebrou essa hegemonia no ano passado. A equipa até conseguiu a dobradinha, ou seja, foi também campeã mundial no competição feminina. Esta é a única corrida nos Mundiais que não é disputada pelas selecções nacionais. Entre 1962 e 1994 o contra-relógio colectivo integrava os países. Em 2012 regressou, mas para as equipas. As do World Tour estavam obrigadas a participar, enquanto as melhores Profissionais Continentais e Continentais recebiam convites. Em 2016 a polémica instalou-se com a decisão de realizar os Mundiais em Doha, no Qatar. O elevado custo da deslocação levou as equipas a ameaçar boicotar o contra-relógio. A UCI tornou opcional a presença na prova e deu uma maior ajuda financeira.

No comunicado em que anuncia o final desta competição e que para a despedida terá um prémio monetário igual para homens e mulheres, o organismo referiu: "A UCI está a rever o programa dos Campeonatos de Mundo de estrada para 2019, em colaboração com o comité organizador de Yorkshire 2019, para assegurar uma excelente visibilidade para as federações nacionais e os ciclistas." Fica assim dúvida se esta revisão poderá significar o regresso do contra-relógio disputado pelas selecções e que assim substituiria o das equipas na abertura dos Mundiais. Neste momento é apenas especulação.

Innsbruck será o centro das atenções do ciclismo entre 23 e 30 de Setembro, com a prova de estrada a já dar muito que falar dada a enorme dificuldade que alguns ciclistas dizem que irão enfrentar e que até tem surpreendido nos reconhecimentos que têm sido feitos, como aconteceu com Vincenzo Nibali. Quanto ao último contra-relógio por equipas, as 18 formações do World Tour foram convidadas, assim como as top 15 das estruturas femininas. Mais tarde na época serão enviados os convites para as restantes equipas masculinas dos escalões inferiores, dependendo do ranking.


17 de maio de 2018

A dança de patrocinadores que poderá salvar a estrutura da BMC

Um dia depois de Jim Ochowicz, director da equipa BMC, ter dito que não havia limites para garantir o futuro da estrutura, surge a notícia que a situação poderá estar em vias de ficar resolvida. Talvez isso explique a aparente tranquilidade do responsável, que tem Richie Porte a ameaçar começar a procurar uma nova equipa, se não houver boas notícias até ao final do mês. A confirmar-se o que foi esta quinta-feira divulgado será uma autêntica dança de patrocinadores, que afectará outras duas equipas do World Tour.

As informações foram avançadas pelo jornal holandês De Telegraph e já com eco no Cycling Weekly. E a dança poderá ser assim: a BMC deixará a equipa do principal escalão, entrando a Giant e a Deloitte. A primeira, marca de bicicletas, deixará a Sunweb, enquanto a empresa de consultoria poderá não apoiar mais a Dimension Data. A Giant há cerca de dez anos que apoia a actual Sunweb - chegou a estar no nome oficial - que agora se tem tornado numa das mais importantes equipas do pelotão, principalmente desde que Tom Dumoulin ganhou o Giro, no ano passado, e também pela conquista dos títulos mundiais de contra-relógio (individual e colectivo). A Deloitte juntou-se à formação sul-africana quando esta subiu ao escalão do World Tour, ajudando a suportar o elevado custo que foi contratar Mark Cavendish.

Sai a Giant, entra a Cervélo. A marca holandesa também deverá deixar a Dimension Data e passará não só a fornecer as bicicletas para a Sunweb, como poderá mesmo ter o seu nome na equipa, ou seja, Sunweb-Cervélo. De recordar que recentemente a agência de viagens renovou contrato sem colocar um tempo limite na sua ligação ao ciclismo.

A Dimension Data fica assim um pouco mais desamparada. A equipa sul-africana não está a realizar uma temporada muito animadora (apenas três vitórias e nenhuma do World Tour) e já no ano passado a época não foi fácil: apesar das 25 vitórias, apenas três foram de corridas da principal categoria. A estreia no World Tour em 2016 foi muito prometedora, com 32 vitórias, cinco na Volta a França por intermédio de Cavendish, mas tem estado em quebra desde então.

A BMC volta aqui a ser falada, pois a marca poderá fornecer as bicicletas à equipa sul-africana, mas seria apenas a esse nível a sua colaboração. Há outra hipótese: a Bianchi estará à procura de mais uma equipa para colocar as suas bicicletas e assim ter uma maior presença no pelotão. Ou seja, além da Lotto-Jumbo - que para o ano será apenas Jumbo - a Bianchi forneceria a Dimension Data, em condições idênticas ao que faz na equipa holandesa.

Nenhuma destas informações foi confirmada por parte dos intervenientes, mas com o avançar da temporada e com a aproximação da fase em que os ciclistas e as próprias equipas gostam de começar a resolver a questão dos contratos para 2019, não deverá demorar muito a começar a perceber se esta dança de patrocinadores irá concretizar-se.

A boa notícia será principalmente que uma das melhores estruturas do ciclismo estará perto de garantir a sua continuidade. A chamar-se BMC ou com novo nome, o importante é que se mantenha na estrada.



9 de maio de 2018

Aí está o Etna para os favoritos se mostrarem e para Dennis responder a uma questão

(Fotografia: Giro d'Italia)
A etapa do Etna é das mais faladas desde que o percurso do Giro foi apresentado. Com apenas cinco dias de competição completos, os candidatos vão enfrentar a primeira chegada em alto, ainda que não se possa dizer que seja o primeiro teste, pois as últimas duas tiradas fez muita gente suar bastante e já provocou desilusões. Que o diga Miguel Ángel López! Se é certo que se estará a olhar para Tom Dumoulin, Chris Froome, Thibaut Pinot, Simon Yates e não só, será também o dia para Rohan Dennis responder à questão: é desta que mostra capacidade para estar na luta com os melhores na alta montanha?

O australiano alcançou um feito sempre importante ao conseguir vestir as três camisolas de líder das grandes voltas. Em Itália não conseguiu no contra-relógio, como no Tour e na Vuelta, mas vestiu a maglia rosa no segundo dia após ter perseguido os segundos de bonificação nos sprints intermédios. E não mais a largou. Nas duas etapas pela Sicília, os finais não foram nada fáceis. Mas Dennis aguentou. Até aqui não há surpresas. É um ciclista que passa bem a pequena e média montanha. Porém, para quem afirmou querer ser o próximo grande voltista australiano, o tempo passa e nada demonstra que o venha a ser. A alta montanha tem sido um obstáculo que não consegue evoluir fisicamente para o conseguir ultrapassar.

Dennis (27 anos) afirmou que defenderia a camisola rosa com tudo o que tem e pode dar, ainda que admitisse que eventualmente alguém a tiraria do seu corpo. Mas quer estar na luta até Roma. Será que consegue? Aí está o Etna, com toda a sua imponência, condições atmosféricas que não facilitam em nada (o vento pode ser um enorme inimigo, como aconteceu há um ano) e os adversários do australiano são alguns dos melhores do mundo neste tipo de corridas. Se Dennis quer ser um campeão, então tem de bater os melhores. Chegou a sua oportunidade de mostrar que pode fazer mais do que apenas demonstrar vontade de fazer algo especial através de palavras.

Há ainda um outro factor a ter em conta. Os ciclistas da BMC estão cada vez mais em xeque relativamente ao futuro. Com a equipa a poder fechar portas, Dennis não poderá estar a pensar num plano para se tornar voltista que montou com esta estrutura. É altura de apresentar resultados, pois se é o caminho que quer seguir na sua carreira, então terá de mostrar que tem capacidade para ser um voltista, senão terá de negociar outro tipo de papel caso seja obrigado a mudar de equipa.

Dennis pode estar de rosa, mas os actores principais são, na antevisão da subida ao vulcão, Dumoulin e Froome, a dupla que mais se quer ver. O muito esperado embate na alta montanha entre os dois vencedores das grandes voltas de 2017 irá começar o Etna. Só que poderá haver quem roube as atenções. É um cliché, mas é irresistível dizer: o pequeno Domenico Pozzovivo está enorme! Quem bem esteve no contra-relógio (10º) e nestas duas últimas etapas tão movimentadas nos quilómetros finais, esteve onde devia estar. Nesta quarta-feira até apanhou um susto ao ficar para trás após uma queda que cortou o pelotão. Teve de recuperar, mas não demorou até estar na frente a acelerar a corrida. Aos 35 anos, o ciclista da Bahrain-Merida está numa forma fantástica.


José Gonçalves recuperou muitos lugares no sprint final
para fechar em terceiro (Fotografia: Giro d'Italia)
Quanto à quinta etapa, os 153 quilómetros foram animados na parte final, como aconteceu na tirada anterior. Desta vez Chris Froome e a Sky mantiveram-se unidos e só Miguel Ángel López perdeu tempo, entre aqueles com aspirações a um top dez ou mais. Desta vez o colombiano teve uma saída de estrada, tendo inclusivamente caído. Já não conseguiu reentrar no grupo principal e perdeu 43 segundos. E já são 1:57 minutos de desvantagem. O Etna poderá muito bem decidir se o ciclista da Astana irá continuar a apostar na geral, ou se terá de mudar os seus planos. Se perder mais tempo será o fim das aspirações, mas se conseguir recuperar alguns segundos (bastantes, de preferência), então ainda haverá muitas etapas para López reentrar na luta.

Enrico Battaglin foi o vencedor em Santa Ninfa. A Lotto-Jumbo retira desde já essa pressão de cima dos seus ciclistas, o que poderá ajudar George Bennett a ser ainda mais aposta para o top dez. Grande temporada para a equipa holandesa, já com 12 vitórias, metade em provas do World Tour.

E José Gonçalves deu mais uma boa razão para se falar dele. Foi terceiro. Excelente início de Giro para o português da Katusha-Alpecin. Desta feita sem problemas mecânicos, Gonçalves foi ao sprint final. A colocação nas duas últimas curvas não terá sido a melhor e quando arrancou já estava em desvantagem para Battaglin e Giovanni Visconti (Bahrain-Merida). Ainda assim, depois de uma quarta etapa com tanto azar, Gonçalves fez mais um bom resultado e reentrou no top dez: é oitavo, a 32 segundos de Rohan Dennis.

Sexta etapa: Caltanissetta-Etna, 164 quilómetros


Quando se fala do Monte Etna, o ciclismo português tem o seu destaque. Recuamos a 1989 e aí vemos Acácio da Silva a vencer a etapa no Giro e a vestir a maglia rosa. Um feito que continua a ser único na história da modalidade em Portugal.

Numa entrevista ao Observador, publicada no ano passado o ciclista, agora com 57 anos, recordou o momento decisivo daquela que foi a segunda etapa da Volta a Itália: "Saquei a rosa em Etna. Lembro-me perfeitamente. Foi uma chegada em pelotão, todos juntos, muito juntos. Nos últimos 10 quilómetros, havia uma subida de 6% de inclinação. Depois, a 400 metros da meta, havia uma curva. Quando faço a curva, já fui com o propósito de arrancar decidido. E lá fui. Acabei com duas bicicletas de avanço, à frente do [Luis] Herrera, [Tony] Rominger, [Ivan] Ivanov e [Marino] Lejarreta. Estava forte, no máximo das minhas capacidades."

O francês Laurent Fignon viria a vencer aquele Giro, com Acácio da Silva a terminar na 48ª posição, a mais de uma hora. Mas é a este ciclista que pertence uma das páginas mais bonitas do ciclismo nacional, não esquecendo que na sua carreira venceu cinco etapas na grande volta italiana e três no Tour, tendo também vestido a camisola da liderança na corrida francesa.

Regressamos a 2018. A subida ao Etna será então a primeira chegada em alto da 101ª edição e o que mais se espera é que não seja a desilusão de há um ano. Com o vento de frente, ninguém dos favoritos se mexeu. Beneficiou Jan Polanc (UAE Team Emirates), que alcançou uma bonita vitória na sua carreira. E o esloveno está novamente no Giro, no entanto, a história poderá ser diferente. O percurso tem algumas alterações, pelo que é possível que o vento possa até chegar a "bater" pelas costas.

A pendente média ronda os 6,5%, mas há zonas a oito e nove, com a máxima a atingir os 15%. Se o vento não estragar novamente a "festa", será possível que se tente fazer algumas diferenças, ou pelo menos para testar alguns ciclistas.



»»E o Giro animou««

»»Viviani rendido à Quick-Step Floors: "É a oportunidade da minha vida e da minha carreira"««

»»Viviani colossal no dia em que Rohan Dennis vestiu a camisola que lhe faltava««