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26 de julho de 2018

Sagan e Gilbert, ciclistas da mesma estirpe

(Fotografia: © BORA-hansgrohe/Bettiniphoto)
Desistir não faz parte do vocabulário da maioria dos ciclistas. Multiplicam-se as histórias daqueles que ensanguentados, até com fracturas, acabam corridas, quando o comum dos mortais iria direitinho para o hospital. Porém, quando se está na mais icónica das corridas de três semanas, este tipo de postura ganha outra dimensão. O Tour começou logo com um Lawson Craddock a fracturar a omoplata e um corte no sobrolho transformou-se logo numa das imagens da competição. Ainda está em prova. Em dois dias, dois dos melhores ciclistas da actualidade mostraram do que são feitos. Philippe Gilbert e Peter Sagan são da mesma estirpe na forma como lutam, como acreditam, como nunca baixam os braços e como não há queda que os assuste.

Peter Sagan bem diz que a camisola verde só estará ganha quando cortar a meta em Paris, mesmo que matematicamente já esteja garantida. O eslovaco não é muito de quedas, mas numa das descidas da curta etapa dos Pirenéus (65 quilómetros) caiu a alta velocidade. Com o equipamento rasgado, sangue na perna e no braço e muito, muito dorido. Foi assim que terminou um dos dias mais difíceis do Tour. Pairou a possibilidade de abandono, mas Sagan lá estava em Trie-sur-Baïse para partir para a 18ª etapa e completar o que falta desta corrida.

Tentou sprintar pela vitória, mas faltou-lhe aquela explosão, numa preparação muito complicada para se colocar bem. Mas estava lá, a responder ao trabalho e apoio da Bora-Hansgrohe. Já tem três vitórias de etapa e a camisola verde. Aconteça o que acontecer, ganhe ou não em Paris, Sagan é uma das figuras deste Tour e mais uma vez um exemplo de profissionalismo.

E Gilbert então... 60 quilómetros com uma rótula partida?! O belga pode já não estar no seu melhor, mas continua a ser um senhor no pelotão e um elemento de extrema importância na Quick-Step Floors. Um verdadeiro capitão. Ia na liderança da 16ª etapa quando, numa descida, falhou uma curva, não evitou um choque com um muro baixo e foi parar do outro lado. Um enorme susto. Gilbert acabou a fazer sinal para a câmara que estava tudo bem. Estava? Acabou a etapa e ainda foi ao pódio para receber o prémio da combatividade. Os exames médicos confirmaram a fractura e só um joelho no estado que se pode ver na fotografia em baixo parou Gilbert.


Démare sob suspeita

(Fotografia: © ASO/Pauline Ballet)
Não são perfeitos. Também já tiveram atitudes menos bonitas, mas Sagan e Gilbert são líderes de quem ninguém duvida. Arnaud Démare até poderia entrar neste grupo de lutadores. O francês tem sofrido tanto na montanha, escapado por pouco à exclusão por falhar o tempo limite, como aconteceu em 2017. Tudo para alcançar o que finalmente conseguiu: ganhar uma etapa. Até esta quinta-feira Démare foi falado mais por andar a lutar contra o tempo, do que propriamente por estar a fazer valer a aposta quase total da Groupama-FDJ nele, na ausência de Thibaut Pinot. Ganhou a etapa três dias depois do seu contrato ter sido renovado, mas mais uma vez tem uma grande vitória ensombrada por suspeitas de ter recebido ajuda do carro de equipa nas subidas.

Desta feita foi André Greipel quem as lançou. O alemão abandonou o Tour quando percebeu, nos Alpes, que não ia cumprir o tempo limite. Então foi logo bem claro: "Outros podem escolher agarrar-se ao carro de equipa, mas se eu não consegui chegar por mim próprio, então prefiro ir para casa. Não estou triste. Sou realista e um desportista justo." Já em casa a assistir à corrida, Greipel publicou um twit após a etapa dos 65 quilómetros: "Talvez alguém deva dizer à Groupama-FDJ e ao Arnaud Démare que há GPS para seguir [os ciclistas] no Tour. Tiro o chapéu por ter perdido apenas nove minutos para Quintana numa subida de 17 quilómetros." O sprinter da Lotto Soudal terminou com a hashtag #notforthefirsttime, isto é, "não foi a primeira vez".

Greipel está a referir-se à vitória de Démare no monumento da Milano-Sanremo em 2016. Então o francês foi acusado de ter recebido ajuda do carro de equipa para ultrapassar a Cipressa, depois de ter caído e ficado atrasado relativamente ao grupo da frente. Matteo Tosatto, então na Tinkoff, e Eros Capecchi, da Astana, serviram de testemunhas. Surgiram relatos que também um comissário teria visto Démare, mas o ciclista não recebeu qualquer sanção.

Na altura, como agora, Démare afirmou que há quem esteja na estrada para ver estas situações e este ano junta-se o vídeo-árbitro. Para o sprinter, ganhar esta quinta-feira em Pau foi a resposta perfeita a Greipel que, entretanto, apagou o twit. Num aspecto Démare tem razão, perante as palavras do alemão, a suspeita irá permanecer, mesmo que nada tenha feito de mal. Contudo, a fama e o respeito têm de ser construídos por ele e este tipo de acusações não estão a ajudar a um estatuto que Démare não está a conseguir conquistar. Também não ajudou que tenha ganho hoje com um "chega para lá" a Christophe Laporte (Cofidis). O problema deste tipo de suspeitas é que se torna difícil de não pensar que onde há fumo...

Mas vamos ao que é um facto e não suspeita. Foi a segunda vitória numa etapa no Tour, a primeira foi em 2017. E a Groupama-FDJ bem precisava dela. David Gaudu e Rudy Molard já se mostraram em fugas, mas sem resultados. Démare precisava corresponder à aposta com este triunfo e ainda faltam os Campos Elísios. Se lá chegar...

Pode ver aqui as classificações.

(O texto continua por baixo do vídeo.)




19ª etapa: Lourdes - Laruns, 200,5 quilómetros

Depois de um dia para ganhar fôlego - menos para Nairo Quintana (Movistar) que caiu e irá partir para a derradeira etapa de montanha algo dorido -, chegam os dois momentos decisivos. Antes do contra-relógio de 31 quilómetros, há 200,5 por percorrer, com passagem pelo mítico Tourmalet. 17 quilómetros com pendentes a chegar aos 10% e o topo a 2115 metros de altitude. Mas o Tourmalet está a meio da etapa. É o Col d'Aubisque  (16 quilómetros, com pendente média de 4,9%) que marca o final da montanha no Tour, ainda que a chegada esteja à distância de cerca de 20 quilómetros, depois dos ciclistas ultrapassarem a dificuldade.

Ao todo teremos duas quartas categorias, uma primeira, uma especial, uma segunda e outra especial. Mikel Landa (Movistar) lançou o repto que é preciso atacar cedo. Que assim seja. Que se jogue tudo, para deixar em aberto um contra-relógio complicado. Nem Geraint Thomas, nem a Sky dão o Tour como ganho, apesar do 1:59 sobre Tom Dumoulin (Sunweb). Se se juntar aquele Primoz Roglic (Lotto-Jumbo) de quarta-feira, naqueles intensos 65 quilómetros - o esloveno está à espreita de um surpreendente pódio -, então a Sky não terá sossego, mesmo com Chris Froome como gregário de luxo.



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7 de abril de 2018

Bem-vindos ao Inferno do Norte. Sagan lidera a lista de perseguição à Quick-Step Floors

Sagan é um dos fortes candidatos, mas a concorrência é enorme
(Fotografia: © Bora-Hansgrohe-VeloImages)
Finalmente abrem-se as portas do Inferno do Norte! Uma vez por ano os ciclistas são transformados em guerreiros. Sofrem como não se sofre em mais nenhuma corrida. Arriscam muitas vezes uma época. O Paris-Roubaix é único, é emocionante. E se para quem o faz são 257 quilómetros de um esforço sem comparação, para quem assiste são cerca de seis horas do melhor que há para ver no ciclismo. Manter uma táctica é quase missão impossível, pelo que se há uma prova onde o instinto faz toda a diferença, é no Paris-Roubaix. E claro, quando se fala de sorte, então é raro não ouvir um corredor dizer o quanto precisa dela para ganhar ou até só para terminar O sofrimento é grande, a glória, essa coloca qualquer um dos vencedores num pedestal histórico apenas ao alcance de alguns eleitos.

Aqui construíram-se e constroem-se lendas. Os belgas Roger De Vlaeminck e Tom Boonen são os recordistas de vitórias e são dois exemplos de expoente máximo. Mas também aqui se alcançaram marcos únicos em carreiras que, de outra forma, se perderiam nas extensas estatísticas. Que o diga Mathew Hayman, que em 2016 deixou todos de boca aberta ao tirar o quinto triunfo a Boonen. Para os ciclistas que ano após ano fazem da temporada do pavé um dos objectivos da temporada, ganhar em Roubaix alimenta os sonhos do mais novo ao mais veterano (e voltamos a Hayman, que tinha 37 anos quando venceu).

Todos os cinco monumentos são importantes, mas há algo de épico que distingue a Volta a Flandres e o Paris-Roubaix. É entre estes que tanto se pergunta, qual é o preferido de cada um. As preferências ficam de parte quando se dá a partida. E este domingo é dia de se enfrentar pela 116ª vez aquela que é apelidada como a corrida do Inferno do Norte.

Dos 257 quilómetros, 54,5 serão de pavé. Parece que ainda não é desta que a chuva regressa, como se chegou a prever, e que simplesmente transforma o Paris-Roubaix em algo ainda mais incomparável. Porém, o mau tempo não larga a Europa e apesar do sol dos últimos dias ter ajudado a secar os sectores, muitos deles não estarão completamente marcados pelo pó, havendo ainda alguma lama para dificultar mais a passagem dos ciclistas. Todos os anos surgem imagens nos dias que antecedem a corrida do estado de alguns sectores e 2018 não foi excepção. A lama que cobria por completo alguns, já foi retirada.

Mais uma vez, o Eurosport permitirá seguir todas as pedaladas do Paris-Roubaix, com a transmissão a começar às 10:00. Há um ano foi "prego a fundo" desde o início, sendo impossível formarem-se fugas. Greg van Avermaet não só ganhou o seu primeiro monumento, como ficou com a marca daquele que demorou menos tempo a conclui-lo: 5:41:07 horas.

Tal como aconteceu há uma semana na Volta a Flandres, este é um ano atípico quanto a candidatos. Ninguém se destaca particularmente. Os nomes não variam, a questão é que é o colectivo da Qucik-Step Floors que é novamente o alvo a abater, com Philippe Gilbert a poder eventualmente receber alguma protecção (se tal for possível no caos que esta prova tem tendência a tornar-se). O Paris-Roubaix é um dos dois monumentos que lhe faltam. O outro é a Milano-Sanremo.


O mítico troféu (Fotografia: © Twitter Paris-Roubaix)
Apesar de ser um dos especialistas em clássicas, Roubaix nunca atraiu o belga. Pode parecer incrível, mas só o fez por uma fez, em 2007, tendo terminado na 52ª posição. Porém, surge 11 anos depois mais determinado que nunca a conquistar o Inferno do Norte. Niki Terpstra - que há uma semana ganhou na Flandres e foi primeiro em Roubaix em 2014 - e Yves Lampaert são cartas a jogar, com Zdenek Stybar desejoso de conseguir uma grande vitória que lhe vai escapando ano após anos. Em cinco participações alcançou dois segundos lugares, um quinto, um sexto e o pior foi um 110º em 2016.

E depois, os nomes do costume com o tricampeão do mundo à cabeça Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) - será desta? -, Greg van Avermaet (BMC) - está uma sombra de si mesmo comparando com 2017 -, Sep Vanmarcke (EF Education-First-Drapac p/b Cannondale) - o crónico azarado -, Oliver Naesen (AG2R) - depois de uma grande temporada de clássicas em 2017, o belga não está a confirmar as expectativas - e Arnaud Démare (FDJ), que tenta ser o primeiro francês a vencer em Roubaix desde Frédéric Guesdon, em 1997, que era ciclista da FDJ.

Wout van Aert é aquele que é meio outsider, meio candidato pela fantástica temporada que está a fazer e será a última oportunidade para se mostrar ao mais alto nível, antes de "desaparecer" no calendário, da Europa Central, visto estar na Vérandas Willems-Crelan. Atenção a Edward Theuns (Sunweb). É um daqueles ciclistas que se está sempre à espera que um dia se chegue bem à frente. E porque não em Roubaix...

Jasper Stuyven tem estado em destaque pela Trek-Segafredo pela sua consistência, mas Mads Pedersen roubou as atenções com o segundo lugar na Volta a Flandres. John Degenkolb tem o dorsal um da equipa mais por respeito - e porque venceu em 2015 - do que por crença que faça algo. Está na altura do alemão se mostrar não vá a paciência começar a esgotar-se.

Alexander Kristoff (UAE Team Emirates), Dylan van Baarle (Sky), Edvald Boasson Hagen (Dimension Data), com uma das grandes curiosidades a ser o que poderá fazer Dylan Groenewegen, da Lotto-Jumbo. Na outra Lotto, a Soudal, Tiesj Benoot está a preparar as semana das Ardenas, pelo que Jens Debusschere e Jens Keukeleire deverão ser as apostas. Tony Martin aparece a liderar a Katusha-Alpecin, mas pelo que fez nas últimas duas edições (76º em ambas) e pelo que não tem feito na equipa suíça, é difícil olhar para o alemão como sequer um outsider.

Lançaram-se aqui uns nomes, mas uma das belezas destas corridas é que há tendência a aparecerem surpresas, como foi o caso de Pedersen na Flandres. Não esquecer que haverá dois portugueses: Nelson Oliveira e Nuno Bico, da Movistar. Nas duas últimas edições, Oliveira caiu e sofreu lesões que perturbaram as suas temporadas. No ano passado custou-lhe mesmo uma presença na Volta a França. E como curiosidade, Geraint Thomas (Sky) será o voltista presente, ele que admitiu que sente que é um regresso às suas origens, mas o objectivos são preparar o Tour, que tem no seu percurso alguns dos sectores de Roubaix.

O Percurso

Só aos 93,5 quilómetros surge o primeiro dos 29 sectores de pavé, mantendo-se o de Troisvilles para abrir as hostilidades. De recordar que estão classificados por estrelas, sendo os que têm uma os mais fáceis e os de cinco os mais difíceis. Estes serão três. Começa na Floresta de Arenberg, mas a confirmar-se o tempo seco, não deverá fazer muitas diferenças já que é ao quilómetro 162. Porém, servirá para deixar para trás alguns dos que vêm com poucas ou nenhumas intenções, ou então que não esteja em boas condições físicas.

No Mons-en-Pévèle (208,5 quilómetros) já não há margem para erros, muito menos no Carrefour de l'Arbre, quando estarão a faltar 17 quilómetros para o final. E mais uma razão porque está corrida é tão bela, é que um o sector de uma ou duas estrelas pode ser tão decisivo como um de quatro ou cinco. Há um ano Peter Sagan perdeu a possibilidade de disputar Roubaix, quando no duplo sector de Templeuve furou e viu a concorrência, nomeadamente Avermaet, ir irremediavelmente embora.

Sim, esta é daquelas corridas que não se desperdiçam as horas frente à televisão, para quem não tem a sorte de poder estar no local. Para trás ficam as guerras de palavras - este ano marcadas pela disputa Sagan/Boonen - e as intensas preparações para um dos grandes momentos do ano. Este domingo em Noyon, quando o pelotão estiver preparado para partir, nada do que se passou nas últimas semanas interessa, pois podem ser os 257 quilómetros da vida de um ciclista.

Antes de se terminar com a lista dos 29 sectores de pavé, algumas curiosidades: Albert Champion foi o mais novo a ganhar, tinha 20 anos em 1899; o mais velho foi o também francês Gilbert Duclos-lassalle, aos 38 anos (1993); o primeiro vencedor foi o alemão Josef Fischer (1896); a Bélgica é a nação mais vitoriosa (57), seguida pela França (30) e Itália (11); nos 54,5 quilómetros de pavé existem seis milhões de pedras; aquela que é entregue como troféu pesa uns meros 15 quilos! Mais uma: os últimos quatro vencedores estarão presentes, ou seja, Avermaet, Hayman, Degenkolb e Terpstra. De 2013 para trás, já todos se retiraram.

Sectores de pavé:

29-Troisvilles (km 93,5 - 2,2 km) ***
28-Briastre (km 100 - 3 km) ***
27-Saint-Python (km 109 - 1,5 km) ***
26-Quiévy (km 111.5 - 3,7 km) ****
25-Saint-Vaast (km 119 - 1,5 km) ***
24-Verchain-Maugré (km 130 - 1,2 km) **
23-Quérénaing (km 134.5 - 1,6 km) ***
22-Maing (km 137,5 - 2,5 km) ***
21-Monchaux-sur-Ecaillon (km 140,5 - 1,6 km) ***
20-Haveluy (km 153.5 - 2.5 km) ****
19-Trouée d'Arenberg (km 162 - 2,4 km) *****
18-Hélesmes (km 168 - 1,6 km) ***
17-Wandignies (km 174.5 - 3,7 km) ****
16-Brillon (km 182 - 2,4 km) ***
15-Sars-et-Rosières (km 185.5 - 2,4 km) ****
14-Beuvry-la-forêt (km 189 - 1,4 km) ***
13-Orchies (km 197 - 1,7 km) ***
12-Bersée (km 203 - 2,7 km) ****
11-Mons-en-Pévèle (km 208,5 - 3 km) *****
10-Avelin (km 214.5 - 0,7 km) **
9-Ennevelin (km 218 - 1.4 km) ***
8-Templeuve - L'Epinette (km 223,5 - 0,2 km) * e Templeuve - Moulin-de-Vertain (km 224 - 0,5 km) **
7-Cysoing (km 230,5 - 1,3 km) ***
6-Bourghelles (km 233 - 1,1 km) ***
5-Camphin-en-Pévèle (km 237,5 - 1,8 km) ****
4-Carrefour de l'Arbre (km 240 - 2,1 km) *****
3-Gruson (km 242,5 - 1,1 km) **
2-Hem (km 249 - 1,4 km) ***

2 de janeiro de 2018

A eterna polémica das camisolas dos campeões nacionais

(Fotografia: UAE Team Emirates)
No primeiro dia do ano as redes sociais foram bombardeadas com os ciclistas a mostrarem os novos equipamentos. Para alguns foi mesmo a primeira vez que vestiram as cores da nova equipa. E para começar bem 2018, houve logo uma polémica com Fabio Aru, ou melhor, com a camisola que a UAE Team Emirates atribuiu ao campeão italiano. O discreto desenho da bandeira de Itália, na parte de baixo da camisola, gerou uma onda de críticas. Na Astana, Aru tinha uma camisola tricolor, pelo que a mudança não foi do agrado dos tifosi. Esta é uma discussão que se arrasta ano após ano. Há equipas que dão pouco destaque a um campeão nacional, pois a maior visibilidade vai sempre para o(s) patrocinador(es), que suporta(m) a existência da estrutura.

A Movistar, por exemplo, é das formações que, apesar de nos últimos anos ter a maioria das vezes um ciclista seu campeão, coloca apenas uma pequena bandeira espanhola, que quase não se vê. A UAE Team Emirates seguiu um pouco a mesma lógica, ainda que a bandeira até seja um pouco mais visível. Porém, perante a reacção adversa, tanto Aru como o director da equipa, Giuseppe Saronni, já vieram a público garantir que a versão apresentada no dia 1 não será aquela que Aru irá vestir quando começar a competir.

"É apenas uma versão provisória. Os tifosi podem acalmar-se, as cores da bandeira italiana estarão mais visíveis. A 'verdadeira' camisola será apresentada mais adiante, num evento oficial. É elegante e bonita. Garanto", afirmou Aru à Gazzetta dello Sport. Saronni acrescentou que os "princípios básicos irão manter-se", mas a bandeira irá ser mais visível e em "toda a extensão do corpo". O director disse ainda que tanto as mangas como as meias terão também uma alusão à bandeira de Itália.

Perante as regras que se ajustam à realidade do ciclismo precisar de dar destaque a quem investe nas equipas, só algumas equipas beneficiam as cores de um campeão nacional. "Este é o mundo do ciclismo actualmente. Eu entendo os tifosi, mas há muitas exigências que têm de ser cumpridas. Não estou a dizer que as pessoas devem apenas aceitar, mas espero que compreendam", desabafou Saronni.

(Fotografia: Twitter FDJ)
E enquanto se espera pela versão "verdadeira" da camisola de campeão nacional de Fabio Aru na UAE Team Emirates, a FDJ apresentou a do holandês Ramon Sinkeldam. Na Holanda, os adeptos terão ficado bem mais satisfeitos, já que quando o ciclista ganhou os Nacionais em Junho, a Sunweb apenas colocou uma bandeira discreta no equipamento, o que originou uma polémica idêntica ao caso que envolve Aru.

A equipa francesa é a que mais destaque dá, pois a publicidade pode ser vista apenas na gola. Ou seja, é o patrocinador que tem um lugar discreto. Na FDJ considera-se que a bandeira deve ser respeitada. Claro que há a curiosidade das cores entre a França e Holanda. Se as bandeiras são diferentes porque uma tem as riscas verticais e a outra horizontais, ambas têm o azul, branco e vermelho e nos equipamentos a disposição é sempre horizontal. A francesa começa com o azul, a holandesa com o vermelho. A FDJ encara com boa disposição o facto dos equipamentos serem parecidos, como se vê na fotografia publicada no Twitter. Pelo que se pode ver na imagem, os calções poderão ser uma ajuda para esclarecer alguma dúvida momentânea sobre a ordem das cores das bandeiras! Tendo em conta que Arnaud Démare e Sinkeldam vão estar na Volta ao Algarve, é melhor ter atenção às diferenças!

Na Bélgica também se valoriza e muito um campeão nacional. Oliver Naesen veste as cores da bandeira, restando à AG2R colocar o nome. O campeão português segue o exemplo mais adoptado de uma camisola branca com as cores da bandeira e a esfera armilar e o escudo. Sobra espaço suficiente para o patrocinador ficar bem visível. De recordar que Ruben Guerreiro (Trek-Segafredo) é quem enverga a camisola de campeão nacional.

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28 de dezembro de 2017

Tony Martin e Arnaud Démare inscritos na Volta ao Algarve

Martin já não vestirá a camisola do arco-íris na próxima Volta ao Algarve,
mas procurará a terceira vitória na corrida
O arranque da época aproxima-se e os calendários dos ciclistas vão sendo definidos. Com a Volta ao Algarve preparada para arrancar em Albufeira a 14 de Fevereiro, os primeiros nomes começam a ser inscritos para a 44ª edição. Tony Martin é já uma figura habitual na Algarvia e Arnaud Démare também estará de regresso. Entre os portugueses que estão em equipas estrangeiras, quatro já estão nas listas enviadas à organização: José Gonçalves, Tiago Machado, Rafael Reis e Joaquim Silva.

Tony Martin pode não estar a atravessar o melhor momento da sua carreira, mas procura em 2018 compensar um ano de estreia na Katusha-Alpecin que ficou muito aquém do esperado. O quatro vezes campeão do mundo de contra-relógio quer estar bem neste início de temporada, pois está de olho nas clássicas da primavera. O alemão de 32 anos tem boas memórias da Volta ao Algarve, tendo vencido a corrida em 2011 e 2013. Martin tem condições para aspirar a outro triunfo, tendo em conta que o contra-relógio até tem potencial para o beneficiar. No entanto, a equipa levará outro forte candidato: Simon Spilak

José Azevedo tem como objectivo de temporada para o esloveno precisamente as corridas de uma semana, aproveitando assim as características deste ciclista que este ano ganhou a Volta a Suíça pela segunda vez na carreira. Jhonatan Restrepo é mais uma das promessas colombianas no pelotão internacional. O jovem de 23 anos quer fazer de 2018 a época da sua afirmação. As clássicas são o seu forte, mas aos poucos vai também mostrando que corridas como a Algarvia podem assentar-lhe bem, numa altura em que vai melhorando nas subidas. Robert Kiserlovski e Maurits Lammertink tanto podem ser uma boa ajuda, como podem tentar surpreender numa fuga. Os portugueses José Gonçalves e Tiago Machado completam a Katusha-Alpecin, ficando-se à espera de ver se terão liberdade, ainda mais estando a competir no seu país. Marcel Kittel, a grande contratação para 2018 e que já venceu na Algarvia, não está entre os nomes inscritos.

A FDJ traz um conjunto muito a pensar em Arnaud Démare. O sprinter campeão nacional francês é mais um ciclista que irá estar a preparar a fase das clássicas. Ignatas Konovalovas (campeão de estrada e de contra-relógio da Lituânia), David Cimolai, Jacopo Guarnieri e o reforço Antoine Duchesne (canadiano da Direct Energie) deverão estar mais no apoio a Démare, com o jovem Olivier le Gac (24 anos) a ter uma oportunidade para mostrar as suas qualidades, ainda que para a geral a aposta deverá ser o holandês - e mais um campeão nacional - Ramon Sinkeldam. O ciclista deixou a Sunweb para ter um papel de mais destaque e na Algarvia terá a possibilidade de começar a afirmar-se desde o início da temporada na FDJ.

Quanto à Caja Rural, os destaques vão inevitavelmente para os dois portugueses. Rafael Reis prepara-se para cumprir o segundo ano na estrutura espanhola do escalão Profissional Continental e irá ter ao seu lado em 2018 Joaquim Silva que, tal como Rafael, representou a W52-FC Porto. Ambos poderão ter um papel de destaque numa equipa que irá trazer ao Algarve ciclistas muito jovens. Rafael e Joaquim são mesmo os mais velhos (25 anos). Josu Zabala, Gonzalo Serrano, Mauricio Moreira, Miguel Ángel Benito e Julen Amezqueta são os eleitos.

De recordar que estas são listas de pré-inscritos e que podem sofrer alterações. A Dimension Data ainda não confirmou os seus ciclistas, mas Louis Meintjes foi o primeiro a anunciar que pretendia estar na Volta ao Algarve, de forma a preparar a estreia na Giro. Geraint Thomas (Sky) - vencedor em 2015 e 2016 - e Peter Kennaugh (Bora-Hansgrohe) também estarão presentes.

A Volta ao Algarve decorre entre 14 e 18 de Fevereiro e contará com um recorde de equipas do World Tour: 13. Veja aqui o percurso.


6 de dezembro de 2017

FDJ terá novo nome e mais dinheiro em 2018

Arnaud Démare irá continuar a ser uma das figuras da equipa francesa
É um dos patrocinadores mais antigos, com 20 anos de apoio ao ciclismo. A FDJ ou Française des Jeux, como durante muitos anos se chamou, pouco tem mudado o nome, mas em 2018 vai deixar de ser o patrocinador principal da equipa francesa. Em 2012 a BigMat juntou-se à equipa, mas como patrocínio secundário. Com a FDJ a querer apostar nos Jogos Olímpicos de 2024, que irão realizar-se em Paris, e em investir em mais desportos, o orçamento na equipa profissional de ciclismo iria começar a diminuir. Porém, com a chegada da Groupama, o director Marc Madiot terá 20 milhões de euros para gerir, em vez dos 16 previstos, e será ainda constituída uma equipa de formação. Haverá uma nova denominação a partir de Março, quando arrancar o Paris-Nice (dia 4): há que ganhar o hábito em dizer Groupama-FDJ.

"Há 20 anos começámos como uma pequena loja a tentar tornar-se numa grande empresa. O acordo entre a FDJ e a Groupana irá permitir-nos ir mais longe. É um grande impulso para a equipa", salientou Marc Madiot. O responsável considera que esta parceria será o início de "algo diferente", considerando que é necessário adaptar-se às mudanças que vão surgindo ao longo do tempo.

A Groupama é uma seguradora, tal como a AG2R La Mondiale, empresa que patrocina a outra equipa francesa do World Tour. A rivalidade irá continuar, agora entre seguradoras que querem ver o seu nome ligado ao ciclista gaulês que poderá quebrar a longa espera do país por ver um corredor seu ganhar o Tour. Desde Bernard Hinault, em 1985, que nenhum consegue e neste momento é uma batalha entre Thibaut Pinot e Romain Bardet.

Quanto ao equipamento, apesar do logótipo da Groupama ser verde, o L'Equipe escreve que as cores vão manter-se fiéis às que sempre marcaram a equipa: as da bandeira francesa, azul, branco e vermelho. O equipamento do campeão nacional, que neste momento é envergado por Arnaud Démare, irá continuar sem qualquer publicidade.

»»Um pouco (mas pouco) de Pinot e Démare a confirmar-se nas clássicas. FDJ precisa de mais e melhor««

»»Axeon Hagens Berman vai subir de escalão««

26 de novembro de 2017

Um pouco (mas pouco) de Pinot e Démare a confirmar-se nas clássicas. FDJ precisa de mais e melhor

Pinot venceu uma etapa no Giro, quase fez pódio, mas passou ao lado do Tour
(Fotografia: Giro d'Italia)
A FDJ tomou uma decisão sempre arriscada quando se fala de uma equipa francesa. Para tentar libertar Thibaut Pinot da persistente pressão de alcançar um bom resultado no Tour - e leia-se que esse é no mínimo estar na luta pelo pódio - Marc Madiot, director desportivo, e o ciclista optaram por uma mudança de calendário. A aposta principal foi a Volta a Itália. Grande parte da temporada da FDJ é feita em redor de Pinot, a outra centrada em Arnaud Démare. E o sprinter esteve em destaque. Já Pinot teve o seu momento, mas só isso.

A aposta em fazer a estreia no Giro foi intrigante, mas completamente acertada. Pinot apareceu liberto das atenções mediáticas e do assédio de ser um ciclista francês que muitos esperam poder vir a vencer o Tour. Há que recordar que um gaulês não o faz desde Bernard Hinault em 1985. Antes de chegar à Volta a Itália conquistou uma etapa na Ruta del Sol e na Volta aos Alpes. Esteve bem nas montanhas, ganhou em Asiago, na penúltima etapa, mas apesar das melhorias no contra-relógio - no Giro até era o campeão nacional em título - deixou fugir o terceiro lugar para Vincenzo Nibali (Bahrain-Merida) no esforço final. Uma desilusão para quem tinha recuperado a sua melhor versão de voltista, algo que basicamente não acontecia desde que subiu ao pódio nos Campos Elísios em 2014 (terceiro).

Desde esse resultado que Pinot tenta confirmar as expectativas. Melhorou exponencialmente a descer, mas nunca será um exímio descedor, defende-se bem melhor no contra-relógio, mas como se viu no Giro, continua a perseguir (ao longe) o nível de Chris Froome e agora de Tom Dumoulin.

Ranking: 17º (3616 pontos)
Vitórias: 27 (incluindo uma etapa no Giro e no Tour)
Ciclista com mais triunfos: Arnaud Démare (10)

Pinot foi depois ao Tour, mas sem a responsabilidade de outros anos. Em 2016 chegou à corrida com uma elevada esperança, mas, talvez por isso, a desilusão acabou por ser ainda maior. Rapidamente perdeu tempo, apontou à camisola da montanha, mas acabou por abandonar. Nesta edição, uma vitória de etapa seria bom, mas de Pinot pouco se viu. Abandonou, outra vez. Em nove grandes voltas (seis Tours), Pinot não terminou quatro, contudo, a pior classificação final foi um 16º lugar na Volta a França de 2015. Os outros lugares são sempre de top dez.

Pinot tem apenas 27 anos. Falta-lhe consistência quando tem de enfrentar a pressão do Tour. Técnica e fisicamente é um ciclista de qualidade, falta o trabalho mental e enquanto não houver esse equilíbrio a FDJ ressente-se. Pinot terminou a época com um conjunto de top dez nas clássicas de final de ano em Itália, mas é preciso mais e principalmente melhor. Em termos de popularidade e de resultados, Pinot vai perdendo para Romain Bardet (AG2R) e agora para Warren Barguil (Sunweb).

Em 27 vitórias da FDJ, 18 foram por França, o que para o patrocinador é bom, mas as grandes vitórias escasseiam. Valeu Arnaud Démare. Finalmente venceu na Volta a França, ainda que teve o azar de ser numa etapa em que se falou mais do incidente entre Peter Sagan e Mark Cavendish, do que propriamente da vitória de Démare. Mas ganhou e foi um alívio para o próprio ciclista que está a mostrar que pode mesmo ombrear com os melhores sprinters. Vestiu a camisola verde, quis lutar por ela, mas na nona etapa chegou fora do tempo limite e foi excluído do Tour. Triunfou também numa tirada no Critérium du Dauphiné.

Ainda mais importante, principalmente para a FDJ, é que Démare está a tornar-se um bom homem de clássicas. A conquista da Milano-Sanremo em 2016 não foi um acidente. Fez sexto este ano no mesmo monumento, repetiu o lugar no Paris-Roubaix e antes já o tinha feito na Kuurne-Bruxelles-Kuurne. Conquistou vitórias em corridas de categoria mais baixa e ao todo foram 10 em 2017, o que o coloca entre os mais ganhadores do ano. Custou, mas aos 26 anos Démare parece estar no ponto para outras ambições. Contudo, também ele irá começar a sentir cada vez mais a pressão de ter de ganhar o Paris-Roubaix, por exemplo.  Frédéric Guesdon foi o último francês a fazê-lo, em 1997. De realçar que Démare foi ainda campeão nacional de estrada.

A ver vamos se confirma as expectativas sobre Démare até porque em 2018 a táctica da FDJ não irá mudar muito. Pinot e Démare vão continuar a ser os responsáveis por alcançar as grandes vitórias. Porém, a FDJ contratou um dos mais recentes talentos a aparecer no ciclismo francês. Benjamin Thomas (22 anos) dá o salto da Armée de Terre para o World Tour. Mais um corredor com especial aptidão para as corridas por etapas, ainda que haverá algum espaço para trabalhar as qualidades de Thomas para certas provas de um dia.

A FDJ tem mais dois jovens a seguir: David Gaudu (21) também é um ciclista para corridas por etapas, enquanto Marc Sarreau (24) poderá ser um homem a ter em conta para as clássicas. Nas últimas competições do ano, Sarreau fez segundo no Paris-Bourges, nono no Grande Prémio d'Isbergues-Pas de Calais e o 18º lugar no Paris-Tours, tendo em conta que é uma corrida de classificação 1.HC, deixou excelente indicações para a próxima temporada. Seja no apoio a Démare, seja numa prova em que tenha mais liberdade, a FDJ pode ter aqui um ciclista que ajude à melhoria dos resultados.

11 de julho de 2017

A equipa de luxo que já não está na Volta a França

(Fotografia: ASO/Pauline Ballet)
Perante uma etapa em que nada aconteceu - sem desprimor para mais um triunfo avassalador de Marcel Kittel - e perante a perspectiva de mais um dia exactamente igual na quarta-feira, resta esperar que chegue a 12ª tirada, quando se irá voltar à montanha. Até lá podemos olhar para a lista de desistências e ver que poderíamos formar uma equipa de sonho. A Volta a França não está a ser marcadas por aquelas quedas colectivas impressionantes, mas as quedas solitárias estão a afastar ciclistas importantes de uma corrida que apesar das etapas planas bem aborrecidas, tem na luta pela geral um interesse que não tem sido comum em anos recentes. Os que já abandonaram dariam para formar uma super equipa. Alguns teriam de aceitar funções diferentes, mas vamos entrar no campo das suposições. Portanto, suponhamos que todos aceitariam o que aqui se escreveu.

Antes de mais, apenas um nota prévia: com dez etapas concluídas o Tour já viu sair 17 ciclistas, por abandono, exclusão ou chegada fora do tempo limite. Comparando com o Giro, na mesma etapa o número era oito, sendo que dois (Stefano Pirazzi e Nicola Ruffoni) nem sequer começaram a corrida devido a uma suspensão por doping, conhecida no dia antes do início da competição.

Apresentada esta curiosidade, vamos então ao nove que daria uma fantástica formação que muitos directores desportivos não se importariam de ter. De forma a criar uma equipa coesa, serão então atribuídas funções a alguns que não correspondem às que tinham de facto neste Tour, ou seja, será aqui construída uma possível táctica.

O líder para geral seria Richie Porte (32 anos). O ciclista da BMC estava numa forma invejável, provavelmente a melhor da sua carreira. Era um sério candidato a fazer frente a Chris Froome. Surgiu em França com uma equipa construída para si, algo que não tinha acontecido em 2016, quando Tejay van Garderen foi co-líder. Porte estava a corresponder às expectativas até àquela etapa nove. Teve uma queda aparatosa numa descida e partiu a clavícula e a pélvis.

Como gregários de luxo, Richie Porte teria ao seu lado na alta montanha Geraint Thomas e Rafal Majka. O britânico da Sky (31 anos) é um dos infelizes do ano. Caiu no Giro e no Tour e acabou por abandonar as duas corridas. Com Porte em tão boa forma, Thomas teria de ser o seu braço direito (de recordar que ambos já foram companheiros na Sky). Não se conseguiu perceber bem como estava Thomas fisicamente, mas seria provavelmente um homem importante. Quanto a Majka, o homem da Bora-Hansgrohe (27 anos) foi mais uma vítima da nona etapa. Acabou no domingo, mas hoje não partiu, devido aos ferimentos que até lhe dificultavam a respiração. Nesta equipa imaginária, seria um apoio decisivo para Porte, mas não é de afastar a hipótese de lhe dar uma oportunidade de integrar uma fuga e deixá-lo lutar por uma etapa, até porque há mais homens ajudar Porte.

Ion Izagirre seria mais um ciclista para a montanha. O espanhol (28), líder da Bahrain-Merida para este Tour, seria um corredor de trabalho. Talvez o primeiro a ser chamado quando o terreno inclinasse. Como caiu logo no contra-relógio é impossível dizer que estava numa grande forma. Caso estivesse melhor do que Thomas, então poderia ser ele a assumir a função de braço-direito de Porte, com o britânico a entrar mais cedo ao trabalho nas etapas de montanhas.

E claro, Alejandro Valverde. Colocá-lo apenas como gregário quase que parece desperdiçar um dos ciclistas que está em melhor forma em 2017. Um crime, mesmo! Com 14 primeiros lugares este ano, o espanhol da Movistar seria um plano B. Mesmo não sendo um voltista por excelência, com uma forma destas seria inteligente mantê-lo como candidato, ainda que também tivesse um papel de ajuda ao líder, Richie Porte. E que importância poderia ter quando chegassem as perigosas descidas dos Alpes e Pirenéus... Valverde também poderia ser aposta para ganhar determinadas etapas.

Quanto aos sprints, quando se fala em gestão de egos... Isto seria uma missão quase impossível, mas vamos tentar imaginar alguma harmonia entre estes homens. Apesar da mononucleose que afectou a sua preparação, como está tão perto do recorde de Eddy Merckx (quatro para igualar), Mark Cavendish teria a primazia, mas com um Arnaud Démare a ser a segunda hipótese, caso o britânico desse mostras que não estava em condições. O francês da FDJ (25) ganhou uma etapa, é certo, mas o currículo de Cavendish (32 anos) tem o seu peso: é uma vitória no Tour contra 30! Démare como lançador de Cavendish? Que luxo! Seria necessário mais um lançador. Após alguma indecisão entre Matteo Trentin (27 anos, Quick-Step Floors) e Mark Renshaw (34, Dimension Data), a escolha recaiu no australiano. É que em nome da tal difícil harmonia, seria um risco não ter o homem de confiança de quase toda uma carreira de Cavendish.

Para terminar, Peter Sagan. Como não é de todo boa ideia ter dois sprinters na mesma equipa a lutar pela vitória e como o eslovaco não é o chamado sprinter puro, então poder-se-ia colocar o bi-campeão do mundo a disputar etapas cujas chegadas são marcadas por rampas, ou então precedidas quilómetros antes por subidas onde Sagan consegue fazer diferenças. Ou seja, não iria aos sprints e tentar-se-ia tirar partido da explosão que este ciclista tem e da capacidade em resistir nas fugas, em solitário ou em pequenos grupos. De todos estes exemplos, dizer a Sagan que não poderia lutar nos sprints seria impensável no mundo real e mesmo no campo das suposições, a vontade é colocá-lo como o líder para as etapas, ao lado de Richie Porte que lutaria pela geral.

Caso se quisesse ter um ciclista para o contra-relógio, a escolha poderia ser para Jos van Emden (Lotto-Jumbo), mas tendo em conta a exibição de Geraint Thomas na primeira etapa do Tour, a equipa estaria bem servida, mesmo sem o vencedor do esforço individual final da Volta a Itália.

Isto tudo é no campo da imaginação. Mas se todos estivessem em forma (e se se entendessem) seria uma equipa de sonho... e certamente só nos sonhos é que existiria!

Em suma, a equipa de luxo que já não está no Tour é constituída por: Richie Porte, Geraint Thomas, Rafal Majka, Ion Izagirre, Alejandro Valverde, Mark Cavendish, Arnaud Démare, Mark Renshaw e Peter Sagan.

Em baixo fica o perfil para a etapa desta quarta-feira. Marcel Kittel vai tentar a quinta vitória e começar assim a ficar cada vez mais próximo de segurar a camisola verde que nunca pensou ser possível ganhar com Peter Sagan em prova. Sem o eslovaco, o alemão tem outra motivação, ainda que diga que o objectivo é ganhar etapas. Mas uma coisa pode muito bem resultar na outra.



Veja aqui o resultado da 10ª etapa e as classificações do Tour.

A tirada desta terça-feira não teve pontos de interesse até àquele final demolidor de Marcel Kittel. O sprinter da Quick-Step Floors recuperou a sua melhor versão e só isso faz valer a pena esperar mais de 200 quilómetros para ver uns metros de emoção.

De destacar ainda que Nacer Bouhanni foi penalizado em um minuto depois de imagens terem captado o sprinter da Cofidis a empurrar um ciclista da Quick-Step Floors. O incidente não resultou em queda, ainda que a atitude tenha sido perigosa. Ainda assim, valeu uma sanção bem mais simpática do que a aplicada a Peter Sagan.


Résumé - Étape 10 - Tour de France 2017 por tourdefrance


»»Majka é mais uma vítima de uma etapa que teve tanto de espectacular como de dramática««

»»Descidas fizeram diferenças demasiado duras e tristes««

4 de julho de 2017

Para quê o cotovelo? Sagan foi expulso da Volta a França

(Imagem: Print screen)
Mark Cavendish não é nenhum santo. Entre cabeçadas e empurrões, o britânico já foi responsável por alguns sprints perigosos e que colocaram em risco a integridade física de outros ciclistas. Desta vez, Cavendish esteve do outro lado destes incidentes. Quando tentava ultrapassar Peter Sagan pela direita, junto às barreiras, o eslovaco deu-lhe um "chega para lá" com o cotovelo, provocando a queda do corredor da Dimension Data. E que queda feia! Cavendish foi desamparado contra as barreiras e ao cair ainda teve John Degenkolb a passar-lhe por cima da cabeça (alguém ainda dúvida que o capacete só traz benefícios?) e Ben Swift também não conseguiu evitar o choque, tendo também caído.

As explicações não fazem jus ao que aconteceu. As imagens mostram claramente o acto irresponsável do bi-campeão do mundo. Foi um sprint no qual quase todos fizeram algo irregular, no que diz respeito às mudanças de direcção. Cavendish tentou passar pelo buraco da agulha. Se Sagan não tem levantado o cotovelo, ambos ter-se-iam provavelmente tocado e fosse qual fosse o resultado desse contacto, tal seria considerado quase de certeza um incidente de corrida. Mas Sagan levantou o cotovelo e se lhe só lhe ficou bem ter ido directamente para junto do autocarro da Dimension Data para saber como estava Cavendish, o eslovaco sabia bem que dificilmente escaparia a uma sanção. A personalidade de Sagan é bem conhecida e a preocupação terá sido genuína, mas este será um acto que deixará uma mancha numa grande carreira que certamente irá ainda contar com actos bem mais louváveis.

Pode ver o que aconteceu no vídeo em baixo que começa segundos antes do incidente (texto continua em baixo).


Flamme rouge - Étape 4 / Stage 4 - Tour de... por tourdefrance

Inicialmente o ciclista da Bora-Hansgrohe foi penalizado com 30 segundos e 95 pontos na classificação pela camisola verde. A Dimension Data não concordou e protestou. Pouco depois, Philippe Marien, presidente do colégio de comissários, anunciou a decisão mais radical: "Decidimos desqualificar o Peter Sagan da Volta a França 2017 depois do sprint tumultuoso, aqui em Vittel. Ele colocou em perigo vários ciclistas. O Mark Cavendish e outros ficaram implicados na queda nos metros finais do sprint."

Apesar de ter ficado no chão após a queda e ter sido necessário a equipa médica ajudar no local o ciclista, Cavendish acabou por cortar a meta e antes de ir para a ambulância ainda falou com os jornalistas. "Eu dou-me bem com o Peter e uma queda é uma queda, mas gostava de saber sobre aquele cotovelo", afirmou o britânico. Logo após o final da etapa, Sagan referiu que não viu Cavendish a tentar passá-lo pela direita, considerando que tinha sido um incidente de corrida. A Bora-Hansgrohe contestou a decisão dos comissários.

As regras prevêem que um ciclista seja expulso apenas à terceira ofensa a não ser que seja considerado que tenha tido um comportamento perigoso. Foi o que os comissários acharam ter acontecido. Sagan foi ainda multado em 200 francos suíços (cerca de 183 euros).

Por volta da meia-noite a Dimension Data confirmou a pior das expectativas: Cavendish está fora do Tour devido a uma fractura na omoplata. Não terá de ser operado, mas está fora de questão continuar na corrida. O britânico esteve muito tempo afastado das corridas devido a uma mononucleose. Optou por ir à Volta a França apesar de não estar na melhor forma. O sprinter disse que se estivesse em casa então não teria mesmo hipótese de tentar ganhar uma etapa. Não se aproximou ainda mais do recorde de Eddy Merckx (está a quatro triunfos de igualar o belga) e está mesmo a ser uma temporada para esquecer.

De recordar que também na Volta a Itália um ciclista foi expulso. Javier Moreno (Bahrain-Merida) foi mandado para casa depois de ter empurrado Diego Rosa (Sky), curiosamente também durante a quarta etapa. Mas na Volta à França também já não é novidade. Em 2010, por exemplo, o lançador de Cavendish, Mark Renshaw, foi mandado embora depois de cabeceado outro ciclista durante a preparação de um sprint. Mais insólito foi o caso de Jeroen Blijlevens. Chegou mesmo a acabar a corrida nos Campos Elísios, mas os seus resultados foram eliminados depois de uma "troca de mimos" com Bobby Julich, que teve de ser interrompida pelos comissários.

E tudo muda...

Ainda há um dia aqui se escreveu como Peter Sagan parecia ter maior concorrência na luta pela camisola verde. Um cotovelo depois e o eslovaco perde a oportunidade de igualar o recorde de Erik Zabel, conquistando pela sexta vez consecutiva a classificação dos pontos. Sagan venceu a terceira etapa do Tour e até foi segundo na quarta, antes de ser desqualificado, o que faz com que o último resultado já não conte para o currículo.

O incidente com Cavendish acabou por passar para segundo plano uma vitória marcante para Arnaud Démare e para a França. O campeão nacional conquistou finalmente um triunfo no Tour e vestiu também a camisola verde. Desde 2006 que um francês não ganhava uma etapa ao sprint. A última tinha sido por intermédio de Jimmy Casper. 

"É uma vitória extraordinária, maravilhosa. Sonhava em ganhar uma etapa na Volta a França desde que me tornei profissional", afirmou Arnaud Démare. Aos 25 anos, o sprinter da FDJ soma a segunda grande vitória na carreira, depois de em 2016 ter conquistado a Milano-Sanremo.

Antes da queda que gerou toda a confusão em redor de Sagan e Cavendish, uma outra, metros antes voltou a assustar a Sky. Na segunda etapa foi Chris Froome um dos afectados, desta vez foi Geraint Thomas. O líder do Tour terminou a tirada e garantiu que está tudo bem com ele, estando pronto para enfrentar a primeira chegada em alto da corrida.

Veja aqui a classificação da quarta etapa.

O primeiro teste


Etapa curta e a pedir ataques. Depois das maratonas de 200 quilómetros dos dias anteriores, serão "apenas" 160,5 entre Vittel e La Planche des Belles Filles. Grande parte da etapa será plana, mas a cerca de 60 quilómetros do fim irá começar a verdadeira acção. Haverá uma terceira categoria para aquecer um pouco o pelotão, que terá nos últimos 5,9 quilómetros uma subida que poderá ser aproveitada para alguns homens da geral tentar recuperar o tempo perdido no contra-relógio.


De recordar que Chris Froome tem mais de 30 segundos sobre os principais adversários e é precisamente nele que se centrarão parte das atenções. O britânico da Sky teve uma época tão estranhamente discreta que há um enorme desejo em perceber como está o ciclista. Não deverá haver grandes decisões na quinta etapa, mas espera-se alguns testes.

A derradeira subida tem uma pendente média de 8,5%, mas maioria está a acima dos 10%, com a zona da meta a ser a mais difícil com 20%.

(Texto actualizado às 01:20 com a confirmação que Cavendish está fora da Volta a França e com o protesto da Bora-Hansgrohe.)


Résumé - Étape 4 - Tour de France 2017 por tourdefrance

16 de março de 2017

Razões para ver a Milano-Sanremo: uma lista de inscritos fantástica, a Cipressa e o Poggio

Arnaud Démare conquistou a grande vitória da sua carreira,
até ao momento, na Milano-Sanremo de 2016
(Fotografia: Facebook da corrida)
São 291 quilómetros de um percurso que parece não ter grandes dificuldades. Mas estamos a falar de um monumento do ciclismo e para ter este estatuto não poderia parecer uma daquelas etapas em que o pelotão tenta recuperar forças para outras mais complicadas, esperando pelo sprint para decidir a vitória. O encanto da Milano-Sanremo, além de ter mais cem quilómetros que o referido tipo de tiradas, está na forma como as equipas preparam o momento da discussão da vitória e como os candidatos e aqueles que pretendem intrometer-se entre os favoritos, ultrapassam duas subidas que podem não ser nenhuma dor de cabeça para os trepadores, mas que ao fim de tantos quilómetros e tendo em conta que em prova estão ciclistas que preferem terrenos mais planos, a Cipressa e o Poggio oferecem um espectáculo muito próprio da Milano-Sanremo e que todos os anos torna esta corrida numa das mais interessantes e entusiasmantes.

Há uns anos, a organização tentou alterar um pouco a essência deste monumento, acrescentando mais umas subidas, mas há tradições que são mesmo para se manter e nas últimas edições, o percurso voltou ao formato mais conhecido desde a década de 80. Mas porque razão esperaramos até ao quilómetro 264 - quando começa a Cipressa - a ver atentamente a corrida, mesmo com um terreno sem grandes dificuldades? Simples. Quando se olha para a lista de inscritos vê-se que lá estão praticamente todos os grandes nomes do sprint e outros ciclistas que adoram clássicas e todos ajudados por alguns dos melhores homens que se poderia pedir para uma corrida tão especial.

Começamos, contudo, com duas grandes ausências. André Greipel não estará na "Clássica da Primavera", como é conhecida a Milano-Sanremo. O sprinter da Lotto Soudal já tinha deixado a hipótese no ar durante o Paris-Nice e acabou por se confirmar, segundo a lista de inscritos que foi divulgada. Já em 2016 o alemão preferiu apontar a outros objectivos. Greipel explica que a Cipressa e o Poggio acabam por reduzir as possibilidades de estar na luta pela vitória, pois diz ser demasiado pesado para conseguir fazer bem essas subidas. Esta fase da temporada é mais a pensar em estar bem na Volta a Itália. O mesmo deverá acontecer com Marcel Kittel. Numa equipa com tantas opções para uma corrida como o monumento italiano, o sprinter ficou de fora, com Tom Boonen a liderar a formação belga, que terá ainda Fernando Gaviria como candidato e é melhor nunca deixar de fora Julian Alaphilippe. Um ataque numa das subidas e nunca se sabe o que este francês pode alcançar. De recordar que Boonen está nas últimas semanas da sua carreira - o fim será a 9 de Abril, no Paris-Roubaix - e o belga tem ilusões em conquistar a Milano-Sanremo e assim inscrever o seu nome num terceiro monumento, para juntar à Volta a Flandres e Paris-Roubaix. Missão complicada, ainda mais quando o belga não teve um início auspicioso nesta fase das clássicas. Boonen esteve duas vezes no pódio (um segundo e um terceiro lugar, em 2010 e 2007, respectivamente).

Inevitavelmente, Peter Sagan (Bora-Hansgrohe) está no topo da lista dos favoritos. Já é tão normal que o próprio admite que está habituado que digam isso. Não é a sua corrida de eleição, prefere as clássicas do pavé, tendo como melhor resultado um segundo lugar no temporal de 2013. Nesse ano, a Milano-Sanremo ficou marcada pelo mau tempo. Muito mau. Frio e chuva provocaram muitas desistências, quilómetros anulados e um vencedor surpresa: Gerald Ciolek. Presentes e também como fortes candidatos estão os últimos três vencedores: Arnaud Démare (FDJ), John Degenkolb (Trek-Segafredo) e Alexander Kristoff (Katusha-Alpecin). Todos eles realizaram um interessante arranque de época. Degenkolb e Kristoff ambicionam regressar às grandes vitórias, depois de um 2016 apagado, por diferentes razões. O alemão foi atropelado ainda na pré-época e não conseguiu encontrar a sua melhor forma quando regressou, enquanto o norueguês passou ao lado dos grandes momentos, constantemente batido nos sprints frente aos melhores.

Mark Cavendish (Dimension Data) é outro dos vencedores presentes. É preciso recuar a 2009 para recordar a vitória do britânico na Milano-Sanremo. A Cipressa e o Poggio tem uma tendência a "estragar" a prova de Cavendish. Porém, depois de em 2016 o sprinter ter regressado à ribalta, apesar de um início de temporada de 2017 aquém do esperado, o "míssil de Man" aproveitou ter estado no Tirreno-Adriático para ir treinar no Poggio, deixando indicações que quer juntar mais uma conquista no único monumento que assenta às suas características.

O vencedor mais antigo em prova será Filippo Pozzato. O italiano de 35 anos vive uma fase mais calma da carreira desde que optou por assinar pela Wilier Triestina em 2016. Foi em 2006 que alcançou uma das vitórias mais importantes da sua carreira. O italiano conta ainda com um Tirreno-Adriatico e duas etapas da Volta a França, mas há muito que Pozzato está longe das grandes conquistas. O próprio sabe que acaba por ser falado nesta altura por ser o vencedor mais antigo da Milano-Sanremo ainda em actividade e apontou como principais candidatos Degenkolb, Gaviria e Sagan.

Simon Gerrans venceu em 2012, mas aos 36 anos assume cada vez mais um papel de homem de trabalho e certamente de "orientador" do jovem Caleb Ewan. O pequeno australiano está a confirmar todo o seu talento e em Abu Dhabi conquistou o seu primeiro triunfo perante os grandes nomes do sprint. Ewan até tem capacidade para fazer frente a algumas dificuldades nos percursos, mas ainda assim é uma incógnita para a Milano-Sanremo. A experiência faz muitas vezes a diferença em corridas como esta. Com apenas 22 anos, ainda tem muito a aprender, mas Gerrans poderá, por isso mesmo, ter um papel importante, tanto para ajudar o seu colega da Orica-Scott, ou em tentar aproveitar uma oportunidade que possa surgir para ele.

Para completar este lote de luxo de candidatos, temos Nacer Bouhanni. O francês finalmente venceu em 2017 na quarta-feira, quando deixou literalmente para trás todo o pelotão, num sprint que acabou por ser só ele a ter uma velocidade assustadora. É certo que na Nokere Koerse não estavam os adversários que vai ter na Milano-Sanremo, mas também é certo que o ciclista da Cofidis pode bater qualquer grande nome, pois ele também o é, só tem uma personalidade que lhe tem provocado alguns dissabores. Porém, há um ano, o dissabor foi uma corrente lhe ter saltado quando se preparava para iniciar o sprint na Milano-Sanremo, que acabou por ser ganha pelo seu grande rival francês.

E numa segunda linha de candidatos temos Greg van Avermaet a liderar. O belga da BMC só não é colocado no grupo principal porque não é um sprinter puro. No entanto, perante a forma espectacular que atravessa, cuidado com ele, até porque consegue bater-se com os melhores. Que o diga Peter Sagan! Segue-se Sonny Colbrelli. O sprinter italiano está a fazer a estreia no World Tour pela Bahrain-Merida e conquistou o seu primeiro triunfo a este nível no Paris-Nice. Talento não lhe falta, tal como vontade de se mostrar frente aos melhores. Juan José Lobato quer iniciar na Lotto-Jumbo uma espécie de segunda vida no ciclismo, enquanto Sacha Modolo tentará a todo o custo comprovar que é um sprinter que pode bater-se com os melhores. Porém, fica a dúvida: a UAE Team Emirates vai apostar no italiano, ou será Ben Swift o preferido? Provavelmente os dois poderão estar na discussão, decidindo-se mais perto no final quem estará em melhores condições, dependendo do que acontecer durante a corrida. Ainda assim, Swift até estará em vantagem. Foi segundo em 2016, foi a principal contratação da equipa do Médio Oriente e tem a Milano-Sanremo como um dos objectivos do ano, além da luta por etapas na Volta a França. O espaço de Modolo na equipa poderá a estar a reduzir drasticamente se não apresentar rapidamente resultados.

Em posição idêntica está outro italiano. Elia Viviani procura uma boa vitória para não perder a confiança da Sky. É que Danny van Poppel está cada vez mais a comprovar as expectativas que recaem nele e o holandês de 23 anos também estará na Milano-Sanremo. A Sky leva uma equipa bastante forte. Viviani pode contar com apoio e os responsáveis da equipa podem contar com mais opções se o italiano falhar. Além de Van Poppel, a Sky leva Luke Rowe e o próprio Ian Stannard também é hipótese, caso resolva apostar num ataque numa das subidas perto do final.

Numa terceira linha de candidatos temos outro homem da Sky. Michal Kwiatkowski está num bom momento e também poderá tentar aproveitar a Cipressa ou o Poggio para deixar para trás os sprinters. Junta-se o já referido Julian Alaphilippe, Tom Dumoulin (Sunweb) e Diego Ulissi, mais um ciclista que poderá ser aposta da UAE Team Emirates, se optar por uma ataque numa das subidas.

Mais nomes podem ser referidos. Michael Matthews (Sunweb) não está a conseguir alcançar o sucesso na sua nova equipa que teve na Orica-Scott, mas é outro ciclista a ter em atenção. Jakub Mareczko (Willier Trestina), Fabio Felline e Jasper Stuyven (ambos da Trek-Segafredo), Philippe Gilbert (Quick-Step Floors), Jos van Emden (Lotto-Jumbo), Sam Bennet (Bora-Hansgrohe) ou Tim Wellens (Lotto Soudal) são todos ciclistas que podem procurar fazer uma surpresa.

Quanto a portugueses, as atenções estarão exclusivamente centradas em Nuno Bico. O ciclista da Movistar vai tendo as suas oportunidades na equipa espanhola, no seu primeiro ano no World Tour. A presença na Milano-Sanremo, um monumento do ciclismo (é preciso não esquecer), dará certamente mais uma grande dose de motivação ao jovem de 22 anos.

Porque razão é que uma corrida relativamente plana pode ter tanto interesse? A tensão, o nervosismo, a velocidade, a ambição de tantos ciclistas... Serão quase 300 quilómetros em que um erro, um azar, uma má decisão pode arruinar um objectivo. Com tantos dos melhores ciclistas mundiais presentes, são razões mais do que suficiente para se assistir a este monumento no sábado.



Como curiosidade, a Cipressa tem 5,6 quilómetros com 4,1% de pendente média, 9% de máxima. No Poggio serão 3,7 quilómetros e uma pendente média de menos de 4%. Quando esta subida acabar, serão apenas 5,4 quilómetros até à meta, num final habitualmente louco.

Veja aqui a lista de inscritos completa.

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